Parte I – To Be With You (The Honey Tree)

Não sei por que estava tão nervosa. Não era como se eu estivesse indo para um encontro, ou algo assim. Não com alguém específico, quer dizer; meus encontros eram sempre com Quinn e Kurt – e eles não eram, exatamente, o tipo de pessoas que eu desejava estar o tempo todo. Claro, eram meus melhores – e únicos – amigos, mas eu não deveria, sei lá, ir atrás da minha própria vida? Criar dias apenas meus, que dedicassem ao que eu almejava, que investissem no me talento?

Precisava trabalhar urgentemente nisso. Conquistar uma vida paralela. E, de certo modo, era com esse intuito que iríamos sair naquela noite. Tinha sido um pouco árduo convencer meus pais, pois, segundo eles, 'eu era jovem demais' e 'não sabiam por que eu tinha que querer fazer tudo o que Quinn fazia'. Quinn já tinha permissão para sair à noite, sempre com um horário pontual para retorno; ainda assim, era um grande passo que eu também estava determinada a querer para mim. Com onze anos, eu já achava que deveria cuidar um pouco mais de mim mesma, sem ficar sempre nas asas de meus pais que eram protetores por demasiado. E por que não fazer o que Quinn fazia? Ela era evidentemente popular entre a maioria; a cada ano que passava, sua popularidade apenas crescia, e ela não parecia se incomodar com isso, pelo contrário. Eu sabia que Quinn estava em deleite pelas meninas copiarem o jeito de seu cabelo e pelos meninos batalharem por sua atenção uns com os outros. Ela estava se tornando uma espécie de modelo a ser seguido; ela ditava a maior parte das tendências no McKinley com facilidade extrema. Era normal eu querer me espelhar nela, certo? Além do mais, ela era minha melhor amiga.

Lima Freeze era um ponto de encontro bastante popular. A maioria dos pré-adolescentes e adolescentes que ganhavam suficientemente a confiança dos pais combinava de terminar as tardes ou as noites lá. O ambiente convidativo e caloroso acabava por atrair todos e, especialmente nos dias mais quentes, os milk-shakes e os sorvetes eram um meio muito comum de aproximar as mais diferentes pessoas. Esperava que este fosse também a linha de comunicação que poderia me unir a Finn.

Tal qual Quinn, Finn também conquistara a sua popularidade; não que eu duvidava disso, considerando que, por integrar o time de futebol – apesar de não terem vencido nenhuma Nacional até aquele ano –, sua sociabilidade fosse ainda mais alavancada. Portanto, do mesmo modo que os garotos diziam 'ois' com o propósito de ganhar a atenção de Quinn, muitas meninas investiam esta tática com Finn. Não que surtisse algum tipo de efeito nele. Geralmente retribuía os acenos e as palavras corridas, mas nunca passara disso. Talvez por ter uma personalidade muito mais reclusa que dos outros populares, impunha certa distância entre si e todas as meninas. E isso, é verdade, meio que me consolava. Enchia-me de uma falsa esperança idiota. Eu sabia que, no fundo, aquilo tudo era mera ilusão. Eu nem ao menos me recordava como se sucedera toda a minha loucura para com Finn.

Houvera aquele dia, anos atrás quando ambos tínhamos cinco anos. Talvez aquele fora o ponto de partida, mas não o estopim. Naquele dia, eu tinha decidido que nunca mais olharia para ele, porque não queria ser amiga de ninguém que não gostasse de mim como era. E, muito claramente, Finn não era meu grande fã, tanto é que os anos posteriores àquele não indicaram nem um tipo de indício de que suas concepções sobre mim tinham sido reavaliadas. Momento algum ele me pedira desculpas por ter me acusado de ser assustadora e nada legal, nem tentara fingir que aquele episódio nunca acorrera e tentara ser meu amigo. Ou seja, passou boa parte da nossa vida acadêmica, até os onze anos, me ignorando. E mesmo que naquele primeiro jogo de tantos outros que eu assistira nutrindo a esperança de que Finn fosse ser receptivo comigo – talvez sorrir para mim, ou acenar –, eu tivesse tentado forçar algum tipo de relação com ele, nada aconteceu. Finn continuou a me ignorar, por mais que eu tivesse desafiado todas as leis da escola ao lhe dirigir a palavra publicamente, depois de seu time ter vencido a partida decisiva. Gostaria que ele tivesse encarado aquilo como um pontapé tímido, para encorajá-lo a me enxergar como alguém, no mínimo, corajosa e até mesmo desafiadora.

