- Bom dia, Hiei! - Ele ouviu uma voz estridente e abriu os olhos lentamente. Virou a cabeça e viu Rin acenando da varanda, feliz da vida, usando o uniforme escolar.
- Hm?
Ela virou-se e voltou a entrar no quarto. Alguns minutos depois, ele a viu surgir na porta da entrada com um homem alto que tinha algo de muito parecido com ela. Os dois acenaram para alguém dentro de casa e entraram num carro estacionado em frente, dando partida.
Ele piscou algumas vezes pra claridade. Seria um longo dia.
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- Ai minha santinha, ferrou tudo pro meu lado! - Koenma andava pela sala com as mãos na cabeça, em círculos - Oh filho de cruz credo, cadê você?!
- To aqui Senhor Koenma, to aqui! - George apareceu tão frenético quanto o chefe, segurando uma pilha de papéis.
- Pode largar isso aí que não tô com tempo pra papelada - Disse Koenma, inquieto - Já teve alguma informação sobre o portal clandestino?
- Temos algumas informações, Senhor! - Assentiu George, soltando os papéis em cima da mesa - Existe um tipo de ilusão perto do local suspeito... Tudo indica que é uma espécie de masmorra onde quem tem o controle é um youkai poderoso chamado Shiroi!
- Shiroi? Caramba, então essa invasão tá vindo do mundo dos exilados! Eu sabia, provavelmente ele está planejando um ataque em massa ao mundo dos homens! Já sei, manda chamar a Botan. Vou falar pra ela passar um recado pro Yusuke, Kuwabara, Kurama e pro Hiei também. Tá na hora de tomar uma atitude decente, preciso de gente forte pra dar conta do recado. É até bom que aqueles quatro tavam muito na bonança e...
- Mas Senhor Koenma, eles têm que ficar no mundo dos humanos pra cuidar dos monstros que estão passando pro lado de lá!
- Oh meu filho, tá achando que berimbau é gaita? Quem foi que disse isso? - Irritou-se Koenma, enfiando o dedo na cara do demônio azul - Quem deu essa ordem idiota, afinal?
- F-Foi o Senhor!
- Que? - Ele hesitou por um momento. - Oh seu estrupício, quem te perguntou alguma coisa aqui? Tá querendo levar uma bifa é?
- M-Mas Senhor!
- Manda chamar a Botan de uma vez, anda, me obedece, vai vai!
Koenma saiu chutando um relutante George. Tinha que resolver o que faria agora. Com monstros passando para o mundo dos humanos e com um portal clandestino aberto no mundo das trevas, ele teria que dar um jeito nisso logo.
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- Você espera mesmo que eu acredite nessa história, Minamoto? - A Senhora Harumo soltava uma língua de cobra pra cima de Rin no meio do corredor.
Rin andava à passos largos, com a diretora no seu encalço.
- Eu estou falando sério, Senhora Harumo, a minha detenção caiu no liquidifador e... Oh puxa vejam só que horas são, melhor eu correr pra aula né? Fui! - A menina saiu correndo com os membros rígidos deixando uma fumacinha pra trás.
- VOLTE AQUI! Se pensa que só porque seu pai não assinou eu vou te privar de cumprir seu castigo...
Rin entrou na sala cambaleando. Uma colega de classe se aproximou.
- Você está bem, Rin?
- Nada bem, o que aquela mulher pensa que tá fazendo?! Eu passei por maus bocados quando perdi aquela detenção, nem foi culpa minha! Queria ver ela acuada por youkais fedorentos e... e... - Rin decidiu que tinha que começar a controlar a própria língua. Olhou para o lado sem graça, e deu de cara com Keiko.
- Não se preocupe, o Yusuke já me falou sobre a sua situação! - Keiko sorriu, com uma gotinha na nuca.
- Jura? Que alívio...
- Sabe, vocês dois são bem parecidos. - Disse Keiko com uma risadinha.
- Que é que vocês duas tão conversando aí, ein? - Yusuke surgiu por trás de Keiko, com as mãos nos bolsos.
- Oi Yusuke! - Rin acenou, animada.
- E aí, Rin, beleza? - Ele retribuiu o aceno.
- Que é que você tá fazendo aqui, ô Yusuke? Que milagre é esse te ver na sala? - Perguntou Keiko.
- Vê se me erra garota, por que tá tão impressionada? Eu estudo aqui, sabia?
O sinal bateu e eles tiveram que voltar aos seus lugares. Logo na segunda aula Yusuke desmaiou em cima da carteira, roncando de boca aberta. Keiko estava vermelha de raiva. Sentada ao lado da janela, Rin não estava prestando muita atenção no que o professor dizia.
-"Que saco..." - Sentiu os olhos penderem por um instante. Não havia dormido direito pensando em Hiei do lado de fora, espreitando sua varanda. Não sabia porque aquilo a incomodava de alguma forma; na prática, não parecia nada demais.
Ela apoiou o rosto em uma das mãos, girando uma caneta entre os dedos. Olhou para o lado de fora observando as nuvens e a manhã de sol.
-"Como pode existir um Mundo das Trevas? Isso parece tão absurdo..." - pensou, mordiscando a ponta da tampa - "Um lugar cheio de monstros, uh? Monstros como o Hiei?"
Imediatamente veio à sua mente um campo vasto cheio de youkais invocados com faixas na cabeça vagando debilmente, grunindo coisas como "Groowff seus vermes patéticos e imprestáveis..."
- Hihihi...
Ela continuou observando o pátio do lado de fora com o pensamento perdido. Ela não devia ficar tão neurótica. Tinha pessoas ajudando, não tinha? Hiei disse que cuidaria dela. Tudo bem que ele estava sob livre e espontânea pressão. Tudo bem que ele não a suportava e que ela havia dado uma cabeçada nele. Mas ainda assim, ele estava.
