Parte I – To Love You More (Celine Dion)
A onda de estresse, pelo menos causada por Finn, se abrandou. Depois daquela música e da nossa breve conversa, nós nos adaptamos um ao outro do melhor modo possível. Às vezes, eu cedia um pouco; às vezes, ele se policiava por conta própria, e eu não precisei mais interferir nos nossos momentos a sós.
Eu sempre temi que as nossas diferenças nos atrapalhassem de algum modo. E, pelo visto, eu estava certa. Mas agora que toda a nossa primeira crise tinha sido superada, eu começava a enxergar o que realmente poderia ser chamado de A Maior Crise Desde 29.
Porque, querendo ou não, nós estávamos nos afundando novamente em outra depressão em nosso namoro. Felizmente, nada tinha a ver com os dedos dele debaixo do meu sutiã. Mas eu temia que os dedos dele fossem parar em outro sutiã que não era meu.
E você sabe de que estou falando.
É claro que Quinn estava em cima dele, ainda. Mais do que nunca, depois que percebeu que a nossa primeira crise tinha sido esquecida. Ela se insinuava para ele até mesmo na minha frente, e aquilo estava ficando bastante insuportável. Eu não sabia qual era o seu problema de aceitar que, dessa vez, tinha perdido. Ela vivia dizendo que eu não venceria sempre, mas será que não passava por sua cabeça que, enquanto eu não era uma das meninas mais populares da escola como ela – e isso significava muito para alguém como ela – pelo menos não era uma completa fracassada por ter um namorado? Por que não poderia arranjar um namorado por conta própria, sem ficar de olho nos namorados alheios? E o fato de Finn ter sido seu namorado em outrora não lhe dava o direito de querer tê-lo de volta! Eu estava com ele, agora. E se assim o destino quisesse, ficaríamos juntos por um longo tempo. Não era trabalho dela interferir! Ela era como uma maldição na minha vida. Acho que sempre foi, eu que nunca me flagrei disso.
Como fui burra.
É claro que alguém como Quinn não seria amiga para sempre de alguém como eu. Éramos completamente diferentes. Nunca caminhamos juntas. E não seria justamente agora, já crescidas, que isso se concretizaria. Ela se preocupava muito mais com a aparência, enquanto eu podia ser não tão bonita assim e continuar a minha vida. Porque, sabe como é, a Broadway raramente se preocupada verdadeiramente com a beleza. Não quando você tem uma voz.
E eu tinha isso. Uma voz, quero dizer. Eu sabia cantar. E sabia também que teria Finn para mim por muito tempo.
Bastava que ele parasse de dar corda para o falatório de Quinn.
Será que ele não se dava conta que ele estava provocando também?
E daí que ele dissesse que eles eram amigos? Não erma amigos coisa nenhuma! Não, enquanto Quinn esperava muito mais do que amizade! Por que ele não enxergava isso? Será que ele não sabia que Quinn o estava caçando? Será que não sabia que eu ficava morrendo de raiva sempre que eles se juntavam?
E por que – POR QUE – ele não fazia absolutamente nada para repeli-la?
Eu estava odiando o nosso sexto mês juntos. Se o quinto já fora um inferno, o sexto estava beirando à loucura. Eu estava prestes a enlouquecer de tanto ciúme, falando sério.
Porque eu não entendia nada do que estava acontecendo. E pior, eu ficava por perto para assistir. Achava que, sabe como é, ele fosse perceber que estava provocando tudo aquilo também, que era tão culpado quanto ela, por isso eu não dizia praticamente nada sobre aquilo. Evitava debater o assunto Quinn Fabray. Porque só de mencioná-la tinha vontade de esgoelá-la. Meu Deus, ela era um vaca.
Por isso – acho que foi toda a minha loucura espontânea falando mais alto –, eu procurei Kurt. Já tinha debatido o assunto com Mercedes, e ela tinha concordado comigo: Quinn estava testando a minha paciência. E era uma vaca, claro.
Eu sabia que a minha relação com Kurt, desde a viagem à Toledo estava meio esquisita e desgastada, por conta do meu namoro com Finn, mas eu não tinha alternativa. Era tudo ou nada. E eu optei conversar com ele. Quem soubesse, eu fosse entendê-lo melhor, também. Entender por que odiava – porque essa era a única coisa na qual eu pensava ser possível – meu namorado e por que não o aprovava junto a mim. Quer dizer, quem Kurt pensava que era? Finn era do Glee, todo mundo o conhecia! E ele era uma ótima pessoa, com um ótimo coração – era bem mais altruísta que eu, que sempre fui conhecida como a egoísta e a ególatra. Então eu não entendia o porquê daquele comportamento ridículo de Kurt.
Kurt sempre fora tão meigo com todo mundo! Por que estava tão detestável, inclusive comigo, que, supostamente, era sua melhor amiga?
Tive de me despedir de Finn à caminho da mesa de almoço e seguir Kurt até o corredor. Não sabia por quê, mas ele estava saindo do refeitório antes mesmo de ter tocado em seu prato. E, ainda que eu estivesse com fome, não me detive em ir atrás dele. Amizade em primeiro lugar, eu achava.
