A orquestra já nos chamou
Abriu meu coração tremeu o chão
Eu vi que era feliz
A luz de um cabaré
La noche nuestra o mundo a rodar
Vem o fogo da paixão nos queimar
La luna tropical
O som de um bandoneon
Não me canso de pedir
Besame
(Besame - Flávio Venturini)
Capítulo 6 – Tarde
Crianças brincavam, casais se entretinham entre beijos e carícias e outras pessoas faziam as mais diversas atividades pelo parque naquele fim de tarde. Enquanto isso, um jovem ruivo sentado em um dos bancos apenas observava tudo. Estava frio, ele adorava aquela sensação quando o vento gelado tocava sua pele e fazia os longos cabelos voarem.
Não era comum passar um domingo como aquele, mas o que poderia falar já que sua vida parecia estar virada ao contrário? Dobrou uma das pernas, deixou seu pé apoiado no banco e a abraçou, acomodou o rosto sobre o joelho enquanto sua mente divagava nos últimos acontecimentos.
Tudo começara no dia anterior com a chegada daquele furacão grego em sua aula. June havia dito para deixar de implicância, que Milo era "apenas divertido", mas não era bem assim, aquele moleque não tinha limites! Realmente era bastante fechado, chegando a ser frio às vezes, principalmente no seu ambiente profissional, reconhecia bem isso, afinal, dessa forma adquiriu um grande respeito não só dos alunos, mas também dos seus colegas de trabalho.
Era racional demais e sabia exatamente sua situação quando chegou ali: Não passava de um estrangeiro, ainda residente ilegal - fato que só foi resolvido com a ajuda de Albiore – tinha apenas dezoito anos de idade, estava em um país que ainda enfrentava uma crise e pouco sabia da linguagem local. Se agisse como um garoto jamais chegaria onde chegou, era bastante maduro para sua idade, mas sua vida exigiu isso, em nenhum momento viveu em um conto de fadas, muito pelo contrário.
Por todos esses motivos, julgava Milo um alguém merecedor do seu desprezo, não gostava de ver atitudes infantis e também era bastante claro que dinheiro não era nenhum problema para ele, bastava ver pelas roupas caras que usava, pela postura superior que carregava. Estava na cidade à passeio e só ficaria alguns dias, era óbvio que estava apenas procurando alguém para se divertir, na verdade essa idéia não o incomodava, pelo contrário, poderia aproveitar um pouco sem nenhum compromisso e Milo era incrivelmente belo, era uma pena ser tão detestável!
Voltou a pensar em como June insistiu para que saísse na noite anterior, com certeza ela estava envolvida naquilo, era fato que exigira muitas explicações depois, não seria possível aquele grego metido ir exatamente ao mesmo local que ele, aquela nem mesmo era uma zona turística! E June... Ela estava bem próxima daquele insuportável, deviam até estar se agarrando pelos cantos também. Ele vira bem a intimidade dos dois na noite anterior! Claro que ela era uma boa amiga e queria o seu bem, mas não era tão difícil perceber que eles não combinavam em nada, ou era?
Depois de tudo aquele louco ainda o surpreendeu na saída do banheiro e o beijou. Para piorar a situação ele não reagiu e mesmo que não estivesse nem um pouco a fim de admitir, gostara. Era humano, como não gostar de um beijo como aquele? Quando estava pensando em baixar a guarda – já que enquanto beijava Milo este ficava calado, ou seja, até suportável – o louco parou e pediu desculpas, como a pessoa mais doce no mundo!
Tentou não pensar mais naquilo, mas com o xis da questão ao seu lado era impossível, nem mesmo o vinho ajudou, pior que o loiro agia como se nada tivesse acontecido, "deveria ser louco, isso sim"!
O vinho não o ajudou, pelo contrário fez com que Camus acordasse pouco antes do meio dia, fato muito estranho para quem sempre acordava antes das 7:00, mesmo sem despertador, independente da hora que recolhera-se na noite anterior. - "É meu caro, acho que quem está ficando louco é você, bem que June avisou para não se esforçar tanto!"
Não conseguiu nem mesmo almoçar, ainda estava com dor de cabeça e um ligeiro enjôo, não só pelo vinho, pois já sentia isso há um tempo. Podia ser irrelevante, era o tipo de coisa que sempre ignorava. Sempre fora saudável, então para que se preocupar? Ao menos tinha certeza que desta vez a culpa era do vinho!
