Parte I – Collide (Howie Day)
Eu gostava de surpresas.
E ainda mais quando essas surpresas tinham relação com o Finn. Não que ele fosse criativo por demais – ele era normal, eu acho; mas eu sempre ficava muito feliz por sempre retirar a gente daquela monotonia típico do McKinley.
Ele não me comprava anéis, nem colares caros, mas mesmo assim eu gostava das coisas que recebia. Geralmente eram flores com uns cartõezinhos bonitinhos. De vez em quando ele até arriscava a escrever alguma coisa. Ele não me dava as estrelas, mas eu meio que me sentia no céu – o que era completamente clichê.
Nosso relacionamento era incrível, eu não tinha muito de que reclamar. Eu tinha aprendido a esperar bem mais de mim mesma do que dele. Por isso, de vez em quando eu me pegava cantando para ele, qualquer canção, apenas para vê-lo sorrir. Era uma coisa que apenas me fazia adorar ainda mais estar com ele – Finn gostava de retribuir, de dizer o quanto eu sempre era perfeita cantando, ou o quanto a minha cara de travesseiro estava bonita logo pela manhã. Eu sabia que existia certa hipérbole, mas como não ser seduzida por suas palavras? Ele sempre conseguia me ganhar com muito pouco: com seu sorriso característico, com um bombom fora de hora, com um dueto improvisado.
Eu tinha aprendido a parar de gostar de ficar sozinha, gostava da companhia dele. Das mãos dele nas minhas, dos seus beijos por vezes imprevisíveis. Não havia muito espaço entre nós – não éramos do tipo de esconder a felicidade, nem de evitar um sorriso público. Estávamos aprendendo juntos a não nos importar com o que diziam, a nos importar mais conosco, a cuidar mais um do outro – mesmo que aquilo parecesse ridículo.
Eu era meio ignorante com relação ao amor, achava que meu coração era dele, para sempre. Acreditava que nosso destino era esse: eu e ele, sem mais ninguém por perto. Por vezes, achava que deveria lhe confessar todos os sonhos malucos que já planejara para nós: eu, ele, uma casa do campo. Ou então, eu, ele, Peter e Decalque, o cachorro dele. E, talvez ainda, dois ou três filhos. Não me importava se era muito, ou pouco: era o que minha mente me fazia querer. Eu meio que necessitava desse futuro. Queria que ele estivesse o mais próximo de nós do que realmente estava. Tínhamos 15 anos – e nada era para sempre. Mas quem sabia? O futuro era naquele dia. Se era ridículo?
Ridículo mesmo era fingir que não estava feliz.
E a minha felicidade, ao que tudo indicava, estava crescendo. Naquela semana completávamos quatro meses. Eu achava que iríamos ao boliche (já que sempre íamos ao boliche de domingo), por isso não estava muito preocupada com o que faríamos. Certamente, devido aos trabalhos finais e às provas de final de semestre, Finn também não parecia muito preocupado com aquilo. Eu não me importava tanto assim. Gostava do boliche. Não me importava de comemorar nossos quatro meses lá – a menos que eu pudesse impedir Kurt e Quinn de estragar a noite.
E, na verdade, mantê-los longe de mim não era tão difícil assim.
Por algum motivo, que eu ainda julgava ser o romance de seu pai com a mãe de Finn, Kurt estava bastante afastado de mim, e de todo mundo. Constantemente, ele fingia que estava ocupado com alguma coisa que ninguém tinha ciência e mandava todo mundo sair de perto dele, como se tivesse contraído varíola. Eu não sabia o que estava havendo muito bem, por que ele estava tão detestável de repente por algo que não era o fim do mundo. Por um lado, eu queria meu melhor amigo de volta; eu tinha aprendido a tê-lo na minha vida em todos os momentos. Mas, por outro lado, sem suas importunações, eu me sentia mais confiante; agora, ele não me alfinetava, nem mesmo alfinetava Finn – raras as vezes que isso ocorria, e eu achava que era devido ao fato de ele ter percebido que aquele campo de batalha era um desperdício.
E Quinn... Bem, digamos que ela tinha se cansado de mim. Claro, ela não deixava de me lançar olhares ferinos quando passava por mim, mas tampouco me atirava algo. Ficava calada, como se não tivesse nada a dizer – o que, obviamente, deveria ser uma ilusão. Mas ela não era capaz nem mesmo de me chamar de criança, coisa que se repetia uma vez por semana, pelo menos. Eu ficava feliz que ela tenha se enjoado de ficar atrapalhando a minha vida. Achava que alguém tinha crescido, afinal. Sempre achara que demoraria um pouquinho para que Quinn enfim entendesse que não seria me humilhando na frente do colégio, ou na frente do garoto por quem eu era apaixonada, que faria com que ela ganhasse na vida. Que faria que ela achasse que pudesse ser melhor que eu, ou que qualquer outrem. Ela era bonita – do tipo que qualquer cara, mesmo o meu namorado, prestaria atenção no primeiro minuto – e sabia ser graciosa, às vezes. Mas além do que tinha a oferecer, além do que todo mundo via, Quinn não era muita coisa. Ela dependia tão somente de sua aparência para viver como eu dependia do meu talento para o canto.
E eu achava que aquilo nunca mudaria.
Quinn seria uma estrelinha invejosa para todo o sempre. E por mais que ela dissesse que quem era a invejosa da história era eu, eu não gastava o meu tempo livre fazendo bronzeamento artificial, nem num spa, nem lixando as minhas unhas. Eu preferia passar meu tempo livre com o meu namorado, mesmo que fosse de pijamas – coisa, que na verdade, nunca tinha acontecido, porque meus pais não permitiam que Finn ficasse mais do que cinco minutos sozinho comigo no meu quarto, ainda mais me ver de pijamas. A questão era que eu me importava com outras coisas que não faziam relação alguma com a minha beleza (se é que eu tinha tanta assim como Finn repetia toda hora). Eu não me importava muito em cuidar de mim, quando Finn fazia questão de fazer essa tarefa mais do que eu.
Apesar de eu estar ansiando o fim de semana com um toque de dramaticidade – porque eu era assim e pronto – eu sabia que esperar era bom. Por um lado, eu gostava de esperar. De me reunir com o Glee de sábado e fingir que eu não teria um ataque cardíaco por saber que mais um mês estava passando ao lado de Finn. E foi isso que fiz: eu ignorei todos os protestos da minha mente para somente ficar pensando no dia seguinte. Afinal, seria ridículo tentar planejar algo que já estava planejado.
Eu não me importava com o boliche nem um pouco.
Mas quando Finn me pegou às sete da noite, eu meio que comecei a me importar.
Eu usava uma saia azul-anil não muito curta e uma blusa de frente única que, na verdade, não era tão indecente quanto parece. Não revelava nada de muito sexual. Tinha a escolhido, porque fora a única peça que achava que combinava com a saia. E, para completar, uma sapatilha prateada. Não tinha feito nada no cabelo, porque eu já estava tão acostumada a deixa-lo ao natural, que prendê-lo ou arrumá-lo de um modo diferente parecia idiotice, uma vez que Finn não estava comigo por causa do meu cabelo, ou algo assim.
Ele estava lindo, é claro. Eu não me cansava de vê-lo tão lindo. Parecia que bastavam alguns minutos longe dele, para que eu sentisse uma falta tremenda de sua beleza, e quando o via de novo, Finn sempre estava mais lindo do que eu me lembrava. Cinza era uma cor ótima para ele, percebi na hora em que abri a porta.
"Hey", ele me disse, sorrindo. Então olhou para as minhas roupas. Eu já sentia frio, pela corrente de ar gélida que entrou no hall assim que abri a porta. Queria apressá-lo a entrar. "Acho que vai sentir frio", ele observou. É claro que eu iria, mas era claro também que eu não iria daquele jeito. Eu colocara um sobretudo por cima. Já o tinha separado, e ele estava no cabideiro da sala. "Eu sei. Vou me agasalhar depois. É melhor entrar", eu falei rapidamente, puxando-o para dentro.
