Parte I – Me, Myself and Time (Demi Lovato)

"Se tem alguma coisa acontecendo, você deveria me contar", falei alto, tentando ganhar plena atenção dela. O corredor estava abarrotado e barulhento devido à troca de período, portanto era difícil não esbarrar em alguém, ou saber se Quinn estava mesmo me escutando. Porém, por sua reação bastante alarmada e agressiva, pude inferir que, sim, ela estava me escutando totalmente. "Shhh. Quer um megafone?", ela me devolveu, me fulminando com o olhar. "Então tem alguma coisa acontecendo?", arregalei meus olhos, mesmo sabendo que ela não poderia vê-los, o que era ótimo; seria esquisito se Quinn notasse que, por dentro, eu estava enlouquecida para obter sua resposta. Ai, meu Deus. E se ela confirmasse as minhas suspeitas, o que seria de mim? Eu sofreria eternamente... Por outro lado, talvez eu estivesse paranoica demais. Qual era o real problema de Quinn 'ser amiga' do time de futebol? Será que era tão ofensivo assim? Será que eu não estava agindo como uma louca exagerada (como sempre)?

"Eu não disse isso", Quinn retrucou com impaciência, rolando os olhos para mim. Sua impaciência estava mais aflorada do que nunca; qualquer coisinha a irritava e, então, saía de perto de nós como quem se incomoda com as fangirls do One Direction. Kurt relacionava suas novas atitudes à adolescência.

"Hormônios, eles transformam uma pessoa", ele dizia. Eu ainda não tinha chegado a um consenso para afirmar como é que ele sabia tanto sobre coisas femininas, porém Kurt, eu gostava de pensar, estava sempre certo; sua especialidade, com o tempo, se tornou a Quinn. Era impressionante, ele sempre acertava.

Por isso, era assustador que Quinn estivesse prestes a me confessar que havia algo acontecendo entre ela e Finn. Eu sempre achara que ela nutria bem mais afeição por Puck. Bem, não que o seu desespero por receber a atenção dele pudesse ser chamada de 'afeição'. Acho que era apenas loucura feminina adolescente. Ou apenas 'loucura Fabray' – como Kurt se referia.

"Então, o que está acontecendo?".

"Isso é sério? Você está mesmo me perguntando isso?", Quinn me inquiriu, mais sem paciência ainda. "Por quê? Você não pode me dizer?", retruquei na mesma hora. Droga, aquela conversa preliminar estava me matando de ansiedade! Qual era o problema dela? Será que estava mesmo rolando algo e, por isso, ela estava me fazendo sofrer um pouco mais? Quer dizer, era a Quinn. Não dava para duvidar de praticamente nada tratando-se dela, entende? "Já disse o quanto você é tão criança?", Quinn me devolveu ainda mais irritada. "Já, agora me responda", falei rapidamente; ela me dizia aquilo há algum tempo e várias vezes por dia. Como se isso a tornasse mais gente grande, ou algo assim. Era tão irritante quanto aquele seu jogo de ocultar sua resposta altamente relevante de mim – aquilo possibilitaria ou não o meu futuro; era o que eu pensava, ao menos. "Mais ou menos", ela disse, e antes que eu pudesse proferir qualquer palavra, continuou, "Quer dizer, tudo bem, às vezes nós ficamos sozinhos na mesa do Freeze, mas isso significa muita coisa? Não acho. E teve aquela vez que sem querer nós batemos nossas mãos, mas ele não afastou a dele. Aquilo foi estranho".

"Que vez foi essa?", parecia que eu tinha tomado um litro de café e que, de repente, todo o efeito colateral estava surtindo suas consequências naquele único segundo. Não consegui refrear o meu desespero e o meu choque. Não, não, não! Mãos juntas indicam mau sinal! Significa que o próximo passo é um beijo na bochecha, ou pior: um beijo na boca! Não conseguiria lidar com aquilo! E se ela decidisse me relatar com todos os detalhes sobre o seu futuro beijo com Finn? Eu, definitivamente, gostaria de estar o mais longe possível dela. "Foi uma vez, sei lá quando. Não é importante", Quinn disse. Não era importante? Em que planeta aquela informação não era importante? Será que eu estava sendo menininha demais sobre aquilo? Bem, Quinn diria que sim.

