Parte I – Kiss Me (Ed Sheeran)
Naquela noite, Kurt fez questão de não mencionar nada sobre o que houve no ensaio, entre mim e Finn. Foi legal da parte dele. Mas eu sabia que Kurt estava morrendo para saber um pouquinho do que estava acontecendo. E eu também sabia que, caso lhe confessasse quaisquer informações acerca do quase-beijo, ele me olharia daquele modo todo reprovador. Não tinha nenhuma pista sobre os porquês de Kurt nunca ter gostado de Finn. Talvez acreditasse que Finn fosse influenciado por Puck em suas travessuras, ou que Finn não passasse de um jogador de futebol mesquinho. Tratando-se somente do Glee, achava que isso era devido à competição. Sr. Schue tinha dado o posto de líder para Finn e nunca mudara sua tática com relação às melhores vozes. Finn ainda era o líder vocal masculino. Também, como poderia ser diferente? Certo, era inquestionável que Kurt era um menino, no entanto sua voz era... Bem, claro que era ótima. Mas não continha o necessário para provar ser a melhor voz masculina dali. Nossos solos eram ótimos, também, mas minha voz combinada com a de Finn era especial por demais. Era melhor, marcante, esplêndida. Adorava conquistar solos, mas nada se comparava a cantar em conjunto com ele. E não era porque nossas mãos se juntavam, às vezes; era porque eu me esquecia de ser perfeita, tudo o que pensava era que poderia cantar com ele para sempre, todas as tardes, em todas as competições.
Apenas na manhã seguinte, durante o noticiário acompanhado de café, é que Kurt se fez por interessado pelo incidente do ensaio. Tudo bem, pensando naquilo horas depois, não havia por que me referir àquilo como um incidente. Não houve nada de tão sério, houve? Finn somente tinha agarrado meu pulso (com certo desespero, não havia dúvidas). Outras vezes ele tinha feito este mesmo gesto, talvez com um pouco mais de naturalidade, claro. Além do mais, eu já estava um pouco acostumada aos toques de Finn.
"Você não me contou sobre o último ensaio com o Finn".
Como se eu pretendesse compartilhar aquilo com ele. Com alguém. Negativo.
"Foi bom", dei de ombros.
Era uma resposta boa. Qualquer um a aceitaria. Menos Kurt, é claro. "Cadê a Rachel Berry que conheço?", ele logo rebateu. "O que você espera que eu diga?", inquiri, perdendo a paciência. "Você faria uma narrativa extensa e minuciosa sobre tudo o que aconteceu. E isso só dá margem a minha certeza: aconteceu alguma coisa diferente. Não aconteceu?", Kurt falou com aquele tom que ele sabia que me irritava por demais; aquele tom convencido. Rolei os olhos. Eu precisava de um pouco de tempo. O suficiente para abrandar a quentura que eu tinha ciência que estava subindo gradativamente para o meu rosto. "Não sei o que poderia ter acontecido de diferente", falei com o que eu achei que fosse indiferença. Kurt esquadrinhou os olhos. "Nós conversamos. Isso não é nada de diferente", disse, esperando que ele abrisse mão de toda a sua certeza desenfreada. "Sobre o quê?".
Sobre o que conversamos? Não lembrava muito bem dessa parte. O episódio parecia estar tão longe, agora... A única conversa da qual me recordava era a última, depois que ele me tocara no pulso. E eu estava mesmo certa, ele tinha dito que iria me esperar? Mas me esperar para quê? Certamente não seria para me beijar. Seria loucura. Por que ele me esperaria para tal ação, quando tinha qualquer outra garota à disposição caso ele estalasse os dedos? Quinn, por exemplo.
Ah. A Quinn. Eu e Finn tínhamos conversado sobre Quinn. Ele havia me dito que seu primeiro beijo tinha sido com ela, aos doze anos. Como se eu quisesse ter sabido. Ao menos, descobrira que Quinn era uma grande mentirosa.
"Sobre a Quinn", respondi sem pensar. O que, talvez, fora um erro. Droga, como explicaria por que tínhamos abordado a Quinn como um tema pertinente à nossa conversa? Dessa eu não conseguiria me desvencilhar. "O quê? Por quê?", Kurt franziu a testa, duvidoso. "Bem...", desviei meus olhos dele, tentando controlar o meu pânico. E agora? "Porque... estávamos... falando sobre os próximos solos!", o alívio que me abateu quando espremi de meu cérebro essa sentença salvadora. Sabia que era completamente uma mentira, especialmente porque nunca que aceitaria que ela retirasse o meu solo. "Ah, não me diga que Quinn Fabray irá competir comigo pelo solo!", ele exclamou, parecendo incrédulo. "Provavelmente. Quer dizer, com o Sr. Schue, quem sabe?", desatei a dizer. Era errado, eu sabia, colocar o Sr. Schue no meio daquilo tudo, mas ele era uma boa saída. "Mas ele não pode fazer isso! Já é uma porcaria ter de competir com você! E se a Quinn me vencer, então eu deveria fazer um protesto", Kurt continuou com mais afinco. Ótimo, o assunto estava se distanciando de Finn. Se eu tivesse de confessar a Kurt o que (quase) tinha acontecido, eu iria morrer de vergonha. Se suas suspeitas já estavam se fortalecendo a cada dia, se eu abrisse minha boca a respeito do beijo, aí sim que ele estava completamente convicto acerca de suposições. Que, Kurt sendo Kurt, estavam se encaminhando para a vitória. Eu nem deveria me preocupar. Kurt descobriria sobre meus sentimentos por Finn mais dia, menos dia.
Intimamente, eu também não poderia aceitar que Quinn ganhasse um solo. Por mais que Sr. Schue acreditasse que todo mundo poderia brilhar no Glee, competir com Quinn me dava nos nervos. Se eu perdesse para ela me sentiria completamente desfavorecida. Minha voz era muito melhor do que a dela. Era por isso que, nas competições, eu era o destaque. Não ela, Quinn.
"Só espero que ela não seja usada nas Nationals", falei.
Kurt balançou a cabeça, inconformado.
Não mais que eu, talvez.
E, de repente, Finn tinha ficado muito longe. O suficiente para que eu esquecesse que quase me beijara, sob as luzes do palco. Teria sido maravilhoso. Teria sido realmente um dos meus melhores momentos. Por muito tempo, eu acreditara que meu amor pela Broadway supriria o que eu sentia pelo Finn. Acreditava que, se eu focasse todo o meu esforço para alcançar as estrelas dos letreiros dos palcos, afastaria a necessidade ridícula que tinha incutido em mim. Eu tinha cinco anos quando começara a pensar em Finn. Dez anos tinham se passado. Às vezes, achava que aquilo passaria; que seria uma fase boba, pela qual toda menina passa quando cresce. Mas, ao invés de o sentimento de abrandar, ele apenas se fez cada vez mais presente – em especial depois que nossos destinos se cruzaram com tamanha precisão ao fazermos parte do Glee. Quem diria que, algum dia, nos tornaríamos tão próximo? Nunca tivera o sonho de cantar com ele, no entanto, bem diante de meus olhos aquilo acontecia com assiduidade. E quando eu cantava com Finn... Aquele momento acabava se tornando a melhor parte do meu dia. Quando me deitava na cama, relembrava aqueles minutos como se estivessem na minha mente em constante repetição. Lembrava-me dos seus toques também, sempre gentis. Ele nunca apresentara nada de incomum, até que seus toques começaram a me provocar frisson. Eu me arrepiava, por vezes, mas tentava esconder a reação. Achava que, se ele descobrisse o quanto me incitava com aquilo, seria pior. Talvez, agora ele soubesse. Por isso, tinha completado a minha frase com 'Interesse'. Como ele poderia saber que eu me interessava por ele? Será que, do mesmo modo que Kurt, Finn tinha suas suposições? O que tinha me delatado? Geralmente eu era tão controlada, a não ser pelos meus sorrisos. Mas quanto a isso, eu não tinha nenhum tipo de controle. Como controlar um sorriso, meu Deus? Se eu quisesse sorrir, então eu deveria sorrir! Não?
Pensando naquilo, eu sorri. Foi inevitável.
"O que foi?".
