Capítulo 16 – Lembranças de um Passado Esquecido


− Ela está me protegendo – disse Severo Snape, entrando na sala e causando uma grande surpresa entre os presentes.

Sirius encarou o recém chegado com surpresa. Aquilo não podia estar acontecendo. Simplesmente não podia ser verdade.

− Você? – ele falou olhando de Snape para Perla – Que brincadeira é essa?

− Não é brincadeira – respondeu Perla, encarando o chão.

Um sentimento de raiva começou a crescer dentro do moreno. Era como se tudo em que ele sempre acreditou fosse mentira.

− Está querendo dizer que foi ele quem matou a Emma? – perguntou Remo, ficando ao lado de Sirius.

− Sua maior preocupação é saber quem a matou? – falou Thais enciumada – Até onde eu saiba, a morte de um comensal deveria ser vista com satisfação.

Ela também tinha raiva no olhar. Apesar dos anos, nunca se conformara que Remo sempre defendesse a ex namorada apesar de tudo que ela tinha feito.

− Eu não... – começou Remo, mas Sirius o interrompeu.

− Pouco me importa quem matou ou deixou de matar a Emma – disse Sirius furioso. Elizabeth teve que se conter para não assumir novamente a aparência de Perla – Não acredito que tenha escondido isso por tanto tempo. Não acredito que tenha feito tudo isso para defender o Ranhoso. Ele tentou te matar!

Elizabeth sabia que essa seria a reação de Sirius ao saber a verdade. Sabia que ele jamais conseguiria entender tudo que ela tinha feito. Que Perla tinha feito.

− E se não tivesse matado a Emma, eu é quem estaria morta! – ela falou, aumentando o seu tom de voz, assustando a filha – Como você queria que eu entregasse para os dementadores alguém que salvou a minha vida?

− Eu fui parar em Azkaban por que fiz Pedro ser o fiel de Lílian e Tiago no lugar do Remo, por que eu achava que ele fosse o espião.

A morena teve que se segurar para não rir. Sempre lhe dissera a verdade. Mas ele estava tão cego que nunca enxergou verdade em suas palavras.

− Eu te disse inúmeras vezes que Remo não tinha nada a ver com isso.

− Assim como eu disse várias vezes para o Remo que Sirius não era o traidor – completou Thais apontando para Remo.

− Você sabia? – ele perguntou, olhando para a ex-namorada.

− Não – defendeu-se a morena – Mas Perla me garantiu que não era Sirius e que só estava protegendo a pessoa por que...

Thais parou de falar ao se dar conta do que ia dizer. Ela encarou Perla com uma expressão que perguntava se devia continuar. Elizabeth não conseguiu se conter e mais uma vez era Perla quem estava diante deles. A loira meneou a cabeça e voltou a encarar o chão.

− Por causa de que? – perguntou Sirius, aumentando o tom de voz.

− Por que fui eu quem retirei as meninas Bones da casa dos pais – respondeu Severo, falando pela segunda vez desde que entrara na sala.

Remo começou a juntar os fatos. E tudo começou a fazer sentido. Tão simples, tão claro. E eles nunca se deram conta disso.

- Por isso nunca encontraram os corpos. Elas estavam vivas. Você as retirou da casa antes que os comensais pudessem fazer alguma coisa com ela – disse – Agora tudo faz sentido.

− E de que maneira fez isso? – retrucou Sirius, irritado com toda a situação.

− Não sou obrigado a lhe contar nada, Black – respondeu Snape com aspereza. Odiara saber que seu maior rival estava de volta.

− Pois eu lhe peço que nos conte sua história, Severo – pediu Dumbledore, juntando as duas mãos e olhando cada um dos presentes – Está na hora de todos saberem a verdade.

− Como quiser – respondeu o professor de Poções, sua voz saindo bem seca e fria.

Contar seria reviver novamente aquele momento. Seria recordar lembranças de um Passado que ele tentava a todo custo esquecer.