No noite anterior ainda na boate, June havia decidido por ele que não trabalhariam. Camus então, aproveitou a tarde para arrumar sua casa, lavar roupas e outros serviços que não levaram mais de meia hora visto que sempre fora metodicamente organizado e não acumulava este tipo de coisa. Sentou-se para ler um pouco quando o celular tocou. Sorriu ao ver o nome que era exibido no visor.
– Estava com saudades?
- Claro, já faz tempo que não nos encontramos!
- Verdade! Preciso te ver, o que vai fazer hoje?
- Isso é um convite?
- Entenda como quiser... Não trabalho hoje.
– Camus, está doente? Não está trabalhando e ainda fala que precisa me ver!
- Não enche! Só preciso conversar um pouco...
– É mais grave que eu pensava, ainda por cima quer conversar... Cinco horas, no local de sempre?
- Parfait!
- Vai me explicar tudo, sei que alguma coisa aconteceu!
- Au revoir, mon ami!
Desligou um pouco mais animado, sem dúvidas aquele era um bom amigo, ele parecia saber quando precisava de companhia. Verificou no relógio e viu que ainda restava bastante tempo, mas resolveu tomar logo um banho para depois ir até o parque, local este onde gostavam de passar o tempo e onde haviam combinado o encontro.
Camus estava tão alienado em seus pensamentos que não percebera a aproximação do belo moreno com cabelos escuros e curtos, que divertia-se com o jeito avoado tão incomum do francês.
- Te conheço bem Camus, pode começar a falar o que aconteceu!
- Ah, oi! Você demorou, como sempre! – Sorriu e levantou-se abraçando o homem parado a sua frente. Um abraço forte, enterrando o rosto nos ombros do outro, que era alguns centímetros mais alto, recebendo um beijo na bochecha. Aquele era um dos poucos que o conhecia de verdade, e um dos poucos a quem se permitia abrir.
– Não posso perder o costume, e gosto de te deixar ansioso para me ver! Gosto de te ver irritado, aliás, ainda não me xingou hoje, que bicho te mordeu?
- Morder não seria o verbo exato, meu caro!
- O que aprontaste?
- Nada! Eu não faço nada e você sabe bem disso!
- Serei obrigado a discordar... Você faz e muito bem! – Riu divertido com a expressão de Camus um misto de vergonha e indignação.
– Não é hora para isso, Shura!
Esse era o jeito daquele homem, não perdia a oportunidade para uma brincadeira ou qualquer comentário para tirar sarro de alguém, tão diferente do ruivo e sua postura formal. Os dois eram apenas grandes amigos, mas em um passado não tão distante foram namorados.
Quando Camus em seus dezoito anos chegou a Buenos Aires, após uma longa jornada em que abandonou a França. Enfrentou inúmeras dificuldades como estar sozinho, não possuir muito dinheiro e para piorar pouco sabia do idioma local. Somente após algum tempo começou a se adaptar naquela nova vida e encontrou um pequeno curso onde poderia aprender a língua sem pagar por isso, já que os professores eram voluntários. Foi então que conheceu Shura.
Nascido na Espanha, era um aventureiro nato em sua juventude, estava sempre a viajar e conhecer novos lugares e culturas. Ao passar pelas terras porteñas acabou ficando por lá, motivo? Nem ele mesmo poderia explicar, aquele lugar de algum jeito o conquistara e logo estava trabalhando como fotógrafo freelancer de um jornal local, também gostava de dar aulas de espanhol, mas apenas como lazer.
Como também falava francês, Shura rapidamente conseguiu conversar umas poucas vezes com Camus e aos poucos foi descobrindo que ele tinha uma paixão pela dança. Logo o ajudou a conseguir um emprego com Albiore, um velho conhecido. Também descobriu sobre a louca jornada que o francês enfrentou até chegar ali e, aos poucos foi extraindo algumas informações sobre o que mais gostava de fazer, ouvir, sonhos, e até confissões que envolviam fatos como pais e preconceitos. Descobriu o que o fazia rir, o que gostava de observar e até preferências de cor, sabores, aromas e vinhos. Ah sim, o vinho! Foi depois de uma noite regada à eles que acordaram nus na mesma cama.
