Parte I – You're Going Down (Sick Puppies)

Eu nunca me sentira muito incomodada pelos meus colegas estarem sempre me colocando como uns dos tópicos imprescindíveis de suas fofocas amorais ou simplesmente sensacionalistas. Mas depois que completara uns 12, ou 13 anos, os comentários e as risadinhas começaram a surtir seus efeitos. Talvez por conta dos hormônios, ou talvez porque começara a me olhar ao espelho e me enxergava completamente diferente das outras meninas. Meu estômago sempre afundava quando eu olhava para Quinn, especialmente. Todos gostavam dela – mesmo as pessoas que tinham inveja dela; Quinn era a menina que a maioria dos garotos queria ter para si (por uma noite, ou para todo o sempre) e que a maioria das meninas queria copiar. Copiavam o jeito que ela ria para os garotos, seus gestos, seus tênis, a sua influência. E então essas mesmas aspirantes a Quinn Fabray começaram a olhar para seu namorado Finn; isso ocasionou muita inveja verdadeira e aberta, mas Quinn tinha a habilidade de repelir com muita facilidade. E cheguei a pensar diversas vezes que esse era o motivo pelo qual ela me ignorava na maior parte do tempo quando estávamos no McKinley.

Inconscientemente, Quinn deveria saber que eu também tinha certa inveja dela. Que, de certo modo, eu também aspirava ser como ela – ter seu corpo esguio, seu rosto de boneca, seus cabelos loiros, seus olhos castanho-esverdeados. E, acima de tudo – o que mais me doía –, era saber que ela tinha Finn nas mãos. Não demorara muito para que ambos declarassem que estavam juntos. Acontecera algumas semanas após um dos nossos últimos encontros no Freeze – e também uma das últimas vezes que eu obrigara Kurt a me acompanhar aos jogos de futebol; eu mesma abandonara a prática por vontade própria. Não conseguia deixar de pensar que a falha fora minha: eu deveria ter feito algo, dito algo, transparecido algo. Qualquer coisa. Corrido atrás dele mais um pouco, mesmo que isso me fizesse parecer uma tiete estúpida.

Mas então esse tipo de coisa me fez perceber que eu estava fazendo tudo errado. Que correr atrás dele era ridículo, que apenas deixava evidente o quanto eu gostava dele – e as coisas entre nós não deveriam decorrer desse jeito. E mais: fazia com que todas as outras pessoas percebessem o meu objetivo. E isso eu não poderia permitir que acontecesse: que mais rumores sobre mim se espalhassem pela escola. Eu sabia que para que Finn tivesse ciência de meus sentimentos era apenas uma conversinha breve com alguém chamado Quinn, ou Santana, ou Brittany. Aonde quer que eu fosse me sentia ameaçada e acuada diante das possibilidades. Então, desacelerei todas as investidas; fiquei distante dele e de tudo que o cercava. Se nos encontrássemos, eu era sucinta e domesticava ao máximo a minha ansiedade. Talvez fosse a isso que ele se referira quando me perguntou sobre a minha mudança. Se antes eu era exagerada e extrovertida, agora eu era introvertida e silenciosa. E assim eu fui me fechando, criando uma espécie de murro de contenção para meus sentimentos – até que eles ficaram presos numa espécie de bolha, de onde não seriam capazes de se libertarem sozinhos. Ficaram tão sufocados quanto eu me sentia.

E tudo piorava quando me deixava abater pelos comentários alheios. É claro que sendo judia, filha de pais gays e amiga de pessoas julgadas como excluídas e impopulares – em especial depois que comecei a andar com Mercedes, Tina e Artie, por conta do clube de música – eu já sabia que as ofensas seriam constantes. Porém, nada disso me deixava realmente abalada. Não quando não estavam realmente atacando a pequena parte de mim que se importava com o que quer que estivessem dizendo – e essa pequena parte era sempre ligada ao fato dos garotos (e por vezes garotas) me evitarem. E, no fundo, eu tinha ciência de que isso não decorria do fato de eu ser 'insuportável', mas sim, de eu não ter a beleza considerada ideal para aquela gente.

Eu via o modo como havia uma enorme divergência perante a este tipo de coisa. As meninas mais bonitas eram sempre requisitadas para tudo – Quinn estava sempre ocupada frequentando festas, casas de pessoas que mal conhecia, conversando com pessoas tão bonitas quanto ela mesma. As meninas que nunca chamavam a atenção de ninguém eram ignoradas em tudo – em trabalhos escolares, em formações de times para a Educação Física, em convites para sair. Você até mesmo poderia se vestir bem, mas isso nunca seria o suficiente – você sempre estaria de fora, como se estivesse na chuva olhando através de uma janela uma grande diversão acontecendo e nunca ser capaz de se unir a ela. E eu me sentia tão mal por ser rejeitada quanto uma menina de 13 anos se sentia. No entanto, cresci tentando ignorar isso. Eu tinha Kurt ao meu lado. Ele, como eu, sofria o mesmo – não pelo seu físico, mas por sua sexualidade. Não que eu me importasse com isso: Kurt sempre seria meu melhor amigo, quaisquer diferenças nele estavam acima de qualquer tipo de preconceito de minha parte. Além do mais, se eu o julgasse isso seria considerado uma grande hipocrisia: eu mesma sofria preconceitos e sabia o quanto isso me afetava. E eu sabia que Kurt sofria tanto quanto eu, talvez mais. Ao menos, nunca tinham me jogado dentro de uma lixeira, nem derrubado meus materiais no meio do corredor. O bullying que era produzido em cima de mim era muito mais silencioso daquele que era produzido em Kurt. Era igualmente intimidador, de qualquer maneira.

