Parte I - Love, Love, Love (As Tall As Lions)

"Espera. O que você acabou de dizer?", Mercedes perguntou.

Dei de ombros. Meu estômago gelou. Claro que aquela reação era prevista, mas não estava no clima de repetir o que dissera. Seria pior, muito pior. Kurt, por outro lado, estava calado, mas me olhando como um gato observa um canário em sua gaiola. "Não é como se não soubessem, é?", perguntei. Mercedes não respondeu de imediato; diminuiu o volume da TV, que estava sintonizada na reprise do The Voice. "Sua zebra interior nunca me enganou", foi o que Kurt, finalmente, disse. Eu me permiti rir um pouco. "Eu sabia, eu simplesmente sabia!", Mercedes quase gritou. "Também, só faltou que você o beijasse de um modo completamente indecente ontem, depois do Glee. E não é como se não pudéssemos ver os sorrisos dele. Fala sério, vocês estão felizes, não estão?", ela quis saber.

"Não parece?", sorri. "Garota, eu sempre soube que tinha uma gata selvagem dentro de você", ela me disse. "Mercedes!", exclamei, meio envergonhada. "Não é nada disso!", podia sentir minhas bochechas ficarem quentes. "Quanto tempo faz?", Kurt exigiu saber.

"Seis semanas", respondi.

"Sua mentirosa. Não acredito que não contou para nós", Kurt me jogou uma almofada. "Eu não sabia se queria contar. Sabe quando alguma coisa boa acontece e que, se você dividir com alguém, essa coisa estraga?", perguntei. "Nós não iríamos estragar nada!", Mercedes refutou. "Claro que sei disso, mas é que...", dei de ombros. "Não sabia como a escola poderia reagir. Quer dizer, eu tinha perfeita ciência do que aconteceria, e estava evitando isso", expliquei melhor.

"A cara da Queen Bee ficou linda quando o Finn te beijou, depois do ensaio", Mercedes fofocou. "Imagino", eu disse.

Estava estranhando que Kurt não estivesse dizendo muita coisa. Achei que ele não calaria a boca.

O silêncio perdurou por alguns minutos, enquanto cada um de nós nos concentrávamos em nossos próprios pensamentos.

"Então?", Mercedes perguntou.

Pisquei. "Então o quê?".

Ela rolou os olhos. "Vocês parecem felizes demais", ela explanou. "Não era esse o esperado?", retorqui, surpresa. "Você sabe de que estou falando", ela estreitou os olhos. Mas eu não sabia. Não tinha nem uma pista.

"Não sei, não", respondi, parecendo uma criança birrenta. Na verdade, eu estava me sentindo muito atacada. Aquela curiosidade toda não estava me deixando à vontade.

Eles se entreolharam; eu não me importei.

"Kurt? O que há?", inquiri. Ele estar tão quieto era um pouco assustador. Ele e Finn não nutriam, exatamente, uma amizade recíproca, e eu sabia que palavras frias viriam dele, do mesmo modo como Finn me contestava o porquê Kurt era tão bisbilhoteiro a ponto de eu andar para todos os lugares com ele. "Nada", ele deu de ombros. "Você não gosta dele, eu sei. Mas dá pra ver o quanto estou feliz, certo? E isso, sem dúvida, é uma coisa ótima. Você deveria estar feliz por mim", falei. Não que eu temesse a rejeição do meu relacionamento com Finn – isso já era evidente; claro que Kurt era muito curioso, e me fazia perguntas sempre que possível, mesmo quando eu nem mesmo tinha assumido nem um sentimento pelo meu namorado, então ele já sabia o que estava desenrolando. Mas aquele silêncio... Esperava alguma coisa. "Ninguém disse que não estou", ele me retrucou. "Sério? Porque essa sua cara de bunda assada me diz que você está prestes a cair no sono de tanto tédio e desgosto", não me importei por retorqui-lo com certa rudez.

"Estou nem aí para o que você fica fazendo quando não está comigo, entendeu? Se você acha que ele é algo bom para você, vá em frente. Mas depois não diga que não avisei", ele concluiu. "Avisou-me sobre o quê?", esquadrinhei os olhos, meus lábios crispados. "Que ele é um perdedor, e que você merece alguém melhor".

Finn um perdedor.

Finn um perdedor?

Fiquei em silêncio por uns vinte segundos, apenas tentando assimilar essa sentença. Franzi a testa.

Caramba, qual era o problema do meu melhor amigo?

Eu não saía por aí tentando controlar a vida amorosa dele! Quer dizer, se ele tivesse uma... Até agora, nada tinha acontecido. Kurt estava sempre apenas comigo, com mais ninguém. Por vezes, pensava que ele era uma sombra minha, um cachorrinho aguardando que eu lhe desse as sobras da minha comida. Talvez ele pudesse arranjar uma vida para si próprio. Quem sabe eu devesse arrumar alguém para ele! É isso! Mas quem?! Ele não parecia nada interessado na maior parte das meninas (talvez porque, ou elas eram muito más com ele, ou porque tinham um problema sério com a moda). E, se 70% da população do McKinley estava certa, e ele gostava de meninos, eu não saberia dizer quais meninos chamavam a sua atenção. Era tão difícil! Se três quartos dos garotos da escola eram uns trogloditas (e isso, certamente, não chamava a atenção de Kurt nem por um segundo), o restante, ou era a) desleixado demais, ou b) desatento demais (e, certamente, o desleixo era algo abominável enquanto a desatenção não era nem um pouco atrativa. Eu acho. Talvez fosse, e Kurt estivesse apaixonado por alguém desatento, mas eu, igualmente desatenta – por conta do meu namoro – não tivesse percebido nada, fazendo com que a minha chance de me ver livre de Kurt estivesse muito longe.

"Você não o conhece", refutei com raiva.

"Acho que o conheço o suficiente. Tanto, que você não entenderia", ele me disse com o mesmo tom acalorado. "O QUE VOCÊ QUER DIZER COM...?", comecei a berrar, mas Mercedes interveio, exclamando: "HEY, HEY. Vamos nos acalmar, por favor?!". Ela nos lançou um olhar duro, que apenas ela era capaz de lançar. Calei a boca, mas meus olhos dispararam para o rosto de Kurt com a máxima frieza, com meu rosto lívido de raiva. Ele me retribuiu da mesma forma, mas sua expressão era de tédio. "Você tem os seus motivos, Kurt, e ninguém", Mercedes me olhou com os olhos esquadrinhados; eu a ignorei, "Vai contestá-lo. No entanto, acho que é melhor você aprender a controlar o que você fala. Garoto, você está muito esquisito, entendeu? E já faz tempo. O que há?", ela o contestou.

Kurt, acho que numa atitude de pânico por saber que eu e Mercedes estávamos atentas a ele, jogou as mãos para o alto, como se estivesse desistindo de tudo. "Não se metam!", ele meramente mandou. E isso foi muito chocante, porque, geralmente, Kurt era muito delicado com todo mundo. Ele tinha aprendido a ser sarcástica para se proteger da escola, mas com seu círculo social era muito tranquilo e amável. Por isso, sua resposta era praticamente uma afronta a nós. Nós – que éramos suas duas melhores amigas! "Oh, então quer dizer que você pode se meter na minha vida, e nós não podemos nem mesmo lhe fazer uma pergunta? Muito amigo da sua parte!", fiz questão de exclamar, para que ele soubesse que estava agindo de forma completamente ridícula. "Nem tudo tem a ver com você, entendeu, Rachel?", ele me disse. "Como se eu sonhasse isso o tempo todo!", devolvi. "Você está, claramente, com um problema! Nem tente desmentir!", Mercedes disse.

"Já disse: não se metam", Kurt tornou a avisar.

Calamo-nos. Afinal, se ele não queria ajuda, não seria eu que ofereceria.