Incrível como aquela aparência não condizia com seu caráter frio e arrogante. Aqueles olhos vermelhos, apesar de tão gélidos, pareciam esconder uma grande peso. Uma grande dor, talvez. Ele estava sempre mau-humorado, com aquele semblante impaciente, aqueles cabelos espetados de ponta cabeça...
Ponta cabeça?
Ela quase gritou, mas conseguiu se controlar. Porém, desiquilibrou-se da cadeira e caiu fazendo um barulhão. Todos os rostos da sala se viraram para ela, menos o de Yusuke, que ainda estava dormindo.
- Srta. Minamoto? Algum problema? - O professor perguntou, piscando.
-N-Não, nenhum problema não. - Ela voltou à se sentar, rindo bobamente - Eu só levei um tombo.
- Preste atenção na aula.
-Sim...
Ela tentou disfarçar, mas Hiei voltou à aparecer na janela ao lado, de cabeça pra baixo, encarando-a.
- O que você quer aqui? - Ela perguntou baixinho, por baixo da fresta - Quase tive um negócio agora!
- Preciso falar com Yusuke e Kuwabara. - Disse Hiei, com os cabelos balançando pra baixo.
- Shhhhhhh! Fala baixo! Sabe, não é comum pessoas dependuradas do lado de fora das salas de aula!
- Eu preciso falar com aquele inútil agora. - Hiei reparou em Yusuke desacordado no canto oposto da sala.
- Depois da aula vocês se falam - Ela deu um soquinho na janela, onde estava o nariz de Hiei - Não pode ser algo tão grave que não possa esperar mais um pouco.
Mas Hiei já havia sumido de vista. Rin suspirou, soltando uma fumacinha. Não podia ficar tão dispersa com o primeiro que aparecia com a cara na janela. Tinha que se concentrar se quisesse melhorar suas notas! Hiei que procurasse Yusuke e Kuwabara mais tarde.
- Isso aí! - Ela curvou-se sobre os livros, decidida, voltando a prestar atenção no professor.
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- Como é que é, Botan? - Kurama pareceu surpreso.
- Isso mesmo que você ouviu. - A guia espiritual estendeu o indicador, explicando - Esses monstros na verdade estão passando pra cá por um portal aberto no mundo dos exilados...
Hiei, com as mãos nos bolsos, estava do lado de fora do colégio de Yusuke com Kurama e Botan ao seu lado. Estava bem saitsfeito com as notícias; pelo jeito eles teriam que lutar e tudo o que ele queria no momento era uma ocupação.
Vários estudantes começaram a sair da escola, conversando aos grupos, tomando o caminho de casa.
- Mas essa Keiko é mesmo muito chata e... Ih, olha lá! É a Botan! OI, BOTAN! - Yusuke apareceu no meio da galera com Kuwabara e Rin ao seu lado, acenando para o pequeno grupo - Hiei, Kurama!
- Ih, é mesmo, são eles! - Percebeu Kuwabara - Vamos, Urameshi, vamos até lá!
A menina foi na cola dos dois até que eles conseguiram alcançar os outros três. Ela abriu um enorme sorriso para Hiei.
- Falei com pro Yusuke que você queria bater um papo com ele! Mas ele parece não gostar muito de ficar de cabeça pra baixo...
Hiei olhou para ela interrogativo.
- Essa menina não bate muito bem da cabeça - Yusuke deu um cascudo de em Rin - O que você queria, ô baixinho?
- Pare com essas brincadeiras, Yusuke, é algo sério. - Hiei rebateu, sem paciência.
- O Hiei tem razão, estamos com problemas... - Começou Kurama, mas foi interrompido por Botan.
- Oh, olá! Eu sou Botan! Então você é a Rin, a donzela secreta do Hiei? - Ela aproximou-se de Rin com os olhos arregalados.
- Como é que é?! - Hiei apontou para Botan ameaçadoramente.
- Acho que sim! - Rin sorriu, animada.
- Fique calada! - Ele virou o dedo para Rin.
- Gente, gente! Vamos nos concentrar - Kuwabara ergueu os braços - O negócio é sério ou não é?
- Oh é, vocês tem razão! - Botan socou a palma da mão - Eu tenho que levá-los pro templo da Mestra Genkai agora mesmo!
- Caramba, já vi que a parada tá sinistra, vamos nessa então. - Disse Yusuke, empurrando todo mundo.
- Posso ir? - Perguntou Rin, vendo que eles começavam à andar.
- Não! - Disse Hiei, que já estava lá na frente.
- Sabe o que é, Rin, é que dessa vez eles têm algo pra fazer... - Disse Botan.
- Mas se vocês vão ficar fora... - Rin desesperou-se, sacudindo os braços - E-Eu posso ser atacada de novo! Como eu faço?
- Ei, Botan, acho que ela pode vir com a gente, não? - Kurama parou, olhando para trás.
- Não, ela não pode. - Disse Hiei de novo, irritado porque os outros também paravam.
- Bem, Kurama, de certo modo ela foi atacada por causa da sua energia espiritual, e se vocês não estiverem por perto ela não terá como se defender... - Pensou Botan, com a mão na bochecha.
Rin ficou receosa. Não queria dar trabalho praquelas pessoas. Ela tinha que deixar de ser medrosa. Respirou fundo, acalmando-se.
- Não, não, deixem pra lá! Podem ir, eu me viro. - Ela riu, tentando parecer tranquila. - Não tem problema, foi só uma possibilidade e...
- Ah qual é, é claro que ela pode vir! - Yusuke colocou a pasta nas costas, abrindo um sorrisão - É bom que ela fica lá no templo com a mestra em segurança!
- Acho que o Urameshi tem razão, lá eu poderei protegê-la. - Disse Kuwabara sabiamente.