Mas será mesmo que seria tão ruim assim que Quinn tivesse o privilégio de ganhar o primeiro beijo com ele? Certamente, eu não ganharia o meu antes dela – e não que eu estivesse tão desesperada desejando isso de imediato, considerando que tinha apenas 13 anos e era 'criança demais'; estava bem mais preocupada em conseguir um papel importante no musical escolar, ou acertar melhor as notas da minha aula de canto. Eu deveria ficar feliz, encorajá-la a beijá-lo. Isso seria um gesto de melhor amiga. Mas os meus sentimentos em relação a ela oscilavam bastante, nunca sabia se ainda era a melhor amiga dela, nem se queria mantê-la no posto de minha melhor amiga. No fundo, eu não queria que ela o beijasse – poderia beijar quem bem entendesse, porém não o Finn. Por que não poderia se contentar com o Puck? Talvez ele fosse um cara legal, ninguém sabia muito bem. Talvez ela fosse se surpreender com ele. Seria um relacionamento bom, não seria? Surpresas são ótimas num relacionamento, é o que dizem.

"Só isso? Mãos? Foi isso que aconteceu?", quis confirmar com mais urgência. Por que ela nunca entendia as minhas emergências? Isso era realmente um saco. O Kurt entendia perfeitamente. Talvez porque ele fosse bem mais menina do que menino, no quesito cérebro. Agradecia por essa diferença nele, realmente tornava a minha vida bem menos estressante. "O que deveria ter acontecido?", Quinn quis saber, levemente interessada no que quer que estivesse rondando meus pensamentos. "Ele não é, exatamente, muito comunicativo e não parece responder a maior parte das minhas investidas".

Espere aí. Ela estava investindo nele? Onde eu estava quando tudo aquilo se desenrolava?

"Você...", engoli minha saliva com força, porque aquilo parecia demais. Quer dizer, com treze anos meus pais esperavam que eu carregasse minhas antigas bonecas para cima da cama todas as noites. Mas Quinn. Oh, nada de bonecas em cima da cama para ela. Nada de bichos fofos demais, nada de pompons rosa choque, nada de fotos de boybands estampadas pela sua parede. E eu sabia muito bem que ela pegava as revistas adultas da mãe dela para ler e ficava sabendo sobre coisas nojentas demais para meninas de treze anos assimilar com facilidade. "Você tentou beijá-lo?", enfim minha questão pulou da minha boca como quem estava compartilhando um segredo imundo. "Ele é alto demais. Mesmo se eu ficasse nas pontas dos pés seria quase impossível beijá-lo sem que ele se inclinasse um pouco", Quinn disse como se estivéssemos tratando de algo bastante óbvio. "E... ele já se inclinou alguma vez?". A risada dela se propagou pelo corredor com rouquidão. "Seria surpreendente se ele o fizesse", Quinn respondeu. De repente, uma onda gélida de alívio se alastrou pelo meu peito. Ponto! Nada de beijos, por ora. Tão gratificante!


Quanto mais atenta eu ficava, mais detalhes ficavam na minha cabeça.

Quinn, ainda que se dissesse ser minha amiga, preferia almoçar com Santana e Brittany as quais já estavam familiarizadas com as veteranas, especialmente as que eram líderes de torcida no time da treinadora Sue Sylvester. As Cheerios eram a sensação do momento; as meninas mais novas, aquelas que ainda não tinham idade para ingressar naquele mundo de saias curtas rodadas, aspiravam sê-las, esperavam conquistar seus privilégios, esperavam mandar nas castas inferiores. E eu, como a menina deslocada de sempre – tida como 'malvestida', ou como 'a menina adotada do lixo' –, nunca poderia fazer parte do novo grupo de amigas dela. Não havia um lugar para mim ali, nem em lugar algum da escola. As relações que tinha feito já estavam se desgastando e se rompendo; se Kurt não estivesse ao meu lado, tudo seria bem pior. Kurt, tal como eu, também era obrigado a suportar ofensas desnecessárias, então nós fazíamos parte do mesmo mundo renegado. Éramos uma dupla bem melhor do que quando éramos um trio, com Quinn.