Finn e eu nos esgueirávamos de Kurt e Quinn, após o último ensaio. Era meio chato ter de ficar fugindo de todos, porque eu queria que todos aceitassem o que eu dividia com Finn; no entanto, pensava que era melhor assim, afinal de contas. Apesar de algumas perguntas curiosas, muitos nos deixavam em paz – apenas se contentando em nos observar de longe, para depois cochichar com os outros.

"Tenho uma surpresa", ele sussurrou no meu ouvido. Estávamos saindo do auditório, enquanto as luzes começavam a serem apagadas. "Vou gostar?", perguntei. Ele riu. "Tem alguma coisa que você não goste?", ele devolveu. "Ets. Não gosto de ets", respondi, apenas para vê-lo rir mais uma vez. "Nada de ets nessa surpresa, prometo", ele me disse, sorrindo. "O que é?".

"Encontro você na biblioteca, depois do treino, ok?".

"Daqui a quase duas horas! Não vou conseguir estudar se estiver pensando no que você preparou para mim!", exclamei, meio indignada. Eu odiava esperar. E Finn adorava me fazer esperar, adorava me ver na expectativa. "Não preparei nada. Não é nada assim. Mas você vai entender depois, tudo bem?".

Não, claro que não estava tudo bem. Qual era o problema dele?

"Mas...", tentei reverter o jogo. "Depois", ele disse e aí me beijou. Eu sorri, porque agora que já estava habituada a esses gestos públicos, era improvável que eu não aprovasse esses momentos.

Ele se foi, deixando-me quase que sozinha no corredor. Não que eu me importava. Não, até que vi quem estava presente.

Ela estreitou os olhos para mim.

"Só para saber, você continua uma criança. E cara nenhum gosta de meninas assim. Ele vai perceber que você não pode dar a ele tudo que quer", Quinn me disse. Ela estava escorada na parede, com a expressão tão neutra que quase me perguntei se ela estava sentindo alguma coisa. Então, ela crispou os lábios, e eu soube que ela estava furiosa. "Não lembro de estar falando com você", foi a única coisa que me atrevi a retrucar. "Nem sempre você vai ganhar tudo, Rachel".

Não me permiti ficar com raiva, ou incomodada. Era apenas a Quinn. A Abelha Rainha que se achava no direito de diminuir todo mundo, inclusive a sua antiga melhor amiga. Tanto fazia. Ela era tão passado para mim quanto aquela minha loucura pré-adolescente que investia em Finn como uma psicopata.

"Poderia fazer o favor de sair da minha frente?", perguntei.

Isso surtiu um efeito contrário nela: Quinn desanuviou o semblante na mesma hora. "Sabe, Quinn", comecei, embora eu soubesse que não tinha muito o que dizer. Por incrível que pareça, Quinn não abriu a boca para me interromper. "Eu parei de ouvi-la há mais tempo do que posso recordar. Parei, também, de viver através de você. Talvez você devesse fazer a mesma coisa: seguir em frente".

Antes que ela pudesse retrucar, passei por ela. Não que estivesse ostentando orgulho – uma coisa é você ter orgulho de si mesma, mas orgulho de passar por cima de alguém que já foi sua amiga? Não parece uma coisa certa a se fazer. Porque, muitas das minhas melhores lembranças, Quinn estava comigo, seja brincando de Broadway, ou apenas penteando nossos cabelos. Era triste ter de agir daquele modo. Eu costumava gostar tanto de Quinn. Admirava-a tanto quanto possível. Mas agora... Ah, agora estava tão diferente!

Mas não importava. Eu não deixaria que Quinn arruinasse todos os meus planos para aquele dia. Muito menos deixaria que ela acabasse com o meu bom humor.

As duas horas longe de Finn, para a minha surpresa, passaram muito rápidas – talvez porque eu realmente mergulhei nos deveres de casa. Mercedes e Kurt tinham me acompanhado até ali, para que eu explicasse a eles o Teorema de Euler. Kurt, agora, já estava bem melhor: nada de patadas em mim – mas tampouco estava falando muito comigo. Parecia que ele também estava se afastando como certa vez tinha acusado Quinn de fazer. Mas com Finn por perto, eu quase não tinha medo de perder Kurt também. Com Finn ao meu lado, eu não tinha medo de nada.

Rapidamente, assim que Finn chegou, Kurt se dispersou sem nem mesmo atirar um oi a ele, ou um tchau para mim. "Garota, alguém tem um segredo, e aposto que não é sobre ele ser um bruxo famoso", Mercedes olhou para Kurt e depois para mim; parecia surpresa. Dei de ombros. "Não acho que posso fazer muita coisa", respondi. "Problemas?", Finn quis se reiterar. "Nada a ver com você", Mercedes disse, com um pouco de rudez. Ela se foi também. "Problemas?", ele repetiu, agora diretamente para mim. "Ah. Só o Kurt", repeti o gesto de dar de ombros. Na verdade, naquela hora Kurt não tinha importância alguma. Ele me olhou com expectativa, tentando arrancar mais palavras de mim. "Não é nada. Não importa agora. O que importa é a sua surpresa. Vamos para o auditório?", perguntei. Para minha surpresa (parecia que aquela estava sendo uma tarde de surpresas para mim), Finn balançou a cabeça em negativa. "Não precisamos. Não é um piquenique. Fiz você esperar, porque ainda não tinha a surpresa nas mãos", ele me falou.

Nas mãos. Olhei para as mãos dele. Não havia nada. Estavam vazias. Mas então ele retirou a mochila das costas, abriu o zíper principal e tirou de lá um de seus cadernos, abrindo-o. Olhei o caderno, curiosa. Ah, meu Deus! Ele tinha escrito uma carta para mim? Uma carta de amor? Era isso a sua surpresa, afinal? Comecei a sorrir. "Finn, não precisava escrever nada...", comecei, adiantada. Ele levantou a cabeça na mesma hora. "O quê? Eu não escrevi nada mesmo", ele confessou. Meu estômago deu um solavanco, ou talvez tivesse sido um looping. Meu sorriso morreu. "Quê?", indaguei. "Não sei o que está esperando, mas certamente será mesmo uma surpresa", Finn constatou, parecendo surpresa. Ele voltou a abrir o caderno. Havia dois papéis lá dentro de outra textura. Demorei um pouco para entender. Somente quando ele os brandiu em minha direção é que notei que segurava dois ingressos. Para...

Para quê?

Será que o Circo de Soleil estava na cidade? Não era possível. Lima era tão pequena quanto uma mancha imperceptível nos tênis dos jogadores de futebol.

"Journey. São ingressos para assistir a um show deles".

Fiquei boquiaberta. Aquilo era real? Onde Finn tinha conseguido aquilo?!

"Mas... Por que eles viriam para Lima?", perguntei, mostrando-me confusa e surpresa ao mesmo tempo. "Não, eles de fato não vêm para cá. Estarão em Toledo no sábado à noite, não aqui", Finn me explicou.

Isso era ainda mais confuso e surpreendente.

Toledo.

Outra cidade.

Finn tinha conseguido ingressos de um show em outra cidade. Aquilo parecia insano.

"Você sabe, Toledo não é longe", Finn se apressou a dizer, notando que eu tinha ficado repentinamente calada. "Não, não é", respondi. "Mas então...", desviei meus olhos dos tickets e o encarei. "Você consegui ingresso para todo mundo? Uau! Isso é realmente muito...".

Não consegui terminar minha frase, porque Finn, com um semblante atrapalhado, me interpelou: "Quem é todo mundo?".

Ele estava brincando?

"Hmm, não sei. Nossos amigos. O Glee. Não a Quinn, é claro", respondi. Seus olhos, que antes estavam franzidos pela confusão, voltaram ao normal e agora expressavam entendimento. "Não, é claro que não. Não poderia pagar o ingresso de todo mundo", ele me disse.

"Então..."

