- Eita, diacho, mas esse corredor não acaba nunca! - Reclamou Yusuke, com as mãos atrás da cabeça.

- Por que você tá tão tranquilo, ein Urameshi? É melhor ficar esperto porque qualquer hora pode aparecer um inim...

O chão deu uma tremida violenta, fazendo com que eles se desiquilibrassem. Então, as paredes começaram a se afastar, abrindo um grande espaço no meio do corredor. O chão se abriu num enorme sulco, separando-os do outro lado do corredor, e finíssimas estacas flutuantes surgiram de dentro do buraco.

- Minha nosssa Senhora, o que é que tá acontecendo? - Kuwabara balançou os braços.

- Vejam! - Exclamou Kurama.

A mais distante das estacas subiu com uma figura encapuzada sobre ela. Quando parou de subir, a figura encarou-os e disse:

- Para continuar vocês terão que passar por mim. Mestre Shiroi não permite invasores. - O vulto abaixou o capuz, revelando homem de rosto magrelo - Porém vocês tem outra opção: podem entregar a menina que sairei do caminho.

- "Podem entregar a menina", cê pirou foi? Acha que a gente vai cair nessa? - Yusuke adiantou-se. - Quem é você?

- Eu sou Jui, um mestre do equilíbrio - O youkai assumiu uma posição de luta - Se não vão entregarem a menina, terão que lutar comigo! Qual de vocês virá?

Rin deu um passo pra trás, com medo. Eles estavam atrás dela? E agora? Olhou para Hiei, mas este não estava lhe dando atenção. Tinha um olhar cheio de ódio.

- Deixe ele comigo, Yusuke. - Hiei foi até Yusuke.

- Mas Hiei...

- Péssima escolha, moleque! - Disse Jui - Lutaremos sobre essas estacas. Cada uma delas não tem mais que um metro de raio. Se um de nós se desequilibrar, cairá num vazio eterno.

- A-Acho que ele não tá brincando não, gente! - Disse Kuwabara olhando para o buraco lá embaixo.

- Tenha cuidado, Hiei! - Disse Kurama nervoso, enquanto Hiei se adiantava sacando sua katana.

- Então você quer mesmo perder a sua vida, rapaz? - Perguntou o youkai com uma risadinha.

- Cale a boca e vamos lutar. - Hiei nem deu tempo pro outro responder. Partiu pra cima dele tão rápido que Rin nem viu o que tinha acontecido.

Jui sumiu por um instante, numa luta tão rápida com Hiei que os outros mal viam seus movimentos. Então eles reapareceram, cada um sobre uma estaca.

- Você é bom, garoto. - Disse Jui, e uma risca de sangue apareceu em sua boca.

- Você ainda não viu nada.

Hiei partiu pra cima dele novamente, e eles ficaram mais algum tempo lutando velozmente.

- Eu não consigo acompanhá-los com os olhos! - Disse Kuwabara ficando tonto.

- São muito rápidos! - Emendou Kurama.

No instante seguinte eles reapareceram, mas dessa vez Hiei pisou em falso na estaca que ia se apoiar e escorregou.

- Hiei! - Rin berrou, apavorada.

Hiei conseguiu se segurar com as pontas dos dedos antes que caísse. Jui deu uma risada, indo pra cima dele.

- Agora você já era!

Hiei impulsionou-se pra cima antes de ser atingido, desviando-se do ataque.

Rin, vendo a luta, sentiu um medo intenso de que acontecesse alguma coisa com Hiei. Ele quase caíra naquele instante! Era muito perigoso lutar sobre aquelas estacas flutuantes!

Ela não podia deixar aquilo acontecer. Tinha que dar um jeito, tinha que ajudá-lo, tinha que usar sua força, tinha que...

- ACABA COM ELE, HIEEEEEEEEEEEI! ACEEEEEEEEEEERTA A CARA DESSE BABACA, ENFIA ESSA ESPADA BEM NO MEIO DO...

- Rin, saia de cima de mim! EU VOU CAIR! - Kuwabara cambaleou com Rin subindo em suas costas louca da vida, com os olhos ardendo em brasa.

- "Mas o que ela está fazendo?..." - Hiei distraiu-se com os gritos de Rin, e acabou levando um soco no rosto. Por pouco não conseguiu se defender, mas mesmo assim acabou voando longe. Se recobrou no caminho e apoiou-se em uma estaca. Pulou novamente, empunhando a a arma.

