Capítulo 08
— De certa forma, sim.
— Explique de que forma.
— Não pareço mais terrível? — ela perguntou com um pouco do seu antigo senso de humor.
— Parece tão cansada que mal consegue ficar acordada e devíamos deixar para amanhã, mas não posso.
— Nem eu — ela admitiu. Queria contar a verdade, Queria que ele parasse de olhar para ela como se fossem inimigos. — Tenho endometriose.
— O que é isso?
Ela tentou concentrar a mente confusa para descrever tecnicamente.
— É uma doença ligada ao meu ciclo menstrual.
— Consegui perceber isso.
— Sim, bem... Não sou um médico. Não é fácil para mim explicar doenças.
— Desculpa, eu não devia ter sido sarcástico.
— Certo — ela estava contente por ele não a estar encarando, pois achava que não suportaria se tivesse de ver a reação dele. — Eu... Hm...
— Comece pelo começo. O que causa a dor?
— Em termos clínicos, é como se houvesse tecido similar ao uterino em outras áreas da minha pélvis... Bem, pode ser de outras áreas, mas é pouco provável.
— Che chosa! — ele perguntou, parecendo impressionado.
— Você teve educação sexual na escola?
— Isole del Re determina que o sistema de ensino público cobre algumas informações nos últimos anos antes da universidade.
— E você estudou em escola pública? — ela perguntou interessada, sem ter atentado para esse ponto antes.
— Si. Claro. Se é boa para as outras pessoas, é boa para nós. Chega de falar de escola, explique sobre esse tecido que mencionou.
— Bem, como eu ia dizendo, você se lembra das fotos na escola sobre o sistema reprodutor feminino?
— Sim.
— Ótimo. Pequenos pontos de tecido na parte externa das trompas de Falópio ou nos ovários... Ou nas paredes vaginais.
Os músculos da coxa dele estavam duros de tensão.
— Quer dizer que eles se desenvolveram em todas essas partes em você?
— Sim.
Ele estremeceu. Ela suspirou.
— Podia ser pior. Na realidade, tenho sorte. — Mas não tanta quanto as mulheres que permaneceram férteis.
— Não me parece com sorte. Então essas lesões causam dor?
— Não são cortes... É o desenvolvimento do tecido, mas ele é preenchido com sangue durante o ciclo menstrual. Não tem para onde o tecido ir, e isso causa dor. Muita dor — ela acrescentou.
— Essa dor... Dificulta a transa, não?
Ela bateu no lábio e assentiu.
— É por isso que vem se esquivando de mim tantas vezes nos últimos meses? — ele perguntou, com a voz curiosamente neutra.
— Sim — ela falou, suspirando.
— Não entendo por que o divórcio. Certamente sabe que, se tivesse me contado sobre a dor, eu não teria insistido no sexo.
Se fosse assim tão simples...
— Sim, eu sabia disso. — mas saber disso não mudava o fato de que sem sexo ela não valia nada para ele.
Ele poderia ficar casado com ela sem o problema de infertilidade, mas não ficaria feliz com isso. Ela refletia se não tinha dado uma mancada ao contar. Tinha a ligeira suspeita de que a raiva dele o havia tornado mais honesto do que nunca.
— Então, por que o divórcio?
— Meu médico falou que de trinta a quarenta por cento das mulheres com endometriose se tornam inférteis.
Ele respirou fundo.
— O que quer dizer que sessenta por cento não se tornam.
— Não estou entre elas.
— O que está dizendo?
— O médico me contou que praticamente não há chances de eu engravidar sem uma fertilização in vitro e, mesmo assim, não há garantias.
— Mas você fez exames de fertilidade antes do casamento.
— A endometriose não é previsível. Eles não sabem o que causa a doença. Não há marcas que apareçam nos exames antes da manifestação, portanto os médicos não tinham como saber que eu teria isso, menos ainda sobre o impacto na minha capacidade de engravidar.
— E seu médico está certo sobre o impacto da doença em sua capacidade reprodutiva?
— Sim.