"Então, comprei um para mim e outro para você. É o que você tem em mãos, dois ingressos", ele me respondeu. Parecia errado. Parecia uma cena daqueles filmes nos quais os telespectadores preveem algo muito ruim para acontecer no mar de rosas dos protagonistas. Vi-me prevendo algo de esquisito. "Vamos nós dois? Eu e você, sozinhos? Você sabe que meus pais nunc...", já comecei protestando, porque eu era muito racional, mesmo quando meu coração deveria estar falando por mim. Quer dizer, qualquer outra menina no meu lugar teria gostado da ideia de estar a sós com o namorado durante uma noite inteira. Talvez durante um fim de semana inteiro. É o que as meninas apaixonadas fazem: elas anseiam por isso. Não que eu não gostasse de ficar sozinha com Finn – gostava, e muito; mas a ponto de viajar para outra cidade, sem ninguém conhecido por perto? Não sabia. Achava que não. Aquilo parecia uma péssima ideia.

"Não. Minha mãe vai nos acompanhar. Eu sei que seus pais nunca nos deixariam sair da cidade, desacompanhados", Finn me garantiu. Era bom ele saber. Hiram e Leroy nem nos deixavam sozinhos no meu quarto, que diria em outra cidade. Assenti. "Você acha que pode convencê-los?", ele quis saber.

Meus pais. Finn queria saber se eu poderia convencer meus pais e me deixar viajar com meu primeiro namorado de sete semanas e com a mãe dele para fora da cidade.

Bem, eu diria que Finn poderia começar a aperfeiçoar melhor seus passos na dança, porque meus pais nunca me dariam a permissão para passar meu fim de semana longe deles.

Mas ao invés disso, o que lhe respondi foi: "Acho que sim".

É, eu não tinha muita certeza se poderia fazer o trabalho sujo. E especialmente se queria realmente passar o meu fim de semana com meu namorado e com sua mãe.

Aquilo parecia meio assustador para uma apaixonada de primeira viagem.


Naquela mesma noite, durante o jantar, tentei encontrar uma brecha na conversa de Hiram e Leroy sobre os novos papéis de parede da cozinha. Parecia que estavam havendo divergências.

"O Finn me convidou para irmos a um show" falei num só fôlego. Não era tão ruim. Ruim seria explicar que o show era em outra cidade. "Você precisa reembolsá-lo", Hiram disse. E então recomeçou a dizer sobre o tom esverdeado que tinha escolhido para a parede. "Já fiz isso", respondi. Mas antes que eu reunisse mais coragem para lhe dizer o essencial, ele balançou a cabeça e disse: "Querida, será que podemos conversar sobre isso mais tarde? Talvez quando você estiver se preparando para ir dormir?". Dava para perceber a sua ruga na testa que indicava que seu humor não estava nada bom. "Mas, pai, eu ainda não acabei de falar", protestei. Leroy fez um gesto impaciente com uma das mãos, me dizendo para continuar de uma vez. Eu sabia que estava interrompendo uma discussão deles, mas não havia outro modo de abordar o assunto. E agora que eu já tinha começo, parecia justo terminar. "O show não será aqui em Lima, será em Toledo. Mas não se preocupem, a Carole vai nos acompanhar", acrescentei rapidamente, antes que eles começassem a gritar. Houve uma espécie de silêncio interminável. Então Leroy começou a rir. "Nem pensar. Agora, é melhor você começar a lavar a louça para não atrasar os deveres", ele avisou.

"Já os terminei na biblioteca, enquanto Finn estava no treino. Por que não posso ir?", agora que ele tinha vetado a possibilidade, eu estava criando expectativas para a viagem. Se ele estava me impedindo de ir, eu estava começando a querer ir. "Porque estou dizendo, Rachel. Você é muito nova para sair por aí com um garoto que acabou de conhecer", Leroy disse. "Conheço o Finn há dez anos, papai. Tudo bem que antes nós não nos gostávamos muito, mas desde aquele tempo eu venho descobrindo muita coisa a respeito dele".

"Estou te impedindo de fazer besteiras, ok? Não conteste isso".

E então o assunto morreu, porque eu estava com muita raiva para continuar ali. Sem nem mesmo recolher os pratos, subi as escadas e fui para meu quarto.

Aquilo parecia injusto demais.

Conversei com Mercedes sobre esse problema pelo Facebook, mas ela disse que não poderia me ajudar muito – meus pais estavam certos, estavam me protegendo. De que eu não sabia muito bem. Finn também veio falar comigo, mas eu menti para ele, dizendo que não tinha tido tempo de conversar com nenhum dos meus pais. Estava me preparando para dormir, depois do meu ritual de beleza (que não parecia revelar nenhum tipo de beleza, diga-se de passagem), com a intenção de ir me deitar mais cedo quando ouvi alguém batendo na porta. Como sempre, ela estava aberta, e eu pude ver Leroy parado ali. "Oi, querida. Ainda são nove e vinte. Não tem nenhum vídeo para postar?", ele quis saber. Estava querendo saber se era seguro conversar comigo, estava pisando no terreno antes de caminhar por sobre ele. Leroy era bem mais cuidadoso que Hiram nesse sentido. "Não tive vontade de gravar nada", respondi. "Sei que está chateada, e não a culpo por isso. Sei que eu e seu pai estamos um pouco...", ele parou e tentou procurar a palavra adequada. "Explosivos?", sugeri. "É, acho que um pouco. Bem, redecorar sempre foi um saco para mim. Não sei por que Hiram precisa tanto repaginar a casa todos os anos. Ela não está ótima assim?", ele quis saber. "Não sei. Acho que sim", respondi. Ele me ofereceu um sorriso fraco. Nossa, meu pai parecia acabado. Eu os tinha ouvido gritar um pouco lá embaixo, então eu sabia o quanto os dois estavam esgotados. Meus pais odiavam brigar, mas quando o faziam tinham uma energia infindável para tal feito.

Ele entrou em definitivo no meu quarto e se acomodou na minha cama, fazendo carinho na cabeça ruiva de Peter, que estava roncando no meu travesseiro. Peter agora, se assemelhava ao Garfield de tão gordo e preguiçoso. Mas ainda era um ótimo gato, caçava todos os ratos intrusos que apareciam, e ainda era uma ótima companhia. "Por que não posso viajar para Toledo?".

"Não me parece a melhor ideia. Eu e seu pai estamos enfrentando um período conturbado e...".

"Não tem nada a ver com vocês, eu sei disso. Isso é apenas uma desculpa", afirmei com segurança. Não me importava de parecer desafiadora – eu sempre era.

"Seu pai também compartilha da mesma sentença. Nós já tivemos a idade de vocês e conhecemos os garotos muito melhor que você", Leroy disse. Ele estava usando seu tom calmo e conciliador. "Mas, pai. A mãe do Finn vai estar conosco o tempo inteiro. Bem, menos na hora do show, provavelmente. Mas mesmo assim, é bastante tempo!", exclamei. Não estava conseguindo evitar aquele meu lado insistente. Leroy meio que bufou como o Peter em seus anos de glória. "Rachel, não tente me ensinar a cuidar de você".

Hum.

Então eles estavam cuidando de mim. Protegendo-me de algo que, para falar a verdade, eu tinha certa ciência. E aquilo era meio desconfortável. Ignorando o meu rosto vermelho devido à vergonha que começava a sentir, porque a minha raiva, agora, era maior do que meu pai achar que eu iria transar com o meu namorado na primeira oportunidade eu exclamei: "Não vai acontecer NADA!". Ele, no entanto, sacudiu a cabeça como se ela estivesse cheia de neve. "Você acha que não vai acontecer nada. Mas esses garotos de hoje em dia...", ele deixou a frase no ar. Fiquei com mais raiva ainda. Eu conhecia o garoto com quem estava! E eles também o conheciam um pouco! Será que não imaginavam que Finn nunca me pediria para fazer algo que me fizesse ficar desconfortável? Porque Finn não era daquele jeito – ele não era como aqueles garotos que anseiam mais que tudo na vida levar uma garota para cama na primeira oportunidade. Caso contrário, não estava dividindo sete semanas ao meu lado, suportando os meus beijos inexperientes – que, verdade seja dita, eu estava ficando melhor naquilo – e todos os meus ataques de estrelismo dentro do Glee.