- SEU FILHO DA MÃE, LUTE COM ALGUÉM DO SEU TAMANHO! - Rin dava socos furiosos na cabeça de Kuwabara, que tinha os olhos girando e lutava pra ficar em pé.

- Não deixa ele te ouvir dizendo isso... - Disseram Kurama e Yusuke com uma gota na cabeça.

- DERRUBA ELE DAÍ! - Gritava ela.

Então Hiei teve uma idéia. Sumiu por alguns segundos, e seu oponente o perdeu de vista. Jui voltou a pisar em uma das estacas, olhando para os lados.

- Cadê você?! Apareça!

Hiei pousou ao lado de Rin, fazendo com que ela desse um pulo de susto. Kuwabara caiu de bunda, em seguida ergueu-se, apontando o dedo pra ele fulo da vida:

- Que é que foi, Hiei?! Por que voltou?! Tá desistindo é, seu animal?!!

- Lógico que não, idiota. - Resmungou Hiei, sorrindo - Já venci.

Kurama sorriu, e Yusuke olhou para Jui interrogativo.

- Está fugindo, por acaso? - Jui olhou para Hiei ameaçadoramte - Seu covarde, eu sabia que não conseguiria lutar comigo sobre essas estacas e...

Jui sentiu a estaca em que estava em pé desmoronar. Todos tomaram um choque. No instante seguinte, todas as estacas também se fizeram em pedacinhos. Jui caiu no buraco, com um grito de pavor que durou vários segundos até desaparecer completamente.

Rin debruçou-se sobre o buraco, de olhos arregalados:

- Mas... Mas o que houve? - Ela observou as estacas flutuantes caírem com Jui no meio da escuridão.

- Eu fico de cara com você Hiei, sério mesmo meu irmão, você é impressionante. - Yusuke coçou o nariz com um sorriso mongol, dando tapinhas nas costas de Hiei.

- Ele acabou com as estacas usando a espada, Rin. - Explicou Kurama - Foi tão rápido que nós nem vimos, e Jui pisou sem nem notar.

- Caramba. - Ela engoliu em seco, assustada. Ela não sabia que Hiei era tão forte assim. Virou-se para ele com um enorme sorriso.- Você é incrível, Hiei!

Orgulhosa da ajuda que tinha prestado, ela levantou-se batendo palmas, com um sorrisinho feliz.

- Aí galera, um já foi, Deus sabe quantos ainda tem! Então vamos continuar! - Yusuke adiantou-se empolgado, mas sentiu alguma coisa segurar suas calças e ele deu de cara no chão

- Escuta aqui, demência, como você espera passar pro outro lado com esse buracão aí, ein?! - Perguntou Kuwabara com os olhos fininhos.

- Eita, é mesmo! - Yusuke sentou-se com um galo na cabeça - Como a gente faz?... Ah, já sei, deve ser uma ilusão, então na verdade a gente pode passar por cima numa boa que não vai acontecer nada!

- Não funciona assim, Yusuke! - Disse Kurama - Pode ser até uma ilusão, mas se nós passarmos aí vamos cair com certeza, porque nossas mentes vão transformar a queda em realidade!

- É mesmo? Mas que droga... - Reclamou Kuwabara.

- Acho que não tem jeito, né? - Rin ergueu a mão - Não adiantou muita coisa essa faixa, Hiei, vou ter que...

- Vamos arranjar outro jeito. - Hiei virou-se para Kurama, seco. Ele não queria que ela tivesse que se ferir novamente. Pensando bem, ele só achava isso muito... desnecessário, isso, desnecessário.

- Não tem outro jeito, Hiei. - Explicou o ruivo, com uma cara de lamento - Foi exatamente por isso que a Rin teve que vir conosco.

- Ah, qual é, você acabou de travar uma luta de vida ou morte com aquele cara ali! - Rin abanou a mão displicente, apontando para o precipício - Um cortezinho de nada não vai me matar. Empresta aqui.

Rin tomou a espada ainda na mão de Hiei. O youkai tentou impedí-la antes que ela passasse a lâmina na perna confiante.

Um corte largo surgiu em sua canela, e ela assumiu uma expressão de imensa dor.

