Parte I – Wings (Birdy)

Pausei Lily The Pink no meio da canção. Meu iPhone quase caiu da minha mão tamanha a surpresa assim que meus olhos encontraram os dizeres coloridos que preenchiam a porta: "Keep Calm and Sing Along".

Música!

Onde eu estava e o que estava fazendo quando isso aconteceu? Desde quando existia um nicho dedicado à música no McKinley? Porque é claro que se existisse há algum tempo eu teria sido a primeira a me manifestar a favor e a liderar o grupo! Por que nunca tinham me dito que eu estudava com pessoas como eu, que também apreciavam as notas musicais? Espiei lá dentro: instrumentos diversos estavam distribuídos pela sala, enquanto pianos coloridos estavam dispostos ao fundo e mais cartazes alegravam o ambiente com frases retiradas de canções – algumas eu até reconhecia. Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Eu não conseguia refrear as batidas loucas do meu coração, nem a imensa vontade de me adentrar na sala e admirar cada pedacinho exposto. Com a música pausada e com a minha mente em êxtase, dei o primeiro passo. Por mais que a porta estivesse fechada, indicando que o interior do local estava inacessível, tentei a maçaneta mesmo assim. Felizmente, a sala não estava trancada. Meu coração bateu com mais vontade: parecia a porta para o paraíso!

Uma lufada de ar fresco me atingiu devido às janelas superiores abertas. Senti-me como que renovada. Todas as coisas pelas quais já tinha passado, em alguns segundos, desapareceram totalmente e tudo o que conseguia registrar era a excitação de estar prestes a deixar minhas digitais em todos os pianos dali. Sentei-me no primeiro banquinho que vi em frente de um piano lilás com uma camada de glitter. Minha estreia naquela sala seria triunfal. Não me importava se me colocaria em apuros caso fosse encontrada ali sem permissão, valia a pena – não me importava com o que aquele lugar representava, eu estava disposta a fazer parte dele. Se havia música era minha casa.

Passei minhas pontas dos dedos pelas teclas do piano como se estivesse tentando decorá-las. Logo em seguida, comecei a tocar a melodia de Against The Wind. A porta se mantinha aberta, mas isso de modo algum me intimou. Se me ouvissem tocando certamente iriam querer conferir – isso seria um bônus, eu amava uma plateia. E quem quer que fossem os integrantes desse novo clube escolar reconheceriam meu talento, caso encarassem a música com tanta seriedade quanto eu. E apenas conferindo o aparato musical deles, uau, eles pareciam bastante focados nas tarefas! Se eu pudesse me inserir ali... Ah! Eu poderia fazer parte de uma parcela realmente distinta da escola! Eu seria muito mais do que a menina esquisita dos pais gays. E eu teria uma chance com Finn! Claro! Ele finalmente veria que eu era alguém especial, alguém merecedora de atenção, alguém que se assemelhava com ele! Afinal, ele era a estrela do time de futebol. E, naturalmente, eu já era uma estrela quando cantava. Duas pessoas brilhantes juntas só poderiam fomentar um relacionamento memorável e maravilhoso!

"Hey, garota branquela", alguém falou com segurança e propriedade há alguns metros de mim, no patamar da porta. Levei um susto, pois não achava que a plateia apareceria tão rapidamente. Eu só estava tocando há poucos segundos! Será que a menina – porque era uma menina, eu nem precisava me virar para averiguar isso – estava me vigiando no corredor, e eu não prestara atenção? Droga! Ela iria me expulsar dali, tinha certeza! Seu tom sugeria desagrado e muita seriedade. Maneei o pescoço, estampando no rosto uma expressão amigável, caso ela fosse ser rude comigo. Eu era inofensiva! Não estava tentando roubar nem destruir nada! Será que a garota achava que eu estava tentando provocar algum dano nos equipamentos? Eu jamais teria coragem de fazer tal coisa! "Oi", eu disse, porque não sabia ao certo como saudá-la. Quer dizer, veja só: eu era uma desconhecida dentro de uma sala que nem cogitava existir! Certamente, eu era muito suspeita, não? "Escuta aqui, você não faz parte do bando da Treinadora Sylvester, faz?", a garota negra com roupas coloridas franziu as sobrancelhas como se estivesse muito desconfiada. Talvez, houvesse ali motivos de sobra para constatar a sua desconfiança. Boa parte dos alunos da minha série sabia quem eu era devido aos boatos insanos que lançavam a meu respeito, então era capaz de ela também me conhecer – a menina judia cujo melhor amigo tinha uma sexualidade ainda indefinida e cujos pais eram os mais animados do público nas peças escolares musicais; eu tinha entrado para o clube de teatro por um curto período de tempo, mas haviam me expulsado por conta de divergências de ego: segundo eles, meu ego afetava a todos.