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(Dia da Morte do casal Bones)

A noite caíra gélida e escura. Uma densa neblina pairava sobre o ar, tornando ainda mais difícil enxergar qualquer coisa ao redor. O silêncio reinava no local, tornando o ambiente ainda mais assustador.

No meio do nada, erguia-se uma bela casa, grande o suficiente para caber muitas pessoas. Mas naquele lugar, moravam apenas quatro, segundo havia contado o espião.

Os vultos encapuzados analisavam o alvo, cada um repassando mentalmente a tarefa que desempenharia. Entre eles, havia um homem de cabelos pretos ensebados, oculto pelo capuz que usava.

Severo olhou para os companheiros. Para aquela missão o Lorde das Trevas designara nove de seus seguidores. De seus comensais da Morte.

O sinal fora dado. Mesmo estando vestido como os demais, era impossível não reconhecer as formas sob as vestes negras da única mulher do grupo. Bellatrix Lestrange levantara sua varinha indicando que deviam prosseguir.

Ele avançou com os outros. Sabia perfeitamente a quem pertencia aquela casa que estavam prestes a atacar. As ordens de seu mestre eram claras. "Matem todos, sem piedade. Ou morram tentando". Não teria piedade dele se falhassem. Aquela era uma questão de vida ou morte.

O grupo avançou em direção a casa. Bellatrix lançou um feitiço na porta, mas esta não cedeu, o que era de se esperar na casa de um auror. Todos os comensais passaram a investir contra a porta e por mais feitiços de proteção que ela possuía, acabou cedendo depois de um tempo, permitindo a invasão.

Edgar Bones os aguardava na sala de estar, a varinha em punho. Sua mulher Kelly estava ao seu lado. Os dois sabiam que estavam em grandes desvantagens. Mas lutariam até o fim.

Feitiços foram arremessados de ambos os lados. Móveis atirados por todo o cômodo, objetos quebrados, um caos total. Um barulho que se sobrepunha a qualquer outro já escutado.

Kelly Bones foi a primeira a cair. Depois de inúmeros feitiços e torturas, Bellatrix a matara com a maldição imperdoável da morte. O marido ao ver o que aconteceu, sentiu uma dor lasciva no peito ao vê-la padecer. E sem conseguir suportar, ele gritou. Porém, não foi o único.

Helena Bones também gritara do alto da escada. A primogênita dos Bones não tinha nem ao menos três anos, mas seu grito era tão carregado de dor como o do pai.

− Helena – gritou Edgar antes de receber novamente a maldição Cruciatus. A menina entendeu o que o chamado do pai significava e voltou correndo para onde estava antes de ver o que estava acontecendo.

− Severo, a garota – gritou um dos comensais.

Ele sabia o que tinha que fazer. E sem pestanejar, subiu as escadas que levavam ao segundo andar da casa a procura da menina. "Matem todos" era a Ordem de seu Mestre. E ele a cumpriria com louvor.

Um choro abafado vindo de um dos quartos poupou o seu trabalho de procurá-la. Mas quando entrou no aposento não viu sinal do que procurava. Olhou rapidamente o lugar e se deteve num armário que havia lá, cuja porta não estava totalmente fechada. E ao abri-la, deparou não com uma, mas duas meninas. O rosto assustado e com lágrimas da mais velha contrastava com o calmo e tranqüilo da mais nova.

A menina que vira na escada carregava no colo a irmã mais nova, Melissa, que tinha apenas dois meses de vida.

− Saiam – ele ordenou, apontando a varinha para as duas.

Helena saiu de dentro do armário, segurando com firmeza a irmã caçula nos braços. Em seus pequenos olhos, caiam lágrimas que inundavam seu rosto cada vez mais. Severo manteve a varinha apontada para ela, encurralando-as na parede.

Antes que o comensal pudesse fazer alguma coisa, a pequena loirinha esbarrou em um porta retratos que estava em cima da mesa de cabeceira, que caiu com estrépito no chão. Ele não deu importância para o objeto e só quando sentiu os cacos sobre seus pés foi que se deteve para ver o que era.