Fazer parte daquele mundo excluído, ainda assim, não era ruim. E daí que eu não era convidada para festas? Meus pais nunca concederiam a permissão de eu consumir álcool e de, talvez, ser submetida a grandes episódios de humilhação. Eu ainda preferia me reunir com Kurt para assistirmos a musicais antigos ou a filmes cujos nossos colegas nunca teriam paciência. E sempre teríamos o Freeze para frequentar, de vez em quando.

Já tinham se passado quatro dias desde que eu tinha sido efetivada no clube de música, e eu já tinha tratado de apresentar Kurt aos outros, para que ele entendesse que Mercedes, Tina e Artie levavam a música tão seriamente quanto eu. E isso tinha até mesmo o animado. No dia anterior, na sexta-feira, Kurt tinha pedido para assistir ao nosso 'ensaio' por espontânea vontade. Nossos ensaios, na verdade, não eram nada mais do que Tina desenhando em seus braços dragões e fênix, Artie dedilhando sua guitarra e eu e Mercedes discutindo levemente acerca das canções; ela sempre queria R&B, ou Soul, enquanto eu não abria mão das músicas da Broadway. Por sorte, quando Kurt foi analisar o nosso trabalho, eu e ela tínhamos chegado a um consenso simples: revezaríamos os gostos musicais, de modo que ninguém se sentisse desfavorecido. Quando bateu 16h30, Kurt não conseguiu se conter: "Vocês parecem horríveis juntos, mas com um pouco mais de prática, talvez dê certo". Não fiquei chateada, porque eu compartilhava do mesmo pensamento que ele. Com certeza, nós quarto éramos terríveis juntos. Estava na cara que nenhum deles sabia o que fazia, muito menos tinha experiência com canto, pois não sabiam controlar suas respirações nem suas cordas vocais. Eram desafinados e descompassados por extremo, além do mais. Tina mal abria a boca para cantar, parecia ter um medo surreal. Artie, apesar de ter confiança, perdia o ritmo facilmente. Mercedes era a única razoavelmente boa. Sua voz era ampla e limpa, no entanto abusava demais das notas dobradas, o que deixava a canção muito desajeitada.

Felizmente, tinha convencido a todos de irmos ao Freeze naquela noite. Poderíamos conversar sobre outros assuntos que não música. Não que eu dispensasse a música de uma conversa, porém como eu era a maior entendedora do tópico, depois de um tempo, ficava muito chato. "Ah, não", Kurt gemeu de repente, ao meu lado. Olhei para ele e depois para a porta. Ele sempre fazia coisas assim quando via alguém que não gostava – o que acabava sendo algum popular. "A Miss Perfeição acabou de chegar", ele comentou. Quinn trajava uma saia muito curta rosa-bebê de babados e uma blusa de alcinha branca de paetês iridescentes. Seu cabelo, que costumeiramente vivia preso, agora estava solto em delicados cachos que reluziam de tão brilhantes. Eu evitava estar no mesmo espaço público que Quinn, ainda mais quando Finn a estava acompanhando. "Finja que não a viu, senão ela vem pra cá!", acabei dizendo. Mercedes cutucou a minha mão. "Lembro-me de vocês juntos. O que aconteceu?", ela quis saber. Conhecia aquele pessoal há muito pouco tempo, porém não me importava de falar sobre Quinn. Era o assunto que eu e Kurt mais discutíamos – mais por necessidade do que por fofoca. "Ela cresceu rápido demais, eu acho", dei de ombros. "Cresceu e se tornou uma...", dei uma cotovelada em Kurt antes que ele tivesse chance de terminar a sentença. Mercedes soltou uma risadinha compreendendo o sentido da frase dele. "Então vo-vocês n-não são ma-mais amigos?", Tina perguntou. Ficava surpresa por ela se desprender um pouco de sua timidez. "Quem vai saber?", Kurt disse, meio rabugento. "Eles precisam mesmo ficar desse jeito na frente de todo mundo? É tanta falta de educação, sinceramente", Mercedes criticou, observando Finn e Quinn num canto se beijando como se não houvesse amanhã. Desviei o olhar rapidamente deles, porque sempre que os via daquele modo tão íntimo parecia que estava prestes a vomitar. Eu também não entendia por que era tão importante ficar aos beijos na frente do Freeze inteiro, como se assim eles estivesse provando para todos que eram felizes juntos.

