- Eles passaram por Jui e pelo youkai cobra, Senhor Shiroi. - Disse o demônio amarelo, encarando o telão.

- Estou vendo. - Shiroi apoiou o queixo sobre as mãos, pensativo - Eles dão mais trabalho do que eu pensava, principalmente esse Hiei.

- Eles estão cada vez mais perto, Senhor.

- Interessante. Realmente não esperava que chegassem à tanto. - Shiroi levantou-se, indo até o telão - Mas ainda assim, não chegarão até aqui.

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- Gente, isso não faz sentido... Faz? - Perguntou Kuwabara olhando ao redor pasmo.

Depois de andarem mais algum tempo pelas masmorras, de repente, ao virarem num imenso portal, pisaram sobre as folhas secas de uma densa floresta.

As árvores, gigantescas, formavam uma estrondosa copa acima de suas cabeças, escondendo a pouca luminosidade do ambiente.

Tudo o que se podia ouvir eram os distantes ruídos dos galhos balançando. O portal atrás deles brilhou, e em seguida desapareceu.

- Maravilha. E agora? - Perguntou Yusuke - Será que viemos parar em outra parte do Mundo das Trevas?

- Acho que não Yusuke - Observou Kurama - Ao que tudo indica, essa floresta é mais uma ilusão de Shiroi...

- Essa florestona?! Vishi Maria...

- Bom, lá vamos nós... - Rin fez menção de tirar uma de suas faixas.

- Não, Rin, espere - Kurama a deteve - Você acabou de ser atacada por aquele monstro cobra e está muito fraca. Não pode perder mais sangue agora.

- Por que vocês estão reclamando? - Bufou Hiei - É só continuarmos em frente que acharemos a saída.

- Não sei não, esse lugar é assustador. - Kuwabara cerrou os dentes, e em seguida sentiu alguma coisa se mexer embaixo do seu pé e de um pulo - AH MEU DEUS!

Um pequeno ratinho saiu debaixo da folhagem do chão, olhando pra eles assustado. Em seguida, saiu correndo.

- SAI de cima do meu colo, Kuwabara! - Yusuke empurrou o amigo com violência.

- É apenas uma floresta, não sei do que vocês idiotas estão com medo. - Hiei adiantou-se, deixando-os pra trás.

- Oh espera aí, seu chato! - Kuwabara desceu de Yusuke, seguindo Hiei eufórico.

Eles seguiram floresta adentro em um pesado silêncio. Rin estava tentando exorcizar a sensação horrorosa que aquele lugar lhe trazia, e Hiei estava ficando impaciente. Queria acabar com aquilo tudo de uma vez, mas algo lhe dizia que naquele ritmo não encontrariam a saída nunca.

Uma hora, duas horas... Há quanto tempo estavam andando? A floresta parecia cada vez mais longa, e Rin estava sentindo surtos de tédio. Então, abriu a boca, animada:

- Meeeeeeeeeeeeeeeu amor, cooooomo eu queria estaaaaaaar com vooooooocê nesse momeeeeeeeeentooo...

Os rapazes levaram as mãos aos ouvidos imediatamente.

- Toooooooooodo diiiiiiiiaaaaa é tãããõ vazioooo sem vocêêêê meeeeu beeeeeeem....

- O que ela está fazendo? - Cochichou Yusuke para Kuwabara com uma careta de dor.

- Cantando. - Murmurrou Kuwabara de volta, também zonzo - Eu acho.

- Tuuuuudo o que eu queriiiiiiiaaaaaa era vocêêêêê aaaaaaquiiii...

- Quer calar a boca?! - Fez Hiei, sem rodeios.

- Ah, vamos, cantem comigo! Meu amooooooooooooor, cooomo eu queriiiaaaa.... - Ela juntou as mãos, numa pose romântica - ... estaaaar com voooocê...

- A-Acho melhor nós apenas ficarmos assim, andando em silêncio, Rin... - Disse Kurama com um sorrisinho bobo.