"Nada", eu respondi. Kurt não deixava passar nada. Dessa vez, ele apenas apertou os olhos e nada disse.
Não poderia explicar, de qualquer forma.
Meus sorrisos eram destinados somente para Finn. Eram especiais tais como ele.
"E agora?".
Kurt, folheando uma revista qualquer, deitado de barriga para cima na minha cama, olhou para mim e arqueou as sobrancelhas. "Isso é sério? Quantas vezes mais precisamos fazer isso?", ele me inquiriu, sem paciência. Ou talvez meio entediado. Por dentro, me solidarizei com ele: eu também não estava a fim de repetir aquilo mais. Era cansativo. Além do mais, duvidava muito que Kurt estivesse se divertindo. Ao menos, não aparentava; mas tudo bem, porque ele era meu amigo. Amigos não ficam, exatamente, olhando demais o corpo da melhor amiga, certo? Ele era muito crítico, o que era ótimo – já que eu precisava de uma opinião sincera –, mas ele não me mirava mais do que cinco segundos e já dizia: "Jesus, não!". E eu seguia em frente: trocava-me mais uma vez. "Até acertarmos, oras! E esse?", respondi.
"Rachel, todos os que você colocou até agora são pretos! Para onde você acha que vai? Para um enterro na piscina?", ele refutou. "Você não vive dizendo que preto é uma boa cor?".
"E é, mas não para uma confraternização na piscina". Olhei-me mais uma vez no espelho. Eu odiava aquilo. Odiava que Kurt fosse tão sincero e que minhas roupas não o agradassem. De certo modo, eu também não estava sendo agradada. "Pegue o azul", ele mandou, indicando as peças no cabide. "Mas não acha que...", comecei, mas ele logo me interpelou: "Anda logo, não quero chegar atrasado! Anda, anda, anda!", sua impaciência me fez rolar os olhos. Peguei a peça e voltei para o banheiro. Eu tinha tentado ajeitar meu cabelo de um modo que não parecesse que eu estivesse indo me divertir na escola. Quase nunca modificava o meu modo de me vestir para ir ao McKinley, então queria me destoar do que normalmente era. Então meu cabelo estava jogado de lado do modo que Kurt tinha me ensinado minutos antes. Gostava da ideia de uma 'festa' na piscina, porque lá eu não precisava usar maquiagem, então todas as meninas estariam no mesmo pedestal – nenhuma estaria em vantagem nesse quesito. Não que os meninos prestariam atenção nisso. Certamente, focariam a aparência corporal de todas de uma maneira que Kurt nunca fizera comigo. E aquilo era um pouco intimidador. Não queria ser olhada demais; não que houvesse muita coisa para ser olhada em mim, não em comparação à Santana. Não estava acostumada a me expor daquele modo, portanto eu não sabia se aquilo seria uma boa experiência. Só esperava que eu não me afogasse, ou algo assim. Talvez eu ficasse num canto, olhando todo mundo. Seria algo que eu suportaria. Sem precisar me exibir diante de todos, talvez eu aproveitasse tudo muito melhor.
"Então?", perguntei.
Uau. Eu realmente parecia diferente. O azul tinha, realmente, me deixado bem melhor. Mais apresentável. Com menos cara de idiota. Daquele modo, eu até mesmo tinha parado um pouco para me admirar (de verdade) defronte ao espelho. "Agora acertou", Kurt aprovou, mas sem modificar sua expressão. Ainda parecia entediado. Não sabia por que era tão importante chegar na hora certa. Apostava que ninguém chegaria na hora marcada. Só se eu estivesse muito a fim de analisar a Santana com algum modelo de biquíni ainda menor que o meu. E conhecendo a Santana como conhecia, seria surpreendente se ela não aparecesse de topless. Pelo que sabia, ela estava louca para conquistar Puck. E Puck se deixava conquistar por qualquer menina que tirasse a roupa. Eram um casal perfeito.
"Agora podemos ir, finalmente?", ele quis saber. Essa pressa dele estava me irritando! Qual era o problema dele, afinal? Assenti, depois de me conferir mais uma vez no espelho. Estava me sentindo melhor, talvez azul fosse a minha cor.
Hiram se habilitou a nos levar e nos buscar, já que Kurt continuaria a dormir em minha casa. A primeira coisa que falou quando nos viu foi: "Não sei se gosto disso". Fiquei meio sem reação, porque não sabia sobre o que estava falando. "De quê, pai?", perguntei. Achei que tivesse alguma coisa errada comigo, poderia ser meu cabelo. Aquele penteado era meio ousado demais, mesmo. Tentei desfazê-lo no mesmo momento, porém Kurt me impediu. "Nem tente!", ele exclamou, parecendo ultrajado e estancando meu movimento com as mãos. "Não conheço esses garotos do Glee, como sei que eles não vão pensar em coisas indecentes quanto te verem?", Hiram explanou como Kurt não tivesse quase me dado um susto. Ajeitei melhor o cabelo, do mesmo modo atrevido de antes. Quer dizer, era apenas um cabelo, por que eu estava agindo de modo tão envergonhado!? Mas o que Hiram disse me fez rir de imediato.
Eu sabia que não teria problemas quanto a isso, ninguém me olharia de modo interessado. Quer dizer, eu era apenas Rachel Berry, ou seja, um nada comparado a todas as outras meninas, incluindo Tina. Eu tinha aquela beleza esquisita, meio infantilizada ainda, e era magra demais. Fisicamente, quem me visse, raramente dizia que eu tinha 15 anos; aparentava ter uns 13, no máximo. Eu me sentia um pouco entristecida com isso, porque queria ser o bastante como menina como as outras. As meninas do McKinley, de forma geral, estava sempre muito bem arrumada, maquiadas e passavam a impressão de que eram lindas sempre, 24 horas por dia. Eu, ao lado delas, era a menina com defeitos. Um pouco invisível, apesar de todas as tentativas de me sobressair, sempre deixada de lado, sempre a última a ser escolhida. Eu nunca fora, por exemplo, a primeira opção de alguém que não fosse o Kurt. Mas ok, porque Kurt era meu amigo e me entendia, pois sofria na mesma proporção, se não mais. Ao menos, as pessoas não me paravam no meio dos corredores para perguntarem se eu era menina ou menino. Isso era apenas uma das infinitas piadinhas ridículas que Kurt sofria na escola, e eu morria de raiva quando coisas assim aconteciam com ele, queria defendê-lo do mesmo modo que ele fazia comigo.
"Pa-a-i! Até parece!", exclamei, ainda em meio ao riso. "A Quinn vai estar lá", acrescentei. Isso já dizia tudo. Quem é que trocaria uma loira linda por mim? A não ser, talvez, o Finn – se é que eu estava encaixando as peças daquele quebra-cabeça de modo correto. Ai, meu Deus! O Finn! Tinha me esquecido completamente dele! O que ele acharia quando me visse? O que será que passaria pela mente dele? Será que ele teria aqueles tipos de pensamentos que, corriqueiramente, Puck tinha (que ninguém precisava perguntar a ele o que estava pensando, porque deixava muito na cara)? De repente, comecei a ficar ansiosa. Como eu tinha me esquecido do Finn? Era claro que eu deveria ter me preocupado com ele, afinal era evidente que não perderia aquela festinha.
"Ah! Bobagem! Pare agora mesmo de ficar se comparando a ela!", meu pai retorquiu com um tom severo. Meus pais eram muito desencanados com quase tudo, sabiam rir, descontrair uma conversa com piadas de judeus e, inclusive, cantar aos fins de semana comigo, mas ficavam sérios quando eu mencionava meus defeitos, ou deixava subentendido ficava me comparando às outras garotas, em especial com a Quinn. Eu nunca denunciara a eles o que minha relação com ela tinha se transformado – e eu duvidava muito que ela tivesse contado aos pais dela – nem compartilhado com eles as mentiras que ela inventava quando queria aproveitar a noite em lugares inapropriados para meninas de 12 aos, mas muitas vezes gostaria de poder contar tudo. Que Quinn competia constantemente comigo, me reprimia, me deixava à beira das lágrimas em frente a Finn. No entanto, eu sabia que aquilo não surtiria nenhum efeito e já era grandinha o suficiente para lidar com meus problemas completamente por conta própria. Se eu iria empurrar Quinn para fora meu caminho obstruído, faria aquilo sozinha, com as minhas próprias armas. Não precisava dos meus pais nem de Kurt – ele vivia me defendendo das frases ácidas dela lançadas a mim quando estávamos no Glee.
