Parte I – Breathe of Life (Florence and the Machine)

Glee enfim ganhou certa notoriedade. Não em decorrência dos pontos positivos que exaltávamos a todo instante – apesar de, é preciso admitir, eles não se faziam presentes todos os dias. Ao perceber que pessoas que nunca insinuaram deter nem um tipo de inclinação artística fizeram suas escolhas e estavam, agora, inseridas no clube, foi inevitável não pensar que havia algo de errado acontecendo. As Cheerios, pelo que eu sabia, não entendiam quase nada do que fazíamos ali. Mas então, de repente, três delas estavam sentadas a alguns metros de distância de mim, fazendo parte do Glee comigo. Como se fôssemos, na melhor das hipóteses, colegas de classe. A verdade era que éramos praticamente inimigas. E o que falar de Quinn? Ela tinha abandonado o amor por musicais há algum tempo – mais precisamente há três anos antes. Agora com 15 anos, Quinn mais se interessava por beijos do que por canto. Talvez suas performances nos fossem úteis algum dia, mas o que mais poderia contribuir? Sua voz nem era a das melhores... Quer dizer, eu sempre a julgara por isso. Quinn era um tipo muito comum de criança: sabia que era linda e dizia que seria modelo-atriz-e-cantora. Tudo junto, tudo ao mesmo tempo. Claro que, na época, era ingênua demais para saber que, corriqueiramente, as três profissões competiam demais e, ou lhe caberia escolher uma delas, ou partir para um sonho profissional bem mais concreto. E, agora, eu sabia que ela poderia muito bem optar pelas passarelas. Pelos vestidos caros e exclusivos. Pelas melhores maquiagens do mundo. Pelas dietas infinitas. Por tudo que não fosse, nem de longe, páreo para alguém como eu, ou seja, comum demais. Inadequada demais, também. Quinn sempre seria adequada para qualquer coisa.

Menos para o Glee. Era preciso admitir. Eu já admitira. Quem sabia, com um pouco de esforço, ela poderia também. Um dia. Um dia que não fosse aquele, pelo jeito.

Não enquanto ela estivesse contando para Santana e Brittany, a apenas duas cadeiras de mim, que o jantar que tivera com a família terminara com uma bela canção interpretada com ela, e que sua mãe chorara com sua performance – o que eu duvidava completamente; a mãe dela era tão inexpressiva que parecia um robô. "Se isso for verdade, como minha meia", Kurt sussurrou para mim, olhando crítico para as três, na direção oposta a nós. Soltei uma risadinha. "Eu sei. Patético, não?", indaguei, balançando a cabeça. "Se existisse um modo de comprovar que isso é tudo encenação... Porque até parece que elas gostam de estar aqui", Kurt revirou os olhos, desgostoso. Era bom saber que alguém dividia comigo tudo isso. Às vezes, sentia-me culpada por odiar as três sempre por perto, mas saber que Kurt também não apreciava isso fazia-me sentir um pouco melhor. Assim nós poderíamos odiá-las juntos. Como, na verdade, sempre fora.

Suspirei.

Se, de um lado, estavam todas as forças negativas da minha vida – e que, de certo modo, sempre me compeliam a oferecer o meu melhor para superá-las –, de outro, se encontrava Finn, conversando com Puck. Ainda não entendia como ele era amigo de Puck, seria como se eu ignorasse todas as coisas ruins que Quinn falava e fazia pela escola e continuasse sua amiga. Tinha sido difícil convencê-lo a se juntar a nós, mas era melhor do que nada. E Puck até poderia construir uma carreira sólida como cantor, se algum dia desistisse daquele plano ridículo de limpar piscinas pela vida inteira. Mesmo depois de alguns meses, Finn ainda estava ali. Ficava contente por saber que ele não desistiria de nós, do Glee, por conta de status. Na verdade, ele já tinha se importado com isso, numa época. Mas entendera, eu acho, que não podemos repelir as coisas das quais gostamos. Já tínhamos enfrentado situações críticas ali dentro, mas estávamos ali. Por que sair, se fazer parte do Glee era a única hora que podíamos ser nós mesmos, sem nos esconder, sem utilizar nem um tipo de artifício para que a sociedade 'gostasse' de nós?

Então o Glee se firmou. Ainda éramos uma piada, mas uma piada feliz.

"Então", Kurt disse, utilizando um tom sugestivo. Olhou para Finn por um instante e depois focou sua atenção expressamente a mim. Desviei os olhos de Finn, de imediato. "O quê?", franzi a testa, confusa. Será que ele diria algum plano maquiavélico para expulsarmos a trindade do clube? Eu já tinha problemas por demais, não precisava me meter em mais confusão, apesar de que uma brincadeira dirigida a elas poderia salvar meu humor taciturno. Por que não, oras? "O que está rolando?", ele quis saber. Isso provocou um clique na minha mente. Parecido com um terremoto, na verdade. Uma tempestade no meu cérebro. Por dentro, eu gelei. "Eu tenho dois olhos. E mesmo se tivesse apenas um, ainda veria com perfeição toda essa agitação feminina em você", ele disse, apontando o dedo para mim. O que ele queria dizer com 'agitação feminina'? Não conseguia, por vezes, acompanhar o raciocínio de Kurt. Era completamente fora do padrão. "Engraçado, não vejo nem um tipo de agitação feminina em mim", respondi secamente. Ele meramente esquadrinhou os olhos para mim. Ok. O que dizer? Ele estava certo. Apenas não sabia como ele tinha descoberto. Eu achava que tinha feito um belo trabalho ao manter aquele segredo somente para mim durante todos aqueles anos. Mas, certamente – e com alguma sorte –, ele não tinha ciência sobre tudo. Se ele soubesse sobre tudo seria vergonhoso demais. Cruzei meus dedos discretamente sobre minhas pernas. Alguma coisa tinha que dar certo naquela semana. Já bastava todos os embates com Mercedes acerca de sua inveja para comigo. Sinceramente, eu nem monopolizava os solos tanto assim!

"Nos conhecemos há dez anos, alô. Eu sei até mesmo quando você está naqueles dias sem nem mesmo precisar perguntar", ele argumentou. Era um bom argumento. E aquilo era totalmente injusto. "Eu sempre desconfiei, na verdade. Quer dizer, era meio difícil discernir o que era verdadeiro ou não quando éramos mais jovens, já que você era muito inclinada a qualquer tipo de exagero. Mas teve um dia que eu soube. Já faz algum tempo", ele persistiu com tranquilidade; como se estivéssemos debatendo sobre quem tinha a pior voz da nova temporada do X Factor. Não sabia como Kurt conseguia lidar com assuntos tão sérios – certo, no mínimo um tanto quanto conflitantes – como se fosse um mero narrador-observador de um livro de suspense. Esses narradores nunca se assustam com nada, é um fato. Podia sentir, agora, meu rosto se esquentando gradativamente. Ah, droga! Se eu corasse, ele saberia que poderia se dar por convencido. Não poderia admitir uma coisa daquelas ali. Não quando Quinn e Finn estavam dividindo o mesmo espaço que eu e poderiam, com grande facilidade, entreouvir minha confissão. E então, adeus ao pouco que eu conquistara: a amizade de Finn. Infelizmente, não poderia adicionar sossego com relação à Quinn, já que, com ela inserida no Glee, nossa rivalidade pareceu ter se avolumado numa proporção incomensurável, embora nem eu nem ela transparecêssemos abertamente.

