Parte I – Taking Chances (Platinum Weird/Celine Dion)
"Acho que você deveria tentar, é realmente muito legal. Quer dizer, quando eu não tenho que ficar corrigi-los a todo instante", eu disse para Kurt enquanto dividíamos uma pizza de forno. "Se isso significa que preciso subir no palco e cantar para você e aqueles desajustados a resposta é não", Kurt respondeu, depois de morder um pedaço generoso de pizza e engoli-lo. "Nós também somos desajustados, não somos?", ponderei, fixando meu olhar nele de modo confuso. Por que Mercedes, Tina e Artie deveriam ser mais desajustados que nós dois? Quer dizer, os três nunca tinham se envolvido em fofocas escolares, nem foram parar na lixeira próxima – e isso era bem pior do que ser cercado por alguns garotos e acabar preso dentro de um banheiro químico, não era? Ou será que o nível de sacanagem equivalente? Como eu nunca sofrera nada físico por parte de meus colegas, já que as provocações eram todas verbais, nunca saberia responder. E claro que inquirir sobre isso a Kurt apenas seria considerado uma atitude idiota de minha parte. No entanto, Kurt não me respondeu. Eu disse: "Você nunca me disse que tem medo de palco". Ele me olhou e deu de ombros. "Nós brincávamos de show musical quando crianças, lembra? E você sempre colocava as roupas da sua mãe. Aquelas brilhantes", eu disse, recordando-me dos episódios tão lucidamente como se estivessem se desenrolando diante de nós. Olhei para ele. O Kurt criança ainda era o Kurt que eu convivia. Ainda apreciava musicais, roupas engomadinhas e cabelo cheio de gel, entretanto as vestimentas de sua falecida mãe, agora, estavam abandonadas no sótão de sua casa, dentro do mesmo baú velho. Por mais de cinco anos, Kurt não entrava mais naquele mundo de roupas brilhantes que conservavam o perfume inebriante de sua mãe. Eu tinha ciência de que ele parara com o ritual não porque não sentia saudades dela, mas porque estava tentando se distanciar daquele garotinho da varinha colorida das aulas de ballet. Não entendia o porquê daquilo. Eu gostava desse Kurt do mesmo modo como gostava do de antes. Para falar a verdade, eles não tinham seguido caminhos tão diferentes assim. Só que, ao contrário daquele Kurt que não tinha vergonha de usar tutus cor de rosa, esse Kurt tentava se preservar ao máximo como se, fazendo isso, os comentários sobre ele pudessem se abrandar. Mas isso nunca ocorria. Os populares sempre inventavam um novo modo de importuná-lo.
Com o passar dos anos, às vezes, achava que Kurt fosse se abrir comigo. Comentar sobre sua situação – sobre o que todo mundo dizia sobre ele; então, afinal, ele era um menino ou uma menina? É claro que eu sabia que Kurt era um menino. Mas e daí que ele fosse um menino um pouco diferente? Eu gostava dele ainda assim, era meu melhor amigo, a única pessoa que ficara ao meu lado todos aqueles anos. Nunca seria capaz de julgá-lo.
"É uma coisa completamente diferente", Kurt me respondeu. Será que era mesmo? Porque Kurt ainda gostava de filmes musicais e de calças coloridas. "Ainda acho que é uma boa ideia", assegurei. Não tinha quase que graça nenhuma fazer parte do clube e não tê-lo por perto. Se ele estivesse junto a mim, dividindo aqueles momentos, seria mais suportável. Kurt poderia reafirmar todos os meus conselhos a Mercedes, Tine a Artie, já que nenhum deles me levava a sério. Mercedes achava que eu dizia ensinamentos ultrapassados e que eu queria comandá-la o tempo todo (mas se eu não o fizesse, como ela melhoraria?); Artie me encarava com certa impaciência, como se eu estivesse lhe incomodando terminantemente; e Tina, talvez a única sensata – ou apenas fosse sua imensa timidez –, nunca me rebatia, apenas assentia e acatava minhas ordens. Ou seja, não era tão agradável passar minhas tardes com os três tanto quanto eu achara que seria. A princípio, considerei o clube ser um local de libertação, de pura expressão, mas com os embates e as discussões quaisquer momentos de alegria perpassavam pela sala com a velocidade da luz – quase não os tínhamos. Portanto, eu deveria arquitetar um plano em benefício de todos nós. E ludibriar Kurt era apenas o primeiro passo. Eu precisaria de qualquer tipo de reforço. Precisaria, também, de alguém que impusesse respeito, alguém que todos concordassem com as concepções musicais e todo o resto. Já que eu não agradava, era hora de deixar o posto em prol da música bem feita – coisa que, por enquanto, não ocorria de modo algum.
"Não quero ser cantor, você sabe disso, certo?", Kurt retornou, agora evidenciando uma expressão inquisidora. "Isso não importa", refutei. "Talvez o clube funcione melhor com mais gente. O que acha de realizarmos uma seleção?", indaguei. Era uma ideia que eu tivera antes de me deitar e que poderia acarretar muitas melhoras. Em todo caso, nós quatro não combinávamos muito bem. Mercedes sempre se sobressaía com sua voz gritada demais; Tina tinha vergonha de propagar sua voz mais do que um sussurro; Artie não tinha muito ritmo e não sabia controlar as notas; eu me irritava facilmente, o que acabava prejudicando o meu desempenho. "Não me diga que eu serei a primeira cobaia", Kurt fez uma careta. Um rosto se iluminou, porque, evidentemente, essa era a minha intenção. Não pretendia coloca-lo numa situação humilhante, apenas queria provar que qualquer um poderia fazer parte do clube. Mesmo um garoto rejeitado e que ainda adorava roupas brilhantes. Ninguém jogaria tomates nele! Bem, ao menos acho que não... Mas Kurt tinha uma voz ótima. Um pouco fraca, mas ótima. Somente cabia a ele tomar algumas aulas de canto. Eu poderia ajudá-lo, já que sabia aplicar a maioria das técnicas das aulas de preparação que frequentava. Era isso. Ele entraria no clube e tudo melhoraria. Talvez percebesse que fazer parte daquilo o transformaria numa pessoa bem mais sociável. "Não acredito que direi isso... Mas ok. Canto para você", ele me disse. "Não, não para mim! Você tem que cantar para o clube. Assim nós entraremos num consenso quanto a sua aceitação".