"Eles só estão se beijando", Artie comentou. "Parece que estão se engolindo", Kurt disse. Voltei a observá-los com discrição: eles ainda não tinham cessado o beijo, que se tornava a cada segundo mais urgente. Olhei para meu prato, percebendo que apenas Kurt partilhava do meu enojo. "Se ela vier para cá com ele, juro que vou embora", ele sussurrou. "Se ela fizer isso só vai ser para esfregar na nossa cara que está acompanhada", eu disse. E Quinn realmente tinha essa tendência: exibia Finn como se fosse um prêmio. Eu achava sua atitude repulsiva, não sabia como Finn aceitava aquilo. Não deu outra: minutos depois, Quinn e Finn se desenroscaram, e ela agarrou a mão dele e o arrastou até nós. Instantaneamente, senti meu rosto pegando fogo. Pensei em dizer que precisava ir ao banheiro, mas já era tarde demais. "Hey, gente!", Quinn disse, sorrindo tão efusiva quanto o gato Cheshire. Eu queria evitar olhar para Finn, para que ele não dissesse nada que me comprometesse, mas meu esforço foi em vão. Mesmo que eu tivesse de erguer bastante meu queixo, meus olhos se encontraram com os dele por um segundo. Abaixei-os imediatamente, focando-os em Quinn. Seus olhos frios me analisaram de um modo que não gostei. Depois examinaram Mercedes, Tina e Artie com sarcasmo. "Parece que vocês sempre estão por baixo", ela disse, olhando para mim e para Kurt, deixando claro que se referia aos meus novos amigos. Fechei a cara, desaprovando-a. "Como se o topo te salvasse de alguma coisa", Mercedes falou com segurança. Isso! Alguém com coragem o suficiente para retrucar! "Como se você entendesse alguma coisa disso", Quinn replicou friamente. Nisto, Finn tossiu baixo como que tentando apartar a discussão. Percebi que seus olhos focavam em mim em intervalos alternados. "Por que não vamos pegar nossas bebidas?", ele perguntou a Quinn. "Pegue-as você, vou ficar aqui mais um pouco", ela respondeu, empurrando-o em direção à fila que se formava em frente ao balcão de pedidos.

Balancei a cabeça, incrédula. Ele tinha ido para a fila sem objeção alguma! Por que Finn agia como se fosse o cachorrinho obediente dela? Por que permitia ser manipulado a todo instante? Isso me deixava com tanta raiva! "O que foi, Rachel?", Quinn quis saber. "Nada", eu disse, assustada. Não sabia que ela estava me olhando. Certamente tinha visto meu gesto incrédulo. Ela apertou os olhos para mim, desconfiada. "Você mente muito mal", Quinn me disse. "Garota, não dá para perceber que está nos atrapalhando? Não a convidamos para ficar", Mercedes falou. Artie olhou incerto para Quinn, temeroso. Tina, como sempre, mantinha os olhos nas mãos. "Não acho que dirigi a palavra a você, gorda. Meu assunto é com a Rachel", Quinn falou para Mercedes. "Hey, não precisa falar assim!", imediatamente a ataquei, irritada. Quem Quinn achava que era?! Podia ser a Rainha da Inglaterra dentro do McKinley, mas fora dele não passava de uma qualquer, exatamente como todo mundo! Como se já não bastava ser ridícula ao tratar Finn como um capacho, agora estava tentando provar que poderia exercer sua tirania em cima dos meus novos amigos! Eu queria empurrar suas mãos da mesa, para que entendesse que ninguém estava satisfeito com sua presença ali! "Você continua uma criança, Rachel. Acho que nunca vai crescer", Quinn utilizou outra abordagem. Se não poderia humilhar meus amigos, iria me humilhar – o que era habitual. "Bem, se isso significar não ser uma arrogante infeliz acho que posso conviver com isso", respondi sem editar as palavras na minha cabeça. Eu estava com tanta raiva que não conseguia pensar direito. Ou talvez estivesse pensando demais. Mercedes olhou para mim completamente em deleite. Quinn parecia que estava prestes a me arrancar da cadeira e me jogar no chão; não duvidava que conseguisse, apesar de sua dieta de shakes impalatáveis.

Enquanto eu e Quinn trocávamos olhares fulminantes, Finn retornou com as bebidas. "Quinn?", ele chamou. "Acho que vi uma mesa vaga lá atrás", ele disse. Quinn olhou para Finn como se não se importasse nem um pouco por ele ter retornado. Então seus olhos recaíram em mim mais uma vez. E essa foi a pior parte. "Você sempre vai ser uma criança, Rachel, porque é tão invejosa que simplesmente não se aguenta. Se ao menos tivesse algum tipo de atributo que conseguisse chamar a atenção das pessoas, mas nem isso você tem. Ninguém se importa de verdade com você", Quinn fez questão de frisar bem na frente de todo mundo com sua voz clara e assassina. Sentia meu rosto muito quente, de repente. Minha mente estava vazia, inexplicavelmente. "Esses daí também não se importam", ela indicou Mercedes, Artie e Tina. "E você só continua amigo dela, porque sabe que não tem mais ninguém", Quinn disse para Kurt com rispidez. Kurt ergueu as sobrancelhas numa atitude tão calma que fiquei com vontade de lhe desferir um tapa. Alô, Quinn estava sendo uma vaca conosco, por que ele não retrucava algo, já que a minha capacidade de fazer tal coisa parecia um pouco debilitada? E POR QUE ELA PRECISAVA AGIR ASSIM JUSTO NA FRENTE DE FINN? Mas é claro que essa era uma pergunta ridícula de minha parte: Quinn planejava essas discussões na frente dele para, justamente, me deixar a ponto de sair correndo de vergonha. E faltava muito pouco para eu realmente fazer isso: se sair correndo dali fizesse com que ela desaparecesse da minha frente, não me importaria com o que quer que as outras pessoas pudessem pensar.