"Você não é melhor nem pior que ela, querida. E vocês foram amigas por tanto tempo, é ridículo pensar dessa maneira!", meu pai continuou, parecendo um padre lendo o sermão de domingo de seu púlpito para seus fiéis. Hiram, em especial, respondia com aquele ar de repreensão sempre que eu me desmerecia em sua frente. Acho que, de maneira geral, é uma atitude de qualquer pai. E como eu tinha dois pais, acho que aquele tipo de reação vinha em dobro e de maneira muito intensa. Às vezes me incomodava, pois não via o que eles diziam ver em mim, quando me encarava ao espelho. Eu enxergava uma menina tão comum quanto Anne Frank antes de seu diário publicado. Apenas mais uma no mundo, sem qualquer tipo de característica especial. "Sr. Berry, com certeza não estamos falando da mesma Quinn. Não existe mais a Quinn criança, entendeu?", Kurt, sem rodeios nenhum, se inseriu na conversa sendo muito taxativo. "A Quinn de agora está tão diferente que aposto como o senhor mesmo se surpreenderia se a visse", Kurt afirmou com um tom decisivo. Adorava quando ele estava lutando pelos mesmos ideais que eu, pois ele era ótimo no convencimento. "Tenho saudades de ver vocês três brincando de Barbie no meio da sala", Hiram comentou, olhando para o piano. "Estrelinha, lembra que você tocava para eles?". Assenti. Éramos tão inocentes, tão desprovidos de qualquer tipo de doença social, tão amigos. Até parecia que aquilo tudo tinha acontecido há milênios. A Quinn criança estava tão distante, agora.
"Bem, não importa mais", recuperei a conversa, para tentar dar um encerramento nela. Precisávamos nos mexer. "Não sei se conseguiria a voltar a ser amiga dela como antes. Vamos?", eu perguntei, sentindo a minha ansiedade retornar. Finn! Queria saber que tipo de expressão facial ele faria quando me visse! Por que meus pais gostavam tanto de falar? Isso irritava de vez em quando. "Se ninguém tem mais nada a dizer, tudo bem. Só acho que vocês deveriam conversar com ela", Hiram disse. Eu e Kurt nos entreolhamos e rimos. Aquilo parecia tão impraticável quanto um choque da Lua com a Terra. "Acho que não", Kurt respondeu no meu lugar. Então, finalmente, Hiram foi procurar as chaves do carro para nos levar. Ficou fazendo perguntas o trajeto inteiro: haveria garotos? Por que eu não poderia ter colocado um maiô? (como se eu ainda tivesse algum; acho que meu pai não tinha muita noção) Qual era os nomes dos meninos? Algum deles estava interessado em mim? (Kurt tossiu teatralmente, com conotação sugestiva, mas meu pai não entendeu, e eu não disse nada).
A casa da Santana era parecida com a minha, um pouco no estilo vitoriano, espaçosa e de bom gosto. Eu não tinha oferecido a minha casa, porque ela nem me dera oportunidade; quando sugeriu a festa, já complementou que poderia ser feita na residência dela, então fiquei quieta. Acho que meus pais teriam ficado felizes se o pessoal passasse uma tarde lá, assim eles viriam que eu estou inclusa em algum grupo realmente, mas como nunca tinha feito quanta questão de mostrar isso, deixei passar. "Quando precisarem voltar me liguem", Hiram disse. Eu e Kurt saímos do carro logo em seguida. "Preparada para enfrentar essa missão?", Kurt me inquiriu antes de tocarmos a campainha. "Não sei", respondi. Estava meio nervosa, pensando em Finn. Mas que droga, será que tudo tinha a ver com ele? Aquilo era meio que um saco. Mas, hey, eu estava apaixonada. A paixão faz com que nós sejamos ridículos e um saco.
Soamos a campainha. Quem nos atendeu foi uma senhora de cabelos presos. "Amigos de Sant?", ela nos inquiriu. "É, mais ou menos", Kurt disse. "Somos, sim", respondi com mais convicção. "Olá", ela nos recebeu com mais entusiasmo, abrindo mais a porta. Deixou-nos passar e nos conduziu por um corredor que interligava a casa à área externa. "As bebidas estão nas mesas e se precisarem de qualquer coisa, estou por aqui", a senhora nos sorriu daquele modo meigo de avó do interior. Kurt deu de ombros, visivelmente despreocupado, quando ela retornou para o interior da casa. "Esquisito demais", comentei. "Santana não disse que morava com a avó, algo assim?", ele quis saber. "Disse? Não lembro", falei. Na verdade, nunca prestava atenção no que Santana tinha a dizer, deletava tudo na hora em que escutava a informação. "Disse", ele me confirmou. Outra notícia irrelevante na minha vida que estava sendo excluída de meu cérebro.
Aos poucos o jardim foi ganhando formas. A grama pisada, as mesas de madeiras, juntamente com suas cadeiras, as jarras de refrigerante e de suco, as embalagens de filtro solar, a piscina e... as pessoas. A primeira que identifiquei na água foi a própria Santana, estava flutuando em uma daquelas boias em forma de espreguiçadeira com um copo de refrigerante nas mãos e óculos escuros no rosto. "Yentl e Lady Lips, os atrasados!", ela nos gritou de lá. Kurt me fuzilou com os olhos, mas eu não tinha culpa alguma; como eu poderia saber que todo mundo estava animadíssimo para se jogar dentro da piscina antes de nós? "Oi", eu e Kurt respondemos. Kurt andou pelo espaço como quem fareja um deserto repleto de bombas camufladas. Mercedes, numa espécie de maiô estilo anos 60, estava sentada na beira da piscina, com a cabeça reclinada, se bronzeando como se sua vida dependesse daquilo. Tina e Mike interagiam timidamente; acho que ela estava lhe mostrando os desenhos que fazia durantes as aulas de Espanhol, ou qualquer coisa parecida. Brittany, idêntica à Santana, comtemplava tudo com pouco interesse. Quando percebi Finn, perto de Quinn, também na borda da piscina, meu estômago despencou, meio frio, meio retorcido. Um nervosismo contundente me atingiu de imediato, e eu desviei os olhos deles rapidamente. Não é como se Quinn estivesse muito perto de Finn, encostando-se nele, ou conversando com ele. Mantinha certa frieza, como se ele tivesse requerido uma distância de um metro dela. E isso era tudo. Quinn, como previsto, lançou-me um olhar de completo menosprezo antes de girar a cabeça para o outro lado e fingir que nem tinha me reparado ali. Ignorei isso, como tudo o que acontecia entre nós.
Mercedes logo me chamou para me juntar à ela, mas eu estava um pouco intimidada. Ficar tão perto da piscina e de Santana era um perigo. Primeiro porque não queria morrer afogada (não que eu não soubesse nadar, mas nunca se sabia o que poderia se desenrolar a partir de momentos de pânico), e segundo porque eu me sentia um nada comparado à Santana, que – evidentemente – usava um biquíni tão minúsculo que poderia caber em mim.
Acho que, por conta da situação entre mim e Finn estar um tanto quanto inacabada, não conseguia me aproximar dele. Ele me lançava olhadelas a todo minuto, acho que tentando captar minha atenção por completo, mas eu o repelia – basicamente fingia que não estava interpretando seus olhares de súplica. Por conta da minha insegurança ridícula – eu nem ao menos retirei o vestido com aquele tipo de tecido que escorrega pelo corpo, fazendo com que Kurt me olhasse como se eu tivesse sérios problemas mentais, já que até mesmo Mercedes estava meio seminua na frente de todo mundo e não estava nem aí – fiquei incapacitada de trocar mais do que um "oi" com ele. Passei mais metade da festa enjoada e fingindo me divertir com tudo o que diziam. Às vezes me recordava do meu reflexo no espelho de meu quarto, no quanto aquilo me fez ficar animada e me sentir mais bonita, mas então deslocava meus olhos para Quinn e para as outras e percebia que a teoria nem sempre consegue atingir a perfeição na prática. Mais ou menos como os países capitalistas que vivem pregando o comunismo, mas que não diminuem suas emissões de componentes químicos nem se mudam para Cuba. Eu sou como meu próprio país, completamente ridículo.