"Hey, Kurt, espera aí", eu pedi. Kurt estava a uns bons dez passos de mim, mas virou-se para mim. Sua expressão calma deu lugar à uma que se assemelhava com aborrecimento. Era disso que eu falava. Ele estava aborrecido até mesmo comigo, que sempre o defendia de todo mundo! O que estava havendo, afinal? "Ah, oi", ele me cumprimentou como se tivesse apenas passado um fim de semana sem nos falar. A verdade era que não mantínhamos um diálogo longo há pelo menos dois meses. E, verdade fosse dita, eu sentia falta daquilo. De tê-lo na minha casa nos fins de semana, e tal. Mas é claro que eu meio que tinha trocado os fins de semana na casa dos amigos para ficar com Finn. Meus pais não tinham liberado Finn para dormir lá na minha casa, nem eu na dele, mas Finn e eu gastávamos nosso tempo até o final da noite como qualquer casal. E agora que o assunto 'sexo' já estava meio longe – mas ao mesmo tempo muito perto, já que eu tinha aprendido a relaxar um pouco – nossos fins de semana estavam cada vez mais semelhantes à qualquer outro fim de semana na casa do namorado(a). Meus pais não nos supervisionavam com tanta frequência, e aquilo começou a se tornar bem melhor. Ainda assim. Ainda assim, eu sentia falta de Kurt. Porque é difícil se acostumar a não ter mais seu melhor amigo por perto.
"Oi", falei, sorrindo. Achei que isso fosse animá-lo um pouco. Mas sua expressão continuava anuviada. "Será que você tem um tempinho?", perguntei. Ele me olhou longamente antes de me dizer: "Olha, Rachel, se a gente vai brigar por causa do Finn...", mas é claro que eu logo o cortei, negando com a cabeça. "Não, nada sobre o Finn. Bem, não diretamente. É só... Lembra quando a gente fazia confidências um ao outro sobre nossos problemas? Então, eu apenas...", minha voz morreu diante de seus olhos que rolavam. "Entendi. Você está com um problema e quer que eu o resolva. Muito amigo da sua parte, já que você tem estado ao meu lado todo o tempo para me ajudar a solucionar os meus próprios problemas!", ele retrucou com desdenho. "Kurt... Bem, você nunca me procurou realmente para me falar de seus outros problemas além do habitual. Como eu poderia saber? Mas nós podemos totalmente falar sobre você, depois de falarmos sobre...", eu estava prestes a concluir a minha sentença quando Kurt me cortou: "Certo. É claro que os seus problemas vêm em primeiro lugar, afinal sempre foi assim".
Comecei a me sentir meio idiota ali, na frente dele.
Sem contar um pouco da raiva que começava a se acumular. Por que ele tinha de ser tão duro assim comigo? Ele nunca tinha namorado alguém, não sabia da responsabilidade que era manter um relacionamento! É claro que eu tinha de dar atenção ao Finn, também. A minha vida, afinal de contas, não se resumia apenas à Kurt. O que ele pensava, que eu viveria através dele? "Kurt, quer parar de me atacar? Eu estou aqui como sua amiga também! Quer resolver primeiro os seus problemas? Por mim, tudo bem! Quer começar por qual? Pelo fato de você estar com ciúmes de eu ter um namorado? Ou talvez pelo fato de ficar escondendo que gosta de meninos ao invés de contar esse segredo a mim, que sou sua melhor amiga?! Pelo menos costumava ser...", vociferei com raiva. Eu deveria ter sido mais delicada, mais compreensiva, mas ele não me dava brecha para agir de modo menos raivoso. Pude ler em seu rosto que, pela primeira vez durante todo aquele tempo, ele não tinha nada a me retrucar. Ele simplesmente ficou na minha frente com a boca entreaberta, olhando-me como se tivesse sido atingido por um meteoro. Estiquei o braço e toquei o dele.
"É meio óbvio, sabe?", respondi meio constrangida, mas sem saber o que dizer realmente. Sobre o fato de ele se interessar por meninos, quer dizer. "Se você quer conversar comigo para me ofender, Rachel, eu realmente não faço ideia do porquê ainda estou aqui", Kurt retorquiu, depois, se afastando de mim um passo com o olhar zangado. "É claro que não quero ofendê-lo! Eu apenas achei que fosse melhor lhe contar que eu e mais da metade da população do McKinley já sabe do seu segredo", respondi. Observei sua expressão zangada e percebi que, na verdade, aquilo tudo era apenas uma reação de autodefesa. "Você não precisa se esconder. Nós do Glee gostamos de você do modo que é", afirmei. "E o Glee é o refúgio de todos nós, todos nós podemos ser quem quisermos lá dentro. Eu realmente não sei por que nunca me contou, você sabe que eu nunca poderia dizer algo contra isso. Meus pais são gays, e eu os amo do jeito que são. E amo você, também", terminei, chegando mais perto dele. "Eu sei que você tem vivido meio solitário, mas não está sozinho, ok? Eu estou aqui, sempre estive. Eu sinto muito se o meu namoro com Finn atrapalhou a nossa amizade e a sua confiança em mim. Eu meio que... Meio que sinto a sua falta", confessei com o meu tom um pouco mais baixo que o normal, mas não era porque estava com medo que ele escutasse, era porque eu estava com vergonha de mim mesma. Como pude ser tão relapsa e deixá-lo nadar sozinho naquele mar infestado de tubarões sanguinários?
Por alguns segundos, nem eu nem ele nos movemos. E daí, quando achei que ele fosse dar na minha cara, ou algo assim, ele me abraçou. "Eu amo você, Rachel. Senti sua falta também", ele me disse perto da minha orelha.
Eu e Kurt tínhamos quase a mesma altura e éramos ambos magros, de modo que nos acomodávamos bem. Por isso, eu o apertei contra mim, porque sentir falta do seu melhor amigo é algo que vai querer fazer isso um dia. Abraçá-lo apertado, como se isso fosse o melhor pedido de desculpas do mundo. E, de certo modo, é sim.