"Finn teria me dito se quisesse que alguma coisa acontecesse. Ele sempre me diz tudo", garanti. Leroy soltou uma risadinha esquisita. "Parece que não dessa vez. E quando você perceber, vai voltar dizendo: 'de alguma forma que não tenho ideia estávamos na cama e... aconteceu'. Vou te poupar disso, querida. Vai me agradecer", Leroy me garantiu também. Ah, que ótimo! Meu pai achava que era queria ir para cama na primeira oportunidade! Isso não era muito legal da parte dele. "Não queremos ir para ficar longe da supervisão de vocês! Queremos ir por causa da música! Entendeu? É isso que a gente faz no Glee, dá valor à música. Se não fosse por ela, muito provavelmente, nem estaríamos juntos. Foi ela quem nos uniu!". Eu estava com tanta raiva!

"Mais um motivo para eu não gostar disso!", ele exclamou. Logo em seguida, reparou na minha expressão de puro espanto e retaliou rapidamente: "Adoro o Finn, acho que ele te faz mesmo muito mais feliz. Mas vocês sozinhos em outra cidade? Não mesmo!".

"A Carole vai estar lá, eu já disse!", minha vontade foi de berrar, mas apenas elevei um pouco a voz.

"Rachel, por favor. Não insista. A nossa resposta é não".

Pressionei os lábios, segurando as lágrimas de raiva.

Era isso então. Nada de viagem. Nada de ouvir o Journey ao vivo.

Finn teria de se contentar com o meu esforço.

Mas eu poderia aplicar um Plano B. Por que não?

Esperei que Leroy estivesse muito longe do meu quarto para ligar para Kurt.

"Não vou confessar nada a você. Pode até mesmo ficar cantando Happy Days Are Here Again mais de um milhão de vezes. Não vai funcionar", Kurt me atendeu me dizendo isso num tom muito severo. "Meu Deus. Desde quando você diz coisas assim?", refutei. "Tanto faz. Não é isso? Então o que é? Diga logo, porque estou no meio de... Bem, de uma coisa", Kurt me disse. Ele parecia a Kim Possible em apuros, isso sim. "E essa sua coisa pode esperar um pouquinho?", não resisti à tentação de alfinetá-lo. "Se você conseguir desligar em menos de dois minutos, acho que sim. Então anda logo", ele respondeu. Uau, grosseria. Nunca imaginei isso vindo dele.

Relatei sobre a viagem com Finn. Eu sabia que Kurt não queria nem mesmo ouvir falar no meu namorado, mas eu precisava de sua ajuda – Kurt era ótimo em arquitetar planos praticamente infalíveis. Eu me sentia a espiã mais bem treinada do mundo com seus planos. "Você tem que me ajudar a convencê-los", pedi. "Por quê? Isso não tem nada a ver comigo", Kurt me respondeu. Argh. Odiava quando ele agia como se eu vivesse numa bolha, no meu próprio mundo, e tivesse de lidar com os meus problemas completamente sozinha. Fazia já algum tempo que eu sentia falta do companheirismo dele. "Por favor", implorei. Não tinha muitas armas, só algumas lágrimas, talvez. Ele queria que eu chorasse no telefone para lhe provar o quanto estava desesperada? Pois então ele as teria, se fosse preciso! Kurt hesitou por alguns segundos.

"Kurt?", chamei. Achei que ele estivesse cuidando da sua 'coisa' e me deixara sozinha na ligação. "Ok, você venceu", sua voz saiu entediada. Mas eu sabia que teria uma chance. Uma grande chance. "Ah, muito, muito obrigada, Kurt! Pode deixar que vou tentar fazer com que o Sr. Schue lhe dê um solo! Talvez Lady Gaga, o que acha? Ou Britney?", comecei a falar rápido, toda empolgada, sem mal estar pensando com clareza. O que recebi foi o silêncio. Estranhei. "Kurt?", falei. No segundo depois, sua voz parecia ansiosa e tão rápida quanto raios numa tempestade: "Rachel. Me escuta. Meu pai encontrou alguém". Levei uns cinco segundos para processar a informação. "Alguém tipo... Uma madrasta para você?", quis a confirmação. "Exatamente", ele sanou minha dúvida. "É mesmo? E quem...", nem tive a oportunidade de terminar a minha frase, pois ele já estava dizendo: "A Carole. A mãe do Finn".

E foi assim que me ouvi berrar essas exatas palavras: "O QUÊ?".


Parte II - Come a Little Closer (Cage the Elephant)

É claro que eu ligava para a Rachel antes de dormir. Não era por obrigação, eu gostava de dar a ela essa atenção. Eu sabia que isso me fazia bem, do mesmo modo como fazia bem a ela. Não que conversássemos muito – não mais que o necessário; apenas repassávamos alguns episódios do dia, combinávamos se irmos juntos ou não à escola no dia seguinte, coisas assim. Então, pela manhã Rachel me ligava para confirmar a carona, ou para me desejar boa sorte em alguma prova, se soubesse que não nos veríamos antes do almoço. Então, de maneira geral, nossas ligações me deixavam feliz.

Por isso, quando ela me ligou, quase às dez da noite, com uma voz elétrica e ansiosa, meio que percebi que alguma coisa estava errada. Claro que Rachel era um pouco elétrica e ansiosa – para não falar dramática –, mas àquela hora seu tom estava acentuado. Começou a falar de um modo que mal entendi o que dissera, portanto tive de pedir para que diminuísse a velocidade. Ela ficou em silêncio por uns dez segundos, respirando pesadamente do outro lado. "Está melhor?", perguntei.

"Finn! Você não vai acreditar!", percebi que foram estas mesmas palavras que tinha usado antes, mas agora sua voz estava mais contida. Talvez eu não acreditasse mesmo. Mas esperei que ela dissesse mais alguma coisa. Claro que Rachel não estava esperando nenhuma resposta minha e prosseguiu: "A sua mãe, Finn! Você não vai acreditar!".

A minha mãe. O que tinha a minha mãe? Será que ela tinha conversado com a Rachel e declinado a oferta de nos acompanhar na viagem à Toledo? Mas minha mãe gostava tanto da Rachel... Bem, claro que, de início, ela não tinha concordado com aquilo, dissera que os pais de Rachel seriam inflexíveis. Claro que, mais uma vez, minha mãe estava certa. Eu bem sabia que convencer Hiram e Leroy seria muito complicado, mas Rachel era ótima em descomplicar as coisas; talvez conseguisse convencê-los.

"O quê...", a pergunta ficou trancada na minha garganta. Rachel mal me ouviu. "Ela está saindo com o Burt! Você sabia disso? Isso não é uma loucura? Quer dizer, o Burt, depois que a esposa morreu, mal saía de casa. E o Kurt sempre me disse o Burt nunca seria capaz de encontrar alguém para substituir a antiga mulher!".

Antiga mulher? Que antiga mulher? E quem era Burt?

Mas espere aí. O quê? Kurt? O que o Kurt tinha a ver com tudo aquilo?

"Rach, de que está falando? Não estou enten...", mais uma vez ela me cortou. Isso era um pouco irritante nela, porque ela tinha uma tendência de fazer isso de forma compulsiva e dava para perceber que não se arrependia nem um pouco. Mas pelo fato de que saber que estava nervosa, deixei passar. "A sua mãe está saindo com o Burt. O pai do Kurt. Entendeu?", ela explicou com impaciência. Isso foi o suficiente para que eu abrisse a minha boca e quase desligasse o telefone.