Kurt fez uma cara desanimada. "Apenas para vocês, certo? O auditório é fechado para vocês, não é?". Não exatamente. O auditório era aberto a quem se disponibilizasse a utilizá-lo; como quase ninguém, além do clube de teatro, fazia questão do espaço, nós o reservávamos quase todos os dias – e para a minha completa decepção ninguém aparecia para nos observar. Muito embora eu soubesse que Finn nos escutava na sala, nunca tinha aparecido no auditório, além da tarde na qual eu tinha conseguido a minha chance no clube. "Sim", falei, omitindo qualquer outra coisa. Quer dizer, o risco de alguém, além de nós, ouvi-lo cantar era quase nula. Além do mais, eu precisava que ele se sentisse seguro para se apresentar. Omitir não é, exatamente, mentir. "Então amanhã? Perto das 15h30?", inquiri. Ele deu de ombros. "Só espero não querer correr de lá de cima", ele comentou. "O que eu canto?", seus olhos pareciam especulativos por demais, quase que entusiasmados com a ideia. Eu sabia que ele escolheria alguma coisa pop. Talvez Britney Spears, Lady Gaga, ou Katy Perry. "O que você quiser", sorri. Não tínhamos restrições, embora eu não suportasse mais ouvir Mercedes cantar Aretha Franklin. Isso pareceu animá-lo um pouquinho.
Nunca tinha tido nenhum tipo de problemas com ninguém dentro do colégio. Com os professores, menos ainda. Mas é claro que algumas coisas são inevitáveis. Elas vão acontecer. E quando aconteceu comigo, mal pude acreditar. Primeiro porque foi horrível. E depois foi realmente muito bom. Eu nem precisei traçar completamente o meu plano inicial. Poupou-me bastante tempo.
Estava na aula do Sr. Schue. Espanhol nunca fora meu forte, mas conseguia tirar boas notas; não exemplares, mas o suficiente para que me rendessem frases de congratulações do professor – também porque a maioria os meus colegas ou dormia nas aulas, ou achava o Facebook muito mais interessante. Eu também achava, mas sempre fora a aluna certinha e não poderia me dar ao luxo de me desfaze desse rótulo. Então, quando a treinadora Sue Sylvester irrompeu pela sala na maior dramatização de horror puro e gritou "Rachel Berry!", eu quase engasguei com a minha própria saliva. Todo mundo meio que tinha pavor dela, por ser muito rígida e por ter a fama de não ser tão gentil quanto o resto de seus colegas de profissão. E, naquele momento, achei que ela fosse me arremessar uma cadeira, ou então me jogar diretamente para a minha cova. Foi completamente apavorante. O Sr. Schue parou sua explicação e olhou para a treinadora e depois para mim. "Precisa falar com a Rachel, Sue?", ele perguntou numa tranquilidade invejável. Todo mundo sabia que os dois não se davam nada bem, mas ninguém conhecia com exatidão o motivo. "Cala a boca, queixo de bunda. Anã judia, tire logo a sua bunda magra dessa cadeira e venha comigo", Sylvester disse num tom absurdamente severo e que explicitava o quanto ela estava a ponto de ter um ataque de fúria. Meus colegas estavam praticamente prendendo a respiração e evitando contato visual com ela ou comigo. Olhei para o professor. Não queria ficar a sós com aquela tirana, e se ela me obrigasse a fazer quinhentas flexões com apenas uma das mãos? Eu ficaria chorando e implorando pelo resto do dia para poder retornar à sala de aula. Levantei na mesma hora, afinal o que eu poderia fazer? Dizem não? Ninguém dizia não para Sue Sylvester. Simples assim. "Sue, acho que isso não é necessário. Tenho certeza de que Rachel não deve ter feito nada de...", Sr. Schue tentou intervir, mas foi súbita e brutalmente cortado pela treinadora: "Você não tem certeza nem mesmo onde coloca as suas meias. E tenha muita certeza de que essa mocinha está MUITO encrencada".
