Parte I – Half Life (Imogen Heap)
Outra semana decorreu.
Eu estava tentando não demonstrar tanto lamento pela separação; evitava sentar perto de Finn, ou cantar com ele. E se cantava, ficava o mais distante possível, o que ocasionava uma perda evidente de emoção musical. Estava tão acostumada a não ter de fingir emoções quando estava com ele – pois elas davam as caras naturalmente – que tive de fazer um esforço para exercer meu papel durante aquela semana. Não era, também, como se o Sr. Schue pudesse nos separar no Glee: as Nationals estavam cada vez mais perto e era fundamental que eu e Finn ensaiássemos juntos. Eu tentava não lhe dar ouvidos, quando se aproximava de mim querendo conversar. A única coisa que lhe dizia sobre a nossa situação é que ele tinha de aprender a me dar o espaço necessário que tínhamos combinado.
E, agora, eu estava apreciando aquilo. Claro – não era muito legal ficar distante dele, mas estava me fazendo bem; eu estava melhorando as minhas notas, já que não precisava dar atenção a ele todos os fins de semana, além do mais, eu tinha parado de aparecer nas nossas noites de boliche junto com o Glee. Tinha, afinal, de fazer daquilo uma renovação para mim. Não tinha muitas notícias dele, mas tentava passar a imagem de que não me importava – afinal, se você tira um tempo para si é porque precisa cuidar de si mesma, não precisa ficar ouvindo cada fofoca sobre o que aconteceu com a outra pessoa. No mais, ficar afastada de Finn tinha seus prós e contras. É claro que sentia a falta dele, mas nessas horas eu apenas me lembrava de Quinn e dele juntos conversando, ou qualquer outra situação que já tivesse visto dos dois que a raiva dava as caras e eu era capaz de não voltar atrás na minha promessa. Eu tinha que me manter longe dele para que o 'dar um tempo' surtisse efeitos positivos. Não adiantava meu choro (que, com o passar dos dias, foi se abrandando), ou alguns olhares dele. Eu estava decidida.
Seria melhor assim.
De certo modo, eu tinha lutado por ele. Mas, de outro, parecia que os esforços tinham sido em vão. Porque ali estávamos: perdidos, quebrados e afastados.
Mas eu tinha feito a minha parte, tinha tomado uma decisão. Talvez uma decisão dolorosa demais, mas tinha sido por uma questão racional. Não estávamos mais tão conectados como antes e era justo que nos libertássemos, que entendêssemos o porquê queríamos estar juntos.
Era simples. Eu o amava; desde que eu tinha cinco anos eu sonhava com Finn. É claro que a minha mentalidade evoluíra muito naqueles dez anos, eu tinha aprendido a entender que, por mais que eu o amasse, Finn teria defeitos e isso refletiria na nossa relação. Assim como eu mesma tinha defeitos que, por sua vez, tinham desgastado nosso namoro da mesma forma. Mas tinha aprendido, também, a ceder mais do que o normal. E Finn tinha testado a minha paciência de várias maneiras possíveis. E eu tinha suportado até quando consegui.
Mas todo mundo tem um limite; o meu, com certeza, era raso e explosivo. E, também, meio precipitado. Não que eu não estivesse certa sobre aquela minha decisão... Mas, é claro que por vezes, ficava tentada a me sentir arrependida, a correr atrás dele e permiti-lo novamente na minha vida. Mas e se ele não se importasse? E se ele não correspondesse da mesma forma que antes? E se tvesse desistido de esperar?
E se Quinn tivesse vencido aquela batalha?
E se eu o tivesse perdido?
Entende?
Todas essas possibilidades me deixavam com medo de retroceder, de até mesmo falar com ele. Porque, do mesmo modo como eu tinha feito a minha cabeça, Finn tinha todo o direito de ter feito a dele e decidido que estar longe de mim era a opção mais acertada. E, se eu tivesse de perdê-lo por fazê-lo enxergar todo o mal que tinha nos causado por ter ficado inerte perante Quinn ao invés de tomar uma atitude, talvez fosse melhor daquele jeito. Dizem que, no fim, tudo dá certo e que, se não deu certo, é porque ainda não é o fim. Mas, naquela minha circunstância, eu estava começando a acreditar que estava enfrentando o fim, sim. Minha relação com Finn tinha morrido – secado como uma planta. Meu coração vivia apertado, mas, às vezes, a gente tem que perceber que nem todos os finais são felizes.
Alguns são assim mesmo, meio em aberto. Ou então, nostálgicos. Tristes e inacabados, também. Em alguns finais, você vai acabar perdendo alguém. Em outros, vai ganhar mais sabedoria. E, na pior das hipóteses, vai perceber que essa é a vida. Ela muda constantemente, está sempre segundo em frente. E, se você ficou parada na estrada, é porque quis. Porque um final não quer dizer que não haja recomeço.
E se eu tivesse de recomeçar sem Finn ao meu lado... Por que não? Era uma possibilidade. Era o que tudo estava indicando que aconteceria. E mesmo que eu achasse que não me habituaria viver sem Finn, sem seus abraços, seus beijos, seu cheiro, seu sorriso – aquele sorriso! – não custava nada tentar. Se eu sobrevivesse, talvez fosse um sinal: desculpe, Rachel Berry, mas não era para ser. Talvez fosse essa a mensagem de Deus, ou de sei lá quem, desde o começo.
Não era para ser.
Eu tinha tentado, me esforçado, suportado.
Mas Finn não era – e talvez nunca fosse ser – meu. E eu tinha sido apenas qualquer uma em sua vida. Quinn era o primeiro amor dele. E talvez para outras pessoas como Kurt aquilo não significasse muito, mas era o bastante para mim. Ele deveria ficar com ela, afinal. Esse era seu destino. Estar com Quinn, não comigo. Porque ela tinha vencido. Se quisesse, agora, ele poderia escolher sem remorsos.
E é claro que ele ficaria com ela. Porque meninas como Quinn sempre ficavam com os meninos que queriam, com as coisas que compravam, com os sentimentos que lhe cabiam.
E quanto a mim? Ora, eu não precisava me preocupar. Meu destino era a Broadway. Meu amor eterno eram os palcos. Iria me habituar com aquilo, a viver só, apenas com o canto. Era meu dom, afinal. Eu me casaria com ele, então.
Pude perceber que, sem Finn, minha vida se tornou muito mais centrada. Eu tinha mais foco e mais perseverança. Aquela Rachel maluca e diva de antes estava retornando aos poucos e, ah!, era bom dizer que sentia falta dela! Eu brigava com quem fosse por um solo no Glee, sabendo que eu era a melhor dentre todos e a que mais merecia. E se aquilo me causasse danos, eu simplesmente não me importava.
