Parte I – You and Me (Parachute)
Eu almejara o amor há muito tempo, disso meu coração bem tinha ciência. No entanto, de acordo com seu aspecto mais amplo, eu não era uma exímia entendedora. Claro, eu era jovem demais para entender um sentimento tão complexo e arrebatador quando o amor – e por isso mesmo me era cabível aprendê-lo. Ninguém sabe amar desde o nascimento. Bem, é claro que amamos nossos pais até pelo menos atingirmos uma idade suficiente para quebrarmos os vínculos estritamente amorosos – eu, entretanto, tive a sorte de não ver meu relacionamento com meus pais se desfaz e isso me deixava feliz, pois sabia que podia recorrer a eles para qualquer problema, e eles eram bastante abertos a tudo. Mas, veja bem, o amor vai além das barreiras familiares. E quando ele acontece é como pular a cerca da fazenda e se aventurar pelos pastos até então inexplorados: esse outro tipo de amor, o romântico, se incute em nós por conta de pessoas que sequer conhecemos de verdade. É a partir desse ponto que a nossa vida independente começa – é a partir daí que seguimos os nossos próprios passos, que quebramos a cara sozinhas, que enfrentamos problemas irresolutos por irresponsabilidade, que aprendemos dos mais variados modos a sobreviver no mundo.
Com Finn, eu via essa necessidade. De aprender cada vez mais a retribuir.
Eu era tão alheia ao processo de construção de um relacionamento que nunca havia entendido, antes de estar com Finn, o porquê as pessoas andavam de mãos dadas, por que o toque era tão necessário, mas quando ele segurava a sua na minha com suavidade, como se ela fosse uma preciosidade, afagando-a repetidamente com a ponta do dedão, não conseguia encontrar um sequer motivo para repeli-lo. Não conseguia, também, encontrar uma palavra para descrever a sensação que percorria meu corpo como uma onda elétrica muito potente. Claro que, antes, ele me tocava, às vezes, quando cantávamos juntos. Mas, naquela época, eu não tinha muita ciência do porquê ele fazia aquilo. Era um gesto que me excitava do mesmo modo como se eu estivesse em cima de um palco, de frente para uma plateia infinita: eu me sentia a pessoa mais poderosa do mundo. Agora, essa parcela de excitação competia espaço com a tranquilidade que isso me trazia. O sentimento que se abatia em mim era como se ele estivesse me embalando, sussurrando 'Está tudo bem' na minha orelha. Dar as mãos para Finn começou a se tornar a minha parte favorita do meu dia. Eu ansiava por me tranquilizar com minha mão na dele. A dele, claro, quase engolia a minha, e talvez fosse justamente por isso que a sensação era tão boa. Sentia que, cada vez que ele fazia isso, estava cuidando de mim, mesmo que estivéssemos apenas atravessando o corredor.
Claro que algumas pessoas começaram a entender o que estava acontecendo. Como não? Não era toda hora que Finn Hudson andava de mãos dadas com Rachel Berry (que era uma espécie de nada, digamos assim, dentro do McKinley), na frente da escola inteira. A princípio, sofria de vergonha por conta do que esse gesto pudesse transmitir aos nossos colegas – eu bem sabia que, apesar de ser exibicionista em cima de um palco, eu era um tanto quanto mais comportada no meu dia a dia, ou seja, mãos dadas e comentários inapropriados surtiriam um tipo de efeito oposto ao que desejávamos: apesar de desejar sua mão na minha, eu ficava um pouco tímida. Finn, por outro lado, parecia não ter problemas quanto a isso, além do porque já tinha treinado bastante com Quinn, embora eles ficassem mais aos beijos do que de mãos dadas. Nem gostava de lembrar-me daqueles dias, provocava-me certa náusea. E Finn acabou entendendo que aquela timidez inicial 'dizia muito sobre mim', era o que ele começou a dizer: dizia que eu era inexperiente, claro, mas dizia também que eu me dava um pouco mais ao respeito – quem quer ficar aos beijos com o namorado com uma dúzia de outrem olhando com caras devassas? Não eu, obrigada.
As duas primeiras semanas passaram muito rápidas, ainda que muito tímidas. Eu não o permitia que me beijasse tanto quanto ele gostaria e, certamente, o que mais fazíamos era nos encontrar depois do Glee para conversarmos. Aprendi a controlar um pouco a minha boca, permitindo que ele ganhasse mais espaço. Finn não era muito expressivo, isso era muito evidente: não sabia lidar muito bem com as palavras, por isso ele ficava me escutando atentamente. Eu lhe contei sobre meus pais gays e sobre os meus dias de cantoria, quando criança, com Kurt e Quinn. Quando Quinn era mencionada havia certo interesse nele; insistia em saber como Quinn crescera tão diferente do modo que era quando mais jovem. Eu rebatia, refutando que eu mesma mudara bastante e ele mesmo já tinha me alertado sobre aquilo. Eu fora um pouco louca, depois apática e agora o que sou. Ele tinha me dito, acho que no dia que nos beijamos. Não lembrava-me de quase nada sobre o que tínhamos, de fato, conversado. Tudo o que me vinha à mente, quando me recordava daquela tarde, era do beijo. Não tinha, exatamente, me acabado com o fôlego, mas sua sensação perdurava mesmo depois de semanas.
Nas raras ocasiões nas quais nos beijávamos, além de estarmos de mãos dadas, eu ficava me perguntando quando é que ele iria perceber que eu não era nenhuma especialista no assunto. Ele tinha sido o terceiro garoto com o qual eu dividira meus lábios – claro que o melhor; ao menos ele sabia o que estava fazendo, e com certeza meu coração delatava o quão apaixonada eu estava por ele. Nunca havia beijado ninguém tão apaixonada. Finn, claro, era meu primeiro amor. E talvez o único. E por isso mesmo esperava o momento que ele diria algo como 'Acho que você precisa melhorar a sua técnica', ou alguma coisa assim. Tinha ciência de que ele me dissera, naquele mesmo dia do piquenique, que não poderia enjoar o que mais amava em mim – mas como ele poderia saber? E se enjoasse depois de algum tempo? E se quisesse me beijar de algum outro modo diferente com o qual eu já estava acostumada? Eu não sabia se seria capaz de reagir sem transparecer o meu ceticismo. Quer dizer, tudo bem, eu estava satisfeita. Estávamos muito no início do nosso relacionamento. Mas eu sabia que dali algumas semanas, obviamente, nossos desejos se transformariam um pouco, como era o esperado.
E eu não sabia o que esperar daquela nova etapa.
Os piqueniques eram ótimos, mas eu sabia que eles perderiam lugar a beijos mais intensos, ou qualquer outra coisa parecida.
Era certo dizer que eu estava sofrendo por antecipação, afinal eu era muito dramática. Finn até mesmo estava domesticando esse meu lado, com sua mão na minha, mas era sensato dizer que meu dramaberry nunca me abandonaria.