Mude o assunto, meu cérebro berrava. Fale sobre o novo par de tênis dele.

Era uma boa abordagem. Moda sempre o distraía. E, com algum esforço, eu poderia aprender alguma dica útil – se eu tivesse um pouco mais de paciência para isso. Moda nunca fora o meu forte, por isso precisava ouvir os risos que indicavam o quão meus suéteres engraçados não eram fashionistas. Não que eu pretendesse me tornar o novo modelo de conduta e de moda do McKinley.

"C-certo!", odiava gaguejar; gaguejar tem dois significados: nervosismo ou mentira. Lie To Me está aí, é só ficar atento. E, sim, eu estava nervosa. Não seria nada agradável ser descoberta naquele momento. E nem queria imaginar no tom vermelho que meu rosto estava, agora. Provavelmente, eu parecia prestes a desmaiar de pânico. Eu quase nunca tive pânico na minha vida. Nunca enfrentara nem um tipo de fobia. Fobia social? Eu não tinha medo de ser julgada – afinal, isso era inevitável eu sendo quem era. Fobia de garotos? Não passara por nem uma circunstância embaraçosa ou traumatizante com o sexo aposto – para ser sincera, os garotos é que nutriam certa fobia de mim. Fobia de gatos? Cachorros? Cobras? Não, não, não. Ainda amava gatos; Peter já estava muito velho, gordo e ranzinza, mas ainda o amava. Não tinha nada contra cães – como não amar aqueles filhotinhos chorões? Nunca tinha tido nem um laço familiar com ofídios; a única vez que me encontrara cara a cara com uma cobra fora no último acampamento de música, e eu gritara tão alto, na hora, que uns dos garotos do meu alojamento não conseguia parar de rir – mas afora isso, não tinha 'contraído' nenhum medo devido a essa situação.

Mas, definitivamente, eu tinha um sério problema quanto ao fato de estar prestes a revelar O Grande Segredo. Que, pelo jeito, não tinha sido escondido tão bem assim. Quais eram as evidências? O que tinha me delatado, afinal?

Pensando bem, não queria saber. Isso apenas me afundaria ainda mais. Se eu perguntasse algo como 'Como você sabe?' (que é um questionamento inócuo e muito pouco comprometedor), Kurt poderia desconfiar mais ainda – ele que, por natureza, já era desconfiado de tudo.

"O que acha de ensaiarmos algum dueto no fim de semana?", perguntei. Agradeci mentalmente por ter controlado melhor minha voz. Meu coração estava enlouquecido, podia ouvi-lo nos meus ouvidos. "Você está mudando de assunto!", Kurt exclamou, parecendo sustentar uma enorme vitória nos olhos. "É mais provável que eu esteja preocupada com as Nationals. Não procure zebras", eu lhe disse, secamente. "O quê?", ele franziu o cenho. Era ótimo confundir as pessoas. Era um dos meus passatempos preferidos. Se você confunde alguém usando um assunto que domina bem, automaticamente, você tem muito mais controle sobre as situações posteriores. É como ser a nerd da turma: as pessoas com quem você convive, certamente, acharão que você sempre será a líder em todos os momentos. E ser líder, em momentos específicos, tem lá suas vantagens. "É só uma expressão. 'Se tem quatro patas, focinho longo e come feno, procure um cavalo antes de procurar uma zebra'. Lógico, não?", eu comentei. "As zebras são muito mais legais. Você quer ser uma zebra? Então, ok. Você será o eufemismo da zebra", Kurt observou, muito, muito seguro do que dizia. Ah! Eu, uma zebra? Não saberia se poderia me acostumar àquilo. Cavalos são tão mais prestativos. O que zebras fazem, além de correr dos leões? Praticamente nada, se não estão expostas em algum zoológico; e, mesmo assim, ainda são inúteis: sem predadores, elas são meros pets enjaulados, já que uma vez lá dentro nunca mais sobreviverão sem a ajuda dos tratadores. E eu não precisava de nenhum tratador.

"O que a sua zebra interior tem a dizer a respeito do foco da conversa?", Kurt investiu mais uma vez. Incansável, ele era incansável. Qual era o problema dele? O que ele tinha a ver com a minha vida pessoal? Ele nunca compartilhara comigo nada sobre o campo amoroso, então por que eu deveria lhe confessar os meus sentimentos com relação a Finn? Kurt nem gostava muito de Finn, aliás. Nunca demonstrara isso, ao menos. Sempre o tratara com indiferença e, por vezes, com frieza. "Minha zebra interior não quer se pronunciar no momento. Agora, fique calado antes que eu decida fazer o dueto com a Tina", respondi rapidamente e com muita desenvoltura. Era ótimo recobrar os meus poderes de liderança. Não que eu pretendesse cantar com Tina. Mas, tanto fazia. Não estava a fim de cantar com ninguém, na verdade. Não estava a fim de cantar. Precisava arquitetar um meio de bloquear os intrusos do meu muro de contenção emocional: se alguém mais percebesse o meu 'interesse' por mirar Finn durante os ensaios do Glee, as consequências seriam desastrosas para mim. E talvez para Finn, também. Duvidava muito que ele gostaria que os outros o indagassem a respeito de seus sentimentos para comigo: ele não teria muito que dizer. Seria muito humilhante se o boato da minha 'paixonice' se espalhasse pelo McKinley. Finn era legal, mas nem ele poderia suportar os sentimentos de alguém como eu. Eu, que não chegava aos pés de nenhuma garota suficientemente bonita da escola.

Certamente, o seu 'gostar de mim' se desmantelaria na mesma hora. Talvez, com a mesma rapidez com que foi construído.


"Precisa de ajuda?".

Olhei para trás.

Foi impossível domar a minha ânsia genuína de sorrir.

"Não, acho que está tudo bem", eu disse e sorri mais uma vez. Era tão natural sorrir para ele que, às vezes, tinha a impressão de que qualquer um seria capaz de opinar sobre o modo como eu me portava perto de Finn. Tudo ficava diferente, realmente, quando eu estava com ele. Eu deixava de lado quaisquer barreiras e quaisquer julgamentos que já tinham feito a meu respeito. Nada me impedia de agir como uma idiota defronte dele. E eu não sabia se era algo bom ou ruim.