"Isso parece improvável", eu disse. Minha mãe ainda se sentava todas as tardes na poltrona que era do meu pai, e olhava para o potinho com os restos mortais dele. Então, nada daquilo fazia sentido. E mais: tinha certeza de que ela conversaria sobre algo assim comigo, sobre tentar viver um pouco mais da vida. Ela tinha se fechado depois da morte de meu pai e, por vezes, ficava um pouco triste por estar só, sem um companheiro. Por um lado, queria que estivesse só – afinal, meu pai tinha sido único para ela; mas por outro lado, era bom saber que ela não pretendia permanecer chorando todas as noites, mesmo depois de seis anos.

"Kurt acabou de me contar", Rachel me confirmou.

"Eu... Eu tenho que ir. A gente se fala amanhã".

"Você está com raiva? Quer dizer, é claro que você está com raiva. Mas, sabe, o Burt é um ótimo cara, ele criou o Kurt quase que totalmente sozinho...".

"Tanto faz. Eu realmente preciso conversar com a minha mãe", eu falei. "Você acha que isso vai estragar os nossos planos?", ela me inquiriu. Franzi a testa, olhando para a parede do meu quarto. "Que planos?", eu quis saber. Ela soltou um muxoxo de impaciência e exclamou: "A nossa viagem à Toledo!".

Ah. Isso.

Acho que... Bem, dadas as novas circunstâncias, a viagem à Toledo parecia o menor dos meus problemas.

"A gente fala sobre isso depois, ok? Preciso...", minha frase ficou no ar, mais uma vez. Rachel retornou a perguntar: "Mas você acha que isso vai estragar a nossa viagem?". Eu não sabia o que ela esperava que eu dissesse. Por isso, disse a primeira coisa que veio à minha cabeça: "Não sei, Rachel. Eu realmente não sei. Agora preciso desligar".

"Entendi. Boa noite. E, sério, não fique com raiva. Eu te contei, porque achei que você deveria saber. Quer dizer, não foi legal da parte deles não abrir o jogo com você e Kurt".

"É, é. Não foi mesmo. Agora boa noite. Amo você".

"Tudo bem. Amo você também. Ligue-me amanhã, certo?".

"Ok. Tchau".

"Tchau".


No final de contas, o recém descoberto romance de minha mãe e Burt não impediu que nossa viagem ocorresse. Três dias depois, Rachel, Kurt, eu e minha mãe e Burt estávamos dentro do carro que era de meu pai, um Galaxy realmente velho. Não, não sabia como Kurt tinha aterrissado ali. Rachel ainda não tinha me explicado, e a nova sentença de seus pais tinha chegado na última hora. Mas havia um agravante: Kurt. Não sabia que tipo de chantagem ele e Rachel usaram contra Hiram e Leroy, mas acabou que ele estava ali também. Para a minha infelicidade, é claro.

Mentira. Eu sabia que a carta que Kurt tinha jogado era que Rachel estaria muito bem supervisionada se ele e seu pai fossem conosco à Toledo. Kurt, inclusive, estava entre mim e Rachel. Burt, em contrapartida, estava lado a lado com minha mãe, nos bancos da frente, com um enorme mapa no colo daqueles que oferecem aos turistas. Eu estava de olho no aplicativo de mapas do meu celular, então disse: "Pegue a I-75. Devemos chegar em uma hora e quarenta minutos". Kurt, sem nem mesmo olhar para mim, apenas tentando achar um pouco mais de espaço naquele pedacinho entre mim e Rachel, refutou com um tom de voz dura: "O meu pai sabe ler o mapa". Quer dizer, é claro que sabia. Mas eu sabia que também estava certo. O aplicativo nunca erra. Erra? Tanto fazia, era tão mais fácil traçar a rota daquele modo, sem precisar de uma bússola ou dos olhos de Burt em cima do mapa de papel. "Eu também sei", meramente respondi. Rachel me lançou um olhar de repreensão do outro lado do banco. Não lhe dei atenção. Certamente, ela gostaria que eu e Kurt nos tornássemos melhores amigos. Bem, aquilo, claramente, não iria acontecer. Especialmente se eu tinha de brigar pelo espaço no banco dianteiro do carro do meu pai.

Ficamos em silêncio até minha mãe chegar à I-75, logo depois da Rodovia Findlay. Quando a estrada estava com um bom sinal radiofônico, ela sintonizou em uma estação country realmente péssima, mas ninguém disse nada. Burt, então, começou a contar sobre uma viagem a Toledo uma vez, quando Kurt ainda era apenas uma criança. Eu não prestei muita atenção, mas pelo que eu tinha entendido, a mãe já falecida de Kurt voltara querendo ser professora de ioga, porque conhecera uma mulher realmente extraordinária que lhe falara sobre os chacras e as serpentes enroladas em sua coluna. Dava para perceber que, se eu não estava querendo saber da vida de Kurt, ele estava querendo menos ainda. Por isso, quando não suportava mais a tagarelice do pai rolou os olhos e falou: "Pela Lady Gaga, pode parar de colocar a minha mãe no meio de tudo? Isso é um desrespeito a ela e à Carole". Minha mãe, entretanto, apenas disse: "Imagine, querido. Sua mãe parecia ser uma mulher realm...".

"Ela está morta. É isso", Kurt revidou na mesma hora, o que achei a maior falta de educação. Engraçado que a Rachel não lançou nem um tipo de olhar para ele, somente ficou observando a paisagem passar diante de seus olhos. "É, ela era mesmo muito incrível, mas agora não está mais aqui. Podemos parar de falar de viagens desastrosas e da minha infância esquisita? E meus ouvidos agradeceriam se mudássemos de estação".

Minha mãe não disse mais nada, e acatou o pedido dele. De repente, músicas disco preencheram o ambiente de uma forma também terrível.

A viagem foi tranquila. Tirando as vezes que precisamos parar em dois postos de gasolina para comprarmos batatitas e irmos ao banheiro, não paramos nenhuma vez. E toda vez que o sinal radiofônico estava muito ruim, Kurt sempre pedia para mudarem de estação, até que ele encontrou uma que tocava apenas pop e não reclamou mais das canções. Estava sendo realmente ruim aturá-lo tão perto de mim. E Rachel, nenhuma vez, se solidarizou comigo, ou com minha mãe. Ela apenas deixou que Kurt fosse tão intrometido quanto sempre fora. E minha mãe, coitada. Acho que para agradar o enteado, simplesmente dizia: "Claro, querido", e deixava tudo ao gosto de Kurt, como se a viagem fosse dele. Aquilo realmente estava me irritando. Honestamente.

Quando chegamos, já tinha escurecido há algumas horas, então apenas nos restava nos ajeitar no hotel, o Days Inn, que tinha uma diária muito acessível. Eu e minha mãe, ficaríamos em um quarto com duas camas de solteiro, enquanto Kurt e Burt ficariam em outro, e Rachel em um individual.

Ajudei Rachel com sua mala – eu realmente ainda não entendia o porquê dessa obsessão feminina por levar a casa na mala para uma viagem de dois dias – e, quando chegamos ao seu quarto, que era ao lado do meu e de minha mãe, no número 76, ela logo tratou de dizer: "Você poderia ter se esforçado, sabia?".

Mas eu não queria brigar, especialmente por causa de Kurt – que, diga-se de passagem, apenas estava ali para acabar com a minha paciência. Por isso, perguntei: "Não quer dar uma volta?". Do lobby eu tinha enxergado um pequeno jardim com bancos de concreto em forma de meia-lua, um pouco mais para o leste. E ali poderia ser o lugar perfeito para ficar um pouco sozinho com ela, sem que a sombra de Kurt nos perseguisse.

