Parte I – I Love Playing With Fire (The Runaways)
"Não sei se quero ir. Você tem certeza de que precisamos ir?", Kurt me perguntou pela terceira vez durante o almoço. Ele não mudou em nada desde os cinco anos, a não ser o tamanho. Mas seu cabelo, por exemplo, estava igual depois de quatro anos; ele parecia um nerd, mas eu e Quinn sabíamos que ele o mantinha assim por gostar demais da estética. Era por isso, também, que suas roupas eram impecáveis.
E, acima de tudo, Kurt ainda não apreciava os esportes; até mesmo tinha largado a aula de ballet, mas por motivos pessoais (segundo ele, não precisava mais dessas aulas para "se incluir" em algum espaço, uma vez que nossa amizade perpetuou). Ele dizia que preferia ter cérebro a músculos. Concordava com ele, às vezes.
"Preciso que vocês estejam lá", respondi sendo taxativa. Eu já tinha dito a ele, especialmente, que gostaria do apoio deles e o ceticismo de Kurt, muitas vezes, me irritava. Quer dizer, quem é que tinha levado raspadinhas por tê-lo defendido dos meninos mais idiotas do time de futebol, na semana anterior? Oh, sim. Eu! Por que ele fazia questão de se esquecer do meu gratuito apoio todos os dias? "Por favor, Kurt", implorei, oferecendo meu melhor sorriso implorador. Ele revirou os olhos. Voltei-me para Quinn, que estava calada. "Você vai, não é?". Ela deu de ombros, mas eu sabia que aquilo era um código para 'e eu tenho escolha?'. E é claro que ela não tinha.
"Seus pais estão sabendo desse seu novo interesse?", Kurt quis saber. É claro que ele tinha que apelar para as meus pais; ele sabia que, embora eles fossem bastante permissivos, encarariam essa minha nova vontade de um modo um pouco cética. Afinal, eu era alguém ligada às artes; por que diabos eu iria querer assistir a um jogo estúpido de futebol?
O motivo tinha nome e sobrenome, mas não pretendia revelar a ninguém. Primeiro, eu tinha apenas nove anos. Segundo, eu estava vivendo a partir de uma ilusão. Terceiro, meus pais poderiam ficar piores do que cães de caça. E quarto, não queria arriscar meu segredo – não que eu não confiasse em Kurt e Quinn; mas será mesmo que eles manteriam suas bocas fechadas depois de todos os pulinhos que dariam? Não, não as manteriam. Conhecia-os muito bem.
"Às vezes eles assistem a reprises de jogos na TV", respondi, fugindo da pergunta central. Claro que aquilo era uma mentira; meus pais não perdiam tempo com TV, a menos que fosse para assistir ao programa da Ellen DeGeneres. "Verdade? Pois eu nunca percebi isso", Kurt disse, usando o seu tom incrédulo. "Eles não fazem isso o tempo todo, é apenas de vez em quando".
"Para qual time eles torcem?", Kurt perguntou. Ele estava duvidando de mim! Ai, meu Deus! Adeus plano quase perfeito de assistir ao primeiro jogo de futebol ao vivo da minha vida! Droga, droga, droga! Por que apenas não o mandei calar a boca? "E eu que vou saber? Não me importo com essas coisas!", foi a resposta desesperada que consegui formular.
"Se é assim, por quê...", ele tentou investir novamente. Cara, o Kurt era incansável. Detestava isso nele, apesar de amá-lo como um irmão que sabia sobre passarelas e produtos capilares mais do que a Quinn. "Tanto faz!", praticamente berrei, em pânico. "Eu apenas queria fazer algo diferente, pra variar. Quantas vezes nós saímos do meu quarto nas sextas-feiras à noite para enfrentar o mundo?".
"Isso não é bem enfrentar o mundo, isso é encarar a morte de frente", ele retrucou. "Pense bem, vão rir da nossa cara. Nós somos os esquisitos, não vão acreditar quando perceber que nós, meros mortais cabeções, estamos tentando nos infiltrar no mundo suado deles", continuou. "Eu e você, não", concordei, mas então maneei minha cabeça para Quinn, que permanecia apática. "Mas é por isso que a nossa Quinn aqui vai dar o seu total apoio a mim. A nós, quero dizer", finalizei sorrindo para minha melhor amiga, encorajando-a a concordar com minhas palavras.