- Vocês estão loucos, essa garota só vai atrapalhar, ela já se envolveu demais com essa história. - Hiei deu as costas para eles, seguindo para o templo fulo da vida. - Quer saber? Façam como quiser!
- Então eu posso mesmo ir? - Rin ergueu os olhos hesitante. Não sabia se eles estavam apenas sendo gentis.
- Ah, pode sim, pode sim! - Botan abanou a mão, decidida - O Yusuke tem razão, você vai ficar mais segura lá do que transitando por aqui!
- Ah, que bom! - Rin correu ao encontro deles aliviada, tirando o celular da bolsa - Prometo que não vou dar trabalho, vou ficar quietinha. Então vou ligar pra papai avisando que não voltarei pra casa...
Ela parou.
- Que foi, Rin? - Perguntou Botan, piscando.
Rin tinha tensões na cabeça.
- Eu tinha aula de música hoje...
- Caramba. - Fez Yusuke, coçando a nuca - Bom, você quem sabe e...
- BAH deixa pra lá! - Ela voltou a correr ao encontro deles. Entre a vida e a música, ela preferia a vida, e a premonição de ser atacada no caminho pra escola de piano não era nada, nada legal.
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- E essa daí, quem é? - Genkai virou-se para Rin, que ergueu os dedos em sinal de vitória.
- Rin Minamoto, muito prazer, Mestra Genkai. - Rin se perguntava como uma velhinha daquelas podia ser uma mestra. Afinal... Mestra de que?
Ela imaginou Genkai de óculos e uma vareta de professor, dando aula de matemática para uma turma cheia.
- Isso parece meio improvável... - Murmurou para si mesma.
- Ce disse alguma coisa, Rin? - Perguntou Yusuke.
- N-não, nada não!
- Sejam bem vindos. Vamos entrar, o assunto é sério. - Eles seguiram a Mestra para dentro do Templo. Dentro da sala havia uma mesa cheia de comida.
- Ah, como Deus é bom, eu tava mesmo morrendo de fome, já tava pensando que íamos ficar sem almoçar! - Sem delongas, Yusuke sentou-se arrancando uma gorda coxa de galinha de um frango.
- Urameshi, seu sem educação! - Disse Kuwabara erguendo o punho.
- Kazuma!
Kuwabara arregalou os olhos, virando-se. Imediatamente seu rosto ficou vermelho como um tomate, e lágrimas de alegria escorreram por seus olhos, enquanto um coraçãozinho subia sua cabeça.
-Yukina, meu amor! Você está aqui!
- Sejam bem vindos! - Yukina abriu um sorriso doce. Acabara de aparecer na porta, segurando uma bandeija nas mãos.
Hiei olhou para ela com o canto dos olhos. Pelo jeito, sua irmã continuava a mesma de sempre. Sentiu um alívio ao ver que não havia nada de errado com ela.
- Olá, Yukina! - Cumprimentou Botan, animada.
- E aí, Yukina, beleza? - Yusuke ergueu o polegar sem se virar, ainda devorando o frango, enquanto Kuwabara segurava as mãos da youkai do gelo explodindo de alegria.
- Kurama, quem é ela? - Perguntou Rin para o ruivo ao lado, tapando a boca com a mão.
- Essa é a Yukina. - Kurama fechou os olhos, sorrindo - Eu não deveria te dizer isso, mas pra que não fique com ciúmes, ela é a irmã do Hiei.
- C-ciúmes? - Rin corou, depois balançou a cabeça - P-Peraí, irmã? Ele tem uma irmã?
Ela virou-se para ver Yukina, que agora tinha um sorrisinho gentil no rosto enquanto Kuwabara segurava suas mãos.
- Como pode? - Rin criou uma gota - Não tem nada a ver...
- Shhh, fale baixo! - Recomendou Kurama - A Yukina não sabe disso... Hiei prefere que ela não descubra.
- Que coisa mais sem sentido! - Ela surpreendeu-se.
- É melhor vocês comerem mesmo, porque provavelmente não voltarão pra casa. - Genkai sentou-se ao lado de Yusuke - Sentem-se, por favor.
Todos se sentaram, menos Hiei, que ficou num canto da sala, encostado na janela, seguindo Yukina com os olhos enquanto ela servia canecas para todos. Rin comprimentou a youkai com um sorriso e virou-se para ele, dando uma piscadela. Em seguida ergueu os dedos e novamente simulou uma câmera fotográfica, fazendo barulho com a boca como se tirasse uma foto dele. Hiei fechou a cara.
Depois que eles terminaram de comer, Yukina tirou a mesa. Então Botan se levantou, tirando uma tela de dentro da bolsa que trazia e colocando-a no centro da mesa. A tela chiou um pouco, e logo em seguida Koenma apareceu sentado em sua sala com George ao lado.
- Oh estrupício, esse negócio tá ligado? - O dedo de Koenma veio em direção à tela impaciente.
- Senhor Koenma, estamos aqui! - Disse Botan, enquanto todos se aglomeravam ao redor da tela - Está escutando?
- Oi, Botan, é você?! Puxa que alívio, tá todo mundo aí? - Koenma encostou-se na cadeira, enquanto George dava um alôzinho - Então todo mundo presta atenção aqui que eu tenho novidade, e não é coisa boa não!
- Nossa, que fofo! - Rin não se conteve - Quem é esse?
- É o Senhor Koenma - Disse Yusuke - O manda chuva do pedaço.
- Esse menininho? - Ela surpreendeu-se.
- Ô menina, mais respeito, olha com quem você tá falando! - Respondeu Koenma impaciente - Eu não vou falar duas vezes, então escutem bem...
