Rin amanheceu muito tonta. Levantou-se da cama com os cabelos despenteados e uma expressão de zumbi no rosto.

- ÃÃÃh...

Ela encaminhou-se para o banheiro chutando as coisas que bloqueavam seu caminho. Parou de frente para o espelho e ficou se encarando durante longos minutos.

- Estou parecendo um youkai. - Decidiu.

Primeiro resolveu dar um jeito naquela ferida, ainda manchada. Se atrapalhou com as gazes mas conseguiu fazer um curativo razoável.

- Pelo menos vou parar de sangrar como uma louca...

Lavou o rosto e escovou os dentes. Fêz o rabo de cavalo de sempre e voltou à encarar o próprio reflexo. Ergueu o polegar, satisfeita.

- Bem melhor.

Ela voltou para o quarto, olhando ao redor. Assim que sua Tia chegasse, provavelmente teria um surto. Rin simplesmente não conseguia manter o quarto organizado, e seus amigos diziam que um dia morreria soterrada em sua zona.

- Isso é arte. - Disse decidida, erguendo com o pé uma montanha de vestidos - Sei exatamente onde cada coisa está.

Mas não era verdade. Geralmente levava horas pra encontrar um sapato ou uma bolsa que tinha certeza de ter deixado sobre a mesinha ou embaixo da cama. Quando ia desenhar, sempre acabava pegando lápis emprestados do pai porque os seus desapareciam sinistramente.

Ela virou-se para o desenho de um homem gorducho pregado na parede ao lado:

- Um dia, quando menos esperar, Sr. Fueda, vou achar um alçapão nesse quarto e cair num submundo de lápis.

- RIN! VEM COMER!

- JÁ VOU!

Ela trocou-se rapidinho e saiu do quarto, descendo as escadas. Antes que alcançasse a cozinha, sua cabeça já começara a martelar os acontecimentos da noite anterior.

- Bom dia querida! - Seu pai surgiu por trás do fogão com um pano amarrado na cabeça - Vamos comer rapidinho que o papai tem que sair correndo pro trabalho, estou levemente atrasado!

- Era pra você ter saído à duas horas, papai.

- Acontece. - Respondeu ele fazendo malabarismos com os ovos.

- No seu caso, todos os dias. - Ela riu, sentando-se à mesa, admirando seu pai em trajes de executivo com um avental por cima

- Ontem eu nem te vi chegar em casa, mocinha! O que houve?

- Ãh, isso... É que o treino foi até bem tarde.

- Ah, sim. Vejo que você também já está pronta e... Tá meio pálida filha, tem certeza que não houve nada?

- Tenho, pai. - Ela sorriu bobamente.

- Tudo bem, então pegue sua mochila que vou te dar uma carona hoje.

Ela sentiu como se levasse um balde de água fria. Tensões negras começaram à pairar sobre sua cabeça enquanto seus olhos ficavam pequenininhos.

- Mochila... mochila... mochila... - Sussurrava consigo mesma em meio às trevas, alheia ao mundo.

- Filha?

- Papai, pra falar a verdade houve um probleminha sim - Ela coçou a nuca, rindo.

- Então me conte. - O Senhor Minamoto começou a servir a mesa, prestando atenção à filha.

Ela tomou fôlego.

- Bom, ontem eu fiquei muito irritada com o Arashi no treino. Dá pra acreditar, ele é um babaca, desde o ginásio! Aí eu coloquei um balde de graxa em cima da porta do vestuário masculino quando ele ia sair. Ele ficou todo lambuzado e obviamente eu fui pra direção. Então levei uma detenção. Quando estava voltando pra casa fui atacada por youkais malucos disfarçados de bêbados e um outro youkai chamado Hiei me salvou. Ele é meio sinistrão, gosta de bancar o misterioso se quer saber, mas acho que ele foi muito gentil porque, afinal, impediu que eu morresse com um caco de vidro enterrado em minhas víceras.

Seu pai não se mexeu, apenas deixou a colher de sopa cair no chão.

- ...

- Ah é! - Ela bateu na própria testa - Eu esqueci minha bochila no beco onde os youkais começaram à evaporar! E minha detenção também.

- ...

- Papai?

- ... Filha, você...

- Eu?

- Você colocou um balde de GRAXA pra cair na cabeça do seu colega?!

Rin deu de cara no chão.

- Papai...

- E pode parar de inventar histórias absurdas pra encobrir os seus atos! - Ele voltou à pegar a colher no chão e agora a brandia ameaçadoramente contra o nariz da filha - Provavelmente você se meteu em alguma outra encrenca voltando da escola e acabou perdendo a mochila e a detenção!

- Não, eu realmente...

- Chega, Rin. - O Senhor Minamoto suspirou, sentando-se com a filha à mesa - Vamos fazer o seguinte: fique em casa hoje e saia pra procurar suas coisas. Provavelmente alguém deve ter encontrado. Quando eu chegar do trabalho veremos como fica essa história da detenção. Assim não dá, filha, já é a quinta só nesse mês.

Rin fechou a cara e começou à comer. Seu pai não acreditara em uma palavra do que ela disse e agora se sentia muito burra por ter contado. Quem acreditaria, afinal?

Eles terminaram de comer, seu pai levantou-se e deu-lhe um beijo antes de sair.

- Sua tia já deve estar chegando então não precisa tirar a mesa.

- Certo. Tenha um bom dia.

Ele saiu às pressas enquanto Rin ficou encarando o relógio, pensativa. Ela tinha que sair dali antes que sua tia chegasse. Suspirando, ela voltou correndo para o quarto. Tinha que trocar o uniforme logo e ir atrás da sua mochila.

---

- Não acredito! - Kuwabara tinha o queixo no chão e os olhos cheios de lágrimas de tanto rir, apontando um dedo na cara de Hiei.

Yusuke gargalhava à plenos pulmões.

- Ai, ai, vou morrer! - Ele ria descontrolado.

Kurama parecia fazer um enorme esforço pra conter o riso.

- Mas do que é que vocês infelizes estão rindo?

- Caramba, baixinho, eu estou tão chocado que não consigo me segurar! - Kuwabara dava frênesis enquanto rolava no chão.

O que acontecera é que Koenma vira toda a cena de Hiei na noite passada do mundo espiritual, e não conseguiu evitar de contar pra Kurama o que tinha acontecido. Isso gerou uma bola de neve e, no fim das contas, estavam todos sabendo.