"Se eu tenho mesmo que ir...", Quinn suspirou dramaticamente. "Tem, sim! Alô, você é amiga deles", insisti. "Não é verdade. Eu apenas fiz par com o Noah por causa do projeto de ciências. Isso não significa que seja amiga dele", Quinn retaliou com um pouco de indignação. "Tudo bem, o suficiente para você saber que ele te conhece", eu disse. "Ele não me conhece, deixou que eu fizesse o projeto todo sozinha", Quinn estava ficando notoriamente irritada. "E vocês ganharam uma boa nota, não foi?", perguntei. "Eu deveria ter ganhado aquela nota sozinha! Foi meu esforço!", ela retorquiu, cruzando os braços e fazendo seus cabelos lisos se balançarem. "Ok, isso serviu de algo. Você vai dizer a ele para que não joguem bebidas ou molhos em nós enquanto estivermos na torcida", comandei focada na raiz do problema; ser humilhado em público era o grande problema. Eu não queria, como Kurt bem colocou, encarar a morte de frente. No meio de todo mundo, além do mais. "Tenho certeza de que ninguém fará isso na frente dos professores", ela disse.
"Mas em todo caso, você diz. Ok?".
"Por que precisamos ir a este jogo? Por que não podemos rever os filmes de Star Wars, ou algo assim?", Quinn perguntou, parecendo muito intolerante.
"Eu já disse, quero fazer algo diferente".
"E esse 'algo diferente' tinha mesmo que envolver um evento esportivo bem aqui?", Kurt me lançou um olhar feio. Ele, mais do que eu, odiava estar na escola. Não porque achava que escola era perda de tempo, mas porque não sabia ao certo o seu lugar ali, além de alguns meninos do time de futebol infernizá-lo constantemente. "Nós nunca assistimos a um jogo deles. Dave valer a pena".
"Ah, deve", Kurt disse com sarcasmo, "Vamos ficar vendo um monte de trogloditas correrem atrás de uma bola e arremessá-la, ou saltarem por cima uns dos outros até conseguirem quebrar a costela de alguém. É, vale muito a pena, estou doido para que sexta-feira chegue".
"Eles usam proteção", Quinn esclareceu. Isso não surtiu nenhum tipo de reação em mim ou em Kurt, porque nem eu nem ele nos importávamos com as coisas aleatórias que Quinn, estranhamente, sabia.
"Obrigada pela sua falta de apoio", fulminei Kurt, agora mais do que irritada; estava ficando decididamente com raiva. "A Quinn vai, não vai, Quinn?", olhei para ela, tentando lançar a ela o meu olhar mais persuasivo.
"Estou sendo intimada, então, sim, eu vou", Quinn concordou com a voz entediada e mirou os olhos para o teto. É, alguma coisa esquisita estava acontecendo com ela, mas não me restava tempo para sondar seu problema. Eu precisava me atear ao que realmente importava: a razão de eu ter perdido completamente a minha noção de perigo.
"Você me deve uma", Kurt me disse, parecendo muito irritado.
Ai, caramba. Qual era o problema dele? Será que ele não poderia encarar aquilo como uma lição de vida? Estávamos arriscando tudo para estarmos ali; o mínimo que ele poderia fazer era lidar com a situação como se estivéssemos em uma savana! Savanas são legais, não são?
"Tanto faz. Venha, achei um bom lugar", falei, empurrando-o na minha frente para que prestasse atenção nos seus pés e não em mim.
Quinn estava certa: estávamos seguros. Havia alguns professores, o diretor (que ninguém sabia ao certo o porquê ele estava ali, já que ele fingia que esse tipo de evento não existia em sua agenda) e muitos pais para assistirem a seus filhos.