- Oh, mas assim está muito chato! Vamos cantar.

- Vamos ficar calados. - Disse Kuwabara.

- Vamos deixá-la pra trás. - Grunhiu Hiei.

- Quem canta, seus males espanta. - Rin rebateu.

- Concordo, desse jeito nenhum mal se aproximará de nós! Eu mesmo não me aproximaria! - Fez Yusuke soltando fumaça.

- Vocês são rabugentos demais, uma musiquinha alegra o espírito e rejuvenesce a alma e... - Sua voz foi morrendo, e ela enfiou as mãos nos bolsos, emburrada.

- Oh gente, eu acho que tá ficando muito escuro. - Comentou Kuwabara, desviando o assunto.

Só então Rin percebeu que realmente estava escurecendo. Por baixo da copa das árvores a luz de uma lua vermelha como sangue começava a penetrar na floresta.

- Acho que nós precisamos parar um pouco. - Disse Kurama. - Temos que recobrar as energias. Estamos andando à muito tempo, e nosso inimigo é muito forte.

- Eu não preciso descansar não - Fez Yusuke arregaçando as mangas - Eu tô é muito pau da vida de ter que ficar andando nesse matagal e...

- Yusuke, é melhor nós seguirmos o conselho do Kurama - Disse Kuwabara parando bruscamente, fazendo com que Rin, que vinha atrás, desse com a cara em suas costas - Vamos parar pra descansar! Quando clarear nós continuaremos.

- Parar? - disse Hiei, aborrecido - Mas que idiotice, não precisamos parar!

- Você pode continuar sozinho, se quiser, Hiei. - Kurama sentou-se ao lado de uma árvore, encostando-se no tronco com uma expressão risonha - Mas caso você encontre uma ilusão mais perigosa lá na frente, não sei como vai se virar.

O rosto de Hiei se contraiu de raiva, e ele pulou, sumindo de vista. Rin piscou para o lugar onde ele desaparecera, confusa. Olhou para Kurama.

- Onde ele foi?

- Não se preocupe. - Riu Kurama - Ele vai ficar aqui por perto.O Hiei não seria tão idiota a ponto de ir sozinho.

- É menina, relaxa aí - Disse Yusuke, que se jogara embaixo de uma árvore na frente de Kurama, com as mãos atrás da cabeça - Vamos recobrar as energias e o que mais seja...

Yusuke, bocejou, enquanto Kuwabara se esparramava no chão ao seu lado, acomodando-se.

- Mas vamos ficar alertas. - Disse ele - Podemos ser atacados enquanto dormimos.

- Acho que Shiroi não é o tipo de youkai que faria isso. - Falou Kurama, virando de lado, e os três fizeram silêncio.

Rin ficou parada, surpresa. Eles realmente iam dormir numa hora dessas? Como conseguiam dormir num lugar como aquele? Se bem que, parando pra pensar, ela era a única novata ali, que nunca correra risco de vida ou qualquer coisa do tipo.

Suspirando, ela procurou um canto onde pudesse se ajeitar. Decidiu se encolher entre uns arbustos ali perto, apoiando-se nos galhos finos e quebradiços da planta.

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Seus braços ainda ardiam pela mordida do youkai cobra. Ela abriu os olhos sentindo o gosto de saliva velha na boca, e soltou um grunhido. Suas costas doíam terrivelmente. Ela cruzou as pernas, coçando a cabeça e olhando ao redor.

Levou um tempo até que sua visão se acostumasse ao escuro. Quando finalmente conseguiu enxergar, viu que Kurama, Yusuke e Kuwabara ainda dormiam. A floresta parecia sinistramente silenciosa, fora os roncos de Kuwabara.

Só então se deu conta de que estava completamente imunda. Abanou o uniforme com uma careta, levantando-se. Não conseguiria dormir mais. Olhou para os lados, pensativa.