Depois de muito tempo, quando finalmente percebi que tinha ingerido muito refrigerante e corrido para o banheiro, algo me sacudiu por dentro de um modo completamente diferente do que comumente ocorria com Finn.
"Oi", Quinn me disse, na minha frente, meio que me impedindo de prosseguir meus passos para o jardim mais uma vez. "Oi, o que quer?", logo respondi sem nenhum tipo de amabilidade na voz. "Não pense que eu sou cega, entendeu?", ela comentou com certo cinismo. "O quê?", tinha ficado confusa. Quinn era tão idiota, por que eu não a tinha deixado sozinha com seu 'oi'? "Você e Finn, estou vendo o que está acontecendo. Você é tão criança ainda, nem dá pra acreditar!", Quinn riu com tom de deboche. Fingi estar preocupada com o movimento lá fora, para conseguir disfarçar a quentura que invadia meu rosto lentamente. "Sabe o que vejo? Ele te perseguindo, e você fugindo dele com aquele típico gesto de criança tímida. Você ainda sorri e abaixa a cabeça como sempre fez. Você é tão previsível, Rach", Quinn disse. Isso me fez ficar com raiva. "Não me chame de Rach, não sou sua amiga!", retorqui, esquadrinhando os olhos. "Queria que tudo ficasse bem entre nós, mas você não me dá escolhas", ela continuou como se eu não tivesse proferido nada. "Vocês não tem mais nenhum tipo de relação, Quinn. Lembra? Ele não a quer mais", eu disse. "Posso muito bem apenas continuar a fingir que sou amiga dele. E como amiga, posso muito bem alertá-lo sobre quem você é", ela disse. "Você não me conhece!", exclamei.
"Fomos amigas por tempo suficiente para que eu desvendasse tudo o que era necessário", ela me lançou um olhar de superioridade. Rolei os olhos, numa atitude muito Santânica. Mas não me importava. "Mudei muito desde os meus doze anos, assim como você. Sinceramente, nem a reconheço mais", deixei muito claro, não que ela se importasse. Ela repetiu meu gesto, rolou os olhos tal como eu e depois soltou uma risadinha. "Seria ridículo se reconhecesse", ela disse.
"Você não pode fazer nada, gosto dele".
"Sei muito bem do modo como gosta dele", Quinn revidou com sarcasmo. "Mas ele não vai escolhê-la", completou. "Ele tem a liberdade para isso", respondi. "Ah, por favor!", ela riu, rolando as orbes castanhas-esverdeadas com muita rapidez. "Como se ele fosse ficar por aí de mãos dadas com você! Aprenda, Rachel", ela fez questão de frisar com contundência. "Finn é somente mais um cara, não há nada de especial nele, assim como não há nada de especial em você. Ele não trocaria o time de futebol para ficar com você, ele não quer ser um perdedor", Quinn terminou. Assenti, mesmo contra a vontade. Estava com muita raiva. Não nos falávamos com regularidade quase nunca, e quando ela se aproximava de mim era sempre com intenções nada boas. Sempre tentava me colocar pra baixo. "Se você quer acertar na vida, esqueça-o. Você está presa numa fase realmente ridícula da sua vida, precisa pular essa fase, senão o que verdadeiramente quer conquistar nunca vai acontecer", nunca tinha notado o quanto Quinn tinha o dom da oratória, e suas palavras estavam entrando pelos meus ouvidos e sendo processadas, pela primeira vez em muito tempo, pelo meu cérebro. Para minha mente, havia muita coerência naquilo tudo que ela me dizia. Eu tentei lutar, continuar operante sem ser engolida pelo sentido de suas frases, mas então acabei me dando por vencida. "Ok. Entendi", eu disse e depois assenti como um bom cachorrinho. Eu estava sendo ridícula. "Ótimo, querida. Caso contrário, sua vida pode ficar bem pior do que já é", ela depositou sua mão em um dos meus ombros e sorriu, quase como nos velhos tempos. Quase pude sentir a velha Quinn na minha frente, sendo doce e criança. A criança que gostava de se vestir de personagens musicais e de cantar Stayin' Alive enquanto rodopiava pela sala da minha casa. "Apenas avisando", então seu sorriso se desmontou num átimo, e seus olhos pareciam frios demais. Sua expressão estava rude. E daí saiu da minha frente, desobstruindo meu caminho.
Na mesma hora, saí para o jardim. Procurei Kurt. Bati em seu ombro, mesmo que ele estivesse engatado numa conversa animada com Tina e Mercedes. "Precisamos ir", eu disse. "O quê? Mas por quê? Todo mundo ainda está aqui", ele olhou para nossos amigos; cada um estava ocupado fazendo uma coisa diferente, nadando, acertando o display das canções, servindo-se de mais refrigerante, batendo as pernas dentro da piscina. "Por favor", implorei. "Vou ligar para meu pai, ok?".
"Mas, Rachel!", ele exclamou, irritado.
"Ih, diva, o que aconteceu?", Mercedes perguntou.
"Ahn... emergência feminina, por favor, não conte a mais ninguém!", pedi. Mercedes deu de ombros. Kurt relaxou sua postura agora. "Tudo bem, vamos", ele concordou. Tentei sorrir, para demonstrar o quão agradecida estava, mas o rosto pétreo de Quinn surgiu em minha mente, e eu não consegui reagir.
"Ok, pessoal, tentem se preparar para já amanhã oferecerem alguma coisa!", Sr. Schue dizia. Eu não estava a fim de prestar atenção em nada, mas finalmente a sineta soou, fazendo com que todos se dispersassem rapidamente. A lição da semana seria alguma coisa relacionada às canções da Madonna. Tanto fazia, já que eu era tão fã da Madonna quanto dos Lions.
Eu me dirigi ao meu armário como um robô, evitando ficar presa em conversas que durariam mais de três minutos. O fim de semana tinha me revelado muita coisa em relação a mim, então a animação que geralmente aparecia nas segundas-feiras estava quase no zero. Meu baixo rendimento até mesmo me fizera perder um solo para Mercedes, mas o mais surpreendente é que eu nem mesmo reclamara por conta disso. "Parabéns", eu tinha dito a ela e depois retornara a me afogar em meus próprios pensamentos loucos. "Nós vamos ao Freeze", Kurt disse a mim numa tentativa de me entusiasmar, apontando para Tina, Artie e Mercedes. "Não, obrigada", respondi no automático. "Alguém está precisando de uma sessão de spa urgentemente", Mercedes comentou. Dei de ombros, incapaz de mover minha boca para lhe retrucar algo. Nem queria, na verdade. Estava nem aí para o que poderiam falar sobre mim naquele dia. Eles se foram. Aos poucos, todos me deixaram, apenas eu fiquei no corredor. Encarei meu armário, que eu nem tinha aberto ainda, e deslizei minhas palmas das mãos ao longo dele. Em seguida, um bip soou de dentro da minha mochila, era meu celular. Eu não o teria pescado para conferir a mensagem, se não soubesse que era Kurt me perguntando sobre querer dormir na minha casa, já que Burt tinha viajado a negócios.
Mas, ao me deparar com o remetente do SMS, percebi que não era Kurt.
Quero conversar com você. Poderia te dar uma carona para casa, venha até ao estacionamento.
É, tinha me esquecido que a mãe de Finn tinha se atrasado para comprar o presente de 16 anos dele devido ao fato da compra do carro ter dado alguns problemas quanto ao repasse do veículo, que era de um amigo da mãe de Finn. Lembro que Finn ficou contado isso para mim por uns quinze minutos, há algumas semanas antes. Então Finn, agora, tinha um carro. Poderia levar Quinn para passear no shopping, ou qualquer coisa assim.
Mas, naquela tarde, ele estava me chamando para seu carro. E eu tinha certeza de que não passearíamos no shopping. Também porque o shopping de Lima era um terror de tão pequeno e tão pouco abastecido de lojas ótimas. Além do mais, eu tinha mais a fazer do que ficar passeando no shopping. Precisava ficar em casa, encarando o teto do meu quarto, até eu finalmente reagir a tudo que Quinn tinha me dito na festa da piscina.