Koenma sumiu e na tela apareceu a foto de um youkai com um sorriso maligno, de olhos vermelhos e pele azul. A voz de Koenma começou à explicar:
- Esse é Shiroi, um youkai poderoso que mora numa fortaleza na terra dos exilados. É um território à parte do mundo das trevas que fica sobre o controle do Mundo Espiritual, onde ficam os monstros condenados por pequenos crimes. - Explicou Koenma - Infelizmente esse adquiriu uma força fora do comum enquanto esteve preso. Quando tentamos encontrá-lo para tirá-lo de lá, não conseguimos.
- Por que não? - Perguntou Kuwabara.
- Ele desenvolveu poderes ilusórios. As masmorras em que ele habita são um lugar de difícil acesso, por ele ser um monstro habilidoso em criar ilusões. É ele quem está abrindo passagem pros invasores do Mundo dos Humanos!
- Mas Senhor Koenma, isso é muito perigoso! É igual ao portal que Sensui quis abrir? - Perguntou Botan, preocupada.
- Não, não, Botan, benzadeus, ave maria, claro que não! - Disse Koenma balançando-se na cadeira - Como é um território controlado pelo Mundo Espiritual, os monstros de categoria A e B não têm acesso ao local... Infelizmente - Koenma suspirou - Shiroi subiu de categoria sem que nós pudessemos fazer nada.
- Mas afinal, qual o interesse desse cara em ficar mandando monstrinhos pra cá? - Perguntou Kuwabara.
- Ô meu filho, deixa eu terminar - Continuou a voz de Koenma - Shiroi tem planos de dominar o mundo dos homens com uma invasão em massa, usando os monstros fracos da Terra dos Exilados para espalhar terror.
- Caramba, que problema! - Botan arregalou os olhos. - Que monstro mais terrível!
- Eu acho ele bonitão. - Observou Rin, fazendo com que os outros criassem gotas na cabeça.
- Então esse é o desgraçado - Comentou Hiei. - Tudo o que temos que fazer é encontrar o seu esconderijo e destruí-lo, é isso?
- Exatamente. - Fez Koenma - Pra isso estou abrindo um portal pra Terra dos exilados aí no templo da Genkai. Yusuke, Kurama, Hiei e Kuwabara, vocês irão atrás de Shiroi. Como o inimigo é muito esperto preciso da habilidade de todos vocês! Só tem um problema...
- Então é só entrar numa masmorrinha merreca e dar uns sopapos nesse cara aí? Xá comigo, vai ser rapidinho. - Cortou Yusuke, arregaçando as mangas.
- Ô Yusuke, peraí, tem mais uma coisa! - Interpôs Koenma.
- Que foi, que foi?
- Vocês não vão conseguir entrar nas masmorras de Shiroi.
- E essa agora! Por que não?!
- Você devia pensar antes de tomar decisões, Yusuke - Disse Genkai, que até ali não dissera uma só palavra. Ela estava no seu canto com os braços cruzados. - Koenma disse que esse é um monstro perito em ilusões, um idiota como você devia saber que não é possível entrar num território assim!
- Mas, Mestra - Kurama se pronunciou - Já entramos em lugares muito perigosos controlados por outros youkais.
- Nesse caso é diferente - Koenma voltou à falar - Estamos falando de um mestre das ilusões. Primero que vocês não vão nem enxergar a entrada pras masmorras, provavelmente vão ver só um campo de dunas totalmente deserto!
- Nossa, isso é bem injusto. - Disse Rin - Mas sabe, todos têm uma fraqueza... Talvez esse monstro aí também tenha. Alguma coisa que acabe com as ilusões que ele produz, sei lá!
- Menina, eu gostei de você. - Koenma deu um sorriso, feliz da vida - E já que você tá aí e é amiga desses quatro, já temos um problema resolvido!
- Que, como é que é, Koenma? Não entendi nada. - Perguntou Yusuke, confuso.
- Ela acertou na mosca, Yusuke! Shiroi tem uma fraqueza, algo que destrói as ilusões dele! - Disse Koenma, que começou a olhar pros cantos - Tá certo que é uma fraqueza bem esquisita e nada legal, nada legal mesmo... E não sei se essa menina vai concordar, eu se fôsse ela também não concordaria, mas não temos escolha, ai meu São Crispim...
- Desembucha logo, oh! - Disse Kuwabara. - Tá deixando a gente mais confuso que antes!
- Bom, a única coisa que pode destruir as ilusões de Shiroi é... - Koenma fechou os olhos - ... o sangue de uma humana.
- S-Sa-Sa-Sangue?! - Botan projetou-se para trás estendendo os braços, horrorizada.
- Exatamente. - Explicou Koenma - Algo puro como o sangue de uma garota humana é a única coisa capaz de detê-lo! Se houver sangue de uma menina, as ilusões serão desfeitas! É a única fraqueza dele!
- Peraí, você espera que nós matemos essa menina? - Hiei disse, estendendo o punho e apontando para Rin com a outra mão, que estava branca feito leite. Matá-la? Não, eles não podiam fazer isso!... Pera, pensando bem, não seria má idéia, ele ficaria livre e... Ora, mas mesmo assim era uma medida precipitada, não? Aliás, ele tinha salvo a vida dela por nada?!
- Calma aí Hiei, não precisa se alterar! - Disse Koenma - Ninguém vai ter que morrer aqui não!
- É, cê acha que a gente ia matar sua namorada por uma coisa dessas? - Perguntou Kuwabara com os olhos crispados.
- Fique na sua, rei dos imbecis!
- Cumé?!
- Ela não tem que morrer! - Repetiu Koenma - Só precisamos que ela vá com vocês, porque assim vocês terão o sangue.
Nesse momento, a sala virou um completo alvoroço. Hiei, irritado, reclamava de alguma coisa enquanto Kuwabara dava uma lição de moral, algo sobre "crueldade com uma dama". Botan tinha os olhos girando, Kurama conversava alguma coisa com Genkai e Yusuke segurava a cabeça, atordoado com tanta informação, berrando pra todo mundo calar a boca.