Não que eu me importasse, de qualquer maneira. A menos que descobrissem sobre os meus fortes sentimentos e me interrogassem ao estilo Inquisição. Daí eu me importaria. Um pouco. Ok. O suficiente para querer me esconder em casa, talvez.

Balancei a cabeça tentando espantar os pensamentos desconexos. Tornei a recair minha atenção – ou a fingida atenção, agora; era difícil olhar para qualquer outra coisa que não fosse Finn quando ele estava dividindo a mesma sala que eu, digamos assim – ao piano a minha frente, negro, de cauda e... Pesado demais para alguém do meu tamanho. Alguém, durante o intervalo, tinha se adentrado ali e o utilizado para alguma finalidade da qual eu desconhecia. Por isso, ele estava do outro lado da sala, do qual eu não gostava. Quer dizer, eu já estava tão acostumada a vê-lo no canto direito que sua atual posição me incomodou por demais, a ponto de eu ter de (tentar) empurrá-lo para seu canto costumeiro. Mas aquela tarefa estava se provando ser um tanto quanto árdua para mim. O piano, apesar de dispor de rodinhas, era mais pesado do que eu imaginava e me forçou a que jogar todo o meu peso nele para movê-lo poucos metros. E eu ainda nem tinha chegado à metade da sala. Com aquela lerdeza, eu o colocaria em seu lugar minutos depois. Minutos que me fariam perder a paciência e me dar por vencida. Mas eu não queria ser vencida por um piano! Eu amava pianos! Qual era o problema pessoal que aquele piano em específico nutria por mim?!

Eu não iria me concentrar na lição do dia se tudo não estivesse como de hábito. Eu tinha essas coisas esquisitas de vez em quando. Uma impaciência inexplicável.

"Geralmente, quando alguém lhe oferece ajuda você aceita. Especialmente se for para empurrar um piano com o triplo do seu peso", Finn disse. Ele estava meio que rindo, então eu me permiti rir também. Para aliviar a tensão. Gostava de ficar sozinha com ele, especialmente nos ensaios, mas nunca conseguia me livrar plenamente do meu nervosismo. Acho que porque raramente eu ficava sozinha com garotos, especialmente garotos como Finn: popular, mas agradável. A maior parte da população masculina do McKinley ou se encaixava na categoria a) esnobes, ou b) prepotentes, ou c) desatentos, ou d) impostores (do tipo que é seu amigo só pra ter algum benefício). O piano deslizou sem esforço pelo chão de linóleo. "Onde?", Finn me inquiriu, me olhando. Apontei a direção. Sem trocas de palavras, ele empurrou o instrumento para longe de mim e o depositou onde eu indicara. Em, tipo, cinco segundos. Com certeza era um recorde, ou algo assim. Deveria entrar no Guinness Book, um dia, se houvesse uma categoria para tal feito. "Obrigada", agradeci sem me importar por deixá-lo pensar que eu me assemelhava ao Coringa. Realmente, eu deveria parar com aquela mania imbecil de sorrir sempre para ele. Mas como você controla uma catástrofe natural? Talvez haja métodos e meios, porém nem todo cuidado que se está ao alcance tem o poder, por exemplo, de desviar um meteoro da órbita da Terra, certo? É uma pena que nenhum dinossauro tenha sobrevivido para contar seu relato. Todos eles morreram de fome, ou de insuficiência pulmonar, ou pela falta da luz solar. Não foi, como a maioria pensa, por conta do impacto do meteoro. A Terra não pegou fogo, ou explodiu. Ela apenas foi imersa por uma densa camada de poeira que impossibilitou quaisquer vidas de se manter por mais tempo. Exceto as baratas, porque elas são o demônio em forma de asas demoníacas.

Mas deixa para lá.

Eu deveria, também, parar de pensar sobre assunto tão aleatórios quanto a era dos dinossauros.

Finn estava bem à minha frente. Eu poderia pensar nele um pouco mais. Não iria sobrecarregar o meu cérebro de modo algum. Minha mente tinha mais facilidade de se recordar do sorriso torto de canto de boca de Finn do que de todas as canções da Barbra Streisand.

Finn deu de ombros, indicando que não tinha se incomodado por ter me ajudado. Bem, por ter feito o trabalho completo. Mas, também, como poderia reclamar? Ele poderia, com muita destreza, me carregar nos braços pelo campo de futebol inteiro. Tinha certeza de que seria perfeito estar nos braços dele. Um momento memorável. Se ele quisesse me carregar nos braços aquele exato minuto eu não dispararia nenhuma objeção. Nem uma mesmo. Seria como realizar o sonho de uma criança que quer muito visitar a Disney. Se ele me levantasse o suficiente, talvez eu pudesse alcançar seus lábios num segundo, o que seria impossível em condições normais, já que eu era uma anã. Tinha certeza de que beijá-lo entraria para o TOP 5 dos meus melhores momentos da minha vida. Como ter cantado pela primeira vez. Como poderia esquecer? A menos que eu sofresse um acidente sério que comprometesse as faculdades da minha memória, claro. Mas, por sorte, eu não era propensa a esses tipos de acidentes. Só aqueles que envolviam raspadinhas na cara. E...

Ah.

Certo.

Eu precisava calar o meu maldito cérebro.

Respirei fundo. Muito fundo. Ao que tudo indicava, eu não estava respirando com muita regularidade. Como poderia, com Finn tão perto de mim? Quer dizer, durante os ensaios para os duetos, às vezes, tínhamos que nos tocar. Dávamos as mãos. Era comum. Muitos casais apresentam seus duetos desse modo, para demonstrar intensa conexão sentimental com a canção. E nós não nos repelíamos disso. Porém, como envolvia o canto, eu era extremamente profissional. Tinha parado de assustá-lo, eu achava – também porque ele nunca mais correra do palco, como fizera na primeira vez –, e me mantinha o mais comportada possível. Não vou mentir: era ótimo sentir os dedos dele nos meus, meu coração sobressaltado pelo toque delicado e toda a adrenalina que a sensação me provocava. Mas eu era Rachel Berry. Eu era uma estrela. E estrelas nunca transparecem nada além de conexão com a música que está cantando. Mesmo que estejam lado a lado com um cara lindo e que poderia cantar com qualquer outra garota do Glee.