Após aquela noite ficaram ainda mais próximos, havia uma imensa cumplicidade entre os dois, Camus deixou a pensão onde estava vivendo e passou a morar um tempo com Shura, ainda não tinha como pagar um aluguel e todos os outros custos. Infelizmente o relacionamento não sobreviveu por muito tempo, desgastou-se, mas por mais estranho que pudesse parecer continuaram amigos, até mesmo permaneceram sobre o mesmo teto, proporcionando algumas "recaídas", até que meses depois Camus conseguiu um lugar para morar.
Aos poucos, trabalhos e complicações pessoais foram afastando-os fisicamente, mas sempre que era possível, encontravam-se, fosse para assistir algum espetáculo, jantar, ou até mesmo um simples passeio, ou sentar em um banquinho de algum parque como faziam agora.
O francês narrou os últimos acontecimentos que estava refletindo minutos atrás para o amigo, as últimas aventuras com o "maldito, detestável, irritante e imaturo aluno" eram narradas com um quê de indignação, fazendo Shura cobrir a boca com a mão muitas vezes para disfarçar o riso.
– Gostei desse cara, é difícil alguém te tirar do sério assim!
- Não fala besteira, queria te ver no meu lugar!
- Ele é bonito?
- Devo admitir que sim, um verdadeiro Deus grego!
- Grego?
- Ah sim, esqueci este detalhe, o Milo é grego...
– Então estou fora, basta aquele maluco do Aiolos... – Shura brincou, relembrando um pequeno caso que teve tempos atrás, chamando a atenção de Camus.
– Aiolos! Esqueci de falar, ele estava com o Milo na sexta!
- Meu Aiolos?
- Acho que não tem muitos gregos em Buenos Aires com este nome não? Milo estava com eles, o irmão do Aiolos também e outro cara amigo deles, quase havia esquecido que vocês se conheceram naquele aniversário do Albiore! Você muda suas paixões com tanta freqüência que até havia esquecido!
- Mas com ele foi diferente... Um dia ele sumiu e não apareceu mais, parece que fugia de mim como se eu fosse matá-lo! Fiquei com o coração partido e nunca entendi o que aconteceu!
- Mas quatro dias depois você estava com uma garota que nem lembro o nome...
- O que podia fazer? Não tive escolha
– Sei... – Os dois riram, Shura gostava de ver aquele sorriso em Camus, tão raro!
- Quando encontra o seu grego novamente? Quero estar presente na próxima, não esqueça de me avisar!
- Ele não é meu grego! E não terá uma próxima vez, espero que ele desista da idéia de fazer aulas também!
- Deixa disso Camus, ele é bonito, quer ficar contigo, e logo vai embora, você não precisa gostar dele, aproveita o que ele tem e quer te oferecer. Sexo não faz mal... Pelo contrário!
- Não sei como ainda converso contigo, seu jeito de lidar com essas coisas ainda me surpreende!
- São coisas simples, as pessoas que complicam!
- Talvez tenha razão, mas Milo não é o tipo de cara que eu conseguiria me divertir, ele só consegue me tirar a paciência!
- Mantenha a boca dele ocupada e não terá problemas!
- Shura!
- O que foi?
Entre risos e comentários maldosos do espanhol, continuaram a conversa, Shura era um pouco maluco, mas um amigo leal, sem dúvidas o mais fiel, não era como a louca da June que o jogava nas garras daquele escorpião!
–oOo-
Que sensação seria aquela? Nunca fora tão bom estar nos braços de alguém! Pouco se importava com o jeito que as pessoas que ali passavam comentavam e olhavam feio para aquela cena, na verdade estava tão distraído que nem percebera. O preconceito é mesmo uma coisa absurda! Na teoria os homens naquela cidade até poderiam ter uma união civil legalizada, mas ficar assim em uma praça, um deitado sobre o outro, trocando nada além de doces beijos? Não, isso já é demais! Felizmente Mu era distraído demais para perceber isso e Shaka embora pudesse notar o clima estranho em volta, mesmo sem poder ver, nunca ligara para a opinião alheia!
Já era noite quando reconheceram que deveriam sair dali, o lugar estava deveras escuro e poderia ser até perigoso. Mu caminhava para algum lugar mais movimentado na região segurando Shaka pela mão, quando deu-se conta das horas que passaram por ali e nem ao menos avisara a Saga. Pegou o celular no bolso, mas a bateria havia descarregado. "Droga", pensou, mas o que poderia fazer? Afinal já era bastante crescido para ficar dando satisfação e Milo já sumira diversas vezes, Saga nunca se importava, porque ele tinha que ser tão correto? A resposta, ele sabia bem, mas a deixou perdida em algum lugar na sua cabeça, apenas convidou Shaka para um jantar, voltar para o hotel era a última coisa que queria naquele momento!