É, admito; era uma missão assustadora – especialmente levando em conta que eu tinha mentido aos meus pais, levado outra roupa na mochila para me trocar no banheiro e ainda nem tinha visto o meu motivo para estar ali. Afinal, onde ele estava? Vi alguns jogares com suas famílias, mas não ele. E eu não tinha a mínima ideia de como era sua família. Ficava feliz por não estarmos acompanhados por algum dos nossos pais. Claro que os meus se disponibilizaram a irem, mas eu logo vetei a possibilidade, alegando que queríamos nos divertir e não o faríamos com eles ao nosso lado, berrando que deveríamos pedir mais uma rodada de cachorro-quente, ou que não suportavam mais assistir àquilo. Pessoalmente, eu sabia que me entediaria nos quinze primeiros minutos, mas saber que eu tinha uma motivação me deixava um pouco mais satisfeita.
"Isso não tem a nossa cara", Kurt reclamou de novo.
"Então é perfeito", eu disse. "Quinn, o que você tem?", perguntei, ao olhar para ela. Quinn parecia mais nervosa do que eu, e não parava de alisar seu cabelo já muito liso. Ela também tinha aceitado mudar suas roupas, mas eu não tinha entendido por quê. "Nada! Para de ficar me encarando!", ela me respondeu, bufando. "Nossa, foi só uma pergunta...", dei de ombros. Mas a verdade é que me distraí bem nessa hora, porque a plateia começou a se agitar; os jogadores estavam se organizando no campo e recebendo ordens específicas do treinador. Meus olhos ágeis percorreram o aglomerado para localizar Finn. Com os uniformes iguais, a tarefa se tornava irritantemente quase impossível.
Quando enfim eu o achei, meu coração deu aquele pulo típico que eu sentia há algum tempo. Sentia vontade de me levantar e ficar dando pulinhos na arquibancada, mas aquilo seria taxado como suicídio por Kurt e Quinn. As líderes de torcida mais velhas estavam nas laterais no campo fazendo suas dancinhas e chacoalhando seus pompons vermelhos. Alguém, uma mulher, berrou perto de nós; logo vi Finn se ajeitar e acenar. Rapidamente, entendi que a mulher de cabelos castanhos e parecendo muito mais animado que o restante de nós era a mãe dele. Ela parecia estar sozinha, com um monte de saquinhos com diversas comidas ao redor. Levantei minha mão e acenei também. Finn fingiu não ter notado meu gesto e meramente arrumou o capacete sobre a cabeça.
"Você acabou de acenar? Para quem você acenou?", Kurt me cutucou, horrorizado. "Eu não acenei coisa alguma! Eu apenas...".
"Você acenou, sim!", ele insistiu. "É, você acenou", Quinn confirmou. "Você acha que eu deveria acenar para o Noah também?", seu tom de voz sugeria que ela estava preocupada; alisou melhor sua saia verde e passou os dedos mais uma vez pelo cabelo. "Não que eu me importe, é claro...", ela logo adicionou, no entanto não havia nenhuma certeza em evidência. "Vocês estão muito esquisitas. Poderia jurar que vocês estão ap...", Kurt começou a dizer, mas eu aproveitei que todos da arquibancada tinham se levantado berrando para receber as primeiras palavras entediadas do nosso diretor e acertei as costelas dele com muita força. "Ai!", Kurt berrou. "Ops, desculpe!", gritei sem sentir remorso.
Eu não entendia nenhuma regra, mas não me importei. Não me importava com as regras ou com o jogo. Meus olhos apenas registravam Finn indo e vindo pelo campo; e ele era realmente muito bom naquilo, considerando todos os "É isso aí!" que o treinador berrava a ele constantemente. Eu estava me sentindo num clipe da Taylor Swift; idiota demais para ser verdade, mas incrível demais para não ser verdade.
No intervalo, Kurt me obrigou a comprar mais Coca-Cola e batata frita, talvez para me punir por tudo aquilo. Era visível o quanto ele estava detestando estar ali. Ao menos, todos estavam dando atenção ao jogo e não estavam dizendo frases horríveis a ele. Era uma coisa boa, certo? Ele deveria pensar pelo lado positivo. Nenhum de nós ainda tinha sido atacado verbal ou fisicamente. E pelo jeito nem seríamos.