Eu já me inquirira isso. Talvez Finn quisesse cantar com outra garota. Quinn. Ou Santana. Entretanto, Sr. Schue estava convencido de que eu e Finn interagíamos melhor e éramos o trunfo do grupo nas competições. Por isso, com o tempo, eu e Finn tínhamos nos tornado os co-capitães do time. Nada mais justo. Ser líder tinha seus momentos de glória, tal qual ensaiar sozinha com meu parceiro. Meu dia sempre ficava muito mais suportável quando passava algumas horas a mais na companhia de Finn. Acho que porque ele tinha um astral e uma personalidade muito diferente de mim, oposta. Enquanto eu era – segundo alguns – expressiva por demasiado, Finn era calado e introvertido. Não abria muito a boca além do necessário, enquanto eu, se pudesse, não calava nunca a minha. Eu era explosiva; ele, um pouco contemplativo demais. Alheio, ou absorto.

Ainda assim, gostava de toda a diferença entre nós. Isso apenas provocava o meu lado investigativo. Havia tantas características dele que eu nunca descobrira, que estavam soterradas em algum lugar. Exatamente como eu. Ninguém tinha muita ciência do meu lado reservado. Talvez eu e ele tivéssemos esse elo: ambos suprimíamos alguns aspectos de nós mesmos do público. Uma face oculta de nós mesmos. Se ele me permitisse desvendar essas pequenas coisas dele... Gostaria de ser a pessoa na qual ele depositaria sua confiança para algo jamais confessado, ou exibido para o McKinley. Esse seria o nosso ponto em comum. Seria minha grande chance.

No entanto, Finn não estava nada inclinado a me confessar quaisquer pensamentos seus. Ele era uma incógnita tão grande que, por vezes, não sabia por que sentia aquela grande atração por seu jeito tão contrário ao meu. O que sabia era que ele me instigava a ficar observando-o por muito tempo, para que depois de toda a análise eu pudesse chegar a algum consenso quanto às suas atitudes complacentes e seu tom de voz que nunca oscilava demais: era ou desinteressado, ou indiferente. Por vezes, como antes, um tanto quanto preocupado. Gostava desse tom dele. Dizia algo a mais. Dizia que, por baixo de todas aquelas camadas de neutralidade, existia nuances nunca tinham sido expressadas antes.

Finn tinha se sentado e tamborilava os dedos nos joelhos numa atitude tranquila – típica dele. Seus olhos acompanhavam o chão, ziguezagueando de um lado para outro, despreocupados. Não exprimiam nada de mais. Pude distinguir a corrente de excitação que percorreu pela minha pele quando me sentei ao seu lado e meu cotovelo bateu no dele. Não doeu nada. Mas o contato era bom. Muito bom. Estava quase golpeando-o novamente, apenas para sentir mais uma vez a sensação deliciosa. Respirei por alguns segundos, tentando controlar o que sentia por dentro. Parecia que estava prestes a explodir. Aquelas coisas vinham ocorrendo com frequência. Não ousava pensar quais, realmente, eram as causas daquelas reações malucas, embora nos confins da minha consciência, eu sabia exatamente quais eram elas, mas tentava, a todo custo, ignorá-las. Porque nunca as tinha experimentado antes, de modo que não poderia comparar. E porque me sentia um pouco envergonhada. Era incômodo retornar para casa sabendo que eu estava... Bem, tendo pensamentos um tanto quanto incomuns. Você sabe quais. Aqueles pensamentos que pipocam pela mente de garotas com 15 anos e que estão apaixonadas.

"Você já ouviu David Bowie?".

Meus olhos se descolaram da porta. Eu estava cronometrando quanto tempo levaria para alguém chegar e arruinar o meu momento com Finn. Não que houvesse algo de diferente acontecendo entre nós – apenas o usual: nós dois sentados, calados, e confortáveis ainda assim com a situação. Pelo menos eu me sentia assim, apesar de toda a loucura que se sucedia dentro de mim, que nada tinha a ver com desconforto, aliás. Quando meus olhos se encontraram com os dele, notei que os dele já me analisavam há algum tempo. Pareciam acostumados a me encarar. "Não. Sim. Talvez", disse. Não me recordava. Com ele tão perto – eu podia até mesmo ouvi-lo respirar ao meu lado! – era difícil até mesmo lembrar quem era David Bowie.

David Bowie.

O cara esquisito da aula de História da Arte. Surrealismo.

Não era?

Não tinham dito aquilo em algum ponto?

Tinham. Porque eu gostava das aulas de História da Arte e nunca perdia nada.

Finn sorriu e depois riu. Tive vontade sair correndo, mas percebi que ele não estava debochando de mim. E aquele sorriso torto dele estava estampado em seu rosto de maneira sedutora. Ou não. Ou talvez eu estivesse com sérios problemas mentais. Estava vendo coisas inexistentes. "Quer ouvir?", ele ofereceu. Ora, porque não?

Ele então conectou os fones de ouvido ao seu iPhone e me passou um deles.

Rebel Rebel começou a tocar. Eu conhecia o David Bowie. Ao menos aquela canção. No mesmo momento, me senti a rebelde sobre a qual o cantor cantava, à exceção das partes que faziam alusão ao fato de a minha mãe não saber se eu era um garoto ou uma garota e ao fato de eu ser uma 'vagabunda gostosa'. Mas, de qualquer modo, eu estava me sentindo uma adolescente rebelde ao lado de Finn. Porque David Bowie nunca tinha parado nas minhas listas musicais, já que apreciava bem mais as artistas femininas. Barbra. Patti. Celine.

Quando a canção acabou, New Kids on the Block começou com Tonight, mas Finn a pausou e devolveu o celular à mochila.

"Você quer...", Finn pausou momentaneamente, engolindo a saliva. Ele não olhava para mim, mirava suas mãos agora retomando a posição acima de seus joelhos. Meu coração não iria aguentar, ai meu Deus. Claro que eu queria. Eu concordaria com qualquer proposta que ele me fizesse. Ele queria me levar para sua casa e me encher de beijos? Eu aceitaria numa boa. Meus olhos sofreram com a expectativa por ter de esperá-lo a formular a pergunta na íntegra. "Ahn, ensaiar um pouco mais, depois?", ele terminou a sentença.

Ah.

Ensaiar.

De novo.

Sozinhos.

Quem seria eu se recusasse, por Barbra?

"Claro!", minha resposta me soou entusiasmada demais. "Claro, sem problemas", consertei na mesma hora, numa voz menos aguda e sem muito ânimo. "Legal, porque ainda não consigo te acompanhar direito nos encerramentos", Finn explicou. E era verdade. Ele era ótimo. Nossas vozes se casavam perfeitamente, mas existia aquela grande diferença entre nós: ele não era profissional – ao menos não estava treinando para ser, futuramente. Então, eu aguentava as notas bem mais tempo que ele. "Vamos dar um jeito até as Nationals", sorri para ele, convicta. Tínhamos de consertar aquela falha, senão... Bem, adeus Glee. Era essa a condição que nos tinham imposto também: deveríamos vencer o concurso de corais para continuarmos a usufruir da sala e de todo o aparato musical. E tínhamos apenas uma chance. Se eu e Finn não fôssemos inesquecíveis, ou impressionantes o bastante, a equipe de jurados nunca iriam decidir nos conceder a vitória – já que éramos as peças mais potentes do clube.