Era bom estar de volta. Pensar em mim, somente em mim. Não ter distrações. Eu tinha me negligenciado por muito tempo, dei abertura demais para que Finn fosse o centro das minhas atenções, o único com o que me ocupar. Sentia falta de cantar daquele modo, livre e sozinha. De saber que era eu, Rachel Berry. Não a Rachel Berry namorada de Finn Hudson, o Quarterback. Agora, eu tinha muito mais autonomia. Podia ensaiar no meu quarto, perder as horas com as minhas próprias músicas da Broadway, sem me preocupar com o ritmo lento de Finn. Porque, verdade seja dita, Finn era meio lentinho. Ele me atrapalhava bastante e não me deixava brilhar com a devida autenticidade que merecia.
Odiava admitir aquilo, mas sem Finn eu estava de novo inteira. Minha vida estava fluindo, seguindo uma direção; não estava mais estagnada no mesmo lugar. Eu estava vivendo.
Quando percebi, três semanas tinham se completado, desde a nossa separação. E aquilo parecia alegrar mais do que nunca Quinn, é claro. Ela se sentava perto dele e conversava com ele na minha frente só para esfregar na minha cara, provavelmente. Mas o que eu poderia fazer? Eu tinha terminado com ele. Ela que o aproveitasse, porque talvez fosse essa a intenção de ambos.
Mas sempre que aquilo ocorria Kurt ou Jesse me ajudavam. Os dois tinham se entendido muito bem e estavam se tornando amigos. E, melhor ainda, estavam se unindo para dar forças a mim.
No almoço daquele dia, nós três, juntamente com Artie, Tina, Mike e Mercedes, estávamos dividindo a mesma mesa, quando Jesse alertou: "Não olhe". Mas eu olhei. Porque eu sempre olhava – sei lá por quê. Finn estava carregando a bandeja de Quinn pelo refeitório, enquanto ela conversava animadamente com ele – você sabe, falando aos sorrisos e numa voz meio alta. Pesquei um pouco do que ela dizia: "... Vai ser perfeito! E ainda podemos usar o meu vale-presente!". Com certeza, estavam falando sobre jantar no Breadstix. Rolei os olhos. Aquele parecia muito presunção para mim e, também, um pouco de clichê. Todo mundo ia ao Breadstix. Não só para comer, mas também para namorar e para pregar peças nas pessoas, do tipo sair sem pagar. Era um restaurante tradicional de Lima, meio romântico, um lugar onde você poderia ir com a sua namorada ou com a sua amante, ou qualquer coisa assim. Mas, certamente, eu não era mais namorada de Finn. E, se ele queria convidar outra pessoa para desfrutar de alguns minutos incrivelmente chatos no Breadstix, o problema era dele. "Aposto como já foram pra cama", falei. Não era no que eu acreditava, mas na hora falar aquilo me pareceu certo. Eu queria acreditar que Finn ainda tinha um resquício de esperança. Não queria que ele desistisse de mim. Não queria que ele fosse para cama com Quinn, ou com qualquer outra. Queria que ele ainda fosse meu, mesmo que toda aquela situação deixasse claro o contrário.
Todo mundo me olhou com cara de surpresa. Não entendi, a princípio. "O quê?", perguntei.
"Você não pode estar falando sério", Kurt me devolveu. "Você mora com ele, deve saber, certo?", comentei. Eu estava tão calma. Por que eu estava tão calma? Estava fazendo daquilo um comentário alheio, como se Finn, há algumas semanas, não tivesse sido o cara pelo qual eu fora – e, de certo modo, ainda era – apaixonada por dez anos. Realmente, eu não me entendia... "Saber de quê?", ele retorquiu, olhando para Jesse. Não entendi aquilo. Pisquei para eles e então rolei os olhos.
Não importava. Eu não me importava. Tudo relacionado ao Finn tinha deixado de importar no momento em que pisou na calçada, naquela tarde que eu terminei com ele, sem correr atrás de mim como eu esperava que fizesse. É claro que eu tinha deixado claro e ainda apresentado argumentos do quanto aquela nossa separação era necessária, no entanto... Bem, toda garota quer ver o namorado correndo atrás dela. Seja na chuva, seja por algo mal entendido, seja depois de uma briga. Toda garota quer saber que ainda tem uma chance com o cara que ama, é isso. Mas não foi o que Finn fez. Ele não lutou para que ficássemos juntos, nem para que reatássemos. Claro, ele tinha feito aquela patética cena na semana seguinte, mas já era tarde demais, meu orgulho já estava ferido.
"Apenas fiquem sabendo que, se sabem de algo e não me contarem, além de ficar chateada, vou ficar com raiva de vocês", eu disse calmamente, enquanto separava os pedaços de frango da minha salada de alfaces. "Então sugiro que, se sabem de algo, é melhor contarem. Agora", finalizei, fulminando o grupo inteiro co meus olhos.
Todo mundo se entreolhou com uma cara meio impassível – o que era um alerta. Meus amigos não eram impassíveis, todo mundo sabia se expressar muito bem. E aquilo apenas me motivou a perceber que havia algo que eu não sabia, que eles estavam escondendo de mim. Olhei mais um pouco para eles com aquele meu olhar. "E então?", quis saber. O primeiro a se manifestar foi Kurt: ele soltou uma risadinha abafada. "Você está ficando paranoica!", ele alegou em seguida. Mas eu não engoli aquilo. "Ah, é mesmo? Então por que todo mundo ficou de bico calado, como se estivesse carregando um segredo?", franzi as sobrancelhas para ele de modo enfático. "Já vou avisando que não sei de nada", Mercedes praticamente gritou e, no mesmo segundo, se retirou da mesa para se servir de mais um punhado de bolinhos de batata, é claro.
Estão tirando os corpos fora, pensei.
"É claro que, se soubéssemos de qualquer coisinha, contaríamos a você", Jesse logo afirmou. Mas ele também não me enganava. Apertei os olhos para ele. "Ainda bem que não querem nada relacionado às artes cênicas, porque vocês são péssimos atores e mentem muito mal", falei. "Vamos, andem logo".
Todo mundo ficou fazendo uma coisa diferente, sem me encarar. Tina, por exemplo, se ocupou em contar os grãos de bico que continham no prato dela; já Artie, fingiu que estava amarrando os cadarços. "Tudo bem, não querem me contar? Ótimo. Vou descobrir sozinha", resmunguei.
"Não vai descobrir nada, Rachel", Kurt me disse. Mas preferi não acreditar nele. "Não há nada acontecendo entre eles", ele completou. Desviei meu olhar dele e foquei Finn e Quinn numa mesa afastada, em companhia das Cheerios e do time. Aquilo quase me fez ficar enjoada.
E se ele tivesse ido pra cama com Quinn?
Eu me importava?
É claro que me importava, eu não tinha me tornado uma bruxa má! Eu apenas estava querendo distância dos sentimentos que nutria por ele, pois, de certo modo, tinham me acometido muito mal. E, se ele a tivesse levado para cama, bem... O que eu faria? O que diria?
O que poderia dizer? Não estávamos mais juntos então, de certo modo, não tinha ocorrido traição. E vamos combinar que muita gente vai pra cama com uma pessoa sem sentimento algum. Se eu estivesse errada – e Quinn não fosse o primeiro amor dele -, ao menos eu saberia que não tinha sido por amor que ela foi parar na cama dele, porque ele não a amava. Não como amou a mim.