"N-não!", exclamei. Fazer parte do time da treinadora Sylvester significava estar abaixo da linha de confiança, e ninguém que fosse digno o bastante queria ou gostaria de se aliar à treinadora. Primeiro, porque ela era um tanto quanto desumana com suas líderes de torcida. Segundo, porque ela não suportava os adolescentes de maneira geral, o que acabava rendendo muitas reclamações para o diretor sobre palavras ignóbeis, pejorativas e humilhantes que 'escapavam' (segundo seus relatos) de sua boca. E terceiro, porque todos tinham ciência de que ela era mestre em tentar acabar com todo mundo que considerasse uma ameaça, gerando ondas de indignação quando outros professores descobriam escutas clandestinas em suas salas. "E-eu...", gaguejei inutilmente. Por que eu tinha de gaguejar justo naquele momento? A garota ergueu de novo as sobrancelhas, agora notando o quanto eu me esforçava para não soar esquisita. E para explicar, claro, o porquê estava ali, quando não fazia parte do conjunto todo. Será que ela era uma das integrantes do clube? "Sei, você achou o piano e não pôde segurar a vontade de tocá-lo. Sou assim com um microfone, entendo você", ela me disse, exprimindo um pouco mais de amizade. Soltei o ar que estava represado por pura intimidação. Normalmente, era eu quem intimidava as pessoas, mas esse lugar... Do mesmo modo como me instigava e me excitava, também me intimidava. Não deveria me sentir assim no meu mundo particular, não é mesmo? Quer dizer, não que eu fizesse parte dele. Não por ora, mas era questão de tempo. Se me expulsaram do clube de teatro haveria um lugar para mim no clube de música – se é que aquilo era, de fato, um clube de música. Bem, claro que os instrumentos não enganavam, mas será que seus integrantes encaravam o objetivo do clube com ferrenha profissionalidade?

Sorri para ela, tentando demonstrar mais segurança. "Você é amiga do Kurt, não é?", ela me perguntou, se aproximando mais. Assenti. "Imaginei, vocês dois são tão... Como é que dizem? Destoados? É, acho que é isso. Rachel, não?". Confirmei. "Sim", falei me levantando do banquinho. Ela era mais alta que eu – quase todo mundo era. Mesmo com meus recém 15 anos, aquela teoria dos meus pais que dizia que a partir da minha pré-adolescência eu cresceria bem mais do que achava não estava se provando tão válida. "Mercedes", a negra falou, apertando minha mãe com força, mas sem me ferir. "Então, isso é um clube, ou o quê?", questionei, olhando ao redor para conferir os cartazes e um quadro cuja frase exibida era 'Recomeços'. "Garota, você gosta de piano e nunca tinha vindo aqui? Você mora numa toca, ou numa caverna, por acaso?", Mercedes riu, e notei que ela não estava tentando me humilhar, estava apenas tentando fazer graça. "Não sabia que existiam programas de artes musicais aqui", falei – eu sempre reproduzia isso a quem quisesse ou não ouvir: que não existiam programas de artes musicais no McKinley, e talvez fosse por isso que eu e Kurt nos sentíssemos tão deslocados naquele ambiente. Nada realmente tinha graça na escola. "E continua não existindo", Mercedes afirmou. Estava prestes a retrucar, quando ela prosseguiu: "Eu e dois amigos, acho que você os deve conhecer, a Tina e o Artie... Bem, nós frequentamos uma oficina de teatro musical durante as férias e resolvemos iniciar uma oficina aqui também, mas não é nada oficial – não é clube, eu acho. É apenas um lugar que nos cederam para passarmos algumas horas. A treinadora Sylvester tentou interditar a nossa iniciativa, tentou nos colocar no porão, mas o Sr. Shuester, o professor de Espanhol, nos emprestou essa sala, que era usada para as aulas de línguas à comunidade".

Eu me lembrava do professor de Espanhol. Quem não lembrava? Ele encerrava suas aulas cantando La Cucaracha, era um completo vexame, mas parecia que ele não conseguia mudar seu reportório nem se importava se estava ou não entretendo os alunos. "E ele, o professor, é o coordenador dessa... Bem, 'oficina'?", perguntei. Mas ele não era o professor de Espanhol? Quer dizer, Sr. Schuester até tinha ritmo e uma boa voz, mas agora comandar uma oficina de música? Era um pouco presunçoso demais! Será que ninguém o avisava, na sala dos professores, que ninguém mais cantava La Cucaracha há mais de vinte anos? "Não, claro que não. Ele mal sabe o que fazemos, na verdade. Quer dizer, explicamos a ele e ao diretor Figgins o intuito da oficina, mas ninguém nos monitora ou nos coordena. Somos independentes nesse sentido, o que acaba sendo ótimo", Mercedes tratou de explicar. "Você sabe cantar?", perguntou.

"Devo cantar desde os dois anos, ou algo assim", sorri a ela, meio sem jeito. Meu talento era grande, não queria que ela sentisse ofuscada por ele, ou com inveja de mim. Se eu quisesse mesmo entrar naquela oficina era bom me manter humilde por algum tempo, até ter pleno controle da situação. "Meus pais ainda têm algumas coisas gravadas dessa época. Interpreto canções de musicais com facilidade. Gosto de cantar, é o que pretendo fazer pelo resto da minha vida", eu acabei dizendo. Não pretendia abrir a minha vida a ela, mas era necessário que Mercedes soubesse o quanto eu me dedicava – e me dedicaria – à minha paixão eterna: os palcos. Mercedes ficou me encarando com um olhar vigilante e desconfiado por poucos segundos. "Sabe, pessoalmente até que você não parece tão insuportável quanto todo mundo diz. Claro, você tem essa tendência de fingir não estar se gabando, mas desde que não queira roubar os holofotes somente para si, acho que tem chance de fazer parte do nosso grupo. Afinal, você está louca para saber sobre isso, não é? Não foi por isso que sentou no piano e ficou desejando que alguém aparecesse?", Mercedes perguntou com certa prepotência.

O quê? Ela sabia o que estava se passando dentro da minha mente aquele tempo todo?

"Eu acho que você andou comendo burritos demais", falei.

"Tanto faz. Você quer ou não entrar para a oficina?", Mercedes quis saber. "Acho que deveríamos chamar isso de clube", sugeri na mesma hora. Aquela coisa de 'oficina' não iria soar bem fora daquela sala. Além do mais, não havia objetivo direto nenhum em formar grandes artistas – era somente uma aula extracurricular, por assim dizer. E se não houvesse um mentor de nada valeria o nosso esforço. "Você mal entrou e já está opinando, que maravilha. Sinto que iremos nos dar muito bem", ela desdenhou. "Eu apenas quero ajudar", falei, um pouco ultrajada. Alô, qual era o problema dela? Alguém também sofria de egotismo! "Sua audição é a partir das 15h30".