Por vezes achava que seria sensato dividir o meu segredo com Kurt. Sua mente poderia ajudar a minha a se acalmar. Ou então, poderia me aconselhar; seus conselhos afetivos eram quase melhores do que os fashionistas. Era sempre a ele que Quinn recorria quando seus assuntos sentimentais se tornavam insuportáveis para serem solucionados por contra própria. Mas será mesmo que eu saberia lidar com meu segredo compartilhado? E se ele risse de mim? Ninguém nunca tinha se interessado por mim, mas isso não impedia que eu não me interessasse por alguém, certo? Uma menina de treze anos não é completamente imune às coisas do coração – muito menos quando as 'coisas do coração' têm correlação direta com quarterback da escola que, diga-se de passagem, chamava a atenção da maioria das meninas. E isso, por si só, já deveria me desanimar: concorrência demais significava que ele nunca estaria disponível para mim. E se estivesse, nunca nem me olharia com o tipo de olhar que eu tanto ansiava.

Então eu reconsiderava. Guardar meu segredo era melhor. E daí que eu sofria em silêncio? E daí que eu me desconcentrava quando Finn passava sem nem me notar? E daí que eu obrigava Kurt a frequentar jogos os quais detestava? Dividi-lo não seria agradável. As pessoas poderiam criar bem mais expectativas do que eu mesma, poderiam querer me pressionar a me declarar, poderiam delatar meu amor para ele – e isso, oh meu Deus, iria me matar completamente de vergonha. Se Finn sequer suspeitasse acerca de meus sentimentos, seria inevitavelmente a pior coisa da minha vida. Porque sua reação poderia ser totalmente contrária ao que eu projetava ilusoriamente num futuro próximo; ele poderia rir da minha ousadia e então espalhar para a escola inteira, e então eu teria de ouvir xingamentos muito mais pesados do que o habitual. Xingamentos que eu nem poderia imaginar. E aí eu morreria de vergonha. Teria de me transferir de colégio, talvez de cidade, tamanha a vergonha.

Se houvesse uma possibilidade de fazer com que tudo desse certo, ou que ao menos eu soubesse que, sim, eu teria uma chance de mostrar a ele o quanto eu poderia ser legal. Se houvesse um meio de comunicação entre nós; qualquer coisa: uma aula conjunta, um amor em comum, um assunto que ambos apreciássemos. É assim que acontece. Uma coisa conecta você a outra pessoa, e nem sempre é o sentimento que ambos dividem. Pode ser uma música, ou um livro, ou um broche. Pequenas coisas. Coisas até mesmo consideradas irrelevantes. Isso faz diferença.

Eu iria me empenhar nisso. Encontrar uma brecha, encontrar a conexão. Se meu destino não estava cooperando, eu iria cooperar a favor dele; por que não? Até mesmo o destino precisa de um empurrãozinho, não?


Parte II – Girls Do What They Want (The Maine)

Era estranho pensar que há alguns anos tudo estava tão diferente, tão normalizado, tão posicionado. Nada fora dos parâmetros, nada que causasse repreensão, nada que ultrajasse ninguém. Esses anos, perfeitamente alinhados e domesticados, certamente foram perdidos; não voltariam nunca mais, como um passado muito bem esquecido. Fantasmas que ultrapassaram a barreira e que não tiveram a necessidade de assustar os que permaneceram.

Os fantasmas, os anos que tinham se passado, eram o antes. E tudo o que veio depois aconteceu como... Certamente como um borrão. Tudo chegou como um trem-bala passando pela minha frente; rápido, sim, mas tão desconcertante quanto encarar a morte nos trilhos, caso eu desse um passo para frente.