Meu coração começou a acelerar ainda mais, nervoso. Ai, meu Deus. O que eu tinha feito? Eu não fazia nada de errado! Nunca tinha feito! Nem mesmo quando criança! "Certo, vou acompanhá-las então", ele se adiantou. Lançou um olhar para a turma e finalizou: "Estou de volta em quinze minutos, se ocorrer alguma desordem todos os pontos extras serão retirados da nota final do semestre. Estão avisados". E então rumamos para o corredor. Eu estava tão chocada que mal sabia o que pronunciar. Não precisava de mais um motivo para meus colegas me ignorarem ainda mais. "Eu quase achei que fosse botar pra fora o último shake de vitaminas quando encontrei aquela coisa abominável!", Sue disse para mim. "Você acha que tem liberdade de expressão? Acorda, nós moramos num mundo capitalista que não está nem aí para o que você acha que chama de talento! E que talento? Você acha que tem talento?", ela continuou. Não sei por que não parei ali mesmo e retrocedi. Acho que porque eu prezava bastante pela minha vida. Seria realmente humilhante morrer no meio do corredor. "Sue, quer se acalmar?", Sr. Schue pediu. "O que, afinal, aconteceu?", ele quis saber. Eu também me fazia essa mesma pergunta. "Essa criaturinha petulante fez...", andamos mais três metros e então ela terminou sua sentença: "Isso". E daí apontou pra um dos papéis afixados em um dos quadros de informações. Para o papel que eu tinha imprimido referente à seleção de novos membros para o clube de música. Era chamativo, porque seu plano de fundo era rosa berrante e as frases tinham sido decoradas com glitter. Ideia do Kurt, pois ele tinha me dito que, se quiséssemos chamar a atenção das pessoas desatentas (aquelas que nunca olhavam para nada além de seus próprios celulares ou para as saias de Cheerios), tínhamos de usar um artifício realmente potente. Tudo bem, talvez fosse um pouco... Bem, extravagante demais. Mas quem ligava? Nós precisávamos de mais membros, não precisávamos? E os quadros estavam ali para utilidade pública.
"Certo. Um convite para...", Sr. Schue se aproximou do papel para ler melhor, embora não fosse necessário. "Para os interessados no clube de música", ele disse. Então olhou para mim, parecendo perplexo. "Espere aí, o McKinley tem um clube de música?", ele me inquiriu, muito intrigado, mas sem deixar de transparecer sua surpresa. Assim que eu abri a boca para responder, Sylvester me interferiu: "E com a autorização? Eles têm autorização?", ela foi logo questionando com aqueles olhos arregalados de raiva. "Vocês não têm autorização alguma!", ela disse para mim. "Quem é o orientador de vocês? Sem um orientador nenhum clube tem a permissão de ser fundado!", seus olhos se intercalavam entre mim e Sr. Schue. Eu não tinha a mínima ciência daquilo. Será que era realmente verdade, ou, mais uma vez, ela estava apenas blefando? E se a treinadora estivesse com a razão e o clube tivesse de ser desfeito? O que seriam das minhas tardes não tão depressivas assim? "Na verdade, Sr. Schue, o clube é aquela oficina sobre a qual Mercedes, Tina e Artie lhe contaram certo dia. Foi o senhor que cedeu uma das salas a eles para os encontros", eu elucidei a questão antes que Sylvester se desse por vencida. "Oh, a oficina! Claro que me recordo! Então, agora vocês são um clube?", ele me olhou com curiosidade. Assenti.
Pronto, estava tudo encerrado. O clube seria vetado.
"Acho que seria altamente recomendada uma visitinha rápida ao diretor Figgins. Você já foi expulsa de alguma escola, Anne Frank?", a treinadora se dirigiu a mim com uma expressão que me dizia que estava tudo acabado para mim. Ela vencera, claro. Fiz que não somente com a cabeça. Eu seria expulsa? Por conta de um aviso no quadro geral? Mas eu nem tinha sido a idealizadora do clube! Quem começara tudo foram aqueles três... No entanto, seria completamente desleal colocar a culpa neles, mesmo que fosse o mais sensato. Eu dependia deles. E, de certo modo, até mesmo começara a me adaptar às esquisitices deles. "Sue, não creio que seja necessário esse tipo de abordagem. Figgins está muito mais preocupado com o dinheiro que perde tentando reverter a calvície do que com quaisquer tipos de inadequação ao código acadêmico", Sr. Schue se pronunciou. "E se o problema é que o clube não tem um orientador, eu fico com o posto". Abri a boca, mal me contendo. Os olhos da treinadora chisparam para ele como se pudesse amaldiçoá-lo apenas com aquele gesto. "Eu fiz parte de um clube de música quando estudante. Seria uma honra compartilhar minha experiência com as crianças. E seria uma ótima desculpa para não ter de ficar montando quebra-cabeças com a Terri", ele emendou antes que Sue tivesse chance de rebatê-lo. "Não temos verbas para manter esse clube de medíocres", a treinadora juntou os lábios com força depois de dizer a única coisa que seria capaz de desanimar qualquer orientador iniciante. Mas não o Sr. Schue. "Há bastantes equipamentos disponíveis na sala e tenho certeza de que ninguém se importará de ficar sem regalias por algum tempo", ele foi sucinto, mas muito convincente. Eu vivia sem regalias naquela escola desde o meu primeiro ano ali e estava muito bem. Estava sobrevivendo da melhor maneira possível. "E caso esteja com a imensa vontade de questionar sobre o fato de eu não poder exercer mais de uma tarefa acadêmica, não estou me importando com o meu adicional". A treinadora parecia querer quebrar alguma coisa, agora. Talvez a cara do Sr. Schue.
"Boa sorte com esses animais aleijados e perversos", foi a única coisa que ela conseguiu dizer. E então virou-se e marchou pesadamente para o fim do corredor. "Nós não somos perversos", fiz questão de deixar claro. "A Tina nem fala, na maior parte do tempo", confirmei. "Isso é ótimo. Eu quero dizer, a iniciativa de vocês. Não sabia que isso tinha ocorrido. Fico realmente feliz. Quem está no comando agora?", ele quis saber. "Bem, eu", dei de ombros. "Eles não têm muita noção de ordem, mas pelo visto não sou de total utilidade, porque ninguém me respeita de fato", suspirei. "Então agora sua tarefa será focar no seu talento. Você tem um talento, não tem?", ele me olhou como se tivesse se equivocado. "Desde que nasci, basicamente. Mas então, mantenho o aviso, não é mesmo? Vamos precisar de muito mais gente, apesar do Kurt já ter se juntado a nós. Talvez pudéssemos fazer algum tipo de apresentação no almoço, ou então...", Sr. Schue me cortou, porque eu estava animada demais. Quando fico animada demais, geralmente, falo rápido demais. E quase ninguém consegue me entender. "Deixe que eu cuido do resto, Rachel", ele levantou as palmas das mãos em minha direção, indicando que eu deveria diminuir a minha ansiedade. "Certo. É claro. Certo", assenti, tentando conter toda a minha alegria. Parecia que eu tinha acabado de me carregar de uma energia completamente renovada. Todas as minhas engrenagens estavam preparadas para a largada a qualquer segundo.