"Audição?", exclamei, descrente. "Eu achei que você tinha acabado de me inquirir sobre a minha vontade de fazer parte do clube!". Mercedes parecia impaciente. "Oficina", ela me corrigiu antes de continuar. "Para ser efetivada como membro constante você deve enfrentar uma audição. Se quer levar isso a sério, vai ter que se acostumar. Por quê? Acha que não canta tão bem como imagina?".

"Eu sei do que sou capaz, pode deixar", respondi. "Então?".

"Estarei aqui às 15h30", afirmei.

"Ótimo. Boa sorte".


"Uma o quê?", Kurt apertou os olhos para mim, enquanto corríamos juntos ao redor do campo. Ele era um ótimo parceiro de Educação Física, porque era tão magricelo quanto eu e nossas habilidades quase nulas em qualquer esporte eram semelhantes. "Oficina. Tipo um clube", respondi. "Tem certeza de que isso não é uma pegadinha? Talvez os veteranos estejam inovando agora: coagem pessoas neutras da pirâmide hierárquica para pregar peças nos impopulares", Kurt arriscou.

"Pelo que sei o Artie e a Tina são tão alvos dos populares quanto nós", observei. "Não sei", ele respondeu, cético. "Ainda parece que tem alguma coisa errada", Kurt olhou para mim sério e questionador. Eu não disse nada por um tempo, continuamos a correr naquele ritmo lento que era sempre corrigido com os gritos do professor. "Vou ter uma audição às 15h30. Você deveria vir comigo", comecei a me animar com essa possibilidade. Se nós dois fizéssemos parte do mesmo clube, talvez conseguíssemos nos misturar mais com as pessoas – mesmo que elas, tal como nós, fossem impopulares também. "Mas nem se a Lady Gaga me convidar! Não vou dar mais motivos para que as pessoas me excluam!", Kurt alegou com vontade. "Quer deixar de ser besta? É justamente o contrário! Nós vamos nos integrar mais! Talvez entremos até mesmo no circuito de concursos de clubes de música! Já pensou?", não pude me desfazer de minha empolgação. "É insano e completamente irreal, Rachel", ele me respondeu.

"E aí, seus lerdos?", Quinn se equiparou a nós. Raramente ela tinha a pretensão de ser vista interagindo conosco, porém meu instinto me alertava que ela apenas queria saber se valia a pena espalhar ou não o que estávamos conversando. "O que aconteceu com a sua calça de ginástica?", Kurt perguntou na mesma hora, analisando com repreensão as pernas expostas dela. "O que aconteceu com o seu cérebro funcionando? Fundiu por causa do calor?", Quinn retrucou no mesmo tom, mas com um adicional: o tom sugestivamente maldoso. Não dando tempo algum para que Kurt respondesse, ou para que eu o defendesse, Quinn saiu falando: "Estamos no verão, e no verão as pessoas usam shorts. Além do mais, quem é que não quer admirar as minhas pernas de fora, à exceção de você, obviamente?". Eu estava com calor sob aquele Sol beirando os 27ºC com a minha calça de ginástica, no entanto eu é que não abriria a minha boca para concordar com Quinn. Ademais, eu nunca gostara muito das minhas pernas magricelas descobertas durante a Educação Física, especialmente quando eu tinha de dividir o campo com Noah e ouvi-lo discorrer elogios completamente sarcásticos e falsos a respeito delas. "Eu não estou nem aí para as pernas de ninguém. E você é muito presunçosa por achar que as suas merecem o privilégio de serem vistas como um troféu ridículo", Kurt, sem parar de correr, mencionou com o cenho franzido ao mirá-la com reprovação. "Você é tão maricas, Kurt!", Quinn desatou a rir, de repente. "Uma perfeita menininha! Você e Rachel têm muito em comum, sinceramente", ela disse e deu partida pela pista, correndo tão aceleradamente que achei que estivesse apostando com alguém invisível.

"Eu já disse que a cada ano que passa, ela fica cada vez mais irreconhecível?", perguntei, um pouco sem jeito, mas com raiva pelo modo como ela se referiu a Kurt. "Se por 'irreconhecível' você quer dizer 'vaca', ou 'estúpida', eu concordo plenamente", ele se pronunciou com o mesmo fervor que eu, embora não parecendo estar tão afetado quanto eu. Eu tinha muita admiração pela maneira com que Kurt lidava com aquelas as ofensas que atiravam a ele; nenhuma delas, até então, tinham desestruturado sua compostura alheia. Ele fingia que não ouvia as humilhações, apenas isso. Eu, por outro lado, ficava um pouco desconcertada, pois as injúrias eram tão vexatórias quanto as que eram dirigidas a mim – felizmente, nada relacionado à minha sexualidade dúbia. E quando elas vinham de Quinn, tudo parecia muito pior. Nós tínhamos, por algum tempo, a considerado nossa melhor amiga, achávamos que cresceríamos sem brigas, sem rupturas, sem mal entendidos – porém, conforme os anos iam se passando, mais frequentes os desentendimentos ocorriam; a certo ponto, não me recordava quando, eu e Kurt entráramos em um acordo quanto à nossa amizade com Quinn: a destituímos do cargo de amiga e passamos a conviver com ela como uma colega. E assim se fazia: não tínhamos obrigações alguma para quem ela, assim como ela não as tinha conosco. Parecia que desse jeito, as coisas funcionavam um pouco melhores. Cada um passou a ser quem quisesse, sem a interferência dos outros. Claro que eu e Kurt permanecemos juntos, já que o ato a discriminação que sofríamos pelos nossos colegas nos unia cada vez mais.