Mas, acima de tudo, Finn me ensinou a ser amada. Não que muitos tenham tentado tal feito – na verdade, acho que de forma genuína, ele fora o único. Aos que tentaram antes dele, eu repelia. Finn não era meu alvo, era meu destino. Eu sabia que deveria me reservar para ele. Não tinha cem por cento de certeza, é claro, mas a esperança renascia a cada momento que passávamos juntos. Acreditava que não era para ser com os outros. Era com Finn que meu coração se contentaria, se inundaria de amor. Apesar de ter sofrido calada por tanto tempo, Finn conseguiu me fisgar do modo certo, não teve medo de investir em mim e aceitou todos os meus ditos 'pontos fracos' – eles diziam muito sobre mim, era o que ele me falava sorrindo e roubando um selinho meu. Finn não fugiu e ria das minhas neuroses não porque as achava engraçadas, mas porque, de certo modo, as compreendia. Certo, ele era um garoto, mas não deixava de ser uma pessoa. Apesar de muitos pontos apostos que, por vezes, nos afastavam, havia muitas histórias que nos uniam, que nos faziam entender como um. Acho que não nos atraíamos porque éramos apostos, mas porque nossas diferenças é que acabavam nos completando. Havia dificuldades, é claro. Mas nosso relacionamento estava sendo construído com um misto de companheirismo e confiança. Eu confiava nele. Muitas não confiariam, mas eu estava cega de amor.
"Você tem que me dizer o que estava acontecendo. Eu poderia jurar que ele iria beijá-la na frente de todo mundo", Mercedes era tão insistente quanto Kurt. Ele e ela estavam me olhando com tamanha desconfiança e deliberação para mim do outro lado da mesa na qual almoçávamos que era um milagre eu ainda estar viva. Aqueles olhares poderiam se equiparar à Medusa, sinceramente. Eu poderia ter me tornado pedra naquele mesmo instante. "Então?", Kurt perdeu a paciência. Artie e Tina estavam de bocas fechadas, porém mantendo seus olhos bem grudados em mim, esperando qualquer confissão.
Eu tinha temido esse tipo de reação desde o início. Não queria ser interrogada daquele modo pelos meus próprios amigos. Se eles estavam agindo daquele modo, eu nem queria imaginar o que se passava nas mentes dos meus colegas que, diga-se de passagem, não iam muito com a minha cara. Enfiei mais uma garfada de macarrão com vegetais na boca. Queria ganhar tempo, antes que meu rosto começasse a denunciar o que eu guardava. Quer dizer, tudo bem – é claro que eles já tinham suas suposições, a julgar pelos olhares horrorizados que me lançavam sempre que me vislumbrava de mãos dadas com Finn. E aquele tipo de intimidade estava ocorrendo há um pouco mais de duas semanas. Teriam de ser muito ingênuos para não entenderem o que se passava. E Kurt... Ah, esse cara era meu karma. Se antes ele já tinha suas suspeitas, agora eu tinha certeza de que ele sabia perfeitamente que suas suspeitas eram verídicas.
"Bem...", eu resmunguei.
Eles esperaram. Eles estavam insuportáveis, só de vê-los na minha frente, com aquelas expressões, eu queria sair correndo. Se pelo menos Finn estivesse almoçando conosco... Mas eu entendia que ele preferia ficar junto ao time de futebol, assim como eu preferia ficar com o Glee. Eu não me importava, na maior parte do tempo. Tinha aprendido a ignorar essa coisa entre nós. Não que ele não me desse apoio: diversas vezes ele, surpreendentemente, retorquia para algumas pessoas que eram um tanto quanto 'indelicadas' comigo. Apesar de tudo – de todas as nossas diferenças –, ele era ótimo para mim. Estava ali para mim, mesmo que parecesse que não.
"Pelo amor de Deus, garota!", Mercedes quase berrou de sua cadeira.
"Certo, quer parar de gritar? Isso não é algo que...", eu meio que olhei para os lados, preocupada; o McKinley apenas fingia que não estava atento às coisas que eu e Finn dizíamos, mas com certeza estavam de orelhas em prontidão para pescar tudo e configurar seus próprios boatos indecentes. "Que eu queira falar agora, entendeu?", finalizei muito rapidamente. Queria dar o fora do refeitório o quanto antes, para conseguir respirar direito, pois me sentia nervosa e desesperada; podia sentir meu coração dando saltos dentro de meu peito, em pânico por conta da situação. Kurt me olhou como se estivesse frustrado, indignado e ultrajado, tudo ao mesmo tempo. "E agora... Agora eu preciso ir", disse. "Mas você nem termin... Rachel!", ouvi Mercedes berrar, sua voz reverberava pelo espaço. Não quis esperar. Caminhei para as portas duplas e, enfim, me vi mais livre, mais inteira. Mas meu coração ainda estava acelerado. É uma droga carregar um segredo. E ainda mais se esse segredo envolve seu coração e o quarterback do time de futebol.
Tipo assim, estava tão ferrada. Mandei um SOS para a única pessoa que poderia me fazer sentir melhor àquele momento.
Glee. Agora. Por favor.
Quando cheguei lá, fiquei sentada em frente ao piano decidindo o que tocar por alguns minutos. Nenhuma melodia me veio à mente e eu desisti de querer tocar. Fiquei meramente aguardando Finn. Por um ou dois minutos cogitei que ele não viria, pois não se importava com as minhas crises, ou que suas conversas com o time estavam bem mais interessantes do que conversar comigo. Mas quando dez minutos se passaram e eu me dei por vencida, prevendo ter de retornar ao refeitório, ou talvez me refugiar na biblioteca, a porta se abriu, rangendo. Eu sabia quem era.
"Não posso te salvar toda hora, sabe disso, não sabe?", Finn perguntou. Ele parecia um pouco preocupado.
"Eu sei", despejei. Não sabia, na verdade. Eu queria que ele me salvasse em todos os meus maus momentos. Mas, claro, eu tinha ciência de que ele tinha uma vida longe de mim. Afinal, eu também tinha uma vida longe dele. "Kurt ou Mercedes?", ele se aproximou de outro banquinho, depositou-o à minha frente e sentou-se nele. "Os dois. Juntos", respondi. "Por que o Kurt precisa cuidar da sua vida tanto assim?", ele me questionou. Não gostava daquele atrito que existia entre os dois. Primeiro, porque não entendia; e segundo, porque Kurt era meu melhor amigo, e Finn era meu segundo melhor amigo. Será que não poderiam parar de se alfinetar pelo amor a mim, pelo menos de vez em quando? "Eu não aguento mais. Da próxima vez, eu vou contar. Mesmo que eu receba algumas raspadinhas na cara", eu confessei. Meu coração já estava entrando no compasso, com as mãos dele por sobre as minhas. Era uma boa terapia. "Eu nunca pedi para você fazer disso um segredo de estado, Rachel", Finn disse como se estivesse decepcionado comigo. Talvez estivesse mesmo. Olhei-o intensamente. Dessa vez, eu não estava transbordando de amor. Estava meio magoada com ele, na verdade. Ele não estava sendo de grande utilidade agindo daquele modo. Será que não percebia?
