Capítulo 09

Rin estava se vestindo quando Sesshoumaru entrou no quarto. Ela olhou rapidamente para ele e desviou o olhar. Ele tinha uma expressão contra a qual ela não queria brigar no momento. As olheiras de seu rosto demonstravam cansaço, mas seu olhar expressava eloqüente determinação.

Ele havia tomado alguma decisão. E por que ela tinha tanta certeza de que brigaria com ele por causa disso? Ela não sabia, mas seus instintos a avisavam para ficar apostos.

Ele colocou a mão sobre o ombro dela e ela teve de brigar contra uma ação retaguarda que seria a resposta natural do seu corpo ao toque dele. Queria encostar-se nele, roçar sua extensão, mas sabia que só podia contar com a própria força.

O polegar dele roçou a curva do pescoço dela.

— Como está se sentindo, cara?

Afastando-se do toque insidioso, ela sorriu diante da pergunta que já ouvira inúmeras vezes naquele dia.

— Bem.

Ele suspirou e se moveu para o outro lado do quarto.

— Por que não acredito em você? — ele perguntou, enquanto começava a tirar o terno.

— Porque suspeita de tudo — ela debochou, sem olhar para ele. O contato visual com sua forma espetacular não fazia bem para o autocontrole dela. Mesmo quando a possibilidade de fazer amor estivesse tão fora dos limites.

— Talvez isso seja justificável — ele respondeu, com um tom baixo de que ela não gostava.

Ela olhou para ele, mas ele não a estava olhando, pois retirava a camisa. O coração dela acelerou quando viu aquele lindo corpo desnudado. Uma forte onda de possessão tomou conta dela, e tudo o que não podia fazer era cruzar aquele quarto e tocar aquela pele nua para declará-la sua.

O lado primitivo dela não compreendia a necessidade de encerrar o casamento.

— O que quer dizer? — ela perguntou com o tom de voz um pouco elevado.

Sesshoumaru virou para olhar bem na hora em que ela devorava seu corpo com o olhar, mas não percebeu.

Ele abotoou a camisa enquanto a desafiava com os olhos.

— Você escondeu muita coisa de mim nos últimos meses. Uma dor que devia ter me revelado. Uma hemorragia que poderia ter sido perigosa. Posso ser perdoado por não acreditar que você esteja bem agora.

O julgamento complacente dele a irritou. Ela o estava protegendo, droga.

— Quer saber a verdade? — ela perguntou repentinamente, fulminando-o com os olhos. — Estou com tanta cólica que quero me deitar e morrer, mas não vou fazer isso, e falar para você não vai mudar nada.

Ele empalideceu diante daquelas palavras, mas não deu sinais de que recuaria.

— Não posso consertar o que desconheço.

Tipicamente um macho Taisho, achando que tinha controle sobre tudo o que conhecia no universo.

— Você não pode consertar isso mesmo.

E por isso ela agradecia. Ela se virou para sair e quase esbarrou nele.

Ele a segurou com as mãos em seus ombros, com uma expressão sorridente.

— Talvez não possa livrá-la dessa doença, mas posso pedir que tragam uma bandeja para que coma na cama.

Era tão tentador, mas não podia se entregar à endometriose agora.

— Não.

Ele franziu o cenho, apertando os olhos em desaprovação.

— Por que não?

— Não quero que sua família fique especulando sobre a minha saúde. Eles já estão sob muita tensão e preocupação.

— E você também.

— É minha escolha, Sesshoumaru.

— E se eu tirar essa escolha de você?

Não fora um comentário vazio. Ela podia ver nos olhos dele. Ele continuaria a provocação.

— Não me ameace.

Ele murmurou algo em tom de desgosto.

— Não estou a ameaçando. Estou tentando cuidar de você como deveria ter feito nos últimos meses.

Oh, não... Um homem Taisho no modo culpado era terrível.

— Isso nunca foi sua função, Sesshoumaru. Não preciso que cuide de mim. Não sou criança.

— Como pode dizer que não é minha função? É minha esposa. Minha responsabilidade.

— Um príncipe não pode ter essa visão da vida.

— Este príncipe tem.

Ele não tinha idéia do quanto ela desejara ouvir isso antes, mas já havia aprendido que uma princesa não podia contar com mimos quando estava doente. Pelo menos não do marido. Nem de ninguém, se tivesse deveres a cumprir.