- Você vai acabar é se matando! - Hiei enfureceu-se, tomando rispidamente a arma das mãos trêmulas dela - Isso não é um brinquedo! Veja o que você fez, sua idiota!

Rin teve que se sentar por causa da dor. A espada de Hiei era ainda mais afiada que os espinhos da rosa de Kurama, e ela lamentou-se por tentar bancar a valentona cortando a própria perna.

- Temos que arranjar um jeito de tirar sangue dela sem precisar fazer essas coisas... - Disse Kuwabara com uma careta de desgosto por causa da ferida aberta na perna de Rin.

Hiei pegou a espada manchada de sangue e passou a bainha na borda do buraco. Imediatamente as paredes pareceram voltar para o lugar e o chão resurgiu, deixando o corredor da mesma forma que estava antes da batalha com Jui.

- Está vendo só, você não precisava ter feito essa idiotice. Foi preciso pouco mais que algumas gotas do seu sangue. - Hiei guardou a espada, olhando para Rin de esguelha.

Ela apertava a perna com força. Definitivamente tinha que se colocar no seu lugar. Havia se empolgado demais com a luta de Hiei, esquecendo-se de medir a força do corte.

- Bem que a gente podia ter um copinho pra guardar esse sangue todo, ein. - Brincou Yusuke, mas Rin lançou-lhe um olhar mortífero e ele ficou quieto.

- Acho que o Kuwabara está certo, Rin. - Kurama observou o corte dela - Você não pode ficar se ferindo dessa forma.

- Ah, tudo bem, pessoal. - Ela fez força pra se levantar, tentando sorrir - Aposto que vocês já passaram por coisa bem pior.

- Mas você é uma humana comum, não pode querer comparar... - Disse Kurama preocupado.

- V-Vamos logo, vamos, prometo que vou me controlar na próxima. - Ela começou a andar, mas não conseguiu. Estava mancando. Cerrou os dentes, firme.

- Pare de fingir que está tudo bem. - Hiei segurou seu braço. Ele tinha os olhos cheios de raiva. O que ela pensava? Que aquilo tudo era simples? E se ela acabasse cortando fora a própria perna? Ela nunca manuseara uma espada antes!

-"Caramba, que que aconteceu com o cara aí?..." - Pensou Yusuke com uma careta desentendida, enquanto os outros também pareciam impressionados com a atitude de Hiei.

- Não faça mais isso, imbecil. - Hiei passou na frente dela, bravo, e pegou-a nas costas. Rin arregalou os olhos, surpresa, deixando-se levantar - Segure firme. Ou você prefere ficar mancando?

- H-Hm... - Ela acentiu, envolvendo o pescoço dele. Sentiu o rosto queimar.

- E vocês, idiotas, vão ficar aí parados? - Ele perguntou rispidamente para os outros, seguindo para dentro do corredor com Rin nas costas.

Kurama e Yusuke trocaram olhares enquanto Kuwabara tinha o queixo no chão.

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- O-O-O Senhor viu isso, Senhor Koenma?! - Perguntou George pasmo, articulando as mãos.

- Eu vi sim estrupício, tá achando que eu sou cego? Mas não tô conseguindo acreditar! - Koenma estava com a cara colada no telão, tão frenético quanto George.

- Eles conseguiram vencer aquele youkai mestre do equilíbrio! - Exclamou George estupefato. Logo em seguida, levou uma porrada na cabeça.

- OH SEU IMBECIL isso já era esperado, o que me deixou impressionado foi a atitude do Hiei! Eu nunca vi ele daquele jeito!

- Ai, isso doeu, Senhor... - Choramingou George segurando a cabeça - Mas o Senhor tem razão, ele pareceu muito bravo quando aquela menina cortou a própria perna...

- Eu tô é achando que o Hiei tá gamadão nessa garota - Koenma sentou-se na sua cadeira de novo, guardando o bastão com que acertara George - Ah não, isso é demais pra minha cabeça!

- Talvez ele só tenha se irritado porque ela pegou a espada dele!

- Fica quieto que você não sabe de nada, deixa eu fazer as minhas hipóteses! - Koenma deu outra bastãozada na cabeça de George.