"Ah, pelo amor de Deus, parem com isso. Acho que vou vomitar toda a minha salada", ouvi a voz da Quinn atrás de mim. Será que até isso ela estava a fim de destruir? Liberei Kurt, e ficamos encarando-a. "Isso se chama amizade, sabe, Quinn. Acho que já baniu essa palavra do seu dialeto há algum tempo, não é mesmo?", Kurt, afiado como sempre, respondeu. Ai, meu Deus. Como eu sentia falta disso! Obrigada, Kurt, obrigada! "Eu era uma criança. Crianças são meio burras, sabe como é. Se eu soubesse que faria amizade com dois fracassados, com certeza eu teria pensado duas vezes antes de falar com você", Quinn olhou par kurt com desprezo. É claro que, na verdade, fora Quinn quem fizera amizade com Kurt primeiro. Eu fui o terceiro elemento, a última. "Escuta aqui", eu falei, perdendo a paciência. Será que até a minha relação com Kurt ela queria tripudiar? "Ah, Rachel", ela rolou os olhos castanho-esverdeados. "Guarde as suas palavras para si mesma, tá legal? Ou melhor, guarde para depois que Finn decidir ficar comigo. Porque isso está a um passo de acontecer", Quinn falou, meio que mudando de tática. Ela sabia exatamente onde me acertar para me ferir. Como eu a odiava! Por que não desaparecia, por Deus?
"Eu não ficaria tão exultante", respondi. "Porque, caso você seja meio cega, ele está comigo".
"É, mas não por muito tempo. Eu ainda sei que ele acha que você está indo pra cama com o Sorriso Feliz. E que a ação entre vocês está é nula", ela retrucou.
Ah, certo.
Como se isso encerrasse o assunto. Quem ela pensa que era? Ou melhor, o que achava que poderia fazer?
Nada.
Finn nunca iria pra cama com ela, estando comigo. Porque nós estamos indo bem no quesito 'ação'. Se todo o estresse é retirado de cima de você, aos poucos, você percebe que, na verdade, um pouco mais de contato não é tão ruim assim. É claro que nunca tínhamos ido tão longe, nada do tipo 'eu mostro o meu se você mostrar o seu'. Mas, é, estávamos nos permitindo progressivamente, à medida que a minha vergonha desaparecia e todo o pavor também. Porque, acredite ou não, as coisas na vida real são completamente diferentes dos livros. Elas não acontecem num piscar de olhos. Porque as pessoas fazem outras coisas além de transar. Acontece bem assim, eu te garanto. E as pessoas pensam em sexo com bem menos frequência do que você pode imaginar.
"Ele não acha nada disso! Ele sabe que eu...", comecei a responder com a voz meio alta, porque ela já estava me dando nos nervos. "Não, não sabe. Pense bem, se você não libera com ele, com certeza é porque está liberando com outro alguém. Faz sentido. Então, você está mesmo transando com o Sr. James? É uma vergonha", ela disse, rindo ao final. "Isso só diz respeito a mim e ao meu namorado, dá licença", falei, com raiva. "Ele vai acabar se cansando. Como todos".
Eu realmente odiava aquela generalização dela. Porque, muito claramente, ela não conhecia nem um pouco o garoto por quem estava relativamente apaixonada. Ou o garoto que queria em sua cama. Que seja. Ela não conhecia Finn. Não fora para ela que ele dissera que não sabia o que ser no futuro. E não estava sendo com ela que ele estava dividindo a vida. Ela não sabia nada sobre Finn.
"Cale a boca, você nem sabe o que está dizendo! Finn não é nada parecido com o tipo de garoto ao qual você está acostumada a ir pra cama, entendeu?", respondi, com ainda mais raiva. Era tanta a raiva que eu poderia ter dado na cara dela. Prevendo o pior, tentei tomar as rédeas da situação. Peguei a mão de Kurt e o puxei. Passamos por Quinn, e por uns dois segundo achei que tinha controlado a raiva dentro de mim, quando pude ouvir Quinn dizer: "Eu sou o primeiro amor dele, Rachel. Você não pode mudar isso".
Olhei para Kurt prestes a me virar, acho que para partir de uma vez para cima dela, mas ele me deteve. "Não vale a pena, vamos logo. Estou morrendo de fome".
E entramos novamente para o refeitório.
Foi a decisão mais sábia daquela tarde, ter deixado aquele assunto morrer. Por ora, é claro.
Minutos se passaram desde que eu e Kurt nos alojamos na mesa que Finn dividia com Puck. É claro que nem Kurt nem Finn ficaram propriamente felizes por aquela junção, afinal Kurt nunca tinha almoçado conosco, mas eu tentei ignorar aquilo.
E foi fácil
Foi fácil, porque eu tinha mais coisas com as quais me preocupar.
Do tipo: Quinn Fabray. Mais uma vez.
Não sei o que deu nela, acho que foi o fato de ter percebido que eu sempre estava um passo à sua frente quando o assunto era o Finn, mas de repente ela sentou-se na nossa mesa. Assim, do nada mesmo. E começou a tagarelar como se fosse eu. Porque é claro que quem tinha a mania de falar sem parar era eu, sempre fora eu.