Assim que tudo recomeçou, tentei fazer o possível para não evidenciar o quanto, na verdade, estava apreciando o jogo. O time da escola estava perdendo por alguns mínimos pontos, mas isso não impossibilitava que a plateia estivesse animada. Os berros familiares ficaram quase que insuportáveis à medida que o final da partida se aproximava. "Droga, se não fizermos mais três pontos, estamos fora das seletivas", Quinn comentou, apertando as mãos desnecessariamente com muita força. "E agora? Não vai ter mais nenhum jogo?", perguntei. Droga, então quer dizer que essa era a minha primeira e última vez que veria Finn jogar durante o ano letivo? Que grande sorte a minha! "Se não houver classificação, acho que não. Mas se sim, os futuros jogos ocorrerão fora de casa".
"Como você sabe sobre isso?", Kurt quis saber. "Acho que está no quadro geral", Quinn disse, sem olhar para ninguém. "Desde quando você lê o quadro geral?", inquiri. Nem mesmo eu o lia – normalmente, as notícias eram mais esportivas do que acadêmicas, então eu sempre o ignorava. "É impossível não ler, passamos na frente dele todos os dias!", Quinn explicou, me lançando um olhar impaciente. "Eu nunca leio", Kurt disse com cara de nojo. É claro não que não o lia. Nada que havia no McKinley era capaz de chamar a atenção dele.
Olhei para o placar e para a contagem regressiva: cinco minutos.
Em cinco minutos podemos cantar e dançar a nossa canção preferida. Em cinco minutos podemos perder o ônibus escolar. Em cinco minutos podemos ter o melhor momento da nossa vida. Em cinco minutos, também, quaisquer chances de eu ter mais motivos para visitar o campo de futebol poderiam estar arruinadas. Vamos lá, cinco minutos, faça a sua mágica extraordinária!
"É isso, adeus vitória", Kurt salientou, olhando precariamente para a movimentação incansável; seu interesse era tão nulo que, se eu lhe indagasse sobre qual era o animal mascote do time (também estampado nas partes posteriores das camisetas dos jogadores), ele não saberia responder. "Não seja pessimista!", exclamei, atenta. Não conseguia evitar roer uma das minhas unhas, por mais que meus pais já tivessem me alertado sobre as intermináveis doenças que eu poderia contrair por conta deste meu vício. "Não entendo qual é a dificuldade dessa gente, sério", Quinn reclamou, parecendo tão aflita quanto eu. "Sou capaz de dar mais de dez voltas durante a Educação Física antes de me cansar, e esses abobados não conseguem nem mesmo bloquear um cara!".
"Vou ter que fechar meus olhos", reclamei. "Não quero assistir a todos vaiando o nosso time". Embora eu quisesse mesmo fazê-lo, preferi manter os olhos bem abertos; e se vencêssemos de maneira milagrosa? Com certeza perderia a chance de acompanhar todos os movimentos de Finn. E o meu intuito era não perder nem mesmo uma respiração dele. "Pode não assistir, mas vai ouvir", Kurt disse. "Qual é a pontuação que precisam fazer?".
"Três pontos. Com um field goal eles conseguem os três, mas se for um touchdown é melhor ainda, pois valem seis pontos. Ele estão no quarto down, então resta tentar fazer um field goal", Quinn, surpreendentemente, explicou com muita destreza. "Mas se o touchdown vale mais por quê...?", comecei a perguntar, confusa. Eu precisava aprender urgentemente sobre tudo deste jogo! Era meio desesperador ter de esperar alguém se disponibilizar a esclarecer minhas dúvidas. "A bola não está na zona de finalização, é preciso que algum dos nossos jogadores esteja com a posse dela nesta área específica", ela prontamente explicou de novo. "Como é que...? Ah, deixa para lá. Cansei de tentar entender vocês", Kurt desistiu de fazer sua óbvia pergunta e meramente ficou olhando para o campo.
O nervosismo se intensificou depois que percebi que já haviam passado três minutos desde a última vez que conferira a hora. Restavam apenas um pouco mais de um minuto para o final da partida. Vamos lá, vamos lá, pensava.
Quando menos esperava, houve um estampido geral: mães e pais estavam enlouquecidos, juntamente com os espectadores escolares e o corpo docente. Nosso diretor, no entanto, parecia estar meio que dormindo em sua cadeira estofada. "O quê? O que aconteceu?", berrei para Quinn. Ela me respondeu, pulando tão doida quanto os parentes dos jogares: "Nós ganhamos! Fizemos um field goal faltando quinze segundos! Não terá prorrogação!".