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Ela estava sentada no topo de um prédio, usando um longo vestido negro que esvoaçava à luz do luar. Seus olhos brilhavam. Hiei estava parado lá embaixo, com um semblante tranquilo. Ele estendia a mão para ela, pedindo que descesse.

- Desça...

Ela segurou a mão de encontro ao peito, sentindo seu coração bater mais rápido.

- Eu quero ir com você sim, Hiei, espere por mim...

- Como é?

- Eu sei, Hiei, nós temos que ir...

- Ei, você!

- Oh Hiei, não, não, não, eu não posso fazer isso ainda, eu sou muito nova... Mas eu vou com você sim, me espere e...

POFT

- OH MALUCO vai deixar a menina pior do que já tá! - Yusuke criou um cabeção em cima de Hiei.

- Vê se aprende a tratar melhor as mulheres, seu grosso! - Emendou Kuwabara, ficando cabeçudo também.

Rin levantou-se tonta. Estava caída de costas no chão. Olhou para os lados totalmente atordoada. Viu Yusuke e Kuwabara em cima de Hiei, berrando, enquanto Kurama balançava a cabeça.

- Kurama? - Ela levantou-se, sentindo tudo rodar - O que houve?

- Você desmaiou nas costas do Hiei. - Explicou o ruivo - Provavelmente porque perdeu sangue demais. Não consegui estacar a sua ferida o suficiente.

Ela olhou para a perna machucada e descobriu que estava enfaixada assim como a mão. Mas ainda assim havia uma grossa mancha de sangue ali.

- Eu não tenho culpa, eu falei pra ela descer. - Hiei olhava com cara de tacho enquanto Yusuke e Kuwabara ainda brigavam com ele.

- Mas não precisava largar ela no chão desse jeito, né oh! - Kuwabara finalizou seu carão, em seguida virou-se para Rin. - Cê tá legal, Rin?

- Tô ótima. - Ela ergueu o polegar. Então, lembrou-se do sonho que estava tendo. Sentiu que ficava vermelha da cabeça aos pés, podia até soltar fumaça pelas orelhas.

- Eita, acho que ela tá com febre! - Yusuke colocou a mão na testa dela, desentendido.

- Não, hehe, não é nada não! - Ela voltou ao normal e deu uma risada alta, com a mão na nuca, olhando pra cima - Hôhôhôhô!

- Eu ein. - Fez Yusuke.

- Eu quero saber como resolveremos aquilo. - Hiei interrompeu-os, apontando pra frente.

Rin esgueirou-se para ver o que era daquela vez. Mas não havia rio de larva ou despenhadeiro sem fundo ali, e sim uma abertura minúscula cravada na parede; uma fenda estreira e escura.

- Maravilha, como a gente vai passar por aí? - Perguntou Yusuke aproximando-se.

- Ei, eu não caibo aí dentro! - Kuwabara também enfiou a cara na entrada - É estreito demais, olha só! Eu teria que me espremer todinho!

- Será que não é outra ilusão? - Indagou Kurama.

- Nem pensar. - Hiei interpôs - Não precisamos tirar sangue da garota por causa disso. É muito fácil passar por aí.

- Você fala isso porque é um nanico! - Kuwabara ergueu os punhos - Mas eu sou um bad boy machão cheio de músculos, não vou conseguir passar por esse rasguinho aí não!

- Como faremos?... - Kurama começou à pensar. Os outros fizeram o mesmo. Rin já estava começando a tirar a faixa da mão quando Hiei a deteve.

- Já disse que não precisa disso! - Falou, impaciente - Eu vou primeiro e vejo como é do outro lado. Também há a possibilidade de ser uma armadilha.

- O Hiei está certo. - Disse Kurama - Mas se não for, ainda não resolve o problema de não conseguirmos passar...

- Não podemos simplesmente arrebentar com essa paredona aí? - Kuwabara arregaçou as mangas, mas Kurama o parou.

- Não! Pode fazer com que o teto desabe! Lembre-se, estamos em uma masmorra! Isso só seria possível se o caminho fôsse curto, mas nós não sabemos.

- E mais essa agora...

- Por que eu não posso simplesmente tacar sangue aí? - Perguntou Rin raivosa. Não que ela estivesse adorando se rasgar, mas quando aqueles quatro começavam a discutir parecia que não ia acabar nunca.