— Isso é novidade.

— Talvez — ele reconheceu, sem se desculpar. — Mas ainda é o certo a ser feito.

— Não, não é. Isso significa que você se preocupa com tudo e ainda me inclui na sua lista de fardos, mas não vou deixar. Ouviu? Você já tem preocupações demais.

— Não vou ignorá-la porque tenho outras coisas que exigem minha atenção também.

— Por que não? Já fez isso antes.

A boca dele se acomodou em um traço firme.

— Isso não é verdade.

Ela se afastou.

— Você tem muita percepção.

— Houve vezes em que tive de colocá-la em segundo lugar, sim, mas fui forçado pelas circunstâncias. Nunca a esqueci ou ignorei nos meus pensamentos e na minha consideração.

Ele soava como se fosse importante que ela acreditasse nele, mas ela não estava pronta para outra discussão sobre o casamento agora. Ela não exagerou quando disse que estava com dor, e a discussão não estava ajudando.

— Precisamos nos apressar ou vamos nos atrasar para o jantar.

— Prefiro que fique aqui e descanse.

— Não.

Ele suspirou novamente.

— Não quer que minha família se preocupe com você, mas tudo bem se eu me preocupar por você não se cuidar direito.

— Não estou fazendo nada para arriscar minha saúde — ela falou com exasperação.

— Está sentindo dor, não devia se esforçar tanto.

— Jantar com a sua família não é algo que considero esforço.

— Por que está acostumada a colocar os deveres em primeiro lugar?

— Não foi o que disse em Nova York.

— Foi exatamente o que eu disse, se você se lembra. Por isso seu comportamento me assustou e preocupou tanto.

— Não agiu como se estivesse preocupado, mas irritado. Na realidade, furioso.

— Estava com raiva. Acreditei que tivesse razões diferentes da sua doença para fazer aquilo.

Ela parou com a mão na maçaneta, curiosa. Que motivações ele teria atribuído ao comportamento dela que o haviam deixado tão furioso por ter ido a Nova York?

— Que razões?

— Nada que eu queira falar agora.

De alguma forma, ela sabia que ele estava escondendo algo... Talvez importante.

— Mas eu quero discutir isso. — então o alarme do jantar soou no interfone e ela franziu a testa. — Vamos falar sobre isso depois do jantar.

— Não há necessidade. Não é importante.

— Para mim é — mas talvez ela fosse tomar os remédios para dor antes.

Ele deu o braço a ela.

— Vamos?

Ela pegou o braço dele, incapaz de esconder a eletricidade provocada pelo toque.

— Sem mais discussões sobre eu estar fora da cama?

— Estou poupando energia — ele abriu a porta.

— Para quê?

— Para a nossa discussão depois do jantar.

— Mas você falou que não queria discutir aquele assunto — ela não acreditava que ele estava cedendo tão facilmente a uma conversa que lhe era tão desagradável.

Era tão atípico. Ela tinha toda intenção de pedir para ele esclarecer, mas daria muito trabalho.

— Não quero, mas temos outros itens na agenda.

— Como?

— Como o fato de que não haverá divórcio.

Não havia como responder, pois eles encontraram Kagome e Inuyasha no corredor e caminharam juntos. Miroku e Sango aguardavam quando eles chegaram.

Ele sorriu ao ver Sesshoumaru com Rin.

— Fico contente por ter decidido fazer uma refeição decente para variar.

— Eu tenho comido — falou Sesshoumaru.

— Com muito estresse, no ambiente de trabalho ou na sua mesa. O tempo com a família é mais relaxante.

Sesshoumaru sorriu, fazendo com que o coração de Rin revirasse no peito.

— Tem certeza?

Sua afeição pelos irmãos era bastante forte. Tudo o que queria era que isso saísse facilmente dela, mas nunca conseguiu, e agora tinha essa idéia estapafúrdia de que continuariam casados. Mas ela sabia que seria pelas razões mais erradas... Razões que nunca poderia aceitar.

A culpa dos Taisho estava agindo. Mas isso não era suficiente para carregar um casamento que enfrentaria os desafios que o deles enfrentaria. Não por muito tempo.

— Mas é claro — falou Miroku. — Você negaria?

— Não — respondeu Sesshoumaru seriamente. — A semana foi muito agitada.