Mas, aos nove anos, tudo já tinha se modificado. Eu não tinha mais cinco anos, não estava disposta a ignorá-lo, muito menos ignorar o que quer que acontecia dentro de mim quando, às vezes, olhava para ele. Seria muita estupidez odiá-lo por conta de um pré-conceito mal formulado por sua parte. Ele sequer me conhecia, e tínhamos apenas cinco anos. Ninguém sabe muito sobre a vida aos cinco anos, muito menos sobre quem odiar, ou apreciar.

E creio que o estopim é uma lacuna sobre a qual não tenho muitas informações. Não sabia, com exatidão, se existia aquele click que nos faz entender que algo mudou para sempre. Ou seria apenas uma coisa que é construída de acordo com o tempo? Não sabia muito bem e, às vezes, tinha medo de entender o que tinha e estava acontecendo comigo.

Por isso, ter aceitado persuadir meus pais a me liberarem para sair sozinha com Kurt e Quinn fazia parte das etapas do meu plano para começar a compreender as constantes disparidades que me acometiam; estava determinada a investigar o que, além da presença de Finn, levava meu coração a ficar descompassado e acelerado e a não tirá-lo da mente antes de conseguir adormecer, ou durante as aulas. Eu era tão boa aluna, contudo minhas distrações me incomodavam. Não queria que isso influenciasse minhas notas.

Meu celular recém-adquirido (apenas para emergência, de acordo com a promessa de meus pais), enquanto eu estava na frente do meu guarda-roupa, indecisa sobre o que vestir, começou a tocar. Eu sabia que era a Quinn, porque tinha definido a canção Way In The World, da Nina Nesbitt, como seu toque.

"Oi", entendi.

"Hey, você acha que eu poderia falar para os meus pais que vou dormir aí?", Quinn me perguntou. "Claro, é sexta-feira, você sempre dorme aqui. Sei que Kurt não pod...", comecei a dizer, mas ela me atropelou: "Não, você não entendeu. Eu não vou dormir aí, realmente", havia impaciência na sua voz. Estranhei aquilo bem mais do que qualquer outra coisa que ela já tinha me dito, até mesmo quando foi a primeira a saber qual era a função dos absorventes que encontramos certa vez no quarto de sua mãe. "Mas Quinn...".

"Vou dormir na casa da Santana, lembra dela? Só que meus pais ainda não a conhecem e sei que não irão me deixar", Quinn me explicou superficialmente. "Não gosto muito dela", eu disse, me referendo à Santana. Na maior parte do tempo, ela e sua amiga Brittany passavam rindo das minhas roupas, ou então espalhando boatos falsos e indecentes sobre mim, ou sobre meus pais. Não acreditava que Quinn estava interagindo com essas meninas que pareciam tão fúteis e idiotas demais para pessoas como nós três. Quinn que nunca se incomodara com meu jeito de ser ou de aparentar, agora, parecia louca por se ver longe de mim, especialmente dentro do McKinley – o que me fazia sentir um pouco esnobada e desprezada. Quinn, como este afastamento, apenas me fazia crer que os bons tempos de amizade não estavam mais reinando. Não sabia ao certo se era por vergonha, ou por meramente estar indo à caça de uma vida para si que a fazia me largar no meio do corredor para rir com meninas desconhecidas, ou caçoar de modo nada amigável dos meus suéteres de animais.

"Tanto faz, eu gosto dela. Se você aceitasse sentar-se conosco por alguns dias, você veria que, na verdade, Santana é bastante divertida", Quinn defendeu a nova amiga como se os minutos perdidos comigo naquela ligação fossem um desperdício. Estava na cara que Quinn queria desligar o mais rápido possível. "Então, caso meus pais ligarem para aí atenda ao telefone e confirme o meu álibi, ok?".