Não sei o que deu em mim na hora, mas respondi algo que, segundos depois, me fez arrepender um pouco:
Ok.
Ok? Quem eu era, afinal!? Eu não entrava em carros de caras que tinham acabado de conseguir a carteira de habilitação para tal licença! Mas era Finn... O que poderia acontecer? Ele me sequestraria para uma cabana no meio da floresta? Achava que não. E apesar de ele ter escrito que queria conversar comigo – e frases assim estão sempre carregadas de conotação negativa em qualquer circunstância –, eu queria ir até ele. Eu ainda estava apaixonada por ele, afinal de contas. Quinn não tinha destruído meus sentimentos para com ele, seria como explodir a Muralha da China. Levaria muito tempo. E então, joguei os livros desnecessários para os deveres de casa no armário e, em menos de um minuto, já estava atingindo a entrada da escola, rumo ao estacionamento lateral. Alisei a saia do meu vestido vermelho e ajeitei meu cabelo da melhor maneira que encontrei, mas não de um jeito sexy. Não poderia querer parecer sexy para ele, era apenas uma conversa e uma carona. Não estava dando em cima dele, também. Eu não era a Quinn. Se as coisas iriam acontecer, seriam do meu jeito.
Bati no vidro do carro. O carro estava ligado e o ar condicionado estava ligado. Apesar de aquele dia ser ameno, estava um pouco abafado, então eu entendia o ar condicionado. Ele destrancou a porta, e eu escorreguei para o banco do carona. "Oi, Finn", falei, meio ofegante. Não tinha corrido, mas meu coração estava tão acelerado e minhas mãos tão suadas que parecia que eu tinha acabado de sair de uma maratona de 5 Km. "Oi, tudo bem?", ele perguntou. "Yeah", fiz que sim com a cabeça. Ajeitei minha mochila nos meus pés e me acomodei melhor, colocando o cinto. "Acho que podemos ir", incitei-o a dar a partida. Por algum motivo, ele me olhava sem nem mesmo estar com as mãos no volante. O que ele estava esperando? Ele maneou a cabeça para frente e pisou nos pedais. O carro começou a se locomover para trás, procurando um ângulo para conseguir sair do estacionamento sem provocar nenhum dano nos outros. O silêncio caiu entre nós como um véu, separando-os por alguns minutos. "Você não pareceu ter se divertido na casa da Santana", ele comentou num tom neutro, observando o movimento dos carros na rua, para conseguir embicar o carro e seguir o fluxo. Girei a cabeça em direção a ele e comprimi os lábios momentaneamente. Dei de ombros, embora eu soubesse que ele não perceberia meu movimento, já que estava atento ao trânsito. "Não sou muito fã desse tipo de festa", respondi. Minha voz estava baixa, meio rouca, incerta; não estava gostando daquilo, dava a impressão de que denunciava toda a conversa que tive com Quinn antes de ir embora com Kurt da festa. "Imaginei", ele disse. E daí não disse mais nada. Isso me deixou curiosa. Como ele imaginava uma coisa daquelas? "O que quer dizer com isso?", inquiri. Agora, já tínhamos conseguido nos adentrar no fluxo, e Finn pôde olhar para mim por dois segundos. Fiquei preocupada, porque ele carregava um sorrisinho lateral meio misterioso. "O quê? O que é engraçado?", quis saber, ansiosa. "Você. Acho que você é o tipo de pessoa que minha mãe descreveria como 'um livro aberto'. Não somos amigos há muito tempo, mas sinto que te conheço desde os cinco anos", Finn respondeu. Eu sabia que ele estava usando a expressão 'desde os cinco anos' de propósito, pois era uma idade que o tinha marcado tanto quanto a mim. Aos cinco anos, tínhamos dito um ao outro que não nos gostávamos, entretanto dez anos depois ali estávamos nós, sentados lado a lado, conversando como velhos conhecidos. "Não mudei muito desde lá, talvez", falei.
Finn olhou de novo para mim. "Você mudou, sim. Teve aquela fase louca, e depois a fase da apatia e agora essa", ele me disse. Ele parecia tão certo no que dizia, parecia incrível. "Por isso imaginei que essa Rachel não se sentiria bem na casa da Santana", ele concluiu. Uau, Finn era um ótimo observador. "Você foi a única que não tirou as roupas de cima da roupa de banho", ele comentou. Ah. Então isso ele também tinha notado. Espere, por que ele notaria uma coisa dessas, quanto Santana estava quase nua na frente dele? Não estava entendendo. "Não estava com calor", menti descaradamente. Que Deus não permitisse que ele olhasse para mim de novo, senão constataria meu rosto em brasa. Rapidamente, maneei o pescoço, deixando que meus olhos zanzassem pela movimentação das calçadas, pelas pessoas apressadas, pelos cachorros gordos, pelos estabelecimentos lotados. Era uma ótima distração, assim minha coloração rósea se dispersaria com mais rapidez de meu rosto. "Entendi", ele disse. Seu tom estava modificado, e percebi que ele não estava mais seguindo meu raciocínio. "Entendeu o quê?", perguntei, desconfiada.
"Você tenta se esconder, porque têm medo do que as pessoas podem pensar do que você acha que pode ser seus pontos fracos".
Pisquei, confusa. O quê? Que pontos fracos?
"É por isso que você evita tirar fotos. É porque não quer que as pessoas julguem seu nariz. Acertei?", ele quis saber, com aquele sorrisinho lateral de volta ao seu rosto.
"Tudo bem, talvez eu não goste muito dele", respondi meio desesperada.
"Deveria gostar, afinal diz muito sobre você".
"Então... Eu não ter tirado o meu vestido diz o que sobre mim?", questionei. "Que eu me escondo, é isso?", franzi a testa para ele. "Quando vejo você não tem nada que gostaria de mudar, porque a acho incrível do jeito que é. Com seu nariz e tudo o mais", Finn respondeu. Aquilo fez com que meu corpo inteiro enfrentasse uma parada abrupta, um apagão generalizado. "O-o quê?", gaguejei. "Você não precisa se esconder de ninguém", Finn falou, trocando outro olhar comigo. Dessa vez seu sorriso estava diferente, estava muito mais decifrável: ele estava fazendo com que eu me sentisse mais confortável. E aquilo era incrível. Meu corpo todo se aqueceu com seu gesto e reprimi o instinto de sorrir. Finn tinha acabado de usar um verso de uma canção com a finalidade de que eu parasse de me diminuir, ou algo assim. Deus, eu o amava tanto! Ele era um garoto tão especial! A Quinn não tinha a menor ideia!
Seguimos em silêncio. Não houve mais conversa, mas o silêncio não nos incomodou de modo algum. Estávamos bem com ele. Por vezes, trocávamos olhares e sorrisos, mas era tudo. E, nem por um segundo, me senti com a sensação de que estava me afogando em pânico. Não havia nem uma pontinha de pânico em mim.
Como Finn tinha me levado para casa depois das Sectionals, eu sabia que não havia como ele errar, mesmo que algum tempo tivesse passado. Quando estacionou diante do meu jardim, não me movi. Não sabia se queria realmente sair dali de dentro – e nem era por conta do ar condicionado que tinha me refrescado bastante. Queria agradecer pela carona, e também pela conversa, mas não conseguia achar as palavras certas. Um 'obrigada' seria o suficiente, no entanto parecia tão difícil. Tudo estava tão bom ali dentro.
"Lembra quando te disse que não estava interessada em você?", perguntei. Ele sorriu. "É, acho que sim. Foi depois de eu quase tê-la beijado. Você soube estragar um momento perfeito, Rachel Berry", Finn disse com um tom brincalhão. Soltei uma risada que estava presa. Ele tinha razão, eu tinha estragado um momento perfeito. Eu tinha sido muito idiota. "Então, eu estou interessada em você, sim".
Meu coração estava tão acelerado àquele minuto! Eu não tinha planejado nada daquilo, as palavras estavam sendo derramadas pela minha boca de forma completamente involuntária! E eu nunca tinha sido tão ousada, nem mesmo que tinha penteado o meu cabelo de forma sexy há apenas alguns dias! O que estava acontecendo comigo? "Bem, eu posso ver isso totalmente", Finn meio que riu. Não estava debochando, nem nada assim. "E ainda assim não vai me beijar?", ele inquiriu, olhando diretamente para mim. Seus olhos estavam tão fixos nos meus que podia ver meu próprio reflexo neles. "Poderia", eu disse. "Poderia, mas não vai?".