Finn deu uma verificada na sala de estar, à procura de Hiram e Leroy, que a esse horário estariam jantando, ou jogando cartas. "Eles saíram", eu comuniquei. "Foram visitar a minha avó. Você sabe, é praticamente véspera de Natal, e como ela vai viajar para a Patagônia, eles querem se despedir dela". Finn assentiu, e pude observá-lo relaxar um pouco. Então ele sorriu para mim, mais animado.
Sinceramente, meus pais atrás da gente era meio que um saco. Tudo bem, eles me deixavam andar de carro com Finn, mas nunca tinham permitido nada além daquela viagem para Toledo. Eu não podia me demorar para me despedir dele, quando ele passava algumas tardes de sábado aqui em casa, e devíamos ficar no andar debaixo, para que eles pudessem nos averiguar de tempos em tempos. Basicamente, eles tentavam impedir que qualquer coisa fora dos padrões ocorresse – e você sabe a que estou me referindo. E aquilo me deixava meio que com raiva, porque inferia que meus pais não me conheciam muito bem. Certamente, eu não queria ficar sozinha com Finn no meu quarto para transar com ele, mas para não ter que dividir o tempo inteiro as nossas conversas com eles. Eu tinha perfeita ciência de que especialmente Hiram entreouvia tudo o que eu conversava com Finn, desde os deveres de casa, até as minhas risadinhas incontroláveis quando Finn resolvia beijar meu pescoço – coisa que, na verdade, não acontecia com frequência por causa dos meus pais. Então, basicamente outra vez, eles empatavam a minha vida amorosa – porque receber beijos no pescoço era ótimo, e eles, com aquela mania de vigilância, não deixavam que Finn proporcionasse aquilo de modo certo, ou pelo menos até nós nos cansarmos.
"Vamos ficar um pouco aqui, para nos esquentarmos. Depois saímos, ok?", eu sugeri, já me acomodando no sofá da sala. A calefação estava ótima ali dentro – só se tornou melhor quando Finn me abraçou. Na mesma hora, eu fechei os olhos, porque ser abraçada por quem a gente ama simplesmente inflige essa reação nas pessoas. Pelo menos, achava que sim.
Claro que aquele abraço evoluiu para coisas mais... Bem, um tanto quanto mais aconchegante. Claro que eu gostava dos abraços dele, especialmente quando estava com frio. Mas era meio impossível se contentar apenas com o abraço. Por isso, quando a boca dele veio de encontro com a minha foi incrível, eu nem reclamei por ele meio que me prensar no sofá. Na verdade, aquilo era tão bom que não havia por que reclamar. Era realmente incrível a habilidade de ele tinha de me fazer e esquecer de qualquer coisa com um mero beijo. Seus beijos, às vezes, pareciam tão íntimos, tão exploradores, que eu quase me permitia gemer durante o ato. Suas mãos serpenteavam meu corpo no limite que ele sabia que eu concedia de um modo que eu não me contentei em estar tão comprimida daquele jeito, por isso, tomando cuidado com a minha saia, depositei minhas pernas em cima das suas. Logo mais, uma de suas mãos estava em cima das minhas pernas, de um modo que poucas vezes eu tinha concordado.
Minha respiração travou na garganta, subitamente, assim que suas pontas dos dedos da mão direita se infiltraram pelo tecido fino da minha blusa, e sua outra mão, a que estava apenas em cima da minha perna, atingiu o limite máximo da minha coxa desnuda. Eu não precisava ponderar demais para saber que bastariam alguns minutos e minha blusa jazeria no chão, e seus dedos explorariam outros lugares além dos que ele já provara.
Um apito ressoou incessante no meu cérebro.
Perigo, perigo, perigo. Afaste-se imediatamente!
Foi o que fiz em muita graciosidade, a seguir.
Quebrei o beijo, fazendo com que nossas bocas produzissem um barulho esquisito. Eu estava arquejando, e não era porque estava arrebatada com tamanho amor. Na mesma hora deixei escapar, ainda resfolegando: "Eu não sei fazer isso". Pelo menos, era a verdade. E Finn merecia a verdade. Ele me olhou; não expressava nada além de um pouquinho de surpresa. Sinceramente, ele não deveria estar tão surpreso assim, especialmente sabendo que era meu primeiro namorado, e tal e coisa. "Estamos apenas nos beijando", ele pontuou, me olhando. Com ele assim tão perto de mim, me inspecionando daquele modo, confesso que me senti uma virgem na noite de núpcias que não sabia para onde olhar. Recuperei-me quase no mesmo instante, entretanto. "É, mas sei que está acontecendo muito mais coisas na sua mente", eu disse. Não que eu o estivesse acusando, longe disso. Pelo amor de Deus, eu apenas estava falando.
Finn continuou a olhar para mim. Então perguntou com uma leve graça: "Esse é o momento que minto e digo que nada está passando pela minha mente além do jogo de adivinhação para saber as novas táticas do time?". Assenti fracamente, enquanto nossos olhos ainda estavam conectados com intensidade – não adiantava em nada fugir dele. Eu podia sentir o meu rosto um pouco quente, e todo o resto também como era de se esperar, porém não havia como negar que persistia uma hesitação até mesmo considerada irracional em mim. "Não quero mentir", Finn confessou com tranquilidade anormal. Gostava da sinceridade dele.
Droga, eu era tão criança! Gostaria de um meio de me livrar daquela vergonha idiota. Certamente, Quinn não teria nenhum problema em ultrapassar os próprios limites. Mas eu não queria pular nenhuma etapa, não queria aquele afobamento estúpido que apenas faz com que as pessoas se arrependam e nunca mais voltem a se olhar. E, claro, uma dose de romance cairia bem. E eu sabia que havia muito mais desejo irrefreável do que romance naquele momento. Ou seja, não era a hora mais propícia nem prudente para deixar que a situação se desenrolasse.
"Muitas coisas estão passando pela minha mente agora", ele disse.
Ah. Bem, era o esperado. Afinal, Finn ainda era um garoto comum, com desejos comuns. E claro que sexo era um deles. Não que eu fosse jogar isso na cara dele, de modo algum. Seria imaturidade demais. Mas eu não estava preparada para fazer uma análise dos seus pensamentos impertinentes, ainda. "Por favor, não as diga alto", repliquei. Finn soltou uma risada baixa e em seguida, sem hesitar, me depositou um selinho. "Não pretendia", ele disse, em seguida. Olhei para ele, meio que vontade de rir. Na verdade, não tinha sido tão ruim assim. Eu estava com vontade de rir, afinal de contas. Sem esperar mais, eu ri. Ele, em seguida, me copiou. Parecia o certo a fazer, depois daquela tensão esquisita que senti. "Então...", depois que recuperei o fôlego e dispensei toda a vergonha, falei. "É, a gente tem que ir. A nossa reserva é para daqui a pouco", Finn logo disse. Fiquei meio surpresa. "Reserva? Não vamos para o boliche?".
"Tá brincando? Acha que quero passar a primeira noite do nosso 4º mês junto com a Quinn e o mau-humor do Kurt?", Finn perguntou. Fiz uma careta. Ele ainda não tinha aprendido a não falar mal do Kurt. Finn se levantou e me deu a mão, para me erguer do sofá. Eu tentei desamarrotar a minha saia e calcei de novo as sapatilhas. "Aonde vamos?", perguntei.
"Bom. Essa parte é meio que uma surpresa", Finn sorriu lateralmente para mim. Senti certo frisson. Eu sempre sentia. "Isso não vale!", aleguei, meio que rindo. A verdade era que eu não me importava, não estava mesmo brava. Gostava das surpresas dele, como supracitado. Finn me ajudou a colocar o sobretudo e abri a porta mais uma vez. Estava meio que chovendo, em meio ao vento gelado. Mesmo na chuva, caminhei até o carro, que estava estacionado a poucos metros da porta. Quando já estava lá dentro, liguei o ar quente e coloquei as luvas. "Que droga de inverno", Finn comentou. O automóvel levou algum tempo para ligar, devido à baixa temperatura, mas logo mais estávamos andando pelas ruas praticamente vazias.