Fiquei pensando nos motivos (que não eram muitos) que me convenceriam a encobertá-la. Não tinha a mínima vontade de mentir para os pais dela. Se Quinn quisesse viver suas aventuras sem mim e Kurt, ela que lidasse com as consequências! Porque, caso algo desse errado, eu tinha certeza de que Quinn me acusaria de não ser boa amiga – como se ela o estivesse sendo; não podia dizer que o prazer que sentia por ser amiga dela estivesse intacto. Agora, estávamos seguindo caminhos completamente diferentes. Até mesmo Kurt, que nunca tomara partido algum, estava percebendo o quanto nossa Quinn estava mudada – mais impaciente, mais atrevida, mais ácida.

"Vocês vão fazer uma festa do pijama?", perguntei. Isso me ocorreu na hora, porque sabia que Santana e Brittany faziam isso o tempo todo. Talvez, Quinn fosse a convidada especial da noite. Não que eu fosse querer ser convidada também, já que, normalmente, mantinha distância de ambas na escola. Certamente, não queria ser inclusa no mundinho bobo delas. "Não sei, acho que sim", Quinn me respondeu. "Você vai me ajudar ou não?".

"Não sei, isso é meio...", franzo a testa diante do espelho, repassando todos os meus já problemas; não precisava de mais um, ainda mais na minha noite de estreia. Se meus pais descobrissem que mentira para os pais de Quinn, nunca me dariam outra chance até eu ter atingido a maioridade. "Uau, Rachel, deixa de ser criança!", Quinn exclamou, subitamente irritada. "Ninguém vai descobrir se você fizer tudo certo".

"Essa é a questão: isso não é certo. Não quero ter de mentir para seus pais".

"Você é uma criança, sério. Não dá pra acreditar", Quinn falou ainda mais irritada. "Tanto faz, vou ligar para o Kurt, tenho certeza de que ele ainda é um bom amigo".

E aí desligou na minha cara!

Claro que tive que correr contra o tempo; tinha que falar com Kurt antes de Quinn. Felizmente, a linha não estava ocupada e Kurt me atendeu depois do segundo toque. "Você desistiu?", ele me perguntou. "Sobre o quê?", não entendi sobre o que ele se referia e não estava com a fim de discutir sobre isso, quando precisava alertá-lo sobre Quinn. "Olha, esquece isso. Preciso dizer que Quinn me ligou e pediu para que eu mentisse para os pais dela. Dá pra acreditar?". Kurt não se conteve e logo estava dizendo: "Mentisse sobre o quê? Ela não vai conosco no Lima Freeze? Se ela não for, teremos problemas!".

"Acho que vai, não sei. Ela quer que eu diga para eles que dormiu aqui em casa, quando, na verdade, vai dormir na casa daquela Santana", comecei a lhe informar um pouco com raiva. Ela desligou na minha cara! Quinn nunca tinha sido tão idiota assim! O que estava acontecendo com a nossa doce e fofa Quinn? "Santana Lopez? Ela é maior... Você sabe, ela não é muito legal, ainda mais conosco! Outro dia ela me disse que...", a voz de Kurt estava ansiosa e completamente disparada; estava tão desnorteado quanto eu. Ficava feliz por constatar que ele estava do meu lado, uma vez que nunca tinha se mostrado tão fervoroso contra algo além dos meninos populares mais animalescos. "Eu sei, ela é realmente horrível! Não sei por que Quinn a acha tão legal", falei.

"Precisamos de uma intervenção", Kurt disse, taxativo. "Não sei, não", ponderei com receio, "Acho que isso apenas pioraria tudo. Ela diria que não estamos sendo bons amigos, ou algo assim". Kurt ficou quieto por uns dois segundos. "Você acha que ela se cansou de nós, agora que é popular?", ele me inquiriu. Era, confesso, uma possibilidade. Eu mesma já tinha pensado nisso. "É uma estupidez, mas acho que sim. Já perdi as contas de quantas vezes ela me deixou falando sozinha para seguir as líderes de torcida mais velhas".