Severo olhou rapidamente para o chão e o que viu fez seu corpo congelar. Abaixou rapidamente pegando a foto que antes estava no porta-retratos, reconhecendo quem eram as duas pessoas que nela estavam. Uma era a garota que estava a sua frente. A outra...

− Perla – sussurrou ao reconhecer a mulher.

− É minha madrinha – disse Helena sem pensar, fazendo o comensal a encarar – Tia Perla é minha madrinha.

As lembranças de seu último encontro com a loira voltaram instantaneamente. Era como se estivesse vivendo-as novamente.

- Severo... – Perla falou incrédula, ao ver que suas suspeitas estavam certas - Como isso é possível?

- Você sempre soube que isso ia acontecer, Perla - respondeu ele, tentando colocar a mão no rosto dela, que se esquivou.

- Eu sempre tive esperanças que você não seguisse esse caminho - Perla falou e puxou a manga da blusa do braço direito dele, revelando uma marca negra, a marca de todos os comensais.

- Agora não há mais volta - ele falou, sem nenhuma emoção, tirando a mão dela de seu braço e puxando a manga da blusa para baixo.

- Sempre há volta. Sempre há volta quando se quer voltar - Perla encarou Severo, que por um segundo, deixou a frieza de lado e olhou a garota com ternura - Se não houvesse volta, você não teria me salvado. Emma não estaria morta agora.

- Você sabe por que eu fiz isso. E sabe que vou ter que pagar um preço pela minha atitude.

- Ninguém precisa saber - falou Perla, ficando impressionada com suas próprias palavras - Vá Severo. Antes que alguém apareça.

- Perla, por que...

- Você sabe o porquê. Assim como eu sei o porquê de você tê-la matado.

- Você não precisa fazer isso...

- Você salvou a minha vida. Está na hora de salvar a sua - respondeu ela se esforçando para não chorar - Vá e se algum dia você perceber que há volta, procure Dumbledore.

Perla acreditava que ele ainda podia ser uma boa pessoa. Mesmo vendo o comensal que ele se tornara, ela ainda acreditava na integridade de seus sentimentos. Como na época que ainda estavam na escola...

"O que ela diria se soubesse que eu fui o responsável pela morte de sua afilhada?" – ele pensou, olhando para Helena e vendo o rosto de Perla a sua frente.

Sabia que não tinha tempo. Precisava decidir qual caminho seguir. De um lado estava o poder. Do outro o amor. E a decisão que tomasse seria um caminho sem volta.

O barulho de luta no andar inferior cessou, o que significava que Edgar também havia padecido. Era o momento de sua escolha.

Portus – disse apontando para a fotografia que estava em sua mão, entregando-a para Helena – Segure isso com força e não solte sua irmã, entendeu?

A menina acenou afirmativamente. Por um breve momento, os olhos engros do comensal encararam os orbes azuis da garota, antes dela e da irmã desaparecerem pela chave de portal.

Os comensais abriram a porta no segundo seguinte, encontrando Severo com a varinha estendida, encarando a parede.

− Onde elas estão? – perguntou Bellatrix, retirando o capuz e olhando o aposento a sua volta a procura das meninas.

− Mortas – ele respondeu, saindo do quarto, sem nem ao menos encará-la. Mas Bellatrix não se satisfez com a resposta e foi atrás dele.

− E onde estão os corpos?

− Eu os desintegrei – ele respondeu novamente sem encarar a comensal.

− Brilhante – respondeu um segundo comensal, retirando seu capuz e revelando longos cabelos platinados – Nunca saberão se as meninas estão vivas ou mortas. Todos ficarão ainda mais desesperados.

Os outros comensais se deram por satisfeitos e desceram. Porém Bellatrix não se deu por convencida e ficou encarando Severo, que olhava para o chão.