"Se o show acabou, faça o favor de procurar a sua turma de cobrinhas, ok?", Kurt se manifestou com os braços cruzados, sério e muito tranquilo para alguém que acabara de ser alvo de uma humilhação. Tudo bem, era óbvio que o alvo principal era eu, mas Quinn não seria capaz de não atingir quem também estava ao meu redor. "Venha", Finn disse, parecendo carregar um tom totalmente diferente do de sempre. Não estava sereno, ou até mesmo um pouco sem graça, mas severo e urgente. Quinn olhou para ele. Eu também, mesmo que estivesse morrendo de vergonha. Seus olhos estavam brilhando de um modo diferente também – havia uma nuance que nunca tinha visto aqui; algo parecido com desgosto, talvez, mas não poderia afirmar nada. "Vamos embora", Finn afirmou, agarrando o braço dela com propriedade, como se estivesse lidando com uma criança muito teimosa. "Eu não vou a lugar nenhum!", Quinn disse. "Vai, sim. Venha, vamos", ele puxou-a mais um pouco, e ela enfim cedeu. Antes de nos virar as costas, Quinn lançou um olhar mortífero a mim. Abaixei meus olhos, sentindo um calor atrás dos olhos e na garganta. Eu não queria chorar, mas a onda que iria me atingir estava incontrolável. "Eu... Vou ao banheiro", eu comuniquei. Eu sabia que Kurt entenderia o porquê da minha ida, mas não estava a fim de pensar naquilo àquela nora. Procurei não denunciar meus olhos úmidos durante o percurso até o banheiro – que, graças a Deus, não estava lotado por conta do pouco movimento devido à chuva que caía naquela noite. Tranquei a porta e sufoquei o choro nas mãos. Não conseguia ser capaz de fazer outra coisa – tudo o que estava na minha mente era as palavras de Quinn e o fato de que ela as tinha pronunciado bem em frente às pessoas com quem eu mais me importava, fora do ambiente caseiro. Aquilo doía de tal maneira que, se não estivesse acompanhada, certamente ficaria bem mais tempo naquela cabine. Finn, naquele momento, poderia estar concordando com as afirmações de Quinn, ou então rindo de mim, da minha cara, do meu rosto tão vermelho. Mas ele tinha parecido tão descontente, depois. Como se estivesse com raiva de Quinn. Mas não podia ser possível. Podia?


Parte II – Say You Like Me (We The Kings)

Como quase todo mundo, eu odiava segundas-feiras. Acho que porque os domingos são tão bons que nunca nos recuperamos a tempo para lidar com as segundas-feiras. Ou então, porque eu tinha de rever todos os professores e as líderes de torcida que ficavam se gabando por suas conquistas amorosas. Além do mais, eu sempre tinha de ficar andando com Quinn como se tivéssemos assinado algum contrato cuja primeira cláusula era bastante contundente quanto ao fato de termos sempre se propagandar o nosso namoro pelos corredores escolares. Eu odiava essa parte do namoro – não entendia por que não podíamos guardar o que sentíamos apenas para nós dois. Por que todas as outras Cheerios precisavam ficar sabendo de tudo que ocorria entre nós? Por que Quinn não era capaz de guardar para si nossos momentos? Isso me fazia ficar um pouco incomodado com ela. Não que eu fosse tímido a ponto de não ser capaz de levantar a mão durante uma aula, mas eu considerava que ser reservado era uma coisa boa. Não gostava quando ela parecia me agarrar no meio da escola para me beijar de uma maneira um tanto quanto animada demais. Parecia que ela somente queria provocar inveja nas outras pessoas. E eu não aprovava isso, soava tão idiota.

Além do mais, não havia nada de especial naquela segunda-feira. Pelo contrário. Queria evitar ao máximo a Quinn, pois ainda estava zangado com ela. Minha raiva não iria conseguir se abrandar enquanto eu ainda me recordava das palavras que doeram em mim também.

Ninguém se importa de verdade com você.

Parecia tão injusto. Porque Rachel estava cercada de gente. E se aquele pessoal que a ouvira cantar não se importava o suficiente com ela, Kurt certamente se importava. Era perceptível que ele realmente era amigo de Rachel, que não andava com ela apenas para não se sentir sozinho. Às vezes, ele era um pouco esquisito e antipático, mas era capaz de baixar a guarda e aceitar a amizade dela. Isso era ótimo. E, pelo visto, Rachel apreciava muito sua amizade. Quinn, por outro lado, dava a impressão de ser muito ingrata com os velhos amigos. Ela não tinha nem um pouco de consideração por nenhum deles. Se ainda gostava deles genuinamente era difícil de notar tamanho o rancor que ela dissociava. Quer dizer, se não fosse rancor, o que seria? Porque aquela atitude dela era inexplicável e irracional. Eu não concordava com muitas coisas que Puck fazia, mas eu não o tratava mal. Ele seria sempre meu amigo, apesar de tudo. Isentava-me de suas loucuras, não o estimulava a fazê-las, mas continuava seu amigo, porque crescêramos juntos. Era normal que não conseguíssemos nos desligar um do outro. E ele era necessário ao time de futebol também. Se eu me desentendesse com ele, o time sofreria consequências disso. Se eu era capaz disso, por que Quinn não? Repetidamente, ela dizia que Rachel era uma criança – e eu já tinha aprendido a conviver com essa sentença. Porém, por que então Quinn não ajudava Rachel a se integrar melhor no ambiente escolar? Ou a ajudava escolher roupas melhores, ou algo assim? Amigas não faziam isso pelas outras? O sentimento controverso que Quinn sentia por Rachel me era completamente incompreensível.