Miroku e Inuyasha aquiesceram. Inuyasha falou:

— Gostaria de poder fazer mais pelos deveres do papai.

— Mas não pode — Sesshoumaru sorriu. — Eu sou o herdeiro. Sozinho, devo fechar várias lacunas deixadas pela estada dele no hospital.

— Eu esqueço da pressão a que todos vocês são submetidos quando estou com Miroku na Itália. O mundo parece tão normal lá. Mas no momento em que chegamos aqui, o fardo que todos vocês carregam fica aparente — Sango sacudiu a cabeça. — Rezo sempre para ser mais fácil para os nossos filhos.

— Acho que será — falou Inuyasha.

— Sim — Miroku acrescentou. — Precisa lembrar disso, amante, que nosso filho tem apenas um príncipe, e não um rei como pai.

— Isso é verdade — comentou Inuyasha —, mas mesmo os filhos de Sesshoumaru terão a vantagem de uma família mais extensa para ajudar na divisão dos deveres.

— Mas os filhos de Sesshoumaru ainda terão que enfrentar momentos mais difíceis que os nossos.

Inuyasha concordou com um suspiro.

— Eu me sinto egoísta com a minha gratidão, mas agradeço por meu filho não ter que crescer para ser o rei de Isole del Re um dia.

— Será estranho saber que nossos filhos escolherão os próprios caminhos, enquanto os primos terão o futuro mais determinado pelo nascimento — falou Kagome, preocupada.

— Você se incomodava, quando criança, de ver que não tinha alternativa a não ser tornar-se o rei? — perguntou Sango a Sesshoumaru, enquanto todos iam para a sala de jantar.

Sesshoumaru aguardou até acomodar Rin à mesa para responder. Então olhou para Sango.

— Nunca me rebelei contra o meu destino. Lembro-me desde cedo de saber que um dia eu seria o rei e que essa função trazia sérias responsabilidades. Muitas vezes, isso quis dizer que eu tinha de colocar minha vida particular em segundo plano.

Rin sentiu que havia uma mensagem para ela nessas palavras.

— Não invejo a posição de Rin — falou Kagome com um sorriso para a cunhada. — Deve ser muito difícil dividir o marido assim com todo o país.

Rin não podia negar as palavras, mas havia algo de muito errado nelas também. Se Sesshoumaru a amasse, ela não achava que compartilhá-lo com o povo de Isole del Re seria ruim.

— É uma função difícil, mas minha esposa sempre esteve à altura — falou Sesshoumaru, demonstrando aprovação por ela com a voz.

Ela virou para olhar para ele e, por vários segundos, os demais ocupantes da mesa pareciam ter desaparecido. Havia apenas ela e Sesshoumaru, e uma mensagem estava sendo trocada entre eles sem palavras.

Por uma razão que ela desconhecia, lágrimas começaram a queimar seus olhos.

— Não posso me arrepender de ter me casado com você.

— Não quero que se arrependa — então ele se inclinou para frente e fez algo que jamais fez.

Ele a beijou suavemente no meio dos lábios na frente da família. Depois, ele se levantou e começou a conversar com os irmãos como se nada de extraordinário tivesse acontecido.

Mas Rin sentiu o mundo girar.

O jantar foi festivo, mas à medida que o tempo passava, ficava mais difícil para Rin segurar a dor. A cólica estava ficando muito forte novamente, quase debilitadora. Provavelmente porque não havia tomado nenhum remédio o dia todo para não ficar muito tonta a ponto não conseguir dar conta das obrigações.

— Ótimo, porque apenas um canalha ignoraria o desconforto de sua menstruação e sua dor para tentar algo assim.

— Nunca falei coisas assim de você.

— Talvez não com tantas palavras... — ele aquiesceu mas deixou claro que ela o convencera de que pensava assim.

Ela olhou perplexa para a expressão dura dele.

— Nunca sugeri que via você assim.

— Como você acha então considerar o divórcio como a única opção depois que descobriu que tinha endometriose?

— Prática. Chamo isso de praticidade — a única solução que fazia sentido. Particularmente agora, que ela sabia que ele estava entediado com ela. Isso veio ao encontro da realidade de que seu valor para ele era unicamente sexual. Mas, mesmo sabendo que era verdade, parte dela se rebelava.

Parte dela... A parte muito tola... Simplesmente se recusava a acreditar.