O universo masculino é peculiar. Não temos o dom de fantasiar o futuro – não o longo-prazo –, nem de nos focar em milhões de coisas ao mesmo tempo. Geralmente, há um objetivo e um planejamento para alcançar as metas; é por isso que, muitas vezes, homens são estereotipados como sendo objetivos demais. Nosso mundo é um ciclo, não uma reta (que é infinita) como é o feminino. Não somos capazes de utilizar ao nosso favor a visão periférica, nem de não pensar em coisas esquisitas, a exemplo de misturar ketchup com manteiga de amendoim.

E, sim, nós gostamos de pensar em garotas. Quase que o tempo todo (quando não estamos pensando em videogames, ou em comida, ou em filmes com muito sangue). E com treze anos, as coisas não são diferentes. As coisas, na verdade, começam a se impor desta forma. Mecânica, focada, convergida. Mesmo com onze anos, eu já sabia que as meninas estavam começando a ir atrás de seus interesses – roupas, maquiagem e (por que não?) meninos. Quinn, desde a sua 'transformação', era a pessoa que mais me remetia a tudo isso; ao mundo feminino precoce. Quinn, desde criança, era graciosa. Do tipo que todo mundo parava para admirar. E desde que sua popularidade começou a crescer, sua graciosidade infantil se elevou a um patamar diferente: sobrepujou sua beleza pré-adolescente e, em seguida, a adolescente. Tudo nela ficou mais evidente e mais atraente.

E a cada dia ficava menos semelhante aos seus amigos. Estava mais parecida com os populares. Envolvendo-se com Santana e Brittany era uma evidente constatação: fazer amizades com as duas era como se ver livre de qualquer estereótipo destinado aos esquisitos; Quinn não era mais a menininha bonitinha que conquistava a todos, era a garota que humilhava algumas pessoas no corredor e fingia que era amiga de todos. Era agradável até certo ponto, mas estava mesmo é articulando tudo.

Percebia que sempre havia um pretexto para estar conosco – uma pergunta boba, uma risada em concordância, um encontro casual. Com 14 anos, as garotas se tornaram muito mais assustadoras – mais ousadas e mais diretas, Quinn inclusive.

"Ei, ótimo jogo", Quinn me disse quando eu acabara de sair do vestiário. Tive a impressão de que ela estava me esperando, porém não entendi se havia realmente um assunto importante para tratarmos. Nem Santana nem Brittany estavam à vista, então imaginei que ou estivesse passando sem intenção por ali, ou que estivesse ali com uma missão. Era notório o irritante ritual das meninas de andar em grupinhos; não havia como abordar alguma delas sem se expor diante das amigas que não eram nada discretas: começavam a dar risadinhas e diziam coisas como "Nós vamos para a mesa", e eu sabia que assim que todas estivessem reunidas mais uma vez tudo seria partilhado nos mínimos detalhes. Dessa forma, tornava-se impossível juntar coragem para falar diretamente e à sós com uma específica.

"Obrigado", eu disse, olhando para o chão. Encará-la naquele momento parecia-me muito insuportável, especialmente porque eu sabia que ela estava estudando minha reação com extrema minúcia e ansiedade. "Vai para a comemoração?", ela inquiriu. "É, acho que sim".

"Claro que vai, você é o capitão do time!", Quinn me disse sorrindo e me dando uma cotovelada suave na barriga. Ela era mais baixa que eu – praticamente todas as garotas eram mais baixas que eu – e tinha de elevar bastante seu queixo para me olhar nos olhos. "Você é o herói da partida, não ficou sabendo?".

"Não", neguei, balançando a cabeça. Parecia muito difícil caminhar num ritmo mais lento para acompanhar seus passos e agir naturalmente como se não estivesse tão abalado por sua presença tão marcante. "Quer dizer, eu não fiz muita coisa para salvar a partida", falei, querendo ser justo. Certo, eu era o quarterback, mas por que eu deveria brilhar mais do que os outros? Será que eu sempre deveria ser o elemento de destaque? "Se você não tivesse pegado o último lance na ofensiva, talvez não tivessem ganhado", Quinn disse. Não entendia como ela podia entender tanto de futebol sendo uma menina quase tão fútil quanto Santana e Brittany. Mas supunha que tivesse aprendido muito com os encontros que tivera com Puck ao longo ano que se passara. "Ah", soltei baixo. Era uma ótima observação, na verdade. Sair com uma garota como Quinn deveria ser divertido; talvez pudéssemos falar sobre futebol e sobre novas táticas e não ficar somente naquela coisa de elogios vagos e de conversas sobre nossas famílias problemáticas. Por mais intimidante que ela fosse, havia uma parte intacta dela que eu quase tinha vontade de alcançar. Um lugar de sua alma que ainda não fora corrompido pela popularidade.