Sem conseguir agüentar mais, ele desceu as escadas, deu uma última olhada para os corpos do casal Bones antes de sair da casa.

Morsmordre – disse um dos comensais.

Severo virou e viu a marca negra pairando sobre a casa. O trabalho para o Lorde das Trevas estava feito. Mas ele ainda tinha um outro trabalho a fazer.

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Remo teve que segurar Sirius, que tentava a todo custo avançar pra cima do professor de Poções. Mais do que raiva, ele sentia ódio por Snape quase ter matado a afilhada e a irmã.

− Para onde você as mandou? – ele perguntou com raiva, se soltando de Remo.

− Severo as mandou para mim – respondeu Dumbledore. Perla, Thais e Hermione choravam – Acredito que ele tenha seguido o conselho de Perla. Algumas horas depois de recebê-las sem a menor explicação, ele veio até mim, pferecendo sua fidelidade.

− E você acreditou que ele mudou de lado só por que não teve coragem de matar duas meninas inocentes? Por Merlin, Dumbledore. Isso não o torna menos comensal.

Severo se irritou ao escutar Sirius falando em coragem. Ele não deixara de matar as meninas por falta dela. E sim por te-la o suficiente para ser capaz de enfrentar seu mestre.

− Seu coração e orgulho o impedem de ver o verdadeiro ato de Severo, Sirius – disse Dumbledore novamente – Você não percebeu o por que ele não desempenhou a tarefa que lhe foi designada? Você não consegue perceber que não foram elas e sim ela quem o fez optar pelo outro caminho.

Sirius olhou para Perla e tudo fez sentido. Apesar de todo o tempo, de todas as coisas que haviam acontecido, assim como ele, Severo também amava Perla e por ela, fora capaz de arriscar sua vida mais de uma vez.

− O amor pode mudar tudo – falou Dumbledore.

Severo Snape tentou não deixar transparecer seus sentimentos naquele momento. Já era por demais constrangedor ter não somente um de seus maiores inimigos escutando aquela história como também havia três de seus mais detestados alunos. E entre eles estava Harry. A última pessoa que ele gostaria que soubesse de tudo aquilo. E foi quem falou em seguida.

− Então é por isso que o senhor...

− Sim, Harry. É por isso que eu confio tanto em Severo. E afirmo com toda certeza de que ele não é mais um comensal – respondeu o diretor, ajustando seus óculos de meia lua – Em duas ocasiões, ele se mostrou digno de minha confiança. Primeiro quando não permitiu que Emma Williams matasse Perla. E a segunda ao salvar Helena e Melissa da morte eminente.

− E eu serei eternamente grata a tudo que fez – disse Perla olhando para o professor, o que deixou Sirius ainda mais irritado.

− Tudo se encaixa perfeitamente até um ponto... – falou Remo, ao perceber que Sirius estava quase avançando em Severo novamente – Como Perla pode ser a "mãe" de Helena? Da morte dos Bones até o dia que Sirius foi preso, passou-se mais de um ano.

Harry percebeu uma rápida troca de olhares entre Perla e Thais, mas nenhuma das mulheres disse nada.

− Como eu disse, Severo me entregou as meninas. Eu imediatamente comuniquei Amélia Bones do ocorrido, que ficou chocada com a morte do irmão, mas concordou em esconder as sobrinhas.

− Que não poderiam aparecer em público senão os comensais saberiam a verdade – completou Hermione.

− Perfeitamente, Srta Granger – concordou Dumbledore. Hermione olhou para Rony com ar de superioridade. O ruivo apenas suspirou – E como isso é uma questão que somente a srta Montanes, ou devo dizer, senhora Black pode responder.

Perla encarou Thais novamente. Estava na hora de mais uma verdade ser revelada. Ela pegou a filha no colo da amiga, antes de começar a narrativa.