Continuamos a correr por alguns minutos, em silêncio. Não que houvesse se instalado uma onda de constrangimento entre nós – esse tipo de coisa não era corriqueira entre mim e Kurt, já que ambos éramos muito tagarelas a ponto de se calar por vergonha. Mas acho que cada um mergulhou nos próprios pensamentos. Eu ainda estava enfrentando um dilema: e se eu não fosse incrível na audição proposta por Mercedes? Eu, com certeza, arruinaria com as minhas chances de me inserir num contexto social de meu apreço. E havia outra coisa: e se meu plano de atingir Finn com meu talento não funcionasse? E se ele nem ao menos me notasse por estar fazendo parte de algo considerado legal? – se é que um clube de música fosse mesmo considerado 'legal' por entre os populares. Noah não parecia entender a magnânima de se ter um talento que poderia conquistar o mundo, por exemplo.

"E quanto à audição? Você ainda acha que é uma péssima ideia?", inquiri no momento em que desaceleramos por ordens do professor. "Tudo é considerado uma péssima ideia tratando-se do McKinley, nunca se deu conta disso?", Kurt refutou com veemência. Estava prestes a abrir a boca, quando ele complementou, dando de ombros: "Mas se você está convicta de que pode ter algo a ganhar, por que não?".

Sorri para ele, mostrando-me grata ao seu apoio. Kurt, no entanto, não expressou nada em sua feição, ainda parecia estar no seu mundinho perfeito de roupas brilhantes e bules de chá cor de rosa. Era um mundinho bonito, precisava confessar.


"O que está fazendo aqui?", Artie Abrams me perguntou assim que me adentrei no auditório; ele estava justamente perto da porta conversando com Tina Cohen-Chang e deslizou sua cadeira de rodas no mesmo instante para minha frente, o que dava a impressão que estava tentando me barrar de chegar até o palco. Achei que fosse esbarrar em mim, mas, talvez por conta de sua imensa habilidade naquela cadeira, brecou-a a alguns centímetros longe de meus pés. "Cadê a Mercedes?", logo questionei. Não que eu o discriminasse por ser cadeirante, mas como não havia nenhum tipo de vínculo entre nós, achei que poderia buscar algum apoio em alguém que eu já conversara antes, no caso a Mercedes. Ademais, fora ela que me sugerira a audição. Onde ela estava, afinal, que não estava ali? "Ah, não! Não me diga que isso está acontecendo!", de repente, Artie exclamou, parecendo horrorizado. "O que está acontecendo?", quis saber, confusa. "Mercedes ficou louca, só pode", ele disse, mas não para mim: para Tina.

"Licença, mas o...", minha frase morreu antes mesmo que eu pudesse acelerá-la. "M-ercedes d-disse que vo-você viria p-para uma audição", Tina gaguejou. Nunca tinha entendido essa coisa dela; nas aulas ela parecia tão invisível e, geralmente, ninguém tinha paciência para conversar com ela devido à sua gagueira descomunal. Sempre tive vontade de perguntar se Tina apenas fingia aquilo, ou se tinha lhe dado algum diagnóstico válido. Franzi a testa. "Bem, é para isso mesmo que estou aqui", respondi. Tina trocou um olhar com Artie. "Nem pense nisso! Nós não estamos abrindo vaga para uma estrela egocêntrica", ele me disse com propriedade, transparecendo intolerância. Eu nem tinha dito nada! Será que mesmo eles davam ouvidos às importunações que eu era obrigada a ouvir dos populares que apenas queriam parecer superiores? E por que meus ex-colegas de teatro tiveram de disseminar essa ideia ridícula sobre eu ser egocêntrica? Tudo bem, eu era um pouco controladora e adorava ser o centro das atenções, mas de modo algum significava que eu era egocêntrica! Quem é que não amava saber que todos os olhos da plateia estavam em cima de você? Por que me privar desses momentos tão gratificantes e poderosos? Ao invés de negar sua sentença, apenas constatei: "Ainda vou cantar".

Nisto, Mercedes enfim chegou meio derrapando com seus cadernos e livros nos braços, muito esbaforida. "Hey, branquelos. Cadê o jogo de luzes que pedi?", notei que ela se dirigiu à Artie e Tina, e isso me deu confiança. Jogos de luzes significavam que o palco estava sendo preparado para uma apresentação. E pelo visto era a minha, pela maneira como seu olhar recaiu em mim como se estivesse muito surpresa por me ver em sua frente. "Me diga que é brincadeira", implorou Artie. Ela o ignorou, perguntando-me: "Precisa de aquecimento?". Neguei sem proferir nada. "Ótimo. As luzes já estarão prontas para você, assim que o Artie e a Tina aqui recuperarem a capacidade de serem úteis", Mercedes disse, fulminando-os com o olhar enquanto depositava seus materiais numa cadeira próxima. "Mas...", Artie exclamou, impotente. Recebeu em troca olhar fatal, desistiu de lutar e ao passar por mim quase acertou meus pés; diria que foi proposital se eu não estivesse tão feliz e se não nutrisse certa pena por ele estar naquela cadeira de rodas.

Havia muita profissionalidade em Mercedes. Tanta que me impressionou: ela se encaminhou a uma mesa retangular postada na parte dianteira do auditório, em frente ao palco, sentou-se e não me dirigiu mais a palavra até que enfim Tina e Artie nos avisaram que estava tudo acertado no jogo de luzes. "O palco é seu", ela falou, e tive a impressão de que a avaliação já tinha começo, a julgar pelo seu olhar atento aos meus movimentos. Quando cheguei lá em cima, Tina e Artie já estavam equiparados à Mercedes na mesa, analisando-me criticamente.