- Já disse que não, sua idiota. - Falou Hiei bruscamente, adiantando-se - Eu vou ver qual a espessura desse caminho. Se for muito curto então poderemos abrir uma passagem maior.

- Então tudo bem. - Concordou Kurama - Acho que é o mais lógico. Se vir algo suspeito, grite. E se for longo demais, volte.

Hiei acentiu, sacando a espada. Virou-se de lado e entrou por dentro da fenda escura, desaparecendo de vista.

- Não sei não, ô Kurama, ele pode ficar preso lá dentro. - Yusuke coçou a cabeça, suspirando.

- Você conhece o Hiei. Ele não vai fazer uma idiotice. - Riu o outro.

- Pois eu adoraria ver esse abusado entalado aí, hahaha! - Exclamou Kuwabara.

Hiei entrou e imediatamente não conseguiu enxergar mais nada. Mas o caminho pela fenda rapidamente terminou, e ele chegou numa sala que era tão escura quanto a passagem. Se não fosse pelo Jagan, provavelmente ele não teria percebido o enorme mosntro que apareceu na sua frente.

Ele saltou, desviando. Tudo ainda estava escuro, mas com o olho diabólico ele percebia exatamente onde estava o youkai que o atacou. Era um monstro em forma de cobra, com os olhos leitosos.

- Você não passará daqui! - Disse o monstro - Não adianta tentar, em poucos segundos estará morto!

Hiei riu.

- Isso é o que nós vamos ver. - E partiu pra briga.

O youkai, apesar de cego, sabia exatamente os movimentos de Hiei. Ele atacava e, quando o outro desviava, acabava abrindo uma enorme cratera no chão. Então, Hiei conseguiu acertá-lo, abrindo um corte em sua pele escamosa.

- Que ingênuo. - Riu o youkai cobra, e sua pele se regenerou na hora.

- Mas o q... - Hiei não teve tempo de ficar surpreso, porque o monstro voltou a atacá-lo. Ele desviou-se, irritado. Aquilo iria dar trabalho

Apesar do Jagan ajudar, ainda era complicado lutar no escuro. Se aquele monstro podia recuperar suas feridas, ele teria que atacar direntamente o cérebro para impedí-lo. Mas para isso, o youkai teria que ter a atenção desviada...

Ele cerrou os dentes, irritado.

Rin estava roendo as unhas do outro lado. Já haviam se passado vários minutos desde que Hiei entrara na fenda. Yusuke estava sentado num canto soltando baba. Seus olhos pendiam à toda hora, e sua cabeça ia caindo lentamente pra frente.

- Ele não está demorando demais, Kurama? - Perguntou Rin pela terceira vez.

- Fique calma, Rin! Está tudo bem! - Garantiu Kurama.

- Oh Urameshi, isso é hora pra ficar com sono? - Kuwabara chutou Yusuke, que levantou-se rápido, socando o ar.

- Quem é, quem é? Que é que foi, vai encarar, vai?!

- Acorda, seu burro.

- Não enche meu saco, oh Kuwabara, acontece que eu não tirei minha sonequinha sagrada depois do almoço. - Yusuke pareceu voltar pra realidade, ainda meio zonzo. - Mas peraí, o Hiei ainda não voltou?!

- Não, ele não voltou, era pra ele ter voltado né? - Rin veio correndo até eles.

- Calma minha filha. - Yusuke abanou as mãos, rindo - Ele provavelmente deve ter encontrado algum monstro sedento de sangue e...

- QUE?!

- Eu tava brincando, tava brincando! - Yusuke tentou consertar, enquanto Rin se desesperava.

- Gente, mas realmente tá muito silencioso. - Observou Kuwabara - Ele não voltou, tampouco gritou...

- Sinceramente, vocês acham mesmo que o Hiei gritaria de encontrasse alguma coisa? Aposto que ele topou com um problema e quis enfrentar sozinho. - Disse Yusuke, rindo - Ele não tem jeito, aquele cara é marrento demais.

- Eu vou atrás dele! - Rin levantou-se com os membros rígidos, marchando decidida até a fresta, mas foi agarrada pelas costas por quatro braços.

- Parada aí, não vai de jeito nenhum! - Disse Kuwabara.

- Isso aí! Se te acontece alguma coisa a gente tá frito!

- Você é tão atencioso, Yusuke...