Ele não falou nada, mas sua expressão não era agradável.

Quando eles chegaram a seus aposentos, ele a levou direto para o quarto.

— Vou pegar seus remédios.

Ele a deitou na cama e pegou os remédios e ela os tomou, como na noite anterior.

— Essa é a sua versão para mimo?

— Está se sentindo mimada?

Independentemente da dor, ela sorriu.

— Sim.

— Então, sim.

— Obrigada.

— Não me agradeça. É seu direito.

— Então está sendo tão cuidadoso comigo por dever?

— Diga-me uma coisa, cara.

— Sim?

— Até os últimos meses, sua resposta na cama e sua generosidade com seu corpo eram tudo que um homem poderia desejar.

— Foi o que você disse — ele a valorizava por isso.

— Isso era resultado do seu dever?

— Não, claro que não. Como pode me perguntar isso?

— Com tanta facilidade quanto você me pergunta se o que faço por você agora é puramente obrigação.

— Você não me ama, Sesshoumaru.

— Eu me importo com você. Sempre me importei.

— Eu também achava isso... No começo.

— O que mudou?

— Não sei. Talvez nada.

— Mas, ainda assim, você se convenceu de que não me importo.

— Você falou que estava entediado.

— Estava irritado. Era mentira.

Ela não acreditava nele, mas se inclinou diante de mais um ataque de dor antes de falar.

Ele a deitou mais.

— Rin?

O aperto no abdome relaxou um pouco e ela conseguiu se ajeitar, respirando ofegante para suportar a dor.

— Está muito ruim? — ele perguntou.

— Sim.

— Que tal ir para o hospital?

— Não.

— Não está sendo razoável.

— Discutir não ajuda.

Ele cerrou os dentes.

— Não devíamos ter ido jantar.

— Se eu me lembro, você propôs que eu jantasse aqui, e não você.

— Mas, naturalmente, eu teria ficado com você.

Não havia nada de natural nisso. Na realidade, todo esse paparico era atípico na relação deles.

— Por quê?

— Está doente.

— E você tem obrigações com a família.

— Que eu fiquei contente em ignorar em favor das minhas obrigações no escritório, na semana passada. Fiquei no palácio por você.

— Não entendo por quê.

— É minha esposa — ele falava isso como se explicasse tudo.

— Eu era sua esposa há dois anos também, quando fiquei gripada, e você não ficou comigo. Na realidade, você me pediu para ir para outro quarto a fim de me recuperar e não haver risco de contaminá-lo. Era a sua esposa ano passado, quando fiquei resfriada e você me deixou aos cuidados dos empregados para ir para a Itália a trabalho.

Ele olhou para ela como se não entendesse a correlação.

— As circunstâncias eram diferentes.

— Como?

— Você não estava morrendo de dor e sabíamos que o mal-estar logo acabaria.

— E os deveres foram mais importantes do que qualquer gesto que expressasse carinho e ternura...

— Queria que eu me tornasse seu enfermeiro? Não vi esse desejo em você na época. É uma pessoa muito independente quando está doente. Mas acho que é assim de uma forma geral, extremamente independente, sem contar com a teimosia.

— Obrigada. E não sou independente.

— Ah, é. Tão independente que resolveu tomar decisões por conta própria sobre o nosso casamento sem consultar o outro principal interessado antes.

— Foi para isso que fui para Nova York... Para consultar.

— Um pedido de divórcio não é uma consulta.

— Eu não ia começar dessa forma, mas você me colocou de uma forma defensiva pelo fato de ter ido para lá.

— Eu havia chegado a uma conclusão equivocada e me deixei levar por ela, desculpe. — ele falou como se estivesse constrangido, e ela se lembrou do comentário antes do jantar.

— Que conclusão falsa?

— Prefiro não falar sobre isso.

— Que péssimo... Só de imaginar o que faria você sentir-se tão desconfortável está me fazendo esquecer a cólica.

Ele falou algo que ela não entendeu, mas ele não conseguiu esconder a irritação quando se encostou na cabeceira da cama.

Diante do olhar inquisitório dela, ele deu de ombros:

— Se vai me detonar, quero estar em uma posição confortável.

Ela escondeu um sorriso inesperado. Ele pareceu bem carrancudo.

— Conte sobre suas falsas conclusões.