Para complicar as coisas, ao invés de ter sentado em qualquer lugar – qualquer mesmo, até ao lado de Puckerman – ela escolheu a cadeira desocupada ao lado de Finn. É claro que eu estava ao lado dele também, porque eu sempre me sentava ao seu lado em qualquer lugar. Mas ela? Ela não tinha o direito! Olhei sem paciência alguma para os dois – para Quinn e Finn, digo – e depois troquei um olhar com Kurt. Ele fez uma careta discreta e deu de ombros, como que dizendo que não podia fazer nada. Mas se ele não podia fazer nada, eu podia. E o faria naquele exato momento.
Levantei-me da cadeira, arrastei-a pelo chão e deixei meu prato para trás. Assim, exatamente desse jeito.
Saí do refeitório até mesmo calmamente para alguém que estava explodindo de raiva por dentro, falando sério. Eu deveria ter ganhado um prêmio de reconhecimento por tal atuação.
Fui para o único lugar que eu sabia que poderia me acalmar, que era o Glee. A sala do Glee meio que ficava aberta sempre, para medidas de emergência como esta, eu acho. Ou sei lá, não importava. Pelo menos eu poderia me adentrar lá, fechar a porta e curtir um pouco umas notas musicais que abrandariam a minha raiva.
Sentei-me no piano, sem saber por onde começar. Eu não queria chorar, mas a raiva era tanta que em poucos segundos percebi que as lágrimas pediam passagem.
Eu só queria que a Quinn desaparecesse.
Que Finn me desse conta que, por mais que tivéssemos problemas, eu estava ali por ele. De um modo que Quinn nunca estaria. Será que eu estava pedindo tanto assim que afastasse aquela garota para longe para que tivéssemos um pouco de sossego?
É, acho que não.
Mesmo sem estar no meu melhor estado e mesmo meio contra a vontade, comecei a tocar a melodia de To Love You More, porque foi a única que apareceu na minha mente naquele momento. E, em seguida, mesmo com a minha voz meio falhada, cantei a canção.
Fiquei em silêncio, depois. Não chorei mais, porque não havia mais necessidade. E daí, quando estava prestes a ir decidir que passaria o restante do almoço ali, sentada em uma das cadeiras apenas observando a lição da semana, a porta se abriu.
Não olhei para ele, fiquei de costas, ainda sentada no banquinho defronte ao piano.
"Não sei se quero falar com você, caso seja por isso que esteja aqui. Não quero brigar. Parte de mim sabe que não tenho razão por querer isso, mas a outra parte precisa da briga. Porque acho que você tem que acordar uma hora, entende?", perguntei, suspirando. Ele nunca ficaria sabendo que tinha chorado por conta daquilo, se dependesse de mim, por isso fiz o possível para impedir que mais lágrimas viessem. "Você poderia lidar com ela de outra maneira, você sabe que poderia. Não fazer nada e deixar que as coisas tomem seus próprios rumos também me atinge. Muita coisa poderia ser evitada se você tomasse uma atitude, se dissesse um simples não", falei agora frente a frente com ele, sustentando seu olhar. Finn permaneceu calado, somente ali, como se estivesse me averiguando inteira à procura das minhas ranhuras. Caminhei até a porta e antes de sair dali, completei: "Como perder a sua namorada, por exemplo".
Ele não foi atrás de mim, como na maior parte das outras vezes. Ele simplesmente me deixou ir, e isso meio que quebrou o meu coração, pois ali estava um sinal claro do quanto ele parecia não se importar nem um pouco com os efeitos daquela situação.
No sábado de manhã, eu acordei com uma nova perspectiva de vida. Ou melhor, um novo objetivo de vida. Eu sabia que Finn passaria a tarde comigo, e estaríamos à sós em casa, porque Hiram iria jogar golfe com um amigo e, ainda que Leroy estivesse desanimado quanto a isso, seria arrastado para o jogo. Era uma ótima oportunidade. Hiram adorava golfe e, por isso, sempre demorava um pouco para aparecer. Meus planos somente não funcionariam se eles brigassem, ou Leroy declarasse uma guerra contra Hiram (o que era um pouco provável). Do contrário, eu estava livre para aproveitar a minha tarde com Finn.
Você pode dizer que foi num momento de desespero que decidi dar andamento à ao dilema 'Transar ou não, eis a questão'. Mas a verdade é que eu tinha passado quase que metade da madrugada acordada pensando nisso. Nos prós e nos contras. E no por que eu estava sacrificando a minha virgindade em nome do amor. Quer dizer, eu estava sendo nobre, pelo amor de Deus! Tem gente que sacrifica a virgindade por muito menos!
Eu tinha acabado de tirar a mesa do almoço. Lavei a louça, já que estava em casa sozinha, e subi para o meu quarto. Eu sabia que Kurt estaria em casa, porque quem cozinha de fim de semana na casa dos Hummel é Kurt; acho que e uma tentativa de agradar Burt, não sabia. Mas a questão era: era hora de confessar que, dali a algumas horas, eu não seria mais a última virgem do Glee. E, pra falar a verdade, aquilo era completamente animador.
"Hey!", eu exclamei, quando ele respondeu no terceiro toque. "O que você acabou de comer para tanta energia?", ele perguntou. "Nada de mais, oras", respondi. "Hmmm. O que você quer? Quer dizer, você me ligava quando tinha algum problema. Qual é o problema dessa vez?", ele inquiriu, parecendo realmente curioso.
Não sei por quê, mas a ideia de contar a ele o que estava prestes a acontecer começou a me embrulhar o estômago. Faltava quase uma hora para Finn aparecer, e parecia que eu já estava passando mal por antecipação. Eu sabia que aquilo não tinha de acontecer, mas não conseguia evitar. Perder a virgindade não é como furar a orelha. É um grande passo na vida de uma menina.