Houve um silêncio entre ambos que ela não podia suportar, então falou:
— Alguns pesquisadores estimam que essa seja a causa de até cinqüenta por cento da infertilidade feminina.
O que não dizia nada sobre a devastação emocional que aquilo causava. Os números frios eram apenas isso até que se aplicavam ao corpo de uma mulher que teria a vida toda alterada por causa da doença.
— Então, obviamente muitas mulheres têm esse problema.
— Sim — ela podia até fornecer vários números, mas eles não importavam.
O problema existia e, por mais que desejasse o contrário, não poderia mudar.
— Quando começou?
— Não tenho certeza. Meu médico diz que as pílulas anticoncepcionais são um dos remédios prescritos. Pode ter começado em qualquer momento desde que nos casamos... Mesmo antes, mas eu não sabia que as cólicas que eu tinha eram tão incomuns.
— Os exames...
— Já falei, não há exames que comprovem. Os exames de fertilidade de rotina só teriam acusado se eu estivesse doente antes do casamento, mas eu não estava.
— Então, pode ter ficado doente a qualquer momento?
— Sim, mas normalmente só se manifesta quando a mulher tem vinte e poucos anos.
— Entendo.
— Entende? — ela esperava que sim.
— Como descobriu que sofria disso agora?
— Pela dor.
— Sinto muito.
— Eu também. Depois que parei de tomar as pílulas, passei a sangrar mais e a sentir mais cólicas.
— Nunca falou nada.
— Não era um peso para você carregar.
— Como pode dizer isso? Sou seu marido.
— Mas sou responsável por mim mesma.
— Então achou que não precisava saber o que estava acontecendo?
— Inicialmente não, mas... — ela suspirou e contou sobre quando acordou sobre uma poça de sangue no banheiro. — Depois disso, vi que tinha que descobrir o que estava errado.
— Mesmo assim, guardou para si mesma a descoberta.
— Fui educada assim.
— Não acredito que seus pais esperariam que lidasse com algo dessa natureza por conta própria.
— Então você não os conhece como imagina. — De repente, morta de cansaço, ela recostou novamente nele.
As bombas para dor estavam causando o efeito previsível e seu cérebro estava ficando confuso. Felizmente, ela falou quase tudo que tinha a ser dito.
— Talvez — ele admitiu, surpreendendo-a. Nonmalmente era arrogante demais para admitir que estava errado. — O diagnóstico foi completamente confirmado?
— Sim — ela virou a cabeça na direção dele e fechou os olhos com o corpo tão relaxado que quase adormeceu.
Ele falou algo, mas ela não entendeu.
— Rin...
— Hmmm...
— Não está acompanhando.
— Os remédios me deixam zonza. Quero dormir agora.
Ela não precisou falar duas vezes. Ele a levantou da banheira e cuidou dela como se fosse uma criança. Ele a secou e vestiu, assegurando-se de prepará-la para o sangue da noite.
Então, ele a levou para o quarto e a deitou na cama.
Ele falou algo a que ela não respondeu. Estava muito ocupada se aninhando no travesseiro e adormecendo. Registrou vagamente ter sido abraçada por ele antes de se entregar ao total esquecimento.
Sesshoumaru olhou para o relatório do detetive sobre a sua mesa sem muita atenção. Não trazia grandes revelações. Não depois da noite anterior. Agora ele sabia... Tudo. Não havia outro homem. Rin não fora infiel nem queria se divorciar dele porque queria uma relação melhor.
Queria o divórcio e o fim do casamento porque a doença estranha a deixava virtualmente estéril.
Ela não via futuro para eles, mas ele se rebelava inteiramente contra essa perspectiva.
Não deixaria que ela partisse.
Só que ele suspeitava que as coisas não se passariam como ele queria. Rin podia ser incrivelmente teimosa e havia decidido que o casamento não era mais viável porque não podia garantir que lhe desse filhos, um herdeiro para o trono. Mesmo se ele pudesse convencê-la de que não via a situação dessa forma, que queria que ela ficasse, ela poderia insistir em partir pelo bem de Isole del Re.