- Você levou uma cacetada na cabeça de uma moça inconsciente e ferida - Kuwabara fez um enorme biquinho - Oh Hiei, salve-me!

- Cale a boca, se não quiser morrer.

- Mas agora falando sério, Hiei, foi bem legal o que você fez - Yusuke sentou-se, sorrindo - Tá que não é do seu feitio salvar garotas por aí...

- Eu não salvei ninguém, eu só matei aqueles youkais nojentos. - Hiei disse, bravo.

- Não foi o que o Koenma nos disse - Comentou Kurama, recebendo um olhar fuzilante do amigo.

- Eu não estou interessado na opinião de vocês - Hiei levantou-se, aborrecido - Eu só vim aqui porque você disse que tinha algo importante à me dizer, Kurama.

- Ah, é, eu quase ia me esquecendo - Kurama ergueu as sombrancelhas - Tenho um recado da Mukuro pra você. Ela disse que se for pra abandonar o seu posto, nem precisa pensar em voltar pro Makai.

- O que?!

- Depois do que houve ontem, ela começou a levar realmente à sério o problema da rebelião entre os youkais. O contingente de revoltos é cada vez maior, e eles estão passando para o lado dos humanos com muita facilidade. Provavelmente existe algum portal clandestino.

- Isso é ridículo. Ela espera mesmo que eu fique aqui acabando a raça de monstros fracos como os de ontem?

- Por incrível que pareça, Hiei, o mais importante é manter a paz entre os dois mundos. Isso é essencial pro equilíbrio. - Suspirou Kurama.

- Por isso temos todos que ser como o Hiei e salvar as garotas em perigo! - Disse Yusuke erguendo os olhos enquano Kuwabara assentia com a cabeça feliz da vida.

- Que seja. - Hiei foi para a janela, ignorando Yusuke e Kuwabara.

- Ah, Hiei, mais uma coisa! - Kurama interrompeu-o.

- O que é agora?

- Procure vigiar o lugar onde essa menina sofreu o ataque. Tudo me faz crer que pode haver uma espécie de passagem pro Makai aberta naquelas redondezas, por onde só alguns tipos de monstro podem passar.

- Essa hipótese é muito improvável, Kurama - Hiei subiu na janela, levantando um braço - Aqueles youkais eram apenas vagabundos imbecis.

Ele sumiu de vista, enquanto Yusuke e Kuwabara começavam a simular uma cena de amor.

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Quando Rin saiu de casa, estava muito cedo e o frio da manhã arrepiava seus cabelos. Decidiu voltar ao beco pra procurar sua mochila, embora sentisse um enorme enjôo de pensar em encontrar os cadáveres dos youkais ainda lá.

- Será que alguém já os encontrou?... Bom, acho que não. Pelo jeito existe uma espécie de associação secreta formada por youkais que detêm outros youkais pra impedir que nós humanos saibamos sobre esses youkais. - Ela segurou a própria cabeça, tonta e espantada com sua genialidade.

Ela andou dois quarteirões sentindo a brisa gelada levantando sua franja. Um homem gordo saiu da casa ao lado pra receber o correio, quando a viu passando.

- Ah! - Ele sorriu, acenando - Bom dia, Rin!

- Bom dia, Senhor Fueda! - Ela acenou de volta, fazendo com que o casaco gigantesco que vestia balnçasse por cima da mão. - Como vai?

- Muito bem! Por que não está na escola? - O homem já ia entrando de volta em casa.

- Acordei muito tarde, então resolvi dar um passeio. - Mentiu.

- Ah sim, esses jovens...

Rin continuou seu caminho assoviando. Não parava de pensar na noite anterior. Será que Hiei era um tipo de agente do governo? Não, impossível, ele não tinha cara de quem receberia ordens de políticos carecas.

- "Políticos imbecis, vou matar vocês, seus vermes." - Ela tentou imitar a voz dele, enchendo as bochechas.

Finalmente, chegou à esquina do beco onde fora atacada. Engoliu em seco e olhou para os lados. Havia pouca gente na rua, e poucos carros transitando, mas ainda assim poderia pedir por ajuda caso aqueles youkais ainda estivessem lá.

"Vai que eles resolvem ressucitar pra se vingar de mim!" Pensou, horrorizada.

Ela tomou coragem e entrou no beco. Nem sinal de monstros evaporando. Ela deu um suspiro de alívio e passou a mão na testa.

- Isso aí, agora tenho que achar minha mochila.

Ela começou a vasculhar por cima das caixas de papelão e latas de lixo que estavam nos cantos. Olhou por todo o chão e ficou surpresa ao notar que não havia nem manchas de sangue. Continuou vasculhando o lugar atentamente, mas não encontrou a mochila.

- Que droga. - Ela caiu sentada em cima de uma das caixas, triste.

- Você está procurando por isso?

Ela levou um susto tão grande que caiu pra trás, com as costas no chão. Levantou-se massageando a traseira e olhando ao redor, dando de cara com Hiei. Ele segurava sua mochila em uma das mãos e tinha o rosto impassível.

- Você!... Caramba, é você mesmo! Ei, isso é meu!

Hiei largou a mochila no chão e deu as costas pra ela, saltando. Rin acompanhou-o com os olhos, vendo-o alcançar a lage do prédio ao lado e parar ali.

Em seguinda, voltou a olhar pro chão e correu para a mochila, sorrindo.

- Ah, que alívio... - Ela sentou-se, abrindo-a. Começou a tirar todas as coisas de dentro, pra ver se não faltava nada. Parou, de repente.

- Cadê a foto?!

Ela afundou de cara na mochila, apavorada, e concluiu que realmente não estava lá. Guardou tudo de volta e levantou-se, enfurececida, colocando a mochila num dos ombros. Olhou pra cima.

- Seu ladrãozinho. - Apertou os olhos.

Rin correu para a entrada dos fundos do prédio. Estava trancada. Tirou um grampo do cabelo e começou à arrombar a fechadura. Depois de várias tentativas, a maçaneta cedeu, revelando uma escadaria turva.

- Técnica milenar dos Minamoto. - Ela colocou o grampo de volta no cabelo e começou à subir com os punhos fechados, decidida.