- Gente, eu... - Rin tentou se fazer ouvir. Encheu os pulmões. - GENTE!
A sala entrou em silêncio, e todos olharam pra ela.
- Eu não me importo - Ela disse, abaixando a cabeça - Isso é sério, não é? Vocês trabalham pra garantir que o nosso mundo fique em paz e... E eu posso ajudar vocês agora...
Ela não sabia muito bem o que estava dizendo, Hiei notou isso na hora. Aquela humana era suicida, por acaso?
-"O que ela está pensando?" - Ele perguntou-se, enquanto Rin ainda gaguejava - "Ela pode morrer se for conosco."
- Você não deve ir. - Disse Hiei, fazendo com que todos se voltassem pra ele. Rin ergueu os olhos, surpresa - É muito perigoso. Uma humana como você não duraria nada num plano do Makai.
- Na verdade, Hiei, se a Rin foi atacada no mundo dos homens por causa da energia espiritual dela, isso quer dizer que ela tem o suficiente pra permanecer lá. - Disse Botan, pensativa.
- Isso aí. - Falou Koenma - Quanto à isso não há problema. Tudo o que vocês tem que fazer é cuidar dela enquanto completam a missão.
- Mas e se ocorrer algo errado? - Perguntou Kurama, preocupado - Digo, se a Rin acabar ferida sem querer...
- Isso é problema de vocês, tenham dó, vocês são quatro. - Koenma abanou a mão, decidido - Se ela quiser ir, vai nos ajudar muito. Se não, não terá jeito! Ou vocês tem outra humana aí que tope o negócio?
- Bom, tem a Keiko... - Pensou Kuwabara, divagando.
- Ei, ei, pó pará por aí meu irmão, não mete a Keiko nessa história! - Yusuke o cortou na hora - Ela não tem a energia espiritual da Rin, ela sim não conseguiria nem se levantar no Mundo das Trevas!
- Eu tava só brincando, Urameshi, seu idiota! - Retrucou Kuwabara. - Pra começar eu nem concordo que a Rin vá!
- Eu não vou atrapalhar! - Rin exclamou. Ela tinha que parecer forte. Aquele era um assunto delicado e ela poderia salvar a missão deles, se bem entendera. Por dentro seu estômago estava embrulhando de medo, mas ela tinha que ser firme. Além do que, ela ficaria ao lado de Hiei e...
Ela corou furiosamente. Ninguém entendeu. Enquanto isso, Hiei sentia um ódio intenso por dentro. Como aqueles imbecis podiam pensar em levá-la para o Mundo das Trevas?! Podia acontecer algo horrível, e ela não poderia se defender se ele não estivesse por perto...
- Então, Rin, o que você me diz, garota? - Koenma apoiou o queixo sobre as mãos na mesa, com uma gota de suór na testa - Você pode nos ajudar? Lamento ter que te pedir isso, mas é o único jeito!
Rin olhou de um lado para o outro. Yusulke e Kuwabara estavam sérios, e aquilo com certeza era uma prova de que a decisão dela decidiria algo muito importante. Mas ela já tinha decidido.
- Eu vou. - Ela disse, convicta, cerrando os punhos.
- Então tudo bem - Yusuke concordou com a cabeça, virando-se para Koenma - Pode deixar com a gente, Koenma! Não vamos deixar que aconteça nada com ela!
- Conto com vocês, Yusuke! - Dizendo isso, Koenma sumiu da tela, que fez um barulho de plug ao desligar.
O silêncio tomou conta da sala durante alguns segundos, antes que Genkai se pronunciasse:
- Vamos. - Ela levantou-se, saindo da sala.
- Tem certeza que vai fazer isso, Rin? - Kurama aproximou-se dela - Vai ser perigoso. Qualquer extensão do Makai é um lugar apavorante, e nosso inimigo parece muito forte...
- Não vou amarelar, Kurama, que é isso, hahaha, vaso ruim não quebra fácil não! - Ela deu uns tapinhas nas costas de Kurama, rindo abobalhada. Mas ela sabia que Kurama sabia que, na verdade, bem, ela estava tremendo nas bases.
Todos se levantaram, seguindo Genkai. Rin se deteve alguns instantes, com a expressão preocupada, até que ouviu uma voz:
- Você não tem a menor idéia do que está fazendo. - Era Hiei. Ele estava atrás dela, de pé. - Isso não é uma brincadeira ou algo do tipo. Não entende que pode morrer?
- E-Eu sei, Hiei - Ela franziu o cenho, apreensiva - Mas vocês também podem, não é? Não posso ficar com medo numa hora dessas e...
- Pare de fingir. - Hiei interrompeu-a, seguindo para a porta.
- Não tô fingindo! - Ela ergueu-se, brava - Eu realmente quero ajudar! Eu também tenho coisas importantes aqui, não quero que aconteça nada de ruim com o meu mundo! M-mesmo que eu morra e...
- Eu não vou deixar que te matem. - Grunhiu Hiei, ríspido.
Ele saiu da sala, deixando-a sozinha. Essa menina era muito, muito estranha. Como podia pensar assim, arriscar a própria vida numa missão tão perigosa era pura estupidez! Mas ele não deixaria o inimigo levar a melhor. E não deixaria que acontecesse nada com aquela humana ridícula. Era uma questão de honra.
Ou não?
Ele soltou um muxoxo de raiva, sentindo aquele formigamento acalmar um pouco.
Rin ficou mais alguns segundos parada, sem ação. Respirou fundo. Então ficou gigantesca, cupindo fogo.
- ELE NÃO VAI ME DEPRIMIR, ESSE RABUGENTO CHATO! - Ela ergueu os punhos, amarrando uma faixinha na cabeça e pintando listras do exército no rosto - Só porque estou com medo, isso não quer dizer que eu não sou corajosa. Eu vou enfrentar isso, ah se vou!