-oOo-
Saga já não sabia o que fazer, desde que chegaram à Bienal procuraram por Mu em todos os lugares possíveis, mas não o encontravam e para piorar a situação o maldito celular estava desligado. O que poderia ter acontecido?
- Será mesmo que ele não voltou ao hotel?
- Não Olos, não é o tipo de atitude que o Mu teria, ele teria me avisado que voltaria ou ficaria nos esperando até nossa chegada.
– Ele não é uma criança, Saga. Tenho certeza que sabe se cuidar sozinho.
– Isso eu não discordo, mas se você o conhecesse saberia que o que está acontecendo é realmente estranho, ele é bastante responsável, demais até eu diria!
- Vamos esperar um pouco, talvez os garotos já o tenham encontrado.
– Milo me avisaria, foi o combinado... Já demos muitas voltas, estamos procurando há mais de uma hora, temo pelo que possa ter acontecido!
Não sabia mais o que fazer, já ligara inúmeras vezes no celular de Mu, mas sempre a mesma mensagem: Desligado. Resolveu tentar uma cartada final ao ver alguns metros a frente uma estranha e conhecida figura, talvez devesse tentar, afinal, Mu não era o tipo de rapaz que passava despercebido!
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Milo e Aiolia procuravam pelo amigo juntos enquanto Saga e Aiolos faziam o mesmo, mas não adiantara. Estava ficando preocupado, Mu era um excelente exemplo de responsabilidade, o tipo que jamais desapareceria sem nenhum aviso. Ele sim poderia fazer isso, mas não o dócil carneiro.
– Aiolia, vamos procurar a polícia! Ele pode ter sido assaltado, seqüestrado, pode até mesmo estar em uma banheira com gelo com os rins roubados!
- Calma Milo, também não é assim, ele logo vai aparecer aqui ou ligar.
– Não! Entenda, o Muzinho NUNCA faz nada desse tipo! Se estivesse bem já teria nos ligado, mesmo de um telefone publico! Se fosse eu não teria problemas, mas é o Mu!
- Mas Milo calma...
– EU ESTOU CALMO!
- Percebe-se...
– E se ele foi estuprado? E se ele foi preso por algum motivo injusto? E se...
– Chega Milo! Vamos atrás do Saga, ele pode ter encontrado o Mu... – Puxou o escorpiano pelo braço enquanto ignorava as teorias mirabolantes sobre o estranho desaparecimento.
- ... Terroristas atacaram a cidade e ele foi ferido? E se ele foi raptado por alienígenas? E se ele foi confundido com um? Ele tem aquelas pintinhas estranhas na sobrancelha, podem ter o levado por engano! E se...
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- NÃO ENZO, EU NÃO VOU FICAR CALMO!
- Mas Fiore, io já disse, o bambino foi embora com aquele estranho! – Somente Afrodite o chamava pelo nome, se fosse outra pessoa realmente seria presenteado com a pena de morte, mas não ele, não sua rara flor dourada.
- JÁ OUVI QUINHENTAS VEZES, MAS COMO VOCÊ PERMITIU ISSO? Já estamos aqui há horas e ele não volta!
- Io não sou babá do moleque e sabes que não gosto nem um pouco daquele seu primo arrogante, não me importaria se ele não voltasse. Mas já disse que por você mando meus homens atrás do ceguinho!
- Nem pensa em deixar aqueles brutamontes encostarem no Shaka! Eu mesmo irei atras dele... E SOZINHO! – Completou quando o italiano teve a intenção de segui-lo.
– Mas Fiore...
– Sem "mas" Enzo! Você volta para o hotel A-G-O-R-A e, trate de conseguir um outro quarto, hoje não dormirei contigo!
- Afrodite...
– Enzo, eu te amo muito meu querido, mas você tem que aprender a fazer as coisas do meu jeito – passava o indicador pelo pescoço do amado enquanto o encarava – Sabe, acho que quando fico ao seu lado acabo me tornando uma espécie de monstro...