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(Dia Seguinte a Morte do Casal Bones)

Quando Perla acordou, Sirius estava sentado ao seu lado, aparentemente dormindo. Mas assim que ela se sentou na cama, ele abriu os olhos e a ficou encarando. Perla deu um sorriso e recebeu um sorriso fraco de Sirius em resposta. Ela ficou preocupada, pois sentiu pelo jeito dele que alguma coisa devia ter acontecido.

O que houve? - perguntou se sentindo um pouco tonta, efeito dos calmantes que estava tomando.

Eu não sei como te dizer...

Por que não tenta? - incentivou ela, sentando no colo de Sirius e acariciando seu cabelo. Sirius fechou os olhos e respirou fundo antes de abri-los novamente.

Você vai ter que ser forte...

Você está me assustando - respondeu Perla, tirando a mão do cabelo de Sirius e colocando em seu rosto, enquanto encarava os orbes azuis, que já não possuíam o mesmo brilho de antes.

Os Bones foram assassinados.

O quê? - perguntou Perla assustada se levantando.

Eu sinto muito. Mas ontem a noite, eu recebi um chamado de urgência do quartel. Tinha acontecido um ataque na casa dos Bones. E quando cheguei lá, Edgar e Kelly...

Não. Não pode ser verdade - falou Perla, se esforçando para não chorar - E quanto a Helena? E Melissa?

Não achamos as meninas. Moody acha que os comensais a levaram para Voldemort. A essa hora, elas devem estar...

NÃO - gritou Perla, se atirando na cama. Sirius deitou ao seu lado e a abraçou. Ele sentiu uma grande infelicidade naquele momento, ao ver a mulher que amava sofrendo daquele jeito.

− Pequena – disse o moreno carinhosamente fazendo a mulher abrir os olhos – Eu preciso ir ao Ministério, o quartel está uma confusão. Lily está vindo pra cá ficar com você.

Perla parecia não escutar nenhuma palavra do namorado. Ela simplesmente encarou-o e fechou os olhos novamente, sem dizer nada.

− Eu vou preparar uma coisa pra você! – insistiu Sirius, mas ela não voltou a abrir os olhos.

Assim que Sirius saiu do quarto, a loira abriu os olhos novamente, deixando mais lágrimas escorrerem por sua face. Sentia que não suportaria por muito mais tempo aquele tormento. Que não suportaria mais chorar a perda de pessoas queridas por causa daquela maldita guerra.

Um barulho vindo da janela a tirou de seus pensamentos, atraindo sua atenção. Ela levantou rapidamente da cama e se deparou com uma bela coruja parda que pairava do lado de fora da janela, carregando uma carta endereçada a ela. Somente a ela.

"Somente para Perla Montanes", era o que dizia o envelope. Perla sabia quem lhe mandara a carta antes mesmo de abrir. A coruja era Artêmis e pertencia a família Bones.

Ela abriu rapidamente o envelope, na esperança que a carta lhe disesse que tudo era mentira e que tanto Edgar como a esposa e as filhas estariam vivas.

O conteúdo era pequeno e escrito com muita pressa. Mas foi o suficiente para aquecer o seu coração.

"As meninas estão vivas. Não diga a ninguém. Explico tudo depois"

Amélia.

O pergaminho, assim como o envelope, pegaram fogo assim que Perla acabara de ler. Ela fez um rápido feitiço para desaparecer com as cinzas e no minuto seguinte, Sirius entrou no quarto trazendo um chá e uma poção calmante.

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Muitas pessoas compareceram ao enterro dos Bones. Os primos de Kelly, Otto e Ludo Bagman tentavam em vão consolar a mãe dela. Alice e Lílian, ambas em final de gravidez, ficaram ao lado da ex-colega de quarto e melhor amiga de Kelly, Penélope Patil, que estava com suas duas filhas gêmeas, Parvati e Padma.

Por incrível que pareça, as únicas pessoas que não choraram durante todo enterro foram Amélia e Perla. As duas permaneceram com expressões frias e rígidas, como se elas estivessem em transe. Amélia ficou o tempo todo com seu irmão mais velho, Brian e Perla com Sirius.