Respirei fundo. Fechei os olhos. Dizem que em momentos de desespero você tem que controlar os batimentos cardíacos do seu coração e a sua respiração. Estava tentando fazer com que meu corpo se acalmasse o suficiente para que eu não perdesse toda a evidente excitação que percorria meu corpo – a adrenalina é bem-vinda em alguns casos, já que te faz fazer coisas incríveis. E eu queria ser mais do que incrível naquela hora; queria ser extraordinária, queria que eles não conseguissem esquecer a minha voz e que, imediatamente, implorassem para que eu me juntasse ao clube deles. Posicionei-me à frente do microfone e olhei para os três lá embaixo. Eles pareciam ainda mais esquisitos do que eu, Quinn e Kurt juntos. "Meu nome é Rachel Berry", comecei a dizer e percebi os olhos de Artie se revirando em suas pálpebras, "E irei cantar Wings, da Birdy". Mercedes assentiu brevemente como que dando-me o sinal para que eu iniciasse as primeiras notas. O piano começou seu trabalho em conjunto com o violão, propagando uma melodia ainda mais doce e graciosa do que a canção original.

Nada de pânico. Por que eu estaria em pânico? Eu sabia cantar – cantar era a minha vida, a ofereceria à música integralmente. Eu tinha ciência de eu talento e do quanto poderia alcançar com ele. Não poderia ter uma chance de arruinar tudo, por isso me surpreendi quando Finn me apareceu na mente. Não o Finn de 15 anos, atleta, popular, meio perdido na vida. Mas o Finn de 5 anos, tímido, silencioso, meu marido de mentira. Mesmo que suas palavras, depois de 10 anos, ainda ressoassem nos meus ouvidos – "você não é nada legal, você é assustadora" – aquele Finn parecia me dar firmeza e claridade.

Sunligts comes creeping in...

Uau, a minha voz estava tão clara, tão forte, tão confiante! Esse era o meu intuito: que eu parecesse inesquecível diante deles.

Fora naquele dia que eu me apaixonara pela primeira vez. Eu tinha saído de casa com meus pais, amando-os somente, e retornara com outra pessoa nos pensamentos: um garotinho que me fez ficar com raiva e depois meio triste. Queria desesperadamente ser amiga dele de alguma forma, mesmo que isso implicasse correr riscos. Ao contrário do que acreditei por alguns anos – até me dar conta que, afinal, não haveria nenhum outro garoto na minha vida além de Finn –, eu gostava dele mesmo aos cinco anos; aprendi a ignorá-lo por puro resguardo: ser fria era mais aceitável do que sofrer por querê-lo e não poder nem mesmo me aproximar dele. Quando relatei aos meus pais sobre o incidente, eles acharam graça. "Nem todo mundo vai gostar de você", Hiram tinha dito. Mas eu tinha cinco anos, todo mundo deveria gostar de mim! Por que Finn não gostava? "Ele não gosta de gatos! Como alguém pode não gostar de gatos?", eu perguntara. "E ele não gosta de cantar, também!", eu refutara com mais vigor como se aquilo fosse a coisa mais chocante que, em todos os meus cinco anos de vida, tivesse ouvido. "Ele disse que isso não é nada legal, que eu não sou nada legal!", adicionei aos arrancos, esperando que meus pais se comovessem e fossem fazer alguma coisa. "Princesa, ele não é obrigado a gostar de gatos, nem de cantar, nem de você. Mas quem sabe com o tempo, ele venha a gostar. Por que você não o ensina a gostar dessas coisas também?", Hiram continuara, determinado a me fazer entender uma complexidade que crianças teimosas definitivamente não acompanham com facilidade. "Eu não quero falar nunca mais com ele!", eu dissera alto, deixando que minha raiva se aflorasse mais uma vez. "Eu não gosto mais dele, ele é um idiota!". Meus pais acharam que isso passaria, que eu e Finn nos reuniríamos e 'faríamos as pazes', no entanto isso nunca aconteceu. Finn nunca pedira desculpas a mim, e nem eu a ele.

We'd remember tonight for the rest of our lives.

Abri os olhos. Não me recordava quando é que os cerrara, talvez durante as primeiras estrofes. O palco estava resplandecente sob as luzes intensas dos holofotes direcionados. Eu estava com a impressão de que me incendiaria a qualquer momento. Meus músculos pegavam fogo como quando nos movimentamos por um curto período de tempo, mas a toda velocidade: no aquecimento do teatro chamávamos isso de 'panela de pressão'. Eu me sentia prestes a explodir como nas atividades de preparação corporal. Foquei-me nos três: não pareciam muito expressivos, à exceção de suas bocas entreabertas e os olhos vidrados em mim com atenção. Artie virou-se para Mercedes, buscando apoio. Fiquei curiosa, pois parecia que ele estava louco para confidenciar algo com ela. As cabeças dos três se juntaram por alguns segundos, enquanto eu tentava dissipar toda a energia acumulada, e então Artie disse: "Seu egotismo é o talento mais surpreendente que já ouvi". Sorri, sem me conter. Olhei para Mercedes e Tina, a fim de ter a aprovação delas também. "I-isso foi re-realmente m-muito bom, R-rachel!", Tina exclamou.

"Bem-vinda ao clube, branquela", Mercedes pontuou com um sorriso.

Sorri de volta a ela com meu coração martelando forte contra minhas costelas por conta da excitação que assaltou meu corpo novamente.