-"Será que tem um lago por aqui?" - Ela encarou os rostos adormecidos dos rapazes e deu um longo suspiro - "Não vou incomodá-los com isso! Melhor eu me virar."

Com cautela, ela passou por eles à passinhos curtos, tapando própria respiração. Adentrou a floresta até que ficasse longe o suficiente dos três, e soltou o ar, tossindo. Soriru, vitoriosa, e voltou a caminhar.

O interior da floresta era ainda mais denso que na trilha. Ela tinha que afastar os galhos com os braços pra abrir passagem. Andou por vários minutos, e já ia desistindo, quando sentiu seu pé afundar em algo molhado.

Olhou para baixo e viu uma funda poça de lama. Seguiu o lamaceiro até que encontrou uma fenda entre a grossa folhagem. Passou pela fenda e, maravilhada, deu de cara com um vale que desembocava num pequeno riacho. Havia uma leve queda de cascata e a lua estava refletida na água escura.

- Vitória! - Ela ergueu os dedos, feliz, e caminhou até a água.

Tirou o sapato e a meia e mergulhou o dedão do pé num canto raso.

- ARGH! FRIA! - Encolheu-se imediatamente, com uma careta. Mas logo se recompôs, decidida. Tinha que se limpar, e rápido, porque uma espessa camada de poeira estava fazendo seu cabelo grudar. - Coragem!

Ela tirou o outro sapato e a outra meia. entrou na água até os joelhos, tremendo. Aproximou-se de um longo galho que se projetava de um lado e desfês o laço do uniforme. Tirou toda a roupa e pendurou-a ali, encarando a água negra receosa. Respirou fundo e adentrou o lago até o peito.

Imediatamente sentiu cada parte de seu corpo sendo fatiada sem dó, e seu rosto contraiu-se comicamente. Ela ficou paralisada vários segundos, esperando a temperatura amainar, até que por fim acostumou-se. Sorriu, mergulhando no mesmo lugar, borbulhando com a boca.

- O Mestre não disse que ela estava acompanhada? - Perguntou um monstro com asas de mariposa azul-ciano e um olhar malicioso, que observava a garota lá embaixo mergulhada na água.

- Parece que os companheiros dela não a estão vigiando como deveriam. - Guinchou o outro, que era idêntico ao companheiro, só que tinha as asas esverdeadas - Acho que deveríamos aproveitar!

- O Mestre disse pra não machucarmos ela. - Disse o primeiro, sorrindo - Mas não disse nada sobre não nos divertirmos um pouco, não é?

- Concordo!

Eles sumiram no escuro, com risadinhas esganiçadas.

Rin emergiu, passando a mão pelos cabelos molhados e encarando o estranho céu cor de sangue da floresta.

- Acho que já está bom. Melhor eu ir...

Ela dirigiu-se até o galho onde havia deixado suas roupas, mas não as encontrou lá.

- "Que estranho.." - Ela olhou ao redor para ver se não havia se enganado e colocado as roupas em outro lugar, mas nada.

Começou a se sentir extremamente desconfortável. Uma mescla de vergonha e desespero subiu-lhe pela espinha enquanto ela perscrutava a floresta em vão.

- Está procurando por isso, menina?

Ela olhou para trás assustada, e deu de cara com dois demônios que lembravam mariposas. Um deles segurava suas roupas e o outro, que falara com ela, tinha um olhar cheio de cobiça. Rin abraçou-se, afundando na água até o queixo.

- Isso é meu! - Ela gritou, raivosa - Passem pra cá!

- Como assim "passem pra cá"? - Riu o que segurava suas roupas - Não é muito cedo ainda? Deixe as roupas pra depois.

Os dois monstros saltaram das árvores até alcançarem a beira do lago. Rin deu um passo lento para trás, agarrando-se com mais força.

-"Ai Deus, me tire dessa também!". - Apavorada, ela observou os youkais adentrarem o lago com sorrisos malvados.