- Está pensando em terminar comigo? – A fúria em seus olhos era nítida, o desejo de quem mataria apenas por prazer era evidente, mas Afrodite o conhecia muito bem e, mesmo sem saber explicar porque, nunca o temia.
– Não meu querido – Aproximou-se mais e deixou que a mão deslizasse para o peito do outro, acariciando-o – Apenas preciso encontrar o Shaka e ficar sozinho, seu sadismo às vezes me cansa!
Segundos depois já estava fora de vista. Era inexplicável a força que aquele ser exercia sobre si, era sua flor, sua rosa com um aroma tóxico, a qual não conseguia viver sem. Mas que não pensasse em abandoná-lo, isso jamais, se sua flor não estivesse em seu jardim, não ficaria no de ninguém mais, preferia vê-lo morto e não teria maiores problemas para fazê-lo sendo um dos grandes chefes da máfia italiana.
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Saga já estava perto o bastante para ouvir as últimas palavras trocadas entre Afrodite e o namorado, teve que apressar o passo para segui-lo pelo corredor onde se encontravam, mas finalmente o alcançou.
– Afrodite!
Aquela voz... Sim, sabia quem era. Muitos não saberiam diferenciar, pois Saga e Kanon eram semelhantes até mesmo na voz, mas com o tempo – perdido – que convivera com eles, aprendeu muito bem todas as pequenas diferenças entre os dois.
– Saga... Não sei por que não estou surpreso com sua presença! – O sorriso e o tom do sueco era visivelmente irônico. – Me perdoe, mas não tenho tempo para brincadeiras agora...
– Preciso te perguntar uma coisa importante!
- Então trate de falar rápido, pois não tenho tempo!
- Sei que palestrou hoje... Por acaso não viu algum rapaz de longos cabelos roxos pelo auditório?
– Será que todos tiraram o dia para sumir hoje e... Espera, cabelos roxos? Então você deve estar falando do delinqüente que levou meu primo embora!
- Primo?
- Meu primo, o Shaka... Eu o vi sair durante minha palestra com um garoto com cabelos lilases, ontem encontrei os dois juntos também! Acho que podemos estar falando da mesma pessoa, afinal, muitos confundem o roxo com o lilás e...
– Você não acha o momento inadequado para discutir tonalidades? Tem idéia para onde foram?
- Como saberia? Aquele fedelho... Tinha que ser da sua laia para arrastar o Shaka por ai...
– Afrodite, quer colaborar? Não vê que estamos na mesma situação?
Realmente deveriam deixar as desavenças do passado de lado, Afrodite procurava Shaka, Saga procurava Mu e provavelmente os dois deveriam estar juntos!
- Tudo bem, vamos tentar descobrir para onde seu queridinho irresponsável o arrastou...
– Ele não é irresponsável e provavelmente seu primo o deve ter tirado daqui...
– Impossível, o Shaka é cego, seria um grande feito para ele!
- Cego?
- Sim Saga e, você deve estar ficando surdo? Pois burro sei que não és!
- Faço questão de ignorar esse comentário... Tentou ligar para o seu primo?
- Ele nunca sai com o celular que comprei para ele, diz que é incomodo e desnecessário, e o Mu?
- Desligado, já estou ligando há quase duas horas! Disse que os viu sair durante a palestra?
- Sim, eu o vi sair de mãos dadas com o Mu, o Mask disse que ele chegou a minha palestra e logo saíram, achou que voltariam logo, mas não apareceram! Já ligamos para o hotel e nos falaram que ele não está por lá.
Enquanto tentavam encontrar alguma pista que os levassem aos rapazes, Milo e Aiolia também se juntaram aos três, logo chegaram a um acordo e decidiram sair com o carro de Aiolos buscando pelas redondezas, mas em vão. O melhor seria voltarem ao hotel e esperar mais um pouco. Afrodite ficou pelo caminho onde estava hospedado e em seguida o quarteto grego foi até o Faena, Saga ficou em um piano bar que havia no térreo enquanto Milo, que estava desesperado e continuava com teorias absurdas sobre o desaparecimento de Mu, foi para o quarto com Aiolia, com um pouco de sorte talvez encontrasse o amigo dormindo por lá!