"Vou".
Ah, meu Deus. O que eu tinha dito?
Nossos olhos ainda estavam conectados com tamanha intensidade que nem ao menos reparei que ele tinha se movido um pouco para frente. Seus dedos, de repente, estavam descansando na minha cintura de maneira terna. Podia sentir a quentura deles através do tecido do meu vestido. Não lembro quando fechei os olhos, não soube se tinha sido antes ou depois de ele subir um pouco as mãos e fazê-las parar em meus ombros. O beijo não aconteceu naquele momento, mesmo que tudo indicasse que aquele também era um momento perfeito. Senti Finn deslocar uma mecha do meu cabelo para trás da minha orelha e depois deslizar sus pontas dos dedos pela curva do meu pescoço. Quando senti o toque me arrepiei, mas não ousei abrir os olhos. Se fosse acontecer, seria daquele jeito. Eu de olhos fechados, quietinha, esperando que seus lábios se depositassem nos meus. Podia senti-lo tão perto de mim quanto jamais esteve. Não sabia se devia dizer que aquele era o meu primeiro beijo de verdade, ou simplesmente prosseguir com aquilo. Quer dizer, houve outros beijos antes desse, no acampamento de música. Mas nenhum beijo me fez sentir como naquele momento, tão extasiada e tão ansiosa. E, acima de tudo, nenhum beijo fez com que eu quase pensasse estar morrendo de amor.
Finn roçou sua boca na minha. Aquilo me atiçou um pouco, porque queria que ele me beijasse de verdade. Desloquei-me alguns milímetros de encontro a ele, esmagando um pouco nossos lábios. Agora havia mais contato, eu podia sentir o formato de seus lábios nos meus e a quentura deles. Minhas mãos estavam pousadas nas minhas pernas e não queria que ele me achasse uma esquisita completa, por isso, vagarosamente, fiz com que meus dedos se encostassem em sua blusa. Acho que eu estava meio tímida, porque eu mal o tocava. Ele, em contrapartida, estava com uma das mãos na lateral de meu pescoço e a outra nas minhas costas, como se estivesse se precavendo de uma fuga repentina minha. O beijo era tranquilo, mais como uma troca de energia, do que com um beijo desses que vemos nos filmes. Eu tinha gostado desse modo, não me deixava em pânico, caso ele quisesse aprofundar demais, e eu não soubesse como reagir. Durou pouco, mas o suficiente para que eu me sentisse meio enlevada.
"Tem certeza de que nunca fez isso antes?", ele quer saber, depois que nossas bocas se desconectaram, mas não nossos olhos. "Eu nunca afirmei isso. Você que chegou a essa errônea conclusão", eu disse. "É verdade?", ele me olhava meio travesso, com aquele sorriso lateral que estava se tornando a minha parte favorita dele. Como se ele estivesse rindo secretamente de algo. "E se esse tivesse sido meu primeiro beijo?", inquiri. "Eu queria que tivesse sido".
Isso me deixou surpresa. Então abaixei os olhos e sorri, meio tímida.
Era verdade. Eu continuava criança.
Mas, pelo jeito, para Finn, aquilo dizia muito sobre mim. E ele gostava de mim daquele modo.
"A gente se vê amanhã?", ele perguntou.
Confirmei com a cabeça, ainda sustentando aquele meu sorriso esquisito, e saí do carro.
Parte II – Secret Smile (Semisonic)
Então tinha acontecido.
Esperara aquele momento há algum tempo, bem antes daquele ensaio na semana anterior. E, finalmente, eu pude atestar que tinha valido a pena. Além do mais, quem diria?, Rachel Berry tinha certo senso de humor.
Mesmo depois que eu acenei mais uma vez a ela, e ela desapareceu casa adentro, eu conseguia sentir a sensação do beijo. Mesmo quando estava saindo de sua rua, o beijo estava lá nos meus lábios, a respiração dela contra a minha, os dedos dela na minha camiseta. Não me recordava de algo assim. Quando Quinn me beijava era bom, eu gostava, mas coisas assim nunca tinham acontecido. Nunca guardara a sensação dos beijos dela momentos depois. Se ela desaparecia, o beijo também o fazia.
Ter beijado Rachel foi uma das coisas mais diferentes que me aconteceu.
Não conseguia equiparar outra situação àquela.
A primeira coisa que fiz ao vê-la no dia seguinte, no corredor, foi sorrir. Não um sorriso, aliás, que denunciasse nosso beijo, mas um que era destinado apenas a ela. Meio escondido, secreto. Porque eu queria deixá-la ainda escondida por mim. Sei que a graça de estar com alguém é ter a liberdade de dividir esta felicidade com o mundo inteiro, mas correr certos riscos nunca é bom. E se eu a magoasse, antes mesmo de o que quer que estivesse se desenrolando entre nós acontecesse? E se ela me magoasse? Esses riscos nunca são agradáveis o suficiente para que os compartilhemos com o mundo – especialmente se o mundo com o qual se partilhada for McKinley High.
Queria poder concretizar melhor tudo que nos envolvia para enfim sair daquela espécie de casulo do medo. Porque, querendo ou não, havia certo medo em estar me afundando novamente em um tipo de relacionamento. Não havia nada sério entre nós, eu bem sabia, mas meu desejo era de que Rachel me notasse ali junto com os alunos apinhados, sorrisse também e fizesse alguma coisa que expusesse implicitamente que havia algo bem maior entre nós do que somente um beijo compartilhado. No entanto, ali fiquei um pouco misturado aos outros alunos – se bem que não havia como me misturar a eles, já que eu sempre me destacava por conta da minha altura –, olhando-a de longe manuseando seus livros e caderno para dentro e para fora de seu armário. Perdi a oportunidade num piscar de olhos, pois logo mais Kurt se juntou a ela, inquirindo-lhe algo. E então, momentos depois, ambos desapareceram juntos nas escadas que nos levavam para o segundo andar.
Por um lado, eu aceitava completamente aquilo. Tinha sido um beijo, nada mais. Rachel tinha mais a pensar: numa música nova para cantar para o Glee, o dever de Geometria, as aulas de piano, qualquer coisa. Não sabia ao certo se eu estava rondando seus pensamentos – e a julgar pela facilidade com a qual chegou e partiu bem diante de meus olhos, era muito fácil constatar que meu nome estava bem longe de sua mente. Mas, por outro, eu queria ter tido alguns segundos com ela. Fiquei um pouco decepcionado comigo mesmo, por ter demonstrado fraqueza diante uma situação tão banal; qualquer outro cara teria abordado a menina com a qual trocara um beijo na tarde anterior. Bem, exceto Puck – mas porque seu lema "figurinha repetida não cola" estava tomando conta de sua vida. Mas em mim havia certo receio; não que eu quisesse esnobá-la, longe disso, mas como eu me portaria diante dela? Quer dizer, com Quinn tudo tinha sido tão mais aberto, mais fácil. Ela era uma garota expansiva, que nunca se retraía e sempre estava com cara de vitória. Rachel, ao contrário, parecia viver numa espécie de mundinho perfeito do qual, muito dificilmente, eu faria parte. Eu era apenas o quarterback. Ela, por outro lado, era uma estrela em ascensão, faltavam poucos anos para que alcançasse seu sonho de ingressar nos palcos da Broadway, e não seria eu quem a atrapalharia em sua jornada. E o que dizer daqueles sorrisos tímidos dela e do modo como abaixava os olhos quando estava corada? Eram características que nunca pensei diagnosticar nela. Não quando houve uma Rachel criança que se fazia de boba apenas para estar perto de mim. Como aquela criança tão corajosa foi se tornar alguém tão doce quanto essa Rachel?
Não tive oportunidade de estar sozinho com ela em outras ocasiões durante a manhã toda, pois Kurt estava sempre ao seu redor, como um cão farejador. Ainda não sabia por que ele assumia essa postura. Tudo bem, ambos eram alvos constantes de piadinhas e peças arquitetadas pelos mais populares. Acho que era uma maneira de se protegerem juntos. Eu sabia que Rachel diversas vezes defendia Kurt das palavras grosseiras dos outros. Gostava disso nela, isso indicava que ela era boa amiga.