Finn sorriu em agradecimento. Um sorriso normal. Indiferente. Comum.

Retribuí um exatamente igual.


Estávamos parados, em pé, defronte um ao outro. Perto. Perto o suficiente para que eu sentisse o cheiro do xampu que ele usara depois do treino de futebol. Como não o tinha notado no Glee? Finn colocou as mãos por sobre meus ombros; suas mãos pareciam enormes em cima de mim. E quentes. E fortes. Mesmo por cima do meu cardigã amarelo, podia sentir que o local que ele tocava estava ardendo em chamas. Não queria entrar em combustão instantânea logo ali, na frente dele. Seria idiota demais. Eu nunca mais voltaria a pisar no auditório. Talvez, nunca mais tivesse a coragem de encará-lo. Esperei. Elevei meu queixo e olhei para ele. "Lembra o que o Sr. Schue nos disse? Sobre estarmos conectados?", Finn quis saber, ainda com suas mãos em cima dos meus ombros, pesadamente. Era uma delícia, apesar de tudo. Fiz que não com a cabeça. Estava meio em pânico, pois ele nunca tinha chegado tão perto de mim daquele modo. O máximo que fizera fora me tocar nas mãos e nos pulsos. Claro que eu me recordava sobre o ensinamento do Sr. Schue. Era com essa intenção que cantávamos de mãos dadas, afinal.

Finn deslocou uma das mãos, a esquerda, de meus ombros. Nossos olhos estavam intensos. Bem, pelo menos eu sentia os meus daquele modo. Porém, havia um brilho diferente nos de Finn. Julguei ser em decorrência da iluminação. Logo em seguida, ele correu sua palma da mão pelo lado do meu corpo, das minhas costelas, logo abaixo dos meus seios, até a minha cintura. Na verdade, acho que ele nem mesmo percebeu o movimento. Ela ficou na minha cintura, não se moveu. Mesmo com a diferença gritante de altura entre nós, nossas posições pareciam corretas. Ele estava com as mãos em mim do mesmo modo como um dançarino deve proceder. Eu, por outro lado, estava completamente deslocada: minhas mãos se remexiam nervosamente na barra do meu cardigã, ao lado de meu corpo, caídas, sem tocar em mais nada.

Se houvesse um modo que gravarmos algumas cenas da nossa vida, com certeza eu gostaria que uma câmara oculta registrasse aquele momento. Ou talvez uma câmara fotográfica. Adoraria, um dia, olhar para a foto desse segundo. Mesmo que eu estivesse meio desengonçada. Porque Finn, ao contrário, estava perfeito.

Meu coração estava batendo nos meus ouvidos. E, de repente, o auditório parecia quente demais. Parecia que havia focos de fogo nos pontos que as mãos de Finn me tocavam, também.

Abri a boca para contestar alguma coisa, mas nenhum som ecoou pelo palco. Fechei-a, porque mantê-la entreaberta me parecia ridículo.

Então entendi.

Não sabia como, mas tinha entendido perfeitamente.

Olhei para baixo por um segundo: minhas sapatilhas vermelhas estavam apenas a alguns centímetros dos tênis dele. Umedeci meus lábios, tentando suprimir a vontade de clamar por água, já que minha garganta estava seca. Com esse simples gesto, alguma coisa mudou. Uma centelha perpassou pelos olhos dele. E, daquela vez, eu sabia que não era culpa da iluminação, porque suas orbes castanhas recaíram justamente nos meus lábios úmidos. Pareciam interessadas. E... Desejosas.

Minha respiração falhou por um momento. Ah, não. Eu não podia desmaiar justamente àquela hora.

Quando recuperei o fôlego, Finn sorriu para mim. O mesmo sorriso torto sedutor que eu tivera a impressão de já ter conferido em outras ocasiões. Porém, exatamente como não poderia desculpá-lo por conta das luzes, não poderia aplicar a mesma lógica para aquele sorriso: ele estava sendo sedutor. Um pouquinho, sim. Meio implicitamente. Sua cabeça então se moveu um tanto para frente – muito pouco para que nossos narizes se tocassem, entretanto. Mas eu sabia. Eu tinha entendido da primeira vez.

E de modo algum poderia conceder aquilo. Não quando eu estava quase surtando intimamente. Não quando parecia que estava prestes a ter uma síncope. Não quando o nervosismo, com toda a certeza, me denunciaria e me atrapalharia.

Finn Hudson iria me beijar.

Finn Hudson queria me beijar.

Eu, Rachel Berry.

E, daquela vez, não era uma alucinação da minha cabeça!

Meus olhos estavam quase se fechando...


Parte II – Say Don't You Want It (One Night Only)

Rachel, com a respiração pesada, deu um passo para trás. Não muito grande, mas o suficiente para que eu tomasse um choque de realidade.

Rachel não queria me beijar.

Afinal, por quais motivos o faria?

Desmontei o sorriso na mesma hora. Na verdade, ele esmoreceu por vontade própria, mergulhado numa decepção incomum. Minhas mãos ainda a estavam tocando sem pressão alguma, apenas repousadas por cima de suas roupas. Seus olhos, geralmente expressivos o bastante para todos a tacharem de louca, agora estavam refletindo uma faísca que nunca tinha enxergado. Ela parecia um tanto quanto enjoada.

"Desculpe", eu lhe disse. Por que eu deveria me desculpar por querer beijá-la? Eu não estava comprometido, nem ela. Ambos éramos livres para cantar de mãos dadas, ou compartilhar beijos debaixo dos refletores coloridos do auditório. Teria sido um momento bonito. Memorável, até.

Mas ela tinha se afastado, indicando que não estava de acordo com minhas intenções. Eu tinha sido muito burro por ter presumido que Rachel, finalmente, estava perto o suficiente de mim para que tudo se encaixasse. Era evidente o quanto ela se dedicava ao máximo para ser profissional naquilo tudo. Era seu sonho. E, certamente, ela não arriscaria todo o esforço por conta de um garoto. De mim. Rachel estava ali para ensaiar, não para me beijar.

Era difícil engolir aquela amarga decepção. Muito mais humilhante do que sair de campo sem uma vitória. Achara que tinha traçado o caminho correto até as pontes e os muros mais frágeis dela, mas então percebi que eles eram tão frágeis que não conseguiam sustentar nem mesmo aquele tipo de coisa.

Uma rejeição é chata para um cara que está acostumado a andar com garotas do tipo as Cheerios. Uma rejeição vinda de Rachel era, no entanto, vista como um fracasso. Eu não era nenhum profissional do canto – ela era uma diva, sempre perfeita nas execuções, sempre se esforçando ao máximo para oferecer o seu melhor. Nunca estaria à altura dela, de acordo com suas ambições. Eu sempre seria O Quarterback. Não passava de um atleta.