"Hey, Shark-Finn", Quinn se escorou no armário ao lado do meu. Lancei um olhar precário a ela, que dissesse que não era a melhor hora. "Consegui dois convites para o Pub 10, ali perto da rota. Por que ao invés de irmos ao Freeze, na sexta, não vamos ao pub?", ela ignorou meu olhar de advertência. "Eles não devem aceitar menores de 16 anos", falei. Eu tinha de encontrar uma desculpa plausível para repelir quaisquer convites dela. "Dã, é pra isso que eu tenho uma ID falsa", Quinn rolou os olhos. Olhei bem para ela; Quinn parecia orgulhosa do fato e completamente com amnésia do que tinha ocasionado em Rachel e seus amigos, no sábado. Meus olhos estavam penetrantes, agora. Quinn, a cada dia, parecia ainda mais repulsiva. Não parecia a mesma garota sobre a qual cogitei diversas vezes ser legal. Eu tinha sido tão imbecil por ter aceitado aquilo tudo, aquele fingimento. Eu não era feliz ao seu lado, por mais que tentasse. Seus beijos eram bons, gostava deles, mas não havia paixão nem em mim nem nela. Ela, igualmente, não estava apaixonada por mim. O que tínhamos não parecia ser mais do que um mero negócio. Parecia frio, acertado demais, desarmônico demais. Eu não sentia meu coração se revirar quando a via, não sentia vontade de estar ao seu lado o tempo todo, não sentia a necessidade de surpreendê-la com detalhes. Meus sentimentos por ela eram tão intensos quanto aos que sentia pelas segundas-feiras: ou seja, inexistentes.

"Você não está a fim?", ela me perguntou. "É claro que não estou", afirmei. "Sabe, mesmo depois desses meses, parece que você não me conhece o suficiente", falei irritado. "Quem se importa? Ninguém se conhece o suficiente nos relacionamentos. É por isso que sempre ocorrem traições. E é por isso que a minha mãe sempre acaba as noites com algumas doses de uísque", Quinn falou, dando de ombros. Comprimi os lábios. Isso estava aquém dos meus limites. Por um momento, achei que Quinn seria lúcida o bastante para corrigir esse defeito em nosso namoro, achei que diria que então nos sentaríamos e nos conheceríamos melhor. Mas que grande erro. Se ela não me conhecia o suficiente, eu a conhecia muito bem. Considerando o modo como tratava a todos, era claro que eu não seria a exceção. Ela não me escolhera como namorado porque achara que poderia aprender algo – escolhera-me porque sabia que eu seria o perfeito idiota para a situação. "Bem, eu me importo", fiz questão de frisar. "Se me conhecesse, saberia que eu só apareço no Freeze porque você me pede. E eu nem gosto de álcool", continuei sem me arrepender por estar sendo um pouco mais sério que de costume. "Por que você tem que ser tão careta?", Quinn questionou, revirando os olhos de novo; parecia impaciente agora. "Porque eu sou assim, sinto muito se te decepcionei", respondi. "Meu Deus, você está parecendo um idiota falando", ela riu.

"Devo ser o tipo perfeito para você, não? Pelo que vi, eu sou somente uma espécie de fantoche seu. Mas, sabe de uma coisa? Eu cansei disso. Cansei de você, das suas frases maldosas, do modo como trata todo mundo, da sua arrogância e do fato de nunca conseguir pedir desculpas", eu disse tudo isso muito rapidamente, mas tinha ciência de que ela acompanhara cada palavra pelo modo como sua expressão se modificou de irritadiça para incrédula. "Você nem ao menos pensou no que poderia causar nos seus amigos ao dizer tudo aquilo, naquele dia. Eles devem estar muito magoados, e você nem sequer disse uma palavra bonita para eles. Só consegue dizer o pior para todo mundo. Nem todo mundo teve o privilégio de ter nascido com os seus encantos, sabia?", disparei mais uma vez, não me importando se ela queria me interpelar. "E para falar a verdade, você é a pessoa que ninguém se importa muito. Todos acatam o que você diz, porque acham que não são tão especiais quanto você. Mas você é que não é nada especial. Você é meio doentia, sinceramente. Se fosse você, procurava um analista", enfim parei e fechei meu armário com força. Não cogitei observar seu rosto; se a magoara eu pouco me importava. Ela não se importava com ninguém, então não merecia importância também.

Dei as costas para ela, e quando já tinha dado dois passos, Quinn exclamou: "Finn! Você está terminando comigo?", ela me seguiu e perguntou em um tom moderado. Certamente não queria que o resto do pessoal soubesse. "Não é evidente?", olhei-a com as sobrancelhas erguidas. "Oh, esqueci. Nada é evidente para você, a menos que seja o seu veneno se espalhando por aí, não é mesmo?", perguntei. "Você não pode fazer isso! Eu é que termino com as pessoas!", Quinn disse, irritada. Somente irritada. Não parecia a ponto de chorar, ou arrependida por algo. "Sinto muito se essa situação é nova. Mas parece que sim, eu estou terminando com você", eu fiz questão de deixar claro. Quinn estancou, de repente. "Ótimo, até parece que você era útil de qualquer forma", ela disse com acidez. "Olhe eu me importando", dei de ombros, seguindo meus colegas pelo corredor. Ela ficou para trás, assim como o que quer que tenha acontecido entre nós.


Eu me sentia um pouco idiota por estar naquela situação, mas era melhor do que qualquer outra coisa. Eu poderia estar vendo Puck tirar meleca do nariz, ou enfiar algum impopular dentro de um armário. Andei um pouco mais, olhando para os lados. Era ridículo, era claro que ninguém ficava ali perto àquela hora. Todo mundo tinha mais pra fazer do que ficar numa sala cheia de instrumentos musicais. No entanto, averiguar me parecia necessário. Seria horrível se alguém me descobrisse. Por tanto já ter estado naquele corredor àquela hora, já tinha decorado os horários. Faltavam apenas quinze minutos para eles terminarem ali dentro. Hoje cantavam All About Us, uma canção que eu conhecia apenas porque Quinn deixava-a tocando enquanto eu estava em seu quarto. O ritmo do grupo parecia descompassado e as vozes não pareciam combinar por nem um segundo. A voz de Rachel sempre se sobressaía, o que acabava fazendo-a obrigar todos a pararem, e então dizia que eles deveriam "cantar com mais amor". Já tinha escutado Mercedes e ela discutindo algumas vezes, mas Artie e Tina nunca se pronunciavam de modo contundente.