"E tenho bastante certeza de que não é preciso esconder nada de ninguém, pois todo mundo já sabe que estamos juntos", ele continuou.
"Ótimo".
"Quer parar de ficar zangada por causa disso? Relaxe, ok? Eu não vou deixar que ninguém...".
"Você não entende. Não estou preocupada com isso. Estou preocupada com o fato de que você é do time de futebol, e eu... Bem, quem eu sou aqui dentro? Ninguém. Não dá pra ver que a sua popularidade pode nos atrapalhar muito?", desatei a falar, porque eu sabia que ele iria me escutar. Ele sempre me escutava, mesmo que eu estivesse falando sobre o amor incomparável de María e Tony. "Espera. O quê? Você me chamou para vir aqui para discutir que eu deveria deixar o time de futebol?", Finn parecia confuso e indignado, mais do que nunca. Tratei de consertar: "Claro que não! Nunca lhe disse isso! Aliás, você estando no time é uma ótima chance de conseguir uma bolsa para uma universidade! Não quero arruinar o seu futuro só porque eu sou uma menininha assustada!".
É, eu deveria ter editado a última parte. Mas que se dane. Agora ele já estava sabendo.
Finn, agora, tinha mudado seu semblante: estava um pouco surpreso. "Rachel!", foi o que saiu da boca dele. Ele balançou a cabeça e soltou o ar longamente pelo nariz.
"Desculpe, é que... Você sabe", eu tive vontade de esconder o meu rosto, porque sabia que estava queimando de vergonha. "Você não precisa ter vergonha de estar assustada", ele me disse, sorrindo daquele jeito que me deixava meio sem fôlego. E então delineou meu nariz com a ponta do dedo e o apertou de leve. Eu ri fraco. Aquele gesto me fazia sentir meio idiota, como se estivesse caindo de amor num buraco bem fundo. "Você é forte, sabe como sei disso?", Finn me perguntou; como eu sabia que aquela pergunta que não precisava de argumento, não me importei em respondê-la. Fiquei apenas olhando para ele, enquanto dizia: "Você finge que não sente falta da sua mãe e quando alguém lhe pergunta sobre ela, você dá de ombros. Mas eu sei que, no seu íntimo, você precisa dela. Você já me disse isso. Você não tem que achar que ser vulnerável é um ponto negativo. Você não precisa ser forte o tempo todo. E eu estou aqui para ser forte por você também".
Fiquei ainda em silêncio. O que ele estava me dizendo parecia mais importante do que quando ele disse para Quinn que eu era sua namorada. E isso significava alguma coisa.
"Ainda não sei por que a sua 'impopularidade' é uma coisa tão taxativa na sua vida, mas você precisa saber que eu não dou a mínima para o que você acha que é a minha 'popularidade'. Eu não me importo com festas com jacuzzis, ou com qualquer garota que queira ficar comigo, porque eu tenho você agora. Eu...", de repente, ele perdeu as palavras. Fiquei mais atenta. "O quê?", insisti, os meus dedos apertando os dele. "Eu posso ser esse grande astro aqui dentro do McKinley, mas eu não tenho ideia do futuro. Não sei o que quero fazer, ou ser. Você, ao contrário, sabe quem é, sabe o que quer e sabe o que fazer para conquistar o que quer. Percebeu a diferença? Acho que, na verdade, eu é que não sou ninguém nesse mundo. Porque o mundo, Rachel, não se limita ao McKinley. O mundo é o que você faz e quer ser fora daqui".
Minha boca se abriu – não para retrucar, mas porque Finn, apesar de não saber lidar com as palavras tão bem quanto a maioria dos alunos, estava se revelando bem diante de mim. Suas palavras se derramavam por sobre mim, me rondavam e me abraçavam da maneira tão conquistadora quanto possível.
"Acho que eu sou a pessoa mais assustada de nós dois. Parece que não, mas se deixe enganar. Eu morro de medo do mundo lá fora, porque você pode conquistá-lo apenas abrindo a sua boca e cantando. Eu, por outro lado, não tenho nada de tão especial. Não sei ser nada, além disso que você vê".
"Isso basta para mim. Não quero que você seja nada além disso. Você é especial justamente porque é do modo que é", eu lhe garanti na mesma hora, interrompendo seu monólogo. "Eu sei que pode ser confuso e frustrante não saber o que ser da vida, mas você vai saber. Talvez demore um pouco, mas você vai ter meu apoio. Eu sofro um pouco por ser tão decidida nas minhas escolhas, e você sabe aonde isso me leva. Ninguém acredita em mim, por isso, muitas vezes, começo a pensar que meus sonhos são incompreendidos. Mas sabe de uma coisa que aprendi a melhorar a vida? Seguir em frente. Mesmo que você, agora, não saiba ser o que é lá fora, você tem que seguir em frente, porque apenas assim é que a gente se encontra na vida."
"Você vai me ajudar a seguir em frente?".
"Vamos seguir em frente juntos", eu lhe garanti.
Parte II - Shape of Love (Passenger)
Certo.
Eu estava tendo um ataque cardíaco. Ou algo parecido.
Só isso explicava o porque a minha boca secara e meu coração parecia estar numa pipocadeira. E eu estava sendo um mal-estar nunca sentido antes.
"Finn? Está tudo bem?".
Pisquei e me forcei a prestar atenção no semblante de Rachel, a centímetros abaixo de mim. Ela estava escorada nos armários, era intervalo. Não tínhamos tido a oportunidade de nos encontrarmos antes, pois ela tivera prova de Cálculo, então estava enfiada nas suas anotações, implorando para não ser interrompida.
"Es... Está", minha voz saiu meio sufocada. "Parece que está morrendo. Tem certeza de que está tudo bem, mesmo?", ela quis assegurar. Assenti, embora não conseguisse entender como conseguira reunir forças para tal gesto. Tudo estava meio balançando diante de meus olhos. "Na sexta, você disse?", eu quis confirmar. Poderia inventar facilmente uma mentira. Treino de futebol. Janta especial com minha mãe. Luto em homenagem ao meu pai. Qualquer coisa. Mas nada proferi à ela, porque eu estava analisando seu rosto com maior nitidez agora: Rachel parecia feliz, tão feliz que achei que estivesse me dizendo sobre a cura do câncer, ou sobre mais um ingresso para musicais. Retrocedi, então. Não queria magoá-la, ou dar a entender que estava apavorado com aquela notícia tão... Como dizer? Tão inesperada?
"Sim, às sete".