Ela viu um lampejo rápido à frente, e tomou um susto. No instante seguinte, os sorrisos dos youkais desapareceram. Mais um segundo e seus corpos se fizeram em pedaços, espirrando sangue pra todo lado. Caíram com tudo no chão, espalhando-se pela água.

Num gesto automático, ela saltou da água e pulou para umas rochas próximas da cascata, olhando enojada para os restos dos youkais que começaram à boiar pelo lago.

- Éco, éco...

Sentiu tudo ficar escuro, e piscou, desentendida. Tirou o tecido do rosto e olhou para frente.

- Cubra-se. - Disse Hiei, de costas pra ela, sem emoção.

Ela ainda demorou algum tempo para processar o que havia acontecido. Depois de finalmente ter entendido, ela arregalou os olhos.

- Hiei! Você...

- Eu não sei porque perco meu tempo com isso. - Com as mãos nos bolsos, ele observava o céu, ainda de costas para ela. - Estou começando a acreditar que você quer mesmo se matar.

- É claro que não! É que você...

- Não venha agradecer de novo.

- Mas... Você...

- Já se cobriu? - Ele perguntou, impaciente.

- Você... - Rin terminara de vestir a capa dele, parecendo estar em conflito com as idéias em sua cabeça. Por fim, ela parou de gaguejar, erguendo os olhos dilatados - VOCÊ ME VIU PELADA!

Hiei piscou. Virou a cabeça para ela lentamente, e sentiu uma pedra colidir-se contra seu olho com tudo. Imediatamente levou a mão ao rosto.

- O que você pensa que está fazendo?! - Urrou, apontando para a menina visivelmente ofendida.

- O que você pensa que está fazendo! - Gritou ela de volta, enlaçando o próprio tronco indignada - Você me viu pelada!

- Mas como você é idiota, eu acabei de te salvar da morte outra vez!

- E daí?! Se você apareceu aqui é porque estava me espiando! Seu tarado!

- O q..

- TARADO, TARADO, O HIEI É UM TARADO!

- Mas você é realmente... - Hiei grunhiu, sem palavras, saltando para longe um galho - Vista-se logo!

Rin ainda parecia bem aborrecida, mas saiu do lago usando a capa dele para se cobrir. Pegou suas roupas, que ficaram caídas no chão, e lançou-lhe um olhar desconfiado.

- Não olhe pra cá!

- Eu não tenho o menor interesse. - Hiei deu um sorriso debochado.

Rin colocou de novo suas roupas, emburrada. Enquanto calçava as meias, olhou de esguelha para Hiei, e só então viu algo que não tinha percebido antes.

- O que é isso no seu pescoço?

- Hn?

- Isso - Ela apontou para as pedras preciosas penduradas no pescoço de Hiei - Essas pedras... Por que você as usa?

- Não é da sua conta. - Ele puxou o colar das duas pedras para dentro da camisa, sem voltar-se para Rin.

Rin prendeu os cabelos, terminando de vestir as meias sem tirar os olhos dele, sentado num galho lá em cima.

- Eu me pergunto quantos mistérios envolvem a sua vida, Hiei. - Ela disse - Só agora eu percebi que realmente não te conheço.

- A minha vida não é tão interessante quanto você pensa. - Ele fechou os olhos.

- Uma dessas pedras... - Ela cutucou o próprio queixo - É da Yukina?

Hiei abriu os olhos rápido.

- O que você disse?

- N-Não fique bravo, foi só um chute! - Ela ergueu as mãos bobamente.

- Como você soube disso?

- Ahá, então eu acertei! O Kurama me disse que vocês dois são irmãos. Então eu deduzi que talvez fôsse um presente dela.

- Ela não me deu isso. - Hiei puxou de volta uma das pedras preciosas, observando-a.

- E porque você não devolve?

- Não é da sua conta.

Hiei decidiu que estava começando a revelar coisas demais. Era melhor ficar calado de uma vez antes que aquela conversa chegasse num ponto mais desconcertante. Já era demais ela ter percebido que ele estava por perto vigiando-a, apesar de ela achar que fora uma espionangem.