Por sorte, até aquele dia, nunca tinham me descoberto – nem mesmo quando Kurt assistiu ao ensaio deles. Eu sempre me enfiava muito rapidamente no banheiro perto dali. Eu me apoiei na parede, escutando-os. A voz de Rachel era sempre a mas clara do grupo, mas a de Mercedes era sempre a mais forte. Ainda assim, havia descompasso. A voz de todos, exceto a de Rachel, em alguma hora, sempre entrava em desnível. Rachel cessava e pedia para que repetissem a canção. Eles cantaram a mesma música até o final do ensaio. Quando eu soube que era hora de correr até o banheiro, Rachel conversava algo sobre um tal de Peter com os outros. Tudo ficou silencioso depois de alguns segundos. Não haviam passos nem vozes ecoando pelo corredor. Caminhei até a entrada da sala destinada ao clube e espiei-a. Falta de sorte. Ela não estava sozinha.

Kurt, de imediato, me percebeu ali. Olhou-me como um cão de guarda farejando o ar. "Precisa de alguma coisa?", ele me perguntou, um pouco zombeteiro. Rachel olhou para ele do piano onde estava organizando algumas folhas de papel que eu cogitava serem partituras. Nunca tinha visto uma partitura de perto, então não saberia afirmar com certeza. "Claro que não, pode ir. Eu sei que Burt gosta de tê-lo para os preparativos do jantar", Rachel lhe respondeu, achando que Kurt estivesse falando com ela. "Não você", Kurt explicou. "Ele", ele me indicou com a cabeça, lançando-me um olhar nem um pouco amigável. O cabelo dela movimentou-se de acordo com o maneio de seu corpo. Ela pareceu ter sido atingida por uma surpresa descomunal quando me enxergou no patamar da porta. Em seguida, olhou de novo para Kurt. Parecia confusa e preocupada. "Bem, comportem-se, crianças", Kurt disse em um tom calmo. Não parecia contaminado por nenhum tipo de inflexão antipática. No entanto, lançou-me um olhar desafiador quando passou por mim, antes de ir embora. Rachel manteve-se quieta, continuou o seu trabalho com os papéis como se eu não estivesse presente. Isso me fez perder a coragem que tinha me levado até ali. Dei um passo adentro e observei melhor a sala. Desisti de esperar que ela se pronunciasse; tinha o desejo que ela me inquirisse o que eu estava fazendo ali, para que eu pudesse lhe explicar melhor a situação, mas Rachel parecia anormalmente silenciosa. "Oi. Eu ainda estou aqui", falei.

"Eu sei", ela me respondeu de imediato, mas sem se virar para mim. Por que ela não me verificava? Era um pouco incomodante ter de conversar com ela sem nunca ver seus olhos, ou sua expressão. "Então... Bem, eu gostaria de conversar com você", eu comecei, um pouco indeciso. Não sabia o que lhe dizer para fazê-la confiar em mim. "Já está conversando, Finn. Mas continue", ela respondeu num tom agradável. Sorri comigo mesmo. Quinn nunca seria capaz de ser rude e de ser agradável ao mesmo tempo. Ela era sempre rude. Aproximei-me um pouco mais dela, até parar a um passo do piano. Podia sentir o cheiro de seu perfume e do seu xampu de frutas. Inclinei meu corpo para baixo, para que eu pudesse absorver um pouco mais das fragrâncias adocicadas. "Se vai dizer que cantei bem de novo, não é necessário", Rachel se adiantou, enquanto eu tinha ficado perdido em meio aos meus pensamentos desconexos. "Não precisa achar que é obrigado a isso", ela complementou. "Não me acho obrigado a fazer isso. Gosto de elogiá-la, porque...", franzi a testa para seu cabelo. Ele era tão brilhante e tão escuro. Por ela estar sentada no banquinho do piano e por eu estar em pé, observando-a de cima, podia enxergar seu couro cabeludo e alguns fiozinhos arrepiados perto de sua tiara. Pisquei, notando que tinha deixado a frase pela metade. Rapidamente, continuei: "Porque você faz um bom trabalho". Rachel se remexeu no banco, um pouco inquieta. "Agradeço pelo elogio, apesar de ele não explicar o porquê você está aqui. A menos que tudo isso seja somente uma conversa precedente ao seu verdadeiro objetivo", Rachel respondeu. "É, acho que é", concordei. Pela primeira vez, Rachel olhou para mim. "E então? Sobre o que é o seu verdadeiro objetivo?", ela quis saber, depois que o silêncio reinou sobre nós por alguns segundos.