"A que horas vocês ensaiam?".
"A partir das três. Espero que alguém se inscreva para alguma audição hoje", eu disse. "Seria muito bom mesmo. Mas os quinze minutos já se passaram, preciso terminar minha aula, vamos", ele assentiu, e caminhamos de volta à sala de aula.
Não duvidava que a treinadora Sylvester fosse recorrer ao diretor, talvez aprontar alguma para nós, mas por ora tudo estava perfeito.
Bem, quase tudo.
"Achei que eles tivessem terminado", comentei alto para a mesa que dividia com o clube de música. "A Barbie e o Ken?", Mercedes debochou e olhou para Quinn e Finn sentados lado a lado numa mesa distante da nossa. Eles não estavam sozinhos, mas a proximidade deles me fazia espetar o meu brócolis com tamanha brutalidade. "Ouvi dizer que quem terminou tudo foi ele", Kurt disse. "Quem suportaria alguém como ela? Sem ofensas", Artie falou. Mas aquilo não ofendia mais. Não éramos mais amigos de Quinn. E nunca voltaríamos a ser. Os laços estavam completamente rompidos. "Aposto como ela tem uma coleção de sapatos repetidos", Mercedes especulou com desprezo. "Por que eles terminaram?", sussurrei para Kurt. "Por que se interessa? Achei que não se importasse com ela. Nem com ele", Kurt me respondeu aos arrancos. Não consegui controlar meu rubor. "Não me importo, é claro que não. Estamos apenas fofocando. Não estamos?", rebati, ainda sentindo meu rosto quente. Ele semicerrou os olhos para mim, questionador. Não, não mesmo. Nunca teria a coragem de confessar aquilo para alguém. Muito menos na frente de Mercedes, Artie e Tina. Muito menos no meio do refeitório, local onde a maior parte das fofocas eram ouvidas e espalhadas pela escola. "Se você diz", ele deu de ombros. Mas seu olhar ainda estava intenso sobre mim. Droga, não queria que ele descobrisse nada. Por outro lado, era muito ruim não partilhar o segredo com alguém. Mesmo com alguém como Kurt, o qual parecia me censurar muitas vezes, apesar de ser meu melhor amigo. E claro que eu tinha ciência de que ele diria que eu não tinha chance alguma, porque Finn era popular e nunca olharia diferente para alguém como eu, ou seja, excluída do mundo perfeitinho das pessoas que conquistavam o topo da pirâmide hierárquica escolar.
"Eles estão apenas conversando. Muitos caras conversam com suas ex", Mercedes pontuou. Mas eu não concordava. Por que ele tinha de conversar com Quinn em público? Se bem que se fosse às escondidas seria pior ainda. E se eles estivessem se encontrando fora da escola? E se eles tivessem retomado com o namoro? Era muito ruim fazer parte do lado impopular do McKinley porque raramente as informações chegavam aos meus ouvidos com precisão ou sem atrasos. Talvez ele tivesse dado uma segunda chance a ela. Quem é que não daria, sendo Quinn tão bonita e tão influente? Mas supor aquilo me decepcionava demais. Achava que, afinal, Finn não era nenhum bobo, nenhuma marionete dela. Mas ali estava ele sentado ao lado de Quinn. Não estava sorrindo, muito menos demonstrando algum tipo de afeto profundo, mas... A cena estava acontecendo. Eles estavam juntos publicamente. Aquilo me incomodava. "Bem, não dá pra ver o que está acontecendo por baixo da mesa, não é mesmo?", Kurt riu sarcástica e sugestivamente. Olhei para os dois imediatamente. Não dava para averiguar nada, realmente. Não que eu quisesse presenciar algum tipo de ação. Mal suportava vê-los se beijando, que diria... Certo. Mudar o tópico da conversa era completamente necessário.
"Sr. Schue aceitou ser nosso orientador", falei repentinamente. Todos pararam de encarar a mesa de Finn e dirigiram seus olhares para mim. "O quê? Quando isso aconteceu?", Mercedes franziu a testa, parecendo com raiva por eu não ter deixado escapar isso antes. "Na aula de Espanhol", disse e em seguida contei o ocorrido com a treinadora Sylvester. "Ele era aluno da década de 80. Talvez 70. Eram tempos completamente diferentes. Eles usavam calças boca de sino. E faixas coloridas de ginástica na cabeça", Kurt observou com sofreguidão. "Isso não anula a ajuda que ele pode nos oferecer. Além do mais, se não tivermos um orientador não poderemos continuar com o clube", falei com impaciência. "Pense bem: será muito menos desagradável do que ouvir a senhorita Perfeição aqui gritando conosco a cada quinze minutos", Mercedes disse. Fiquei um pouco ultrajada. Nada mais do que o normal. Mercedes conseguia me ofender sempre que abria a boca para falar de mim. Ela deveria logo dizer que nutria certa inveja de mim, porque eu brilhava mais do que ela e tinha muito mais talento que todos eles juntos. "Se eu não corrigi-los, como vocês irão progredir?", questionei. Mercedes não disse mais nada. "Precisamos de um líder, isso é um fato", eu me pronunciei. Não adicionei nada sobre eles não conseguirem me ver com uma líder. Eu tinha o instinto da liderança desde meu nascimento – era o que meus pais me diziam. Mas poderia me sacrificar, por ora. Ser líder o tempo todo era um saco. Queria poder ser eu mesma sem arrependimentos, de vez em quando. "E ele é um professor, ou seja, será muito mais fácil para ele representar o papel".