"O que aconteceu? Parece que você está passando mal", Kurt indagou, parecendo ler a minha mente. Ai, meu Deus. Eu estava mesmo passando mal! Mas achei melhor não prolongar o inevitável, por isso desembuchei: "Vai acontecer hoje. Entre mim e Finn, quero dizer". Kurt ficou em silêncio por alguns segundos. "Vocês chegaram a conversar?", ele quis saber. Era isso que preocupava ele? "Não", revelei tentando não fazer da situação algo do tipo 'vida ou morte', porque na verdade não havia razão para tal alarde. "Eu decidi isso ontem à noite. Você sabe, esse tipo de coisa faz parte até mesmo dos filmes mais românticos, então por que eu deveria adiar?", continuei, falando meio nervosa. "Fala sério, isso é por causa da Quinn? Porque você não pode decidir fazer uma coisa dessas por conta de algo tão besta. E sem levar em conta os prós e contras", ele falou, bastante sério. Obrigada, Deus, pelo meu melhor amigo ser gay e entender praticamente tudo do que eu digo! "Nós sabemos que você não está preparada para isso, se está fazendo isso somente para manter o Finn contigo mais um pouco", Kurt continuou, parecendo veemente.
Mas ele estava me deixando nervosa ainda mais. Por que simplesmente não dizia 'Ok, boa sorte. E use camisinha'?
"Quer parar de pisotear no único resquício de coragem que ainda me resta?", perguntei com dificuldade.
"Está vendo? Você não pode fazer isso. É irresponsabilidade, além do fato de você não estar raciocinando direito e de não estar sendo verdadeiramente sincera consigo mesma", Kurt afirmou, como se estivesse dentro da minha mente. Talvez ele estivesse. "Rachel, falando sério, você está hiperventilando, estou escutando daqui. Ir para a cama com Finn não vai mudar nada, dá pra entender? E fazer isso somente por conta da Quinn é uma tremenda infantilidade", ele prosseguiu, notando que eu não tinha condições de dizer nada. Era verdade, eu estava hipeventilando! Ai, meu Deus! Não iria conseguir ir até o fim se esse negócio não parasse! Mas eu tinha de responder alguma coisa a ele. Disse – o que não foi nada sábio da minha parte –: "Argh, quer parar de tentar me fazer retroceder nessa decisão?".
"Por quê? Acha que eu conseguiria?", ele quis saber.
"Não, não conseguiria, porque já fiz a minha cabeça. Vai acontecer e pronto", percebi que mentir seria o ideal. Quer dizer, às vezes temos de mentir para os nossos melhores amigos. Faz parte da vida.
Desligamos, e eu fiquei deitada na cama, olhando para o teto, me sentindo enjoada.
Parte II – You're Too Possessive (Joan Jett)
É claro que eu tinha que ter percebido de cara. Porque tinha alguma coisa errada. Totalmente errada, pra falar a verdade.
Estávamos sozinhos, somente eu e Rachel em sua casa, e ela não demorou nadinha para me fazer subir até seu quarto e fechar a porta.
Fechar a porta, dá pra entender?
Isso nunca tinha acontecido antes. E eu era observador demais para não me dar conta disso.
Estávamos nós dois sozinhos no quarto dela. E, logo depois, ela sentou-se na cama, escorada na parede, e me fez juntar a ela. Como se todos os fins de semana tivessem essa procedência. O que era, claramente, uma ilusão.
Rachel não conversou quase nada e me puxou para ela – isso também era meio inédito, já que todas as vezes era eu quem a puxava para perto de mim. Eu deveria ter perguntado se não assistiríamos à reprise de Saturday Night Live, é claro. Mas não o fiz.
Ela suspirou contra mim e me beijou. Não um beijo qualquer, esse tinha um propósito meio diferente, era muito mais apaixonado e muito mais profundo que todos os outros. É justo dizer que ela me ganhou exatamente com aquele beijo. Quando nos separamos, ela sorriu para mim. Eu sorri de volta, e depois a envolvi mais uma vez em outro beijo, agora bem mais íntimo, porque era assim que eu me sentia quando momentos assim – que eram raros – aconteciam entre nós: como se eu fosse dono dela e devesse ensinar a ela como as coisas aconteciam. Em pouco tempo, eu já podia sentir a minha excitação crescendo, porque pela primeira vez aquilo que eu desejava há pelo menos um mês estava prestes a acontecer. Mal dava para acreditar, de fato.
"Tem certeza?", eu me ouvi respirando contra ela, quando quebrei o último beijo. Abri os olhos, e ela também. Rachel parecia meio confusa, e eu podia sentir um pouco de precipitação em tudo que estava acontecendo entre nós, inclusive em seus movimentos. "De quê?", ela perguntou, tentando retomar o beijo. Mas eu me afastei um pouco, para olhá-la melhor. "Tudo indica que não ficaremos apenas nos beijos. Você quer isso mesmo?", perguntei.
"Por que você sempre tem que perguntar se eu estou de acordo? E se a minha concordância for somente o que acontece depois da nossa conversa?", Rachel falou, ansiosa. Meu Deus, acho que nunca tinha visto tão ansiosa. Ela respirava rápido demais, mesmo que nosso beijo tivesse sido realmente animado. "Não quero conversar, está bem? A gente pode simplesmente seguir em frente, sem parar", ela disse. Fiquei meio surpreso, é preciso dizer. Porque ela nunca tinha dado indícios que estava a fim de prosseguir; tudo o que normalmente fazia era desacelerar. Mesmo que, agora, estivesse se permitindo algumas coisas, ela sempre me dizia quando devíamos parar.