"Sobre... Sobre aquilo que a Quinn falou. Aquilo sobre ninguém se importar com você", eu disse. Pude analisar o impacto que isso provocou nela. Sua expressão penetrante vacilou por um momento, até ela encontrar o equilíbrio de novo. Seus olhos se desviaram para os papéis mais uma vez, como se tivesse se lembrado que eles eram muito mais importante do que eu, do que eu estava tentando lhe dizer. "Não é verdade. Eu me importo com você", continuei, mesmo que ela não estivesse mais olhando para mim. Queria que ela estivesse, para que eu pudesse constatar a mudança em sua face, porém aferir minhas palavras era muito mais imprescindível. "E por que diz isso?", Rachel inquiriu num tom neutro. Por que eu dizia aquilo? Eu deveria criar uma lista naquele mesmo segundo, deveria. Talvez porque Quinn e eu não estávamos mais juntos. Porque eu nunca amara Quinn. Porque Quinn nunca fora mais do que irritante perto de nós, sempre impedindo que eu sequer dissesse oi à Rachel. Porque eu sabia o efeito que Quinn causava nela, de pura intimidação, mesmo que fossem mais ou menos amigas. Amigas não fazem isso com as outras. E porque... Bom, tinha aquela coisa que eu não sabia entender, de modo que não saberia explicar à Rachel. Era melhor deixar essa parte de lado, então. "Porque você é melhor do que acha que é", respondi, involuntariamente. Aquela era uma boa réplica, uma réplica verídica. "Você nunca vai valer muito para quem não vale nada", continuei, observando o comprimento de seu cabelo, que caía-lhe pelas costas até quase a bainha de sua blusa azul. Conforme Rachel se movia para acertar os materiais em cima do piano, seus cabelos se balançavam suavemente, brilhantes e como um véu negro.

"É uma coisa esquisita de se dizer sobre a sua namorada", Rachel constatou, ainda de costas para mim. Ocorreu-me que ela já sabia sobre meu rompimento com Quinn. Quer dizer, as fofocas se espalhavam muito rápidas por entre as paredes do McKinley. Certamente, Rachel teria escutado alguém comentar, ou alguém teria reportado essa notícia a ela como quem comenta sobre o bebê real. Mas se ela ainda não sabia, aquilo era estranho. Apenas me ocorria duas concepções em mente: a) ou ela desejava a confirmação pela minha boca, ou b) não se importava muito com as fofocas da escola, especialmente se eram sobre Quinn. E, Rachel Berry sendo Rachel Berry, eu apostava na segunda opção. Quinn nunca procuraria Rachel para lamentar sobre o nosso término, de modo que era provável que, se Rachel escutou sobre a fofoca, descartou-a no mesmo segundo. "Não estamos mais juntos. Eu e Quinn", falei. Uma onda de alívio disparou por dentro de mim e quase me fez querer cair no riso. Eu estava livre! Nada de passeios no shopping, nada de esperar suas unhas secarem, nada de ter a obrigação de ligar para ela, nada de ficar seguindo-a como se fosse um cachorrinho carente. Nada de Quinn Fabray para sempre. Houve um momento de silêncio; achei que ela não tinha entendido a minha sentença, a princípio, mas então percebi que Rachel não tinha realmente o que dizer. Afinal, o que ela diria?

Parabéns!

Eu sinto muito, estou tão triste por você!

É claro que não, porque Rachel não tinha nada a ver com a minha relação com Quinn. Ela estava pouco se importando se eu estava com Quinn, ou com qualquer outra menina. Porque Rachel, apesar de ter passado por uma fase meio louca na pré-adolescência, não nutria nenhum sentimento forte por mim. A prova disso era que ela crescera de uma forma inimaginável. Não se tornara uma daquelas meninas que corriam atrás de qualquer menino só para sentir-se amada; na verdade, Rachel era tão inibida diante de garotos que dava a impressão de que nenhum deles chamava sua atenção – o que era completamente incomum para uma garota de 15 anos. Talvez fosse a isso que Quinn se referia quando apontava a infantilidade de Rachel: enquanto Quinn se interessava pelos meninos, Rachel se interessava por musicais e notas exemplares. E, na verdade, isso não era tão ruim. Era bom saber que alguma menina tinha a cabeça no lugar, que conseguia pensar em algo alguém de assuntos estritamente femininos ou sexuais.

"Você me ajudou a tomar a minha decisão", falei. Queria incitá-la a se expressar, fosse olhando para mim, ou dizendo algo. Qualquer coisa. Por que ela estava tão anormalmente quieta? Não sabia lidar com essa Rachel. Não que eu soubesse lidar com ela de qualquer forma, mas daquele modo parecia ser muito mais difícil de até mesmo manter uma conversa. "Eu?", Rachel perguntou. Ela parou o que estava fazendo para enfim me encarar com olhos de quem não sabia muito bem o que poderia vir em seguida. Eu também não sabia, pra falar a verdade. Não sabia para onde aquela conversa poderia nos guiar. No entanto, esperava que nos levasse a algum ponto crítico para que eu pudesse entender melhor o que se passava em minha mente. E na dela também. Não conseguia decifrá-la muito bem; se antes, Rachel era um livro aberto, tão expressiva e verdadeira, agora era uma daquelas personagens irritantes de cujas histórias apenas nos relevam o básico e nunca nos permitem avançar na leitura. Rachel, agora, estava estagnada perante qualquer situação. Tão inexpressiva quanto alguém dentro de uma caverna. "Não quero ficar com alguém que acha que pode dizer tudo o que quiser", eu disse, dando de ombros. Seus olhos escuros me analisavam inescrutáveis. "Estamos num país livre, o que tecnicamente a permite dizer o que quer", Rachel rebateu como se fosse sua obrigação me contestar. "Não quando faz isso para machucar alguém", refutei na mesma hora. Como é que ela não entendia isso? Na mesma hora, Rachel deixou transparecer insatisfação e seu rosto tornou-se mais sombrio. "Ela não me machucou", ela me assegurou num tom de desafio; isso só me fez perceber o quanto ela fingia boa parte do que expressava.