Certo?
Porque não conseguia acreditar que ele quisesse mesmo me magoar.
Garotos, você sabe, não pensam muito com a cabeça de cima. E eu bem sabia que Finn era um garoto – um dos mais cobiçados, também.
Mas eu achava que, se ele tivesse feito aquilo, talvez ele pudesse me dizer. Dizer que amava a Quinn ao invés de mim e que tudo aquilo que passamos tinha sido uma mera ilusão da minha mente de garotinha apaixonada. Mas eu sabia que o que sentia era real. Meu Deus, como era! Nunca tinha desejado ninguém daquele modo, em especial porque ele tinha sido a única pessoa que esteve em meus pensamentos dia após dia, durante dez anos. E quando ele disse que me amava, eu mal pude acreditar. Porque Finn era um dos meus sonhos. Eu fazia planos de me casar com ele. Não tinha vergonha de admitir o quanto era apaixonada por ele, o quanto pretendia passar o resto da minha vida com ele.
"Não é o que vejo", respondi.
"Você está vendo o que sempre aconteceu", Kurt rebateu.
Aquilo era verdade. Eles sempre foram muito próximos e, mesmo que Finn estivesse comigo, ele não fez o mínimo esforço de se distanciar dela. No entanto, um jantar no Breadstix? Aquilo nunca tinha acontecido. Porque os jantares eram comigo.
Estava começando a me preocupar, agora.
"Por favor, me digam", pedi.
Vi Tina e Artie trocarem outro olhar, assim como Kurt olhar de soslaio para Jesse, talvez em busca de ajuda. Mas ninguém falou nada.
"Eles foram para a cama?", perguntei.
"Rachel... Não faça perguntas sobre as quais tem medo da resposta", Kurt me aconselhou.
Aquele tinha sido a coisa mais esquisita e mais certeira, ainda assim, que ele já tinha me dito na vida.
Eu estava apavorada, de repente.
Queria a resposta, queria a verdade, entretanto tinha tanto medo daquilo! Da proporção que as coisas poderiam tomar, do significado daquilo para o meu relacionamento com Finn – e para o meu amor por ele. Porque eu apenas estava com raiva e chateada daquela situação toda entre ele e a Quinn. Mas, se ele tivesse mesmo ido pra cama com ela, ele iria me decepcionar. E, leia bem, amor nenhum sobrevive à decepção. Quando você se decepciona com alguém, automaticamente, o amor diminui um pouquinho.
E eu não queria ter de deixar de amá-lo. Porque ele era o amor da minha vida, entende?
Fiquei quieta, mesmo que meu cérebro estivesse à mil.
No final da semana, eu e Finn tínhamos marcado um encontro profissional – deveríamos ensaiar nosso dueto. Ironicamente, era Faithfully. Mas eu estava centrada em ser boa como cantora, não me deixaria levar por uma canção, por mais machucada que eu estivesse. É claro que eu sentia falta das nossas mãos se tocando enquanto cantávamos e dos nossos olhares que eram somente nossos, mas deixaria tudo aquilo de lado. Eu seria profissional, nada de misturar sentimentos na carreira. E eu queria me sobressair naquela apresentação. As Nationals significavam muito – pra não dizer tudo – para mim naquele momento, em especial levando em conta que eu não tinha nenhuma distração. Eu estava vivendo para mim, para meu canto, para meu talento.
"Tem certeza que essa é uma boa ideia?", Jesse me perguntou, quando lhe disse sobre o ensaio.
Não tinha engolido aquela história sobre ninguém saber de nada sobre Finn e Quinn. Para mim, todo mundo estava mentindo. É claro que alguém – meu palpite: Kurt – sabia de muito mais do que eu podia ver.
Mas eu tinha meio que deixado de lado, durante aqueles dias, aquilo tudo. Estava vivendo a minha vida como se não me incomodasse com nada além do canto. Fingia que não ficava enjoada quando via Finn junto à Quinn, nos intervalos das aulas, por exemplo. E fingia que não queria lhe perguntar sobre o assunto – quer dizer, seria ridículo; então eu preferia ficar calada. Era melhor ficar calada, remoendo a possível resposta, a descobrir a verdade. Pelo menos, assim, eu não tinha de me preocupar com Finn me decepcionando ainda mais.
Dei de ombros. O que poderia dizer? Eu não tinha escapatória. As Nationals seriam dali duas semanas, e eu e Finn quase não tínhamos ensaiado juntos, porque eu sempre dizia que marcaria um horário, mas nunca o fazia. Constantemente o repelia, também. Em especial durante aquela semana. Mas tinha tomado uma decisão: tinha de parar de afastá-lo de mim como se o odiasse. Era certo dizer que ainda sentia raiva, mas estava longe de odiá-lo. Porque eu ainda acreditava na gente. Esperava que tivéssemos uma outra chance. À noite fazia planos de conversar com ele, de deixá-lo me persuadir a mudar de ideia, mas quando amanhecia eu tomava a atitude oposta – não sabia bem o por quê; acho que muito ocorria, porque eu tinha aquela constante dúvida dentro de mim: será que ele ainda me amava? Se sim, por que tinha ido pra cama com a Quinn? (coisa que eu acreditava, apesar de não ter tido um feedback quanto àquilo).
Por um lado, queria que ele me fizesse promessas quanto ao nosso futuro juntos – que prometesse que nunca mais iria olhar para a Quinn, que só tinha olhos para mim. Mas, por outro, sem suas promessas eu me sentia mais livre de frustrações futuras. E se ele quebrasse sua promessa? E se decidisse se afastar de vez de mim? Seria ainda pior. Porque, daquela vez, eu é que tinha lhe dado a oportunidade de se afastar de mim, aquilo tudo tinha partido de mim. E, se aquela oportunidade partisse dele, talvez... Bem, talvez eu tivesse me apaixonado pela pessoa errada. Ou talvez fosse apenas o destino brincando com a minha cara, dizendo que, por mais que eu o amasse, o meu final feliz não seria com ele. Se é que um final feliz ainda me aguardava...
"Não quero mais adiar isso", respondi. Kurt se juntou a nós, no corredor. "Adiar o quê? Não me diga que você vai perguntar ao Finn sobre a Quinn, porque isso é totalmente insano!", Kurt logo se propôs a dizer, todo naquele jeito dramático. "O quê? Não, não pretendia fazer isso", falei, embora já tivesse cogitado abordar Finn para lhe inquirir acerca daquilo muitas vezes. Kurt suspirou aliviado. "Vocês não vão mesmo me contar, né?", perguntei. "Não tem nada pra contar", Jesse logo disse. Até parecia. Não dava para acreditar que meus dois melhores amigos estavam mentindo bem na minha cara! "Tanto faz, eu meio que já sei da verdade. Está muito explícito, sabe?", comentei. Mas por dentro eu estava definhando. Eu ainda rezava para que Finn não tivesse sucumbido aos encantos de Quinn, mesmo que, sabe como é, ele fosse um cara normal e tudo mais. Eu sabia que seria difícil, afinal não estávamos mais juntos, e por isso mesmo ele tinha todo o direito para fazer o que quisesse. Mas lá estava eu, completamente sozinha enquanto assistia a expressão completamente vitoriosa de Quinn. Eu não precisava mesmo perguntar: estava na cara dela. É claro que ele não me devia uma explicação, ou mesmo satisfações daquilo, mas era justo dizer que eu precisava da confirmação para continuar.