Todos estavam calados. Até que Kurt olhou para mim com perseverança. "Rachel está certa. Não vamos nos portar como bebês chorões, por favor. O clube ainda é nosso", ele disse. "E vocês me ouviram: sem um orientador não seremos capaz de continuar com os ensaios", adicionei com energia. "Aposto como é uma baita mentira da Sylvester", Mercedes falou, taxativa. Era uma possibilidade; quem é que acreditava piamente nas palavras da treinadora? Apenas alguém muito ingênuo. Talvez a Brittany Pierce, que era do tipo de acreditar em fadinhas brilhantes e em Papai Noel. "Que seja. Não quero mais me aborrecer com vocês", suspirei irritada. Quer dizer, aquilo não era um joguinho de alternativas: as coisas deveriam proceder daquele modo para que não ficássemos sem nada nas mãos. Mercedes deu de ombros primeiro. "Espero que ele saiba algo além de La Cucaracha", logo depois complementou com tédio. Sorri e olhei para os outros. Todos aquiesceram silenciosos. Kurt então bateu palma e disse: "Nada de cantar como se estivessem morrendo, combinado? Se estamos levando isso a sério, temos de demonstrar confiança e amor". Tina, que geralmente não expressava nenhuma careta, franziu a testa. "G-gosto de cantar ba-baixo, mas n-n-não estou mo-morrendo!", ela se manifestou. "Então cante alto. Já disse para fazer isso, não?", arqueei as sobrancelhas. Eu tinha pena dela, muita pena mesmo. Se Tina se livrasse da timidez e daquele problema horroroso de gagueira, talvez fosse se dar muito bem no meio musical. Mas, até aquele momento, todos os conselhos que eu já lhe dissera não tinham sido colocados em prática. Começava a pensar que ela gostava de sofrer. Talvez gostasse de ser sempre ignorada. "S-sim", ela me disse.
"Espero que alguém tenha se inscrito para o clube", Artie falou.
"Até parece", Kurt revidou. "Somos invisíveis. E mesmo com aquele aviso charmoso duvido muito que tenham feito mais do que cair no riso", ele balançou a cabeça, em sinal de desgosto. É claro que ririam da gente. Faziam isso sempre.
Mas, talvez, nem tudo estivesse tão ruim assim.
Muitas circunstâncias mudam em apenas algumas horas, não é mesmo?
Meus dedos estavam cruzados, implorando por uma mudança.
Parte II - The Middle (Jimmy Eat World)
"Parece que não tenho escolha", repeti.
Como se, algum dia, eu tivesse tido.
Mas era importante fazer daquela frase um mantra, para que eu e Puck entendêssemos o que se passava. Até o momento a situação me parecia completamente ridícula e... sem sentido. Poderia supor alguma participação de Puck, se a consequência não fosse tão atípica. Afinal, por que ele desperdiçaria um pacotinho de drogas apenas para me inserir no clube de música? Talvez quisesse me pregar uma peça – ele adorava esses tipos de passatempos, realmente; mas nunca o faria para me atingir. Era a reputação dele, também. Atletas não frequentavam clubes artísticos – uma vez ou outra o clube do celibato, entretanto era compreensível por que tínhamos tanta paciência para permanecer uma hora inteira numa sala apinhada de garotas de saias curtas as quais, aparentemente, renegavam garotos. Mas o clube de música? Certo, havia garotas lá também, mas não garotas como as Cheerios. Um fator de peso na hora da decisão, digamos assim. Ao menos, para Puck. Existia certo feitiço naquelas roupas apertadas delas que simplesmente o fazia perder a noção do perigo.
"Você não pode entrar pra esse clube só-tem-retardados", Puck foi específico, era difícil ignorá-lo quando ele agia assim. Queria poder revidar, mas não consegui. Claro que eu tinha ciência de que o clube não tinha retardados. Não quando Rachel fazia parte dele: ela era uma das primeiras da turma, o que evidenciava o quanto seu cérebro não sofria de nenhum tipo de atraso cognitivo. "Eles são uma piada", ele adicionou. "Você não pode querer ser uma piada também, Finn", ele dirigiu um olhar ferino a mim. Claro que eu não queria ser uma piada. Mas e se o clube não fosse tão ruim assim? Rachel participava dele. Ainda a escutava constantemente, às escondidas; sua voz ainda era encantadora. Suas execuções ainda mantinham ritmo e perfeição. Não sabia por que Rachel era uma piada, quando tinha tudo para ser admirada. Eu a admirava, era inegável. Mas ninguém, nem mesmo ela, precisava saber. Talvez, um dia, eu revelasse a ela, caso ficássemos amigos o suficiente.
Amigos também admiram uns aos outros, certo?
"Não quero que isso fique no meu histórico. Seria ótimo se você confessasse de uma vez o que está armando", respondi. "Eu? Eu?!", Puck se manifestou às gargalhadas. "Cara, de que está falando? Eu já disse: não sou dessas coisas. Curto umas noites loucas, mas nunca recorri às drogas. O álcool já é o bastante", ele me afirmou. Eu não deveria acreditar nele. Ninguém acreditava muito em Puck. Eu era seu melhor amigo, era verdade, mas sempre havia certo ceticismo quanto às suas histórias e palavras. "E aquilo, com certeza, não é meu!", exclamei impaciente. Pra falar a verdade, eu estava com raiva.
