Capítulo 05
Kagome veio correndo até Rin quando ela e Sesshoumaru chegaram à porta que dava para a sala de espera.
Ela olhou para Rin e a abraçou forte.
— Vai ficar tudo bem. Ele precisa de um marca-passo, como você sabe, mas é um homem forte. Vai ficar bem.
Rin deixou a cunhada abraçá-la, agradecida por um contato humano que não era motivado pela necessidade de fazer fachada para a imprensa.
— Não sei o que farei se ele morrer — ela sussurrou.
Ela não queria falar aquilo e ficou impressionada com as próprias palavras. Estava acostumada a proteger seus sentimentos, mas suas emoções estavam muito à flor da pele para serem totalmente escondidas.
— Ele não vai morrer, querida. Não fale assim. — Kagome confortou Rin e ela sentiu lágrimas nos olhos.
Ela não conseguia se lembrar da última vez em que alguém reconhecera que ela era dotada de sentimentos. Que a tocara para confortá-la. Certamente, Sesshoumaru não. Ele agia como se seu coração fosse feito de ferro e duas vezes mais duro do que deveria ser.
Os pais de Rin nunca a haviam confortado quando ela era criança. Ela devia esconder todos os medos e jamais admitir a dor.
— Podemos vê-lo?
— Inuyasha está com ele agora. Ele está dormindo, mas pode vê-lo. Ele está pálido, mas está bem.
Rin aquiesceu e foi para o quarto do rei Inutaisho sem esperar para ver se Sesshoumaru a seguira. Ele e sua forte presença ao lado dela foi logo percebe-la. Havia uma ligação entre ambos que ela duvidava que o divórcio pudesse cortar... Pelo menos da parte dela.
Ela abriu a porta e entrou silenciosamente. Havia uma meia-luz por trás da cama do rei, que estava imóvel, dormindo. Sua normalmente cor bronzeada dava lugar a uma palidez que ressaltava os círculos pretos sob os seus olhos.
— Ele parece tão fraco — a voz de Sesshoumaru estava nada de emoção.
— Sim, mas vai ficar bem — falou Inuyasha.
E Rin se pegou rezando: "Por favor, Senhor, permita que ele fique bem". Inuyasha se aproximou do irmão e sussurrou:
— Eles marcaram a cirurgia para amanhã de manhã.
— Miroku e Sango já terão chegado?
— Sim. E Izayoi também.
— Ela vem?
— Sim.
— Sango ficará bem num vôo tão longo?
Inuyasha deu um meio-sorriso.
— De acordo com Miroku, ela insiste que está lívida, e não doente. Kagome diz o mesmo.
— Kagome está certamente doente com a gravidez. Estou surpreso por tê-la deixado vir.
Inuyasha suspirou.
— Não havia como impedi-la, mas quero levá-la para o palácio para descansar assim que possível.
— Sim — Sesshoumaru se aproximou da cama do pai e tocou seu braço. — Que bom que o enjôo de Sango não está tão forte!
Rin foi pega de surpresa diante dessas palavras e sentiu um nó na garganta.
— Ele vai ficar bem. Acredite, Sesshoumaru — falou Inuyasha, mostrando que também não fora enganado pelo comentário do irmão.
Sesshoumaru não falou nada. Sua atenção estava toda concentrada no pai, imóvel na cama.
Inuyasha apertou o ombro do irmão e saiu do quarto.
Rin se moveu para ficar ao lado de Sesshoumaru e colocou a mão na face do rei Inutaisho. Estava quente, e isso a confortava. Eles ficaram assim por alguns minutos, os dois tocando o rei, sem se tocarem.
Então Rin foi para o outro lado do quarto rezar, com uma fé incerta. Inuyasha voltou e sussurrou algo no ouvido de Sesshoumaru. Sesshoumaru assentiu e falou alguma coisa, e Inuyasha saiu.
Ele a encarou.
— Inuyasha e Kagome vão voltar para o palácio. Ela quer que ele descanse e não irá sem ele.
— Que bom que ele vai, então.
— Falei que você iria também.
— Prefiro ficar.
— Este é meu lugar.
— Meu também.
— Não depois de hoje à noite.
Ela sentiu como se tivesse apanhado dele.
— Eu amo o rei Inutaisho. Você sabe disso. Quero ficar aqui com você.