"Inacreditável! Isso é quase um milagre!", Kurt comentou alto, balançando a cabeça castanha de um lado para outro como se estivesse muito desiludido. "Nós vencemos? Então nos classificamos na liga júnior?", eu quis saber entre os berros constantes de todos ao nosso redor. "Agora eles irão para as seletivas, em LA", Quinn disse. "Não me diga que isso estava no quadro geral também", Kurt zombou. "Ah, cala a boca", ela retrucou, mas não pude deixar de notar que seu rosto tinha enrubescido visivelmente. "Vem, vamos descer", ela nos chamou.
"Enfim a tortura terminou. Por favor, diga que passaremos o restante da noite assistindo a Fantástica Fábrica de Chocolates!", Kurt disse, atrás de mim e de Quinn. "Eu preciso dar uma passada no banheiro", falei, antes que os perdesse de vista. "Encontro vocês na entrada, ok?", e tentei me esgueirar por entre as pessoas mais altas até o final da arquibancada.
Eu tinha ciência de que se passasse no banheiro nunca daria tempo de me encontrar casualmente com Finn; quer dizer, simular um encontro casual com ele. Se eu fosse um pouco mais rápida, poderia alcançá-lo antes de se adentrar no vestiário – Deus sabia que eu nunca teria coragem de entrar ali depois de todas as descrições que Quinn nos relatou sobre banheiros masculinos, no final do ano letivo anterior. E até aquele momento, não sabíamos como ela conseguira obter tais informações com tanta precisão. Depois de algumas cotoveladas doloridas alheias – era impressionante o quanto ninguém tinha a capacidade de me ver ali – e de muitos pisões nos pés me livrei de quase todo mundo. Pelo menos, era capaz de distinguir o que havia na minha frente. Ainda bem que os jogadores permaneciam com seus uniformes, caso contrário eu não conseguiria achá-los por entre os adultos. Tentei localizar a mulher que acenara mais cedo a Finn; ela era um bom ponto de referência.
Eu poderia estar parecendo um pouco perdida, mas tudo o que conseguia sentir era a adrenalina percorrer todo o meu corpo. Quer dizer, eu tinha sobrevivido ao meu primeiro jogo ao vivo de futebol! Quantos alunos nerds poderiam colocar isso em seus currículos de vida? Bem poucos, eu diria. Portanto, eu estava esfuziante com a minha nova conquista. E, sobretudo, assistir o time da casa vencer e tentar parabenizar o quarterback era uma missão para poucos também. Para os que, definitivamente, não tinham medo de encarar a morte de frente.
Mas o que eu estava prestes a fazer deveria entrar numa categoria diferente. Não sei qual; talvez numa que englobasse 'não ter medo de morrer de vergonha em público' e 'não ter medo de seus amigos virem a descobrir o que quer que você esteja aprontando e fazerem a sua vida um inferno até o fim dos tempos'.
Por sorte, vi Finn primeiro. Ele ainda trajava seu uniforme, mas retirara o capacete enquanto ouvia sua mãe dizer-lhe algo que, pelo jeito, o estava deixando orgulhoso. Ok. Eu precisava de coragem, muita coragem. Aquilo não era para meninas amadoras de nove anos. Andei até eles, numa trajetória um pouco distorcida, devido à disposição de muitas pessoas que ainda estavam entre nossos caminhos.
Respirei gunfo uma última vez, numa tentativa de regular minha respiração e meu batimento cardíaco elevado.
Era agora ou nunca. Uma só chance. Não podia desperdiçá-la.
"Oi, Finn. Ótimo jogo, parabéns por ter vencido".
Parte II – A Man and a Woman (U2)
"Oi, Finn. Ótimo jogo, parabéns por ter vencido".
Ela ainda era assustadora, mesmo depois tanto tempo. E eu não pude prever aquele momento. Se ao menos eu tivesse dado a devida importância para a presença inusitada dela na arquibancada; porque, apesar de ter tentado ignorar, eu tinha percebido o seu estranho aceno. O que, primeiramente, aquela garota poderia estar buscando num local como aquele – o campo de futebol, meu local de estrelismo? E por que diabos achava que tinha a permissão de vir falar diretamente comigo? Recapitulando: tudo o que eu conseguia pensar ao estar ao lado dela era que ela ainda me provocava daquele modo nada convencional e tudo o que eu conseguia registrar era o quanto gostaria de fugir dela o mais rápido possível.