O local não era muito longe da minha casa, de modo que não precisamos conversar muito. Claro que eu estava na expectativa, mas ao mesmo tempo estava bastante tranquila. Porque por estar acompanhada de Finn já era um consolo. O local parecia escuro visto de fora e parecia ter pouco movimento àquela hora. Finn disse sobre a reserva para a recepcionista, enquanto eu analisava a decoração. As luzes amarelas estavam mesmo fracas, quase intimistas. Mas então percebi uma coisa. Ou melhor, ouvi uma coisa. Pessoas cantando. Estavam cantando Coldplay. Havia um karaokê. Daqueles de verdade, entende? "Ai, meu Deus", eu exclamei baixo. Finn logo se juntou a mim, me guiando até a nossa respectiva mesa. "O quê?", ele quis saber. "Não, você não vai fazer isso comigo", eu disse, chocada. Sentamo-nos e uma garçonete nos ofereceu o cardápio. "Fazer o quê?", Finn perguntou, meio desinteressado na resposta, porque já estava passando os olhos pelo cardápio. "Isso", eu apontei para as três pessoas que continuavam a cantar In My Place. Finn soltou uma risada. "Você sabe, eu canto para você, porque... Bem, é para você. Não sei se me sinto bem cantando para essa gente. Eu nem sei de onde eles vieram", cochichei. "Desde quando isso importa? Não é você que ama os holofotes?", ele me questionou. "Mas isso é totalmente diferente", pontuei. "Não precisa cantar. Só achei que fosse legal. Não achou legal?".
Claro que eu tinha achado legal. Mas não a ponto de cantar assim, sem um motivo. "Bem, é legal", eu disse. "Depois vamos dar uma olhada da playlist deles", Finn sugeriu. É, até parece. Apesar de que estavam cantando Coldplay. Então não era tão ruim assim.
Assenti somente para deixar o assunto de lado. Verifiquei o cardápio e percebi que eles tinham muitas massas vegetarianas, o que era ótimo.
Quando nossos pratos já estavam sendo consumidos (e eu estava realmente esfomeada), Finn retirou de algum lugar – como estava ocupada comendo, não pude averiguar nada – uma caixinha de veludo. Não era uma caixa que comportava um anel, disso eu sabia, porque a caixinha era muito mais achatada e mais alongada. Então eram brincos, ou uma pulseira, ou um colar. Na verdade, eu não estava dando a mínima para o que era, porque já estava encantado por ele ter se preocupado em me comprar algo. Certamente o que eu comprara para ele – um dos últimos CDS que faltava na coleção dele do The Smiths – não chegaria nem aos pés do que ele me ofereceria, agora. Ainda assim, olhei para a caixa com um misto de curiosidade e 'não precisava me comprar nada'. Claro que ele me desarmou na mesma hora, sorrindo meio sem jeito e me deslizando a caixinha pela mesa até chegar a mim. "Abra", ele disse.
Eu abri. Não porque a) eu esperava que o que quer que ele tivesse comprado para mim fosse incrustrado de diamantes, ou rubis, nem porque b) eu achasse que estava na hora de ele me comprar coisas daquele tipo para mim. Abri, porque eu estava feliz. Não que eu tivesse dito a ele que precisava retribuir o meu presente, na verdade, eu meio que encontrei o CD dele ao acaso e comprei. Meio que uma daquelas loucuras de compras que toda garota nerd enfrenta quando vai à livraria, ou algo assim. A joia que se revelou de lá de dentro era, afinal, um colar. Parecia ser de prata. Parecia incrível. O pingente lembrava um floco de neve e a pedra que reluzia parecia ser cristal, ou algo assim. Retirei-o com cuidado do suporte e o admirei nas mãos. "Uau, é tão lindo!", não pude me impedir de exclamar. "Achei a sua cara. Não é uma estrela, coisa que eu gostaria de ter realmente comprado, mas achei bonito. Depois fiquei pensando: por que você precisa de mais uma estrela para se lembrar que é uma, uh?", ele sorriu levemente.
Aquilo era mesmo um amor da parte dele.
Finn se levantou de sua cadeira, sem se importar com nada, e me ajudou com a corrente fina do colar. Quando ele estava no meu pescoço, olhei para o pingente, que parecia brilhar mais do que nunca sob as luzes fracas do restaurante. "Uau", eu sussurrei. "Muito obrigada", agradeci, ainda maravilhada. "Não deve ter sido barato. Não tanto quanto o CD que te dei", acrescentei. "Não me importo com isso", ele respondeu. Eu sorri, e ele também.
De repente, ele pareceu ficar ainda mais sem jeito – o que, na verdade, era uma coisa que pouco via nele, e que era uma graça. Olhei-o meio sem saber o que dizer, por isso continuei a sorrir. "Eu não sei o que vai acontecer amanhã, mas sei que meu amor por você não vai morrer. Talvez se desgaste um pouco, essas coisas sempre acontecem, mas caso eu me cansar de você, é porque estarei ficando completamente louco", Finn disse, em seguida, inesperadamente. E aí buscou a minha mão e a afagou de um modo que me fez sentir que estivesse a sós com ele. Finn sempre conseguia produzir esse tipo de efeito em mim. Aquilo me deixou completamente surpresa. Ele não era do tipo que expressava totalmente o que sentia e tudo mais, por mais que se esforçasse de vez em quando nos seus cartões. "Eu amo você", ele adicionou. Fiquei sem palavras. Claro que qualquer pessoa normal teria retribuído e lhe dito que o amava também, mas eu estava tão encantada! Além do mais, ele sabia que eu não precisava proferir nada: eu o amava, também.
Ao invés de dizer algo, sorri de novo. Ele afagou minha mão mais uma vez.
No final das contas, acabamos mesmo cantando uma canção: Don't Go Breaking My Heart. Totalmente clichê, mas não me importei.
Parecia que quanto mais tempo eu passava com Finn, mais tempo que queria passar junto a ele.
Por isso, no dia seguinte, eu estava ainda encantada com o nosso encontro romântico no bar onde desfrutamos do karaokê. Eu não parava de sorrir por ver aquele novo colar no meu pescoço. E quando olhava para Finn, meu sorriso apenas crescia. Era uma atitude tão boba, mas eu não conseguia evitar. Era a última semana de aulas antes do recesso de inverno, e eu estava ansiosa para as lições. O que quer que fosse acontecer, eu não me importava nem um pouco, desde que eu estivesse junto a Finn. Claro – às vezes, eu achava que o pessoal estava cansado de nos ver juntos, nos beijando e tudo mais. Mas, por outro lado, eu sabia que ainda tinha amigos que estavam a favor de nós – Kurt fingia que não nos via, entretanto Mercedes e Tina pareciam realmente felizes por eu estar feliz. Tina estava enfrentando um romance com Artie – coisa que, de imediato, era surpreendente, e nem por isso eu deixava de achar que, na verdade, ela tinha certo potencial, apesar da gagueira esporádica. Desde que nos conhecemos, ela melhorara demais, pois que indiquei a ela um fonodiólogo.
Não tínhamos tido tempo de planejar um musical, mas o semestre estava terminando com muitos pontos extras: apesar da trindade das Cheerios me odiar com todas as forças – apesar de que duvidava muito que Brittany pensasse com a própria cabeça – tínhamos aprendido a nos aceitar melhor. Ainda havia brigas e desentendimentos, e com certeza muitas fofocas rolavam, mas tínhamos aprendido, também, a controlar melhor tudo aquilo. De modo geral, o primeiro semestre do Glee Club se encerrava muito bem.
Por isso, aquele clima comedido era ótimo para incluir o meu mais novo amigo. Apesar que de 'amigo' seria meio forte demais. Ele era mais um conhecido. Ele era mais perdido que a maioria dos garotos – porque ele era novo no McKinley – e isso era meio que um amor. E o mais legal é que ele não hesitou como a maioria da população masculina faria ao me pedir ajuda. Na verdade, nos encontramos sem querer.
Eu estava na biblioteca folheando alguns anuários – e eu nem bem sabia o porquê, exatamente – quando ele entrou na seção que eu estava. Estava procurando uma revista em espanhol para completar um trabalho do Sr. Schue.