Um breve silêncio reinou entre nós, somente quebrado quando lhe questionei sobre o restante das meninas. "Estão no campo, também vão para o Breadstix. Podemos sentar na sua mesa, o que acha?". Gostava da ousadia na sua fala, do jeito que sempre incitava a todos a concordarem com ela. "Parece legal", respondi. "E depois poderíamos tomar um sorvete juntos no Freeze sem ninguém por perto. Sei o quanto todo mundo pode ser realmente insuportável quando em bando", Quinn logo emendou com firmeza. Oh. Então será que ela também sabia o quanto andar com Santana e Brittany para todos os lados era realmente terrível? Porque isso, certamente, afastava a maioria dos garotos covardes. E podia-se dizer que com 14 anos eu era um garoto covarde. No entanto, parecia que ela não era uma menina covarde, sempre sabia o que queria e como queria. Por isso, conversar com ela era sempre desafiador e um pouco desencorajador. "É, um pouco", sorri sem jeito para ela.

O que aconteceu a seguir seria algo que eu guardaria na mente por muitos dias.

"Quinn?", atrás de nós alguém se pronunciou. Era uma menina e quando me virei para verificá-la notei que era Rachel. Sozinha. Esbaforida. Raivosa. "Quinn!", Rachel exclamou com mais emoção, com mais irritação. Quinn, que também a estava olhando – com desmedida raiva também –, se enrijeceu ao meu lado, notoriamente inflexível. Rachel andou com pressa até nós, muito séria. "O que foi?", Quinn lhe questionou com a face impassível e com o olhar carregado. "Não interessa o que esteja prestes a fazer, não vou lhe acobertar mais uma vez", Rachel disse. Uau, o que Quinn estava prestes a fazer? Não fazia ideia. Achava que iríamos comemorar a vitória do time e seguir para o Freeze. Não tinha sido esse o combinado? E por que Rachel deveria acobertá-la quanto a isso? Rachel era mesmo muito esquisita e louca.

"Eu não lhe pedi nada. Fique fora da conversa, Rachel", Quinn lhe disse com fervor. Os olhos de Rachel voaram em direção aos meus por uns dois segundos, mas logo se focaram mais uma vez na feição impenetrável de Quinn. "Talvez eu devesse ficar fora da sua vida, também", Rachel alegou. "Mas daí você não teria mais nenhum álibi para as suas noites 'do pijama'", ela adicionou como se fosse a dona da verdade. "Ou você vai pedir ajuda à Brittany? Aquela lá seria capaz de confundir um texugo com um guaxinim", Rachel desdenhou. Eu não conversava muito frequentemente com Brittany, mas ela parecia tão inofensiva quando um filhote de cachorrinho.

"Pela primeira vez na sua vida miserável, fique com a boca fechada, ok?", Quinn mandou. "Você não conhece meus amigos, aliás, você mal tem amigos. Não tem o direito de falar o que não sabe", ela prosseguiu tão impiedosa quanto sempre. Se eu não soubesse que as duas eram amigas – ainda eram amigas? Pela situação que estava se desenrolando a minha frente, poderia afirmar que não –, poderia dizer que havia certa rixa entre elas. Inveja, talvez. Era uma coisa bastante corriqueira entre garotas, não era? "Não preciso de você, de qualquer modo. O Kurt é muito melhor que você", Rachel retorquiu, sem parecer abalada. "Ótimo, seja amiga dele pelo resto da vida. O que está fazendo ainda aqui, se não precisa de mim? Ou será que acha que vai impressionar alguém soando tão criança?", Quinn respondeu. Olhei de Quinn para Rachel; gradualmente, sua face começou a adquirir uma tonalidade rósea. Ela olhou para o chão, meio humilhada, e então, inesperadamente, ergueu a cabeça e disse: "A criança aqui é você que se acha tão adulta só porque sabe manipular todo mundo". E sem atirar mais nenhuma ofensa se retirou tão rapidamente como chegou. Olhei para Quinn, calado.