"Você está se preocupando à toa", Kurt me disse. Mas eu sabia que minha suposição tinha fundamento. "Tanto faz. Talvez eu pergunte mesmo a ele hoje. Tenho um ensaio com ele no auditório depois do Glee", observei. "Rachel, não faça isso. Além do mais, vocês estão separados. Já faz quase um mês. Você tinha me dito que era somente uma coisa do tipo 'dar um tempo', mas isso já evoluiu para um término, e nem tente mentir!", Kurt refutou. Ei, não era ele que estava do meu lado? "Achei que estivesse torcendo por nós", disse, meio azeda. "É difícil dizer para o que estou torcendo neste exato momento com você assim, tão irredutível. Já pensou em aceitar as desculpas dele?".
Kurt não entendia nada mesmo.
Não se tratava de aceitar ou não as desculpas de Finn. Eu iria me lembrar de tudo o que Quinn nos causou toda hora, simplesmente porque era insegura. É claro que ele dizia que me amava, mas eu sabia o quanto aquelas palavras tinham diminuído com o tempo. Ainda que ele tivesse se mostrado tão apaixonado naquela sua declaração naquela tarde do nosso término, eu ainda tinha as minhas dúvidas, e não era por nada: com Quinn por perto como poderia acreditar em qualquer coisa que ele dissesse?
"Um pedido de desculpas não resolve nada. É como colar um vaso quebrado, sempre vai dar pra ver as rachaduras", eu lhe disse. Na verdade, já estava cansada de debater aquele assunto. Finn estava sempre em pauta quando nós três nos reuníamos – cada um queria saber uma coisa diferente, mas de forma geral, no fim, a última pergunta era sempre a mesma: quando é que eu iria aceitar Finn de volta?
A questão, eu achava, não era essa. A questão era: quando é que Finn iria me aceitar completamente? Não dependia de mim – eu poderia ser relativamente bonita, ter aquele meu talento e tudo mais, mas eu não me comparava à Quinn. Não era líder de torcida, não tinha uma posição de prestígio no McKinley, não era adorada por quase ninguém. Quinn e eFinn tinham status. Eu, por outro lado, era uma mera fracassada nadando naquele oceano.
Quando nos separamos, cada um indo para sua respectiva aula, eu ainda tinha aquilo no pensamento. Finn. Quinn. Fracasso. Oceano.
E foi por acaso que topei com Quinn logo depois de o sinal bater. Eu tinha ido ao banheiro com objetivos de uma pessoa normal – não para passar pó no rosto, ou fazer chapinha – quando Quinn parou bem ao meu lado da pia. Eu estava lavando as mãos, quando isso aconteceu. Ela remexeu um pouco no cabelo e depois aplicou mais uma camada de gloss labial. E daí seu olhar recaiu em mim.
"Como está a fossa?", ela quis saber naquele típico tom cruel de sempre.
O negócio era que eu não estava na fossa. Já fazia mais de uma semana que tinha parado de choramingar pelos cantos e, em especial, de chorar antes de dormir. Agora, eu apenas ficava remoendo meus pensamentos antes de pegar no sono, nada mais de lágrimas.
"Não sei. Com está sendo aproveitar o seu tempo ao lado do Finn?", revidei.
Eu pretendia, é claro, arrancar algo dela.
"Digamos que ele perdeu muito tempo inútil ficando com você. Agora ele está mais feliz. Você não percebe?", ele me perguntou. Juntei os lábios e estreitei os olhos para ela, através do espelho. Grande mentirosa aquela garota! Finn não parecia feliz, parecia somente estar seguindo em frente, assim como eu. "Sabe que não percebi?", comentei cinicamente. "Estamos nos divertindo. Você saberia o que isso quer dizer se tivesse se divertido com ele", Quinn disse.
Nisso, eu senti meu estômago afundando e ficando gelado.
É claro que praticamente tudo que Quinn dizia era meramente uma blasfêmia, ou então pura maldade. Não havia muita verdade em suas palavras. Mas, mesmo assim, eu sabia que ela estava se referindo a mais do que ir ao boliche nos fins de semana. Por isso, eu estava me sentindo esquisita: como se tivesse levado um tapa na cara.
E então percebi que eu não tinha nada, nada mesmo, para rebater. Meu cérebro estava vazio.
E foi devido a isso que saí do banheiro, sem nem respondê-la.
Só me dei conta que estava correndo quando percebi que minhas pernas estavam doendo. Entrei no Glee, ainda vazio, e me sentei ao piano. Segurei as lágrimas o tempo que foi possível. Pretendia cantar alguma música que me levasse para longe daquele inferno, mas tudo que conseguia pensar era em Finn e Quinn, juntos, no quanto dele, sozinhos. Fechava os olhos e os via se beijando – era a coisa menos nojenta que os imaginava fazendo. Daí, as lágrimas – aquelas represadas, que eu tinha lutado para não derramar durante todos aqueles dias – vieram, e eu não tive condições de amenizá-las.
Fiquei fungando por algum tempo, até me recuperar. Até apagar todas aquelas memórias – que acreditava serem – falsas que estava criando na minha mente.
Por ironia do destino, a primeira pessoa a aparecer foi Finn. Ele caminhou até as cadeiras e se sentou, calado – era o que vinha acontecendo entre nós. Daí, olhou para mim e viu meu rosto ainda meio manchado de lágrimas e coisa e tal. "Rachel? Está tudo bem?", ele perguntou, lá das cadeiras. Ele mencionou meu nome como se estivesse desacostumado a fazer isso. Meu peito se contraiu, pesado e dolorido. Abracei meu próprio tronco, desejando abraçá-lo, desejando que ele me consolasse. Acima de tudo, desejando que ele desmentisse o que tinha ouvido de Quinn. Menti para ele: balancei a cabeça num gesto de afirmação sem pronunciar nada. Ele permaneceu calado, mesmo que ainda me olhando. Preferi ficar de olho nas teclas do piano, para me distrair. Não gostava quando ele me olhava daquele jeito, como se estivesse implorando o meu perdão.
Aos poucos, todo mundo foi chegando, e eu fui me juntar ao meu grupinho. Era o último dia para alguém dar alguma sugestão sobre as músicas a serem cantadas nas Nationals, e Brittany sugeriu Oops! I Did It Again cantando e se remexendo toda. Sr. Schue agradeceu a apresentação, mas descartou a canção na mesma hora. Daí ela disse que poderia fazer um número da Ke$ha, mas ele também vetou aquilo, e Brittany ficou falando que reclamaria daquilo no programa dela, o Fondue For Two. A Santana, para ajudar a Brittany, falou que uma performance de todas as meninas juntas de Toxic seria um arraso, mas Sr. Schue já estava cansado de ficar falando das músicas da Britney e disse para irmos ao auditório para cantarmos qualquer coisa menos promíscua. Então fui obrigada a fingir que cantava Bad Romance.