— Precisa descansar — respondeu Sesshoumaru, tão duro quanto uma rocha.
— Não vou dormir. Não poderia.
— Não seja boba, menina. Vá para casa e volte pela manhã — a voz rouca veio da cama e os joelhos de Rin bambearam quando ela ouviu.
Ela cruzou o quarto correndo e pegou a mão dele.
— Rei Inutaisho...
— Quantas vezes... — ele fez uma pausa, respirando ofegante. — Falei para você me chamar de papai.
— Eu...
— Certamente não é pedir demais — Sesshoumaru comentou com a voz controlada que ela sabia que escondia raiva.
Ela nunca se sentiu confortável em chamar o rei de papai, mas agora ainda mais... Seria muito errado. Ela logo sairia totalmente da família.
Sim, como ela poderia negar a ele um pedido tão simples? A resposta era: não podia.
— Desculpe, papai, mas quero ficar com você.
— Precisa descansar.
— Preciso ficar com você.
— Não discuta, ele está doente.
— Eu sei, mas também sei que só está falando isso para fazer as coisas a seu modo — ela acusou o teimoso marido.
O rei Inutaisho riu sem forças, expressando cansaço nos olhos dourados.
— Essa é minha nora. É perfeita para o meu filho.
As palavras doíam, porque, de acordo com Sesshoumaru, ela não era nada perfeita, mas Rin esboçou um sorriso.
— Por favor, deixe-me ficar.
— Preciso falar sobre alguns assuntos com meu filho. Caso aconteça algo. Não vou sossegar se não souber que você não descansou.
— Não fale como se fosse morrer, por favor.
— Todos temos que enfrentar a morte, cedo ou tarde, filha.
— Mas quero que seja mais tarde. Inuyasha falou que você ficará bem. Os médicos falaram.
O rei deu de ombros.
— A cirurgia costuma ser bem-sucedida, mas sempre existem riscos em situações assim. Será a vontade de Deus.
— Não acredito que seja a sua hora.
— Eu também não, cara, mas eu seria negligente se não conversasse alguns assuntos de última hora com meu herdeiro.
Rin olhou para Sesshoumaru. Não sabia por quê. Ele não era mais o seu defensor... Se é que um dia foi. Certamente não podia esperar nenhum tipo de conforto daquela direção, mas estava acostumada a contar com ele.
Os olhares deles se cruzaram e os olhos sombrios dele não expressavam nada. Ela piscou e virou a cabeça, incapaz de lidar com aquilo, como se tivesse percebido que seu casamento podia não ter sido perfeito, mas que sempre tivera intimidade. Agora, reconhecia que ela havia acabado.
Sempre que os olhares deles se cruzavam antes, ela via o reconhecimento de si mesma e seu lugar na vida e nos olhos dele. Não ver nada disso agora fazia com que ela percebesse que talvez o casamento deles fosse mais do que ela imaginava, mas, de qualquer forma, havia acabado agora.
— Vá para casa e descanse. É o que quero — falou o rei Inutaisho, conseguindo parecer arrogante e no controle da situação, mesmo debilitado.
— Eu vou sair — ela falou, sabendo que ele entenderia isso como obediência. Ela havia convivido muito tempo com políticos para saber como aparentar uma promessa sem que ela significasse nada.
Ela sairia... Do quarto do hospital.
— Bom.
Ela se inclinou e beijou a face do rei.
— Fique bem, papai. Por todos nós.
— Farei o possível.
Ela forçou outro sorriso.
— Tenho certeza disso.
Ela não conseguiu encarar Sesshoumaru novamente.
— Nos vemos depois — ela falou, saindo do quarto. Ela foi direto para a sala de espera, onde sabia que encontraria os outros, e despachou Inuyasha e Kagome.
Rin se acomodou na sala de espera. Aninhou-se no sofá e assistia à televisão como se ela criasse um ruído branco no pano de fundo dos seus pensamentos infelizes.
Ela acordou ao som de vozes.
Rin sentou-se. Um paletó que havia sido colocado sobre ela caiu de seus ombros. Ela estava tomada pelo cheiro de Sesshoumaru e pelo calor de seu paletó, que a confortou naquela hora. Ele deve tê-la encontrado mais cedo e a cobriu.
Ele virou para olhar para ela, mesmo sem que Rin tivesse feito nenhum ruído. Seu rosto era uma máscara impenetrável.