"Vou pedir para meu pai me deixar aí, depois. Precisamos de um plano. Apesar de que não ficaria infeliz de constatar que ela não faz mais parte do nosso trio. Gosto de duplas, e eu e você somos uma boa dupla, não é mesmo?", Kurt disse. "Acho que sim", respondi cética. Adorava o Kurt, era quase como conviver com uma menina, mas sabia que sentiria falta da Quinn. Seria difícil perder alguém que fez parte da minha infância. "Preciso terminar de me arrumar, até já". Kurt se despediu, e desligamos. Queria ter tempo de me sentar na cama e refletir sobre Quinn e sua mudança, mas precisava escolher o vestido e ajeitar meu cabelo de modo que, como um todo, eu parecesse decente e me assemelhasse um pouco com as meninas bonitas, inclusive Quinn, do McKinley.

Quando desci as escadas e declarei que estava pronta para Hiram, ele me olhou e disse: "Achei que você fosse sair com Kurt e Quinn!". Olhei para meu vestido roxo salpicado de bolinhas coloridas, um pouco mais curto que os que normalmente usava, e achei que tivesse alguma coisa errada. "Mas eu vou", confirmei. "Isso não tem a ver com nenhum garoto, certo? O Kurt não é exatamente o que eu chamaria de um bom partido. Além do mais, achei que fossem amigos!", Hiram devolveu. "Pai!", exclamei dividida entre a vergonha e a incredulidade. Será que meu pai não percebia que eu não era nada parecida com Quinn e que não chamava atenção dos meninos a toda hora? Com sorte, apenas um menino olharia para mim naquela noite. E como é que os pais sempre sabem quando os meninos começam a fazer parte da mente das filhas? Que mágica é essa? "Claro que não! Vamos apenas tomar um milk-shake e conversar".

"Você já fazem isso todos os dias", meu pai observou. "Não com milk-shake do Lima Freeze. Todo mundo diz que é muito bom", respondi. Ele pareceu não confiar inteiramente em mim e emendou. "Ouvi dizer que meninas apaixonadas correm atrás de meninos no Lima Freeze. E desde que você começou a frequentar o ambiente esportivo da escola fiquei me perguntando o porquê dessa mudança atípica".

"Pode esquecer, não vou dizer", desci o restante da escadaria e fui para a porta; gostava da confiança que meus pais tinham em mim, porque isso fazia com que eu tivesse liberdade para lhes contar o que me convinha, mas queria guardar aquele meu segredo por mais algum tempo para que, caso alguém viesse a ter ciência dele, não dissesse frases como 'É melhor desistir', ou 'Vai ser necessário mais do que um vestido bonitinho para conquista-lo, sabe disso, certo?'. Queria que as pessoas ao meu redor acreditassem que seria possível que, por um milagre do destino, eu tivesse alguma coisa com Finn – queria que durasse mais do que uma simples conversa rápida e que eu tivesse certeza do que ele sentia. "Devo ficar preocupado?", ele quis saber. "Não, absolutamente não", respondi, sabendo que essa era a verdade. Finn não fazia parte do meu presente, mas nada impedia que, com o tempo, ele fizesse parte do meu futuro. No entanto, nossa relação era inexistente, uma confirmação de que a preocupação paterna de Hiram seria em vão.


Parte II – Patient Love (Passenger)

Era rotina aparecer no Lima Freeze depois das oito da noite e eu sustentando o título de um cara popular, mesmo com onze anos, gostava de ir lá para assistir meus colegas e amigos descobrindo uns aos outros – dos melhores e piores modos. Em última instância, convencia-me de que era divertido. Realmente, sempre acontecia algo que valia a pena.

Já estávamos há um bom tempo sentados na nossa mesa, quando Quinn passou por nós sozinha. Fiquei procurando seus amigos, mas ninguém veio atrás dela. Era meio que uma regra Rachel em especial estar no encalço dela, e nem acho que isso acontecia somente porque eram melhores amigas; tinha sérias certezas de que Rachel, na verdade, apenas seguia Quinn para ser aceita também. Como se a popularidade da Quinn pudesse passar a ela somente por estar por perto. Entretanto, nenhum tipo de olhar era lançado a Rachel – não aquele tipo de olhar que ela gostaria de receber. Todos a miravam como se ela fosse alguém muito incômoda – e, de certo modo, realmente o era com seus monólogos sem fim e a sua personalidade convencida demais. Sem contar os sorrisos assustadores. Isso era ainda pior.

Quinn então retornou e disse "Oi, pessoal".