Ela levava seus deveres ao país adotado muito a sério. Passou vários meses escondendo sua doença para proteger seus habitantes e a família real do turbilhão que seria a especulação sobre a sua saúde. Ele não podia acreditar que fora estúpido o bastante para achar que ela tivesse um caso.
Mesmo que se apaixonasse, ela era tão intensamente ciente de seus deveres que jamais faria alguma coisa comprometesse sua posição. Saber disso não o deixava mais tranqüilo.
Não quando ela se recusou a continuar a conversa naquela manhã. Insistiu que não tinha tempo, pois precisava visitar o pai antes de começar a agenda do dia. E ela riu com sarcasmo quando ele sugeriu que ela ficasse na cama descansando.
— Estou lidando com isso há meses e não tenho o hábito de me esquivar de minhas responsabilidades por causa disso.
— Mas está doente — e ele não sabia, droga.
— Estava doente no mês passado também, mas não fiquei de cama.
— Talvez devesse ter ficado.
— Isso está vindo do homem que me arrasou por eu ter cancelado meus compromissos para ir a Nova York encontrá-lo?
Sesshoumaru sabia que sua reação a este fato o atormentaria por muito tempo.
— Eu não sabia que isso estava em jogo.
— Nada estava em jogo.
— Poderia ter dito isso quando pediu o divórcio, não?
— Posso dizer quando sei que é verdade. Fui infeliz no momento de lhe contar. Devia ter esperado que você voltasse.
— Não, devia ter me contado assim que soube. — e definitivamente antes de ter pedido o divórcio, mas não diria isso.
Atribuir sua reação violenta ao fato de ter pensado que ela tinha um caso não ajudaria em nada. Tinha de pagar por seus pecados com humildade... Embora isso não fosse fácil. Não era um estado natural para ele.
— Você não estava por aqui para eu contar — ela falou com uma inesperada raiva em seus olhos castanhos. — Não nesse momento do mês. Você sempre teve o cuidado de planejar suas viagens de negócios de acordo com a minha disponibilidade sexual.
Ela soava como se não passasse de uma conveniência sexual.
— Não era assim.
— Era e é exatamente assim. Tem feito isso praticamente desde o início do nosso casamento.
— Mas não era porque eu a visse como uma conveniência sexual. — ele começou a programar as viagens dessa forma quando percebeu que Rin ficava constrangida de transar menstruada. Ele sempre a desejava, então a melhor solução era sair do caminho da tentação.
— Podia ter me enganado.
— Aparentemente enganei.
Ela deu de ombros.
— Tenho que ir.
Mas ele não podia deixar a situação dessa forma. Tinha de esclarecê-la.
— Eu não viajava sempre que você ficava menstruada. Podia ter me falado, mas optou por esconder.
— Você não facilitou as coisas, não é?
— O que diabos quer dizer com isso?
— Você tem xingado muito ultimamente — ela comentou.
— E você vem mentindo para mim há meses.
— Escondendo... Não é a mesma coisa. Pergunte a qualquer político.
— Mas não é política. É minha mulher.
— Sou uma princesa... No mundo de hoje, isso equivale a ser uma política.
— É princesa porque é minha mulher. Nosso relacionamento vem antes.
— Como aconteceu em Nova York? — ela perguntou, enquanto se encaminhava para a porta.
— Você me pegou de surpresa.
Ela abriu a porta com uma expressão desafiadora.
— Sesshoumaru, você sempre tem dificuldade de enxergar em se tratando do nosso relacionamento. Você vê o que quer ver, percebe apenas o que é conveniente e desconsidera completamente todo o resto. Tentar reescrever nossa curta história pelos meus sentimentos ou pelo seu orgulho não vai mudar nada.
— Pensei que fosse muito feliz como minha esposa. Pelo menos até estes últimos meses.
— Eu era, mas isso não altera o fato de você ter colaborado tanto para que eu escondesse minha doença de você. Por que foi tão fácil, Sesshoumaru? Por que foi difícil perceber que alguns meses era tudo que eu podia fazer para agüentar?
Ele não tinha resposta, seu estômago estava revirado diante da pergunta e seu coração, apertado de forma dolorosa. Ela saiu do quarto. Não havia mais perguntas. Sem mais cenas, apenas uma saída digna... Algo em que era muito boa.