"Acho que sua mãe e o pai do Kurt estão combinando de descermos para jantarmos. Parece que o cardápio daqui é bastante regular", Rachel avisou. Meu ânimo, que já estava debilitado, apenas esmoreceu ainda mais. Se Burt e Kurt não tivesse se intrometido naquilo, talvez eu e ela tivéssemos um pouco mais de privacidade. Isso me lembrou que nenhum deles havia me explicado o dito Plano B que tinha feito com que Hiram e Leroy concordassem com aquela viagem. "Sério. Como é você convenceu os seus pais?", perguntei. Ela deu de ombros; estava sentada na ponta da cama, ligando a TV. "Kurt se dispôs a nos acompanhar, juntamente com Burt. Quer dizer, meus pais conhecem o Kurt e o pai dele há dez anos, então pareceu sensato a eles", Rachel explicou, observando os chuviscos na tela da TV. "E a missão dos dois é o quê? Estragar a nossa viagem?", inquiri com sarcasmo. Eu não estava nada satisfeito. Eu sabia que ambos estavam ali para evitar que 'alguma coisa' acontecesse entre mim e Rachel – foi o que ela tinha me dito, na noite anterior. Pelo jeito que falara não estava também muito feliz, no entanto, ali estava ela fingindo que estava bem com tudo aquilo. Com as intromissões e os desmandos de Kurt. Era inacreditável.

Rachel me lançou um olhar afiado. "Não sei por que está com tanta raiva. É por conta da sua mãe e do Burt?", ela me questionou. "Não. Pare com essa história", mandei. "Você sabe por quê. Kurt parece a sua sombra. Ele não tem vida, não?", quis saber. Rachel não respondeu de imediato. "Eu sei, ele está meio irritante", ela disse. "Meio?", respondi, irônico. Ela me olhou para se eu fosse um cachorrinho que estivesse se comportando muito mal. "Olha aqui, ele é o meu melhor amigo, tá legal? Você não pode bani-lo da minha vida apenas porque é meu namorado. Se gosta de mim tanto quanto diz, vai ter que aprender a conviver com ele, especialmente agora que ele é seu meio-irmão", Rachel me retrucou com certa impaciência. "Ele não e nada meu. Minha mãe não se casou com o pai dele!", exclamei, parecendo mais indignado do que realmente estava. "Mas ela pode vir a se casar, nunca pensou nisso? Pense bem, eles estão se encontrando há mais tempo que eu e você. Não acha que, daqui a um tempo, Burt não proporá a ela algo assim?", ela me perguntou. "Ele não pode! Eles mal se conhecem!", contrapus na mesma hora.

"Finn", Rachel balançou a cabeça. Seu tom estava conciliador, o que achei estranho. Ela se levantou da cama e se aproximou de mim. "Não aja como se não pudesse prever um pouco do futuro. Você sabe que as coisas podem mudar. Você não gostaria de ter uma figura paterna por perto? Burt é um ótimo pai, tenho certeza de que com um pouco mais de tempo você irá assimilar isso com mais facilidade. E não se esqueça", ela levantou o mindinho para perto do meu, e o enlaçou. "Eu estarei junto a você contra tudo que aparecer no nosso futuro", ela finalizou.

Aquilo meio que me acalmou. Podia sentir toda a minha tensão se dissipar.

Ela deitou a cabeça no meu peito, e ficamos meio que abraçados ali naquele lado do quarto. Não sei quanto tempo passou, mas de repente ouvi alguém tossir fraco perto de nós. Abri os olhos e encontrei Kurt no corredor, em frente à porta.

Refreei a tentação de lhe lançar um olhar feio. Eu realmente precisava trabalhar em cima da minha impaciência. Seriam dois dias juntos, eu precisava encontrar uma forma de suportá-lo, pelo menos para não brigar com Rachel.

Afastei-a levemente de mim, para que soubesse que tínhamos companhia. Ela olhou para Kurt como se não estivesse tão chateada assim e perguntou: "Vamos descer?". Kurt fez que sim. E depois me lançou um olhar ferino que tenho a certeza de que Rachel também viu, mas preferiu não comentar nada.

Afinal, descemos para jantar. A comida era boa, mas não prestei muita atenção a isso, já que Kurt parecia interessado por demais em mim e Rachel – não parava de nos olhar de soslaio e comentar sobre 'como eu deveria dar espaço a ele junto à Rachel, já que ele era o melhor amigo dela'.

Eu sempre abria espaço para ele, por mais que Kurt tivesse a mania de não conseguir não encostar em mim. Ele era tão irritante! Parecia que fazia de propósito! Pois bem, eu sabia que era tudo articulado. Ninguém fazia aquelas coisas 'sem querer'. Porque ele nunca parecia arrependido e nunca pedia desculpas. No fim, cada um foi para o seu respectivo quarto, e eu nem pude me despedir realmente de Rachel. Nada mais do que um selinho rápido, porque ele disse:

"Meu Deus, vocês estão sempre grudados. Não dá pra parar um pouco?".

E acho que a Rachel ficou sem graça por conta dessa observação dele, porque meramente me disse 'boa noite' e se enfiou em seu quarto individual. Eu e Kurt ficamos sozinhos no corredor. Olhei para ele como se pudesse fazê-lo sentir muita dor. "Vem cá, cara. Qual é o seu problema?", eu quis saber, num tom seco. Kurt me ofereceu um sorrisinho zombeteiro. "Quem parece ter algum problema aqui é você", ele me respondeu. "Ah, é mesmo? Então me explica por que você fica atrás de mim e da Rachel como se fosse não tivesse nada mais pra fazer? Tenho certeza de que poderia arrumar outro passatempo além de ficar bisbilhotando o que faço ou deixo de fazer com a Rachel", falei.

Apesar do meu tom nada agradável, Kurt nem por um segundo se intimidou.

"É esse o propósito, Finn. Você e Rachel não deveriam estar fazendo nada de mais", ele me disse. Fiquei um pouco chocado. O que eu e Rachel fazíamos, afinal? Nada além de dizer algumas palavras e trocar alguns beijos – que nem eram tão demorados tanto quanto eu gostaria! "Nós não fazemos!", aleguei um pouco furioso. "Eu sei que você e o seu pai", apontei para o quarto onde eles dormiriam, "estão de guarda-costas nessa viagem. Como se a Rachel fosse uma donzela indefesa, mas acredite, ela sabe se defender muito bem sozinha, e eu nunca ultrapassaria nenhum tipo de limite, sabendo que estamos ainda nos conhecendo", continuei com determinação. Não dava pra acreditar. Não dava pra acreditar que eu estava me explicando para Kurt Hummel. "Os pais dela sabem muito bem que tipo de conhecimento você está tendo dela, então não reclame se, da próxima vez, eu não estiver aqui para ajudá-los a embarcar numa viagem ridícula!", Kurt atirou.

No momento em que eu tinha acabado de proferir: "Você é louco!", Burt apareceu na porta do seu quarto. "Algum problema, meninos?", ele quis saber. Sua face estava séria e não me fitava como se eu estivesse maltratando seu filhinho do capeta. Eu sabia que Kurt não iria nos entregar tão facilmente. Por isso, eu apenas disse: "Tenha uma boa noite, Sr. Hummel". E daí, entrei no quarto que dividiria com a minha mãe e fechei a porta. Ela estava no banheiro, acho que tomando banho. Aproveitei que estava sozinho no quarto e vesti uma roupa mais confortável. Liguei a TV, mas não procurei nenhum canal interessante. De repente, meu celular ressoou um alerta de mensagem. Eu sabia de quem era, claro.

Ouvi vocês. Pode parar de brigar com o Kurt? De verdade, desse jeito você vai acabar com a viagem! – R.

Ah, certo! EU acabaria com a viagem! Como se tivesse sido EU que começara a alegar coisas completamente insanas!

Não tenho culpa se o seu melhor amigo deveria estar preso num hospital psiquiátrico. Tenho bastante certeza de que ele sofre de esquizofrenia, ou algo assim.

A resposta, no entanto, não veio. Não que Rachel tivesse pegado no sono, eu bem sabia. Ela apenas não tinha vontade de persistir no assunto. Decidi afastar a briga com Kurt da memória. Eu precisava trabalhar a minha paciência – essa era a minha meta para aquela viagem.