O grupo se dissipou pouco depois daquilo, e eu agradeci. Às vezes, era muito ruim ter de 'interpretar' a Rachel Berry cantora, porque eu tinha de deixar de lado os meus sentimentos – os meus verdadeiros sentimentos. E aquilo incluía o Finn. Não sabia lidar com ele de outra maneira além da qual já estava acostumada. Então tinha sempre que me recordar que ele não era mais meu namorado e que eu não poderia segurar a mão dele como antigamente. Porque, quando eu cantava, eu me esquecia de tudo – era somente eu e o que a música me proporcionava. E muitas vezes eu interpretava com gestos e olhares, e não tinha nenhuma graça fazer aquilo se eu não podia interagir com Finn como fazíamos.
Ficamos apenas eu e ele ali.
Ele me olhou, e eu retribuí o gesto.
"Você não precisa se obrigar a cantar comigo", Finn disse.
Porque eu estava mesmo me obrigando – mas era uma obrigação necessária.
"É para o bem das Nationals", eu respondi. Ele assentiu. "Você ainda está muito brava?", ele quis saber, andando com passos vagarosos para perto de mim. "Eu nunca disse que estava brava", neguei. "Você tem me olhado durante todos esses dias como se me odiasse".
"Desculpe", eu falei. "Mas é inevitável. Ainda estou com raiva".
"Quanto tempo mais vou ter de esperar, Rachel?", Finn perguntou, agora bem perto de mim. "Para minha raiva passar? Depende. Se você está sendo sincero com relação ao seu arrependimento, se você não vai ficar por aí dando oportunidade para a Quinn jogar na minha cara quão 'divertido' está sendo ficar com você, é provável que logo passe. Agora, se você não dá a mínima para o fato de que, ao que parece, o Glee inteiro está sabendo que você foi pra cama com ela... Não posso fazer nada. E duvido muito que, algum dia, eu vá perdoá-lo".
"O quê? Eu e ela... Nós não estamos juntos", Finn balbuciou daquele seu jeito todo perdido de falar.
"É mesmo? Porque não é isso que ela me contou", eu disse. Finn soltou um muxoxo de impaciência. "Não acredite nela", ele pediu. "E eu deveria acreditar em quem? Em você, que diz que me ama, mas que fica todo feliz quando está com ela? Ou, quem sabe, nos meus amigos, que parecem ser uns mentirosos?", perguntei, sentindo a raiva se acumular. Não queria chorar de raiva, mas aquilo estava prestes a acontecer. Eu estava me sentindo quase mais fragilizada do que os primeiros dias da separação. Porque saber que o tinha perdido para Quinn, por ele ter ido para a cama com ela, era ainda pior do que aceitar que precisávamos de um tempo para repor os sentimentos no lugar e reaver nossos compromissos.
"Rachel", ele disse. Parecia um lamento.
"Apenas me diga, ok?", pedi, sentindo a minha visão turva devido às lágrimas. "Não quero, nem preciso, que você minta".
"Rachel. Não faça isso".
Olhei-o com surpresa.
O que ele queria dizer? Que eu não lhe fizesse aquela pergunta para não sofrer mais? Ou que eu, meramente, não pensasse nada daquilo? O quê? O quê?
Mas aquilo foi o suficiente.
Ele tinha acabado de quebrar meu coração ainda mais.
E eu não tive alternativa além de comunicar que o ensaio estava cancelado.
Parte II – Let Her Go (Passenger)
"O que você andou falando para a Rachel?".
Eu não acreditava que já fazia um mês que eu e Rachel estávamos separados, mas parecia que aquilo estava se prolongando por demais. Não importava quantas vezes eu olhasse para ela de forma suplicante. Não importava quantas vezes eu lhe repetisse que estava sentindo sua falta. E não importava quantas horas conseguíssemos ficar em silêncio. Nada do que eu fizesse estava funcionando. Rachel parecia completamente inflexível, em especial depois daquela tarde de sexta no auditório.
Como ela sabia sobre Quinn? Quer dizer, não que ela tivesse certeza, era mais uma suposição. E parecia que ninguém tinha lhe dado a confirmação – e eu não sabia se era uma coisa boa, ou não. Por um lado, a prolongação daquela dúvida me dava mais alguns dias de vida. Mas, por outro, não sei se achava certo enganá-la daquele modo. E, como ela já tinha um palpite, era difícil esconder a verdade.
Mas Quinn meramente ficou olhando para mim com uma expressão entediada.
Estávamos no Breadstix, porque ela tinha me convencido de que, se eu estava livre de Rachel, era melhor aproveitar. A princípio, eu tinha dito que não queria estar livre de Rachel, mas mudei de ideia, porque era o que estava acontecendo. Rachel nem olhava mais para mim. Talvez tivesse desistido de mim. E se ela o tinha, talvez eu devesse fazer o mesmo.
"Desde quando isso importa?", ela retrucou.
"O que você disse a ela?", insisti, ficando impaciente. Quinn revirou os olhos, naquela típica atitude dela. "Sei lá, qualquer coisa para tirá-la da minha frente", Quinn respondeu de má vontade. Lancei a ela um olhar azedo. Eu só podia estar louco quando fui pra cama com ela! E pensar que, agora, ela estava fazendo de mim seu namorado, ou qualquer coisa assim, sendo que eu amava outra pessoa! Estava, como sempre, me manipulando. Estava de saco cheio dela. Quinn suspirou, irritada. "Ok, talvez tenha dito sobre o quanto estamos nos divertindo", ela confessou rapidamente. "Você está se divertindo com essa situação!", acusei-a sem demora. "Eu sou um mero brinquedinho para você!". Quinn fez uma cara de quem não suportava mais me ver reclamando. "Nem venha com essa, Finn. Se está tão incomodado com isso, por que ainda está aqui? Por que concordou com tudo isso? Está vendo? Você não tem capacidade nenhuma de tomar decisões importantes, simplesmente deixa ser manuseado. E eu mal preciso fazer algum esforço para que isso aconteça", Quinn respondeu.
Ela estava certa.
Eu tinha me deixado levar, deixado ser manipulado. E ela não precisava nem mesmo mandar ou implorar: eu estava agindo como se fosse, novamente, seu cachorrinho obediente.
E eu tinha de deixar de ser aquela pessoa tão acomodada. Ela estava certa, eu era meramente um cara covarde, que acatava tudo que ela falava. Lembrava-me de quando estava com Rachel: eu não agia daquele modo com Rachel, por mais que ela fosse um pouco mandona. Eu sabia debater e discutir, como também me contrapor, com Rachel. Tínhamos, de fato, uma relação; não era aquela coisa inexplicável que mantinha com Quinn.
E aquilo tinha de acabar.