-oOo-
Camus, depois de falar mais que deveria sobre "aquele grego metido", ouvia a narrativa de Shura sobre os últimos acontecimentos em sua vida. O espanhol sofria de certa incompatibilidade amorosa, nunca passava muito tempo com a mesma pessoa, então Camus sempre tinha que se atualizar de um, ou mais novos relacionamentos do amigo. Homens, mulheres, ele não se importava muito, apenas detestava ficar sozinho, sempre morria de amores pelo parceiro, mas do mesmo jeito que as paixões chegavam, partiam.
Tudo estava acontecendo da melhor forma possível, até que tiveram a atenção desviada para uma cena no mínimo... Interessante!
- Camus, não são os seus alunos? Não sabia que namoravam!
- É verdade, eu nunca entendi muito bem, mas está bem explicado porque o Shun não dá a menor atenção para June, também não sei o que ela vê nele, é um bom garoto, mas frágil demais! Ele e o Isaac vivem em constante guerra pela atenção do Hyoga, mas pelo visto o Shun não é tão lento quanto eu pensava!
- Vamos falar com eles!
- Não Shura, espera!
Tarde demais. Shura já corria para uma árvore onde Shun e Hyoga estavam encostados trocando beijos e carícias não muito apropriadas para o local. Camus não gostava nem um pouco de interferir na vida alheia, principalmente quando se tratava de seus alunos, por isso mesmo nunca fizera questão de entender as brigas em torno do garoto russo, mas agora estava bem claro que realmente existia algum romance. Sorte que Isaac não estava por perto, ou seria confusão na certa se ele visse aquela cena!
Durante o namoro com Camus, Shura freqüentou algumas aulas na escola e também aprendeu alguns passos de dança, mas sempre foram bastante discretos quanto à relação, a pedido do francês, é claro! Nem mesmo June, como uma verdadeira amiga de Camus sabia de fato o que acontecia ali. Ele conhecia pouco os garotos, mas para ele era o bastante para ter a cara de pau de interromper um momento tão íntimo.
– É bom acabar logo com essa fornicação, ou não percebem que estão em local publico!
- Ah... Oi Shura! – Hyoga encarava o espanhol com a maior cara lavada do mundo, enquanto Shun corava rapidamente, constrangido com o flagrante – Oi Camus, o que fazem aqui?
- Bom Hyoga, se não percebeu aqui é um parque, é um local onde as pessoas normalmente se encontram para passear e conversar. Claro que alguns se empolgam um pouco com a bela paisagem e tentam também se esquentar do frio com formas alternativas, mas não é o meu caso nem do querido professor de vocês aqui!
- Perdoem o Shura, só estamos de passagem... Até amanhã!
Camus puxava o amigo que insistia em gritar coisas como "Procurem um lugar mais tranqüilo" e "Usem camisinha". Os dois ainda permaneceram naquele local por mais um tempo, mas logo foram para um velho conhecido restaurante, onde poderiam apreciar mais a presença um do outro, antes de finalmente voltar para suas casas e se prepararem para uma nova semana que começaria. Ele só não imaginara que tipo de semana seria aquela!
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Sentados a mesa de uma trattoria, apreciavam além de uma excelente refeição, a companhia de um ao outro. Realmente a culinária italiana era uma ótima pedida para aquele jantar. Mu ficou bastante animado quando descobriu que Shaka também era vegetariano, decidiram por um risoto de tomate seco acompanhado por um vinho branco.
Já haviam terminado o prato principal e aguardavam a sobremesa quando a idéia de que logo aquilo acabaria passou pela cabeça de Shaka, não queria pensar nisso, Mu o fazia sentir tão bem, tão seguro!
- Não queria falar nisso agora, mas é necessário... Até quando fica na cidade? Quer dizer... Ambos estamos aqui por pouco tempo, até quando poderemos ficar juntos?
Mu era tão avoado em certas ocasiões que também não pensara nisso. Não teria muitos dias para passar ao lado de Shaka, já que em uma semana estaria de volta à Grécia, infelizmente era um fato que teria que encarar.
– No próximo domingo, e você? – Viu Shaka respirar fundo antes de descobrir que teriam menos tempo que pensavam.
– Vou na quinta, pela manhã.
Ficaram em silêncio, palavras não eram necessárias, Mu segurou a mão de Shaka que estava sobre a mesa, um gesto delicado, onde um podia sentir a dor do outro. Porque era tão complicado encontrar alguém e ter que se afastar dessa pessoa especial?