Ele conseguiu ir almoçar no palácio, mas ela o tratava como a um estranho. Inuyasha, Kagome e Izayoi também estavam presentes e ele recebeu alguns olhares estranhos deles, mas ninguém se intrometeu.
Sesshoumaru imaginava como podia estar tão óbvio que eles tinham um problema e ninguém comentar a respeito, mas não se lembrava das coisas de forma diferente. Eram uma família real e não expunham suas preocupações em público, mas quando chegara ao ponto em que ele não podia perguntar à esposa por que estava sendo evasiva?
Ele fez suposições sobre o assunto, mas não podia ter passado mais longe. Achava que ela estivesse tendo um caso e isso o torturava. Mas ele nunca perguntou por que ela não queria fazer amor com a mesma freqüência, por que ficava fora do ar algumas vezes em que conversavam e por que começou a rejeitá-lo.
Por que não perguntou?
A resposta fácil era que ele não queria ouvir o que esperava que fosse a resposta, mas era mais complicado que isso. Tinha a ver com uma regra velada da família de não se discutirem desprazeres. Uma regra sobre a qual ele não tinha consciência até agora.
Os Taisho eram homens de ação, mas conversar sobre algo abstrato como sentimentos era um pecado para eles. E admitir fraqueza era algo ainda pior. Admitir que ele estava preocupado e que sentia falta da generosa paixão da mulher na cama teria ido além de sua capacidade.
O que isso significava? Que ele estava tentando fingir que nada havia mudado, quando, de fato, tudo havia mudado.
Enquanto estava só, sua esposa lutou contra essa horrível e dolorosa doença e não contou a ninguém. Porque ninguém perguntou. Ele não perguntou. Ele sentiu a culpa o consumindo. Devia saber que algo estava errado, mesmo sem perguntar. Ela estava com a razão... Ele facilitou muito para ela esconder a doença, mas não porque não se importasse.
Ele conseguiria convencê-la disso?
Ele tinha a impressão de que ela achava que ele não gostava dela, e nada podia estar mais longe da verdade. Ele pensou que ela estava ficando entediada com a transa deles, quando, na realidade, estava simplesmente se protegendo. Ela não percebia que um homem precisava saber disso?
Olhando para o relatório, ele tinha de reconhecer que, aparentemente, fora uma grande coisa ela ter escondido alguns fatos dele durante os três anos de casamento. Fatos que ela, obviamente, não percebia que ele devia saber.
Ele não compreendia o porquê de ela ter um médico secreto em Miami. Ela dizia que ia a esse médico desde antes do casamento para tratar qualquer coisa de natureza delicada. Quantas consultas marcou secretamente, quantas viagens fez para se consultar?
E como conseguiu fazer isso se viajava acompanhada de seguranças? Ele não gostava da sensação de haver todo um lado da esposa que ele não sabia existir. Ele não gostava nem um pouco dessa situação.
Ela disse que o médico era discreto e por isso o procurara. Não queria fofocas nos tablóides, mas isso não explicava sua reticência em contar a verdade a Sesshoumaru. Era seu marido, mas ela o tratava como adversário. Não confiava nele.
Ela podia não ter outro homem na vida, mas Sesshoumaru também não ocupava o local que era seu. E se os comentários dela nos últimos meses fossem um indício, ela também não acreditava que tivesse o papel adequado nas prioridades dele. O casamento deles estava com problemas em aspectos totalmente diferentes do que ele supunha, mas não havia mais problemas.
Ela não estava atendendo a essas necessidades agora e tinha alguma idéia descuidada de acabar com tudo de uma vez. Queria acabar com o casamento porque seu corpo não cooperaria com sua função de prover um herdeiro para ele. Parecia pensar que ele aceitaria e aprovaria essa chamada solução. Mas não havia nenhuma honra em abandonar uma mulher porque ela não podia ter filhos. E ele fora um homem criado para salvar a honra.
Ela aprenderia que um Taisho não desistia diante das adversidades.