Olhos assustadores, sorriso assustador, jeito assustador. Eu me sentia tão intimidado por ela quanto estar na frente da minha mãe em dia de entrega do boletim. Aquela garota mais se assemelhava a um esquilo falante a uma criança bonitinha tentando ganhar a atenção dos colegas. Mas não havia como negar que ela tinha um propósito bastante evidente, queria desesperadamente a minha atenção. Ora, por que não? Que outra hipótese haveria para ela enfrentar muitos minutos de confusão (porque era claro o quanto ela não dominava nenhuma técnica de esportes, visto que era péssima na Educação Física) para se desvencilhar dos amigos e vir me cumprimentar como se fôssemos amigos? Raramente alguém, além do garoto Hummel e da Quinn Fabray, falava com Rachel – eu, então, se pudesse, passava bem longe dela para impedir que fosse abordado por conta de algum assunto idiota como o tempo ou a classificação do time nas eliminatórias.
Eu não tinha escapatória; minha mãe estava bem ao meu lado, se eu ignorasse Rachel, soaria esquisito. Mas isso não abrandava toda a minha vergonha e a minha raiva. Garota mais sem noção! Quem ela achava que era para me cumprimentar em público (especialmente na frente da minha mãe!)?
Sentindo meu estômago gelar de surpresa e de nervoso, disse:
"Oi, obrigado".
Teria sido suficiente, não? Não. Parecia que nada do que eu dissesse seria suficiente para Rachel, a Maníaca Por Gatos. Ela ficou lá, parada, olhando e sorrindo para mim – simplesmente assustadora. Até que minha mãe fez o grande favor de abrir a boca e distribuir simpatia excessiva. Decerto achava que Rachel fazia parte do meu círculo de amigos, embora eu nunca a tivesse mencionado em momento algum. "Não a conhecia ainda. Muito prazer, sou Carole".
É, ela achava que eu e Rachel fazíamos parte do mesmo grupo social escolar.
"Rachel Berry".
Seu sorriso parecia nunca ser capaz de esmorecer. Parecia ter sido impresso no seu rosto com o objetivo de repelir as pessoas – exceto, talvez, minha mãe; ela parecia tão alheia à situação quanto um passarinho desatento se dirigindo a um covil de serpentes.
"Já volto, preciso dar uma palavrinha com a mãe do Puck. Ele vai dormir lá em casa, não vai?", minha mãe perguntou, já apressada. "Uhum", concordei com a cabeça, desesperado e desconfortável; ela não podia me deixar sozinho com aquela garota assustadora! Eu não sabia se seria capaz de aturar todo o falatório gratuito dela. Quando ela se afastou, permaneci no mesmo local com meus pés fincados no gramado. "Acho que eu deveria...", comecei com pressa; não sabia ao certo o que dizer, apenas estava tentando encontrar as palavras certas (e convincentes o bastante) no meio do caminho. Eu era bom em improvisar. Isso não era, exatamente, mentir. Certo?
"Eu sei que você quer escapar de mim", Rachel se pronunciou com segurança invejável antes mesmo de eu formular qualquer ideia melhor, a não ser fingir ter de resolver algum problema bem longe dela. "E eu não o culpo, você nunca gostou muito de mim".
"Eu realmente tenho de...".
"Tudo bem", ela assentiu, colocando um pouco de cabelo escuro e brilhante atrás de uma das orelhas. Calado, observando sua atitude rápida, me peguei pensando que ela estava tão desconcertada quanto eu. Naquela época, dificilmente poucas crianças tinham coragem de ser tão abertas e de não se importar com as opiniões dos outros – isso explicava o porquê eu lançava meus olhos para todo canto à procura de alguém nos espionando: eu me importava com o que falavam sobre mim e não queria que comentassem que eu fora pego cedendo alguns minutos para conversar com a menina esquisita e arrogante da sala.