E saiu correndo atrás dele.
Genkai estava parada no meio de um campo, onde uma enorme fenda negra e brilhante estava aberta no chão. Botan e os outros se aproximaram enquanto a Mestra olhava-os seriamente.
- Tenham cuidado. Shiroi não é como qualquer outro que vocês já tenham enfrentado. - Recomentou ela - Youkais como ele são inimigos perigosos, portanto sejam rápidos. Destruam os monstros que encontrarem no caminho! O importante é acabar com Shiroi e suas ilusões, para que o portal seja fechado!
- Sim, Senhora - Acentiu Kuwabara firmemente.
- Vamos fazer o melhor. - Kurama aproximou-se da fenda, pulando primeiro.
- A gente tem que pular ai? - Perguntou Rin de boca aberta - Nesse buraco negro do mal?
- Minha filha, cê num viu foi nada - Yusuke aproximou-se também, fazendo um alongamento com os braços - Vamos nessa, rapaziada... - E pulou.
- Espera aí, Urameshi! - Kuwabara foi atrás dele, pulando também.
Hiei foi o próximo. Antes de pular, lançou um olhar à Rin.
- Vai ficar aí parada?
Ela fez uma expressão de raiva.
- Não! Eu vou!
Hiei sorriu, e pulou. Rin correu atrás, pulando logo em seguida.
- Esses dois... - Comentou Botan - Ai meu paizinho, tô com um péssimo pressentimento! Será que a Rin vai ficar bem? Ai...
Genkai virou-se, voltando para o templo. Era melhor que Yusuke não falhasse; aquela seria uma difícil provação!
---
Rin sentiu-se cair sobre algo macio. Ora, não era tão ruim assim. Estava esperando, no mínimo, ser recebida pela boca cheia de dentes de um monstro comedor de humanos e...
- Saia de cima de mim! - Hiei debateu-se, furioso.
Rin saiu de cima dele antes que virasse picadinho, e viu Yusuke levantando-se ao seu lado, abanando poeira do ombro.
- Isso aí, tô na área, derrubou é penalti.
- Larga de ser convencido, Yusuke - Kuwabara olhou ao redor - Presta atenção onde a gente tá, antes de sair se exibindo!
- Que estranho... - Kurama observou o lugar atentamente.
Rin levantou-se junto com Hiei, olhando ao redor. A primeira coisa que sentiu como um baque, como se algo comprimisse seu coração. A atmosfera era densa e ela podia sentir uma energia terrível naquele lugar.
Ao redor, não havia nada a não ser uma imensidão de dunas de areia negra. O céu era cinzento, cheio de nuvens vermelhas, e o vento que passava estava bem longe de ser uma brisa agradável.
- Está como o Koenma falou. - Disse Hiei - Mas estamos com a garota, por que não enxergamos nada?
- Também não tô entendendo - Kuwabara rastreava o espaço procurando qualquer sinal de vida, mas não havia nada ali a não ser a imensidão vazia - Mas que droga!
- O Koenma pirou na batatinha, isso não está funcionando! Era pra estarmos enxergando a entrada pras masmorras daquele miserável! - Yusuke cerrou os dentes.
Rin também não entendia. Ela estava ali, não é? Havia sangue de uma garota humana ali. Eles deviam estar vendo alguma coisa.
- Esperem aí, pessoal. - Kurama disse. Os demais olharam para ele. - Eu acho que sei o que está errado mas... Puxa vida, isso é horrível.
- Como assim, Kurama? - Perguntou Hiei, sério.
- Não adianta a Rin estar aqui. - Disse Kurama, olhando pra frente - Precisamos do sangue dela.
- Mas se a Rin esta aqui, o sangue também está, não? - Perguntou Kuwabara, tonto.
- Creio que a informação é mais objetiva. - Lamentou Kurama.
Yusuke ainda parecia confuso, assim como Kuwabara. Hiei não tinha qualquer expressão, apenas cerrara os olhos, com uma expressão de compreensão. Rin também entendera. Não achou realmente que teria que ser daquele jeito, mas o que ela estava esperando, afinal? Como Hiei disse, aquilo não era uma brincadeira. Ela sabia o que era preciso!
- Vamos logo com isso. - Ela disse. Hiei surpreendeu-se ao vê-la do lado de Kurama, olhando-o fixamente, com o braço estendido e os olhos fechados.
- Rin, eu não posso fazer isso... - Disse Kurama sem ação.
- Então eu faço! Algum de vocês tem algo que corte? - Ela estava ficando bem enjoada com aquela conversa, mas não tinha jeito, ela mesma havia decidido ajudá-los.
Kurama tirou uma rosa do cabelo, colocando-a na mão de Rin. Yusuke e Kuwabara ainda estavam sem entender nada, mas Hiei tinha os olhos arregalados. Ela realmente não ia fazer aquilo, ia?...
Rin pegou a rosa com uma das mãos e fechou os olhos com mais força ainda. Sentia-se tremer um pouco, mas juntou toda a coragem que tinha; tomou fôlego e rasgou a palma da mão de ponta à ponta com os espinhos da flor de Kurama.
- Mas o que! - Hiei surpreendeu-se.
Yusuke e Kuwabara deram um pulo, e Rin fez uma careta de dor. Imediatamente sua mão encheu-se de sangue.
- Sua maluca! - Disse Kuwabara agitando os braços freneticamente - O que foi que você fez?!
- É mesmo, menina, tá querendo morrer é! - Disse Yusuke igualmente descontrolado.
Rin mordeu a boca, segurando as lágrimas. Doía, realmente doía. O local ferido ardeu intensamente com o corte; ela não sabia que aquela flor era afiada como uma navalha. Sentiu que alcançou o músculo, tamanha foi a sensação. Ela aguentou firme. Sua mão parecia uma verdadeira poça agora.