No final do enterro, Amélia pediu pra falar com Perla a sós e em seguida a apresentou para seu irmão.

- Perla, este é o Brian, meu irmão mais velho. Ele mora na França, desde antes de você e o Ed namorarem.

- Muito prazer - falou Perla educadamente, porém fria.

- E essa é a Julie, esposa dele. E essa pequena aqui é a Susana, filha deles - falou Amélia, pegando a sobrinha que estava no carrinho.

Perla olhou para o bebê no colo de Amélia. Para todos os outros, aquela poderia ser apenas a pequena Susana. Mas ela conhecia muito bem aqueles olhos caramelados para saber a sua verdadeira identidade.

- Passe na minha casa mais tarde – disse Amélia ao ver Sirius se aproximar. A loira assentiu antes de sair dali junto com o namorado.

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Perla observava Sirius arrumar as malas. Ele e Tiago, juntamente com outros aurores haviam sido convocados para uma missão fora do país, em uma caça a comensais da morte.

− Me prometa que vai tomar cuidado? – pediu o moreno, ajoelhando em frente a garota.

− Prometo – respondeu Perla, forçando um sorriso. Sirius segurou em suas mãos.

− Thaís está vindo para cá. Parece que Remo também vai viajar. Lily também virá. Quero que vocês se cuidem e se protejam.

− Tudo vai ficar bem, Sirius.

Ele tocou o rosto da namorada, surpreso por não vê-la chorando, como sempre fazia quando perdia alguém que gostava. Mas ela estava lidando muito bem com a perda da afilhada e de Edgar. Era uma Perla mais forte, porém mais fria. E Sirius não sabia dizer qual delas preferia.

− Eu te amo, Pequena – disse, dando um beijo nela, antes de aparatar.

A loira esperou alguns segundos antes de fazer o mesmo.

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Quando a porta abriu, Perla sorriu e abraçou Amélia. As duas deixaram as lágrimas que tanto seguraram durante todo o dia escorrerem pelo rosto.

− Onde ela está? – perguntou Perla, enxugando o rosto.

− Lá em cima – respondeu a dona da casa, guiando-a até o andar superior.

Amélia Bones abriu a última porta do corredor, revelando um quarto de criança. Era onde suas sobrinhas costumavam dormir quando a visitavam.

Perla teve que se segurar para não chorar ao ver a pequena menina deitada em uma das camas. A loirinha levantou correndo ao ver quem chegara e pulou no colo de Perla, a abraçando com força.

− Helena... minha pequena...

Helena Bones encostou a cabeça no ombro da madrinha, enquanto sua pequena mão brincava com um dos cordões que Perla usava.

− Está tudo bem com ela? – Amélia meneou a cabeça.

− Não fala uma palavra sequer desde que a encontrei. Acho que está muito abalada emocionalmente com tudo que aconteceu.

− Por que disseram que as meninas estavam mortas? – questionou Perla – Por que Melissa está se passando por Susana?

− Por que foi um comensal que as tirou da casa.

− Um comensal?

− Dumbledore me entregou as meninas – continuou Amélia - Se souberem que elas estão vivas, estaremos colocando não só suas vidas, como a desse comensal em risco.

− Quem foi?

− Não tem idéia de quem tenha sido, Perla? – perguntou Amélia, com um brilho nos olhos. Ela tinha quase certeza de que Perla sabia a resposta.

− Severo...

− Exato – confirmou a outra mulher – Não sei a razão dele para este ato. Mas se agiu assim deve ter alguma explicação, com a qual eu não me importo. Minhas sobrinhas estão vivas e é isso que me interessa.

− Ele nunca foi um comensal de verdade – disse Perla sentando na cama, ainda com Helena no colo – Sempre tive certeza disso.

Amélia sentou ao lado da loira, pegando a mão da sobrinha, o que a fez lembrar do irmão. Sempre foram tão próximos, tão amigos. Sempre tiveram um grande sentimento de proteção um com o outro. E agora as pequenas filhas dele estavam órfãs. E ela tinha a missão de mantê-las vivas.