"Opa", ele disse, estancando de repente, bem perto de mim. "Aqui não parece ser a seção de Espanhol", ele comentou alto, olhando os anuários expostos. "Nah, a seção de Espanhol é na 23. Aqui são os anuários e os jornais e revistas referentes à escola", respondi de bom grado, porque eu pude ver o quanto ele parecia perdido. "Ok, obrigado", ele disse, já se afastando. Bem aí, eu me lembrei do trabalho do Sr. Schue e procurei mentalmente esse garoto na minha sala de aula. Não havia ninguém parecido com ele nas minhas aulas. "Hey, qual é a sua turma de Espanhol? Eu também faço essa matéria", perguntei em seguida. Eu sabia que o trabalho do Sr. Schue era meio chato, mas completamente fácil de se burlar, já que consistia encontrar uma reportagem em espanhol qualquer e traduzir. Eu já o tinha terminado e tinha me esforçado para traduzir utilizando um dicionário daqueles de verdade, não um da internet, nem nada assim. O garoto pareceu ainda mais perdido. "Eu não lembro. Mas tenho no quarto período", ele disse. "Tenho no primeiro, às terças-feiras", falei. "Eu também tenho na terça".
Assenti. "Boa sorte no trabalho", eu falei, sem saber o que lhe dizer. Ele parecia uma graça – alto, mas não tão alto que Finn, e com cabelos castanhos brilhantes meio ondulados. "Acho que vou precisar. Não sou muito bom em Espanhol", ele me confessou, meio que rindo. "Posso te ajudar, já fiz o meu. Sr. Schue não se importa com o tamanho da reportagem, então se você achar uma curta vai se sair bem", garanti. Eu tinha feito isso, porque tinha outros trabalhos finais para fazer e eu tinha prioridades. "Obrigado pela dica, acho que não vou precisar da sua ajuda", ele fez um gesto com a cabeça, parecendo preocupado com o tempo, ou com qualquer coisa assim. Aquilo parecia insano. Que tipo de pessoa não aceitaria ajuda num trabalho? Ele parecia ser um louco. "Sou a Rachel, caso precise de ajuda com outra matéria. Você é novo, não é?", me apresentei e perguntei. "Jesse St. James. Vim da Carmel, porque meus pais se separaram, e o McKinley fica mais perto da minha nova casa. Pode deixar que, se a encontrar mais uma vez e eu estiver encrencado com algum trabalho, peço a sua ajuda", Jesse falou e depois sorriu, sendo educado.
Uau. Poucos garotos teriam coragem de serem tão polidos com uma menina, especialmente se a menina em questão fosse eu. Porque, naturalmente, eu era um repelente de meninos bonitinhos como Jesse.
"Estarei no Glee, à tarde. Passe de lá, caso te interessar".
Aquilo era meio que uma tática.
"Fiz parte do Vocal Adrenaline por um período", ele me disse. Fiquei surpresa. Era verdade, ele fizera parte do Vocal Adrenaline? Eles eram o coral rival de todo mundo que participava dos concursos. Ainda não os tínhamos enfrentado, e não achava bom caso isso ocorresse: ainda não éramos um clube de música muito bom ou confiante. "Não era bem o tipo de coisa que amava fazer, na realidade. Quer dizer, o programa parecia pesado demais para mim, e eu estava lá apenas pelo prazer de cantar", Jesse deu de ombros. "Pelo que ouvi, vocês são ótimos", eu disse. Ele deu de ombros de novo. "Então, esse Glee... Você canta lá?", ele quis saber, repentinamente curioso. "Eu e uns amigos fundamos o clube. Passe de lá, na verdade, não é tão ruim quanto todo mundo diz", cochichei. Ele riu. "Vocês não ganharam as Sectionals?".
"Como você sabe?".
"Leio o jornal local", ele tornou a rir.
Isso explicava muita coisa. "Já ouvi falar de vocês. Não acho que podem ser piores do que aquele clube de surdos", Jesse afirmou.
Eu ri. Não éramos tão ruins assim, afinal. Claro que deveríamos aprimorar várias coisas, mas estávamos caminhando para frente. Tínhamos vencido uma eliminatória, e isso já era alguma coisa.
"Então, nos vemos depois?", inquiri.
"Acho que tudo bem. Se esse trabalho de Espanhol não ferrar a minha tarde", ele adicionou. Ri de novo. Ele parecia realmente legal. Genuinamente legal.
Jesse deu uns passos para trás e, depois de um aceno, desapareceu da minha frente.
E foi por causa desse encontro que, horas depois, eu estava dizendo a ele: "Você vai gostar do Glee".
Não que estivesse mentindo. Ele iria gostar de cantar lá. Mas talvez nem tanto assim de algumas pessoas.
Eu entrei na sala, vendo que Finn, Kurt, Mercedes e Artie, já estavam ali enquanto Sr. Schue esperava o restante sentado numa das cadeiras e bebericava uma coca-cola enquanto corrigia alguns testes. Eu pigarrei e então disse: "Sr. Schue, esse é o Jesse. Ele quer entrar no Glee".
Ok, eu estava mentindo. Jesse nunca me dissera que estava querendo ingressar no Glee. Mas, quem sabia, ele apenas precisava de um empurrãozinho para pensar melhor e decidir realmente fazer parte daquilo. Eu apenas o estava ajudando, não estava? "Hey, eu nunca disse isso", ele logo retaliou rapidamente. Olhando para Finn e para os outros, Jesse falou: "Hm, olá. Não quero roubar o lugar de ninguém. Só vim ver como vocês funcionam". Ele parecia meio nervoso. Finn olhou de Jesse para mim, e novamente para Jesse. Parecia não estar entendendo nada. "Ache um lugar para você, Jesse. Fique o quanto quiser", Sr. Schue logo tratou de cortar o silêncio.
Eu me sentei ao lado de Finn, claro, que logo se inclinou para o meu lado e perguntou: "Quem é esse cara?". É, aquilo era meio inacreditável: que eu, justamente eu, surgisse com um cara desconhecido no meio do Glee. Eu diria: superem isso. "Um aluno novo. Ele era da Carmel. Nós nos encontramos na biblioteca mais cedo. Hey, Jesse, vem pra cá!", respondi rapidamente e chamei Jesse, pois ele estava indo se sentar exatamente no lado onde as Cheerios ficavam. Jesse então andou para o outro lado da sala e se acomodou perto de mim, na cadeira da fileira de cima de onde eu estava. "Vocês cantam como se estivesse curando o câncer aqui também?", Jesse se inclinou para perto de mim e perguntou, olhando também para Finn. "Vocês cantavam assim lá na Carmel?", eu meio que ri. Ele era meio engraçadinho. "Todo santo dia. Era um saco", Jesse confirmou. "Não, aqui a gente só canta por cantar", Finn respondeu num tom meio seco. Não entendi muito bem, mas como Jesse começou a rir de repente, eu deixei aquilo pra lá. Olhei para Jesse, lhe interrogando com a minha expressão. "Acho que vou adorar isso daqui", ele me disse.
Eu sorri, feliz.
Parte II - Jealous Guy (John Lenonn)
Ok, talvez fosse um pouco paranoico e infundado, mas eu não estava entendendo aquela repentina amizade entre o tal garoto novo e Rachel. E é preciso dizer, também, que não estava gostando muito daquilo.
Mas eu decidi não comentar nada, especialmente porque na semana seguinte as férias de inverno chegaram e eu sabia que aquela amizade ficaria de escanteio até o começo do novo semestre, pelo menos.
Dois dias antes do Natal, porém, percebi que me enganara. Era domingo, noite de boliche, e como de costume todo mundo do Glee estava lá – porque ninguém era capaz de rejeitar uma noite de boliche. Com um adicional, no entanto: o garoto novo estava lá também, entre Santana e Brittany. Pelo visto, elas não tinham muitos problemas em colocar alguém, mesmo que fosse um garoto, no meio delas – se é que os boatos sobre as duas eram verdadeiros.
Rachel e eu tínhamos acabado de chegar, pois eu a tinha buscado em casa, e eu já previ que aquela noite não seria muito agradável. Aquele tal de Jesse tinha uma habilidade de conversar com Rachel de um modo que nenhum outro garoto demonstrou ter – incluindo, inclusive, eu. Ele sempre dizia algo que a fazia rir, mesmo que fosse a menor coisinha do mundo: lá estava ela rindo.