— Você não voltou para o palácio.
— Eu nunca disse que voltaria.
— Falou que ia sair.
— E saí — ela olhou para longe dele, sem conseguir lidar com esse Sesshoumaru distante. — Do quarto do hospital.
— Mas não do hospital.
— Não.
— Por que não?
— Queria estar aqui, caso acontecesse algo.
— Você viu papai e supus que tinha ido embora com Inuyasha.
Ela deu de ombros, deixando o paletó cair mais um pouco.
— Não sou responsável por suposições de dois homens levados pela crença arrogante de que o resto do mundo vai mudar de planos simplesmente porque eles ditam.
Izayoi gargalhou.
— Isso, Rin. Não deixe esse meu filho mandão achar que manda totalmente em você.
— Sem chances, mamãe.
Rin tinha quase certeza de que fora a única a ouvir o tom rouco de Sesshoumaru, mas, para os seus ouvidos, fora tão alto que era como se ele tivesse gritado o quanto não gostava dela.
— Fico contente em ouvir isso. Você parece muito com seu pai, achando que controla o mundo e todas as pessoas. A vida não funciona assim e, certamente, pela primeira vez na vida, talvez Inutaisho esteja percebendo isso.
— Ele está mais do que ciente disso. Posso assegurar — falou Sesshoumaru, com a voz firme.
— E você, meu filho?
— Fique contente em saber que ele e eu estamos conscientes de que nossos desejos não mudam o mundo.
O rosto de Izayoi demonstrou suave preocupação.
— Sinto muito, Sesshoumaru. Momentos assim são difíceis, mas Inutaisho ficará bem. Acredite.
— Espero que esteja certa.
— Sempre estou certa, mas às vezes os homens da família levam algum tempo para entender.
Rin só não gargalhou porque sabia que Izayoi estava errada em um aspecto.
Assim como o rei Inutaisho, ela sempre acreditou que Rin e Sesshoumaru formavam um par perfeito, e sempre verbalizava isso. Quando a saúde do pai melhorasse, Sesshoumaru se asseguraria de que todos soubessem o quanto seus pais estavam equivocados.
Izayoi falou:
— Gostaria de ver Inutaisho.
— Sim, claro — respondeu Sesshoumaru. — Está dormindo agora, mas pode acordar novamente.
Miroku assentiu.
— Ficarei também.
— Nesse caso, devo levar nossas mulheres para o palácio. Parece que essa será a única forma de eu garantir que Rin descanse.
— Para que horas está programada a cirurgia? — perguntou Rin, ignorando a ironia e conseguindo evitar o olhar dele enquanto aparentava olhar em sua direção.
— Daqui a cinco horas.
— Quero estar aqui.
— Então vamos para o palácio comigo agora e tire pelo menos um cochilo antes.
— Não precisa me dizer o que fazer.
— Prefiro ficar com Miroku e Izayoi — respondeu Sango antes de Sesshoumaru responder.
Miroku colocou gentilmente o braço em torno da cintura dela e a puxou para perto, beijando sua testa.
— Está grávida, cara mia, precisa descansar pelo seu bem e pelo bem do bebê. Por favor, volte para o palácio com meu irmão.
Rin refletiu se Sesshoumaru seria alguma vez carinhoso com ela... Mesmo se estivesse grávida. Uma discreta voz dentro de seu coração dizia que não faria diferença. Ela teria seus sonhos com ou sem a ternura extra. Ver seu desejo mais profundo realizado no corpo de outra mulher provocou uma dor que não tinha nada a ver com inveja.
Rin adorava Sango e queria o melhor para ela, mas não podia mais sufocar o desejo urgente de ter um bebê, assim como não podia fingir que Sesshoumaru a amava.
Rin não conseguiu deixar de evitar a comparação entre as formas de interação de Sango e Miroku e ela e Sesshoumaru. Ela nunca ousaria beijá-lo num lugar público como um corredor de hospital. Nunca sequer o havia beijado na frente dos familiares, nos apartamentos privativos do palácio.
Olhando para trás, ela percebia que, durante três anos, podia contar nos dedos quantas vezes o beijara quando não estavam fazendo amor. Ela nunca sentiu a confiança de instigar uma transa, mas sempre respondia... Com mais paixão do que julgava possível.