"E... Espere aí, você teve coragem de contar sobre nós aos seus pais, e não a Kurt e Mercedes? É isso mesmo?", eu lhe perguntei, muito surpreso. Rachel deu de ombros. "Acredite, eles são bem mais conciliáveis e compreensíveis", ela me garantiu.
Não era possível. Tinha alguma coisa errada. Era, talvez, uma pegadinha. Eles tinham concordado com o jantar apenas para me dar uma surra com um taco de basebol, ou então me fazer comer coisas esquisitas. Quer dizer, não é isso que os pais fazem quando a filha única começa a namorar? Além do mais, ai meu Deus, Rachel tinha dois pais. Se enfrentar um pai já era assustador o suficiente, eu nem poderia expressar o que dois pais, juntos na mesma mesa, poderiam me afligir. Achei, realmente, que estivesse vendo estrelinhas quando Rachel retornou a falar: "Não se preocupe. É só um jantar".
É, só um jantar. E a minha vida se acabando.
Acho que eu estava num estado de nervos tão avançado que fez com que ela tomasse uma medida drástica. Rachel, num átimo, sem nem sequer olhar para os lados, ficou nas pontas das sapatilhas e depositou um beijo rápido nos meus lábios. Simples assim.
"Coragem, Quarterback!", ela me disse.
Então saiu saltitando pelo corredor, como se fosse a Chapeuzinho Vermelho no bosque.
Eu deveria odiá-la um pouquinho, mas sua saia estava meio que balançando juntamente com seus movimentos e isso me distraiu totalmente.
Auditório, agora.
Eu tinha acabado de sair do banho, ainda estava envolto pela toalha, quando alcancei meu celular. Claro Que Rachel tinha me mandado algo, ela sempre mandava. Naquela tarde, um treino tinha sido marcado para após o Glee, e eu bem sabia que Rachel ainda estava nas mediações da escola, talvez com Kurt.
Mas o teor de sua mensagem tinha me deixado em estado de alerta. Ela era mestra em me deixar daquele modo, porque suas frases eram sempre curtas, como não conseguisse controlar o seu lado controlador e mandão. Por um lado, eu achava engraçado, mas por outro, me deixava meio assustado. Rachel, era preciso dizer, ainda me deixava apavorado – mesmo depois de quase um mês juntos.
Então, achei que o auditório estivesse, no mínimo, sendo invadidos por macacos selvagens, ou pegando fogo.
Vesti-me rapidamente, disse um tchau muito rápido para Puck e... E nada, porque ele fez questão de me atrasar. "Nem vem com isso. Você está mesmo pegando a Berry? É isso mesmo, agora você é um fracassado?", ele disparou, ainda sentado com os tênis nas mãos. "Puck, agora não".
"Agora, sim. Você foi pego beijando a Anne Frank Puritana antes de ontem".
Fui?
É claro que tinha sido. Nem eu, nem Rachel tínhamos nos preocupado com aquele beijo que ela me oferecera sem nem mesmo pensar direito.
"Sabe quem está gostando menos ainda que eu?", Puck me inquiriu.
"Beiste?", arrisquei.
"Não, a sua ex-assassina loira".
"A Quinn não é assassina. De que está falando?".
"Rolam boatos de que ela tentou 'interceptar' o seu negócio com a Anne Frank logo no primeiro dia", ele me respondeu, secando os cabelos com selvageria.
"Não é um negócio; eu gosto da Rachel".
"Sei, gosta", ele ironizou de uma forma seca e dura. "Tem ciência de que ela não é nada liberal, não sabe? Vai ser difícil ultrapassar qualquer tipo de base com ela durante os seis primeiros meses".
Rolei os olhos. Eu não estava com paciência para ficar conversando com Puck. Não mesmo. Nem mesmo sobre uma coisa daquelas. Que, certo, nós conversávamos. Quer dizer, conversávamos no período no qual Quinn tinha sido minha namorada – e eu não conseguira muita coisa com ela também; nada de vê-la de calcinha e sutiã, muito menos sem roupas. Então, por mais que eu tivesse uma das Cheerios mais gostosas da escola, era como ficar jogando cartas o tempo todo. Eu logo me cansava de ficar investindo o meu tempo nela, já que quando eu estava em cima dela, e algumas coisas estavam rolando, ela parava tudo e dizia que precisávamos rezar. Então, basicamente... Era um saco.
"Tanto faz. Eu preciso ir, depois nós nos f...", minha frase foi entrecortada pela risada do meu melhor amigo. "Vai encontrar a Virgem Maria?".
"Puck, sinceramente...", eu exclamei.
"Ok, ok. Desculpe. Vai se encontrar com a Intocável?", ele tentou de novo.
Mandei-o para o inferno e deixei o recinto.
Às vezes, lidar com Puck era como lidar com uma criança de três anos hiperativa: tão irritante quanto desesperador.
Rumei para o auditório, meio apressado. Quando enfim cheguei, tudo estava deserto. E escuro. Os holofotes não estavam acessos, nem as cortinas abertas. Será que ela tinha se cansado de esperar e fora embora? Com a impaciência que ela tinha, era bem capaz. Mandei uma mensagem:
Cadê você?
Decidi me sentar numa das cadeiras. Se ela não estivesse ali, era preciso esperar. Quem sabia? Talvez ela nem estivesse ainda ali, estivesse em outro lugar com Kurt.
Sua resposta demorou quase cinco minutos para chegar:
Venha até aqui. Estou aqui. No tablado.
Olhei ao redor, mais uma vez. Rachel era pequena. Talvez tivesse sumido no meio das parafernalhas musicais ali perto, ou talvez estivesse na última fileira, me observando discretamente enquanto eu tentava localizá-la.
"Rachel?", sussurrei. Nada. "Rachel?", minha voz saiu mais alta.
Nada mais uma vez.
Segui para o palco. Apesar das cortinas estarem fechadas, as escadas estavam acessíveis. Quando cheguei lá em cima, parei. E abri a boca.
Havia luzinhas de Natal brancas decorando o fundo do palco, e árvores de metal com suas extremidades brilhando tais quais as luzes de Natal espalhadas aqui e ali. E perto de uma das árvores estava Rachel sentada em cima de uma toalha de piquenique, enquanto havia duas cestas ao seu lado, provavelmente já vazias, uma vez que os mantimentos estavam espalhados pela toalha. "Foi difícil?", ela quis saber, meio rindo, meio sorrindo. Confessei: "Um pouco. Não sou bom em charadas".
Ela continuou sorrindo, agora seu riso já tinha cessado. Ela me chamou para perto dela, e eu fui.
"Então... O que é tudo isso?", perguntei. Ainda mirava tudo com certa surpresa, afinal aquilo era inédito. É claro que, às vezes, havia decorações especiais, mas nenhuma, como eu supunha, era para mim. Porque eu tinha certeza: aquelas luzes e as comidas eram para mim. Rachel deu de ombros, brevemente, como se não significasse muita coisa. "Você fez um piquenique para mim. Estou somente retribuindo. Não gostou?", ela quis saber; não que estivesse cética ou preocupada. "Claro que gostei".