Claro que eu a fazia rir também. Mas aqueles risos destinados àquele cara eram tão... Não sei, diferentes? É, achava que sim. Ela gostava de rir com ele, eu percebia. Achava que uma coisa daquelas nunca aconteceria, achava que ela preferia compartilhar risos comigo. Tinha sido assim nos últimos quatro meses.
Pelo visto, Jesse era o novo fascínio dela. A julgar pelas atitudes repentinamente acomodadas, eu dizia que sim. Ele era o novo fascínio de Rachel.
A proximidade deles, em apenas uma semana, me irritava. Era idiota, eu bem sabia, mas não conseguia evitar sentir minhas entranhas serem agarradas por mãos invisíveis sempre que os via juntos, coisa que acontecia com frequência.
Logo, eu e Rachel fomos para a pista, para jogarmos contra Jesse e Mike. Ele era bom, muito melhor que eu. Por isso, nós perdemos. Mesmo assim, Rachel pareceu impressionada com a performance dele, ao invés de pedir uma revanche. Por isso, me vi sozinho, de repente, enquanto ela conversava com Jesse sobre suas técnicas. Em seguida, ele resolveu aplicar suas técnicas com a Rachel, ensinando-a praticamente. Ele dizia: "Não, você tem que se abaixar mais", ou então: "Separe mais as pernas e mire. Não, Rachel, você tem que mirar", e então ambos caíam na gargalhada, como se estivessem assistindo a um stand-up incrível.
Eu não entendia.
Era tão inacreditável!
Eu não estava pronto para aquele tipo de coisa, realmente nunca tinha esperado aquilo. E fora tão de repente!
E eu sabia que Rachel mal notava que, enquanto ela se entretinha com Jesse, eu ou a) ficava apenas observando-os de longe, ou b) Quinn sempre estava por perto e tentava engatar uma conversa comigo. Discretamente, eu a repelia. No começo, eu realmente não estava interessado. Porque tinha algo mais importante a fazer: analisar tudo o que via e ouvia Rachel e Jesse fazendo e dizendo. Mas então, depois de um tempo, percebi que se Rachel queria se entreter com alguém novo, eu também poderia querer me distanciar um pouco dela. Não que ela estivesse fria comigo – quando ficávamos sozinhos, agíamos como éramos antes de Jesse aparecer; ainda havia muita intimidade entre nós.
Por isso, dei liberdade à Quinn que conversasse comigo, por vezes. Ela fingia que não queria nada além de saber as horas, ou de saber qual seria a música que eu cantaria para a nova lição do Glee. Mas eu sabia que, implicitamente, ela estava jogando comigo. Estava tentando recuperar aquela confiança e a intimidade que tínhamos antes, quando namorávamos. E aquilo também era algo que eu não entendia. Ela tinha me deixado em paz por um longo tempo, depois que nos separamos, e, apesar do que eu tinha presenciado na tarde que beijei Rachel pela primeira vez – toda aquela hostilidade e o ataque de ciúme –, Quinn não tinha tentado intervir na minha relação com Rachel.
Bem, até agora, ao que tudo indicava.
Quinn nunca tinha se insinuado daquele modo antes. Mas ali estava ela, tentando ser sexy, ou algo assim. Enquanto a minha namorada estava jogando boliche com um cara que eu mal conhecia.
Eu permiti, dadas as circunstâncias, que Quinn se aproximasse. Era fácil, na verdade. Quinn tinha aquele jeito atrevido de falar e de se portar – não tinha como não enlouquecer um cara. E por mais que eu gostasse de enlouquecer estando com Rachel, ela não estava ali – então qual seria o problema em fingir que não estava entendendo as intenções de Quinn? Porque eu meio que previa as intenções daquele cara. Nenhum cara novo se aproximava daquele modo das pessoas, em especial de Rachel – que, eu bem sabia, não tinha o biótipo que fazia os garotos virarem a cabeça, e coisas assim. Ela sempre fora meio invisível e repelia todo mundo de perto.
"Parece que o garoto novo se enturmou muito bem com a sua namorada", Quinn comentou, de repente, sentando-se ao meu lado, sem nem se preocupar se eu consentia ou não aquilo. Comprimi os lábios, tentando fazer toda a tensão que sentia se dissipar. Não adiantou. "É", concordei de má vontade. Aquilo era ridículo. Eu estava sendo ridículo. Rachel não estava se insinuando para cima de St. James como Quinn estava fazendo comigo. Talvez eu devesse parar de sentir aquilo. Toda aquela irritação e... É verdade, acho que todo aquele ciúme também. Não acreditava que estava sentindo ciúme. Mas aquilo era bom, não era? O ciúme não era, tipo, o afrodisíaco dos relacionamentos?
Na verdade, eu não estava sentindo nenhum tipo de excitação magnífica. Estava mais é com vontade de socar a cara daquele garoto. E fazer coisas assim não era nada afrodisíaco. Achava que não, ao menos. Rachel não iria gostar nadinha se eu fizesse algo assim em seu 'novo amigo'.
"Sabe o que devemos fazer?", Quinn me questionou. "Não", respondi. Por um lado, eu não queria saber, pois seria algo ruim. Mas, por outro, eu queria, pois mesmo sendo algo ruim, pelo menos eu poderia parar de me sentir tão irritado. "Deveríamos ir para o banheiro e relembrar os velhos tempos enquanto a sua namorada tem um bom momento com esse cara", ela me disse. Seu tom estava sussurrado e meio provocante. Droga, como resistir?
Mas eu tinha que resistir. Eu já a tinha namorado, sabia como Quinn funcionava – e sabia mais ainda que não suportaria me envolver mais uma vez com ela.
"Não, obrigado", eu respondi. Quinn produziu um barulhinho com a língua. Não parecia frustrada, entretanto. Ela soltou um risinho. "Não acho que tenha escapatória. Sabe que com ela nada disso vai acontecer", ela indicou a Rachel com a cabeça. É, eu sabia. Mas eu tinha que ficar por perto para não perder nada daqueles dois. E se ele se esgueirasse para longe com ela? Eu tinha que estar ali para impedir. "Quinn... Eu não quero fazer nada com você. Se quiser conversar, ótimo, fique. Mas se pretende apenas me conquistar por vingança à Rachel, é melhor sair de perto de mim", eu avisei.
"Por que tudo tem a ver com aquele Hobbit?", Quinn estava irritada, agora.
Ignorei sua sentença.
"Sério, eu não quero ficar com você. Estou com Rachel", falei. Quinn soltou outra risadinha. "É, até parece. Você pode estar com ela, mas acho que ela não está contigo, não é mesmo?", Quinn me alfinetou. Soltei um suspiro irritado. Quinn certamente não estava ajudando em nada. "Ela só...", engoli a saliva, tentando entender por que eu estava defendendo a Rachel. Eu não deveria. No entanto, Quinn foi mais rápida e me cortou, dizendo: "Está aproveitando a noite com outro cara que não é você. Talvez aproveite até mais do que o boliche", ela me sorriu meio cruel. Sacudi a cabeça.
Rachel não era daquele jeito. Quinn poderia ser, mas Rachel nunca me trairia, ou iria para cama com um cara que mal conhecia. Não quando me conhecia – e dizia me amar – há praticamente dez anos. Eu me recusava a ser manipulado por Quinn daquele modo.
Em seguida, falei algo que, em sã consciência – ou seja, se não estivesse com tanto ciúme e raiva – não teria dito: "Cale a boca".
Mas aquilo, de forma alguma, destruturou Quinn. Ela não saiu de perto de mim, ou correu direto para o banheiro, como menininhas fazem. Ela permaneceu ao meu lado, insistente.
"Você finge que não quer acreditar nisso, Finn", ela me disse com determinação. "Não quer acreditar que Rachel tem outro passatempo além de você, e que você não me quer", ela continuou.
Não era verdade.
"Eu não a quero", respondi com firmeza.
"Quer, sim. Mas Rachel está na sua mente, brincando com tudo aí dentro, então, por enquanto, você finge que quer estar com ela. Mas você sabe perfeitamente que nunca vai ter com ela tudo o que poderia ter comigo".
Pisquei, meio confuso. Meio... Convencido. Será que eu apenas fingia querer estar com Rachel?