Ele se orgulhava dela por isso, mas agora ela pensava que talvez tenha sido muito entusiasmada. Ele ficou entediado com ela... Por que fora fácil demais?
E, mesmo antes de ele ter confessado seu tédio, ela sabia que ele não sentia tanto carinho por ela quanto seus irmãos por suas esposas.
Ela olhou para Miroku e Sango, tão próximos que certamente eram a metade um do outro, e seu coração se encheu de dor, pois sabia que não deixaria de amar Sesshoumaru, mesmo agora, que o detestava quase tanto quanto o amava.
Seu futuro se mostrava como uma terra perdida e solitária à sua frente.
O que havia de errado por não inspirar amor nas pessoas que deveriam ter afeição por ela? Seus pais só a viam como um meio para um fim ou um doloroso desapontamento, e Sesshoumaru dera a ela apenas um papel remotamente mais importante na sua vida. O de amante e ajudante, mas estava feliz demais para jogar isso fora.
Ela se levantou, precisando sair dali, e o paletó caiu. Ela se abaixou para pegá-lo e o estendeu na direção de Sesshoumaru.
— Toma.
Ele pegou, com os dedos roçando os dela e ela puxou a mão, batendo no sofá, quando retraiu também o corpo em reflexo.
— Rin, está bem, filha? — Izayoi perguntou, preocupada.
— Sim. A-apenas cansada. — Rin estava sufocada com lágrimas que queimavam seus olhos, mas apenas parte delas eram pelo homem acamado no hospital. — Vou esperar no carro.
E, ignorando a etiqueta pela primeira vez na vida adulta, ela saiu do corredor sem se despedir de ninguém.
Rin estava como um fantasma quieto, sentada ao lado de Sango no carro. Felizmente, a família já tinha decidido que ela estava muito preocupada com a doença do pai dele, e ele não achava que o comportamento dela fosse gerar suspeitas na cunhada.
Ela se recusara a fitar Sesshoumaru nas últimas horas. Ele não sabia o que ela havia sentido quando seus olhares se cruzaram no quarto do hospital. Ele tinha certeza de que havia conseguido controlar a raiva que sentia dela, pois não queria chatear o pai. Porém, algo que ela viu nos olhos dele a chateou a ponto de ela desviar o olhar com uma expressão no rosto que fez com que ele tivesse vontade de agarrá-la e abraçá-la, mesmo que esse desejo fizesse dele um idiota.
Depois disso, ela não olhou mais para ele...
Se a perspectiva do divórcio era tão ruim, por que ela o desejava? Ou seria a realidade de sua traição vindo à tona?
Ela era adorada pelos pais dele, e ele sabia que ficariam profundamente magoados se houvesse um divórcio. Especialmente se eles descobrissem que Rin havia traído os votos do casamento. Ela adorava o pai e a mãe dele e não desejaria magoá-los com suas ações.
Será que ela finalmente estava começando a perceber quais seriam os resultados de suas ações?
Que pena não ter considerado isso antes de se envolver com outro homem. Só de pensar nela com outra pessoa, ele ficava furioso, e tinha de esconder perguntas raivosas na frente de Sango. Será que Rin estava arrependida agora? Estaria avaliando o custo, agora que era tarde demais, desejando não ter pedido o divórcio? Ou ele estaria apenas envolvido em um pensamento esperançoso?
Talvez fosse uma simples preocupação por seu pai, mas Sesshoumaru nunca a vira perdendo o controle como ocorrera no hospital. E ainda havia o fato de ela não olhar para ele.
O paletó dele tinha o cheiro dela... Um cheiro suave e floral que tinha o poder de deixá-lo doente de desejo.
Seus músculos estavam rígidos por causa do desejo de pegá-la em seus braços. Não que ele o fizesse nessas circunstâncias, mesmo se ela não tivesse pedido o divórcio e confirmasse suas piores suspeitas. Ele não demonstrava afeição publicamente. Sua dignidade como futuro soberano do trono Taisho exigia que fosse circunspecto ao lidar com a esposa.
Mas ver seu irmão mais novo beijar a mulher sem se importar com quem os estivesse observando despertou em Sesshoumaru uma estranha pontada na região do coração.
E ele tinha quase certeza de que Rin também ficara abalada. Se ele não julgasse impossível, diante dos acontecimentos daquela noite, acreditaria que ela se ressentia por ele não agir da mesma forma com ela. Ele percebeu que, nos últimos meses, ela vinha olhando estranhamente para os seus cunhados e as esposas, e refletia sobre isso.