Não esperei nenhum outro tipo de aceno da parte dela e enfim saí andando – para onde, eu não sabia muito bem; qualquer lugar que fosse longe demais de Rachel já estava ótimo. Ainda me recuperando do susto, praticamente tropecei em alguém. Uma menina.
"Ai!", ela gritou, depois que eu pisei em seu pé. "Ah, oi, Finn". Olhei para ela.
"Oi, Quinn, não sabia que você também tinha vindo ao jogo", equiparei-me com ela (que era evidente que estava um tanto quanto desorientada), e começamos a seguir a grande massa para fora do estádio. "Por quê, você viu a Rachel por aí?", havia estranhamento no tom agudo da voz de Quinn. "Meio que falei com ela agora há pouco", respondi a contragosto. "Você falou com ela?", Quinn maneou seu pescoço em direção a mim, e seus olhos bateram nos meus parecendo muito surpresos. "Mas ela tinha ido ao banheiro, foi o que ela nos disse!".
"Não durou muito tempo, foi muito rápido. Talvez ela esteja indo para lá agora", eu disse. Lidar com Quinn – com sua a beleza e sua delicadeza hipnotizante – era bem mais fácil, era uma interação leve, gostosa. Não havia pressão alguma, tudo fluía com muito mais harmonia. Dela, eu não queria fugir. "É bom que esteja. Estou indo para a entrada, me perdi de Kurt. Você vai para lá também?", ela quis saber. "Acho que sim. Na verdade, estou esperando a minha mãe".
"Você se perdeu dela também?".
"Não, ela foi conversar com a mãe do Puck", respondi. Chegamos à passagem que conectava a área inteira à externa de um dos prédios e, mesmo que eu devesse retroceder a procurar por minha mãe, decidi que me sentiria melhor se apenas seguisse com Quinn. "Você são amigos há muito tempo, não é mesmo?", ela perguntou. "Mais ou menos", dei de ombros, "Acho que há uns dois anos".
"Ele é meio idiota", Quinn falou. Concordei mentalmente, mas não proferi nenhuma concordância. Antigamente, tínhamos muita rivalidade um com o outro, no entanto foi inevitável que nascesse alguma ligação entre nós – depois de um mal entendido cuja única solução foi convocar uma reunião de pais, desculpas obrigadas foram ditas e destruímos a inimizade dividindo figurinhas de álbuns de esportes. "Não sei por que você anda com ele".
Achei graça. Aquilo era uma típica hipocrisia de criança.
"Também não sei por que você anda com aqueles seus amigos", observei, tentando não deixar tão evidente o meu tom desdenhoso. "Achei que você tivesse acabado de conversar com a Rachel", Quinn ergueu uma das sobrancelhas claras – uma habilidade para poucos, especialmente naquela época – de maneira questionadora e atrevida. "Não conversei com ela, nem mesmo gosto dela!", rebati de imediato, um pouco com raiva. E se ela espalhasse a situação para a escola inteira? Seria horrível! "Isso não é muito legal de se dizer", Quinn salientou. "Não tem nada de errado com ela, sabe?".
"Nem com Puck", refutei.
"Puck jogou o Kurt na caçamba de lixo outro dia, sabia disso? Ele continua sendo legal?", Quinn questionou com o cenho franzido. "Tudo bem", gesticulei impaciente, "Às vezes, ele faz coisas idiotas desse tipo, mas quem garante que há algo de errado com ele? Você acabou de dizer que não tem nada de errado com a Rachel, mas falar sem parar como uma matraca e ficar olhando para todo mundo daquele jeito maníaco é 'não ter nada de errado' para você?", aproveitei o momento e falei mais do que o habitual; para alguém tão acostumado com o silêncio, eu gostava de colecionar alguns diálogos mais abundantes. "É o jeito dela. Jogar pessoas no lixo não deve ser o jeito de uma pessoa", Quinn ressalta transparecendo um pouco de irritação.
"QUINN! AH, VOCÊ ESTÁ AÍ!", ouvi Kurt gritar no meio da multidão. Ele tentou abrir passagem por entre as pessoas, mas por não ser tão alto ou pesado quanto os outros meninos, não conseguiu chegar até nós com rapidez. Quando enfim achegou-se perto de Quinn, olhou para mim. "Cadê a Rachel?".