Rachel parecia magoada na minha frente. Não comigo, mas consigo mesma. Seus olhos e sua expressão denunciavam todo o seu horror. "A-acho melhor se ensaiarmos separados, por enquanto. Podemos ficar em lados opostos do palco, assim nossas vozes irão reverberar com mais clareza, cada uma mantendo suas próprias características, entende?", Rachel me aconselhou, ainda horrorizada e falando em disparada. Percebi que seu tom estava mais agudo que o normal. Assim, seus passos a levaram para mais longe ainda de mim: minhas mãos não estavam mais em contato com seu corpo, e ela se movia com rapidez para canto esquerdo do palco.

Eu sentia meu corpo pesado – meu coração parecia pesar uma tonelada.

A sombra dela se projetava, estendida, pela madeira do palco. Seus cabelos se moviam languidamente, enquanto ela se aprumava melhor para se preparar a cantar novamente. Eu não me recordava mais em qual parte tínhamos parado. Tudo tinha sido, de uma hora pra outra, sugado por um vórtice de confusão. Era tanta confusão – e decepção – que fiquei estancado no mesmo local, sem conseguir me movimentar com naturalidade. Enfiei os dedos nos bolsos da jeans, irrequieto. Desloquei meus olhos de Rachel para a plateia inexistente à nossa frente. As cadeiras estavam desocupadas, mas eu sabia que, na mente de Rachel, havia uma multidão gritando violentamente para que o show prosseguisse. Era isso que ela faria. Seguiria em frente. Como se não tivéssemos nos tocado com intimidade, nem como se nossas bocas quase estivessem encontrado o caminho certo para tentar perdurar um momento praticamente inesquecível. Quando notei que o silêncio estava se avolumando de uma maneira completamente pressurosa, mirei Rachel de novo. Ela me olhava. Talvez com expectativa. Ou talvez com desinteresse. Não sabia dizer se o que havia antes em seus olhos já tinha se dissolvido, ou não. De tão longe, especialmente debaixo daquelas luzes, a tarefa de analisá-la minuciosamente tornava-se árdua. Tentei esquadrinhar os meus, mas desisti. Não havia nada com o que me preocupar, porque logo em seguida ela pigarreou e disse:

"Você precisa começar".

Começar com o quê? A sair correndo dali, como se fosse o primeiro dia? Estava pronto para tal feito. Todos os sentimentos misturados dentro de mim me sussurravam, alegando que deveria dar por encerrado aquele ensaio. De todo modo, como poderíamos prosseguir de forma natural depois do que acontecera? Estávamos nos olhando, tudo bem. Mas não estávamos nos vendo. Não existia nada de expressivo em Rachel, agora. Ela aparentava ser a menina mais comum do mundo. Uma Anne Frank perdida no tempo. A saia do seu vestido preto se balançava vagarosa, enquanto suas mãos remexiam os botões do cardigã com distração. Ela estava nervosa, eu acho. Assenti, mas não disse nada. Não podia dizer nada; não enquanto não soubesse que o momento esquisito já tivesse se desfeito. Não sabia por quanto tempo ele perduraria entre nós e aquilo estava me matando. Rachel, costumeiramente tão tagarela, me assustava quando se fechava daquele modo, tão silenciosa e deslocada. Era perceptível o quanto parecia que ela gostaria também de sair correndo dali. Seus olhos estavam inescrutáveis, e eu não apreciava aquilo. Gostava de quando conseguia ler cada sentimento contido neles – era muito mais fácil decifrar suas próximas atitudes. Sem a transparência deles, eu me sentia um pouco acuado: era muito mais fácil lidar com ela se eu pudesse prever os próximos minutos.

"Olha", eu disparei, mal tenho ciência do que dizia. Mas eu precisava proferir alguma coisa, qualquer coisa para quebrar o silêncio e o desconforto. Ela se mantinha atenta a mim, porém sustentando certa distância emocional. "Nem eu nem você queremos continuar com o ensaio, então por que não saímos um pouco daqui?", com a minha mente um pouco menos nublada, os pensamentos coerentes estavam se alinhando com mais facilidade. Talvez, se apenas deixássemos o palco, tudo ficasse melhor. A atmosfera ali estava pesada, errada, estranha. Rachel abriu a boca, sugando um pouco de ar. "T-tudo bem", eu disse. Por alguns instantes, ficamos ainda parados. Mas então eu me movimentei para descer dali, e ela me acompanhou. Quando alcançamos nossas mochilas, Rachel estava retraída ao máximo e ainda silenciosa. "Podemos tomar um refrigerante, o que acha?", inquiri. Não sabia o que lhe propôs para vê-la agir normalmente. O dia estava ameno, então convidá-la para um sorvete seria um pouco demais. Um refrigerante era um bom pedido. Além do mais, eu estava com sede e precisava relaxar um pouco. "Tudo bem", ela repetiu. Rachel não tinha essa característica, o que me levava a crer que ou a) ela nunca tinha sido beijada antes, ou b) não queria que quaisquer empecilhos atrapalhassem a nossa amizade, muito menos o Glee. Mas, a julgar pelo seu comportamento realmente tímido, apostava bem mais na primeira opção. O que era, também, lógico, já que nunca soubera de boatos de que ela estivesse se encontrando com alguém.

Saímos ainda sem trocar palavras consistentes e caminhamos pelo andar em direção a uma das máquinas de refrigerantes disponíveis. "Coca-Cola?", perguntei, notando que havia uma variedade de botões aos quais nunca tinha detido muito tempo, já que nunca pensava demais e pressionava o comando da Coca-Cola. Olhei para ela, em seguida. Rachel concordou com a cabeça, colando um bocado de cabelo para trás de orelha. Em poucos segundos, eu estava com duas latas do refrigerante nas minhas mãos. Ofereci uma delas à Rachel, que logo a apanhou agradecendo quase aos sussurros. Pretendia sugerir que nos acomodássemos nos bancos do jardim, perto da estátua da escola, quando Rachel começou a caminhar para longe. "Hey", eu disse, surpreso. Rachel voltou seu pescoço para mim, me olhando. "Aonde você vai?", eu quis saber. Minha curiosidade escapuliu antes mesmo que eu pudesse me conter. Além do mais, eu tinha ficava um pouco ofendido com sua atitude repentina. "Meu pai deve passar para me apanhar daqui a pouco. Vamos jantar todos juntos fora, porque é aniversário dele", ela me explicou. Fiquei mais animado por constatar que sua capacidade de fala estava se estabilizando. Nunca sabia, entretanto, a qual dos pais fazia referência. Se eram dois, como eu poderia distingui-los? "Oh. Meus parabéns", congratulei rapidamente, sem saber mais o que responder. "E a sua mãe?", questionei. Rachel nunca dissera algo sobre sua mãe. Claro que ela tinha uma, caso contrário não poderia estar ali. Mas nunca tinha sabido com precisão se elas se conheciam, ou como tinha sido sua adoção. Não sabia, na verdade, se Rachel era órfã e fora adotada pelos Berry, ou se houvera inseminação artificial no seu processo de nascimento.