"Sinto muito. A Rachel... Bem, parece que ela nunca vai crescer", ela me disse sem parecer estar sinto muita coisa. Seu tom sugeria certa impaciência, não vergonha. "Ahn, tudo bem", balbuciei incerto. Não havia muita coisa que poderia ser dita depois do que presenciei. No entanto, houve certa desistência de minha parte em passar o restante da noite com Quinn, ou perto dela. Se ela tinha sido capaz de destratar sua suposta melhor amiga daquela forma tão crua e bruta, qual era a validação que eu poderia ter para mim? Quinn, certamente, não era a pessoa que todos tinham a impressão de que fosse. "Vamos?", ela me perguntou. Abri a boca para contradizê-la, mas não consegui. Não faria sentido contestá-la. Isso somente faria com que ela pensasse o quanto eu, de fato, apreciava bem mais o comportamento de Rachel; ela podia ser 'criança', mas ao menos não tinha sido seduzida pelo poder ridículo incutido no McKinley. Assenti com a cabeça, sentindo-me tão criança quanto a própria descrição errônea de Rachel julgada por Quinn.


"Achei uma mesa", Quinn me puxou pelo pulso com força e rapidez, depois de dez minutos aguardando um lugar livre. Algumas meninas mais velhas ainda estavam acomodadas em seus bancos quando chegamos à mesa sobre a qual Quinn tinha dito. "Mas ainda está ocupada", falei. Quinn não deu atenção a mim; seu foco era as meninas. "Será que poderíamos nos sentar aqui, gente?", ela perguntou às outras. "Estamos aqui, não está vendo?", uma garota negra respondeu. "Já acabaram seus milk-shakes, o que quer dizer que estão saindo", Quinn observou. Uma loura, muito parecida com Quinn, fez questão de frisar: "Quer dizer que estamos conversando". Quinn sorriu para a garota do mesmo modo que Puck sorriria a um impopular que acabara de ser lançado na caçamba de lixo. "Quer dizer que estão saindo", ela repetiu com mais persistência.

"Você não é o quarterback?", a loura me questionou com cara de quem está muito entediada. "Yeah, sou", afirmei. "Junte-se a nós, então. Estávamos falando de você, sabia? Você realmente nasceu para ser um grande jogador, sabe? É o que acho", uma terceira garota se manifestou. "Oh, obrigado", eu agradeci. Quinn se adiantou à minha frente, procurando espaço na mesa. "Não você, seguidora de Jesus", a loura lhe respondeu. "Convidamos o quarterback". Franzi a testa, não compreendendo nada. Garotas são malucas, é isso que são! "Pois nós estamos juntos, e se ele se sentar, eu me sento também. Está sabendo dessa, cabelo escorrido?", Quinn retrucou com fervor.

"Vocês estão juntos?", a negra abriu a boca como se não fosse capaz de fechá-la nunca mais. Espere aí, eu e Quinn estávamos juntos? Claro que estávamos. Não estávamos? "É o que estão vendo, não é mesmo?", Quinn desdenhou. "Oh, meu Deus! Isso é incrível! Você pre-ci-sa sentar conosco!", a negra voltou a dizer com grande ansiedade. Não estava entendendo nada. Por que havia tanto ânimo, de repente? Quer dizer, eu e Quinn não estávamos realmente juntos como um casal. Éramos amigos, nada mais que isso. Não que eu soubesse. Por que eu nunca sabia de nada com certeza? Por que as garotas monopolizavam as informações?