"Sanduíche vegetariano ou pão de banana?".
"Você fez tudo isso?".
"Quase tudo", ela riu fraco.
Gostava de compartilhar silêncios com ela, porque Rachel estava aprendendo a graça desses momentos, mas naquele momento o silêncio que preencheu o ambiente não era muito reconfortante. Queria que ela dissesse mais, dissesse o porquê estava me retribuindo. Eu não fazia ideia. Se ela deixasse escapar uma pista...
"Rach", eu murmurei em meio às mastigadas. Aquele pão de banana era realmente muito bom. Ela levantou o olhar para mim, curiosa. "Que tipo de piquenique é esse?", quis saber. Ela perdeu um pouco de tempo bebericando o suco que trouxera. "Eu decidi uma coisa".
Aquilo me surpreendeu mais do que tudo. Esperava qualquer resposta dela. Mas se ela tinha decidido alguma coisa... Era algo bom. Rachel Berry era a pessoa mais decidida que eu já conhecera. E quando ela tinha certeza de algo ninguém tirava de sua cabeça; eu bem sabia: talvez não estivéssemos juntos, se ela não tivesse persistido na ilusão que achava que poderia conquistar. É claro que, no fim, todo mundo preciso de um pouco de ilusão. Ela esperou por 10 anos. Não é algo que você possa fazer descaso. E, junto agora a mim, parecia que todos os seus sonhos estavam encaixados; enfim, parecia que havia uma felicidade nela que nunca detectei antes. E se ela estava feliz por estar comigo, por saber que tinha tomado o melhor caminho para sua vida... Como eu poderia recusar-lhe qualquer coisa? Como poderia dizer-lhe para não ter tanta certeza assim, ou que sua decisão era incabível? Eu queria fazê-la feliz. E para tanto, não lhe poderia cortar as asas e o amor. Era isso que Rachel era. Asas e amor.
"O quê?", inquiri. Não sabia se estava nervoso para saber, ou se era apenas aquela sensação de não saber o que o futuro nos aguardava. Certamente, o futuro não me guardava muito, mas não poderia menosprezar o de Rachel.
"Decidi que não vou mais me importar com nada além de nós e, obviamente, a Broadway. Quer dizer, não é bem assim", ela retalio de repente, parando subitamente de falar. Ela franziu a testa, meio confusa. "Eu somente decidi que vou parar de me importar com os outros, independentemente das opiniões deles. Por isso, Kurt e Mercedes, e todos os outros, merecem saber que estou feliz com você. Que, por mais que eu achasse que o destino nunca iria nos juntar, aqui estamos. Ainda não sei por que a Quinn está tão quieta quanto a isso, mas talvez seja melhor assim. A gente aqui, e ela lá. Certo?".
Eu achava que sim. Se Quinn estivesse nos interferindo o menos possível, nossa vida amorosa estaria a salvo. "Certo", concordei.
Aquilo era ótimo. Rachel estava, finalmente, se desprendendo do seu lado inseguro. Claro que gostava dela por inteira, mas sem as inseguranças ela era muito mais forte. "Então, agora eu posso te beijar sem que você se afaste?".
Seus olhos pareciam líquidos e mais expressivos que o normal.
"Provavelmente", ela disse. "Provavelmente?", minhas sobrancelhas subiram. Ela riu fraco, e depois disse: "Sim. É claro que sim". Arrastei-me para mais perto dela. Às vezes, Rachel era um pouco esquiva e isso me obrigava a ser mais insistente. Talvez ela considerasse chato e inoportuno, mas eu não conseguia evitar. Eu gostava de beijá-la, mesmo que fosse por poucos segundos – para mim, quase nunca era o suficiente. Mas eu sabia que Puck tinha razão: seria difícil quebrar quaisquer limites com Rachel antes que ela depositasse mais confiança em mim. Não que não confiasse – confiava na mediado do possível. A prova era que, por mais que se retraísse um pouco, nunca se afastava completamente. Sempre estava ali ao meu redor, me pedindo ajuda ou retribuindo o meu amor.
É, ela não tinha se declarado completamente – não do modo como eu já fizera. Mas aquela era a Rachel; estava decidida em estar comigo, mas tinha que ter um pouco mais de certeza. Eu sabia que estava esperando a aprovação de Kurt e dos demais (não de Quinn), esperando que eu tivesse mais paciência com ela. E eu tinha. Eu tentava ter, quer dizer.
Ficamos mais uma vez em silêncio. Eu queria beijá-la, ansiava por esse tipo de coisa mais vezes do que o normal. Não pedi licença e a beijei. Não que a tivesse pegado de surpresa. Rachel sempre sabia quando eu tinha essa vontade. Com quase um mês de namoro, ela já tinha deixado de lado um pouco do seu jeito desconfortável quando estava comigo daquele jeito, como se estivesse se policiando o tempo todo. Como ela era bem menor que eu, parecia que se se acomodava melhor em mim – tudo estava em sintonia comigo. Ela quebrou o beijo, mas não de um modo abrupto, e apoiou a cabeça no meu ombro. "Eu realmente amo esse lugar", ela disse. Podia ver seus olhos cerrados, seus cílios tão longos e seus lábios derramando um suspiro de satisfação e aconchego. Gostava dela quando estava tranquila, quando não se preocupava com nada além do que estava sentindo. "Devemos transformá-lo no nosso ponto de encontro, sempre", eu disse. "Ele já é, gosto quando você me traz aqui e ficamos sozinhos".
"Você gosta, é?".
"Muito. A culpa é sua, o seu primeiro piquenique surtiu esse efeito em mim", Rachel me respondeu. Eu sorri. Era um efeito ótimo. Ao menos, quando estávamos relaxados daquele modo, Rachel nunca conseguia me assustar como antigamente. Ela era apenas uma menina embarcando no primeiro trem rumo ao desconhecido, por isso aceitava a recíproca. Eu lhe retribuía do mesmo modo – eu também gostava do auditório, e aquele era nosso lugar. Ele me fazia ser muito mais do que já era. Gostava de pensar que, junto a ela, eu me sentia especial. Sentia-me tão especial quanto ela própria.
"Sinto-me mais bonita ao seu lado. Como se eu pudesse pertencer a este local do mesmo modo que você".
Afastei um pouco de sua franja, que escondia seus olhos um pouco. "Você é bonita", corrigi-a. Rachel soltou uma risadinha e voltou a colocar sua franja para onde eu tinha retirado. Então, afundou a testa no meu peito, como se estivesse rindo demais e precisasse sufocar o riso. "O quê?", eu perguntei, subindo minha mão para seu pescoço, sentindo-a se encolher com o toque. Ela suspirou mais uma vez, com uma razão diferente. Beijei-lhe o topo da cabeça. "Eu garanto a você que se acreditasse no que digo seria muito mais segura de quem é. Você é linda, eu vejo isso. Você é muito mais atraente quando não se sente tímida", eu falei. Certo, talvez eu não devesse ter usado a palavra 'atraente', aquilo era precoce demais e, conhecendo a insegurança dela, diria que aquilo somente serviria para envergonhá-la um pouco mais e para que ela soltasse mais uma risadinha. O que acabou acontecendo, naturalmente.