Em cima do prédio, Hiei olhava o movimento do bairro lá embaixo. Já perscrutara toda aquele região, procurara em todos os cantos e não havia droga de portal nenhum ali.

"Aquele Kurama..." Bufou.

Na verdade, ele pensava que se encontrasse o portal, poderia voltar para o Makai sem precisar passar pelo mundo espiritual, e ao mesmo tempo destruiria os infelizes que o haviam aberto ilegalmente. Assim ele poderia acabar com o problema dos youkais fugitivos e sair de uma vez do mundo dos humanos.

Mas não havia nada ali. Kurama estava errado.

- VOCÊ! - A porta de saída da lage do prédio abriu-se de repente. Hiei virou-se, sem interesse. Rin surgiu atrás dela com um grampo na mão. Colocou mais uma vez o grampo no cabelo e foi até ele à passos firmes.

Hiei ignorou-a, voltando à olhar pra baixo. Era aquela humana de novo. Já não bastava ter se surpreendido ao encontrá-la novamente no mesmo beco? O que ela queria agora, afinal?

- Pode devolver. - Ela parou ao seu lado, com o rosto retorcido.

- Mas do que é que você está falando? - Ele girou os pra ela.

- A foto da minha mãe. - Ela apontou para dentro da mochila semi-aberta - Você pegou, sei que pegou, se não me devolver farei um escândalo.

Hiei demorou pra responder. Aqueles olhos prateados eram muito incomuns.

- Você está maluca. - Disse, por fim, sentado-se no parapeito do prédio.

- Não estou não - Elsa sentou-se ao seu lado, convicta.

Mas que diabos aquela garota estava fazendo?! Hiei não olhou pra ela, mas sentiu uma imensa vontade de jogá-la dali de cima. Sua presença trazia aquele formigamento idiota.

- Olha só, isso é muito importante pra mim. A minha mãe morreu no verão passado e eu sinto muita falta dela, e nessa fotografia ela está muito, muito bonita. Eu realmente a quero de volta e...

- Eu não peguei foto nenhuma. - Hiei interrompeu-a.

- Então quem pegou? Só pode ter sido você!

- Vá arranjar o que fazer, menina - Ele virou a cara - Eu tenho outras coisas com que me preocupar.

Rin parou de falar. Por um momento ficou calada, depois, abaixou os olhos.

- Acontece que mais ninguém mexeu na minha mochila e... - Ela parou novamente. Ergueu a cabeça tão rápido que Hiei assustou-se(mas disfarçou muito bem) - ESPERA! Aquele youkai de ontem mexeu nela! Hiei, onde vocês enterram seus mortos?

Uma brisa passou. Hiei lançou-lhe um olhar incrédulo.

- Anda, me diz! - Ela atirou-se para ele, balançando-o pelos braços.

Hiei afastou-a, impaciente.

- Por que está fazendo uma pergunta dessas?

- Presta atenção! Ontem, quando você me salvou, um dos youkais estava mexendo na minha mochila, ele deve ter pego a foto da minha mãe! Me diz aonde vocês enterram seus mortos pra eu ir procurar, ele deve ter pego e enfiado dentro das vestes!

- Não posso ajudar você. - Hiei a encarava.

Rin viu que não tinha jeito, aquele garoto não tinha a menor sensibilidade.

- Você é um insensível. - Ela olhou para baixo, vendo que o número de pessoas que trafegavam pelas ruas era um pouco maior agora.

Então, não poderia recuperar aquela foto... Certo que tinha mutias outras, mas gostava particularmente daquela. Suspirou, chateada. Sempre carregava aquela fotografia com ela, nunca pensou que poderia perdê-la daquela forma.

Hiei queria sinceramente que ela fôsse embora dali. Lançava-lhe rápidas olhadelas.

- Fazer o que?... - Suspirou Rin, passando a mão na cabeça e dando de ombros.

Então, ela fez algo muito estranho. Juntou um poucos os dedos indicador e polegar de cada mão, formando um quadrado. Mirou Hiei cuidadosamente, fechando um dos olhos, e fez um barulho com a boca, abaixando um indicador.

- Click!

Hiei piscou, atordoado.

- Mas o q...

- Já que a foto da minha mãe sumiu, vou levar uma sua.

Antes que Hiei dissesse mais alguma coisa, Rin exclamou, como se tivesse outra idéia. Depois, ela abriu a mochila rápido, procurando alguma coisa. Ele procurou não demonstrar nada, mas ficou intrigado. Então, ela tirou um bloco de folhas de papel e um lápis de dentro dela.

Virou-se, sentando-se de frente para o perfl de Hiei. Colocou as pernas dobradas em frente ao corpo e apoiou o bloco nelas, escondendo parte de seu rosto. Só os olhos ficavam à mostra. Então, ela começou a rabiscar a folha, olhando pra ele furtivamente.

Ele piscou, sem entender nada.

- Pare de se mexer. - Ela voltou a atenção ao bloco de folhas, procurando uma posição melhor.

- O que você está fazendo? - Ele não conseguiu de conter.

- Shh! Preciso de um esboço, só isso. - Ela levou um dos dedos à boca fazendo sinal de silêncio. Normalmente, Hiei teria se levantado e ido embora, mas acabou ficando ali, quieto. Aquela garota realmente o irritava, mas ao mesmo tempo o deixava muito confuso. Baixou os olhos, evitando continuar olhando-a.

-"Ele é bem bonitinho". - Rin pensou, dando um risinho, enquanto observava Hiei estático, olhando o movimento lá embaixo. Desenhá-lo seria difícil. Ela amassou a primeira folha e partiu pra segunda. - "Vou fazer algo mais simples".

O que ela estaria fazendo? Hiei não parava de se perguntar, mas decidira não se mover. Se tivesse qualquer reação, iria parecer interessado, coisa que ele positivamente não estava.

- Terminei! - Alguns minutos depois, ela abriu um enorme sorriso.

Aquela humana era realmente muito esquisita. Talvez fôsse maluca mesmo. Ele não tinha paciência pra lidar com pessoas assim. Resolveu se levantar. Mas assim que fez menção de erguer-se, sentiu ela segurar sua capa. Virou os olhos.

- Veja se gosta! - Ela estendeu a folha de papel, sorrindo, revelando um desenho que fez Hiei ter vontade de obliterá-la com sua espada. O Hiei da folha de papel tinha as mesmas características e as mesmas vestes que ele, mas parecia um menininho roliço de bochechas inchadas, com uma nuvenzinha de rancor desenhada em cima da cabeça e os olhos enormes apertadinhos de raiva. - Não se preocupe, pode ficar pra você!

- Você é muito petulante. Eu não tenho tempo pra alguém assim. - Hiei ficou irritado, puxando a capa da mão dela. Rin imediatamente desfêz o sorriso, abaixando o desenho de leve.

Outra brisa passou, só que mais forte. Então, a folha se soltou da mão dela.

- Ah, não! - Ela assustou-se, enquanto via a folha voar para fora da lage. Ela deu um pulo, esticando o braço e pegando-a de volta.

Respirou, aliviada.

- Ufa, essa foi por pouc...

Então, olhou para baixo. Estava na ponta dos pés e muito inclinada pra frente. Uma gota surgiu em sua cabeça, e ela começou a perder o equilíbrio.

- Oooôô... - Agitou os braços, tentando voltar, mas foi inútil. O peso da mochila pendurada no ombro empurrou-a para baixo e ela sentiu seu corpo despencar pra frente, em queda livre rumo ao asfalto lá embaixo.

Rin fechou os olhos com força, sentindo um imenso frio na barriga enquanto percebia sua queda. Abraçou o desenho e a mochila com força contra o peito, fechou os olhos, pronta pro impacto. Mas sentiu dois braços envolverem-na.

Hiei pegou-a no ar antes que ela atingisse a calçada, e saltou com habilidade rumo à uma lage mais baixa, logo em frente. Pousou com delicadeza, olhando pra garota em seu colo com uma expressão seca.

- Você realmente espera manter a sua vida? - Ele disse, com uma expressão irritada.

Rin abriu os olhos levemente, com o coração disparado. Viu o rosto de Hiei à milímetros do seu e não pensou duas vezes: Reuniu todas as forças que tinha e aplicou-lhe uma boa cabeçada.

Hiei largou-a na hora, sentindo uma dor aguda no Jagan. Afastou-se cambaleando, enquanto Rin respirava ofegante, olhando ao redor. Levou algum tempo pra perceber o que tinha acontecido. Então viu Hiei em sua frente, com a mão na testa, e percebeu o que tinha feito.

- Hiei! Ai, caramba, me desculpa eu...

- Você é a criatura mais imbecil que já tive o desprazer de encontrar - Hiei levantou-se bufando, dando-lhe as costas - Cuide da sua vida e me deixe em paz, sua imprestável.

Ele pulou, desaparecendo, deixando Rin cair de joelhos, com a cabeça baixa.

- Droga...

Ela ficou ali sentada um bom tempo, sozinha, talvez esperando que Hiei voltasse e pedisse desculpas. Desculpas? Algo lhe dizia que ele não era do tipo que se desculpava. Aliás, ele não era do tipo que sentia culpa.

- Mas acho que a culpa foi minha. - Ela cutucou a própria bochecha, aborrecida - Sou uma burra...

Ela pegou a mochila e decidiu ir embora. A lage era tão baixa que podia pular dali mesmo. Primeiro jogou suas coisas depois dependurou-se pelas duas mãos, caindo sentada no chão. Levantou-se, abanou as vestes, colocou a mochila nas costas e tomou o caminho de volta pra casa, enquanto um grupo de garotos que a vira pular olhavam com gotas na cabeça.

---

Yusuke e Keiko voltavam da escola juntos. Yusuke tinha uma das mãos nos bolsos e bocejava.

- Meu irmão hoje eu vou dormir pra caramba, isso aí, ninguém me acorda, pode explodir o mundo...

- Escuta aqui, ô garoto, você precisa começar à estudar, suas notas estão muito baixas - Ralhou Keiko.

- Ah não me enche Keiko, assim que eu tirar uma boa soneca eu volto à estudar e...

Yusuke esbarrou em alguém. Olhou para os lados até que se deu conta de que a pessoa era bem mais baixa que ele.

- Yusuke! - A menina abriu um sorriso. Estava tão distraída que nem percebeu o colega de classe.

- Ãh? Minamoto? E aí menina, como é que você tá! - Yusuke deu uns tapinhas nas costas da garota que ria bobamente.

- Oi, Rin - Keiko sorriu, empurrando Yusuke levemente para o lado - O que está fazendo aqui? Por que não foi pra aula hoje?

- Ãh... Tive um problema envolvendo monstros, mochila, fotos, queda de um prédio e um baixinho chato que se acha o máximo porque consegue saltar e retalhar pessoas com uma espada. - Ela disse, contando nos dedos, enquanto Yusuke e Keiko entortavam as expressões. Percebendo, Rin apressou-se em emendar - Aliás, deixa pra lá...

- Sabe, esse daí até parece um amigo nosso... - Yusuke coçou a cabeça, pensativo - O Hiei é exatamente assim e... Peraí, você disse monstros?

- Pera aí, você disse Hiei?

Eles se encararam, piscando.

Keiko ficou olhando de um para o outro, surpresa. Mas lembrou-se que ficara de encontrar com umas amigas dali à pouco.

- Acho que vocês dois tem uma coisa em comum. - Ela começou a rir - Eu gostaria muito de ficar pra saber mais sobre essa história, mas eu preciso ir. Tchau Rin, vê se melhora logo e... Yusuke, vê se começa à estudar!

Ela lançou um olhar fulminante para Yusuke e sorriu para Rin, assenando e tomando o outro lado da rua. Yusuke deu de ombros.

- Ai ai essa Keiko... - Depois, virou-se para Rin, sorrindo - Menina, acho que você precisa me esclarecer umas coisas.

- Você também. - Rin deu uma pequena risada, animada. Então, Yusuke e Hiei se conheciam? Isso era ótimo. - "Não, peraí, isso não é ótimo".

Ela balançou a cabeça. Por que gostaria de vê-lo de novo? Hiei era realmente uma pessoa apática e insensível. Eles eram completamente invertidos. Não poderia se sentir curiosa a respeito de alguém como ele.

- Que tal você almoçar lá em casa hoje? Aí a gente conversa - Yusuke colocou a mão no ombro de Rin, conduzindo-a com um riso bobo - Quem diria, então você conhece o Hiei! Sabe, ele gosta muito de coisas fofas e donzelas em perigo e...

---

Hiei se mexeu na árvore, inquieto. Que humana mais idiota, não conseguia sequer tomar conta dela própria sozinha.

- Não sei como não se matou até hoje. - Ele disse para si mesmo, com os braços atrás da cabeça.

Lembrou-se do desenho que ela havia feito dele e sentiu-se ferver de ódio por dentro. Ele tinha mais o que fazer pra ser atazanado daquela forma. Tinha monstros pra matar, guerras à travar. Tinha que vigiar Yukina também.

Esperava nunca mais ter que ver Rin novamente.

- Da próxima vez deixarei que morra.

Próxima vez coisa nenhuma. Por ele, nunca mais haveria próxima vez.

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- Então é você, Minamoto! Que coicidência, nunca pensei que você fôsse a dama em perigo do baixinho - Kuwabara olhava para Rin com os olhos brilhando, segurando suas mãos entre as dele - Se eu não estivesse completamente apaixonado pela minha deusa Yukina, eu faria de tudo pra conquistar seu coração!

- Coisa que não deve ser muito difícil, se até o Hiei conseguiu. - Disse Yusuke com a boca cheia de arroz. - Ô Kuwabara, por que mesmo você não tá almoçando na sua casa?

- Ih Urameshi, a minha irmã não quis preparar o almoço hoje - Disse Kuwabara voltando para o seu lugar - Então como você deve a sua vida à mim eu vim almoçar aqui mesmo e...

- Que história é essa?

- Ei, vocês dois - Rin ergueu a mão, abobalhada - Ninguém me explicou direito a história do Hiei. Vocês também são youkais?

Kuwabara e Yusuke se engasgaram com a comida. Kuwabara foi ficando roxo, dando socos em seu peito, enquanto Yusulke se recobrava.

- Não, não somos não menina, que é isso, haha! - Yusuke coçou a cabeça - Mas o Hiei é uma boa pessoa mesmo sendo um, viu, nem todos os youkais são ruins. Não se deixe enganar por aquela carranca dele não.

- Não acredite no Urameshi, Rin. - Kuwabara ergueu o dedo didaticamente - Na verdade o Hiei é um monstro maligno sem coração.

A campainha tocou, e Yusuke deu uns cutucões em Kuwabara.

- Vai lá abrir.

- Por que eu? A casa é sua!

- Anda logo Kuwabara! - Yusuke deu um chute no amigo, fazendo com que ele fôsse ao chão. Kuwabara ergueu-se para revidar mas Yusuke já ia chutando-o de novo. - Vai logo mermão!

Kuwabara saiu resmungando pra atender a campainha, enquanto Yusuke limpava a boca com a manga do casaco e explicava para Rin:

- Escuta, Rin, o que acontece é que existe um mundo paralelo à esse. É o Mundo das Trevas, um lugar nada legal, pode acreditar em mim, só tem bicho feio. O Hiei veio de lá, na verdade temos muitos amigos que são de lá - Yusuke ergueu os olhos, sonhador - Não dá pra te contar tudo o que já passamos por causa desse lugar mas o que eu posso te dizer é que pode ficar tranquila, menina, que estamos aqui pra garantir que a galera fique segura. Você não vai mais ser atacada, beleza?

- Eu não estaria tão certo disso, Yusuke - Kurama entrou na cozinha com Kuwabara atrás dele.

- Então era você Kurama, e aí como é q... Opa, quer dizer, Suuichi, hehehe!

- Não faz sentido disfarçar na frente dela, Yusuke - Kurama sorriu, e em seguida virou-se para Rin - Muito prazer, eu sou Kurama.

- Oi. Rin Minamoto. - Rin ficou surpresa, era um garoto realmente muito bonito. - Beleza?

- Por favor, na frente das outras pessoas me chame de Suuichi. É uma longa história. - Ele explicou docemente.

- Tudo bem. Mas porque você disse que o Yusuke está errado? Por acaso eu sou procurada do Mundo Malvado ou algo assim?

- Mundo das Trevas - Corrigiu Kuwabara.

- Não é bem isso... - Kurama sentou-se à mesa.

Então, eles ouviram um barulho na janela. Todos se viraram, e deram com Hiei entrando na cozinha, pisando em cima dos balcões antes de aterrissar no chão.

- Ei, você vai limpar isso, seu safado! - Disse Yusuke apontando o garfo para ele.

- Ah, Hiei! Que bom que você já chegou - Disse Kurama - Assim fica mais fácil.

- O que é que você quer dessa vez, Kurama? Se for mais uma idiotice eu... - Então ele parou de falar, percebendo a presença de Rin à mesa. Seus olhos crisparam-se.

- Hiei! - Ela surpreendeu-se. Parecia que havia horas desde que o encontrara mais cedo. Ela tinha que aproveitar aquela chance pra se explicar! Começou a gesticular com as mãos rapidamente - Nossa, achei que não te veria mais! Escute, me desculpe pela cabeçada de hoje cedo e...

Yusuke e Kuwabara engasgaram de novo, e Kurama arregalou levemente os olhos. Hiei ignorou-a.

- Vamos logo com isso, Kurama. - Disse, evitando olhar pra ela, embora por dentro se perguntasse o que ela fazia ali.

- Muito bem. Acabei de receber uma nova mensagem do Koenma e ele disse que esses monstros que estão passando pro lado de cá clandestinamente são monstros específicos que se disfarçam procurando por humanos com grande energia espiritual. - Explicou o ruivo, enquanto Rin tinha tensões pairando sobre sua cabeça pela ignorada de Hiei. - Eles precisam dessa energia alheia pra se manter aqui.

- Vishe Maria! - Disse Yusuke - Por isso foram atrás da Rin? Por causa da energia dela?

- Exatamente.

- Isso é bom, né? - Rin perguntou, tonta.

- Não muito Rin. Por isso você foi uma presa noite passada. Geralmente esses monstros que se disfarçam não implicam com humanos comuns. O ataque que você sofreu provavelmente foi pelo fato de você ser mais sensitiva. - Disse Kurama.

- Sensitiva?

- Energia Espiritual. A sua capacidade sensorial para com as coisas do Mundo das Trevas e do Mundo Espiritual. - Explicou Yusuke, enquanto Kuwabara olhava pra ele de olhos arregalados.

- Então eles querem me comer? - Rin criou caracóis nos olhos.

- Eles querem sugar a sua energia, idiota. Não vão comer você, mas provavelmente vão matá-la. - Disse Hiei, encostando-se na parede com as mãos nos bolsos.

- Minha nossa. - Rin segurou o próprio pescoço, engolindo em seco - O que eu tenho que fazer?

- Sair correndo minha filha, sebo nas canelas, é a melhor coisa que você pode fazer. - Disse Yusuke lambendo o prato.

- Não se preocupe, Rin, eu vou protegê-la! - Disse Kuwabara erguendo o punho.

- Tenho razões pra acreditar que você será atacada novamente, Rin, porque não existem muitos humanos com uma boa energia espiritual. Então eu gostaria de te pedir um favor - Kurama aproximou-se dela - Preciso que você continue levando sua vida normalmente, até que consigamos fechar a espécie de passagem que está trazendo esses monstros...

- Viver normalmente? Ah, Kurama, eu sei que é meio idiota dizer isso já que pelo que vejo vocês estão acostumados à lidar com youkais... - Ela abaixou o rosto, tamborilando os indicadores - Mas eu realmente fiquei assustada ontem e...

- Não se preocupe com isso - Kurama interrompeu-a sorrindo - Você estará segura, nós vamos te ajudar. Até o Hiei.

- O que?! - Perguntou Hiei na hora, mas Kurama não o deixou continuar.

- O Hiei está aqui justamente para patrulhar essas invasões no mundo dos humanos. E como eu, Yusuke e Kuwabara ainda estamos no colégio, infelizmente não poderemos cuidar de você o tempo todo - Disse Kurama com um suspirto - Então o Hiei vai ficar encarregado de te vigiar a maior parte do tempo.

- Você só pode estar de brincadeira, Kurama - Hiei estava começando a se alterar - Eu não vou cuidar de uma garota estúpida e indefesa!

- Você passou muito tempo cuidando de uma outra garota indefesa que todos nós conhecemos.

Hiei virou o rosto, inquieto.

- Ein? - Fez Kuwabara.

Rin piscou, atordoada.

- Hiei, você... Tem uma paixão secreta?

Eles deram de cara no chão.

- Pare com essas idiotices! - Hiei olhou para Rin irritado, depois voltou-se para Kurama - Pode esquecer essa sua idéia, Kurama, eu posso destruir esses monstros patéticos sem precisar seguir essa menina.

- Hiei, não é uma oferta - Disse Kurama com um sorrisinho bobo - O Koenma que mandou. Disse que se não cooperar, nunca mais te deixa voltar pro Mundo das Trevas.

- Que?!

- Você ouviu muito bem ô irritadinho, vai ficar de babá um bom tempo - Disse Kuwabara maldosamente. - Pense por esse lado, agora você pode deixar de ser tão seboso e...

- Ei, ei, todo mundo! - Rin se pronunciou antes que Hiei esquartejasse Kuwabara - O que estão fazendo é muito legal, mas já causei muitos problemas pro Hiei...

- Sinto muito, Rin - Disse Kurama - Mas é mais sério do que parece. Talvez monstros mais fortes comecem a passar, e aí você estará correndo um perigo ainda maior.

Rin abaixou a cabeça tristemente.

- Então está decidido - Kurama levantou-se - Hiei, você fica encarregado de vigiá-la quando não estivermos por perto, até que tenhamos mais informações.

- Isso é uma palhaçada, Kurama - Hiei tentou revidar, mas todos já estavam se levantando - Ei! Escutem aqui, eu não vou fazer isso!

- Você quem sabe - Disse Yusuke fazendo um alongamento - Nossa, comi demais... Vai ficar preso aqui pra sempre, Hiei.

Hiei bufou e saiu da cozinha. Rin sentia-se mal. Ele não parecia querer ficar cuidando dela, e nem deveria. Ele já se arriscara salvando-a noite passada e naquela manhã.

-"Na verdade, acho que pra ele aquilo não foi nada" - Ela lembrou-se da facilidade com que Hiei matara os youkais e impedira que ela se estatelasse no chão. Mesmo assim, ela não poderia contar com a sua ajuda, já que ele definitivamente decidira não seguir o plano de Kurama.

Rin suspirou, despedindo-se dos garotos. Deveria voltar pra casa logo, sua tia já devia ter chegado. Eles a acompanharam até a porta.

Enquanto ia tomando o caminho de volta, Rin pensava em como aquilo tudo era incrivelmente bizarro. Ontem, naquele horário, estava feliz da vida preparando o futuro balde de graxa pra cabeça de Arashi. Agora estava jurada de perseguição por youkais sugadores de energia.

- Ai paizinho... - Ela criou uma gota na cabeça, imaginando um monstro lambendo seu braço como um picolé.

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Um homem de aparência jovem estava parado em cima de um despenhadeiro. Ele usava uma longa capa e tinha orelhas pontudas. Sua pele era azul celeste e seus olhos eram vermelhos como sangue.

- Senhor Shiroi - Murmurrou um demônio amarelo aproximando-se por trás - Têm patrulheiros no mundo dos humanos e...

- Eu sei - Disse Shiroi ríspido - Temos que resvolver esse problema. Ninguém pode ficar no nosso encalço enquanto o plano não estiver concluído. O portal já está completo?

- Não, Senhor. Está difícil mantê-lo escondido do Mundo Espiritual. - Disse o demônio, cabisbaixo - Por equanto só conseguimos passar esses monstros fracos...

- Você conseguiu passar?

O demônio ficou quieto, parecendo irritado.

- Eu imaginei - Shiroi riu - O que descobriu?

- Três dos que mandamos foram mortos num beco - Disse o demônio - Encontrei os pertenteces de alguém. Vasculhei até achar algumas pistas, e ao que tudo indica era uma humana. Veja, Senhor.

Ele estendeu uma folha de papel.

Shiroi pegou-a, enquanto sua capa esvoaça-va.

- Uma humana, hn? - Shiroi analisou o papel, com uma caligrafia datilografada e um grande "DETENÇÃO" em letras garrafais no topo - Vejo problemas aqui. Uma garota humana é a última coisa que queremos no caminho... Descubram quem é essa menina e qual o vínculo dela com o Mundo Espiritual.

- O Senhor tem razão, é perigoso... - Disse o demônio, compreendendo.

- Você sabe porque não quero mulheres humanas no meio disso tudo. - Shiroi virou-se, pulando o despenhadeiro - Não quero nenhuma falha, entendeu?

O demônio assentiu enquanto Shiroi desaparecia de vista.

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- ONDE VOCÊ ESTEVE, SUA TROMBADINHA? - Mal abriu a porta, Tia Shiina brotou sabe-se lá de onde, apontando um dedo indicador em sua cara.

- T-tia... - Ela deu um sorriso sem graça - Estava procurando minha mochila, eu havia perdido ontem...

- Shiina - Seu pai surgiu pela porta da cozinha, sorrindo para a filha - Eu disse que ela não ia demorar.

- Mas já está escuro! - Disse a tia raivosa - Esse horário é muito perigoso pra ficar na rua!

- É um ótimo horário pra ver as estrelas!

- Estrelas, Shugo? Tá louco?

- Ora, hoje em dia tudo é muito seguro...

Rin subiu as escadas de fininho enquanto o pai e a tia ficavam discutindo lá embaixo, e fechou a porta do quarto à tempo de ouvir a tia dizer alguma coisa com "sequestradores".

Atirou-se na cama de costas, suspirando. Encarou o teto do quarto desanimada. O fato de ser atacada de novo estava realmente a preocupando agora. Não teria como se defender da próxima vez, seria demais esperar que Hiei a ajudasse.

- Estou sendo meio egoísta. - Ela sorriu, triste. - Será que ele já sorriu?

Hiei a intrigava. Ele parecia muito difícil de entender. Não tinha paciência ou humor com nada ao seu redor, e era de uma prepotência terrível. Além de ser abusado e ignorante. Rin riu, e deicidiu ir fazer o dever de casa.

Levou horas pra terminar os deveres. Decidiu que diria à diretora no outro dia que a detenção havia sido triturada no liquidificador quando foi fazer o café da manhã(seus olhos brilharam com sua perspicácia). Quando fez o último exercício, soltou um longo suspiro de alívio. Olhou para o relógio em forma de urso e tomou um susto ao ver que passava da meia-noite.

- Ah! Melhor tomar um banho! - Ela ergueu-se da cama num pulo, espreguiçando-se.

Enquanto tirava a roupa no banheiro, Rin lembrou que tinha aula de piano no dia seguinte. Socou o ar de raiva. Não tinha estudado a última música que sua professora passara. Ela era provavelmente a aluna mais atrasada na escola de música, e faltavam apenas quinze dias para sua audição.

- Ô droga. - Ela murmurou, desgostosa, então deu de cara com seu reflexo no espelho - E isso ainda parece tão sem-graça... - Ela cutucou seu nariz refletido - Quando vou começar a ficar um pouco mais bonita?

A mãe de Rin era extrangeira, e foi de quem a menina havia herdado os olhos prateados. Ela morrera com um câncer fazia mais ou menos um ano. Rin e ela era muito unidas. Mas Rin procurava ser uma pessoa positiva e encarar bem aquilo.

- Serei igual à você, mamãe, nem que eu faça uma plástica. - Decidiu, entrando no chuveiro.

Terminou de tomar banho mas, quando foi sair do boxe, levou um escorregão. Foi ao chão fazendo estrondo e deu um berro com o susto. Quase bateu a cabeça, e lágrimas surgiram em seus olhos.

- Ai, isso doeeeu...

Levantou-se atrapalhada e vestiu uma camisola curta pendurada num suporte. Saiu do banheiro aiinda enxugando os cabelos, com uma tolha cobrindo completamente a cabeça. Às cegas, procurou sua cama para sentar quando ouviu um barulho.

Sem tirar a toalha da cabeça, sentiu um calafrio passar pelo seu corpo inteiro.

- Ai meu santinho, são eles, os monstros das trevas... - Ela encolheu-se, caindo sobre uma pilha de roupas no chão, escondendo a cabeça na toalha mais ainda.

Tremendo, ela ouviu passos no quarto e pensou em gritar, mas seu coração batia loucamente e não conseguia abrir a boca. E agora, o que faria? Então, sentiu uma mão arrancar-lhe a toalha da cabeça.

- Mas o que é que você está fazendo?

Rin piscou, e a luz do quarto revelou Hiei. Sentiu o corpo amolecer.

- Graças à Deus é você.

- Não adiantou nada ouvir as palavras do Kurama? - Irritado, Hiei soltou a toalha no chão - Como espera não ser atacada, deixando essa porta escancarada desse jeito?

Ele se referia à porta da varanda. Rin cutucou o queixo, pensativa, olhando para as cortinas esvoaçantes.

- Sabe, nunca me ocorreu fechar isso aí... - Ela virou-se para ele curiosa - O que você tá fazendo aqui?

- Você gritou, idiota.

- Gritei é?... Sabe, eu tenho claustrofobia, por isso não tranco essa porta. Tenho um troço em lugares fechados. - Ela olhou ao redor, parecendo de repente esquecer que Hiei estava ali - Talvez essa pintura escura colabore um pouco com isso, tenho problemas com falta de espaço, não tenho onde guardar a maioria dessas coisas...

- Por que gritou?

Ela olhou para ele interrogativa.

- Ãh?

Hiei já estava perdendo a paciência, quando ela pareceu se lembrar.

- Ah! Isso! Eu caí no banheiro - Ela apontou para o traseiro - Doeu.

Hiei soltou um muxoxo e voltou para a varanda. Rin levantou-se rapidinho e foi atrás dele, em tempo de vê-lo prestes à saltar.

- Ei, ei! Você já vai embora? - Perguntou alto, antes que ele fôsse.

- Não tenho nada o que fazer aqui. Mas já que é tão covarde, não precisa se alarmar, eu estou vigiando você. - Respondeu Hiei rispidamente, sem virar-se para ela. - Quero sair desse mundo o mais rápido o possível.

- Oh sério? Nossa que alívio, eu estava realmente com medo, muito obrigada, Hiei... - Ela parou de repente - Espera. Você vai dormir aí fora? Não está muito frio?

Ele parou. Sem se controlar, seu rosto virou, encarando-a. Ela tinha um olhar de preocupação. Aquela menina era realmente...

- Não. - Ele virou-se de volta para ir embora.

- Você é um puto chato, ein. - Ela riu, encostando-se de lado na porta da varanda, observando-o - Não fala comigo direito, não escuta direito o que eu te digo... E com os seus amigos é a mesma coisa. Por que você é assim?

Ela estendeu os dedos, formando um quadrado. Abaixou um indicador.

- Click. - Fez com a boca.

- Por que você é assim? - Retrucou Hiei, impaciente, sempre de costas pra ela.

- Sabe, eu queria te recompensar pela sua ajuda de alguma forma - Ela pensou durante alguns segundos, então socou a palma da mão - Que tal se...

Hiei pulou para o grande pinheiro ao lado da varanda. Subiu alguns galhos e apoiou-se no tronco, fechando os olhos. Mas que garota mais insuportável. Sentiu o vento da noite bater em seu rosto. Paz, enfim.

- Ei, você pode me ajudar aqui? Por que conversar em cima da árvore mesmo? Ainda acho que ali era melhor, mas já que você não quer, porque morro de enjôo em lugares altos.

Ele abriu os olhos rápido, e deu de cara com Rin pendurada no galho de baixo, com um sorriso bobo na cara, tentando se erguer.

- Por que insiste nisso? - Ele perguntou, irritado - Volte pro seu quarto, garota! Não estou interessado em escutar você! Você vai cair daí!

- Se eu cair, você me resgata - Ela disse brincando, mas pelo olhar de Hiei era bem capaz dele deixar ela se arrebentar no muro lá embaixo - Quero dizer, eu não sou tão atrapalhada assim...

Mas foi só ela dizer isso que sua mão escorregou. Em uma fração de segundo, Hiei segurou seu braço antes que ela caísse. A menina olhou pra baixo, com uma gota de pânico na cabeça:

- Ai ai essa foi por pouco, muito pouco... Ai que alto...

- Sua burra. - Hiei ergueu-a com violência. Ela abraçou o galho assustada. Respirou fundo um pouco e conseguiu sentar-se, depois de muito esforço.

- É a primeira vez que subo nesse pinheiro - Ela reparou, assombrada - Tenho medo de altura, sabe? Nossa, não sabia que tinha uma vista tão bonita do céu daqui!

Dali, o céu parecia mais vasto. As estrelas brilhavam pouco por causa da cidade iluminada, mas ainda assim formavam uma cortina de pontilhados ao redor da lua grande lá em cima.

Hiei reparou nos olhos de Rin refletindo o brilho da lua. Sua pele era tão branca que aquele visual lhe dava uma aparência frágil. Seus cabelos esfoaçavam, ainda molhados, e ela sorria, feliz. Quem a visse assim jamais diria que tinha uma personalidade daquelas.

- Diz logo o que você tem a dizer e volte pra lá - Hiei encostou-se na árvore novamente, aborrecido.

- Eu vou te recompensar por ter me salvado! - Ela virou-se para ele - Adivinha?

Hiei ficou calado.

-Vou te dar um ingresso pro meu recital de piano! - Ela disse, como se fizessse uma grande revelação - Será lindo, sabe? Eu ainda não aprendi direito a música que vou tocar, mas vou treinar bastante amanhã pra não errar nada no dia... Então, posso contar com você?

- É lógico que não.

- Ora, vamos! Você vai se divertir! Pra não se sentir sozinho, também vou dar ingressos ao Yusuke, Kuwabara e Kurama! - Ela balançava as pernas, sentada no galho, animada - Sabe, a maioria dos meus amigos não se interessa muito pela minha música. Mas eu sou uma artista, preciso me dedicar.

Hiei fingia não ouvir. Estava de olhos fechados, como se a garota nem estivesse ali, mas ela não parecia ligar pro fato de estar sendo ignorada.

-... A minha mãe era uma cantora famosa de música clássica. Ela tinha uma voz muito linda, mas eu nunca consegui cantar - Ela levou a mão até a garganta, assumindo um semblante triste - Eu até tentei, mas a minha voz simplesmente não é boa. É o único sonho que não vou realizar. Fazer o que?

Ela deu uma risada e voltou à admirar o céu.

- Hiei, você tem alguém que admira?

Ele não pôde deixar de pensar nessa pergunta. Ele não conhecia muitas pessoas por quem tivesse alguma consideração, quando mais admiração.

Mas a primeira imagem que veio à sua cabeça foi a de Kurama. Claro que Hiei o achava muito tolo às vezes, mas certas atitudes de Kurama eram simplesmente assombrosas. Depois, pensou em Mukuro. Mas ele via mais em Mukuro um reflexo de si mesmo, uma alma degradada pela aversão. Não podia se considerar admirador de nenhum deles.

- Não.

- Eu admiro a minha mãe - Ela continuou - Ela era uma mulher fantástica. Se eu pudesse cantar, positivamente seria como ela. O que você quer fazer da sua vida, Hiei?

Outra vez, ele se pegou pensando na pergunta. Hiei não tinha muitos motivos pra viver. Sua existência era condicioada à luta e à morte. Viveria enquanto não houvesse um oponente para matá-lo; viveria enquanto alguém ameaçasse a vida de Yukina. Não via outras prerrogativas.

Ele ficou em silêncio.

- Eu quero ir pra Europa - Rin fechou os olhos - Minha mãe era européia. Vou fazer coisas incríveis lá. Vou tocar pra multidões. Deve ser maravilhosa a sensação de emocionar as pessoas de alguma forma. Eu me sinto mais forte quando alguém me emociona. As pessoas são grandes fontes de energia.

- Isso é uma grande tolice. - Hiei deixou escapar.

- Você acha? - Ela perguntou, surpresa - Pois eu acho que é uma grande verdade.

Hiei parou pra pensar. Não podia negar que quando Keiko estava em perigo Yusuke ficava potencialmente mais forte. Até mesmo ele, Hiei, já havia combatido por sua irmã Yukina quando ela era ameaçada ou quando faziam algum mal pra ela.

- Eu acredito mesmo que somos mais fortes por causa dos outros.

Hiei deu um sorriso sarcástico. Rin podia ser uma garota ingênua e falante, mas ele tinha que admitir que alguma coisa naquela humana mexia com ele. Principalmente aquele formigamento, que não passava desde que arrancara a toalha da cabeça dela.

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Obrigada pelas reviewsssssss! : D