- Gente, espera. - Falou Kurama - Acho que ela deve ir.

- COMO É?! - Exclamou Kuwabara, sem largar a menina - Pirou foi, Kurama? Ela ir sozinha é perigoso demais, e nenhum de nós consegue passar por ali!

- Ela não poderá se machucar porque provavelmente os capangas de Shiroi sabem do perigo que representa o sangue dela.

- É, nisso você tem razão. Mas ainda assim, ela pode ser capturada, Kurama!

- Duvido muito. O Hiei não deve estar longe, e mesmo que seja arriscado não podemos demorar, Yusuke!... Rin, vá logo, mas tome cuidado! Se você não achar o Hiei, volte imediatamente, entendeu?!

- Entendi! - Ela bateu continência e livrou-se de Yusuke e Kuwabara. Correu até a fresta, espremendo-se, e sumiu de vista.

- Ai, ai, ainda acho que isso foi muito perigoso, Kurama... - Disse Kuwabara preoupado.

Rin não via um palmo na frente do nariz. À toda hora tropeçava numa pedrinha ou se ralava nas paredes que a comprimiam.

- "Má idéia, má idéia." - Pensou consigo mesma, com a cara cerrada, sentindo a falta de espaço e seu senso de claustrofobia começarem a se manifestar. - "Mas eu preciso achar o Hiei, ele pode estar em perigo..."

Ela avançou mais alguns passos e sentiu que as paredes se distenderam. Estava numa sala. Ela olhou para os lados, na escuridão, e viu um flashe de algo metálico se chocando contra alguma outra coisa.

- Outro invasor! - Ela ouviu uma voz sibilosa urrar.

- Sua luta é comigo! - Depois veio a voz de Hiei, e novamente ela viu aquele lampejo.

- Ah, que horror! - Ela arregalou os olhos, assustada - Ele está lutando com um monstro numa escuridão dessas?... HIEI! HIEI, VOCÊ ESTÁ AÍ?

- Parece que vieram atrás de você! - A voz sibilosa disse de novo, e ela sentiu que algo vinha em sua direção velozmente. - Os invasores devem ser destruídos! AAAAAAH!

- SAIA DAÍ!

Aconteceu muito rápido. Ela só teve tempo de gritar e proteger o rosto com os braços. No instante seguinte sua visão começou a ficar turva. Sentiu algo quente escorrer pela manga da roupa.

- Mas o que... - A voz disse novamente, só que dessa vez parecia ferida e fraca - Você é... A garota...

E o aposento encheu-se de luz de repente. Rin abriu os olhos e viu uma cobra gigante estirada no chão com uma espada cravada em sua cabeça. Viu a parede atrás dela explodir e por ela virem correndo Yusuke, Kuwabara e Kurama. A cobra estava derretendo, se transformando em um monte de larvas... Ela olhou para frente e viu Hiei encarando-a. Ele dizia alguma coisa, parecia gritar, mas ela não conseguia ouvir...

Branco.

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Acordou vários minutos depois. Abriu os olhos lentamente, zonza. Estava no colo de alguém. Olhou para cima. Era Kurama.

- Rin! Que bom que você acordou... Achei que não conseguiria neutralizar o veneno da cobra! Nossa, ainda bem!

- Q-que... que... que... que...

- Que houve? Que lugar é esse? Que foi que te atacou? - Kuwabara, ao lado de Kurama, começou à sacudí-la, tentando entender o que ela dizia.

- Que... Quero comer.

Kuwabara deu de cara no chão, e Yusuke surgiu por trás dele com um sorriso.

- Poxa que susto você deu na gente, ein! Essa foi feia!

Rin sentou-se lentamente, apoiando-se em Kurama. Ainda estavam na sala onde Hiei e a cobra lutaram. A parede que tinha a fenda, atrás dela, foi feita em pedaços, e o ambiente agora estava iluminado.

- O que aconteceu? - Ela perguntou, por fim.

- A cobra atacou você sem saber que era a garota humana que estava nas masmorras. - Disse Kurama - Ela mordeu os seus braços e injetou veneno antes que você começasse a sangrar. Mas assim que o seu sangue saiu e pingou no chão, a parede explodiu e a cobra se desmanchou.