Eu precisava tomar as rédeas da minha vida. Se amava Rachel deveria ficar com ela. Precisava lhe dizer tudo que estava guardado em mim, como em tempos não fazia. E não me referia a uma declaração boba de amor. Eu precisava de mais: precisava ser mais sincero do que aquilo.
"Ótimo", respondi. "Então pare de achar, a partir de agora, que eu serei assim para sempre".
"Você nunca mudou, Finn. É essa a verdade. Sei lá o que a Rachel tinha de tão interessante pra tê-lo segurado com ela por todo aquele tempo, mas você pode perceber que não adiantou de muita coisa. Você continua sendo aquele Finn que estava comigo", Quinn respondeu. Daí sorriu de um modo que não expressava alegria, ou tristeza; apenas um tipo de sentimento que eu não sabia muito bem se podia confiar. Assenti: ela tinha razão, eu não tinha mudado. Talvez porque eu me sentisse tão vulnerável diante dela que, diferentemente de que ocorria com Rachel, eu não era capaz de contradizê-la. Foi naquele minuto que percebi que nunca iria vir a amá-la. Porque amor algum se sustenta daquela forma, com uma das partes sempre acuada. Nunca a tinha amado e eu bem sabia que estava com ela por mera conveniência, como já estivera uma vez. E se você vai ficar com alguém devido a isso é muito claro que, de um modo ou de outro, você está sendo bastante ridículo.
Era daquela forma que me sentia, naquele instante. Um estúpido. Em especial, por ter acreditado que Rachel queria pôr um fim em nós.
O que ela tinha feito – e eu tinha levado todo aquele tempo para enfim dar conta – era me dar espaço para que eu pudesse escolher o que queria da vida e com quem gostaria de ficar. E, sem demora, eu tinha escolhido Quinn. Tinha sido um impulso de garoto, mas com certeza tinha custado todo o amor que eu sentia por Rachel. Porque eu sabia que, se eu confessasse que estava com Quinn pelo sexo, Rachel nunca iria me perdoar, como bem me dissera na sexta-feira. Agora eu entendia o valor do que tinha construído com Rachel, porque tudo que era dela me fora arrancado no momento em que vi lágrimas nos olhos dela, debaixo dos holofotes do auditório. Eu tinha machucado a garota mais especial de todas, e nada seria capaz de consertar aquilo.
Não sabia o que poderia dizer, ou fazer, para tê-la de volta. Tudo que sabia era que não poderia ficar parado, sendo dominado por Quinn.
"Certo. É verdade. Mas essa é a última vez que você vai me ter. Entendeu? Porque não a amo", eu lhe disse. Não me importava se estava sendo um pouco duro, porque ela merecia tudo aquilo. Tinha me manipulado para me ter do pior jeito possível – e, sim, eu tinha sido completamente conivente naquilo, mas tinha sido a última vez.
A expressão de Quinn se modificou um pouco, finalmente parecia que seus sentimentos tinham sobrepujado a inércia e o tédio habitual. Ela parecia, agora, um pouco afetada. "De que está falando? É a mim que ama, sou seu primeiro amor", Quinn falou, a voz soturna, a face preocupada. "Eu não me lembro de lhe dizer isso. Você foi um mero acaso, pelo que sei, assim como fui para você. Ficamos juntos daquela primeira vez, porque tínhamos status e estamos juntos novamente também por causa disso, além do fato de você sempre achar que precisa vencer a Rachel. Mas sabe de uma coisa? A Rachel sempre vai ganhar de você quando o assunto sou eu, porque, apesar de você me ter feito acreditar que ela não representava muito para mim ao me fazer ir pra cama contigo, ela sempre vai ser minha", eu falei. Não sentia nada além de alívio.
Era bom ser sincero.
"Você não pode me deixar", Quinn disse meio sussurrante. Enfim alguma reação dela. "É mesmo? Porque é isso que parece que estou fazendo", eu devolvi sendo um pouco sarcástico. A verdade era que eu não me importava com o que poderia causar entre nós. Não estava mais disposto a 'ser' dela. Eu sempre fora de Rachel.
"Não. Por favor".
"Você não é meu primeiro amor, nem o amor da minha vida, entendeu? Eu nem sei por que estou contigo, e não digo isso apenas pelo mal que causou entre mim e Rachel, mas porque você não é uma pessoa legal de forma geral. Você me comprou com sexo, isso não é amor".
"Tanto faz. Ela não vai aceitá-lo de volta. Você ferrou com tudo", Quinn respondeu num tom mais renovado, mais diabólico. Parecia ter encontrando uma faísca de vitória.
Ela estava certa mais uma vez. Eu tinha ferrado com tudo, mas talvez – uma chama de esperança – tudo aquilo ainda tivesse conserto. Dependia de mim.
Peguei minha carteira e deixei algumas notas em cima da mesa.
"Tenha um ótimo jantar, sozinha", eu lhe desejei.
"Finn!", ela disse.
"Até mais", me levantei e disse.
E daí, saí pela porta me sentindo um pouco renovado, mas ainda totalmente perdido.
O que eu faria?
Não tinha ideia.
Até mesmo as palavras certas pareciam me confundir.
Não sabia que tipo de coisas dizer a Rachel, caso ela aceitasse alguns minutos comigo. Mas na manhã seguinte, saí de casa com determinação. "Para onde você vai? Está cedo", minha mãe perguntou. Ela estava ainda preparando a mesa para todos nós tomarmos café da manhã. Kurt ainda tomava banho e também tinha me feita a mesma pergunta, antes de se adentrar no banheiro. Respondi a mesma coisa a minha mãe que tinha dito ao Kurt: "Não se preocupe".
A verdade é que eu já estava preocupado por conta própria.
Dirigi pelo caminho que mais conhecia: para a casa de Rachel. Não importava se a encontraria de pijamas, sem maquiagem e desse de cara com os pais dela – que, com certeza, já estava sabendo de tudo entre nós. Porque nada poderia me fazer retroceder.
Esperei na soleira da porta entreouvir algum barulho lá dentro, no entanto meus ouvidos não detectaram nem vozes nem passos. Não sabia se era um bom ou péssimo sinal. Mesmo assim toquei a campainha e esperei mais um pouco, remexendo na barra da minha blusa. Não tinha planejado nada e estava nervoso.
"Olá, rapaz", Hiram estava olhando para mim, de dentro do hall. Gostava de Hiram mais do que de Leroy, que tendia a ser dramático demais. "Oi, Sr. Berry", respondi pouco à vontade. Não sabia o que dizer, na realidade. "Procurando por Rachel?", ele quis saber, provavelmente percebendo o meu nervosismo e me salvando de lhe dizer qualquer coisa inapropriada. Assenti momentaneamente. "Acho que ainda está no banho, mas entre. Espere por ela na mesa com a gente", ele me disse, de bom grado.
Gemi por dentro.