"Você tem certeza disso? Porque, nesse exato momento, parece que você está tendo um ataque de ansiedade bem na minha frente", comentei. A minha excitação estava cedendo, mas eu não estava me importando. Que se danasse aquilo. Rachel parecia estar prestes a sair correndo, ainda que sua fingida atitude dissesse o contrário. Eu sabia que aquilo era meio que um fingimento. Porque em todas as outras vezes ela estava convencida que o melhor era esperar pelo momento certo. E, por mais que aquele parecesse o momento certo, claramente não era. "É só que não quero que isso aconteça pelos motivos errados. Como, por exemplo, porque você acha que se fizermos isso, a Quinn vai parar de me assediar", eu disse.
Ela se ajeitou melhor na cama, me olhando. Ela parecia meio chocada.
Tá legal, eu sabia que ela estava se forçando ao limite somente para esfregar na cara de Quinn que, de algum modo, eu estaria preso a ela para sempre. Só que, bem. Não é assim. Sexo não é para sempre. Eu não ficaria para sempre com ela, só porque nós tínhamos ido para a cama. Quer dizer, é claro que eu me importava com a primeira vez dela, afinal eu seria o primeiro dela, mas será mesmo que ela podia ser tão mesquinha a ponto de pensar que podia me manipular daquele modo?
"Hm. Não, não tem nada a ver com a Quinn", ela meio que resfolegou antes de dizer. "Não tem a ver mesmo. Eu apenas me dei conta de que quero mesmo que isso aconteça", ela afirmou com um pouco mais de segurança, embora eu pudesse perceber que estivesse ficando um pouco corada e seus olhos já tinham abandonado os meus. "Você está mentindo", eu aleguei com seriedade. Isso a fez olhar para mim. Seu olhar estava meio desafiador, mas também meio chocado ainda. "Eu acabei de dizer que não quero que façamos isso pelos motivos errados. Não quero que você force uma situação somente porque se sente ameaçada", eu disse. Na mesma hora, ela retrucou com as sobrancelhas franzidas, parecendo zangada: "Eu não me sinto ameaçada! Eu apenas... Eu apenas queria que isso desse certo", eu falou. Seu tom estava mais baixo e mais agudo. Ela parecia meio magoada agora.
Certo, parecia que eu a estava rejeitando. Tudo bem, eu estava fazendo isso mesmo. Mas era para o próprio bem dela, será que ela não percebia? Ser rejeitada é muito menos doloroso do que transar com alguém que pode te dar um pé na bunda na manhã seguinte (não que eu fosse fazer isso com ela, é claro).
"Rachel", eu suspirei. Não sabia mais se estava também magoado com ela, afinal ser manipulado não é muito legal, ou se estava somente irritado. "Eu quero que isso dê certo, também. Mas não assim. Eu quero que seja melhor do que isso", eu disse. Ela assentiu; os olhos grudados na sua colcha, e a cabeça meio baixa. Era claro que ela estava se sentindo rejeitada. Mas eu tinha todo o direito! Ela estava meio que me manipulando a transar com ela, fazendo daquilo uma promessa besta! "Não fique chateada", pedi colocando a minha mão em cima da dela. Rachel não se moveu e continuou na mesma posição, ainda sem me encarar. "Podemos tentar em outras ocasiões, num dia que você realmente estiver preparada para enfrentar isso", afirmei.
Talvez estivesse brava consigo mesma, pelo seu plano não ter dado certo. Mas, agora, ela parecia bem mais magoada e envergonhada.
Ajeitei-me de um modo que conseguisse puxá-la para o meu colo. "Não, pare com isso", ela mandou. "Sério que você vai preferir ficar brava a aceitar o meu consolo?", perguntei, surpreso novamente.
Rachel era uma caixinha de surpresas.
"Não quero seu consolo. Você pode ir embora, se preferir", ela disse.
Pisquei para ela.
"Não quero ir embora, tá legal? Quero ficar aqui com você. Não fique chateada, ok?", pedi mais uma vez. "Só não acho que seria um momento legal", falei.
"Seria, mas você arruinou tudo!", ela exclamou. Seu olhar subiu até o meu, e pude enxergar seus olhos meio brilhantes, mais do que o habitual. E seu tom estava meio raivoso. "Rachel", eu proferi seu nome como se fosse uma súplica. Eu realmente não estava a fim de brigar.
"Vai embora. Por favor. Eu realmente quero ficar sozinha", ela pediu. Seu tom voltou a ficar baixo e mais rouco. Era melhor do que antes, ao menos.
"Posso te ligar depois?", perguntei.
"Não sei", ela respondeu.
É claro que eu saí de lá. Mais pela minha própria segurança do que por conta de qualquer outra coisa. Eu realmente não queria brigar com ela. Porque, se brigasse, acho que uma música bonita seria insuficiente para consertar as coisas.
Eu acabei ligando para ela, é claro. Rachel ainda parecia meio magoada, com raiva e envergonhada e a ligação não durou muito, mas foi o suficiente para que eu soubesse que, apesar dos últimos acontecimentos, estávamos bem. E, pensando bem, ela tinha razão para ficar com raiva daquela situação que Quinn tinha criado. Só esperava que eu fizesse algo. Talvez eu devesse mesmo fazer.
Tive de fazer, é claro.