Não conversaram muito durante o restante do jantar, até mesmo o alfajor com sorvete e calda de chocolate estava amargo após aquela constatação. Mu fez questão de pagar a conta naquela noite e ficaram alguns instantes na frente do restaurante, apenas abraçados e trocando suaves beijos, antes de tomarem um táxi, onde o ariano levou Shaka ao respectivo hotel após planejarem que voltariam a se encontrar no dia seguinte.
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Saga estava tenso, Aiolos havia aproveitado que estavam em um sofá e o fizera deitar com a cabeça em seu colo, afagando seus cabelos e ajudando a tranqüilizá-lo, estava funcionando, ele mantinha os olhos fechados e começava a adormecer quando foram interrompidos pelo celular, era Afrodite. Haviam combinado no carro que qualquer notícia avisariam imediatamente – entenda-se, qualquer notícia avisariam antes de cortar a cabeça dos garotos – um ao outro.
– Saga, o Shaka acabou de chegar!
- O Mu está com ele? Estão bem? O que aconteceu?
- Aparentemente estão bem, ainda vamos conversar, mas o Mu já está em um táxi voltando, logo estará por ai! Agora preciso desligar, tenho muito para falar com o meu primo!
- Afrodite...
– Sim?
- Obrigado!
- Não precisa agradecer, no fundo isso teve um lado positivo, você falou comigo como não fazia há tempos!
- Me desculpe... Posso te ligar amanhã? Hoje ainda temos muito a fazer!
- Sem problemas, boa noite!
- Boa noite. – Desligou o telefone e voltou a falar com Aiolos – Ele já está a caminho... Por que está me olhando assim?
- Disse que o ligaria amanhã... O que quer com ele?
- Hmm, ficou com ciúmes? – Sorriu beijando o nariz do sagitariano.
- Talvez não ficasse se não soubesse de nada!
- Eu não sou meu irmão, Olos! Não ficaria com outro estando contigo... Ainda mais o Afrodite!
A expressão de Saga fez o amante rir divertido e um beijo encerrou qualquer discussão e, rapidamente ficaram atentos, logo o Mu chegaria e uma conversa seria necessária, mas não via a hora de voltar ao seu quarto e passar mais algum tempo com Aiolos!
Pouco depois, já haviam saído do piano bar e esperavam no corredor principal, quando avistaram Mu entrar. Aiolos logo entendeu o sinal que o amante fez com o olhar, voltaria ao bar e ali esperaria até que a conversa estivesse encerrada. Já Saga, encarou o garoto e pediu que o seguisse, foram até a área da piscina, que pelo horário e a temperatura local, estava completamente vazia, sentaram-se em torno de uma mesa.
- Por que não me ligou?
- Eu tentei, mas meu celular descarregou!
- Desse um jeito! Te procuramos por horas, onde você se meteu com o Shaka? Pensamos que algo grave havia acontecido com vocês!
- Eu... Como sabe dele?
- Não importa o que sei ou deixo de saber, Mu! Onde estava com a cabeça? Você foi infantil e irresponsável, não pensou que ficaríamos preocupados?
- Mas o Milo... Ele sempre sai sem avisar e...
– Você não é o Milo!
- Tudo bem Saga, eu errei, me desculpe.
– Você acha que pode fazer bobagens e achar que simplesmente está tudo bem?
– Mu, não me importa onde estavam ou o que fizeram, você não vai mais encontrar esse garoto, não vai sair sem minha presença ou do Milo, estamos entendidos?
- MAS SAGA VOCÊ NÃO PODE... – Mu já ficava de pé e falava alto quando Saga o segurou pelo pulso
- E baixe sua voz ao falar comigo, posso te mandar de volta a qualquer momento para aquele inferninho com o seu irmão!
O ariano estava ficando nervoso, desde quando Saga sabia de Shaka? E que direitos ele tinha de proibir que o encontrasse novamente? Não era seu pai, nem mesmo Shion faria uma coisa dessas, por mais que fosse grato ao tutor, não aceitaria aquela situação.
- Então manda Saga... Mas você não vai me proibir de nada! Se for assim, prefiro não viver mais sob sua guarda! – Sem mais palavras, soltou-se e seguiu para o quarto, Milo o entenderia, ou não, talvez o melhor fosse dormir, não queria ouvir sermão do amigo também.