Não sorri, nem ri. Seria constrangedor. Mas a minha vontade era de balançar a cabeça e dizer que poderia abaixar a guarda perto de mim, porque eu não era a Quinn, nem os caras populares que almoçavam como javalis selvagens no refeitório. "Teria me machucado. Aliás, me machucou", eu sussurrei. Por que eu estava falando tão baixo? Estávamos perto um do outro o suficiente para que eu pudesse segurar suas mãos, no entanto longe o suficiente para que eu não concretizasse meu desejo. Rachel juntou os lábios, um pouco fragilizada. Eu sabia que estava escondendo muito mais do que era. Seus olhos se alteraram quase imperceptivelmente: estavam carregados de culpa. Ela os baixou, procurando o chão. Suas mãos se retorceram por um tempo sobre suas pernas. "Por que você está aqui? Diga a verdade", Rachel olhou para mim com determinação, livrando-se de seu estado vulnerável. "Não sei", sorri sem graça. "Eu só... Gosto de ouvi-la cantar", repliquei. "É mesmo?", ela soava incerta, mas preenchida por algo semelhante com agradecimento. "Você...", franzi a testa, confuso. Não sabia o que dizer. Não sabia o que queria dizer, meu cérebro não estava acompanhando os processos do meu coração. Quanto mais sentia, menos sabia o que pronunciar. "O quê? Eu o quê?", Rachel perguntou suavemente. Parecia complacente e curiosa. Abri a boca, sem graça mais uma vez. Imitando-a, abaixei meus olhos para o chão. Parecia desconfortável demais observá-la, agora que Rachel estava dedicada a me analisar tão atentamente. "Você provoca alguma coisa em mim. Um tipo de efeito, não sei explicar", minha voz estava novamente sussurrada. "Gosto de você", eu disse. Agora, podia sentir meu rosto queimando e fiz um esforço para manter meus olhos longe dela. Seria ainda pior se ela constatasse essa verdade quando focasse seu olhar no meu.

"Quando isso aconteceu?", Rachel quis saber, a voz tão neutra e moderada que achei que estivesse fingindo. Procurei seus olhos por um segundo: eles emanavam ansiedade, uma ansiedade dolorida e urgente. Então eu soube que ela estava apenas fingindo. "Quando aconteceu o quê?", pisquei para ela, confuso. "Quando você mudou a sua decisão sobre mim?", Rachel esclareceu rapidamente, um pouco impaciente. "Sobre gostar de mim", ela explicou mais. "Quando aconteceu com você?", rebati sem me ater a minha resposta. Eu não tinha uma resposta muito concreta para dizer a ela. Rachel ficou surpresa pelo meu questionamento. "Você me disse que não achava que eu fosse me tornar como sou, mas você também não se tornou nada parecida com quem imaginava", saí na frente, tendo a necessidade de deixar claro essa parte. "Isso é uma coisa boa ou ruim?", Rachel perguntou. "É uma coisa... Esquisita", eu ri fraco. "Como você me imaginava?", ela quis saber. "Não lembro", disse a verdade. "Tudo que sei é que você é melhor do que achei que seria". Isso a pegou de surpresa mais uma vez e a fez esboçar pela primeira vez um sorriso. "Eu também não lembro quando aconteceu a minha reavaliação sobre você", confessei um pouco mais à vontade devido ao seu sorriso. "Isso importa mesmo?", perguntei. Rachel negou com a cabeça. "Eu também não sei dizer com certeza sobre quando comecei a gostar de você. Acho que, na verdade, eu sempre gostei", Rachel falou, parecendo envergonhada. Meu peito se encheu de um sentimento quente e aconchegante. Gratidão, talvez. E compaixão. De imediato, soube que ela realmente estava sendo sincera. E então me senti culpado por não poder dizer o mesmo. Seu antigo modo que de abordar me assustava e não apreciava isso de modo algum – e então isso me fazia repeli-la, sempre. Mas, depois que ela parara de me procurar, isso me fez falta. Seria ridículo confessar isso abertamente, mas era verdade. Rachel parou de me importunar e se dedicou a si mesma, pouco se importando comigo. Quando conversávamos, por vezes, ela era esquiva, oculta, retraída. E isso fez com que eu ficasse curioso: porque seu comportamento tinha modificado assim, tão de repente?

Sorri abertamente, sem máscaras. Isso iluminou o rosto de Rachel e, logo em seguida, ela também estava sorrindo, sem esboço, sem vergonha. Liberta. Inteira. Como eu.


HE LOVES YOU, YEAH YEAH YEAH. Oi, gente!
Então, mais um capítulo lindinho pra vocês. GENT, O FINN TÁ TÃO AMORZINHO! *-* MUITA FOFURA, OMG. Finalmente as coisas estão "engrenando" ;)
Um aviso de utilidade pública: como eu não escrevo durante a semana e como não escrevi neste último fim de semana, TALVEZ o próximo capítulo demore um pouquinho mais que o habitual para sair. Mas não se preocupem, ele VAI SAIR. É que meu tempo está cada vez mais curto e tudo mais. Cês sabem, vida de universitária é praticamente comer feito uma porca pra afogar as lamentações e tentar dormir por pelo menos quatro horas, UAHUASUHAUA. Sem contar que meu estágio tá me dando um trabalho e tal. Mas não se desesperem ;) Eu volto com mais fofuras em breve!
Beijos e ótima semana a todos!