Não sei se queria mesmo fazer parte do clube de música. Espanhol com o Sr. Schue já era cansativo por demais, tê-lo como 'comandante' do clube era ainda mais. Pior. Era muito pior. E eu nem cantava bem! Não muito bem, ao menos...
As únicas vezes que me permitia cantar era no chuveiro quando sabia que ninguém poderia me ouvir. Ele devia ter escutado alguma nota. Ou não. Talvez o castigo fosse mesmo real. Talvez aquilo fosse uma chantagem. Mas por que um professor – do tipo do Sr. Schue: que não ganhava bem, mas que era prestativo até com quem não merecia sua atenção - iria querer me chantagear? Ainda mais para me colocar num clube de música? Justamente eu, o quarterback? Será que ele estava louco, ou algo assim? Talvez o saquinho de drogas fosse dele! É claro! Por que não pensara nisso antes? Era isso. Definitivamente. Sr. Schue fazia parte do narcotráfico subsidiado pelo Sandy Ryerson, um dos antigos porta-vozes dos clubes artísticos do McKinley, e, para não ser pego, preferiu colocar a culpa em mim. Era muito comum. Adolescentes são portadores de drogas a todo instante.
Mas não eu, naturalmente.
Nem Puck (se é que eu podia confiar nele).
"Nem pense nisso. Se pensar, juro que faço você sair do time", Puck se pronunciou antes mesmo que eu pudesse dizer mais alguma coisa. Não que eu fosse dizer. Mas por que não pensar na possibilidade? Cantar não era um castigo não ruim, afinal. A menos que eu tivesse de cantar para o restante dos estudantes da escola, incluindo meus colegas de time. Daí seria um martírio. Podia ser uma piada particular, mas nunca pública. Não podia perder a minha reputação de atleta, líder do time de futebol. Tudo bem que não vencíamos há algum tempo, mas todos depositavam suas esperanças em mim a cada início de partida. Eu era o amuleto da sorte deles. Se já era humilhante sair do campo sustentando um fracasso, fazer isso frequentando um clube impopular e desajustado era ainda pior. Era... Bem, era como praticar suicídio social. Podia ser que os membros do clube não se importassem com suas imagens – não que tivessem alguma positiva, diga-se de passagem –, mas eu não podia me dar ao luxo. Eu precisava ficar no topo da cadeira alimentar estudantil. Lá era meu lugar. Do mesmo modo como Kurt pertencia à classe dos esquisitos. Ele era incompreendido, claro que era, mas aquela era a vida. Eu não podia mudá-la a favor dele. Também porque achava que ele meio que me odiava. Não podia oferecer auxílio a alguém que não me suportava. Mas tudo bem. Porque, intimamente, a recíproca era verdadeira.
"Não estou pensando", menti. Era preciso.
"Não queira se equiparar com aqueles fracassados, ouviu bem? Se fizer isso, não seremos mais amigos", Puck me disse. "Lembra-se da Rachel Berry?", ele quis saber. O-oh, péssimo caminho para se percorrer. Por eu justamente naquela hora ele precisava falar sobre Rachel? Ele nunca abria a boca para falar dela; nada que não fosse 'Ela é uma piada', ou "Ela é pirada'. Comprimi os lábios, sentindo-me retesado de repente. Não queria falar sobre a Rachel – ela não estava ali para se defender, e eu não seria capaz de defendê-la sem me passar por piada ou pirado também. Assenti, de qualquer forma. "Continua pirada", ele afirmou. "Mas é justo dizer que ela me salvou na última prova de História", deu de ombros, logo após. Puck colava de Rachel nas provas?! Como eu nunca soubera daquilo? Será que Rachel sabia? Em todo caso, tanto fazia. Não era a abordagem do momento. Talvez eu devesse começar a me sentar mais perto dela... Assim, minha mãe não poderia mais reclamar das notas.
"Não queira ser um fracassado como Rachel. Eu sei que ela é judia, mas é tão inútil que, se não fosse pelas provas, talvez eu não tivesse nada de bom para falar sobre ela", Puck tornou a dizer. Ninguém tinha muito de positivo para falar sobre Rachel. Ela sempre seria a menina exibicionista e arrogante. E Maníaca por Gatos. Ainda me recordava daquele episódio. Como pudera esquecer? Talvez, mesmo depois de dez anos, ela ainda mantivesse seu amor por felinos intacto. Talvez tivesse uns cinco gatos, agora. Talvez dez. Morreria sozinha, mas rodeada por gatos. Não seria tão ruim assim. Seria? "A Rachel não é tão ruim", falei. Oh, droga. Aquela minha boca. Meu cérebro quase nunca funcionava direito, então como é que a minha boca tinha a audácia de retrucar algo sobre Rachel? Algo bom, ainda por cima? Eu estava defendendo Rachel Berry de Puck! Eu estava mesmo pedindo para ser uma piada! Puck, então, começou a rir. E perguntou: "O que você sabe dela que eu não sei?". Mas eu não tinha conhecimento de nada além da mesmice de sempre. Por outro lado, muitos nunca a tinham escutado cantar. Eu tinha tido o privilégio muitas vezes. Era gratificante fazer parte da vida dela, mesmo que de modo não tão efetivo e presente assim. Ela não precisava saber que eu ainda a escutava cantar escondido, por exemplo. Mas não sabia por quê, tinha a impressão de que ela meio que sabia. Rachel sabia sempre de tudo. "Nada", encolhi os ombros na mesma hora. "Não me diga que você sabe o que tem por baixo daquelas roupas de bichinhos!", ele praticamente arregalou os olhos, muito surpreso.