Eu deveria saber a resposta?
"O que ele está fazendo aqui?".
"Encontramo-nos no meio do caminho. Acredita que a Rachel falou com ele?", Quinn estava descrente, observando a reação de Kurt. "Foi sem querer", tentei explicar rapidamente. "Não gosto disso", Kurt deixou claro sem parecer constrangido, mesmo comigo ali tão perto. Percebi seus olhos me fuzilando como se a culpa fosse toda minha. Havia tanta antipatia nele que se tornava impossível pensar num só motivo para acreditar que Quinn se sentisse bem por ser amiga dele. E eu não podia aceitar a visão dela sobre 'aquele ser o jeito dele'. Como alguém arrogante (do tipo bem pior que Rachel Berry) pode achar que é legal assim?
Agora com ele presente, se tornara insuportável manter qualquer tipo de conversa natural com Quinn. "Preciso... É, preciso encontrar minha mãe. Até mais", eu disse. Acenei precariamente e como já estávamos perto do estacionamento, rumei em direção aos jardins perto da diretoria. Se minha mãe estivesse por perto ela logo me notaria por ali. Vi Kurt e Quinn caminharem até a entrada principal e ficarem em pé embaixo da marquise, no aguardo, talvez, de Rachel. Não demorou muito para que minha mãe e Puck surgissem, minutos depois, por entre as poucas pessoas que ainda procuravam um meio de se dispersar. "Hey, irmão, você desapareceu!", Puck me cumprimentou, devidamente vestido. Percebi que tinha esquecido de retirar meu uniforme por estar conversando com Quinn. Fiquei um pouco envergonhado, porque não queria que Puck me inquirisse acerca daquilo. O que, obviamente, ele o faria. "Você nem trocou seu uniforme!", ele exclamou.
"Eu esqueci", respondi. Puck riu debochado.
Para meu eterno desespero, minha mãe retomou o assunto 'Rachel Berry'.
"Você nunca me falou daquela menina, a Rachel", ela disse enquanto eu e Puck afivelávamos os cintos. "Ela é completamente pirada", Puck comentou. "É mesmo? Por quê? Ela parece bastante normal", minha mãe disse, manobrando o carro. "Ela é pirada", Puck repetiu. "Ela fala bastante", decidi argumentar. Mas será que aquilo era mesmo um argumento? "E você não fala quase nada", minha mãe rebateu. "Você é introspectivo por natureza, talvez Rachel seja falante pelo mesmo motivo".
"Ninguém gosta dela, mãe".
"Então você deveria gostar dela".
"Seria a morte", Puck falou. "Vocês têm que ser amigos de todos. Isso é uma completa bobagem, vocês a estão excluindo por uma coisa mínima".
"Você diz isso porque não estuda com ela. Ela é muuuito chata", Puck, mais uma vez, respondeu. Ele tinha essa mania se retrucar a qualquer um de uma maneira até mesmo deseducada, mas como minha mãe já estava acostumada a ele, aquele modo dele não era um problema. Ela olhou para mim pelo retrovisor, esperando alguma confirmação minha. Dei de ombros, antes de me virar para a janela. "Você não gosta dela, gosta?", Puck me perguntou, um tempo depois. "Por que gostaria?", retruquei. Na hora parecia ser o certo, no entanto aquilo perdurou por alguns minutos na minha mente. Eu deveria ter dito outra resposta. Deveria ter dito que gostava dela, sim. Seria tão errado? Mas, para Puck, aquilo seria compreendido como morte social. Pessoas como Rachel não se misturavam com pessoas como eu. Fazíamos parte, acima de tudo, de castas completamente diferentes. Não devido ao dinheiro, mas à popularidade. Se existisse uma lista das pessoas mais populares da nossa série, Rachel entraria em último lugar. Diante da escola ela sempre seria a última em termos de aceitação. Era inevitável.
Oi, cherries! Finalmente o capítulo saiu! Como não tenho mais minhas noites livres, a escrita e a inspiração se tornaram bastante difíceis! Espero que vocês entendam um pouquinho mais do propósito da fanfic a partir deste chapter!
No mais, reviews? Beijos! ;)