- Assim como surgiram esses foguinhos legais. - Disse Yusuke apontando para pequenas bolas de fogo que flutuavam acima deles, responsáveis pela iluminação.

Rin olhou para seus braços. Estavam enfaixados também.

- Se o Hiei não tivesse matado aquele youkai cobra bem na hora, ele teria injetado tanto veneno em você que eu não conseguiria salvá-la. Sabe, ele ficou bem preocupado. - Disse Kurama, sorrindo - Acho que você deveria ir lá agradecer.

Rin levantou-se, com Kurama a ajudando. Olhou para os lados. Hiei estava sentado no extremo oposto da sala, sem a capa e com pequenos ferimentos pelo corpo. Tinha os braços apoiados sobre as pernas dobradas, e olhava fixamente para o chão.

Ela deu um passo hesitante, mas parou.

- Vai lá! - Yusuke cutucou-a.

- Já vou, não me apressa! - Ela retrucou, impaciente. Olhou para Hiei e tomou coragem.

- Eu vou com voc... - Kuwabara sentiu-se ser arremessado pra trás, caindo sobre os destroços da parede.

- Fica aí, seu mongolóide. - Disse Yusuke segurando sua cara com o pé, enquanto o outro se debatia no chão.

- Hiei? - Rin parou ao seu lado. Hiei não se virou, nem demonstrou qualquer coisa. Apenas ficou lá, parado. Ela suspirou, sentou-se ao seu lado, olhando pros cantos, disfarçando o constrangimento.

Ele encarava o chão como se nem sentisse a presença dela. Mas antes que falasse, Hiei falou primeiro.

- Espero que depois dessa você pare de se meter. - Ele virou o rosto frio para ela - Isso não é um jogo, você não pode simplesmente ir atrás de alguém assim.

- Mas você estava demorando...

- Pense na sua vida antes de tomar qualquer decisão.

Ele ficou calado de novo. Estava se sentindo extremamente irritado. Rin não media as consequências de seus atos e parecia realmente não ter idéia de que aquilo podia lhe custar a vida. Por que ela sempre se metia em tudo? Era tudo necessidade de aparecer?

Rin pensou bem no que falar. Mas afinal, não tinha o que pensar, era muito simples:

- Eu fiquei com medo que tivesse acontecido alguma coisa com você. Desculpe.

Hiei arregalou os olhos numa fração de segundo. Olhou para Rin, e ela agora olhava pro teto sem graça.

- Obrigada por ter salvo a minha vida. - Ela continuou, triste. Depois deu uma gargalhada. - Hohoho, de novo né? Que chata, eu!

Uma gota surgiu na cabeça de Hiei, enquanto Rin coçava a nuca, ainda rindo.

- Se não quer me dar o trabalho de salvar a sua vida, primeiro deixe de ser burra e pare de colocá-la em risco.

- Mas não teve problema, ficou tudo bem, não ficou? - Ela sorriu, feliz - Mesmo assim, prometo que não vou mais te atrapalhar. É um pacto, olha só, bate aqui.

Ela cuspiu na palma da mão machucada e estendeu-a. Hiei olhou pasmo do rosto de Rin para a mão cuspida.

- Você tem que apertar! - Ela balançou a mão, impaciente. - Cospe na sua também e aperta!

Hiei fechou os olhos e sorriu, achando graça. Não tinha jeito. Cada vez mais ele se convencia que aquela menina era uma completa estúpida e, ao mesmo tempo, muito diferente de todas as outras pessoas estúpidas que ele conhecia.

- Mfff que gracinha, olha lá!- Yusuke se segurava pra não cair na gargalhada, enquanto Kuwabara tinha uma careta no rosto.

- Mas que nojeira, ela é mesmo uma garota?

- Pessoal, acho que nós temos que nos preocupar com outra coisa agora! - Disse Kurama. - Temos que continuar nosso caminho, sinto que estamos chegando perto...

- É, Kurama, você está certo. - Concordou Yusuke. - Vamos nessa.

Yusuke pegou Kuwabara pela gola e saiu arrastando. Kurama foi atrás dele, e parou um instante, olhando para Rin e Hiei:

- Vocês dois, é melhor irmos em frente.

- Hm? Ah, certo. - Rin piscou, levantando-se enquanto limpava a mão que Hiei não apertara na blusa. Hiei colocava sua capa.

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