Era muito fácil gostar dela e assimilar que, de modo geral, ela também apenas queria ser aceita naquela sociedade egocêntrica. Quinn era linda, por isso aceitá-la era quase que natural; seus trejeitos também eram admiráveis – mesmo quando era petulante ainda era convidativa. Naquela noite, seu vestido florido revelava muito mais das suas pernas do que o habitual, e não pude deixar de pensar que o escolhera justamente com esta intenção. Seus cabelos normalmente lisos estavam lhe caindo em cachos charmosos e emoldurando seu rosto delicado. "Hey, Quinn", Puck disse primeiro. Ele estava construindo uma casinha de waffles, mas parou de dirigir sua atenção para sua construção para observá-la melhor. Notei um tipo diferente de interesse nele; ele dificilmente olhava para outra coisa daquele modo além do seu Xbox. Fiquei com vontade de lhe inquirir sobre os outros, mas logo ela sentou-se ao meu lado e começou a conversar com Puck sobre seus waffles enquanto pescava alguns deles e os comia.

"Achei que você não viesse hoje", a certa altura da conversa precária deles, Puck disse. "Combinei de dormir na casa da Santana", Quinn respondeu. "Festa do pijama?", ele ergueu as sobrancelhas. Os outros o seguiram no riso fraco, no entanto eu estava de olho na porta. "Vocês não estão convidados, desculpe", Quinn provocou, piscando para ele, assim que direcionei minha atenção novamente a eles. "Não me diga que seus outros amigos estão convidados. Porque isso não é nada atraente", ele disse soando meio debochado, arrancando mais risos dos demais, inclusive de Quinn. "Kurt e Rachel? Claro que não. Eles nunca seriam convidados", ela riu de modo bastante incrédulo.

"Você não deveria estar com eles?", a pergunta escapuliu sem esforço. Não tinha propósito de fazê-la, pois pouco me importava com quem Quinn passava suas noites, porém por algum motivo o jeito que falava me deixou repentinamente incomodado. Pelo jeito que estava se portando, diria que houvera uma ruptura na sua amizade com os outros dois. Outrora, aquela mesma Quinn teria mandado Puck calar a boca por ser ofensivo com Kurt e Rachel – mas ali estava ela em conluio com as palavras dele. O que estava acontecendo, afinal? Ademais, ela nunca tinha sido tão provocativa da maneira que estava sendo naquela noite. Não tinha sido Quinn que me dissera, há dois anos, que Puck não era nada legal porque jogava Kurt no lixo, ou algo assim? Pelo jeito, ela estava jogando a amizade que mantinha com ele e com Rachel no lixo também. Porque aquele, em definitivo, não era um modo muito legal se se referir aos amigos, nem de ser legal com as pessoas.

"Mais ou menos. Não sou grudada neles, entendeu?", Quinn me disse como se eu tivesse lhe feito a pergunta mais tola de todas. "Você costumava ser", retruquei com vontade. Gostava dela, gostava mesmo, mas aquele seu jeito novo de ser não me agradava tanto. Parecia que queria conquistar uma nova impressão, ou ser uma pessoa completamente diferente daquela Quinn bonitinha de sempre. Uma pessoa que estava decidida a se transformar numa lacaia de Santana, talvez.

No entanto, Quinn não disse nada, apenas me respondeu lançando uma careta de desdém. Aquilo era esquisito; tão esquisito quanto o que aconteceu a seguir.

Como eu não estava de fato interessado na conversa de ninguém – exceto àquela hora, sobre os supostos amigos de Quinn –, destinei minha atenção ao restante de Lima Freeze. Adorava observar a todos em seus habitats; era meio que meu hobby favorito, desde muito pequeno. Portanto, foi meio que fácil entrever por entre todos aqueles que estavam em pé à procura de lugares, ou apenas na fila para receberem seus pedidos os dois novos clientes que entraram pela porta. A julgar por suas feições perdidas era a primeira vez que Kurt e Rachel entravam ali. Ou, quem sabe, estivessem procurando Quinn. Nunca os tinha visto por ali antes, mas depois que ficaram por alguns segundos apenas parados, mirando o movimento e as mesas, enfim se encaminharam com pouca desenvoltura diretamente em direção a nós, e percebi que, sim, eles estavam atrás de Quinn.