Não. Não! Eu tinha aprendido a gostar dela, a gostar da sua insegurança, da sua experiência precária, da sua sedução mascarada de timidez. Eu amava a Rachel do modo como ela era – ao contrário do que sentia com Quinn; eu não amava tudo em Quinn, tinham partes que me enlouqueciam de raiva, outras que despertavam o meu desprezo. Com Rachel nada daquilo acontecia. Com Rachel eu era pleno. Eu sentia que tinha feito a coisa certa ao retribuir o que ela sentia, porque não era algo pesado – e eu não me sentia na obrigação de fazê-lo.
"Isso não é nada verdade", aleguei num tom de voz muito expressivo. "Veja só você, rastejando para mim, porque não consegue fazer com que Puck a aceite. Isso é meio patético. Você já foi muito mais que isso, sabe?", revidei sem me importar com o meu tom seco. "Puck", Quinn revirou os olhos e proferir o nome do meu melhor amigo de um modo que o fez parecer desprezível. "Definitivamente, Puck não tem nada que me interesse no momento", ela disse. "Sei, é por que ele não está com a Rachel? É isso em que a sua vida se resume? Tentar tirar de Rachel tudo de legal que ela conquista? Porque, primeiro: você entrou para o Glee, sabendo que não estava nem aí pra isso. Segundo, eu me lembro muito bem de todas as humilhações que você a fez passar na minha frente, apenas para diminuí-la. Terceiro, só porque eu te dei um pé na bunda e estou com ela, Rachel não é digna do que sinto? Isso é mesmo o fundo do poço para você", retruquei.
Quinn ficou calada por um tempo, me olhando desafiadora.
"Você é patético. E toda essa cena que faz com ela é igualmente patética", depois de alguns segundos, Quinn me disse.
"Você está com raiva, porque ninguém a ama como amo a Rachel".
Dessa vez, quem suspirou com raiva foi Quinn. Apenas dando uma olhada e sua expressão, podia conferir muita raiva acumulada.
"Sabe onde moro, caso aquela lá não queira fazer nada divertido com você", Quinn me disse, e então saiu dali.
Agradeci mentalmente.
Especialmente porque, quando olhei para onde tinha visto Rachel e Jesse juntos pela última vez, não havia mais ninguém lá. E, em seguida, vi Rachel andar em minha direção com uma expressão diferente. Não era raiva, ou felicidade.
"O que ela queria?", ela me inquiriu, e eu tinha certeza que se referia à Quinn. Reconheci, então: Rachel expressava insegurança.
Dei de ombros.
"Nada de muito especial", respondi. Rachel acomodou-se ao meu lado e, sem olhar para mim, assentiu com a cabeça. Eu sabia que estava concordando não por aceitar a situação, mas somente por concordar.
"Quer jogar outra partida?", sugeri. Agora, com ela perto de mim, eu não me sentia mais com tanta raiva. Tudo que eu queria fazer era abraçá-la e fingir que estava tudo bem.
Rachel concordou outra vez, ainda sem me olhar.
O Natal transcorreu sem nenhum tipo de incidente, por mais que minha mãe tivesse insistido em reunir Burt e Kurt em nossa casa. Como Rachel era judia e não comemorava essa data, não consegui escapar para a casa dela, e evitar dar de cara com Kurt na minha própria casa. Por isso, tive de aturar sentar-me na mesma mesa que Kurt e Burt e fingir que estava tudo ótimo – quando, na verdade, tudo o que gostaria de fazer era de fugir dali para algum lugar seguro.
Por uma intercedência divina, o jantar foi tranquilo, pois consegui encontrar um terreno neutro pelo qual andar com Burt: esportes. Ele era o tipo de cara viciado na SporTV e na ESPN e que conseguia ingressos para jogos de basquete com a mesma rapidez que eu conseguia marcar um touchdown. Então, de modo geral, interagir com ele não era tão complicado. Ele era um cara sério, amável e que gostava de me integrar nas conversas, mesmo naquelas que eu não estava nem aí. Ele tentava fazer com que eu me sentisse parte de uma família, eu acho – ainda que a minha família já estivesse despedaçada há algum tempo. Mas era aquilo: era inegável o sentimento de família ali, mesmo com Kurt sendo tão ranzinza. Burt conversava com a minha mãe como se a conhecesse há anos, e o modo como tratava Kurt era tão... Como dizer? Protetor. Dava para ver que ele não tinha vergonha alguma do filho – ele o amava do mesmo modo como minha mãe me amava, ou seja, me protegia e tentava me corrigir em alguns casos. E dava para perceber o quanto aquele jantar significava para ambos, para Burt e minha mãe. Eles estavam felizes. Talvez com a mesma intensidade que eu e Rachel – se bem que seria melhor rever essa sentença; aquele Jesse estava consumindo um pouco da minha raiva e estava fazendo com que eu ficasse mais irritado do que de costume.
Então, de modo geral, a noite não foi tão ruim. Certo, tiveram momentos ruins, quase todos com Kurt – não entendia o que o levava a ser tão idiota justamente na minha casa, mas eu estava mais preocupado com outras coisas, então simplesmente o ignorei na maior parte do tempo. Claro, minha mãe quis parecer toda legal com ele, como se Kurt fosse o enteado mais especial do mundo (coisa que ele nunca seria), tentando fazer todas as vontades dele exatamente como fizera na nossa viagem à Toledo. Eu não me importei. Já estava enfrentando um caso de ciúme com Rachel e este parecia ser o bastante, por enquanto.
Aproveitei a folga entre o Natal e o Ano Novo para visitar a Rachel muitas vezes e para assistirmos filmes e coisa e tal. Como estava muito frio para caminhar pelas ruas, ou fazer qualquer coisa assim, permanecer dentro da casa dela parecia ser uma boa pedida – claro que tínhamos de ouvir sobre 'fazer o favor de não fechar e/ou trancar a porta' e sobre 'será que não seria melhor se utilizássemos a TV da sala, ao invés da do quarto da Rachel?', mas Rachel conseguiu se sair muito bem diante essas indiretas, que vinham especialmente de Hiram, dizendo quase sempre a mesma coisa: "A gente vai ficar bem, pai".
Ficamos bem, aliás.
Quando estávamos sozinhos era fácil me esquecer de Jesse e do que eu vinha sentindo desde que ele entrara em nossas vidas. Eu apenas me concentrava na Rachel, nos beijos dela e no que conversávamos – que, graças a Deus, passava bem longe daquele cara. Comigo, sozinha comigo, Rachel deixava o mundo exterior também de lado – e isso era ótimo; nada de Glee, nada de Jesse. Somente eu e ela, sozinhos no quarto dela, com os pais dela indo e vindo nos averiguar de tempos e tempos, perguntando se deveriam trazer algo para nós comermos, ou qualquer coisa que parecesse uma desculpa cabível para nos interromper.
O Ano Novo foi marcado por canções alegres, porque Rachel e seus pais se juntaram à comemoração que minha mãe e Burt fizeram, de modo que Rachel, de vez em quando, não se inibia de cantar junto ao piano músicas de renovação. De certo modo, eu ficava muito aliviado por Rachel toda hora se dispor a quebrar a tensão que algumas vezes se formou. Especialmente entre mim e Kurt, porque ele era insuportável demais; falava sem limites e dava palpite em tudo – de forma que eu cheguei a me irritar com ele em vários momentos. Claro que Rachel tentava apaziguar, afinal ele era o melhor amigo dela e blablabla, mas aquela espécie de 'rixa' que eu tinha com Kurt nunca parecia se abrandar por mais de cinco minutos. Às vezes, Rachel me olhava atravessado, pois interpretava tudo como sendo a minha culpa – como se eu fosse o caçador que estivesse tentando caçar micos leões dourados. Eu não entendia, não entendia como ela podia ser tão cega. E daí que ele era o melhor amigo dela? Ele então tinha pleno direito de implicar comigo como se fosse meu irmão mais novo, ou algo assim?
Apesar dos incidentes entre mim e Kurt, a comida estava ótima e, por conta de Rachel, eu até consegui me divertir, coisa que não tinha feito na noite de Natal.