− Perla... como ninguém sabia nada sobre o meu irmão Brian, pude lhe entregar Melissa para ser criada como filha dele. Ela nem tem um mês, ninguém a reconheceu. E ela nunca precisará saber da verdade. Mas...

− Helena?

− Temos que manda-la para algum lugar longe daqui, ou a reconheceriam facilmente – respondeu Amélia, medindo as palavras que diria a seguir – Eu não tenho parentes fora da Inglaterra a não ser o Brian. Mas você é uma pessoa influente. Será que não tem ninguém que você conheça com que possamos deixar Helena, pelo menos até toda essa maldita guerra acabar?

− Eu não tenho mais nenhum parente – respondeu Perla, mordendo o lábio inferior – Quer dizer, eu tenho alguns parentes por parte de mãe, mas eu nunca os conheci. Não posso deixá-la com eles.

- Não podemos deixá-la aqui!

Perla colocou a menina no chão e começou a andar pelo cômodo, pensando em uma solução. Ela tinha que fazer alguma coisa. Tinha que esconder Helena de qualquer jeito.

− Eu tenho uma casa nos Estados Unidos. Mas não tem ninguém que eu conheça lá que possa ficar com ela. E Sirius não permitirá que eu vá pra lá... – Perla parou de falar ao lembrar do namorado e de como ele ficaria feliz em saber que a afilhada estava viva. Mas isso implicaria em outras questões que ela não podia responder.

− Não há mais ninguém? – insistiu Amélia.

− Thaís – disse Perla repentinamente.

− Thaís? – estranhou a outra – A namorada do Lupin?

− A mãe dela mora no Brasil. Acho que ela não se importará em ficar com Helena.

− E como a mandaremos para o Brasil?

− Sirius está viajando. E Remo também – falou Perla – Podemos levá-la hoje mesmo. Mas teremos viajar por meios trouxas e pra isso vamos precisar de documentos trouxas para ela.

− Vou falar com o Fudge. Ele é o Ministro Júnior. Com toda certeza nos ajudará.

− Confia nele? – perguntou Perla, desconfiada do caráter de Cornélio Fudge.

− Ele é discreto. E há meses que vem tentando me convencer a apoia-lo.

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− Quando Sirius foi preso e eu tive alta do St Mungus, fui para o Brasil com Thais encontrar Helena. Usei o nome de Elizabeth Stoller para viajar com a ajuda de Fudge.

− E você aproveitou para registrar Helena como sua filha.

− Ela fez mais do que isso – completou Thais, que não conseguia encarar a amiga – Perla apagou a memória de Helena e a fez acreditar que era a sua mãe.

Diante de tantas revelações ocorridas naquele momento, para Sirius aquela era a mais surpreendente. Sentia uma grande raiva dentro de si. Era difícil demais acreditar em toda aquela história. Principalmente vindo de Perla. Principalmente por que ela o enganara.

Perla mais uma vez assumiu a aparência de Elizabeth. Isso sempre acontecia quando ela tinha algum sentimento em excesso. O que fizera com a própria afilhada era a prova concreta do quanto estava perturbada na época. Do quanto queria uma nova vida. Do quanto queria esquecer todo o sofrimento que passara...

− Não acredito que tenha me escondido isso por tanto tempo...

− Sirius, eu sinto muito – pediu Perla, ficando frente a frente com o marido.

− Sente muito? SENTE MUITO? – ele gritou, fazendo a filha chorar novamente – Durante anos você protegeu um assassino que tentou te matar. Por sua causa eu desconfiei de Remo e fiz Pedro ser o traidor. E como se isso não fosse o suficiente, você ainda escondeu que NOSSA afilhada estava viva, apagou a memória dela e a fez acreditar que era sua filha?