"Então se sou tímida não sou atraente?", ela olhou para mim, com um sorriso maroto nos lábios. "Gosto de você tímida, mas prefiro quando é atraente". Ela me deu um tapa no ombro. "Você tem que parar com isso. Não tenho muita certeza se te dou a permissão para pensar esse tipo de coisa de mim", ela disse, ainda sorrindo. "Eu sei que tenho. Sei que gosta, apesar das risadinhas. Você é muito risadinha, sabia?".
"Risadinha?", ela começou a rir. "Muito", respondi.
Ela sorriu. "Obrigada por isso. E obrigada também por estar mais calmo por conta do jantar na minha casa. Não fique tão preocupado, ok? Meus pais não vão caçá-lo até o inferno, ou algo assim. E eles vão até mesmo cozinhar carne, coisa que só fazem quando minha avó aparece. Está vendo? Isso significa que gostam de você".
"Significa isso mesmo, ou eles envenenaram a carne?".
"Finn!", Rachel me desferiu outro tapa. Estava rindo.
"Brincadeira", disse. Não era. Eu temia a carne.
"Ouça, ok?", Rachel solicitou, agora sem rir. Estava atenta e séria. Assenti e foquei em suas palavras: "Sei que parece assustador, mas meus pais são ótimos. Sabe que nunca tive uma mãe presente, o que na verdade nunca me atrapalhou em nada. Não posso dizer que seja infeliz sem ela. Hiram e Leroy se doaram ao máximo para realizar meus sonhos, inclusive são as pessoas que mais me apoiam nesse meu sonho de estar na Broadway. Ambos são, sim, protetores, afinal sou a única filha deles, entretanto sabem ser comedidos, entende? Eles me amam e, na verdade, não se sentiram ultrajados por saberem que estamos juntos. Sempre tiveram suas suspeitas e agora sabem que estou realmente feliz. Entendeu?".
Eu já tinha me acostumado à tagarelice dela. Por isso, não abri a boca, deixei-a falar o quanto quisesse. Seu amor e sua admiração por seus mais era meio fascinante, gostava de vê-la sendo daquele modo – genuína, sincera explicitamente. "Queria poder falar essas coisas de meu pai", eu disse. Seu olhar se modificou, ficou mais suave e mais doce. "Você sabe que sinto muito". Não gostava de falar sobre esse tópico, nunca tinha uma previsão do modo como poderia reagir. Então tentei cortá-la, dizendo: "Obrigado". Achei que funcionaria, que ela pescaria o pretexto, mas meramente prosseguiu. "Você disse que eu sou forte, mas você também é. Ambos sabemos que, embora acabemos por negar, crescer sem uma parte da família nos afeta e nada pode suprir a perda, ou a ausência dessa parte. Mas estou aqui. Talvez eu não compreenda completamente o que você sente, porque você se nega um pouco a debater sobre essa questão. Sei o quanto repele esse assunto, até mesmo comigo. Aceito sua escolha, porque acho que se ainda não se sente confortável não é minha tarefa te pressionar. Mas, como disse, estou aqui. Eu e você vamos seguir em frente juntos, lembra?".
Apertei-a contra meus braços. Talvez estivesse machucando-a, mas ela não fez objeção alguma. "Você é incrível. Obrigado por isso", murmurei no topo de sua cabeça.
Então, ela fez uma coisa que não consegui reunir palavras o suficiente para expressar o que aquilo me acometeu. Rachel levantou o dedinho em minha direção, como se estivéssemos selando um segredo, ou talvez um amor infinito. Mas eu sabia o que significava. Levantei o meu também, e ela logo enganchou o dela no meu.
Era para sempre. Uma promessa: eu e ela contra todas as dores e todos os lamentos.
"Lembre-se", minha mãe começou, após ter brecado o carro em frente à residência dos Berry. "Agradeça, faça elogios e não recuse a sobremesa".
"Rachel disse que faria pizza de banana de sobremesa".
"Não recuse", ela repetiu. Eu ri, e ela também. "Gosto muito dela, é uma menina muito doce. Seu pai teria ficado orgulhoso. Faça-a feliz, e não a constranja", ela continuou.
Não gostava quando falavam do meu pai, nem mesmo se fosse minha mãe. Ela não sabia, com toda a certeza, se meu pai ficaria orgulhoso. Talvez ele preferisse a Quinn. Não conhecia direito meu pai, e talvez nunca fosse conhecê-lo.
Para sair logo do carro concordei com a cabeça. Ela me beijou a bochecha. Tinha feito questão de me levar até a casa de Rachel. Agradeci a carona e bati a porta. Alisei a camisa social e caminhei, meio nervoso, até a porta. A campainha tocou e demorou exatamente 13 segundo para Rachel abrir a porta.
Trajava um vestido curto amarelo e branco, e lembrava uma marinheira. Como de costume, quase não usava maquiagem e seus cabelos estavam soltos e mais lisos que o usual. "Hey, você está adiantado", ela me disse, puxando-me pela mão para dentro do hall. "Desculpe". Ela sorriu. "Tudo bem. Podemos ficar na sala até meus pais terminarem o que estão fazendo na cozinha. Pelo cheiro horrível, posso sentir que é salsichas com molho de pimenta", ela olhou para uma porta fechada, onde eu podia ouvir vozes masculinas conversando. Eu soltei uma risada baixa. A fobia dela por carne era algo que nunca tinha visto. Quando me explicara que era vegetariana não por motivos religiosos ou por opção, mas por questão puramente de tolerância quase não acreditei. Tinha me dito que deixara de comer carne aos seis anos, pois sempre ficava muito enjoada quando sentia o cheiro. Seus pais tinham aceitado sua nova dieta como quem aceita um novo cachorrinho: como se não fosse nada muito incômodo.
"Você não deveria avisá-los?", perguntei. "Nah, eles não se importam se ficarmos um pouco sozinhos", Rachel disse. Como se fosse. Eu sabia que na primeira oportunidade um de seus pais me prensaria na parece e começaria a me interrogar sobre coisas insanas. Tinha que acontecer. Talvez eles mantivessem instrumentos de tortura muito bem escondidos dos olhos de Rachel para esse tipo de finalidade, para afugentar os pretendentes da filha. "Tem certeza?", quis confirmar. "Finn!", ela riu, incapaz de se controlar. "Quer se acalmar?", ela me pediu. "Você não está indo para o matadouro! Eu já disse, eles não são tão maus assim".