Na tarde seguinte, nosso grupo, como usual, se reuniu no boliche, e eu percebi que era o momento propício para ter uma conversa definitiva com Quinn. Porque não queria mais que Rachel forçasse as coisas daquele modo tão desesperado, como se não tivesse alternativa – e, talvez, realmente não tivesse. Ela estava tentando salvar o nosso namoro de um modo que eu não tinha coragem de fazer.
Aproveitando que Kurt e Rachel tinha reatado a amizade e estavam jogando uma partida contra Tina e Mike, sentei-me de propósito ao lado de Quinn, que apenas observava tudo de sua cadeira.
"Preciso falar com você", pontuei. Eu precisava ser sucinto e seco. Era a minha única chance. Porque duvidava muito que outras oportunidades aconteceriam.
Ela me olhou. Estava esperando.
"Você sabe que está atrapalhando por demais o que tenho com a Rachel, e não aguento mais a situação que se decorreu depois que você começou a insistir em mim", falei, esperando que ela entendesse. Claro que não tinha a mínima ideia se quaisquer palavras poderiam surtir o efeito que eu desejava, que era afastá-la de mim. "Então a largue. Vai ficar livre de uma maníaca", Quinn retrucou, ainda me olhando. Balancei a cabeça. Estava ficando impaciente. Era claro que ela não poderia nunca entender o que estava propiciando. "Você está a irritando de um modo que nunca vi. E isso é um pouco assustador. Não gosto de quando a Rachel fica assim, mas parece que é justamente o que você quer causar, isso eu entendi".
"Está vendo? Por que quer ficar com alguém que o assusta?"
"Se ela não tivesse me assustado no primeiro ensaio do Glee, talvez, eu não tivesse dado uma chance para quem ela realmente é", respondi com certeza. Eu já tinha refletido muito sobre aquilo, sobre o modo como Rachel me assustava. E eu só pude concluir que gostava de seu jeito assustador. Quinn revirou os olhos, entediada. "Quer parar com essa bobagem? Desde sempre você soube que a Rachel é uma louca, nem tente desmentir", Quinn revidou com determinação. "E ela não é nada perto de mim! Não entendo como você pode escolhê-la ao invés de alguém como eu!", exclamou. Ela não entendia nada mesmo.
"Certo, você é...", franzi a testa; não sabia se havia um modo que não deixasse implícito o quanto, na verdade, sua aparência me agradava. Quer dizer, eu era um garoto. Garotas loiras, com olhares sexys e com trejeitos de insinuação atraíam qualquer garoto. E eu não estava morto. "Diferente da Rachel", concluí, sem saber exatamente o que dizer. Quinn arqueou uma sobrancelha, descrente com minha declaração. Prossegui: "Talvez ela ainda seja o que você classificava como 'criança' quando eram mais novas e, certamente, ela é tão insegura quanto você é segura sobre tudo que faça relação à... Bem, você inteira. Mas isso, de modo algum, diminui o que sinto por ela. Eu gosto de ter de dizer para a Rachel aquelas coisas bobas que vocês garotas gostam de ouvir dos garotos".
"Isso é ridículo. Ela é um nada, por favor. Você seria muito mais popular se estivesse comigo, e tenho certeza de que nos divertiríamos muito mais, também. Você sabe de que estou falando. Sei que você nem chegaram à base dois. A Rachel é tão virgenzinha", Quinn rolou os olhos de novo. Não sei por quê, mas ela estava começando a me irritar de verdade. Mais do que todas as outras vezes. E nem era pelo fato de ter se referido à Rachel de maneira depreciativa. Eu sabia que Rachel era virgem, e eu até tinha impedido que ela fizesse uma bobagem quanto à isso, no dia anterior. Acho que era aquele jeito simplesmente majestoso de Quinn que tentava transparecer que me deixava um pouco furioso. Por que Quinn não podia deixar de ser Quinn só por um minuto? "É ótimo saber que acha que posso querer estar com você somente pelo sexo", disse com sarcasmo. "Quem não quereria? Quem escolheria a Rachel? Só você", ela deu de ombros.
"Certo. Agora pare, ok? Você está me deixando com opção alguma, a não ser pedir que se afaste de mim. Não queria isso, porque somos amigos, mas estou percebendo que se eu não deixar claro que quero estar com Rachel, não com você, você não vai parar com essa obsessão".
"Eu nunca paro", ela sorriu de um modo que me fez pensar estar na frente da Santana, ou alguém assim. Certamente, Quinn estava com aquele sorriso que diz estou-caçando-você.
"É melhor parar agora, então. Eu amo a Rachel e quero estar com ela por um bom tempo, talvez para sempre. Eu sou muito mais do que apenas o quarterback quando estou com ela, gosto disso. Com você, eu apenas seria o quarterback namorado da Cheerio".
"Não é o suficiente?".
"Não quero que o meu período na escola seja tachado por conta de um namoro. Entendeu? Não sou quase nada sem a Rachel. Ela me ajudou a me encontrar".
"Piegas, meu Deus", Quinn revirou os olhos, novamente, entediada e um pouco enojada. "Não me importo mais com isso", respondi. "Agora, pare de nos importunar, ok? Não quero ter que pedir que outro alguém intervenha nessa situação", falei com secura.
"Você é tão criança quanto ela".
"Tanto faz. Não amo você, não quero ter nada com você. Fique longe de nós, entendeu?".
Ela deu de ombros, meio arrogante.