Parte II – Everything Has Changed (Taylor Swift ft. Ed Sheeran)

"Preciso ir ao shopping com Santana e Brittany. Quer vir junto?".

Quinn era tão rápida quanto os integrantes do time de futebol, o que tornava a missão de me afastar dela altamente impossível. Além do mais, ela estava me perseguindo de tal maneira que nada a afugentaria de perto de mim, nem mesmo meu suor. Continuei a apertar o passo, mesmo sabendo que ela apertaria o dela também. "Tenho lição de casa. Muita", eu disse. Shopping com as três juntas era um inferno: elas me ignoravam a quase todo instante, além de só debaterem sobre quem deveria passar por cirurgias estéticas e sobre quem era ou não bonito(a) no McKinley. Era insuportável. E, de certo modo, eu não precisava nem mentir, já que acumulara boa parte da matéria de Espanhol e de Cálculo. Se ao menos Quinn se oferecesse para me ajudar, talvez eu pudesse concordar mais vezes de acompanha-la naqueles programas femininos maçantes.

Mesmo de relance, pude averiguá-la rolar os olhos, irritada. "Você parece um velho", ela observou. "Vou com você, mas só com você, outro dia, ok? Prometo", eu tentei compensá-la, ainda que soubesse ser incorreto. Era como oferecer um sorvete a uma criança que acabou de fazer birra. Porém, não queria que ela ficasse chateada, ou mais irritada ainda. Eu tinha consciência das coisas que ela contava às suas amigas Cheerios e não queria que ela conquistasse mais um motivo para se ater ao assunto 'Finn e Quinn'. Era um slogan tão ruim que parecia título de livro infantil. "Você vive prometendo coisas idiotas", ela me respondeu. "Por exemplo, você não jantou na minha casa no sábado. Disse que o faria, mas o que foi mesmo que aconteceu? Seu cachorro morreu?", seu tom sugeria muito sarcasmo, e eu não sabia se gostava daquilo. Quinn estava sempre debochando de todos, inclusive de mim – por mais que fôssemos consideramos um casal. Casais não agem assim, agem? Quer dizer, eu não caçoava dela, ou dizia-lhe ofensas ácidas. "Era aniversário de morte do meu pai", falei baixo. Não gostava de tocar neste assunto com ninguém, porque as reações eram diversas: a) as pessoas ficavam sem jeito, b) duvidavam da minha confirmação, c) ignoravam a palavra 'morte' e d) ficavam prestes a chorar e repetiam com culpa 'eu sinto muito'. Não que alguma delas abrandasse o vazio constante no meu peito. Eu evitava compartilhar publicamente essa notícia, também porque as vidas alheias não paravam por conta disso. Ninguém realmente se importava com a minha perda, então eu achava melhor guardá-la somente para mim. "Eu e minha mãe fazemos meio que... Tipo um ritual caseiro", continuei. Não que ela se importasse, de qualquer maneira. Eu sabia que nem mesmo Quinn, a garota com quem eu namorava, queria saber do que acontecia no aniversário de morte do meu pai. Porque ela tinha pai e nunca entenderia a falta que o meu fazia.

"Vocês sacrificam esquilos?", ela riu. Neguei com a cabeça. Não queria mais falar sobre aquilo. Manter uma conversa neutra com Quinn já era árduo, imagine dialogar sobre a intimidade familiar. Tudo o que ela sabia fazer era comentar sarcasticamente. Deixei que o silêncio se prolongasse, para que isso surtisse algum efeito nela: talvez ela me deixasse correr na pista, sozinho; não era acostumado a ter dupla nesse tipo de coisa; gostava de correr livre, sem nenhuma conversação me prendendo. "A gente se vê depois", ela disse e sem nenhum tipo de contato afetuoso saiu correndo ainda mais rápido à minha frente.

Era claro que nos veríamos; eu teria de fingir que era o namorado-cachorrinho dela durante os intervalos e o almoço. Quinn e Finn. Finn e Quinn. Se ao menos algum de nós estivesse morrendo de câncer...


"Por que não?", Puck quis saber. "A pergunta correta seria 'por que sim?'. Não há nada que me estimule a ir ao shopping com elas", falei duramente, enquanto ele calçava os tênis, e eu tentava fechar meu armário sempre emperrado. "Vamos ver. Haverá três garotas na sua companhia. Isso não é o suficiente?", ele me lançou um olhar muito parecido com o de Quinn, sempre que ela repreendia com desdenho. "Acredite, três delas é três vezes o inferno", pontuei, finalmente trancando meu armário. O banheiro estava balhurento como sempre depois dos treinos, mas pelo menos ali nos bancos dava para conversar quase que sem falar alto, o que era ótimo – não queria que ninguém, além de Puck, soubesse que eu deixaria minha namorada sair com as amigas. De acordo com o manual completamente pirado de Puck, conceder esse voto de confiança à Quinn era perder território. A meu ver, entretanto, eu não era dono de Quinn, portanto era incabível a ideia de que ela deveria pedir permissão para ir até a esquina, ou que por estar saindo sem mim por perto eu estaria dando a ela a chance de me provar alguma infidelidade. Puck deu de ombros, mas eu sabia que por dentro estava me zombando. Não que me incomodasse; eu não era de me importar com muita coisa. "Preciso ir, talvez eu passe mais tarde no Freeze", eu disse. Puck acenou com a cabeça, sem erguer os olhos do celular, para demonstrar que me ouvira.