Não sabia de onde Puck tirava aquelas coisas. Era realmente doentio.
Franzi a testa, aborrecido. Fiquei contente por constatar que minha expressão conferia, a quem a analisasse, um jeito um pouco enojado. Não que eu estivesse enojado. Estava aborrecido, porque Puck era sempre muito cretino. Não era ele que corria atrás de Cheerios? Por que estava interessado no corpo de Rachel? Ninguém parecia muito interessado no corpo dela, na verdade. Nem mesmo eu pensava no que havia por baixo dos suéteres esquisitos. "Cale a boca", mandei. Meu aborrecimento duraria por mais algum tempo. Porque, agora, eu estava começando a pensar no que a Rachel escondia debaixo daquelas roupas de professorinha de jardim de infância. Se ao menos ela usasse um uniforme das Cheerios de vez em quando...
"Ok", Rachel olhou ao redor, parecendo desconfiada. "O que você está fazendo aqui?".
Dei de ombros.
Era o episódio mais humilhante da minha vida inteira. Eu não tinha sorte alguma. Ao menos, meu histórico não ficaria manchado por conta do Sr. Schue.
"Eu meio que...", era insuportável observar seus olhos castanhos tão inquisidores, como se estivessem odiando a minha presença ali. Já me acostumara com os olhares de Kurt naquele estilo, e eles não eram nada. Mas Rachel? Por que ela tinha de me encarar daquele modo? Nisto, Sr. Schue entrou na sala com uma energia completamente incompreensível para mim. "Muito bem, gente. O Finn é o nosso mais novo integrante. Precisamos disso para continuar, lembram?", ele fez contato visual intenso com todos, talvez com o intuito de fazê-los parar de me julgar. "Ainda é inexplicável", Mercedes pontuou, num tom de voz inflexível. "Ele sabe que temos coreografia? Aposto que ele não sabe dar quatro passos cantando", Kurt me bombardeou naquela voz um pouco depreciativa à qual estava acostumado. Tudo bem. Não era o fim do mundo. Eu sabia que não seria fácil ou agradável. Mas cadê toda a receptividade que eu achei que seria colocada em prática, exatamente por eles serem os excluídos? Pelo visto, nunca conhecemos uma pessoa por inteira.
Mas e Rachel? Por que ela não estava feliz? Ela deveria ter ficado feliz, não deveria? Eu a tinha visto distribuindo os papéis cor de rosa pelos quadros na semana anterior. E, quando ela estava bem longe, resolvi conferir: era um convite à escola para se juntar ao clube de música. O clube de música que, agora, eu também integrava. Tinha achado com a pretensão dela ao tentar chamar a atenção do público era que o clube se abastecesse de mais membros. E eu estava ali. Teria sido uma conquista dela. Mais ou menos. Não sabia se deveria mencionar como tinha ido parar ali. Não seria muito prudente.
Rachel ainda se encontrava de mãos na cintura, me averiguando com a testa franzida – uma típica expressão de dúvida e questionamento. Ela era realmente muito baixa perante a mim. Não sabia dizer se ela é que era muito miúda, ou se eu é que era alto demais. Eu teria de me curvar para abraçá-la, caso surgisse a oportunidade algum dia. Naquela tarde, ela não trajava um suéter de bichinhos. Seus lábios pareceram se esmagar um contra o outro por um momento, mas, logo em seguida, ela disse: "Sempre achei que você fosse muito mais dos bastidores". Publicamente, aquilo não fazia sentido. E eu não precisava que aquilo se tornasse público. Decerto, era sua tática para me afligir. Ela não queira ser ninguém que fosse atrapalhá-la, ou que fosse ofuscá-la, ou roubar seu posto de queridinha. "Rachel, se você não se importa, gostaria de começar a lição de hoje", Sr. Schue interferiu, o que achei extremamente ótimo. Tinha me esquecido do quanto Rachel ainda era assustadora.
E, se eu achava que ali no começo da aula Rachel era assustadora, nada se comparou ao momento no qual o grupo todo teve de cantar uma canção que eu nem mesmo conhecia muito bem. Era de um filme, pelo que eu sabia. Minha mãe gostava dele. Entretanto, o que era para ser uma ocasião relaxante – talvez até mesmo de aprendizado mais dinâmico – tornou-se o meu inferno pessoal. Rachel parecia pirada mesmo. O jeito como me olhava... Eu só conseguia pensar numa palavra: louca.
Rachel Berry, apesar dos efeitos contraditórios que provocava em mim e dos os quais não tinha completa propriedade, era irrevogavelmente louca. Ela me deixou completamente assustado. Por que ela tinha aquela tendência horrorosa? Será que não sabia que assustar as pessoas fazia com que elas não quisessem ser suas amigas? Durante aqueles quase três minutos ela se comportou como uma psicopata.
Então, quando eu praticamente saí correndo do palco, alegando ter marcado de estudar com Puck (não sei se alguém de fato acreditou em mim, mas não me importava), tudo ficou bem mais suportável. E percebi que Puck tinha mesmo razão: aquilo tudo era uma piada. E eu não podia aceitar fazer parte dela.
Mesmo sozinho nas arquibancadas, respirar parecia mais fácil. Ficar perto da característica enlouquecida de Rachel não me proporcionava nada além de pavor. Atuar ao seu lado me parecia a maior loucura na qual tinha me enfiado de acordo com as minhas lembranças. Não podia mais continuar com aquilo. Precisava dizer ao Sr. Schue que a oportunidade tinha sido interessante (é o tipo de palavra que professores gostam de ouvir seus alunos dizendo), porém eu tinha outros planos. Eu era capitã do time, não podia me infiltrar num clubinho de perdedores. E daí que meu histórico não seria exemplar? Quem, nesse planeta, anseia ser perfeito – além de Rachel Berry, evidentemente? Eu poderia conviver com as drogas me tachando de qualquer coisa, mas não com Rachel Berry nas performances. Aquilo, sim, beirava a loucura.