Ambos, notei, carregavam expressões nada felizes ou descontraídas nos rostos. "O que está fazendo aqui?", Kurt lhe inquiriu com desagrado no tom. "É, não iríamos ficar juntos? Achei que iria esperar por nós", Rachel logo emendou. Mesmo que eles fossem, por assim dizer, menos favorecidos de acordo com a escala de popularidade, achei muito impressionante o modo como não se sentiam ameaçados, ou oprimidos, ou intimidados por todos nós, os populares. A intensidade do semblante de Rachel era quase mais interessante daquela que estava estampada no de Kurt. Quinn também não parecia muito feliz pela interrupção. "Deem licença?", ela se dirigiu a nós com momentânea doçura, embora assim que se levantou e praticamente arrastou-os para perto dos banheiros sua postura tivesse se desvanecido.

"Essa gente é tão convencida. Você viu a Srta. Egocêntrica? Uma piada", Puck disse, rindo debochado. Eu sabia perfeitamente que a tal da 'Srta. Egocêntrica' era a Rachel, por isso fiz meus olhos acompanharem a cena que se desenrolava entre os três. Eles pareciam agitados – não como quando garotas compartilham um segredo, mas como quando há uma discussão nada agradável acontecendo. Olhei para Puck. "Talvez ela tivesse razão", constatei, referindo-me à Rachel. Não fazia ideia do porquê, mas cada vez que a citava publicamente isso fazia parecer que eu estivesse realmente pensando nela, quando não estava. Apesar de estar, naquele momento. Iria guardar o semblante irritado dela por mais algum tempo até me recordar do quão assustadora ela era. "Que história é essa, mano?", Puck perguntou com um tom bruto, franzindo as sobrancelhas. "Desde quando você acha que alguém está com a razão, especialmente essa daí?", ele fez um gesto indicando o local onde Quinn, Rachel e Kurt ainda estavam. "Você já pensou que tem alguma coisa diferente na Quinn?", perguntei. "Já era hora", Puck disse. Balancei a cabeça. Ele não entendia mesmo nada.

Quinn retornou, mais uma vez sozinha. "Vou ter que ir com eles", havia tédio em sua voz, "Mas quem sabe amanhã ainda nos vemos". Puck atirou uma batata frita nela, e disse: "Esqueça essa gente, fique aqui conosco. E nada de convidá-los". Quinn sorriu. "Gostaria muito, mas eles são muito crianças para entender que, às vezes, eles precisam se virar sozinhos". Mesmo que eu estivesse observando seus olhos castanho-esverdeados não conseguia detectar nenhum tipo de sentimento se aflorando ali. Eles eram um tanto quanto vazios. Nisto, Santana e Brittany chegaram também. Cumprimentaram-nos apenas por costume e saíram com Quinn de perto de nós. Vi que Kurt e Rachel, da mesa deles, não pareciam nada satisfeitos.

"Já pensou ser convidado para a festa delas?", Puck perguntou com um quê de satisfação. "É uma festa para meninas. Não é?", quis confirmar. Ele meramente rolou os olhos. "E por isso seria ótimo sermos convidados, entendeu agora?", ele elucidou com gestos. "Ah", falei. Alguns minutos se passaram e Quinn, Santana e Brittany passaram por nós novamente, dessa vez para chegar à porta. "Vamos lá", Puck me disse, então todo o nosso grupo se levantou. "Você vem, ou não, cara?", Puck me incitou já longe da mesa. "Vou terminar isso", disse, indicando meu milk-shake ainda pela metade. Recebi, em troca, um olhar irônico e completamente indecifrável. Ele e todos os outros seguiram as meninas até a calçada e, pelas janelas de vidros, pude observá-los conversar, rir e sorrir. Por algum motivo, as três sempre disputavam, discretamente, a atenção de Puck, que parecia maravilhado por ser tão notado assim de uma só vez.

Olhei para Kurt e Rachel; pareciam estar conversando com muita seriedade, muitas vezes focalizando Quinn através das vidraças. Tive o ímpeto de ir até eles e me inserir no assunto, pois ele me rondava a mente também. No entanto, aguardei que algum dos dois se manifestasse; Kurt se afastou para o banheiro, o que proporcionou uma brecha. Rachel continuou a bebericar, isolada naquele canto, o seu milk-shake e a lançar olhares furtivos para todos os outros como se estivesse preocupada com o que poderiam estar pensando dela.