Saí de perto dela e esperei que Rachel terminasse seu jogo. Quando voltou, estava sorrindo porque tinha vencido. "O Kurt é muito ruim, mas eu salvei tudo", ela disse. Kurt, que estava por perto, retrucou: "Não sou ruim, eu estava com câimbra!". Eu ri, porque meu estado de espírito estava um pouco melhor, depois de tudo que tinha falado para Quinn. Esperava mesmo que ela tivesse anotado o recado, senão seria muito difícil a nossa convivência.
Entre conversas e batatas fritas, pude perceber que tudo estava se normalizando, aos poucos. À exceção de Quinn, é claro. Ela estava calada, o que me fez pensar que estivesse esperando o momento certo para dizer algo horrível. Porque ela era assim. Tudo estava mais ou menos controlado até Puck começar um jogo chamado Quem Nunca. Mas é claro que beberíamos doses de refrigerante, ao invés de bebida alcóolica. Quem nunca perdeu as chaves? Quem nunca roubou uma máquina registradora? Quem nunca quebrou um celular? Quem nunca perdeu a virgindade? Rachel levantou a mão e disse: "Eu não posso responder sobre algo que nunca perdi", e mesmo sob os risos de todo mundo, ela bebeu um pouco da sua coca-cola. Eu não bebi, e ela me olhou. "Eu meio que já fiz isso", respondi. "Ninguém é 'meio' não-virgem", ela disse. Não sabia se estava me odiando ou estava meramente pontuando um fato. Olhei para todo mundo e disse: "A gente já volta". E daí, puxei a mão da Rachel. Ela se levantou e se afastou juntamente comigo da mesa. Cruzou os braços e me olhou. "Eu esqueci de contar, desculpa", falei antes que ela jogasse um olhar de puro ódio. "Ninguém esquece de contar coisas assim. Com quem foi?", ela estava irritadiça, mas parecia mais magoada por não ter sabido de tudo antes. "Hm. Acho que você não vai querer saber", respondi.
"Ah, meu Deus", ela exclamou baixo. "Foi com a Quinn?", perguntou meio sussurrando. Neguei com a cabeça. Eu realmente não sabia se ela poderia receber a notícia de modo tão melhor caso eu dissesse que tivesse sido com Santana. Como Santana fazia parte do grupinho de Quinn, por tabela, as duas já se odiavam.
"Você não vai ficar brava, né?", tentei sondar o terreno antes. "Se você não me contar aí, sim, eu vou ficar. Pode dizer", ela mandou. Antes que eu pudesse confessar, Quinn se meteu na conversa, aparecendo sei lá de onde, e perguntou: "Ah, meu Deus, você ainda não disse que foi com a Santana?".
Rachel olhou para Quinn e depois para mim. "O quê?", ela ecoou.
"Muito obrigado", respondi à Quinn, fuzilando-a com o olhar; ela meramente riu. "Quer dizer, ela não merece isso?", Quinn perguntou, indicando Rachel com a cabeça. Não entendi. "Se você já fez tudo com a Santana, e se vocês dois ainda nem chegaram à base dois, como você vai querer que ela libere se não disser a verdade?".
Ah, então ela estava dando uma de moralista?
Se eu pensava que Rachel fosse começar a chorar, ou algo assim, eu estava muito errado. Porque o que aconteceu a seguir foi Rachel praticamente se lançar para cima da Quinn, dizendo: "Escuta aqui, você não tem nada a ver com o que eu libero, ou não na minha vida!". Por sorte – e acho que o fato de eu ser um quarterback e ter reflexos muito bons, apesar de ser péssimo na dança –, eu consegui agarrar a cintura da Rachel antes que ela atingisse corporalmente Quinn. "Rachel!", eu exclamei, completamente pego desprevenido. Quinn, aproveitando a deixa, saiu sorrindo. Rachel, mesmo que estivesse meio que imobilizada, continuou a dizer algumas coisas. "Rachel!", exclamei de novo. "Me larga! Eu preciso só bater um pouco na cara dela!", ela retorquiu, ainda presa pelos mais braços. Não iria ser uma boa ideia. Ainda bem que ela é uma pessoa pequena. Meio que ri por dentro. "De que está falando? Você é do tamanho de um hamster, não alcança nem o pescoço dela, que dirá a cara!", respondi. E eu sabia que Quinn revidaria, então era melhor manter Rachel bem longe de confusão. "A culpa é toda sua!", ela disse. Soltei-a, porque precisava olhar para ela. Rachel se voltou contra mim, me olhando com um espécie de fúria descabida. "Mentiu para mim por todos esses meses!", ela exclamou. Mas o quê? "Eu não menti, eu apenas omiti! Achei, verdadeiramente, que você não estava preparada para lidar com a verdade, ok? Eu sabia que você daria um chilique como agora!", retruquei. "Ah, então eu estou dando um chilique?", ela riu baixo, ainda me olhando como se eu fosse a Quinn. "Você vê o que está fazendo, Finn? Você está destruindo toda a confiança que construímos um com o outro! Mas depois não venha reclamar sobre eu estar no limite e descontar em você, porque não vai mais poder consertar a gente!", e dito isso ela voltou para a mesa, marchando tão rapidamente que não consegui alcançá-la.
Fiquei ali, longe dela, pensando que era verdade: dada as circunstâncias, achava que não fosse capaz de salvar o nosso amor.
Hello there!
Quem sentiu a minha falta? HAHA. Sorry a demora, tive um writer's block nessas semanas! Mas espero que tenham gostado do chapter! Não deixem de comentar, ok?
Love, Nina.