O que ele queria dizer com 'espere por ela na mesa com a gente'? Não poderia ser o que eu estava pensando, certo? Porque seria constrangedor demais. Eles iriam me matar durante a refeição, ou me afugentar para nunca mais voltar. "Quem era, querido?", Leroy perguntou, olhando o marido se adentrar na cozinha primeiro. Daí, seu olhar cruzou com o meu e pelo rosto dele perpassou uma nuvem negra. Era aquilo, eu seria assassinado por um dos meus ex-sogros. Fiquei amaldiçoando a lerdeza de Rachel: ela tinha aqueles rituais esquisitos de banho e de limpeza. Bem que, somente naquela manhã, ela poderia deixá-los para trás para poder me socorrer...
"Oh. Olá, Finn", Leroy me saudou com um tom neutro.
"Oi, Sr. Berry", respondi. "Sente-se. Rachel está lá em cima ainda, mas não deve demorar muito", ele fez um gesto para que eu me juntasse aos dois. "Chá frio de limão?", Hiram me ofereceu. "Não, obrigado", neguei rapidamente, enquanto puxava uma cadeira e me acomodava. Houve um silêncio esperado. Leroy continuou a passar geleia na torrada enquanto Hiram se ocupava por escolher as melhores uvas brancas para complementar o seu prato cheio de frutas. Daí, Hiram pigarreou e me olhou, depois que já tinha mastigado umas três uvas.
"Ouvi dizer que vocês andam um pouco afastados", ele comentou.
É, aposto como tinha ouvido aquilo. Só se ele estivesse querendo ser muito gentil, porque era claro que Rachel, que tinha uma relação muito forte com os pais, tinha desabafados tudo com eles. Os olhos de ambos pararam em mim, especulativos. Leroy, no entanto, parecia estar me julgando. Aposto como estava pensando que eu não servia mais para sua filha, e coisa e tal.
"Yeah", respondi. Ficar sozinho com eles me dava um pouco de medo. Antes, era porque eles pensavam que eu estava tentando corromper sexualmente Rachel. Agora, porque estavam certos quanto a seus julgamentos: eu merecia ficar sem Rachel, porque tinha pisado na bola. "É uma pena, mas parece que ela está mais focada no canto, que sempre foi a sua paixão. Acho que ela está feliz. Não acha, Hiram?", Leroy comentou num tom mais áspero que antes. Hiram olhou para o marido e depois para mim. Ele me ofereceu um sorriso meio imperceptível. "Como estão os ensaios para as Nationals?", Hiram mudou de assunto rapidamente, provavelmente não querendo se comprometer. Eu sempre soube que ele gostava mais de mim do que Leroy. Dei de ombros. "Acho que tudo bem", falei.
Hiram assentiu. E depois se calou. Leroy, também; cada um ficou prestando atenção no que comia. Senti-me ficar ainda mais nervoso e preocupado. Estava tão nervoso que nem consegui arquitetar um discurso bonito para apresentar à Rachel. Se ela demorasse demais, talvez preferisse conversar com ela na escola. Longe de seus pais. Talvez estivéssemos perto demais de Quinn e de fofocas, mas era melhor do que estar sendo constantemente julgado pelos seus pais. Por sorte, ouvi a voz de Rachel cantarolando Faithfully se aproximando. "Eu já disse que...", sua voz morreu, assim que seus pés tocaram a cozinha. Eu estava de costas para ela quase podia ver perfeitamente seu rosto surpreso. "Hm, o que está acontecendo?", ela logo emendou, surgindo no meu campo de visão e se sentando ao lado de Hiram. Ela olhou para mim por alguns segundos, especulando o que eu fazia aquilo. "Acho que alguém veio implorar por clemência ou algo assim", Leroy disse. Vi o olhar chocado que Hiram e Rachel lançaram a ele. Eu não me importei, porque estava achando que era por aquilo que estava ali. "Hmm, Finn", ela se virou para mim, com a cara limpa e fedendo a algum creme recém aplicado, "por que não subimos um pouco lá pra cima para conversarmos? Acho que papai precisa dar um telefonema para o terapeuta dele". Ela, então, se levantou da cadeira e saiu para a sala. "Não demore, Rachel. Você sabe que não tenho o dia inteiro para levá-la à escola", ouvi a voz de Leroy, meio alta demais, quando eu já estava atingindo a escada que levava para o segundo andar.
Caminhamos até seu quarto silenciosamente.
Daí, quando já estávamos lá dentro, ela fechou a porta e virou-se para mim com as mãos na cintura. Estava pedindo explicações.
"Que negócio é esse de aparecer na minha casa do nada? Meus pais já sabem de tudo o que houve com a gente e, se não jogaram você para a rua até agora, você tem que agradecer, porque especialmente Leroy está com muita raiva", ela já foi dizendo, sem nem me dar tempo para lhe dizer algo. "E-eu apenas quero conversar", respondi, desorientado. "Pensou se eu queria conversar? Você não tinha o direito!", Rachel parecia mais do que irritada: estava detestando aquela minha 'visita'. "Desculpe", disse.
Ela ficou me olhando meio enviesado durante um tempo, até cruzar os braços, atravessar o quarto e se sentar na cama.
"Você tem toda a razão de não querer falar comigo, mas eu queria falar te dizer que, seja lá quanto tempo isso vai durar, eu vou esperar. Não somente porque eu não sei mais viver sem você, mas também porque você vale a pena. Eu a amo pelo que é e, mesmo que nosso amor tenha diminuído um pouco, vou fazer de tudo para tê-la de volta", eu disse. Ela ficou calada durante alguns segundos, sem olhar para mim, depois deu de ombros e afirmou: "É meio tarde".
Eu não consegui formular nada. Então, ela continuou: "Eu te dei todo o amor que podia, mas parece que você não correspondeu da mesma forma, preferiu deixar que o tempo desgastasse até mesmo com o que eu sentia por você. Lembro-me de um jantar de namoro que você me disse que, caso isso acontecesse, era porque estava ficando louco. Mas acho que... Essa é somente a vida. Algumas coisas não acontecem, alguns finais não são felizes. Acho que nosso destino não é...", Rachel tentou completar sua frase, mas eu a cortei antes do final, porque ouvi-la dizer aquilo iria me deixar ainda mais desorientado. "Não diga isso", mandei. Ela me olhou com mais afinco. "Por que está com medo? Achei que você estivesse se dando bem com Quinn agora", Rachel comentou. "Meu destino é ficar com você", falei claramente.
Rachel continuou a me olhar. E daí, seus olhos recaíram no chão.
"Você vale a pena, não vou desistir de você", eu disse.
Rachel assentiu. "Espero que realmente acredite nisso", ela me disse.
Eu realmente acreditava. Mais do que nunca.
Não disse nada. Mergulhamos num silêncio meio incômodo, mas não tão insuportável assim. De qualquer forma, parecia que aquele era o jeito que tínhamos de lidar um com o outro, de uns tempos para cá. "Quer uma carona para o McKinley?", perguntei. Ela me olhou de um modo que me fez logo adicionar, na defensiva: "É só uma carona".
Ela concordou, então.
Durante todo o trajeto até a escola, Rachel ficou calada. Na verdade, eu também. Tudo o que deveria ter dito já tinha dito. Não tinha sido nada elaborado demais – digamos que quando você fica nervoso demais, o seu cérebro pifa, ou algo assim. Mas eu tinha tentado. Ninguém poderia dizer o contrário.