"Claro, por que não?", Quinn sorriu para o grupo com evidente cinismo. Então, virou-se para mim. "Hey, por que você não compra uma vaca preta light com iogurte para mim?", ela me perguntou, quase afável. "Tudo bem", respondi. E então saí de perto dela, já que o falatório feminino estava estridente.

Seguindo para a fila, me deparei com Kurt aguardando seu pedido. Se Kurt estava ali Rachel, muito provavelmente, também estava. Se eu o abordasse e perguntasse por Rachel seria esquisito demais. Além do mais, poderia interpretar de modo completamente equivocado. Sim, eu ansiava por notícias dela, mas para checar se, depois do incidente na escola, continuava tudo bem. Rachel parecia inabalável, mas e se não fosse? Ela era como qualquer garota, não era? Confusa, sentimental, um alvo fácil se não estivesse cercada das pessoas certas. E Quinn não parecia ser uma pessoa certa para fazer parte da vida de Rachel.

Quando estava prestes a me dirigir a Kurt, Rachel apareceu no meu campo de visão. Pequena, desprotegida, séria demais. Estava do outro lado do restaurante, sentada sozinha numa mesa para dois, provavelmente aguardando Kurt retornar. Não entrei na fila: contornei-a e segui até o outro lado do balcão. Fiquei parado, observando-a quase que numa posição estática. "O que está fazendo?".

Pego pelo susto, arregalei os olhos. Kurt estava atrás de mim, me olhando inquisidor. "Oi", falei sem jeito. Desvie meus olhos de Rachel, porque senti meu rosto esquentar. "Oi, quer sair da minha frente?", Kurt perguntou. "Oh, claro. Desculpe", eu disse, dando um passo para o lado. Ele passou por mim, dizendo: "Sabe, é conveniente ir até a garota se quer falar algo a ela". "Mas eu não...", tentei ser rápido o bastante para negar qualquer coisa que estivesse rondando sua cabeça, mas não houve tempo. "Ah, você sim, meu caro", Kurt me respondeu e seguiu seu caminho.

Atacado por um desconforto jamais experimentado, fiz menção de retornar à fila, no entanto, percebi que Rachel maneou seu semblante para mim, me encarando brevemente. Abri a boca, sem saber o que pensar ou dizer. Tentei acenar, mas já era tarde demais. Pelo jeito, Kurt estava fofocando sobre me ter visto parado, olhando-a furtivamente (ou não tanto quanto esperava). Porém, aquilo não estava surtindo nenhum tipo de reação controversa nela; Rachel não parecia incomodada, ou feliz, ou até mesmo envergonhada. Parecia tão impassível quanto no confronto com Quinn, mais cedo.

O que deveria fazer? Andar até a mesa deles e conversar com Rachel, perguntar-lhe sobre seu estado emocional? Tal atitude soaria ridícula demais. Mas seria a verdade, ao menos. Eu não estava tentando fingir uma desculpa idiota para incitar um diálogo entre nós. E aquilo que Quinn me falara ainda rondava minha mente. Rachel não tinha crescido. Será mesmo que era tão ruim assim? Se Rachel não aprendesse a crescer, automaticamente, tornava Quinn a vencedora? Vencedora de quê, exatamente? Por que as garotas começavam a agir feito loucas depois de certa idade? Eu nunca iria entender. Olhei para depois da fila, em direção à Quinn: ela parecia estar enturmada, agora; animada com todas as possíveis especulações sobre como Quinn Fabray e Finn Hudson estavam juntos. Mas nós não estávamos. Não éramos um casal. Será que Quinn estava confirmando isso? Estava mentindo tão descaradamente? Tal pensamento me deixou irritado intimamente; resolvi sair do interior do restaurante e me alojei nas escadarias, onde havia uma concentração considerável de grupos de amigos e casais de verdade interagindo.

O tempo estava fresco e as flores dali perto pareciam exalar suas fragrâncias com mais distinção. Perguntei-me onde estaria Puck; geralmente, ele estava conosco, especialmente se Quinn estivesse junto. Mas não havia uma única evidência dele por ali. Estaria pichando algum muro, ou tentando ganhar alguma menina mais fácil, com certeza. Quinn era fácil até certo ponto, mas não cedia tão rapidamente – e aquilo certamente irritava Puck, por isso procurava diversificar seus encontros. "Quinn parece estar esperando você".