Desocupei a mesa com minha bebida ainda interminada nas mãos e rumei para lá com passos incertos. Será mesmo que estava fazendo a coisa certa? Com Puck tão ocupado, tinha certeza de que ele nunca ficaria sabendo o que eu estava prestes a fazer – mas e se comentassem posteriormente? Não retrocedi, mesmo que tivesse esse desejo também, além de continuar. Depositei meu copo de plástico defronte à ela. "Oi", eu disse.

Rachel ergueu os olhos para mim; eles pareciam apavorados, por algum motivo. Não ficaram assim quando ela foi confrontar a Quinn na frente da mesa inteira dos esportistas, mas agora estavam terrivelmente em pânico.

"O-oi", ela retribuiu, sem se mover.

Ainda em pé, pude constatar coisas que não tinha percebido antes. Claro que antes apenas consegui notar seu rosto exibindo incrível intensidade. No entanto, agora que ela estava, possivelmente, mais calma, podia reparar em seu vestido, por exemplo. Ele também era curto, mas não a deixava do modo que Quinn: não havia muita ousadia nela. Rachel, ao contrário da Quinn, era retacada. Por mais que se esforçasse em ser notada, suas roupas não demonstravam isso. Rachel, exatamente como Quinn apontara, ainda era um pouco criança. Se Quinn estava evoluindo – se que é aquela sua notória mudança de comportamento podia ser classificada assim –, Rachel, por outro lado, não estava se transformando: continuava a mesma garota assustadora de sempre. Porém, se eu me esquecesse do quão assustadora ela era, era capaz de perceber que, na verdade, sua aparência era agradável; ainda bastante infantilizada, mas poderia ser bastante apreciada por aqueles que não buscavam a atenção das meninas populares sempre bem vestidas.

"Você precisa de companhia?", perguntei, ainda olhando-a de cima. Seus cabelos eram escuros e brilhantes e naquela noite estavam ajeitados de modo que ficassem ondulados, caindo longamente por suas costas e pela frente de seu vestido. "Não", ela me disse, mas então seu pânico pareceu crescer ainda mais e ela corou. Tive vontade de rir, mas não o fiz. Fiz questão de me manter longe dela todos aqueles anos, mas agora que tinha uma oportunidade mais ou menos boa de manter uma conversa digna, rir dela seria péssimo. "Quer dizer, sim!", ela se adiantou, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha de modo completamente alterado. Eu sabia que, no fundo, pessoas populares assustavam a todos, em especial a ela, que era sempre alvo de piadas idiotas. "Kurt foi apenas ao banheiro. Mas pode sentar, se quiser", Rachel me ofereceu, ainda irrequieta.

Assenti, consentindo com sua oferta. Deslizei pelo banco a sua frente, notando que seus olhos procuravam qualquer outro lugar para mirar. Isso me fez recordar do seu afoitamento no jogo de futebol, há alguns anos; naquela época, ela parecia completamente alheia ao fato de seu jeito exagerado acabar por repelir as pessoas, e, certamente, seus olhos faziam questão de mirar os meus com bastante energia como se pudessem me enfeitiçar. Agora, ali no Lima Freeze, ela parecia estar estranhamente diferente; não como Quinn, mas um pouco mais no controle das suas atitudes expansivas. Isso era ótimo, porque estava cansado de sempre ser assustado por ela. Pelo jeito, tínhamos invertido os papéis. Agora ela era quem estava assustada.

E, por mais que eu quisesse me sentir satisfeito por estar surtindo este afeito adverso nela, não podia conter o meu lado que me alertava sobre aquilo; eu não pretendia, realmente, deixá-la em pânico por fazê-la pensar que iria intimidá-la como meus amigos faziam – sem contar Quinn, a julgar pelas suas últimas atitudes esquisitas. Eu não iria virar meu milk-shake sobre sua cabeça, ou algo assim.

"Escute, você e a Quinn ainda são amigas?", quis saber.