As breves férias de inverno se acabaram e deixaram a sensação de que, na verdade, eu não tinha aproveitado nada. Quando o novo semestre se iniciou, eu já estava cansado antes mesmo de me levantar da cama. Encarar o mesmo pessoal de sempre (à exceção, é claro, de Rachel e de alguns do Glee) parecia uma péssima ideia. Queria que já fossem férias de verão, assim teria mais tempo para fazer o que realmente quisesse, não somente dividir a minha casa com o insuportável do Kurt e ficar tentando ser legal com Burt toda hora. Não que ele não fosse legal, é claro. Na verdade, eu preferia encarar uma hora inteira na presença dele do que na de Kurt.
E encontrar Kurt pelos corredores da escola e no Glee, enquanto ele esbanjava hostilidade e sarcasmo parecia mil vezes pior do que já era. Não sei por quê, acho que era pelo fato de ele ter dito, na noite de Natal, que precisávamos de um decorador de verdade para a nossa casa. Ou talvez tivesse sido simplesmente porque os olhos dele pareciam ferinos em mim a todo instante. Não estava suportando conviver com aquilo.
E é claro que aqueles olhares perduraram quando as aulas retornaram. Era como se eles fossem sua marca registrada, ou algo assim. Algo que, na verdade, não havia tanto em sua característica, mas que agora se fazia presente tanto quanto as suas roupas bem passadas.
Eu não entendia. Mas não importava. Não era como se eu estivesse preocupado.
Se eu achava que Kurt era um pedra no sapato, era claro que eu estava sonhando alto. Porque a situação desesperadora aconteceu horas mais tarde, na primeira aula do Glee do semestre. Sr. Schue estava meio inspirado demais e pediu para que formássemos duplas de casais. É claro que eu e Rachel nem nos movemos, já que eu sabia que seríamos uma dupla. E foi aí que me enganei, e que Rachel soltou um "Você só pode estar brincando!". Intimamente, eu compartilhava da mesma sentença dela. Porque Sr. Schue, logo em seguida, disse que queria ver duplas que nunca tinha visto antes – e claro que eu e Rachel éramos duplas praticamente todos os dias. Por uma ordem fatídica do destino, Rachel foi destinada a fazer a tarefa com Jesse – que somente sorriu feliz como se quisesse que aquilo tivesse acontecido há muito tempo –, e eu, com Santana.
Na verdade, acho que eu já tinha cantado uma ou duas músicas com ela, antes de ela começar a brigar comigo e dizer que eu era péssimo, ou coisa parecida. Porque Santana era capaz desse tipo de coisa. Ela não era amiga de ninguém.
O burburinho se elevou num tom tão estridente que Sr. Schue gritou: "Meu Deus, parem de se comportar como crianças!".
Eu sabia que, no fundo, ele estava certo, mas não queria nunca que admitiria aquilo em voz alta. Especialmente se era obrigado a assistir a minha namorada a se juntar com o novo melhor amigo dela – ainda muito feliz – como se também tivesse desejado que aquilo acontecesse há muito tempo. No fim, ela não reclamou mais. Porque ela queria trabalhar com Jesse, ao contrário de mim que não queria nem mesmo ficar perto da Santana. Mas eu tive de ir, porque a tarefa tinha de ser feita. Tínhamos de escolher uma canção que condissesse com a lição da semana: o passado. Segundo Sr. Schue, poderia ser uma canção antiga, ou uma canção de alguma banda antiga, ou uma canção que nos remetessem ao algum fato do passado. Santana tinha escolhido a Cher. Eu tinha escolhido o U2. É claro que ela vetou na hora. Parecia que eu iria sofrer durante todos aqueles minutos, honestamente.
Olhei para Rachel e Jesse. Eles pareciam ótimos e se divertindo.
Aquilo só me provocou ainda mais.
E serviu para que eu insistisse com Santana a mudar de escolha. Ela estava taxativa, mas eu também estava.
Normalmente, quem escolhia as nossas canções era a Rachel – mas eu nunca reclamara, eu aprovava; suas escolhas eram ótimas. Mas eu queria, pelo menos uma vez, escolher uma música. Eu não era de confrontar a Rachel nesse quesito, mas sabia que com Santana poderia dar certo – ou tão errado quando um acidente com ácido sulfúrico. Era meio que tudo ou nada.
E eu apostava no tudo. Eu ganharia. Eu deveria ganhar.
"Franksteen, eu disse que não, dá pra entender? O Bono Vox fica aí cantando sobre criancinhas que precisam de comida e sobre o poder da igreja, mas eu sei muito bem que viaja de jatinho particular pra tudo que é canto. O que ele tem de mais? Ele é estúpido", Santana refutou com muita vontade.
"Santana", eu já estava perdendo a paciência. Parecia que minha paciência estava decaindo a cada dia. Não queria ver o dia em que ela desaparecesse de vez.
"Não, balofo! Chega disso!", ela retrucou com o mesmo tipo de olhar ferino de Kurt. "Caramba, eu sinceramente não sei como é que tem tantos caras doidos por você. Você é tão desagradável quanto mal-educada", eu lhe respondi. Isso resultou em seus olhos me escaneando, esquadrinhados. "Pelo menos não sou eu que aguento uma cópia mal feita da Barbra Streisand que fala pelos cotovelos e que não sabe fazer nada além de andar de mãos dadas com você pra cima e pra baixo", Santana disse com convicção e deboche. Típico comportamento dela. Rolei os olhos. "Olha aqui, a Rachel não tem nada a ver com isso", eu falei. "Ah, não? Então vai me dizer que não está aprontando essa ceninha somente para ganhar a atenção dela, já que ela parece estar se divertindo muito com aquele cara que sempre parece um porco na lama de tão feliz?", ela retorquiu, me olhando diretamente, me desafiando. Olhei para Jesse e Rachel. É, ele carregava mesmo aquela expressão de porco na lama de tão feliz. E Rachel... Meio que também. Ela parecia entretida com a tarefa. Quase como se eu estivesse junto a ela. "Isso não tem nada a ver", eu disse, depois de me focar de volta a ela. Santana riu e depois disse: "Mentiroso. Quinn me contou: você está se roendo de ciúmes! Como se aquela lá", Santana lançou um olhar de desprezo para Rachel, "merecesse algo assim".
Era a segunda vez que eu dizia isso a uma menina e aquilo não me pareceu nem um pouco legal, mas eu não pude evitar.
"Cale a boca!", eu exclamei, trincando os dentes de raiva.
Ela estava testando a minha paciência mais do que nunca. Santana sempre fora irritante, mas acho que não a ponto de alguém do time de futebol lhe mandar fechar a boca. Mas lá estava eu sendo o primeiro a lhe mandar. E, tal como Quinn, Santana não pareceu nem um pouco abalada por aquilo. Meramente soltou outro risinho. "Olha aqui", repeti, repentinamente sentindo meus dedos das mãos tremerem devido à raiva. Agarrei o antebraço dela com nenhum esforço e me acheguei mais perto dela para sussurrar: "Se você quer se mostrar uma filha da mãe para todo mundo, vá em frente. Mas não pense que não sei que, por debaixo de toda essa amargura toda, você esconde segredos tão sujos quanto o Rio Citarum".
Ela logo tentou se desvencilhar de mim, fazendo uma cara de quem estava tão irritada quanto eu. "O que você quer dizer, Finn Hudson?", ela perguntou, dando uma puxada em seu antebraço; eu a liberei com um misto de vitória e felicidade dentro de mim. "Eu sei sobre você e a Brittany. Ela é tão inocente quanto um coelho a ponto de ficar pelos cantos comentando para todo mundo que vocês são amigas aqui na escola e que, de noite, fazem muito mais do que apenas uma festa do pijama", eu lhe contei com o sentimento de vitória na minha boca mais do que nunca. Pronto, agora ela calaria a boca dela!
Ou não.
E foi exatamente isso que aconteceu. Isso só serviu para adicionar mais calor à nossa discussão. Santana expôs uma expressão que dava um pouco de medo: seus dentes estavam meio arregalados e seus olhos tinham assumido um brilha de raiva muito intenso.
"Você não pode contar a ninguém! A ninguém, está ouvindo?!", ela logo me atacou com uma voz cavernosa e alterada. Levemente, eu podia enxergar seu rosto ganhando uma coloração afogueada. "E por que eu não contaria? Não é você quem vive acusando o Kurt de ser gay e não correr atrás dos meninos? Por que não aponta o dedo para si mesma?", eu respondi.