Na manhã seguinte, encontrei Rachel na mesa do café da manhã com Burt e Kurt. Estavam rindo – acho que Burt estava contando mais uma de suas histórias que continham a ex-esposa, ou algo assim. Cheguei a pensar que Kurt pudesse estar com um humor renovado, que pudéssemos pelo menos nos ignorar pelo restante das horas. Mas não, é claro. Eu mal disse bom dia, e ele já me atacou: "Achei que não tivesse farejado ainda a Rachel aqui embaixo". Burt olhou para o filho sem entender nada, enquanto Rachel lhe lançava um olhar um pouco chocado. "É você quem é o protetor dela, não eu", respondi com certa petulância, já que Burt estava presente e tal. Mas ninguém falou nada em seguida. Kurt me fuzilou com os olhos, mas Rachel apenas fincou seu olhar em seu prato. Segundos depois, ela anunciou alto: "Eu não preciso de protetor algum".

Então minha mãe se juntou a nós, e o assunto morreu. Graças a Deus, pois não pretendia incitar nenhuma discussão calorosa com Kurt na frente da minha mãe e do pai dele.

O restante da manhã transcorreu sem nenhum tipo de alarde, já que Burt e Kurt decidiram alugar um carro e ir a um lugar que já conheciam da cidade. Não fiz perguntas, pois não me interessavam as respostas. Deixei que fossem, mesmo sob os protestos de minha mãe, que alegava que deveríamos passar mais tempo juntos como uma 'família' – juro que meu estômago se embrulhou quando ela disse isso. Como consequência, eu e Rachel ganhamos um pouco de privacidade – não que estivéssemos completamente sós; do outro lado da parede, minha mãe assistia a uma novela mexicana realmente cafona. O dia estava ameno, portanto ficar dentro do quarto não parecia uma ideia tão absurda assim, e era uma ideia que logo conquistou Rachel: não fez objeção alguma.

A princípio, conversamos sobre nossas expectativas para o show que aconteceria naquela noite – Journey tinha se tornado a banda do Glee; Don't Stop Believin', nosso hino. Era óbvio que estávamos muito entusiasmados por ter a oportunidade de assistir a um grande show daqueles e ainda conhecer nossos ídolos. Depois disso, Rachel tentou encontrar algum canal de música na TV. No fim, achamos um show ao vivo da Christina Aguilera. Não perdemos muito tempo assistindo-o, pois logo eu a puxei para mais perto de mim. Era meio que uma necessidade minha: tê-la sempre por perto. Gostava se sentir seu corpo pequeno de encontro ao meu, isso me fazia sentir uma espécie de protetor – mesmo que ela tivesse dito que não precisava de um. Gostava de pensar que a protegia contra o abandono que sentia devido à Shelby tê-la deixado e contra os comentários impertinentes do McKinley, e do próprio Kurt. Certamente, como tinha entreouvido a 'conversa' que tivera com ele na noite anterior, sabia tudo que ele tinha dito – que eu estava tentando me aproveitar dela nessa viagem, basicamente.

Ela ajeitou melhor seu vestido de forma que parecesse uma mera menininha comportada tentando evitar qualquer tipo de contato íntimo. Ela sorriu para mim, perto da minha boca. Aproveitei a deixa e me aproximei mais, arrancando um beijo surpreso dela. Era engraçado como, em alguns casos, ela não tinha a menor ideia do quanto eu a desejava. Rachel não tinha a menor ideia do quanto poderia fazer um cara enlouquecer com seu beijo, ou com seu toque. Ela era tão inexperiente quanto possível – e isso era realmente atraente. Ela já tinha perdido boa parte da timidez que carregava no início, o que possibilitava beijos mais longos e com certo toque de exploração. Ela não me brecava logo na primeira investida, demorava um pouco para entender as minhas intenções, que não passavam de algo puramente curioso. Ficava pensando que ninguém nunca tinha dividido tamanha intimidade com ela e que gostaria de ser o primeiro – parecia o certo. De certo modo, eu também a tinha esperado, e gostaria de prová-la tanto quanto fosse possível, por enquanto. Sabia que, ao contrário do que Kurt sugerira, eu não estava tentando me aproveitar da inocência dela – e tinha muita certeza de que ela não esperava que nada, além do habitual, acontecesse entre nós.

Não que eu estivesse me importando com os dois meses que estávamos juntos – achava que coisas assim não dependiam de uma característica tão taxativa quanto o tempo dividido entre o casal. Não que, claro, tivéssemos tanto intimidade assim. Eu não conseguia lhe falar sobre meu pai, nem tinha lhe contado que já transara com Santana. Rachel me retribuía muito mais, com muito mais palavras, com muito mais confissões, com muito mais segredos. Eu, por outro lado, permanecia dentro de um casulo, era meio fechado. Não evitava lhe dizer sobre meus sentimentos para com ela, mas todo o resto parecia inacessível para que eu pudesse lidar.

E enquanto aquele beijo não cessava, bem... Apenas podia dizer que, apesar do ar condicionado ligado, eu podia sentir certo calor. Era normal, pelo amor de Deus. Eu não precisava me sentir envergonhado, ou culpado. Eu era um garoto – um ser humano, afinal. Não deveria rejeitar as sensações que ela me proporcionava, do mesmo modo como eu não quereria que ela afastasse o que quer que eu proporcionava a ela. Ser um casal é isso: é conversa, afinidade, mas também sexo, por que não? É ter a liberdade de não ter vergonha de sentir que não devesse quebrar um beijo realmente animado.

E por mais que Rachel não tivesse muita experiência nesse tipo de departamento, ela era graciosa mesmo assim e conseguia me atiçar de um modo realmente alucinante. Foi ela, entretanto, que se afastou de mim, ainda ofegante. Ela sorriu, mas não acanhada. Ela me sorriu cúmplice, e isso foi meio sensacional.

"Você tem que parar de me fazer querer beijá-lo desse jeito. Ainda bem que não tem ninguém por perto", ela disse.

"Tem a minha mãe. Mas ela não se importa. Ela sabe que estamos bem", falei. Rachel assentiu e me beijou de novo, com menos intensidade, dessa vez. Quando nos separamos de novo, ela comprimiu os lábios como se estivesse guardando a sensação do beijo. "Gosto de você assim", eu disse. Ela arqueou as sobrancelhas. "Assim como?", perguntou. Fiquei entre um riso e um sorriso, e então lhe disse: "Assim, sem medo nenhum".

"Não tenho medo de você", ela me garantiu, fazendo um carinho na lateral do meu rosto com o polegar. "Isso é ótimo. Então não vai reclamar se eu te beijar de novo daquele jeito, certo?", perguntei. Ela fez que não, sorrindo. Beijamo-nos com tamanha intensidade que, depois do que me pareceu apenas um minuto, tive de tomar fôlego antes dela. "Hey, isso não vale", ela disse, mas não sabia se estava se referindo ao fato de eu ter quebrado o momento, ou ao fato das minhas mãos estarem muito perto das suas coxas. "Desculpe", eu disse, em caso de ser a segunda opção. Na verdade eu não estava arrependido – eu queria que ela me desse permissão para tocá-la, além dos locais já explorados. Por quê não?

Rachel se afastou vários centímetros de mim, fazendo com que minhas mãos escorregassem para o colchão. Então, sentou-se ao meu lado, com as pernas esticadas, olhando para a parede à nossa frente. Não sabia se tinha ficado chateada pela minha repentina aproximação, ou simplesmente estava entediada.

"Ainda acho que o Kurt deveria ter aceitado ir ao show", ela comentou.

É claro que a diversão tinha acabado.

Se Kurt estava sendo mencionado, tudo de bom tinha ido embora num piscar de olhos. Nada mais de beijos, ou distrações táteis. Odiava o Kurt. Por que ele tinha que se intrometer até mesmo quando estava longe de nós? Por que ele não desaparecia?