Rachel modificou sua postura; havia, agora, um vinco entre suas sobrancelhas, demonstrando algo que ainda não entendia. "O que tem ela?", ela perguntou. Suas sobrancelhas ainda estavam juntas quando dei de ombros. "Ela não vai ao jantar?". Ela então desanuviou a expressão e comprimiu os lábios por um momento. "Não", ela negou. "Obrigada pelo refrigerante. Fico te devendo um", disse depois.

Pensei em dizer que poderia sanar aquela dívida concretizando um beijo de verdade em mim, mas provavelmente não seria o que ela esperasse ouvir. E se ela já estava tão acanhada, quaisquer chances de continuar a deixar a nossa tensão mais ou menos controlada seriam derrotadas. Com certeza, com a menção da palavra 'beijo' ela sairia correndo no mesmo segundo.

"Sem problemas", foi o que acabei dizendo. Ela tentou, em seguida, sorrir, mas o que vi foi apenas uma faceta exibindo um pouco mais de sua distância.

Quando me vi sozinho no corredor, percebi que deveria ter corrido atrás dela e a beijado, sem conceder a oportunidade de que ela fizesse objeção alguma.


Eu queria que ela estivesse mais próxima, mas havia um tipo de abismo entre nós. Física e emocionalmente. Quando ela deu mais um passo para o lado oposto a mim, não consegui evitar fazer o primeiro movimento involuntário que perpassou pela minha mente.

Estiquei o braço e agarrei seu pulso, numa tentativa de mantê-la no mesmo lugar. Isso provocou uma reação nela: Rachel olhou para me com surpresa e titubeou na letra da canção, meio que gaguejando. À nossa frente, observei Kurt me olhar com reprovação, mas também com a mesma surpresa contida em Rachel. Quinn praticamente fulminou a mim e à Rachel no mesmo instante. Puck soltou um riso quase silencioso, enquanto Sr. Schue continuava impassível.

Continuamos a cantar; eu ainda com meus dedos ao redor do pulso dela. Claro que, delicada e quase imperceptivelmente, Rachel tentara se desfazer da conexão, mas eu não deixei. Não que eu a estivesse apertando, de modo algum tinha a intenção de machucá-la – apenas não queria me distanciar ainda mais.

Dois dias se tinha passado desde o nosso último ensaio à sós e, desde então, não tínhamos conversado muito, nada além do básico. O silêncio estava reinando entre nós, a maior parte do tempo. E isso era um incômodo imenso para mim. Tão acostumado à falação gratuita dela, seu silêncio era inusitado. Não que, antes do Glee, Rachel fosse tão diferente. Às vezes, achava que ela se esquivava de mim sem propósito algum: repelia-me de modo sutil, como se eu estivesse sempre a importunando. Mas, então, no Glee Rachel meio que floresceu. Tornou-se uma menina bem mais sociável e bem mais comunicativa comigo. Não que pudesse ser diferente, já que carregando o fardo de sermos os co-capitães deveríamos estar sempre em contato verbal. Por isso, era decepcionante notar que nossa 'relação' estava retornando ao início. Apesar de, normalmente, mais ouvi-la falar sem parar, gostava disso. Já tinha me habituado a isso nela – coisa que quase ninguém compreendia.

Assim que a nossa última nota foi proferida, Rachel, em instantâneo, se desvencilhou de mim. Seu olhar dirigido a mim foi intenso: ela estava furiosa e desaprovara meu gesto. Decidida, ela sentou-se ao lado de Kurt com rapidez, cruzou os braços e continuou a destinar aquele olhar assustador para mim, mesmo depois que eu já tivesse me acomodado em minha cadeira. "Isso foi tenso, uh?", Puck comentou comigo, com desdém. Desferi um soco nele para calar sua boca.

Meia hora depois, quando todos estavam apressados para saírem dali, andei sorrateiro até Rachel – bem talvez nem tanto, uma vez que Quinn percebeu minha intenção e me lançou um olhar de profundo desprezo. Não que eu me importasse. Eu a desprezava com a mesma intensidade. Cutuquei o ombro de Rachel, que estava ocupada organizando alguns papéis avulsos – que eu pensei serem partituras. Assim que percebeu que era eu, comprimiu os lábios numa demonstração de desagrado. Não me importei. Inclinei-me para mais perto dela e disse: "Ainda somos amigos, então você tem que parar de agir como se me odiasse".

Eu tinha ciência de que ela não me odiava, mas queria que a frase tivesse o impacto certo para que chamasse sua atenção. Agora que ela estava, de fato, prestando atenção em mim, poderia conduzir a conversa melhor. "E-eu nunca disse que...", ela começou a dizer o que eu previra. Ótimo, alguma coisa. "Eu sei. Olha, por que não saímos para conversar?", sugeri. Adora estar no Glee, mas era bom sair dali. Era bom ver Rachel sendo Rachel em outros cantos da escola, também. "Sei que você está assim por conta daquela tarde e não queria arranjar problemas em decorrência daquilo", fiz questão de frisar; era necessário que ela soubesse que, apesar de querer muito beijá-la, poderia conviver com o fato de que ela não me queria tanto quanto eu a queria. Porque eu sabia que ela me queria. Eu avistava seus olhares furtivos para mim, em condições normais. E, em especial, seus sorrisos. Eram muitos: insanos, descontrolados, instantâneos. Como não amar aqueles sorrisos quando eu sabia que eram destinados expressamente a mim e que eram formados por minha culpa? Porém, sua 'querência', talvez, fosse mais fraca do que a minha. Não tão absoluta assim. Claro que Rachel tinha outros desejos, além de mim. O canto. O palco. As placas de neon. Desejos muito melhores do que eu. Ela conquistaria muita coisa com eles, já comigo... O que poderia conquistar? O que poderia receber em troca de ser a namorada do quarterback? Eu não tinha muito a oferecer, apesar de querer presentear o mundo a ela.