Se ela fosse um pouco menos assustadora...
Certo. Ela tinha quase que erradicado aquela parte dela de sua personalidade com o passar dos anos, eu já tinha notado. Entretanto, parecia que alguma coisa acontecera. A bolha que represava todo o seu jeito assustador nato de ser tinha se rompido num átimo, a partir do segundo em que eu entrara naquela sala cheia de instrumentos musicais. Não seria capaz de lidar com uma Rachel Berry assustadora, cinco vezes por semana. Tal coisa ia além da minha capacidade. Ela não era tão ruim – era verdade; porém, o que acontecia naqueles momentos de cantoria conjunta? Eu simplesmente me sentia uma criança na frente do palhaço mais aterrorizante do mundo. Era horrível. Foi horrível.
Depois de muitos minutos, decidi apanhar meu material no armário para enfim partir para casa. Eu precisava do meu quarto e de boa música – não a música antiga que aquela gente cantava. Os corredores, agora, estavam praticamente desabitados, o que me provocava alívio. Não corria o risco de me encontrar com ninguém do clube.
Pelo menos eu achava que não.
Porque, bem ao lado do meu armário, Rachel estava posicionada. Sozinha. Encarando seus próprios pés. Fiquei estático na mesma hora. Ah, não. Não me diga que ela iria me repreender por ter saído do ensaio, ou iria me questionar acerca da minha entrada ao seu clubinho. Desempaquei, porque era necessário. Ela me notaria, caso eu ficasse parado ali no começo do corredor por muito tempo. Não é verdade o que dizem sobre a melhor camuflagem é se fingir de morto – não quando você tem quase o tamanho de um armário e não consegue parar quieto por muito tempo. Não queria ser abordado por ela. Não queria mais estar cara a cara com o modo assustador dela. Se possível, não queria vê-la na minha frente por algumas semanas, para que minha mente extirpasse toda a sequência aterradora que vivenciara com ela no auditório. Sem pronunciar nada, abri meu armário. Eu sei que parece esnobe e até mesmo idiota, mas não conseguia olhar para ela. Ela ainda me apavorava. Como é que pudera ter esquecido daquilo?
Rachel se afastou um pouco de mim, mas tampouco se pronunciou. De soslaio, pude conferir que seu rosto estava sereno e especulativo. "Me desculpe", depois do que pareceram horas, Rachel sussurrou. Ela sussurrou. Sua voz estava tão baixa que, se estivesse a alguns passos longe de mim, não a teria escutado. Fechei a porta do armário e a encarei. Ela parecia apavorada, agora. Do mesmo modo como eu tinha ficado durante a nossa performance. A constatação se abateu sobre mim com surpresa e com culpa. Não sabia por que sentia culpa – mas ela estava lá. "Eu não queria assustá-lo", ela disse. Seus olhos pareciam um pouco arregalados, enquanto sua face se mostrava rósea e desconfortável. Então ela sabia que estava me assustando? Por que não parou? "E-eu não sei o que deu em mim. Eu adoro aquela música e foi...", seus olhos se abaixaram do meu rosto; ela parecia querer se livrar da obrigação de me observar nos olhos. "Talvez você apenas estivesse nervosa. Acontece", eu disse. Depois de tudo aquilo, eu estava tentando confortá-la, inacreditável. Eu era muito idiota mesmo. Por que eu não arredava os pés dali e me mandava para o mais longe possível dela? Seria o racional a se fazer. Rachel assentiu, parecendo pensar no assunto.
Era claro que Rachel Berry não ficava nervosa. Ela tinha tanta desenvoltura na hora de cantar e de teatrar o canto que tudo ficava muito natural e impossível de perceber alguma desafinação, ou algo assim.
"Eu entendo se você quiser sair do Glee depois disso. Queria também... Bem, dizer obrigada por ter se juntado a nós. Não sei por que você fez isso, mas foi uma boa intenção", Rachel me falou e terminou meio que sorrindo. Ela estava agradecida? Então eu estava certo? Ela tinha mesmo ficado feliz por eu ter me juntado ao clube? Ao tal do Glee? Uau, aquilo superou todas as minhas expectativas iniciais. E mais: ela tinha se desculpado por ser agido como uma pirada. Será que, então, eu poderia vir a me acostumar com Rachel?
"Gosto do Glee", eu disse.
Era uma completa mentira, é claro. Não queria fazer parte daquele negócio – muito menos se eu tivesse de enfrentar toda a maluquice de Rachel. Mas... Quem sabia sobre o futuro?
Talvez, fazer parte do Glee fosse o meu futuro. E se ele me levasse para mais perto da Rachel que aprendi a apreciar, talvez eu acabasse descobrindo mais sobre mim mesmo.
Mon petit,
Aqui estou eu de novo *-* Mil desculpas pela demora - por algum motivo esse capítulo não estava fluindo muito bem, e levei três dias para escrevê-lo. Sorte a minha que tive feriadão! Não tenho muito o que comentar desse, a não ser: awn, awn, esse final ficou tão amorzinho! (tudo pra mim é amorzinho, rs!). Espero poder escrever no fim de semana que vem para postar o próximo chapter rapidinho! Aguardem, por favor. Não desistam da fanfic! A minha vida não é mais um moranguinho, qqqq
Beijos, amores! 33