Apanhei minha mochila recheada de deveres e de livros ainda não lidos e parti para o corredor. Ainda estava abafado ali fora, mas não tanto quanto no banheiro. Caminhei até o final do corredor e desci as escadas. Parei nos quadros de aviso para averiguar se havia alguma coisa útil ou interessante – nada; ultimamente, nada chamava a minha atenção, de todo modo. Desci mais um lance e olhei a gôndola onde ficavam alguns panfletos culturais e os exemplares avulsos do jornal da escola. Embora nada daquilo me interessava, fui até eles e passei os olhos em cada um dos títulos. Filmes franceses. Filmes locais. Filmes independentes. Filmes estudantis. Feiras de doação. Feiras de livros. Palestras sobre Sociologia. Palestras sobre Conhecimento e Filosofia. Suspirei. Então ouvi um ruído em algum lugar. Alguém falando num microfone. Não. Alguém cantando num microfone.

Franzi a testa e apurei os ouvidos. Estava um pouco baixo e distante, mas com certeza quem cantava estava fazendo isso direito. Ali no térreo havia o auditório também, mas do lado oposto ao que eu me encontrava. Movido pela curiosidade, deixei os panfletos para trás, caminhando apressado para a porta entreaberta do auditório. Finquei meus pés bem diante da porta, indeciso sobre abri-la ou não. E se eu a abrisse e atrapalhasse quem quer que estivesse cantando? Eu apenas seria um intrometido idiota que seria expulso dali aos berros raivosos. Mas eu precisava saber quem é que estava cantando! Era uma música que nunca tinha ouvido antes, cuja melodia me fazia perguntar o que haveria de mais agradável que aquilo. E a voz? Ah, a voz da menina! Era tão profunda e tão encantadora. Parecia acompanhar perfeitamente o ritmo da canção e parecia ter nascido para cantá-la. Quem poderia ser? Eu não sabia de ninguém que teria a coragem de ocupar o auditório apenas para cantar. Forcei a porta para o lado, fazendo-a produzir um ruído seco, e meti a cabeça para dentro. Quando fiz isso, tive certeza de duas coisas: a) eu estava tendo alucinações e b) era a alucinação mais real e perfeita que já tivera.

Pisquei. Pisquei com força, porque achei que meus olhos estivessem me enganando. Já acontecera. Eu já olhara para alguém e achara que fosse algum conhecido, e no fim não era.

Rachel Berry estava cantando. Cantando muito bem. Seus olhos estavam fechados, e sua voz saía como uma brisa morna e aconchegante de verão. Movi meus olhos por alguns segundos para detectar quem estava acompanhando-a também. Três pessoas estavam acomodadas na mesa defronte ao palco, tão atentos quanto eu. A garota gaga, a garota negra e o garoto cadeirante. Um trio realmente bizarro de se analisar de longe. Talvez, de perto também. No entanto, Rachel não parecia se intimidar por isso, nem por nada. Estava dando o máximo de si, de seu talento, de sua respiração, de sua expressão. Estudei sua feição serena, mas intensa. Ela parecia sentir o que estava cantando, parecia ter mergulhado na música. Meu estômago se contraiu de um modo totalmente inédito: uma queimação agradável começou ali e subiu gradativamente para meu peito e depois para meu rosto. Eu estava queimando por dentro, um fogo bom. Sorri para mim mesmo, ainda tendo meus olhos focados em Rachel. A agitação cresceu dentro de mim tal qual a queimação o fizera. Cada célula minha parecia gritar de excitação, de alegria, de afeto, queria extravasar o sentimento que estava sentindo naquele momento. Quando sua última nota se esvaiu de sua boca e enfim cessou de se propagar pelo auditório, quase denunciei minha presença ali ao fazer menção de bater palmas – por sorte, meu cérebro brecou a ação mais rapidamente.

Os três da mesa se reuniram brevemente, aquiescendo e sussurrando. Não consegui escutar o que disseram, pois não usaram o microfone, além de estarem muito longe da entrada, mas quando vi Rachel sorrindo tão orgulhosa de si, soube que algo acontecera. Talvez tivesse conquistado a aprovação dos três para algum projeto extracurricular. Rachel desceu do palco, mas não me notou. Parecia estar extasiada, porque seu sorriso não conseguia se desfazer nem que tentasse. Os quatro conversaram brevemente e, balançando a cabeça positivamente, ela então começou a se dirigir para a entrada, onde eu continuava parado, observando-a.

Assim que me percebeu, a apenas uns cinco metros de mim, parou na mesma hora. Seu olhar se encontrou com o meu, e ela piscou. Seu sorriso ainda decorava seu rosto, mas começou a esmorecer depois do nosso contato visual. "Desculpa, eu não pretendia...", falei, desconcertado e sem jeito. Rachel não pronunciou nada por uns dois segundos. "Você deveria ter se sentado em alguma cadeira. Daqui não dá para ouvir muito bem", ela me disse. Sua atitude era um pouco defensiva, no entanto, ficava evidente que estava segura do que me falava. "Não, você foi realmente... Muito incrível", tentei escolher com o máximo de cuidado as minhas palavras, sem deixar que elas denunciassem o quanto eu ainda estava acometido por sua apresentação. "Você sempre cantou assim?", perguntei, antes que ela pudesse me interferir e dizer que precisava ir embora. Rachel tinha assumido uma postura um tanto quanto esquiva de mim nos nossos encontros casuais, e eu não sabia o porquê daquilo. Esperava, um dia, colher informações sobre isso. "Mais ou menos desde os meus dois anos", Rachel me respondeu sem transparecer arrogância. Quando alguém elogiava as performances de Quinn quanto à sua habilidade na ginástica, ela era arrogante demais para alguém de somente 15 anos. Era legal constatar que, apesar de tudo, Rachel mantinha-se equilibrada. "Você é realmente muito boa", elogiei, sem saber se deveria ou não sorrir. Eu estava meio envergonhado por algum motivo, e meu sorriso parecia não querer ajudar na situação. Se eu sorrisse, talvez a onda de tensão entre nós se desformasse. Felizmente, ela sorriu primeiro, parecendo diminuída diante o meu elogio. "Obrigada". Seus olhos focavam o chão, e seu rosto parecia desconfortável.