"Tinha um pouco de medo do pai da Quinn", confessei. Sei que não é nada legal ficar falando dos pais da ex minutos antes de um jantar na casa da sua nova namorada, mas o comentário escapuliu de imediato. "Não precisa ter medo dos meus. O pai da Quinn também me deixava nervosa", Rachel confessou. "Mas implorei para que Hiram, que tem esse instinto investigativo por demais por conta dos milhões de filmes e seriados policiais que assiste, não lhe interrogasse muito. Além do mais, tudo que eles precisam saber eu já disse. Que você me ama e que me faz sentir mais feliz".
"Sério? E eles se contentaram com tão pouco?", quis saber.
"É o suficiente e o essencial, acredite".
Nisto, a porta da cozinha de abriu. Um homem alto, meio grisalho e usando um óculos se revelou. Ele carregava uma colher com um molho e brandia o objeto para frente. "Ah, vocês estão aí!", ele exclamou. "Leroy, o garoto chegou!", o homem olhou para trás e falou. "Olá, Finn. Sou Hiram", ele veio na minha direção enquanto eu me levantava do sofá e dava um passo para o lado. Apertamos as mãos e sorri o mais agradável possível, sem deixar que esse meu sorriso transmitisse o quão nervoso eu estava. Hiram parecia educado e ameno. Um pouco mais bem humorado do que achava que seria, também. "E esse é... Leroy, desligue o arroz selvagem aí e venha cá!", Hiram falou alto. "Leroy é meio complexado com comida, não ligue", ele comentou comigo, me dando uma cotovelada amistosa. "Querida, o molho de vegetais ficou uma porcaria?", então ele foi em direção à Rachel, que não tinha dito nada, e lhe passou a colher de madeira. Rachel levou-a aos lábios e provou do molho. "Precisa de sal. Não me diga que papai está preparando isso também. As salsichas já parecem horríveis por si só", Rachel disse. Hiram riu. "Não são para você", disse. "É, mas vou precisar sentir o cheiro delas, não vou?", ela retrucou. "Pare de ser dramática, Rach. É uma noite especial, não é?", outro homem, mais baixo que o primeiro e menos grisalho se adentrou na sala secando as mãos num avental que já fora branco. "Olá, meu rapaz! Eu sou Leroy e não sou complexado quanto Hiram disse. É, eu ouvi", ele apertou minha mão e se virou para o marido com um olhar meio ressentido. Permiti-me deixar escapar uma risadinha. Eles não pareciam nada autoritários ou maldosos como minha mente os tinha projetado; pareciam engraçados e atrapalhados. Eram uma família feliz. Esquisita, mas feliz. "Mais dez minutinhos e estaremos servindo tudo. Rach, por que não me ajuda a vigiar o tempo?", Leroy pediu.
Oh. Não, por favor. Não. Eu ficaria sozinho com Hiram? O que tinha instinto investigativo? Isso parecia a morte. Podia sentir minha cor abandonando meu rosto como se estivesse na frente de um assassino treinado.
"Mas...", Rachel tentou protestar, mas em vão. Leroy me lançou um olhar rápido, mas cortante. Ela se foi, sem nem ter tempo de me olhar para se desculpar por aquilo. A porta se fechou, e eu e Hiram ficamos em pé em cima do tapete vermelho. Ele ainda estava com a colher na mão, enquanto, por puro nervosismo, eu tinha enfiado as mãos nos bolsos da calça jeans.
Mas se eu achava que ele usaria aquela colher como uma arma mortífera, eu tinha me enganado muito. Porque o que Hiram fez em seguida me surpreendeu. Ele foi até um balcãozinho estilo retrô e abriu uma gaveta; de lá, retirou uma caixa menor que uma caixa de sapato. Ele se sentou no sofá e fez um gesto para que eu me aproximasse. Algumas fotografias se revelaram, e Hiram as mostrou para mim, uma por uma. Havia poucas, talvez umas três. Não prestei muita atenção na quantidade, pois as palavras dele pareciam-me mais importantes. "Essa é a Rachel e a Shelby", ele me disse. A imagem mostrava uma mulher de cabelos quase tão escuros quanto a Rachel que eu conhecia com um bebê nos braços. A mulher sorria um tanto quanto debilitada, e eu podia imaginar que há poucos minutos tinha dado à luz à criança. Na próxima, eu pude ver Rachel, talvez com seis ou oito meses, na posição típica de engatinhar em cima de uma cama. Shelby estava ao seu lado, sorrindo como se estivesse genuinamente feliz. Na última, não havia indícios da mãe de Rachel, somente Rachel e seus pais. Era Natal; uma enorme árvore de Natal estava ao fundo, toda brilhante e decorada, enquanto um Hiram mais novo segurava as mãozinhas pequenas da filha, em pé e sorrindo com alguns dentinhos já aparecendo. Leroy estava ao lado do marido, expressando um enorme sorriso. Podia inferir que quem quer que tivesse batido a foto, talvez Shelby, queria registrar aquele momento tão alegre e natalino como quem quer guardar o segundo mais precioso de sua vida.
"Shelby fez parte da vida de Rach até um pouco depois do primeiro ano. Esse", Hiram apontou para a última foto, "Foi o único Natal que passamos todos juntos. Rachel ganhou um gato de pelúcia laranja de Shelby, foi o único presente que recebeu dela a vida inteira. Era obcecada por ele, até que adotamos o Peter".
Rachel nunca tinha me contado tudo a respeito de Shelby. A única coisa que sabia plenamente era que sua mãe nunca tinha aparecido com frequência em sua casa, e que Rachel evitava como eu, embora menos, falar sobre isso.
Deixei de lado o desconforto por estar entrando tão intimamente assim no passado escondido de Rachel. Eu já tinha me perguntado diversas vezes como ela tinha aparecido na vida de Hiram e Leroy, como tinha sido sua adoção – já que aquele tipo de coisa nunca tinha ficado tão claro para mim, uma vez que minha família era bastante comum, à exceção da morte de meu pai.
"Como... Como Shelby apareceu?", perguntei.
"Ah. História interessante, essa", ele sorriu fracamente para mim, trocando um olhar comigo. Ele parecia sério, mas afetado pelas lembranças. "Shelby foi casada por uns dois anos com um dos meus melhores amigos de colégio, mas quando o divórcio ocorreu, e ela não concebera nenhum filho, decidiu fazer inseminação artificial. Como eu e Leroy já estávamos juntos há algum tempo e desejávamos filhos, fizemos uma proposta a ela. Se ela queria um pai para seu herdeiro, um de nós poderia ser o doador. Foram várias tentativas, é claro. Essas coisas, raramente, dão certo na primeira experiência. Mas quando ela enfim declarou que estava grávida, todos nós ficamos exultantes. Finalmente, o sonho de nós três estava muito perto de se realizar, de termos um bebê em casa, de sermos pais e mãe".