- Você exagerou - Disse Kurama, sério, vendo o corte fundo de Rin ficar vermelho escuro - Mas acho que essa é a quantidade certa pra desfazermos essa ilusão.
O sangue dela escorreu pela mão, formando uma risca fina e atingindo o chão de areia preta, escorrendo durante alguns segundos. Imediatamente, a areia começou à se mexer, embora não estivesse mais ventando. Os cinco cobriram o rosto com os olhos.
- Caramba, que que tá acontecendo? - Exclamou Yusuke.
A areia começou a formar um imenso tornado. O tornado foi ficando cada vez mais nítido, até que pareceu se solidificar, formando uma espécie de poço de pedra assustador. Rin, segurando a mão machucada, observou o poço adquirir fendas e entradas ao seu redor.
A areia parou de subir, e a calmaria reinou novamente. Eles abaixaram os braços lentamente.
- Não é que funcionou? - Kuwabara piscou, surpreso.
- Se toda vez que tivermos de desfazer uma ilusão você se cortar desse jeito, logo logo morrerá. - Disse Hiei, colocando as mãos nos bolsos e virando-se para Rin.
- Acho que ela só precisou de tanto sangue agora, Hiei - Disse Kurama, observando o poço - Essa ilusão era muito poderosa, de outra forma Shiroi não conseguiria esconder uma entrada tão grande.
- Bom, vamos parar de conversa e ir em frente. - Disse Yusuke sério, tomando a dianteira. Os outros o seguiram.
Chegando de frente para o poço, ao olharem lá embaixo, viram uma escadaria em espiral à mais ou menos dez metros, descendo até a escuridão.
- Não dá pra ver nada... - Disse Kuwabara.
- Com certeza chegaremos às masmorras - Kurama pulou, atingindo o patamar das escadas - Vocês não vêm?
- Vamos nelson que a hora é elson. - Yusuke pulou, seguido por Kuwabara.
Rin olhou pra baixo e se sentiu tonta na hora.
- Ai, muito alto, muito alto...
- O que foi? - Perguntou Hiei.
- É que... - Ela coçou a cabeça, sem graça - Não leve à mal, eu realmente fico enjoada em lugares altos. Você poderia?...
Antes que terminasse, Hiei pegou-a pelo braço e pulou no poço. Ele pulou sem dar tempo de que ela se segurasse nele direito, quando aterrissaram, ela estava verde como um zumbi, agarrada em Hiei toda torta.
- Arg...
- Que houve? - Perguntou Kurama, observando Rin descer das costas de Hiei cambaleante.
- Ela tem medo de altura. - Disse Hiei simplesmente, enquanto Kuwabara ajudava Rin a se recompor.
- Prontos? Vamos continuar. - Disse Yusuke, e eles começaram à descer as escadas.
À cada passo que davam, mais a escuridão os engolia. Chegou um momento que não se podia ver sequer um palmo na frente do nariz, e Rin ficou com medo de espencar da escada estreira. Agarrou-se em Hiei, que olhou para ela curioso.
- Tá todo mundo aí, ainda? Que breu, não enxergo nada. - Disse Kuwabara.
- É uma questão de tempo até nossos olhos se acostumarem. - Respondeu Kurama - Vamos devagar, pra que ninguém caia.
- "Ninguém" você está se referindo à mim que eu sei - Disse Rin, rindo.
- Bom, mais ou menos. - Kurama riu de volta.
- PULEM! - Berrou Hiei, do nada.
De repente, eles ouviram um estrondo, e as escadas começaram à tremer. Rin agarrou-se mais ainda a Hiei, e sentiu ele a pegar no colo e saltar pra longe. Sem enxergar nada, alarmada, perguntou-se o que estaria acontecendo.
Hiei sentiu segundos antes de acontecer. Captou as vibrações vindo do fundo e pegou Rin no colo, saltando. As escadas desmoronaram, formando um bloco sólido no fundo do poço. Ele aterrissou com Rin se debatendo.
- AH, PÂNICO, PÂNICO! - Ela berrava em seu pé do ouvido, agarrando-lhe os cabelos.
- Quer ficar calada, sua louca?! Me solte!
Ela respirou fundo, acalmando-se. Foi só um desmoronamento. Ok, "só um desmoronamento" não é tão insignificante assim na prática. Seu coração batia descompassado, e então ela percebeu que conseguia enxergar os outros. Um enorme túnel havia aberto ao lado deles, com tochas acesas nas paredes de pedra.
- Minha nossa... - Ela desceu do colo de Hiei, olhando para os lados - Que coisa mais sinistra, o que foi que aconteceu?
- Provavelmente essas escadas estavam prontas pra desmoronar assim que chegassem intrusos - Disse Kurama, levantando-se com Kuwabara e Yusuke - Ainda bem que Hiei percebeu antes que fôssemos soterrados.
- Às vezes esse arrepiadinho serve pra alguma coisa. - Comentou Kuwabara.
- Se dependesse de você, estaríamos todos mortos. - Retrucou Hiei.
- Vamos, não temos tempo pra isso! - Disse Yusuke - Temos que encontrar logo Shiroi!
Eles seguiram pelo túnel em silêncio durante vários minutos. O ar era denso e Rin estava sentindo dificuldades pra respirar. Hiei olhava pra ela com o canto dos olhos à todo instante.
- "Por que essa garota tem essa influência sobre mim?" - Perguntava-se enquanto andava, observando-a tossir com a falta de ar.
Rin já estava começando a se arrepender. Bancar a durona não era fácil. Mas ao menos se sentia segura do lado de Hiei. Se ele não estivesse ali, ela não tinha tanta certeza assim que ficaria calma daquele jeito.
Então ela começou a sentir uma coisa estranha. Como se estivesse andando mais devagar. Acelerou o passo, pra não ficar pra trás, mas ainda sentia que estava andando lentamente.