Ela ficou em silêncio. Podia ver o seu semblante variando de raiva para o que a gente chamava de 'expressão santânica'. Ela estava com aquela expressão, de quem poderia me matar somente cravando as unhas no meu pescoço. Um fato que, na verdade, poderia acontecer se eu não saísse de perto dela naquele mesmo segundo.
Foi o que fiz.
Como ela estava irredutível quanto à nossa escolha musical, percebi que continuar aquele combate já perdido seria inútil. Abandonei a guerra, mas sabia que tinha vencido aquela batalha.
Fui me acomodar em outra cadeira, distante dela. Achei que fosse ter um pouco de paz quando percebi que ela tinha se levantado cheia de ira. Ela olhava para mim com parecendo ser mortal.
"Tá bom, querem saber?", ela, de repente, gritou, chamando a atenção de todo mundo. Sr. Schue abriu a boca para pedir que se recompusesse bem na hora em que ela tornou a falar, ainda gritando: "Vocês todos são uns perdedores! Vocês se acham melhores que os populares só porque fazem parte dessa merda desse clube! E esse cara, meu Deus, esse cara!", ela apontou para mim; eu fiquei surpreso. "O Finn é a pessoa mais ridícula que eu já encontrei na minha vida! Rachel, sabia que ele está achando que você está transando com o Sr. Sorriso Feliz aí? É verdade, não é, Finn? Diga a ela! Diga que não suporta vê-la longe de você, porque acha que ela sabe muito mais de sexo do que realmente sabe e que está praticando com alguém que não é você!".
Todo mundo ficou bem sem reação por alguns segundos após isso.
Pareciam ter sido sentenças realmente fortes.
Mas era claro que para alguém como Santana aquilo não era nada de mais.
A primeira pessoa para quem olhei foi Rachel. Eu me sentia como se todo o sangue do meu rosto tivesse fugido dele. Abri a boca, com a intenção de negar tudo, mas Rachel foi mais rápida.
"O quê?", ela parecia extremamente confusa, vacilante e boquiaberta.
Tudo que Santana fez, entretanto, foi rir.
"Santana, eu realmente preciso pedir para que você se ret...", Sr. Schue, tão surpreso quanto o resto de nós, começou a dizer. Ela, claro, o interrompeu: "Não precisa nem completar a frase. Estou indo para longe desses bitolados agora mesmo". Então, com passos firmes ela se foi. Mercedes foi a primeira a sussurrar: "Ela nos chamou de bitolados?".
Sr. Schue olhou para mim. Eu não sabia o que dizer. Olhei para Rachel: ela olhava para mim como se não estivesse acreditando em nada daquilo. Mas eu sabia que estava. Ela abriu a boca diversas vezes, mas nenhum som saiu. A sala continuava em silêncio absoluto.
"Ahn...", Jesse se pronunciou. Só de ouvir sua voz dava vontade de jogá-lo da escada. "Eu vou... levar a Rachel para tomar um pouco de ar", ele disse, trocando um olhar indeciso com ela. Com a minha namorada. Sr. Schue fez um aceno de consentimento. Não acreditava naquilo, porque Rachel, sem objeção alguma, saiu da sala com Jesse. Tentei protestar, mas não sabia bem o que dizer.
"Uau", Mercedes soltou.
"Bem, vamos... Vamos nos reorganizar, ok?", Sr. Schue falou, parecendo não saber que procedência tomar. E daí olhou para mim: "Me diga que você pode consertar isso". Mas eu não sabia se era capaz. Dei de ombros. "Vá atrás dela", ele insistiu.
Eu não queria, realmente não iria suportar vê-la naquele minuto. Não depois de tudo aquilo. Eu sabia que ela poderia estar magoada ou com raiva. Mas me recordei de Jesse e logo fui tomado por um desejo avassalador de encontrá-la.
Eles, afinal, não estavam muito distantes. Estavam perto da máquina de refrigerantes, a mesma máquina da qual eu tinha pagado uma coca-cola para Rachel antes de começarmos a namorar. Eles estavam sentados no banco de madeira que tinha ali perto. Meus olhos voaram para seus gestos, mas nada de esquisito acontecia. Jesse falava com tom conciliador com ela, enquanto ela permanecia em silêncio, meio recurvada, como se estivesse prestes a vomitar. Aproximei-me meio receoso. Por sorte, Jesse ergueu o olhar e me vi ali parado. Ele trocou um olhar esquisito comigo. Parecia uma advertência misturada com censura.
"Rach?", perguntei.
Sem olhar para mim, ela falou numa voz fraca: "Ah, meu Deus. Não me diga que você está aqui para confirmar tudo que ouvi".
Não era minha intenção, de qualquer modo.
"Jesse, será que...", eu deixei a frase no ar, mas ele sabia sobre o que eu me referia e se levantou. Eu queria ficar a sós com ela. Rachel não disse nada, e Jesse saiu caminhando pelo corredor. Sentei-me ao seu lado; ela escorregou para longe de mim. "Saia daqui, por favor", sua voz parecia meio tremida, como se estivesse segurando o choro.
"Eu estou com ciúmes de você, tá legal?", eu comecei, achando que era melhor confessar de uma vez. "Mas não acho que você está... Hm, fazendo qualquer coisa além de cantar com o Jesse".
"Você está mentindo", ela sussurrou.
"Não estou, ok? É sério, não estou. É, eu estava preocupado com a proximidade de vocês, mas eu sei que você nunca faria isso. Você nunca me trairia".
"É bom estar ciente disso", ela respondeu.
"A Santana só queria descontar em nós o dia ruim que está tendo. Você sabe como ela pode fazer essas coisas", falei. Rachel balançou a cabeça. "Mas ela está certa, não está?".
"Sobre...?"
Ela deu de ombros, parecendo se encolher. "Sobre eu não saber nada sobre... aquilo. Eu não sei. E eu nunca gostaria de aprender com qualquer outra pessoa além de você".
"Está vendo? Eu sei disso", eu lhe assegurei.
Eu sabia que aquela conversa estava se distanciando de tudo o que realmente tinha acontecido para algo que dizia respeito a nós. Por isso, eu meio que afaguei as suas costas, tentando fazê-la parar de ficar naquela posição. Ela não olhava para mim e aquilo parecia ser uma nova tortura.
Houve um pouco de silêncio. Nem eu, nem ela dizemos algo. Ouvia-a respirar meio pesado. "Olha, eu não posso mudar quem e como sou. Se você me ama tanto quanto diz, vai ter que me aceitar como sou, inteira, inclusive as coisas ruins", de repente ela disse, ainda sem olhar para mim. "Eu sei que você é virgem, e daí? Desde quando isso é uma coisa ruim?", perguntei. Ela deu de ombros mais uma vez, dizendo: "Seria mais fácil se eu não fosse".
"É, talvez, sim. Mas isso quer dizer que seria bom, ou melhor?".
Dessa vez, ela ergueu o olhar, encontrando o meu. Ela parecia mais séria que se costume. "Por que você sempre consegue complicar essas nossas conversas?", ela quis saber, num tom neutro. Pensei no assunto por dois segundos e disse: "Não sei. Acho que gosto de ver você sabendo que estou com a razão e depois sorrindo por causa disso". Alguns segundos se passaram e eu percebi um sorriso meio disfarçado nos cantos dos lábios dela. "Como agora", acusei-a, menos infeliz.
Ela abaixou o olhar rapidamente e juntou nossas mãos.
"Você sempre sabe me fazer sentir melhor. Obrigada".
Não tinha nada a lhe dizer, por isso beijei o topo de sua cabeça.
ÊÊÊ, MAIS UM CAPÍTULO PRONTINHO! *-*
Decidi colocar o Jesse na história, primeiro porque eu gosto de criar problemas pros protagonistas HAHA, e segundo, porque eu gosto bastante do Jesse, na série. Quinn, como sempre, sendo uma ~bitch~ e Santana também.
Já comentei como eu AMO os comentários de vocês? Os enoooormes são os meus preferidos, sério! Adoro gente que surta com a mesma emoção que eu quando escrevo! Muito obrigada mesmo pelo feedback, vocês são uns amores! (((:
Love, Nina.