Será que ela buscara afeição com um homem mais expansivo? A idéia esfolava seu ego e seu senso de confiança masculina. Não ser tudo que aquela mulher queria era uma perspectiva difícil para qualquer homem. Mas como um homem que tinha de esconder a relação com ela poderia fazer demonstrações públicas de carinho?
E a relação era muito bem escondida. Até ela pedir o divórcio, Sesshoumaru sempre esteve quase certo de que suas suspeitas não passavam de tolices de um cérebro masculino. Porque ele nunca havia visto nenhuma impropriedade no comportamento da esposa.
Ele passou o tempo no avião pensando no passado, tentando analisar quando a havia perdido, mas, quando começou a pensar muito, forçou seu cérebro hiperativo a parar de dissecar as memórias.
Isso não estava lhe fazendo bem e ele estava enlouquecendo. Sesshoumaru deixaria Hawke fazer seu trabalho e enfrentaria a verdade de cabeça erguida. Como um homem.
Da mesma forma que enfrentava a possibilidade de perder o pai... Sem lamentos, sem se recusar a aceitar o que tal fato traria para a sua vida. Desde criança, fora ensinado a enfrentar a vida com a perspectiva de um direito de nascença. A dele trazia mais responsabilidades, e elas permeavam todos os aspectos, inclusive seu casamento.
Sempre soube que um dia reinaria em Isole del Re. Aceitou esse dever e tudo que envolvia todas as etapas da jornada de sua vida. Nunca se rebelou contra o que seu direito de nascença pregava. Ele não precisava fazer promessas ao pai de que cumpriria com seus deveres se o impensável acontecesse e ele não resistisse à cirurgia.
Os dois homens eram totalmente confiantes na adequabilidade de Sesshoumaru à função. Ele nascera e crescera para isso, sabendo o que significava. Era um príncipe coroado, destinado a ser o rei. Mas eles conversaram e seu pai falou a Rin que eles deviam falar... Sobre aspectos políticos, circunstâncias familiares e problemas pessoais.
Seu pai demonstrou uma forma de pensar que impressionou Sesshoumaru, mas nada mais impressionante que o fato de ainda estar apaixonado por Izayoi.
Toda aquela loucura da maldição dos Taisho que seu pai contou resumia-se a isso. Todas as amantes depois do divórcio do rei Inutaisho tinham sido uma tentativa do pai de esquecer o amor de uma mulher viva. E não de uma morta.
Intensos sentimentos de culpa misturados a um luto que ele nunca se permitiria retirar em público caíram sobre Inutaisho nos primeiros anos do casamento. Ele achava impossível pronunciar as palavras de amor necessárias para Izayoi, pois não conseguia admitir esse amor nem mesmo para si mesmo.
Mas os sentimentos cresceram dentro dele até ficar desesperado para encontrar uma forma de negá-los. Finalmente, em estado de total pesar pelo que perdera e pela forma como estava seu atual casamento, ele traiu sua promessa de fidelidade. Izayoi descobriu e, embora tenha aceitado um casamento de amor unilateral, recusou-se a tolerar infidelidade.
Sem se comprometer, o rei Inutaisho não fez nada para evitar. Ele criou a ficção da maldição dos Taisho para abrandar sua dolorosa consciência e seu dilacerado orgulho logo depois do divórcio.
Ele chegou a acreditar nisso até a realidade do casamento de Inuyasha. Eles estavam caminhando pela praia com as crianças. Inutaisho olhou longamente para a mulher que dera à luz seu terceiro filho enquanto ela conversava com os netos.
Por alguma razão que ele ainda não entendia — mas confessou a Sesshoumaru que pensou que podia ser uma premonição do que estava por vir —, tudo se encaixava depois de mais de duas décadas de idiotice, como ele denominou.
Sesshoumaru não sabia o que fazer com as revelações do pai, ou entender por que o pai havia feito aquele desabafo. Mas sabia que o pai finalmente havia aceitado seu amor por Izayoi e estava preparado para lutar por esse amor. Se Sesshoumaru conhecia o pai como achava, os dias de solteira de sua madrasta estavam contados.
Desde que o rei Inutaisho sobrevivesse à cirurgia.