Afora Kurt havia também Mercedes e Tina, que eram bem próximas à Rachel. Então, não havia escapatória. Eu não podia me aproximar, nem ela podia se afastar demais.
Mas, enfim, aconteceu. Nós nos encontramos.
Rachel estava sentada no banquinho, tocando uma melodia sem letra no piano. Seus olhos estavam fechados, apenas seus dedos trabalhavam. Ela parecia tranquila, protegida, despreocupada ali. Ocorreu-me que eu deveria observá-la. Gostava de fazê-lo. Era o que eu mais sabia fazer de melhor, era uma característica inata minha. Eu era um bom observador. Podia enxergar seus cabelos ondulados caírem-lhe pelas costas daquele vestido cor de terra, suas sapatilhas grudadas no chão, os músculos das mãos e do braço se movimentando conforme a música continuava. Tudo o que escutava era o piano, os graves e os agudos se intercalando e ecoando pelo espaço. Não sabia que canção era, mas, depois de um tempo, ela me proporcionou aconchego. Aquele nervosismo que me assaltara quando vira Rachel foi se abrandando, até que aquele restou certa tranquilidade. Poderia observá-la tocando pelo resto da tarde, mas eu tinha ciência de que logo mais a sineta soaria e todo o resto do Glee se adentraria como um furacão na sala. Então, apesar de tudo, eu também precisava ser rápido.
Arrastei meus pés, para provocar algum atrito que Rachel pudesse detectar. Funcionou, porque ela parou de imediato de dedilhar nas teclas e olhou para trás. Quando percebeu que era eu, tomou fôlego demais, como se não estivesse respirando por todo aquele tempo. Ela piscou e então disse:
"Oi, Finn".
Meu coração se acelerou um pouco. Gostava de quando ela dizia meu nome.
"Oi. Então", parei, sem saber o que realmente pronunciar. Odiava querer dizer algo e não ser capaz de me expressar. Palavras pareciam ser uma tortura para mim. "Então", ela disse, me olhando como se estivesse à espera de algo. Remexi em meus bolsos da jeans, apenas para ter o que fazer, e sorri meio sem graça. Eu era péssimo naquilo. Na verdade, eu era péssimo com garotas; Quinn tinha sido um milagre. E acho que muito do que aconteceu entre nós por porque ela liderou a maior parte do tempo tudo. Mas depois de um tempo percebi que ser mandado a toda hora não era muito legal. "Então... Hã, melodia bonita essa", falei, meio atrapalhado. Rachel sorriu; não aqueles sorrisos tímidos, mas um de verdade, aberto e inteiro. "Obrigada. É da trilha sonora de um filme", ela disse. Assenti. "Muito bonita", repeti. E assim ficamos por um tempo, silenciosos e apenas trocando olhares. Rachel sempre desviava seus olhos primeiro e depois oferecia aquele sorriso acanhado, meio inexperiente. Gostava dessa Rachel Berry. Menos louca, menos exibida, menos esquisita. "Será que... Será que você gostaria de, sabe, sair comigo?", eu disse. Foi muito rápido. Eu tinha dito mesmo, ou apenas pronunciei tudo aquilo na minha mente? Mas pela expressão surpresa de Rachel, eu tinha mesmo dito aquilo em voz alta. Suas sobrancelhas se elevaram um pouquinho, e ela remexeu um pouco os dedos no colo. Ela estava nervosa? Tanto quanto eu, será?
"Tipo, com você, as Cheerios e o time de futebol inteiro? Claro!", Rachel respondeu, retomando um pouco daquele senso de humor que tinha aparecido na tarde anterior. Eu ri por um momento, permitindo-me ser levado pelo clima descontraído para me recuperar. "Não. Um encontro de verdade, somente você e eu", falei. Fiquei atento a sua reação. "Ah!", ela exclamou, parecendo levar um choque de realidade. Agora, ela estava meio tímida de novo. "Aonde vamos? Ao Freeze?", ela quis saber. "Existem lugares mais especiais que o Freeze", retruquei. "O que isso quer dizer?", ela perguntou.
"Vá para o auditório depois do Glee e entenderá", eu simplesmente disse.
Depois do Glee, não consegui seguir em frente. Santana e Brittany me abordaram no corredor para me perguntarem algo sobre as classificações do time (coisa que eu nem sabia que as interessava). Rachel estava ali, também, verificando alguma coisa no armário. Acho que, por algum motivo, estava esperando que eu lhe desse algum sinal para ir ao auditório. E eu o faria, se Brittany e Santana saíssem da minha frente. "Então apenas dois pontos?", Santana perguntou. "Mas então por que vocês não tem mais patrocínio, se estão apenas com dois pontos a menos na tabela?". Eu não sabia e nada daquilo me importava. Vi, de relance, Rachel se recostar no armário, de costas para ele, mas de frente para os passantes. Ela ficou brincando com o colar por algum tempo. De vez em quando, meio insegura, me olhava de soslaio. Eu tentava retribuir, mas em vão. Santana não calava a boca. De repente, me enchi de vez. Estava ficando meio irritado demais. "Desculpa, mas eu...", não consegui terminar a frase. Saí da frente delas e comecei a andar, finalmente, pelo corredor. Não estava, aliás, andando pelo corredor, estava andando em direção à Rachel. Não sei que tipo de expressões Brittany e Santana fizeram depois disso, mas sabia que não tinham ficado felizes. Quer dizer, tudo bem, eu tinha sido um mal-educado. Mas elas também não estavam sendo, me prendendo daquele modo? Eu diria que sim.
"Oi", eu disse. E então peguei a mão de Rachel. Foi assim, rápido e necessário. Ela não disse nada, mas sorriu. Ela tinha ficado feliz pelo meu gesto, e isso era muito mais importante do que qualquer palavra que pudesse me dizer. Seguimos pelo corredor, sem trocar nem uma palavra, mas de mãos dadas. Aquilo parecia certo e muito melhor que uma conversa.
"Estamos indo ao auditório?", ela me perguntou um tempo depois. Confirmei com a cabeça. "Confesso que isso está sendo divertido", ela disse. "Divertido?", estranhei a palavra. Eu não descreveria aquilo como 'divertido', talvez 'inusitado'. Rachel deu de ombros, ainda sustentando um sorriso alegre. "Claro que é. Eu nunca fui a um encontro de verdade".
Eu ri, porque aquilo era uma informação boa. Eu não fora seu primeiro beijo, mais seu primeiro encontro. Tudo bem, eu poderia conviver com aquilo.
Chegando em cima do tablado, fiz com que ela se sentasse e esperasse só por alguns segundos. "Você vai encenar alguma coisa para mim?", ela inquiriu. "Finn?", ela me chamou, quando eu ainda estava atrás das cortinas. "Espere um pouco, estou indo", respondi. Ela ficou silenciosa. Quando retornei, ela começou a rir. "Um piquenique?".
"Você não gosta?".
Mas eu sabia que ela gostava, porque seu riso era bom. Ela estava gostando daquilo, achando ainda muito divertido. "Claro que gosto!", ela exclamou, e foi verificar o que havia na cesta. Não havia nada muito elaborado, aliás. Apenas torrada e geleias. E um suco de laranja de caixinha. "Uau, você trouxe tudo isso apenas por minha causa?", Rachel perguntou. "Bem, a menos que você prefira um milk-shake com 0% de gordura, é isso que tenho para hoje", tentei brincar um pouco. Na verdade, meus encontros com Quinn eram assim: nada de piquenique, ela preferia que eu gastasse meu dinheiro com batidas e milk-shakes isentos de gordura, porque senão não poderia mais caber nas calças 34. Era legal constatar que havia certa troca entre mim e Rachel, que ela não queria sempre ditar tudo, que gostava de coisas simples e que aceitava comer torrada com geleia como se estivéssemos num descampado. "Está gostando?", perguntei depois de alguns goles de suco. "Está brincando?!", ela retribuiu como se eu tivesse perdido minha sanidade. Em seguida sorriu e disse: "Às vezes, eu e meus pais fazemos piqueniques aos fins de semana. Mas nunca tinha ido a um assim, no meio de um auditório".