Saga ficou um tempo parado processando sobre a curta conversa. Não podia ser Mu a lhe responder daquela forma, ele sempre fora tão doce e nunca levantara a voz, o que estaria acontecendo? Quem realmente era Shaka? Saga temia que fosse alguém não confiável, conhecia muito bem Afrodite e sabia as histórias sobre o namorado deste, ele apenas queria o bem de Mu e para isso faria o possível.
Pensaria com calma no assunto, por enquanto tudo que precisava era de um relaxante banho na companhia de Aiolos.
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Entrou no quarto praticamente chutando a porta, assustando Milo e Aiolia que conversavam enquanto assistiam televisão.
– Mu! Onde estava? O que aconteceu? Por que não ligou? Quem te seqüestrou? Estavam armados? Você está ferido? Você...
– Não enche você também Milo!
Os dois apenas viram o ariano subir em direção ao segundo andar do quarto, depois um outro bater de portas pode ser ouvido, desta vez do banheiro.
– Pelo que eu conheço do Muzinho... E o vendo assim agora... Acredito realmente que ele foi abduzido! – Milo estava quase em choque, mas Aiolia não pôde deixar de rir.
– Acho melhor você conversar um pouco e tentar descobrir o que aconteceu.
– Vou fazer isso agora, acho bom também você ir logo encontrar com a Marin, pelas vezes que ela já te ligou hoje deve estar mesmo apaixonada!
- Pois é, qualquer coisa me liga e encontra com a gente!
- Obrigado, mas não me sinto bem como um candelabro e não estou afim de um ménage a trois hoje! – Deu uma piscadela e sorriu, abraçando Aiolia. – Valeu mesmo por hoje, achei que perderia a cabeça quando não conseguimos encontrá-lo, você foi um amigão! Boa sorte com a sua garota!
- Não precisa agradecer, qualquer coisa só me ligar!
Os dois despediram-se e Milo seguiu para o quarto, precisava conversar com Mu, mas não sabia como o fazer, ele estava estranho demais. Sentou-se na cama e esperou, não perguntaria mais nada, Mu sabia que ele sempre estaria ali para lhe apoiar.
Enquanto isso, Mu apenas deixava que a água que escorria pelo seu corpo levasse também suas lágrimas embora.
Enzo Ferruccio é o nome dado ao Máscara da Morte pela Theka Tsukishiro, créditos para ela!! Quem quiser usar tem que pedir e dar os créditos pra essa moça ai! XD
Como citado durante o capítulo, o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legalizado em Buenos Aires, mas isso não significa que as pessoas em geral aceitem isso de uma forma natural... Infelizmente ainda vivemos em um mundo hipócrita demais!
N/A: Quero primeiro pedir um milhão de desculpas pela demora nesta atualização... Não foi fácil! Passei (e ainda estou passando) por um período de mudança, agora estou em outro país, então imaginem minha correria desde documentação até chegar por aqui, ficar sem meu computador, sem internet e mil coisas que fico cansada só em falar! Mas pelo menos agora já está (quase) tudo bem (ainda dependo da boa vontade do meu pai deixar usar o note dele), mas a boa notícia é que o próximo está praticamente pronto!
Quero agradecer minha amada beta, Theka Tsukishiro, pela paciência em mais um capítulo, para todos que deixaram review e sugestões (Theka, P-Shurete, Leo no Nina, Dragonesa, Mussha, Dark Wolf 03, Poly (você não deixou o seu e-mail para que eu te respondesse), graziele, Naya Yukida, Karol Uchiha, Lyta Moonshadow, Haina Aquarius-sama , machi e La Francaise)... Beijos enormes para as meninas do fórum New Sanctuary que também aturaram um pouco dos meus surtos com a fic pelo MSN! Agradeço também aqueles que estão lendo e favoritando, ou botando a fic nos alertas e não deixaram review... mas faço meu pedido aqui para que deixem a opinião de vocês, é muito importante para mim!!
Ahh sim, "Tarde" é o nome de um tango, mas fico devendo a composição, tá bem difícil achar os títulos para esses capítulos baseando-se em nomes de músicas! E dessa vez no início do capítulo foi uma música do Flávio Venturini, já que não tive tempo para procurar alguma poesia legal sobre tango... mas a letra combina muito com esta dança!
Agora, para quem leu até aqui... Eu poderia estar matando, eu poderia estar roubando, mas esto apenas pedindo para apertar no "Go" aqui embaixo e deixar um review! XD
Beijos e até o próximo capítulo!
Lhu Chan
Agosto de 2008