- Que esquisito.
Então, ela viu. Yusuke, Kuwabara, Kurama e Hiei estavam indo de encontro à um despenhadeiro que ardia em larva quente, soltando pequenas erupções.
-Ei, gente, cuidado com esse negócio aí - Ela avisou, mas ninguém olhou pra ela. Alarmou-se - Gente... Oh gente! Cuidado!
Nada. Eles continuavam indo diretamente até lá, como se não houvesse qualquer problema.
-"Essa não!" - Ela decidiu correr, mas então percebeu que seus pés estavam afundando em uma espécie de areia movediça. Seus olhos se arregalaram com o choque. Ela olhou pra frente de novo e viu os garotos cada vez mais perto da cova de magma.
- HIEI! HIEI, ME ESCUTA! PAREM, VOCÊS TODOS!
Sem saber o que fazer, ela olhou para os lados desesperada. A areia começava a se mover e a puxá-la pra baixo. Peraí, aquilo era mais uma ilusão! Era lógico! Dessa vez ela não eve nem tempo pra tomar coragem, afundou as unhas na palma da mão coagulada com toda a força.
Na hora a ferida voltou à sangrar, caindo sobre a areia. Rin sentiu seu corpo cair de joelhos, como se ela estivesse de pé o tempo inteiro. A areia havia sumido. Ela levantou-se correndo atrás dos garotos.
- HIEI! CUIDADO, PARE! - Ela segurou a capa de Hiei, que virou-se para ela confuso.
- O que você quer?
Ela piscou. Kuwabara aproximou-se dela.
- Rin? Tá tudo bem?
Ela olhou para frente e viu que o mar de magma havia desaparecido. Atordoada, olhou para Kurama como se esperasse que ele lhe dissesse o que havia acontecido, mas até o ruivo parecia desentendido.
- Menina, não dá um susto desse na gente! - Yusuke também virou-se pra ela, nervoso - Do nada você dá um berro desse, quer matar a gente do coração?
- M-mas vocês não viram? Tinha um rio de larva quente bem na frente de vocês! - Disse Rin assustada - Vocês não viram nada? Eu fiquei pra trás, presa numa areia movediça!
- Rin, você estava andando do nosso lado normalmente... - Surpreendeu-se Kuwabara.
- Essa não - Disse Kurama - Temos que ficar espertos. Provavelmente essa foi uma ilusão para fazer a Rin se desligar da realidade!
- Você teve que se cortar de novo? - Perguntou Kuwabara.
- Eu percebi antes de ser engolida pela areia... - Ela mostrou a mão machucada, fazendo uma careta engraçada - Isso realmente está sendo útil.
Então ela sentiu alguém colocar uma faixa sobre sua mão. Virou-se e viu Hiei, com uma expressão séria, amarrando um pedaço das faixas de seu braço na mão dela.
- Não vamos cair nessas ilusões idiotas novamente - Ele disse - Você não tem mais que fazer isso.
Ele amarrou a faixa e deu as costas pra ela, seguindo em frente. Yusuke cutucou Kuwabara com o cotovelo, murmurando baixinho:
- Ih o cara aí...
- Tá aí uma cena que eu nunca achei que veria. - Respondeu Kuwabara com o queixo no chão.
Kurama limitou-se à dar um risinho, e virou-se para Rin:
- Rin, desculpe, vamos prestar mais atenção - Disse ele - Não podemos esquecer a especialidade do nosso inimigo. Esse lugar deve estar cheio de armadilhas, fique perto de nós.
Rin fez que sim com a cabeça, e eles continuaram a seguir túnel adentro. Ela olhou para Hiei na sua frente, andando com as mãos nos bolsos, e olhou para a faixa na mão. Sentia o coração acelerado, mas dessa vez não era por causa do susto.
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- S-Senhor Shiroi... - O demônio amarelo antrou na sala hesitante. Tremia da cabeça aos pés. - Os invasores, eles conseguiram entrar...
Shiroi estava sendado num trono imponente, olhando para o telão na sua frente que mostrava Yusuke, Kuwabara, Kurama, Hiei e Rin andando pelo túnel da masmorra. Seu rosto tinha uma expressão demoníaca.
- Percebi.
- Essa garota, Senhor - Continuou o demônio, visivelmente com medo - É-É a garota que o senhor me mandou investigar. É a mesma.
- Jura? - Shiroi levantou-se, indo até o telão, que agora focalizava o rosto de Rin - Uma garota humana dentro das minhas masmorras. Mas que ironia. Contudo, me parece que ela é amiga desses quatro.
- Sim, Senhor, eles vieram sob ordens do Mundo Espiritual...
- Interessante. - Shiroi pareceu acalmar-se. Depois, sorriu - Não faz mal. Mesmo que ela desfaça todas as minhas ilusões, não vai durar muito tempo, vai chegar uma hora em que perderá tanto sangue que vai morrer... Até lá, esses quatro morrerão dolorosamente nas minhas armadilhas.
Shiroi voltou a se sentar, como se ainda estivesse se convencendo de suas palavras. O demônio amarelo olhou para a garota na tela e seus olhos apertaram-se.
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- Você viu isso, você viu isso?! - Koenma, descontrolado, puxava os poucos cabelos de George - E eles não notaram nada!
Koenma tinha acabado de ver em seu telão a ilusão que Rin havia sofrido.
- Calma, Senhora Koenma, eu vi! - Disse George, esquivando-se - Mas o senhor ouviu o que o Kurama disse, eles não vão deixar acontecer novamente!
- Que que você tá achando, seu chupa-cabra, não é tão fácil assim! - Koenma voltou-se para o telão novamente, preocupado - A Rin pode estar correndo muito perigo com toda essa situação! Espero que eles consigam...
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