"O problema é dele, ele não quis", respondi, impaciente. Precisava mudar de assunto, ou então puxá-la para mais perto, para um novo round de beijos. É, deveria. Minha tentativa, no entanto, fracassou. Rachel me lançou um olhar de 'agora não' e permaneceu no mesmo lugar, na mesma posição. "Você poderia fazer um esforço para se dar melhor com ele", Rachel olhou para mim como quem estava me acusando de algo. Como se eu tivesse culpa! Kurt era um lunático, obcecado por tudo que dizia respeito à Rachel! Era uma grande sorte que ele tivesse ido com o pai para longe de nós! "Rach, acho que já é bastante claro que eu e ele nunca iremos nos dar bem", falei. "Você não está tentando!", ela exclamou, e achei que tivesse visto um pouco de raiva em seus olhos. Ah, ótimo! Estávamos a um passo para brigarmos por conta do Kurt, aquele rato fashionista! "Eu não estou tentando?! E ele?! Você já se perguntou se ele está tentando?! Porque eu bem sei que não está! Você ouviu o que ele disse, ele acha que estou tentando me aproveitar de você. Isso é uma coisa certa para o seu melhor amigo pensar? Aliás, se ele acha que sou um aproveitador de menininhas indefesas, por que está aqui? Ainda não entendo!".

Agora, eu estava mesmo com raiva. Achei que precisava extravasá-la, uma vez que aprisiona-la apenas estava me fazendo ficar impaciente.

A única coisa que Rachel disse foi: "Não sou uma menininha indefesa". E daí estreitou os olhos em minha direção. Eu joguei as mãos para o céu, desistindo daquilo. Havia algo muito melhor para fazermos, e ela estava falando sobre Kurt! Rachel era mesmo um tanto quanto imprevisível – e louca, ainda muito louca.

"Você ouviu o que eu disse?", perguntei. "Finn. Preste atenção, ok? Muitos meninos do time fazem barbaridades com Kurt desde que entramos no ensino médio", Rachel começou a dizer. Certo, certo. Eu já conhecia a história. Puck era um que tinha sua cota de maldades, arremessara Kurt inúmeras vezes na lata de lixo, e coisas assim. E, pelo que me lembrava, essas coisas tinham terminado. Puck estava bem mais comportado e até mesmo aceitara de boa vontade que Kurt fizesse parte do time por um curto período – acho que numa tentativa louca de fazer seu pai achar que ele não era gay, um fato já muito velho por todos do McKinley. Mas achava que o fato ainda não tinha chegado ao conhecimento do próprio Kurt. "E acho que, de algum modo, o Kurt se sente ainda ameaçado", ela finalizou. "Certo. Ameaçado", eu repeti sua palavra com um toque de incredulidade e sarcasmo. Ameaçado estava eu com aquele cara sempre por perto, sem dar uma brecha para que Rachel e eu agíssemos como um casal. Qual era o problema dele, afinal de contas? Será que era apenas um fofoqueiro idiota, como todos os outros? Ou será que estava com ciúmes da melhor amiga ter arranjado um namorado, enquanto ele permanecia fazendo cara feia para todo mundo que passava por ele?

"Eu não sei como poderia ameaçá-lo. Mesmo quando ele quer dançar Britney, eu nunca disse nada. E algumas vezes já mandei Puck e os outros pararem de incomodá-lo. Acho que ele se esqueceu desses episódios", falei.

"E teve aquela vez que você impediu que alguns garotos do último ano o enfiassem no tonel de gordura da cozinha", Rachel relembrou. "É. Está vendo? Eu não permiti que ele sofresse muitas outras humilhações". Olhei para ela. Rachel não parecia satisfeita, no entanto. "Tem algo de muito errado com ele", comentei. Rachel comprimiu os lábios. "Quer parar com isso? Não tem nada de errado com ele!", ela exclamou, brava. "Você nunca percebeu?", estava meio surpreso. "Ele é o meu melhor amigo, eu vou defende-lo sempre que possível! E não, nunca percebi nada! Kurt apenas é muito confuso para viver no mundo no qual vivemos. Ele é tipo... Tipo um bambi perdido na floresta!".

Isso foi o suficiente para que eu começasse a rir. Rachel me olhou séria. Não consegui refrear o riso. Não dava mesmo. Kurt, um bambi! Era isso mesmo que ele lembrava! Depois de alguns segundos, Rachel meio que abriu um sorriso à contragosto, e seu riso também preencheu o quarto. Quando pudemos nos controlar melhor, ela admitiu: "Não foi uma boa analogia".

"Foi a melhor de todas", aleguei.

"Você sabe de alguma coisa?", Rachel exigiu saber. De que eu poderia saber? Aliás, não precisava ficar ouvindo ninguém discursas sobre a 'esquisitice' de Kurt, se podia olhá-lo e constatar tudo num único minuto. "O que quer saber?", perguntei. Ela deu de ombros, meio desconfortável. "Nunca perguntou para ele?", questionei. Ela fez que não. "Acho que é meio que forçar a barra", ela explicou. "Mas vocês são melhores amigos. Você deve contar muita coisa a ele. Espero que não sobre nós, porque seria meio esquisito", falei. "Evito contar", ela me lançou um olhar incisivo. "Isso é ótimo. Acabou de ganhar pontos comigo", eu disse. Ela soltou um risinho, mas logo ficou séria de novo.

"Você acha que ele é?", sua voz saiu meio sussurrada.

Dei de ombros.

É claro que eu tinha a certeza. Mas não parecia legal dizer isso a ela. Por isso acabei falando: "Não sei. Acho que sim".

Ficamos em silêncio por um longo tempo.

"Preciso tomar um banho. Se importa de sair?", ela perguntou, depois do que pareceu uma hora depois. Olhei para o relógio: tinham se passado um pouco mais de cinco minutos. Na verdade, eu me importava, sim. Mas não podia dizer isso. "Não. Vou assistir um pouco da novela. Se eu não pegar no sono antes", eu disse. Ela sorriu. Levantamo-nos da cama, e enquanto eu seguia para o corredor, Rachel ia em direção ao banheiro. Quando fechei a porta do quarto, tive a vontade de retroceder, mas fiz um esforço para não cair em tentação.

Minha mãe ainda assistia à novela. Quando me viu, perguntou: "O que aconteceu, querido?". Dei de ombros. "Rachel foi tomar banho. Podíamos, depois, já ir para o estádio, o que acha?".

Ela assentiu, sem prestar muita atenção.


No final da tarde de domingo, quando estávamos deixando a Rachel em sua residência, fiz um retrospecto acerca do fim de semana.

Não tinha sido tão ruim assim. Claro, Kurt se intrometeu em vários momentos, mas eu e Rachel tivemos alguns minutos a sós que, com certeza, me renderam benefícios.

Rachel parou um pouco de falar sobre Kurt, acho que porque tinha entendido que nada mudaria entre mim e ele – nós continuaríamos cada um em seu canto, mas com Kurt sempre tentando bisbilhotar nossa vida pessoal. Apesar de saber que ela nunca iria se indispor com ele, achava que uma hora Rachel fosse conversar com Kurt sobre isso, sobre ele 'tomar conta' da nossa vida. Quer dizer, por que ele não arrumava uma vida para ele? Qual era a dificuldade? Se ele gostava de meninos, então devesse ir atrás deles! Porque nota-lo andar atrás da Rachel como se não tivesse mais ninguém por perto era realmente um saco. Sinceramente, não sabia como Rachel suportava!

A menos que...

Bom, a menos que ele tivesse um motivo para ficar à custa de Rachel.

Mas eu ainda não sabia bem o porquê. E nem poderia perguntar. Quer dizer, duvidava muito que ele me respondesse.

Por enquanto, restava-me contentar com a situação.


OI, GENTEMMMM!

Fiquei super animada com esse capítulo ~prova: escrevi 17 páginas, meus dedos, coitados D: Espero que tenham gostado de ler, tanto quanto eu gostei de escrever (que foi muito). Até a próxima semana, quem sabe! ((((:

Love, Nina.