"Sozinha com um garoto?", complementei.
"Basicamente", ela riu.
Eu não sabia se Rachel era adotada, ou não. Queria perguntar a ela. Talvez falasse sobre meu pai, já que nunca conversava com ninguém a respeito. Sentia que poderia fazer essa troca de segredos com ela.
"E a sua mãe, o que ela diz sobre isso?", questionei. Rachel me olhou com curiosidade. "Não convivo muito com ela, conhecia-a recentemente, mas sempre acho que existe uma distância entre nós", ela me disse. Oh, então era isso. Ela tinha mãe. Quer dizer, claro que sim. "Então, você somente a vê de vez em quando?".
Como perguntar a alguém se esse alguém é adotado?
"Mais ou menos. Quase nunca, na verdade. Não sei se gosto muito dela. Ela não parece se interessar muito por mim, de qualquer forma".
"Mas você é uma pessoa legal", falei. Rachel riu. "Até parece", disse. "Tudo bem, você não era. Mas agora é", insisti, fazendo questão de expressar aquilo. "Muita gente ainda não me suporta. Quer dizer, não que eu me importe", ela deu de ombros. "Eu gosto de você".
Ela sorriu.
"Também gosto de você", ela disse.
Ótimo. Já era alguma coisa. Ambos nos gostávamos. Isso acabaria em algum lugar, mais cedo ou mais tarde. Mais alguns beijos compartilhados e... bam, aconteceria em definitivo.
Questão de tempo. Questão de ambos nos abrirmos sentimentalmente. Com um pouquinho de coragem, finalmente entenderíamos que demorou demais para que ficássemos juntos.
"Hey", alguém disse atrás de nós. Eu e Rachel estávamos seguindo para o estacionamento, porque eu daria uma carona para ela. Quem sabia, a carona terminaria como na tarde anterior: com um beijo. Estava gostando daquele adiamento todo. Não tínhamos nos beijado no piquenique; a única vez que tentei me aproximar dela, Rachel disse: "Não é uma boa ideia". Perguntei-me o porquê, mas enfim entendi que ela estava se habituando ainda àquilo. Deixei que ela se acomodasse um pouco mais, e quaisquer momentos perfeitos se foram. Não me importei, apesar de tudo.
Eu e Rachel nos viramos. Era Quinn. Ela estava parada no meio do corredor, com as mãos na cintura e com seu rabo de cavalo balançando. "O que é isso?", ela perguntou, enfim. Sua voz parecia meticulosa e carregada de desgosto. Seus olhos voaram para rosto de Rachel, e fiz o mesmo. Verifiquei-o; ela estava meio desconfortável, mas não deixava de encarar Quinn. Não estava desafiante, apenas atenta. "Rachel, eu lhe avisei, não foi?", Quinn disparou. Não sabia o que dizer, porque parecia que aquela conversa já havia acontecido entre as duas em algum ponto antes. "Você não pode mais mandar em mim", Rachel respondeu. Sinti certo orgulho dela, ainda que não soubesse sobre o que estivesse falando. "Acho que precisamos ter uma conversa em particular", Quinn disse e, num átimo, se aproximou de nós. Pegou o braço de Rachel e a deslocou para o lado, separando-a de mim. "Dê licença, Quinn, mas...", Rachel tentou retrucar, em vão. Quinn era uma atleta, conseguiu sem esforço algum arrastar Rachel por alguns metros. Fiquei meio impassível, o que deveria fazer? Aquilo parecia um acerto de contas entre meninas. Elas entraram numa sala de aula vazia. Havia alguma coisa séria acontecendo. Quinn, antes de fechar a porta, falou para mim: "Nem ouse se aproximar". Eu fiquei ali de frente à porta, observando-as pelo vidro.
"Você está me desafiando demais!", Quinn disse. Rachel se afastou um pouco da outra, mas retrucou: "Olha aqui, você não é dona da escola, está bem? E eu posso gostar de quem eu quiser". Então entendi. Elas estavam brigando por minha causa. Mas espere aí. Quinn tinha ficado tão satisfeita que eu a tivesse largado... Ao menos, assim aparentou todo aquele tempo. "Você é uma criança mimada que acha que pode ter tudo, Rachel!", Quinn vociferou e avançou contra Rachel, parando com as mãos em seus ombros. "Desculpe se estou correndo atrás do que desejo, ao menos eu não tenho que ficar manipulando todo mundo!", Rachel gritou e afastou as mãos de Quinn se cima de si. "Ele é meu, todo mundo sabe que iremos voltar um dia!", Quinn revidou. "Ele nunca foi seu!", Rachel parecia muito furiosa. Suas palavras pareciam gritadas demais. Quinn jogou a cabeça para trás e riu com desdém. "Sua...", Quinn gritou também, agora ainda mais possessa.
Sem querer mais escutar nem observar nada irrompi na sala.
"Hey, o que está acontecendo?!", perguntei, dirigindo meu olhar raivoso para cima de Quinn. Quem ela achava que era para tratar a Rachel daquele modo? Elas não tinham sido melhores amigas em alguma época esquecida de suas vidas? "Quinn, que diabos?", perguntei. "Só porque você está vendo que Rachel está conquistando alguma coisa que você não tem, não lhe dá o direito de assediar a minha namorada desse jeito! Se você a tocar mais uma vez, juro que vai perder também o seu posto de líder de torcida, tenho certeza de que nem mesmo a Treinadora seria capaz de agredir alguém desse modo!".
Quinn somente fez uma coisa: riu. E então disse, com muita zombaria: "Ah, sei. Namorada". Nós três nos encaramos, então Quinn rolou os olhos e disse para a Rachel: "Tanto faz. Fique longe do meu caminho. Só porque você vai parar na cama dele um dia também, não quer dizer que ele a ame. Eu sempre serei o primeiro amor dele, e isso é muito mais importante do que qualquer Rachel Berry que ele possa namorar".
Então Quinn se retirou, com seus passos pesados e zangados.
Rachel me olhou. Havia certo brilho em excesso em seus olhos, sabia que ela estava prestes a chorar. "Hey, está tudo bem", eu me aproximei vagaroso dela. Não sabia se ela aceitaria meu abraço. Com surpresa, constato que ela o aceitou de bom grado. Beijei o topo de sua cabeça. "Isso é esquisito. Você nem me pediu em namoro, sabia? Além do mais, apenas nos beijamos uma vez. E se você enjoar do meu beijo?", Rachel disse, agora com a voz normalizada. Foi sem cautela alguma e com muita certeza que eu disse: "Não vou enjoar do que mais amo em você".
E aconteceu. Eu disse que a amava. Não lembro se tinha dito algo assim para a Quinn algum dia. Disse? Tanto fazia, porque se dissera, nunca me sentira do modo como me sentia com Rachel.
Rachel desgrudou a cabeça de meu tórax e me encarou, séria. "É verdade?".
"Claro que é verdade", respondi. Eu sabia que ela estava se referindo à palavra 'amor', não ao fato de eu nunca ser capaz de me enjoar de seu beijo.
Ela apertou os lábios por um segundo e disse: "Gosto muito de você também".
Tudo bem. Ela deveria estar com medo. Não me importei, porque eu sabia que ela me retribuiria da mesma forma dali alguns dias. No tempo certo para ela.
Êêê, eu voltei! õ/ Minhas aulas terminaram e minhas lindas noites de escritora retornaram! *-*
AI, MEU DEUS. AINDA ESTOU SURTANDO POR CAUSA DESSE CAPÍTULO! AWN, TÔ APAIXONADA POR ESSES MEUS XODÓS! TÃO AMORZINHOS QUE OMG! ~VOMITANDO RAINBOWS~
Não deixem de comentar, meus amores. Sei que passei um longo período sem dar as caras por aqui ~vergonha absoluta~ mas a minha vida estava bem atarefada antes. Agora as férias vieram nimim e estou livre, sou uma elfa liiiiivre! *-* E, por favor, relevem os erros gramaticais, ortográficos etc, porque não estou a fim, nem com tempo agora para revisar 15 páginas de word e.e
Love, Nina. Até o fim de semana, quem sabe! 33 (tenho outras fics também, tá?).