Rachel olhou para Kurt, que estava a poucos metros de nós. Acho que ele a estava aguardando, ou algo assim. Mas o olhar que lançou a ele parecia preocupado, como se não pretendesse que ninguém soubesse o que estávamos conversando. "Não vou fazer mais nada para constrangê-la, prometo", assegurei com firmeza. Não estava mesmo nos meus planos desgastar ainda mais a nossa amizade. Não por conta de um beijo que nem havia ocorrido. Ainda que ele estivesse pairando sobre a minha mente. "Não vou tocá-la, se assim não quiser, também". Rachel retornou sua atenção à sua mochila, mas eu sabia que ela não estava me ignorando de propósito. Eu tinha ciência de que estava pretendendo: estava esperando todos se dispersarem para que pudéssemos conversar sem amarras. Assim, que ela notou que até mesmo Kurt tinha desaparecido, virou-se para mim por inteira, centímetros mais baixa que eu. "Se vamos falar sobre... aquilo, prefiro me abster disso", Rachel em seguida deixou claro. Assenti, embora não dando importância. "Isso é ridículo. Nós nem nos beijamos", pontuei. "E se essa sua atitude demonstra que, se tivéssemos, também seria ridículo".

"Ah. Ótimo", Rachel respondeu, fria.

Um pouco arrependido por ter sido um pouco rude retomei:

"Desculpa. É que... tudo isso é estranho demais".

"É".

"Então...", comecei. "Não", respondeu ela. "O quê?", franzi o cenho, confuso. Eu nem sabia com exatidão o que lhe diria e, por antecipação, Rachel já tinha negado. Como assim? "Não quero ir para outro lugar com você, não quero tomar refrigerante com você e não quero beijar você".

Desatei a rir. Ela estava desesperada, era notável.

"Isso é sério?", perguntei, depois de conseguir cessar o riso. Isso apenas fez com que Rachel ficasse furiosa de novo. "Não parece que estou falando sério?", ela retorquiu. "Na verdade... Não", respondi com audácia. Eu sabia que aquilo tudo apenas estava provocando sua personalidade um pouco explosiva. A expressão que apareceu em seu rosto quase me induziu a rir novamente, mas me contive a tempo. "Pois eu estou!", ela insistiu. "Se estivesse, me beijaria agora, ou, ao menos, não estaria agindo como se nunca tivesse beijado ninguém". Isso fez com que ela cruzasse os braços, mas agora na defensiva. Não havia nada de ferino em seu olhar agora. Ela estava se sentindo um pouco acuada, eu acho. Mas era mesmo essa a minha intenção: queria que ela fosse sincera, pelo menos. Não me importava se eu era o terceiro, ou o quinto, ou o primeiro.

Seu rosto não estava vermelho, mas podia detectar certo desconforto nela.

"O que você quer? Que eu confesse que nunca beijei ninguém?".

"Qual é o problema?".

"Não sei, pergunte para nossos colegas", ela estreitou os olhos para mim. "Nossos colegas não sabem sobre nada", aleguei. Estava sendo sincero. "Não vou confessar nada a você", Rachel disse.

"Certo. Quer saber de uma coisa?".

"Não".

Ignorei-a e continuei a falar: "As pessoas acham que eu beijei aos dez anos, mas a Quinn foi meu primeiro beijo". A cara que ela fez não foi muito boa. Parecia dizer que queria saber de mais nada. "O quê? Com treze?". Pisquei um pouco confuso. "Não, aos doze". Eu e Quinn nos encontrávamos sempre nos fins de semana no Freeze, quando pré-adolescentes, então tinha disso normal que um beijo ocorresse. Eu era um pouco desentendido naquela época quando o assunto era garotas, então lembrava que Quinn dera o primeiro passo. O passo que eu tinha tentado dar com Rachel, há alguns dias. "Mas... Isso não faz sentido", Rachel parecia atordoada. "Vocês começaram a sair com trezes anos, eu lembro. Quinn me falava sobre você até eu enjoar", quis rir com sua segunda frase, pois não duvidava nada, considerando que Quinn era do tipo que não parava de contar a todos o quanto estar comigo era bom – mas eu nunca soubera se era mesmo verdade, ou fazia aquilo somente para se exibir pelo McKinley. "Foi em um dos encontros no Freeze, antes de começarmos a namorar de verdade", expliquei. "Ah, meu Deus", ela parecia com raiva. Não queria que ela ficasse com raiva de mim. Quer dizer, eu nem sabia que gostava dela naquela época. E duvidava muito que ela quereria me beijar. Se já estava meio surtando com quinze anos, nem queria imaginá-la com doze. Nessa idade, Rachel era mais retraída do que nunca e mal conversava comigo. Aquela fase de correr atrás de mim, quando criança, já tinha passado e apenas me tratava como um mosquito gigante. "Eu não tive culpa, ok?", tentei me defender, não sabendo exatamente qual era o motivo de sua raiva. "A Quinn vivia correndo atrás mim, como você mesma fazia quando criança!", atestei, meio nervoso. "Eu não... Eu só queria ser sua amiga!", Rachel rebateu, com mais zanga ainda. "Você nem gostava de mim naquela época! Desde os cinco anos que eu acredito que você me odeia!", declarei, agora ficando bravo também. "Mas eu não...", ela tentei dizer.

"Antes, você com certeza odiava. Você nunca tinha olhado para mim como me olha agora".

Ela ficou um pouco vermelha, agora. "Eu não o olho com nenhum tipo de... De...", ela franziu a testa, um pouco perdida. "Interesse?", finalizei para ela. "Eu não estou interessada em você!", ela exclamou, num guincho agudo.

"É uma pena. Porque eu estou muito interessado em você", falei.

Rachel então abriu a boca como se estivesse na frente de algo surpreendente, sem fala. Sua expressão, agora, tinha se modificado: não havia mais rancor, raiva, ou braveza. Ela estava um pouco estuporada, fora do ar. Piscou algumas vezes, até conseguir retomar sua compostura. "Bem, eu ainda não vou te beijar", ela avisou, com um pouco de superioridade. "Achei que não. Mas eu vou esperar. Ok?".

"Você é louco", ela comentou, balançando a cabeça. "Você também é um pouco. Então, nossas loucuras se combinam", pisquei para ela de um modo travesso. Isso provocou uma risada rouca nela. Segui-a no riso, porque agora eu podia respirar aliviado.


Hello, little sweeties!

AH, MEU DEUS! AH, MEU DEUS! AH, MEU DEUS! QUE CAPÍTULO FOI ESSE?

Adorei escrever a parte da Rachel *-* Os pensamentos dela são muito engraçados, morri de rir com ela! E ~ai meu deus que amorzinho~ o quase beijo deles, awn! Mas não se preocupem: eles estão MUITO próximos de se beijarem de verdade! YAAY!

E O FINN NESSE FINAL? Apenas digo: estou apaixonada pelo meu próprio personagem! *-*

Semana que vem tem mais ;)) Não esqueçam de chamar os amigos, o cachorro, a Madonna, o Papa para lerem minha fanfic! E me façam feliz durante a semana com seus comentários! ;)

Beijos, amores!