"A gente se vê depois", ela me disse, se referindo ao nosso tempo juntos no Glee. Ela saiu do carro com sua mochila e seguiu para dentro do prédio. Eu tratei de estacionar o carro para depois ficar dentro dele, observando o movimento.
Era difícil assimilar aquilo, mas era a verdade: eu a tinha perdido e somente a partir daquele momento é que me dei conta do quanto eu a amava, do quanto eu era verdadeiramente feliz ao seu lado. Não me interessava que eu já tinha dormido com Santana e Quinn: quem eu amava era Rachel. O que houve com as duas tinha sido mero acaso. Com Rachel meio que acreditava que era destino, ou sei lá como aquilo se chamava. Eu tinha esperado durante algum tempo para ter a minha chance com ela, tinha me esforçado para ser o melhor para ela, mesmo que, no fim, aquilo se provou ser o oposto, afinal eu tinha destruído um pouco de seu amor. Eu a tinha deixado mais louca que o normal e aquilo tinha custado muita coisa, inclusive a minha felicidade. Mas eu estava disposto a mudar aquilo, não sabia como. Talvez, pensei comigo, ela somente precisasse de um tempo – de um longo tempo. As pessoas são assim, precisam ficar sozinhas pra pensarem na vida. E por mais que Rachel fosse expansiva e tudo mais, às vezes ela tinha aqueles momentos de se fechar, se estar solitária. E daí, eu tinha certeza, ela perceberia que nosso final seria feliz. Quem tinha dito que finais felizes acontecem assim, num piscar de olhos? Deveríamos passar por muitas crises e muitas brigas para entendermos que pertencíamos um ao outro. Que nada do que ela dizia acreditar pudesse nos separar.
Quando a sineta tocou, segui para as aulas daquele modo que, de uns tempos pra cá, vinha acontecendo: de forma completamente mecânica.
E se eu achava que estava a salvo de Quinn, que, a princípio, estava mais isolada que o normal – eu estava muito enganado. Porque assim que cheguei ao refeitório para almoçar ela veio se juntar a mim – daquele mesmo modo de quem superara uma briga à toa. Mas pelo que tinha deixado bastante claro, eu não estava mais com ela. Nunca estivera, de fato, e não seria agora que aquilo iria mudar. Se ela não me significava nada era hora de eu demonstrar. "Hey, Shark-Finn, pensei de nós cantarmos alguma coisa", ela me disse, colocando uma das suas mãos no meu ombro. Olhei para seu gesto com a testa franzida. Será que ela nunca iria desistir? "Meu dueto é com a Rachel, não com você", eu lhe assegurei. "E daí? Você não é mais dela, de qualquer maneira", ela deu de ombros numa atitude meio cínica. "Quinn, eu preciso mesmo repetir que não a amo?", grunhi entre dentes. Ela juntou rapidamente os lábios. "Ainda posso querer ser sua amiga, não posso?".
Ri daquilo na mesma hora. "Você nunca quis ser minha amiga. Nós nunca ficamos mais de cinco minutos conversando. Você não sabe nada sobre mim", revidei com um pouco de frieza. "Quer parar de me diminuir desse jeito como se você não tivesse gostado de todas aquelas vezes que fomos para a cama?", ela questionou com um olhar meio assustador. "Tudo aquilo não foi amor, dá pra entender?", respondi com aspereza. "Não foi, porque você fica aí fingindo que não sente nada por mim. Esqueça a Rachel, ela não está nem aí pra você mais", Quinn disse. "Cale a boca", mandei.
"Ótimo, Finn", Quinn retrucou com irritação, depositando seu guardanapo na mesa com violência. "Boa sorte então", ela desejou. E daí, se levantou e saiu do refeitório com rapidez. Balancei a cabeça. Era impressão minha ou todas as garotas ficavam loucas depois de certa idade?
Rachel estava numa mesa um pouco distante com Jesse, Kurt, Artie, Mercedes, Tina e Mike. Estavam conversando. Rachel estava rindo como se não estivesse enfrentando uma separação, ou como se não sentisse minha falta.
Bem, talvez não sentisse mesmo. Depois de um tempo, Quinn reapareceu. Puck, que tinha se juntado a mim na mesa, disse: "Não quero ver isso". Não entendi e perguntei: "Como assim?".
E daí, observando melhor Quinn, entendi. Ela carregava um copo vermelho e parecia um pouco furiosa enquanto caminhava por entre as mesas. Fiz menção de me levantar para fazer algo, mas Puck segurou a minha camisa. "Melhor não, cara. Eu não me meteria em briga de mulher".
Nisso, Quinn se emparelhou com Rachel. Elas trocaram algumas palavras – não ouvi, pois o tintilar de talheres e a conversa o ambiente abafava quaisquer palavras que elas teriam dito. E então o copo da mão de Quinn escorregou. Vi Rachel abrir a boca, mas não pronunciar nada. Mas já estava feito: suas roupas já estavam manchadas de suco de uva. "Tudo bem, agora acho melhor você se meter", Puck me aconselhou. Eu me levantei agarrando uma quantidade ridícula de guardanapos de papel. Aos poucos, a situação ganhava espectadores que soltavam risadinhas, ou que colocavam as mãos nas bocas. Quando cheguei até elas, Quinn estava falando "Eu já disse que foi sem querer", enquanto Mercedes berrava "Sua filha da mãe!". Rachel estava parada, observando o estrago. "Quem você pensa que é?", eu retruquei para Quinn, sentindo minha mandíbula tensa. Na verdade, todo o meu corpo estava tenso. "Aqui", eu disse para Rachel, entregando-lhe os guardanapos que tinha trazido. Ela somente me olhou – os olhos marejados – e empurrou minha mão para longe. "Sai da minha frente", ela me disse, ríspida.
"E quer saber de que mais, Yentl? Sim, eu e o Finn fomos para a cama diversas vezes desde que vocês terminaram. Conviva com isso", Quinn dirigiu-se a Rachel, com um olhar apertado.
Olhei de Quinn para Rachel. Ela apresentava uma expressão inescrutável, mas que me dizia que eu estava muito ferrado. Ela me olhou e empurrou a minha mão para longe mais uma vez.
"Rachel...", eu disse.
Mas já era tarde demais.
Oi, gente!
Sim, finalmente, eu arranjei tempo para escrever esse capítulo! PALMAS PRA MIM -sqn
Confesso que tô triste, no me gusta de vê-los separados... Mas essa é a vida, né! Logo, logo eles se juntam de novo! *-* O que acharam do capítulo (além do fato que eu mereço um tapa na cara? HAHA)? Não se esqueçam de comentar, POR FAVOR.
E nem de conferirem minha outra fanfic Finchel, Empty Handed!:D
Feliz restinho de Páscoa pra vocês! ;3
Love, Nina.
P.S.: desculpem os erros, não tô com tempo de corrigir essas 15 páginas de word!