"Queria ser bom em alguma coisa como você. Alguma coisa que valesse a pena", comentei, tentando prolongar a conversa. Isso fez com que ela erguesse seu olhar e me fitasse com confusão e surpresa. "Mas você é atuante no campo", ela disse. "Não é nada especial. Não como você e a música. Como você se sente quando... Você sabe, está lá em cima?", apontei para o palco, timidamente, mas sem deixar que minha curiosidade morresse. "Sabe quando você experimenta uma comida ótima pela primeira vez?", ela perguntou. Assenti. "Assim que me sinto", Rachel afirmou. "Mas as luzes, como não te incomodam?", quis saber. Os holofotes pareciam tão fortes e tão intimidantes... Quem é que seria capaz de suportar aquilo por mais de um minuto? "Gosto delas", ela disse, dando de ombros. "No campo também tem muitas luzes", ela comentou. "É, mas não gosto delas", respondi. Isso produz uma reação diferente da que previra em Rachel – ela começa a rir. Olho-a com ainda mais curiosidade, inspecionando seu rosto sem maquiagem e seus cabelos escuros. "O que foi?", questionei, ansioso. "Você", ela me confidenciou. "Você é a estrela do time e não gosta de atenção. Isso é muito contraditório. Não achei que você fosse se tornar desse jeito".

Então ela achava que eu fosse me tornar um jogador arrogante, cujo único orgulho era vestir o uniforme e quebrar as costelas dos oponentes? Interessante. Eu também não achava que Rachel fosse se tornar uma cantora. Lembro-me que, aos cinco anos, ela me dissera que gostaria de cantar, mas ela era apenas uma criança. Nós dois éramos. E ser jogador de futebol profissional já não estava mais nos meus planos – se é que algum dia esteve, além daquela atividade estúpida há 10 anos. Não consegui dizer nada. Meus pensamentos estavam nublados, incertos, incoerentes. "Bem", Rachel disse, enfim. O silêncio a incomodava também. "Acho que devo ir". Assenti, mas não desbloqueei a porta. Ela veio em minha direção, esperando que eu liberasse a passagem, mas havia alguma coisa faltando. Havia uma coisa estranha. Aquela tensão nela parecia estar comandando meus sentidos. Subitamente, movi-me para trás, para o corredor, e ela passou. Acenou com a cabeça, um aceno de despedida precário e sem ânimo; sem pensar, movido pela minha ansiedade, dei um passo à frente, em sua direção, e fechei meus dedos no pulso dela, sem pressionar sua pele. O toque fez com que, imediatamente, ela estancasse, como se eu a tivesse machucado. "Rachel", eu disse. Ela girou o corpo para mim com os olhos nos meus dedos. Eu deveria largá-la, desfazer o contato, mas parecia impossível. Ela então desvencilhou sorrateiramente seu pulso da minha mão, e fez com que seus olhos encarassem os meus. Parecia desafiadora, mas extremamente confusa. "O que foi, Finn?", ela me perguntou com a voz suave. A mesma voz que eu ouvira cantar. "Por que você mudou?", sem desviar meus olhos do dela, a pergunta que rondava a minha cabeça há pelo menos dois anos finalmente foi libertada. Seria o fim das minhas dúvidas? "Mudanças indicam crescimento", ela afirmou, parecendo uma especialista da medicina falando. "Eu cresci. Todos crescem. Alguns mais do que outros, claro", ela assinalou. Eu sabia que ela não estava tentando fazer graça quanto à minha altura, ou algo assim. E ela sabia que por 'mudança' eu não me referia ao seu físico. Neguei com a cabeça.

"Não. Tipo, você parou de aparecer nos jogos. E agora você me trata igual a todo mundo, talvez até mesmo com menos atenção. Você não era assim", falei. Isso foi o suficiente para que, de repente, ela quisesse se afastar ainda mais de mim. Rachel deslizou suas sapatilhas douradas pelo chão e deu um passo para longe. Ela olhou para o chão, parecendo transparecer certa incomodação. "Você está com a Quinn, não mudou em nada. Você sempre gostou dela", Rachel disse. Não entendia como, de uma hora para outra, a conversa tinha parado na Quinn. O que a Quinn tinha a ver comigo e com Rachel? "Mas o qu...", comecei a inquiri-la, no entanto ela foi mais rápida: "Agora preciso mesmo ir. Até mais".

Acompanhei-a desaparecer pela porta da entrada do colégio, e então franzi a testa. Nada fazia sentido. Rachel parecia, se possível, ainda mais incompreensível do que antes do meu questionamento.


Oi, cherries!
Sim, estou acordada a essa hora, porque estava acompanhando o show ~maravilhoso~ do Bruce Springsteen *-* Gente, que velhinho mais bem disposto! :O
Mas sobre a fanfic: é, o capítulo ficou gigante, me perdoem! Fui escrevendo e escrevendo e só reparei que estava extenso muito depois! É que, bah, esse capítulo ficou tão amorzinho! *-* E pra quem estava requisitando a Mercedes e a Tina, olha elas aí! *-* Sim, elas aparecerão bastante de agora em diante, assim como o Artie! E, gente, muito amor esse encontro de Finchel, hein? Quase suspirei quando escrevi a cena, awn! O Finn tá começando a perceber que está se apaixonando pela Rachel, awn! *-*
Comentários são muito bem-vindos! Recomendem a fanfic por amigos (: Beijos, amores!