Ela viu nele a mesma expressão que vira quando estavam no mundo dos mortos. A mesma raiva, a mesma cólera... o mesmo desespero.

− Sirius...

− Eu nunca vou te perdoar por isso – completou o moreno, saindo da sala.

Ela teria chorado. Mas esperava que essa fosse a reação de Sirius. E era o que tinha mais medo. Sabia que trazê-lo de volta era expor toda a verdade que ele jamais entenderia. Mas ela aceitou correr o risco. E não se arrependia por isso.

Remo encarou a ex-namorada, pasmo ao saber que ela fizera parte de tudo aquilo e que jamais lhe dissera uma palavra. Sentia-se apunhalado, traído. E assim como Sirius, não conseguia entender seus gestos e perdoa-la.

− Vejo que também me enganei com você – disse encarando Thais antes de seguir o mesmo caminho do amigo.

Hermione e Rony trocaram rápidos olhares, pois suficientes para entenderem que não tinham mais nada para fazerem ali e que precisavam deixar Harry a sós com a madrinha.

Harry agradeceu mentalmente os amigos quando eles seguiram o mesmo caminho do padrinho, saindo da sala. Observou Elizabeth por alguns instantes. É claro que ele compreendia a raiva de Sirius. Agiria do mesmo jeito se estivesse no lugar dele. Mas também não odiava Perla pelos seus atos. Por mais que ela o tivesse abandonado a mercê dos Dursley, ele também compreendia o estado perturbado que a madrinha deveria estar ao abandonar o hospital.

Sem se dar conta do que fazia, ele sentou ao seu lado, pegando a mão livre dela, já que com a outra ela segurava a filha. Os orbes verdes da professora encararam os do aluno. Não precisavam de palavras para que um entendesse o que se passava na cabeça do outro. E ambos sabiam o quanto era importante ter o outro ao seu lado.

O choro de Lily despertou Harry de seus pensamentos. Ele levantou, deu um beijo na cabeça da menina e também saiu da sala. Thais pegou Lily no colo e fez o mesmo, deixando Elizabeth a sós com Severo e Dumbledore.

Perla sabia que seu confronto naquele momento era com Severo. Ela não sentia raiva, nem ódio do professor de Poções por tudo que ele a fizera passar quando ainda estudavam em Hogwarts. Em seu coração, só ficaram registradas as boas ações do ex-comensal.

− Obrigada – ela disse, enquanto ele estava de costas, observando o jardim pela janela.

− Agora estamos quites – ele respondeu, sem virar.

Elizabeth sorriu. E sem dizer nem mais uma palavra, saiu da sala.


UFA! Até que enfim essa sessão de revelações acabou. Eu já não agüentava mais. E aposto como muitos de vocês nem lêem mais a fic de tão chata que ela ficou. Mas prometo tentar não tornar as coisas tão complicadas como fiz nesses últimos capítulos.

Dessa vez eu não demorei tanto pra atualizar. E como eu disse no meu profile, estou atualizando essa fic essa semana por que é a semana dos meus aniversários. Alguém sabe dizer o que tem de tão especial no dia de hoje?

Exatamente a dois anos atrás (isso é no dia 14/02/2004) eu tive um surto e acordei com um nome na cabeça: Perla Montanes. Ou seja, a exatamente dois anos atrás, Perla nascia junto com essa história que vocês acompanham até agora (isso é, alguns ainda acompanham). E esse foi o dia que eu escolhi para ser o dia do aniversário dela (Parabéns, Perla!). Coincidência ou não, hoje também é o dia dos namorados em alguns países (como na Inglaterra). A Perla faz aniversário, mas vocês é quem ganham o presente (hehehe).

Agradecimentos e dedicatória desse capítulo para as pessoas que tornam meus dias mais alegres e que são as responsáveis por essa saga ter chegado aonde chegou. Meu muito obrigada vai para Anaísa, Krol, Thalita, Friendship Black, Ninha, Lele Potter Black, simplesmente Gabi das Fadas e Lele .