Assenti. A história parecia simples – mas, ao mesmo tempo, um tanto quanto complicada; era complicada, eu bem tinha ciência. Caso contrário, não teria afetado tanto a Rachel.
"E por quê...?", comecei. Hiram sorriu fracamente de novo. Ele sabia exatamente o que eu iria perguntar-lhe. Parecia lamentoso agora. "Ah. Uma história triste, essa", ele disse. Havia igualmente tristeza em sua voz. Remexi as fotografias nas minhas mãos. Meus olhos recaíram na menininha em frente à árvore de Natal. Aquela criança tinha a mesma característica que conhecia tão bem na Rachel de agora: uma confiança alegre de receber amor. Tornei a encarar Hiram. "Muitas mulheres, não sei se sabe, após o parto rejeita a própria cria. Não é racional, é claro. Muitos motivos podem levá-las a isso; não achar que pode ser uma mãe exemplar, ou achar que a criança recebe mais atenção do parceiro, ou então achar que o nascimento do filho arruinou todas as possibilidades de ter uma vida".
"Qual foi o motivo da Shelby?".
"Nenhum desses, eu acho", ele balançou a cabeça. "Shelby tinha o desejo de entrar no ramo artístico, mas suas chances pareciam sempre serem nulas. A princípio, achei que sua depressão fosse considerada normal para alguém que tinha sofrido a infelicidade de um casamento passageiro e depois a decepção de não carregar um filho no ventre do homem que ainda amava, apesar de todas as circunstâncias. Nos primeiros dias, não consegui ver nenhuma diferença; Shelby amava Rachel tanto quanto nós. Mas então os sinais foram aparecendo a partir do primeiro mês. Ela tinha aceitado a nossa oferta de ficar em nossa casa nos primeiros meses, e eu tinha começado a notar que Shelby rejeitava o laço mais maternal de todos, o de amamentar a filha. Tão logo Rachel abandonou a prática de se alimentar de forma natural, e passou a usar a mamadeira, juntamente com leite industrializado. Não que isso tivesse afetado a forma como ela se desenvolveu, mas eu sabia que isso afetaria a forma como ela se relacionaria com a mãe".
"Mas e aqui? Rachel parecia um pouco grandinha", apontei para a fotografia que exibia a árvore de Natal. "Foi a nossa última noite juntos como uma família. Shelby partiu logo de manhã. Não se despediu, apenas deixou uma carta", ele me respondeu. E então puxou uma folha de papel que eu não tinha visto de dentro da caixa. Ele a passou para mim; eu a desdobrei e titubeei. Ele fez um gesto me instigando a ler as poucas palavras escritas. Abaixei os olhos para elas.
"Queridos Hiram e Leroy,
Não posso mais continuar a fingir que sei o que estou fazendo. Acho que nunca soube. Vocês podem dar um futuro melhor à Rachel. Aproveitem essa criança como eu nunca terei a oportunidade.
Feliz Natal,
Shelby."
"Isso... Pareceu grosseiro", falei. "É a situação mais assustadora que tenho na lembrança. Essa carta. Ela destruiu minha família de variados modos", ele me disse. "Rachel, no entanto nunca olhou para trás. Sei que sente falta de uma figura materna, é uma parte dela que nunca teremos condições de suprir".
Acenei com a cabeça como forma de entendimento.
"Mas ela já me disse que tem contato com a mãe. São raras as vezes, mas sei que tem", comentei. Aquilo estava começando a parecer um pouco confuso. Se Rachel nunca olhara para trás, como tinha uma relação instável, agora, com Shelby? "Ironia do destino", Hiram disse com amargura. "Shelby foi a primeira professora de canto dela, aos nove anos. Quando a vi pela primeira vez, depois de tantos anos, tive a certeza de que estava na frente da mesma mulher que tinha abandonado a filha no dia do Natal".
Terrível. Era uma verdade terrível. E doída.
"Diria que foi uma infeliz coincidência", eu disse. "É. Rachel ainda tem aulas com ela, mas se tratam como professora e aluna. De vez em quando, é verdade, Shelby chega a jantar conosco, mas nunca passou desse tipo de laço", Hiram respondeu.
Ficamos, nós dois, observando as fotografias que ainda estávamos na minha mão.
Era uma história triste. Bem mais triste que a minha.
Meu pai nunca tinha me rejeitado, nem me abandonado no Natal. Apesar das ausências, ele estava ali para mim nas datas comemorativas. Gostava de vê-lo retornar, de abraçá-lo como se nunca tivesse me deixado. Rachel, entretanto, nunca tivera essa oportunidade, porque Shelby nunca voltara para a filha como antes.
Hiram, sem proferir nada, pegou de volta as fotos, depositou-as na caixa, devolvendo o objeto à gaveta. "Rachel me contou sobre seu pai", Hiram virou-se para mim e disse. "Sinto muito. Meu pai era militar também, embora tenha conseguido licença para sair da corporação, após uma fratura que nunca mais o capacitou a andar como antigamente".
"Deve ser difícil", respondi.
"Não tanto quanto parece".
Ficamos em silêncio. "Espero que goste de salsichas", ele me disse. "Gosto sim, senhor".
"Pelo amor de Deus, se quer continuar a ser namorado da minha filha nunca mais pronuncie essa palavra. Vou fingir que não a ouvi, ok?", Hiram mostrou-se bem humorado, dando-me um tapinha no meu joelho, para depois se levantar do sofá e seguir até a cozinha.
Não respondi nada. Fiquei sozinho, por quase um minuto inteiro naquela sala, com as fotografias de Rachel, Hiram e Leroy em diversas paisagem e poses.
Quando os três saíram do recinto, cada um trazendo um prato diferente, eu me levantei para auxiliá-los. Rachel me passou uma travessa do que parecia ser couve refogada com tomates e alho, para depois ir buscar outra comida. Não disse nada. Não poderia dizer. Eu sentia meu peito se alargar e ser preenchido por um sentimento quente e grudento. Quando nos acomodamos, Rachel ao meu lado, notei o que sentia. Gratidão e admiração. Eu estava inundado de amor por Rachel. E acho que aquilo nunca mais seria capaz de se desgarrar comigo.
Sorri para ela, e Rachel me olhou diferente. Havia curiosidade nela. Segurei sua mão e a afaguei por baixo da mesa. Ela apertou a minha e perguntou, aos sussurros: "O que aconteceu?".
Não resisti a tentação de lhe dizer: "Aconteceu que estou apaixonado por você, talvez para sempre".
Oláááá, queridos amigos leitores! Finalmente eu apareci, né? Como estou na casa da minha avó, a inspiração aqui é quase nula, porque mal dá pra escrever com as minhas priminhas enlouquecidas ao meu redor ~nem sei como acabei esse capítulo agora, sinceramente! Mas ThayMichele, espero ter te feito feliz com essa atualização, sweetie! :D
Happy New Year, queridos!
Love, Nina.