Kurt estava do outro lado da escada, sem Rachel. Procurei por ela, mas sem sucesso. Onde ela estava? "Ela foi ao banheiro", ele me disse. Tentei me fazer de desentendido, dando de ombros. Kurt riu de modo desagradável. "Não seja idiota, Finn. Sei que está procurando pela Rachel".

"Não é nada disso. Não estou... atrás dela, ou algo assim", tentei explicar rapidamente. Kurt ficou quieto, dessa vez. Escorou-se no corrimão e olhou diretamente para mim. "Não sei o que você pretende, mas parece se importar com ela", ele disse. "Eu apenas...", engrolei, perdendo-me nas palavras dele. "Eu sei, ela me contou. Mas fique sabendo que não deve nada à Rachel, até mesmo porque não fez nada para impedir qualquer coisa". Comprimi meus lábios, irritado. O que eu poderia ter feito, sinceramente? Por que me indisporia com Quinn por conta de uma briga boba? Sabia que era o certo a se fazer, apartar ou amenizar as ações de ambas, no entanto não precaveria muita coisa. Elas brigariam outra hora, em outro lugar.

"Como ela está?", perguntei depois de alguns segundos em silêncio. Kurt deu de ombros. "Como qualquer garota humilhada na frente de um cara", ele me disse. "E isso significa que ela...?", quis uma confirmação. "Que, por mais que você não queira evitá-la, ela o vai", Kurt elucidou. "Mas isso é uma completa bobagem", respondi. "Eu não a acho tão criança assim", comentei. Kurt elevou uma sobrancelha. "Ela não é como a Quinn, percebe?", ele me perguntou. Assenti. "Talvez ela não devesse querer se assemelhar tanto com Quinn", dei de ombros. "Gosto dela assim".

No mesmo segundo, quis engolir minhas palavras, mas já era tarde demais. Kurt as tinha ouvido, o que provocou certa surpresa nele. Não uma surpresa forçada ou fingida; era genuína, dessa vez.

"Verdade?".

Rachel surgiu atrás de algumas pessoas. Percebi que estava atenta como usual. Sua feição, tal qual a de Kurt, também expressava verdadeira surpresa. Então, notei uma quase imperceptível nuance em seu olhar; era como se seus olhos escuros estivessem com um brilho especial, diferente. Seus olhos antes apagados, agora estavam intensos.

Minha voz ficou muda, não conseguia pensar numa linha de raciocínio para seguir. Abri minha boca pela terceira vez em poucas horas, tendo ciência de que meu rosto deveria estar mais vermelho do que nunca. Não precisei confirmar nada à Rachel, pois logo em seguida ela falou: "Você é mais legal do que achei que fosse". Não contive o sorriso que se espalhou como que por encantamento. Não lembrava de saber que ela me achava legal. Pelo que sabia, Rachel, há quase dez anos, não gostava de mim. E, até aquele dia, eu achava que a recíproca era verdadeira. Pelo jeito, todas as teorias que tínhamos formulado e que vínhamos ostentando estavam desmoronando como castelos de areia.


Oi, gente! Desculpem-me pelo sumiço; eu já tinha uma boa parte do capítulo pronta no fim de semana passado, no entanto, não consegui finalizá-lo a tempo e os afazeres da faculdade e do estágio me deixaram completamente sem tempo e sem inspiração! D: Mas espero que este chapter novinho animem vocês! Não posso prometer a próxima postagem para o próximo fim de semana, mas juro que vou me esforçar ao máximo para encontrar um tempo para me dedicar à esta fanfic!

Awn awn, esse Finn é tão amorzinho! *-* E a Rachel? Sério, sofro por metê-la nas situações que ela passa com a Quinn D: Mas daqui a pouco tudo vai ser tão fofo quanto um algodão-doce qqq

Beijos e até o próximo capítulo! (: