"Os passos dóceis, limpos
Se vêem, se ouvem, sentem
Todos que observam;
Um homem, cego, triunfante
A dançar com a jovem deslumbrante
A música lírica e aberta
E a vida diáfana e incerta
Que se a morte chama
A vida quer dançar."
(Roberto Amorim)
Capítulo 7 - Diferente
Olhou para o rádio-relógio sobre a mesa de cabeceira, esse era sempre seu primeiro movimento após abrir os olhos pela manhã, sorriu ao constatar que eram 6:17, pelo jeito as coisas estranhas haviam parado de persegui-lo. Alongou-se um pouco na cama, fazendo alguns ossos estalarem e em seguida levantou-se, seguindo para o banheiro em seu ritual de higiene matinal, que incluía um banho gelado para despertar – o que para muitos seria apenas mais um motivo para chamá-lo de louco - e após vestir-se e pentear os cabelos, organizou sua mochila e arrumou a cama dobrando os lençóis e deixando tudo prontamente organizado para a noite seguinte.
Primeira etapa concluída, foi até a cozinha preparar um café forte para começar o dia e pegou algumas torradas e queijo para acompanhar, mas mal começou a refeição e aquele maldito enjôo voltou a aparecer, uma sensação estranha que o fez deixar toda a refeição de lado. "Você deve estar grávido, Camus!". Divertiu-se com seus pensamentos e ignorou completamente aquela situação, pensando que pelo caminho comeria alguma coisa.
Louças lavadas, tudo verificado, trancou as portas e guardava a chave enquanto caminhava, olhou para o relógio e decidiu apressar um pouco o passo ou poderia perder o ônibus, mesmo estando quinze minutos adiantado!
-oOo-
Aiolia remexeu-se na cama em um sono tão bom. Sentiu uma mão afagar-lhe os cabelos, uma mão tão delicada! Ouviu uma voz doce em seu ouvido, que falava o quanto era bonito enquanto dormia, até mesmo sentiu ser beijado. Só então se deu conta que realmente não era um sonho!
Na noite anterior, após ter saído do hotel de Milo, ligou para a ruiva oriental a qual estava totalmente caído e a levou para um jantar. Já estava tarde para um domingo e o local encontrava-se quase vazio, tornando o clima ainda mais romântico, não demorou muito para que acabassem aos beijos! Que mulher era aquela? Marin conseguia ser meiga e extremamente sensual ao mesmo tempo e tinha um beijo envolvente, estava tão difícil despedir-se que Aiolia a convidou para ver algum filme em sua casa.
No início ela resistiu, ela mal o conhecia e aquilo não pegaria nada bem, mas após insistir bastante e ouvir mil juramentos que não fariam nada demais, acabou aceitando a proposta, afinal, também queria muito ficar na companhia dele. Aiolia era muito gentil e cavalheiro, jamais a trataria de forma desrespeitosa.
E assim foi, conseguiram ver algumas cenas do filme enquanto trocavam beijos, mas nada (muito) além disso, até que uma certa hora da madrugada os dois adormeceram abraçados na cama de Aiolia, já que Marin precisaria acordar cedo, pois teria que estar na Andrômeda pela manhã para sua aula de alongamento.
– Pensei que não iria acordar!
- É que o sonho estava tão bom... Alguém me beijava!
- Assim? – Aproximou sua boca e deu um leve beijo nos lábios dele.
- Não, assim é mais gostoso!
Ficaram mais alguns minutos abraçados, até que Marin percebeu que se continuasse ali chegaria atrasada. Após uma tentativa desastrosa de preparar um café da manhã para sua garota, Aiolia decidiu que a levaria até a escola de danças e comeriam algo pelo caminho. Por sorte trabalhava a maior parte de tempo em casa, então naquela manhã quando voltasse poderia descansar mais um pouco, agora tudo o que queria era a presença dela!
-oOo-
Mu estava radiante, havia fugido do hotel após a proibição de Saga, assim ele e Shaka estavam novamente juntos, mas desta vez estavam a sós, despidos em um quarto fechado e amavam-se entre lençóis de seda brancos e juras eternas.
Os beijos afoitos despertavam desejos contidos por muito tempo, estava ficando desesperado com aquela sensação toda, abraçava Shaka de forma possessiva, desejando que logo os seus corpos se fundissem em um só. Beijava o pescoço dele com fervor querendo extrair todo o néctar daquela doce pele.
"Você é até bonitinho Mu, mas não vou me aproveitar dessa situação!"
Aquela voz... Vinha de Shaka, mas não poderia ser. Ele jamais falaria aquelas coisas em um momento como aquele e, também aquela não era a voz dele. Apertou-se mais uma vez ao corpo desejado, sentindo os braços fortes e aqueles cabelos ondulados... Espera! Algo estava errado, muito errado na verdade.
Ao abrir os olhos foi surpreendido por Milo e seu clássico sorriso travesso, pulou na cama afastando-se dele ao constatar que o "Shaka" que tanto abraçava era na verdade o seu amigo e para complicar ainda mais a sua situação estava visivelmente excitado. Com o rosto completamente corado virou-se afundando o rosto em um dos quatro travesseiros que usava para dormir lamentando-se por aquilo não passar de um sonho.
– Não é bem o rosto que você deveria cobrir! – Ria divertido, deitando-se ao lado de Mu e o abraçando pelas costas. Pegando outro travesseiro colocou-o sobre o baixo-ventre dele. – Ah, se você não fosse meu amigo agora!
- Sai-pra-lá-Milo – As palavras saiam abafadas, com um pouco de raiva e vergonha.
– Não, não! Você me acordou, me agarrou, ficou se esfregando em mim, beijou meu pescoço e agora manda eu sair? Vem cá, me dá mais beijinhos, tava tão boooom! – Provocava o ariano, dando beijos estalados pelas suas costas a fim de irritá-lo. – Se eu soubesse que você me queria tanto já teria te agarrado há muito tempo, era só pedir, Muzito!
- Mas eu não te quero, sai daqui! – Tentava se afastar enquanto o outro segurava seus braços o beijando no pescoço, atazanando-o.
– Eu até solto, mas só quando me contar com quem sonhava!
- Não estava sonhando com ninguém... Me deixa, Milo!
- Hmm, era com o Shaka?
- EI! Como sabe dele e...?
- Ahá! Pelo visto não era um ninguém... Que pena, estava com esperança que fosse eu em seu sonho. – Fingiu-se magoado – Mas a explicação é simples, você sumiu com esse cara ontem, é o seu namoradinho?
- Não te interessa!
- Como não me interessa? Se não fosse do meu interesse eu não perguntaria e, além disso... Não é todo dia que você arranja um namorado!
- Ele não é meu namorado! Nós só... Só... Só estamos saindo.
– Então confessa que estava dando uns amassos por ai ontem, né?
- Não somos como você! Só ficamos em uma praça e fomos jantar, satisfeito?
- Não! Quero nome completo, como conheceu, onde mora, telefone, número do passaporte, o que faz, características, tipo sangüíneo, peso, altura, tamanho do...
– Milo! Quer parar? Não vou te falar nada, não enche!
- Mas eu sempre te conto tudo, Muzito...
– Porque quer! E me solta logo, preciso ir ao banheiro!
- Precisa mesmo – Riu debochado – Mas só quando me contar tudo!
- Quando voltar eu falo, prometo, agora me solta!
Milo continuava a rir arteiro, soltou o ariano que imediatamente correu para o toalete, arrastando parte do edredom pelo percurso. Era divertido ver como Mu agia como uma criança crescida em algumas situações, mas estava feliz com aquilo já que ao que parecia, ele havia realmente encontrado alguém, só estava um pouco preocupado já que ouvira Saga falar sobre o tal Máscara da Morte não ser boa gente, mas duvidava que seu "irmãozinho" se envolvesse com algum mau-caráter.
Na noite anterior Mu havia se trancado no banho e quando saíra Milo já havia adormecido, mas desta vez não iria – nem queria – fugir daquela conversa, afinal, por mais desmiolado que fosse o amigo, ele era até bastante racional quando se tratava de dar conselhos ou ajudá-lo, sempre no estilo "faça o que digo, não o que faço", além disso, era o único com quem poderia contar.
Após longos minutos saiu do banheiro e sorriu para Milo, que batia levemente na cama em um convite para que voltasse a deitar, Mu atendeu e o abraçou, ficando com a cabeça apoiada em seu peito, o escorpiano sabia que com aquele gesto ele queria conversar um pouco mais sério.
– Ele é diferente de qualquer pessoa que já conheci. O encontrei quando brigamos na bienal e ele me disse que estaria lá ontem...
– Por isso a pressa para sair da casa do Aiolos e ir naquela palestra do Afrodite? – Era mais uma afirmação que uma pergunta – Ele também ficou louco atrás do Shaka, por sorte ele e o Saga já se conheciam e descobriram que vocês estavam juntos. Procuramos vocês por horas!
- Isso explica muita coisa... Fomos até uma praça e ele acabou me beijando. Eu até tentei ligar, mas meu celular descarregou. Perdemos a noção da hora e ainda fomos jantar depois. – Enquanto falava tinha os cabelos acariciados por Milo, e continuavam abraçados – Eu não sei explicar, mas senti algo especial quando estávamos juntos, muito diferente das outras pessoas com quem já estive.
– O Afrodite disse que ele era cego, é verdade? Não consigo imaginar...
– É, eu também achava estranho. Ele anda o tempo inteiro com os olhos fechados, mas estou aprendendo que existem outras formas de ver o mundo além da visão, ele consegue perceber muita coisa que eu nem poderia imaginar!
- E pretende encontrá-lo novamente?
- Claro, mas ontem quando cheguei o Saga falou que eu estava proibido de vê-lo, não sei como farei ainda, ele disse que me ligaria hoje.
– Agora entendi seu mau-humor ontem! Mas não se preocupa, você vai encontrá-lo logo!
- Mas o Saga...
– Ele não te proibiu de sair comigo, não é? Ele não precisa saber, depois eu converso com ele. – Sorriu, faria tudo pelo amigo e também seria bastante divertido ter mais alguém para perturbar além do seu carneirinho.
Aquilo estava bem interessante! Milo ouvia Mu contar, agora com um entusiasmo maior na voz sobre Shaka, que logo ele voltaria para Suécia. Como a conversa fluía entre eles, como seu beijo era bom e, muitas outras coisas que conseguiram fazer Milo não pensar em um sonho que tivera com Camus, ele havia repensado em suas atitudes e decidira começar do zero, não poderia esquecer de ligar para remarcar suas aulas após o café da manhã!
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- Tentei te ligar a tarde inteira, mas você não me atendeu!
- Esqueci o celular em casa, me desculpe.
– Queria te chamar para ir ao cinema comigo, não saímos neste fim de semana, onde estava?
- Era domingo Isaac, você sabe que tenho outros compromissos.
– Tem certeza que não estava com ele?
Camus passava pelos corredores quando ouviu a famigerada conversa entre Isaac e Hyoga, entendeu muito bem o que estava acontecendo, como Hyoga conseguia aquilo? "Juventude perdida... Olha quem fala Camus, você só tem 22 anos e está agindo como um idoso". O melhor a fazer era cortar logo aquilo ou teria mais problemas em sua aula. Notara como Shun estava sorridente e Isaac emburrado, mas Hyoga não demonstrava reação alguma, parecia ter aprendido muito mais que a dança com o seu professor. Camus quando queria era um mestre na arte da indiferença, podendo congelar qualquer um com seu olhar.
– Vamos parar de conversa e voltar para aula, acabou o intervalo e ainda temos bastante ensaio hoje!
O que mais poderia fazer? Não gostava de interferir na vida alheia, principalmente quando se tratava dos seus alunos, Hyoga deveria saber o que fazia, não cabia a ele tais ensinamentos.
-oOo-
- Então? Agora que acabou seu café da manhã vai me falar o que aconteceu?
- Não tenho o que falar, Dite... Eu conheci alguém, saímos e perdemos a hora. Agora vai me explicar porque dormiu comigo hoje e não com o carcamano?
- Brigamos ontem, na verdade eu fiquei chateado... Eu o amo, mas às vezes ele me tira do sério!
- Já sabe o que acho dele, não o suporto e é recíproco.
– Queria mandar em meu coração, Shaka, eu não gosto das coisas que o Enzo faz, principalmente com você. – Segurou a mão do primo que estava sentado ao seu lado na cama, acariciando-a – Temo o que pode acontecer com nós dois caso eu me afaste, e eu também não conseguiria viver sem ele, entrei em uma via de mão única, mas você pode.
– O que quer dizer?
- Quero que você seja feliz, não deixe sua chance passar!
- Dite...?
- Eu te conheço bem, ontem você estava com um sorriso que há muito tempo não via quando chegou. Você não pode ver as pessoas, mas sente o que elas têm no coração, se ao menos eu tivesse ouvido o que me disse no passado sobre ele... – Respirou fundo e suavizou mais a voz - Mas isso não importa mais, mesmo não querendo me falar sei que encontrou alguém especial e pelo o que sei o Mu é um bom rapaz.
– Não sei onde quer chegar com isso, mas agradeço. – Soltou a mão que o outro ainda segurava. – Mas mesmo querendo algo mais não seria possível, logo iremos embora e ele também voltará para a Grécia.
– Queridinho, o amor verdadeiro é mais forte que qualquer distância, eu e o amore vivemos afastados pelos "negócios" dele, no início também quase não o encontrava... E estamos juntos, não é?
- E você teve opção? – Falou com um alto tom de ironia – Ele praticamente disse que te mataria se você não largasse aquele grego para ficar com ele, alias, é muita coincidência o Mu trabalhar na empresa dele!
- É verdade, mas no fundo foi bom isso ter acontecido, acho que consegui acertar minhas desavenças com o Saga.
– Mas o Saga...
– É, o irmão dele, já é alguma coisa mas acho que nunca entenderão o que aconteceu... Mas vamos falar do que interessa agora. Sha, só quero que você seja feliz, aproveite! Mesmo que não seja com este rapaz, quero que comece a planejar seu futuro, você sabe que te amo, mas talvez não possamos ficar juntos muito tempo.
– Isso... Quer dizer que não posso mais morar com você?
- Não é isso, jamais diria uma coisa dessas, meu anjo. Apenas quero que siga seus próprios passos, vou apoiá-lo no que for preciso.
Shaka estava confuso com o rumo daquela conversa, Afrodite estava realmente estranho, já fazia bastante tempo que eles não conversavam de forma tão doce, o mundo do primo girava em torno do namorado, ele era apenas a poeira carregada naquele furacão, era muito grato ao sueco e jamais deixaria de estar ao seu lado, sabia o quanto precisava disso.
Foram interrompidos pelas batidas na porta, Máscara gritava para que abrissem a porta, como prometido, Dite não dormira com ele naquela noite e sim no quarto ao lado, onde estava Shaka. Gritou que já iria abrir e vestiu um roupão de seda negro sobre seu pijama na mesma cor e tecido, beijou o primo na testa antes de levantar-se e ser praticamente arrancado do quarto, pelo homem aparentemente já bêbado naquela hora da manhã. Tudo que ouviu depois foi o bater das portas e alguns gritos vindos do quarto vizinho.
Não entendia bem o amor, não aquele que sentia por seus pais ou Afrodite, mas o amor dos amantes. Todos falavam que era o melhor sentimento do mundo, mas havia passado noites e noites ao som de agressões, dores e até mesmo das lágrimas derramadas por Afrodite. Via o mesmo agir como outra pessoa quando estava ao lado daquele homem, demonstrando uma confiança e frieza fora do comum, até poderia compará-lo aos capangas de Máscara da Morte, tão diferente daquele Afrodite que quando ficavam a sós em casa, cantava para as flores em seu jardim. Era mesmo esse sentimento o amor? Amar alguém era ter que sofrer assim? Escutou a voz do primo e daquele homem, poderia apontar pelo menos dez palavras de baixo calão em cada frase. Realmente deveria ser um sentimento muito forte para agüentar aquilo tudo... Pensou em Mu, será que um dia o amaria ou seria amado? Esperava que ele não se tornasse um sádico como aquele italiano. Shaka jamais suportaria uma relação como aquela!
-oOo-
Já haviam encontrado com Saga e tomavam café da manhã juntos no restaurante do hotel, poderiam ter o feito no quarto, mas enquanto conversavam o geminiano ligou e aceitaram o convite. Trocando os pijamas por roupas mais apresentáveis, desceram se reunindo em uma das mesas do local.
– O que pretendem fazer hoje? Caminhei um pouco pela manhã e o dia está bonito, podemos aproveitar e conhecer melhor a cidade. – Saga não tocara no assunto da noite anterior, mas parecia ter esquematizado tudo para que ficasse de olho em Mu.
– Eu quero ir para aula de tango, depois podemos sair!
- Achei que havia desistido dessa idéia...
– Desistir, eu? Parece que não me conhece, Saga! Só preciso ligar para saber o horário e, você por acaso não vai sair com o bonitão hoje? – Saga olhou torto com a pergunta, mas sorriu, não podia deixar de perceber um leve tom de ironia na voz de Milo.
– Ele trabalha hoje, só nos veremos mais tarde. E você, Mu, o que quer fazer?
- O Mu vai comigo, Saga. Preciso de platéia para o meu show, vou sair daqui dançando melhor que aqueles caras, mas preciso de apoio moral! Se quiser podemos nos encontrar depois em algum lugar!
- Então querem mesmo me abandonar? É isso que eu recebo por trazê-los comigo.
– Não seja dramático, Saga. Essa função já é do Milo!
- Olha quem fala. – O escorpiano rebateu. – Só umas duas horas, não vai morrer sem a gente papai! Fiquei sabendo que aqui tem uma sauna muito boa, pode ficar um tempo por lá!
- Eu já fui...
– E porque não nos chamou?
- Você não poderia ir, Milo!
- Ahhh, então fica se agarrando na sauna do hotel e ainda teve a cara-de-pau de brigar comigo quando eu fiquei com um estagiário do Kanon no banheiro da Santuário!
- Você não poderia ir porque fui na última visita aqui e você estava na Grécia, provavelmente com outro estagiário e, gritando alto em algum outro banheiro!
- Como você exagera... – Cruzou os braços e olhou para o teto, respirando fundo.
Mu ria com as alfinetadas mútuas, mesmo sentindo-se um pouco constrangido, ainda precisava entender muita coisa no mundo e provavelmente a relação entre Milo e Saga era uma das mais complexas.
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- Acorda Gatinho!
- Que tu quer essa hora, Milo? – Falava ainda bocejando.
– Já são meio dia! Levanta logo essa bunda bonitinha da cama!
- Pô Milo, desde quando fica olhando se certas partes do meu corpo são bonitas?
- É mais forte que eu, meu caro! Agora levanta logo, vamos sair! Preciso da sua ajuda hoje! Acorda logo...
– Já tô acordado, fala logo, seu inseto insignificante!
- Assim parte meu coração! Mas é o seguinte... Acabei de ligar para o Albiore e marquei uma aula com o ruivinho hoje a tarde, 14:00 e você vai comigo, vou precisar de você depois e enquanto eu estiver na aula pode ficar com a Marin!
- Hmm, você sabe como me convencer, mas e o Mu? Brigaram novamente?
- Não! Mas é com ele que você vai me ajudar, ele está lá embaixo no telefone com o tal do Shaka e devem se encontrar, então quero aproveitar e fazer uma surpresinha para ele. É o seguinte, você conhece alguma...
Continuaram a conversar e Aiolia ouvia atentamente os planos de Milo, ele era realmente um louco, mas aquilo poderia ser até divertido e teria mais uma desculpa para encontrar a Marin sem parecer grudento e, pelo jeito Milo também não havia desistido do Camus, mas desta vez parecia mesmo estar mais preocupado com o amigo.
Desligaram o telefone e o leonino foi logo tomar um banho e comer alguma coisa antes de encontrá-los no hotel. Conheciam-se há poucos dias, mas já pareciam amigos de longas datas, aquele maluco era mesmo cativante e também havia gostado bastante de Mu, apesar deste ser mais fechado.
-oOo-
Mu estava ansioso com aquilo tudo, havia combinado com Shaka que se encontrariam no hotel dele e poderiam passar algum tempo juntos enquanto Milo iria para a sua aula de dança. Aiolia passara para buscá-los alegando que daria carona para eles já que estava indo ver Marin no mesmo lugar onde Milo iria. Mu nem ao menos percebeu que não passava de uma desculpa esfarrapada e que o escorpiano estava aprontando alguma.
– Fica atento ao celular dessa vez, qualquer coisa te ligamos, logo voltamos para te buscar e qualquer problema liga para mim ou o Gatinho!
- Pode deixar, qualquer coisa me avisem também, vou esperar vocês, acho que não vamos sair daqui, mas se acontecer não iremos muito longe! – Saia do carro de Aiolia enquanto ouvia piadas dos amigos sobre "não sair e ficar trancado no quarto fazendo coisas mais interessantes"
Foi até a recepção e anunciou-se, tomando então o caminho indicado para o quarto de Shaka. O hotel que o loiro estava era igualmente luxuoso, embora em um estilo mais clássico se comparado ao Faena, mas também era um dos cinco estrelas naquela cidade. Só agora percebia o que estava fazendo, iria ficar sozinho com ele em seu quarto. Sua imaginação naquele momento foi capaz de produzir imagens que o fizeram corar, ainda mais com a lembrança das piadas que os amigos lhe lançaram antes de sair do carro, mas não poderia ficar com aquilo na cabeça, o que Shaka pensaria dele? Não demorou até encontrar o número 405, deu três batidas na porta antes de ouvir o som do destrancar da maçaneta, pouco antes de ser enfeitiçado por uma visão dos deuses.
Shaka tinha os cabelos molhados, caídos e colados sobre o tórax nu, apesar de esguio tinha um corpo bem moldado, era muito bonito, ele vestia uma calça branca larga e tinha os pés descalços. Mu ficou apenas observando, jamais pensou que o encontraria daquela forma, se já estava vermelho antes, agora a situação se tornara um pouco pior.
– Você chegou rápido, acabei de sair do banho! – Sorriu e afastou-se apenas o necessário para que o outro entrasse no quarto.
– Eu... – Mu ainda estava sem palavras e ainda olhava encantado para aquele à sua frente enquanto entrava.
– Não fala nada...
E tudo que se ouviu foi o bater da porta. Mu sentiu suas costas tocarem a parede e em seguida o corpo do outro apertar o seu contra ela, abraçaram-se enquanto os lábios se perdiam naquela sensação doce e as línguas travavam uma incansável batalha.
Afastaram-se apenas quando o ar estava em falta, Shaka beijava a orelha de Mu enquanto este passava seus dedos pelos cabelos molhados, ficaram naquele abraço enquanto deixavam as mão passearem pelo corpo um do outro.
– Não vai se meter em confusão estando aqui? – Perguntava enquanto tinha seu ombro beijado delicadamente por Mu, que se dirigia ao pescoço dele.
- Não... Precisava te ver... O Saga me viu sair com o Milo e o Aiolia, mas não sabe que estou aqui, só não posso demorar muito. – Distribuiu mais alguns beijos antes de voltar a falar. – O Milo disse que conversaria com ele ainda hoje, talvez mais tarde possamos nos encontrar novamente...
– Vamos então aproveitar o tempo que temos – Caminhou até sua cama seguido por Mu e, unidos pelos dedos entrelaçados, Shaka sorriu internamente ao perceber como o outro estava com a mão trêmula.
O ariano por sua vez apenas se deixava levar, enquanto observava atentamente os movimentos dele. Estava encantado pela forma que mesmo sem conseguir enxergar, movia-se naquele lugar sem problema algum, o quarto era bastante amplo e confortável, e naquele momento era iluminado apenas por uma pequena abertura na cortina da porta, que dava acesso a uma varanda privativa, apesar de não iluminar muito era possível ver bem tudo ali.
Aproximaram-se da cama e o loiro fez com que ele sentasse, mas ao contrario do que esperava afastou-se e foi em direção ao seu guarda roupa. Mu olhava atentamente agora a figura de costas para si, aqueles contornos eram mesmo encantadores! Pegou a camiseta azul claro que estava no primeiro cabide, suas roupas eram organizadas por Afrodite que criara todo um método para que ele não tivesse problemas em vestir-se sozinho e, ao mesmo tempo não sair nas ruas com nenhuma combinação ridícula, certo que o sueco era extravagante além das contas, mas quando se tratava do primo cuidava para que suas roupas fossem discretas e de bom gosto.
Vestiu a camiseta e em seguida abaixou-se, pegando uma sandália simples e calçando-a e depois, em outra porta, pegou sua escova de cabelos e terminou de arrumar os fios já desembaraçados e borrifou um perfume amadeirado em sua nuca. Particularmente não gostava muito dos perfumes, interferiam um pouco no seu olfato nas ruas, mas estava com Mu e sentia vontade de usá-lo. Após terminar de se vestir, foi até a cama e beijou aquele garoto de madeixas roxas mais uma vez.
– Vamos sair?
- A não ser que você não queira...
– Eu quero, não é isso... É que como você se vestiu assim...
– Hmm, preferia que eu ficasse sem roupas, Mu?
- NÃO! Não foi isso que quis dizer, não leve a mal, por favor! – Disse agitando as mãos na frente do corpo, quase tropeçando nas palavras.
Dessa vez Shaka riu alto, o jeito inocente e quase infantil de Mu o fascinava e mesmo sem perceber se apaixonava mais a cada minuto que passava com ele.
– Estou brincando, seu bobo! Só preciso avisar ao Afrodite antes de sair e falar que estou contigo, pensei em ir até um café aqui pertinho, tem alguns doces maravilhosos e eu sei como você gosta!
Após ligar para o quarto ao lado, deixando claro com quem estava e que Saga não poderia saber que Mu estava lá, trocaram mais alguns beijos antes de finalmente sair, pegando sua carteira e a chave cartão, deram as mãos e Shaka deu as coordenadas para que Mu os guiasse até o café que ficava no outro quarteirão.
-oOo-
- Camus, o Senhor Milo já chegou.
– Obrigado Shina, peça para que ele me espere na sala da aula anterior, vou chamar June e logo subimos também.
Ficou um pouco surpreso quando soube que aquele grego havia marcado novas aulas. Depois do acontecido, imaginou que desistiria daquela idéia maluca, mas o que poderia fazer agora? Era seu trabalho e precisava disso, o difícil seria encará-lo novamente!
Foi até a sala onde June se despedia das crianças de sua turma de ballet, ela adorava ser responsável por essas aulas, já Camus não tinha a menor paciência para tal.
– O seu amiguinho chegou, preciso da sua ajuda agora!
- O Milooo? – Sorriu de orelha a orelha.
– O próprio, falando nisso, Ju... Não acha que foi muita coincidência, no dia que você me insiste para sair ele aparecer justamente no mesmo lugar?
- Pois é Cam, também fiquei muito surpresa, acho que é o destino! Agora vamos subir logo... – Sorriu e caminhou em passos rápidos na sua frente fugindo do assunto.
Agora tinha certeza de que realmente tinha dedo da loira naquela história, o mundo realmente conspirava contra ele!
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- O que está fazendo aqui, seu louco?
- O Milo pediu para que acompanhasse ele na aula hoje...
– Não pedi, ele disse que queria te ver!
Os dois subiam a escada quando encontraram Marin, Aiolia ainda estava com um ar de bobo, já que a viu usando apenas um colant de mangas curtas preto um pouco decotado e uma meia calça clara, além das sapatilhas beges. Não disfarçou o olhar sobre o corpo dela e somando ao comentário de Milo a garota ficou visivelmente envergonhada.
– Não, Marin! Não liga para o Milo e... Tá, ele me convidou, mas só aceitei para poder te ver! – Ela sorria ao ver que ele também estava sem jeito.
– Ahh, pena que vai para a aula dele, eu tenho algum tempo livre agora...
– Nãããão! Imagina, Marin! Eu faço questão que aproveitem enquanto eu danço um pouquinho!
E sorrindo os dois desceram abraçados até a recepção, onde poderiam passar mais algum tempo conversando e trocando alguns beijos.
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Milo andava em círculos pela sala quando Camus e June entraram. A garota já foi correndo e deu-lhe um abraço e um beijo no rosto, que retribuiu da mesma forma, já o ruivo mantinha sua postura fria e não o encarava nos olhos.
– Boa tarde Milo, não achei que continuaria suas aulas, mas como já está aqui podemos começar com um aquecimento, June pode ligar o som, por favor? – Sempre direto ao assunto.
- Ok!
- Milo, vamos alongar um pouco e revisar a aula anterior, se estiver bem te passo algum movimento novo.
– Tudo bem, Camus...
Achou estranho, Milo apenas sorriu educadamente, não soltou nenhuma piadinha e ainda falou seu nome corretamente? Talvez apenas esperasse uma situação melhor para aquilo, ignorou o ocorrido e continuaram o aquecimento sem conversar, exceto por algumas palavras trocadas entre o grego e June sobre o que ele estava achando da cidade.
– Ainda lembra do que aprendemos na aula passada, Milo?
- Acho que sim, andamos para trás e frente e também para os lados, depois foi o passo básico.
– Exato, vou pôr uma música e vamos revisar tudo.
Camus foi até o som e escolheu outra música para que praticassem, mas quando voltou a olhar para eles, Milo estendia a mão para June e começava a conduzi-la, seguindo os movimentos aprendidos na aula anterior. Aquele parecia outra pessoa e não mais o grego irritante. Ele estava gentil e parecia se esforçar para fazer os movimentos corretamente enquanto a loira o orientava, chegou a pensar que talvez ele estivesse constrangido por aquele beijo, mas não mostrava ser o tipo que se importaria com aquilo e também, não teria voltado a freqüentar as aulas se essa fosse à questão. Resolveu então tentar conversar, se havia algo que Camus detestava era não entender o que se passava em algum ambiente, talvez Milo estivesse esperando a oportunidade de atazaná-lo.
– O seu amigo não quis vir hoje? – Perguntou como quem nada queria.
- O Mu que estava na aula passado está um pouco ocupado hoje, quem veio foi o Aiolia mas ficou conversando com a Marin e... Ai, desculpa, June! – Havia de distraído enquanto respondia e pisou no pé da garota, perdendo o tempo dos passos na dança.
– Não foi nada, continue que está indo bem... Mas que fofo ele vir aqui! Ela me contou que passou a noite com ele e que o Aiolia é um verdadeiro cavalheiro!
- Ele é um cara legal mesmo e olha que mal nos conhecemos...
- Acho que aquilo vai dar namoro! – June torcia pela amiga.
– Eu também acho, ele só falava dela hoje, deve estar apaixonado... - "Ele, e até o Mu... só você não se apaixona, isso não é para você!" Completou em pensamentos, sorrindo um pouco, não conseguia se imaginar amando alguém.
Conversaram mais enquanto treinavam, Camus estranhara aquilo, sem piadas, sem apelidos, daquela forma Milo parecia até simpático, mas ainda conseguia perceber aquele sorriso nele, sabia que não poderia se deixar levar por um lobo em pele de cordeiro, só podia esperar para que ele mostrasse as garras novamente... Só não sabia ainda como encarar novamente aqueles olhos.
A aula fluía muito bem, Camus admitia que Milo realmente levava jeito para a dança, era uma pena que ele só estava ali para se divertir um pouco, pois se levasse aquilo a sério seria um bom dançarino, ele era sensual, mantinha a postura e o principal, ele tinha ritmo e mantinha o tempo na dança.
June também estava gostando do desempenho dele, fazia bem os movimentos e a conduzia de forma suave e firme. Os dois até brincavam um com o outro, mas ela também havia reparado que Milo não fazia brincadeirinhas com Camus como na aula anterior, conversavam, mas apenas o necessário para o desenvolvimento da aula.
Após fixar bastante os movimentos aprendidos, Camus passou a ensinar para Milo a técnica do movimento que aprenderiam em seguida, o ocho. O passo recebia aquele nome já que o movimento da dama com os pés era algo parecido ao algarismo 8. Começariam com o mais simples, mas em alguns casos era um movimento bastante complexo e com um belo efeito na dança (1).
Camus ensinava como o cavalheiro deveria conduzir e estar com o peito colado com a dama, já que por ali indicaria a direção, falava também o quanto deveria dar estabilidade para ela enquanto o executasse. June havia aproveitado enquanto Camus dava suas explicações para pegar um pouco de água, deixando assim os dois a sós.
- ... E para finalizar você pisa aqui e abraça um pouco mais a dama para avisar que encerrou, ou pode continuar com os ochos, conseguiu entender?
- Acho que sim – Milo repetia os passos ao lado dele, só não entendi bem como começar...
– No passo básico, quando levar a dama ao lado, assim, faça comigo – Era tão natural às vezes ter que demonstrar algo a um aluno que só percebeu o que havia dito quando abraçou Milo e finalmente olhou em seus olhos.
Foi inevitável que se encarassem por algum tempo, não faziam aquilo desde que trocaram aquele beijo. Milo também sentiu um ar frio subir-lhe pela espinha, como se algo no olhar de Camus provocasse aquilo, até que o lado racional do aquariano o chamou de volta.
– Bem, enquanto a June não volta tente fazer comigo, comece o passo básico. – Milo obedeceu e os corpos começaram a moverem-se juntos. – Lado, frente, diagonal, agora você entra no passo, a dama faz a volta para um lado, para o outro e você termina.
Falava enquanto moviam-se, era tudo de forma lenta já que ele precisava aprender como funcionava, mas quando terminaram Milo lembrou-se muito bem sobre "abraçar mais forte" e puxou Camus para si, sorrindo.
– Assim ficou bom? - Falou quase em um sussurro próximo ao ouvido do francês.
- ... – Estava demorando para que Milo tentasse algo, mas porque não se incomodava desta vez?
- Camus? – Já estava começando a contar vantagens, sabia que o francês estava gostando, pelo jeito à tática nova estava funcionando.
- ... – Deveria ser o perfume dele, ou estar abraçado a aquele perfeito corpo digno de um legítimo grego, mas porque sentia algo estranho e as pernas falharem?
- Camus? Fui tão mal assim? – Afastou-se um pouco dele, vendo que ele estava mais pálido que o normal e começava a suar frio. Viu o outro piscar forte os olhos e afastar-se também.
– Foi bem, Milo... Continue praticando... Em frente ao espelho... Vou pôr uma música.
Camus falou devagar e cortando a frase, Milo achou estranho, não esperava aquela reação, mas comemorou internamente, pelo jeito bancar o bom moço havia funcionado perfeitamente, até deixou o querido professor sem palavras.
O ruivo aproximou-se da pequena estante onde ficava o som e os CDs e colocou uma música. Apoiou as mãos em uma prateleira na altura do rosto e encostou a cabeça sobre elas, não estava entendendo o que acontecia, porque estava sentindo aquele enjôo novamente? E porque se sentia fraco? E porque as coisas em volta começavam a ficar escuras?
Milo praticava como fora mandado, mas observava pelo espelho o que o francês fazia, mas não entendeu como ou por que ele encostava-se à parede e deixou as costas escorregarem por ela, até ver o corpo dele cair deitado no chão.
(1) No Brasil é chamado também de "S", É um movimento do tango, mas também usado no bolero e até formas adaptadas para outras danças como o samba de gafieira e a salsa.
N/A: Como prometido este saiu bem rápido... Finalmente o reencontro e o próximo também não vai demorar!
Quero agradecer as reviews do capítulo anterior: Leo no Nina, Lysley Almada2, Nath Dragonessa, Naya Yukida, La Francaise, Theka Tsukishiro, DW03, graziele, Lyta Moonshadow, Mussha e Haina Aquarius-sama. Obrigada queridas!
Beijos em dobro para Theka, que mesmo atolada betou mais um capítulo e a Nath que vem me ajudando bastante nos últimos dias, adoro vocês, obrigada por tudo!
"Diferente" é uma música do Gotan Project.
Obrigada a todos que estão acompanhando, fiquei feliz em ver na ferramenta nova aqui como tem pessoas em vários países diferentes lendo a fic! Mas apareçam, deixem reviews, sugestões e críticas (construtivas)... É muito importante para mim saber a opinião de vocês para continuar com a fic, não mordo, juro!
Beijos e até o próximo!!
Lhu Chan
Agosto/2008