"Por quê?", havia um sentimento inescrutável em sua voz e em seus olhos os quais não pude defini-los com rapidez, pois no momento seguinte, ela já os tinha desviado dos meus, e seu tom já estava muito mais baixo que o habitual. "Você ainda gosta dela?".

Pisquei para ela, desorientado. A conversa estava ficando estranha; não tinha planejado aquilo. "Ela é legal", falei. Mas antes que eu tivesse chance de persistir no meu ponto central, Rachel interveio, ainda sem me encarar: "Você disse a mesma coisa quando lhe fiz essa mesma pergunta pela primeira vez".

Eu dissera? Verdade? Como Rachel se recordava daquilo?

"É, bom", respondi precariamente, muito confuso. Tinha perdido o rumo da conversa. "É que não sei se é impressão minha, mas vocês parecem distantes", logo emendei, achando uma luz. Não pretendia mencionar tudo aquilo que Quinn dissera para mim e Puck mais cedo, para isentá-la de quaisquer incômodo. Se Rachel soubesse de algo não seria da minha boca, não mesmo. Ela ficou quieta por alguns segundos, olhando para o conteúdo de seu copo. Aquilo era tão atípico quanto Quinn estar tão mudada. Sabia que férias renovavam uma pessoa – o próprio Puck estava completamente diferente, de certo modo –, porém não sabia se concordava com as mudanças. Se as coisas já estavam esquisitas em plenas férias, não queria nem pensar o que ocorreria durante o ano letivo.

"Desde quando você se importa?", sua pergunta me pegou de surpresa. Não que ela estivesse sendo grossa, porém esperava um pouco mais de... Não sei, daquela ansiedade de antes. Agora, apenas parecia que eu estava sendo completamente impertinente. "Não me importo", concluí rapidamente. "Mas você deveria estar se importando", olhei-a de modo que transparecesse o quanto, na verdade, eu aguardava alguma resposta decente dela. "Acho que cansei de me importar com as pessoas", Rachel disse.

Bem neste momento, Kurt chegou até a mesa. Colocou as mãos espalmadas sobre superfície da mesa e olhou primeiro para mim e depois para Rachel; seu olhar não era, exatamente, o que eu poderia tachar de satisfeito. "Poderíamos ir, o que você acha?", ele se dirigiu à Rachel, ignorando-me completamente. "Ahn, tudo bem", Rachel grunhiu. Pela primeira vez, mirou meu rosto com segurança, enquanto se levantava e deixava para trás o resto de seu milk-shake. "Até mais", ela se despediu sob o olhar vigilante de Kurt, que apenas passou por mim como quem não me viu. Eles estavam quase perto da porta quando Kurt se inclinou para perto de Rachel, cobrando alguma explicação, o que a fez reagir sem muito entusiasmo, dando de ombros. Passaram reto pelo grupinho constituído por Quinn, Santana, Brittany, Puck e os outros meninos; Quinn nem mesmo os notou por ali.

Sozinho ali dentro, percebi o quanto não me encaixava com a "classe social" na qual tinha me inserido. Eu não seria capaz de não observar os outros, mesmo que fossem Kurt e Rachel. Havia certa peculiaridade incutida neles; Kurt ainda era absurdamente arrogante, um pouco petulante, mas nunca rebaixava as pessoas. E Rachel, embora eu nunca tivesse me atentado, não era a pior menina de todas. E daí que, antigamente, me fazia querer desaparecer no mesmo segundo? Agora, parecia que quem queria se esconder era ela, e isso era interessante. O que a tinha feito mudar?


Oi, cherries! Somente ontem é que fui conferir os reviews e eles me deram inspiração para mais um capítulo (sim, escrevi este capítulo em praticamente um dia, nem acredito HAHA). Como ficarei a semana toda sem escrever, achei que poderia adiantar a postagem deste! Espero que estejam gostando da história! Só para explicar: por enquanto os capítulos pularão alguns anos mesmo, apenas irão focar em algumas situações específicas, porém daqui uns dois ou três, a história será completamente cronológica de acordo com os dias e tal (ou seja, não pulará mais anos); creio que, a partir daí, ambos terão 15, ou 16 anos. E realmente me desculpe pelos erros ortográficos e gramaticais, eu estou praticamente saindo pra ir pra faculdade e não tive tempo de revisar! No mais, reviews? Beijos e ótima semana!