- Filhinho, se não fôsse da minha conta, eu não perguntaria. - Ela começou a afivelar um dos sapatos - A Yukina me pareceu uma menina muito doce. Eu acho uma covardia da sua parte não contar a verdade a ela.

- O Kurama andou enfiando muitas besteiras na sua cabeça.

- Ele não enfiou nada na minha cabeça. Eu é que penso assim. Não sei se você está tentando protegê-la ou sei lá o que, mas está sendo muito injusto, isso sim.

- Hn. Ela não tem que viver na sombra de um irmão que só vive pela luta. - Hiei girou os olhos para Rin - Eu raramente vou ao mundo dos homens, então a minha existência não faria a menor diferença para aquela menina.

- Que idiotice, fala sério! - Ela ergueu a cabeça - Não importa se você só quer saber de ficar por aí dilacerando pessoas. Você está sendo um babaca egoísta.

Hiei não respondeu. Apenas ficou a encarando. Rin se balançou um pouco, incomodada com a falta de reação dele, e voltou a se concentrar na fivela do sapato.

Hiei ficou olhando de canto enquanto ela terminava de se calçar. Era impressionante como ela não media as palavras com ele. Era uma idiota, ele deveria matá-la ali mesmo e acabar com aquela dôr de cabeça.

- Não que eu esteja me metendo. Não, na verdade eu estou me metendo sim. Desculpe.

- Você fala demais. - Hiei saltou do galho, aterrissando ao lado dela com as mãos nos bolsos - Vamos voltar.

Hiei tomou o caminho de volta para a trilha onde estavam Yusuke, Kurama e Kuwabara. Rin ficou parada alguns segundos.

- Vai ficar aí?

- Não... Tô indo. - Ela balançou a cabeça, levantando-se, agora completamente vestida, e saiu correndo atrás dele. - Ah, é!

- O que é agora?

Ela juntou as mãos como num quadrado.

- Click. - Ela abriu um sorrisão - Essa ficou boa.

- Pare com isso. - Ele voltou a dar as costas, e eles seguiram o caminho de volta.

Rin ficou observando as costas de Hiei enquanto eles andavam. Então se deu conta de que ele não parecia uma pessoa triste ou ressentida. Também não era alguém feliz ou animado. Ele realmente só vivia pela luta? Como alguém podia se contentar com aquilo?

-"Ele parece satisfeito com o tipo de vida que leva. Uma vida vazia. O pior é que não consigo ver nada de desagradável nele, mesmo assim." - Ela concluiu, torcendo o rosto - É uma vida realmente vazia.

- Ainda não calou a boca? - Grunhiu Hiei, continuando em frente.

- Já calei sim. Só estava pensando numa coisa. - Ela coçou o nariz, aborrecida.

- Hm.

- Eu gosto de você, sabe. - Ela espirrou, terminando de coçar o nariz.

Hiei sentiu um rápido arrepio passar por sua nuca. Ele não ouvia uma frase como aquela com tanta frequência. Na verdade, não se lembrava da última vez que teria ouvido algo parecio.

Eles chegaram à clareira onde haviam parado. Yusuke e os outros ainda dormiam. Hiei pulou para uma árvore próxima sem dizer nada. Rin lançou-lhe um olhar desinteressado e sentou-se na relva, olhando para o céu,

Hiei sentou-se num galho e encostou no tronco da árvore sentindo aquele formigamento horroroso não diminuir nada. Observou Rin sentada na relva, olhando para a lua vermelha. Daquele jeito, ela era quase bonita.

"Eu gosto de você, sabe."

Ele contraiu o rosto, com raiva de si mesmo. Não gostava de se sentir desarmado daquela forma.

-"Ela não sobreviveria sozinha nesse lugar." - Pensou, e decidiu que era por isso que se preocupava com ela. Tudo o que ele queria era terminar logo aquela asneira e ir cuidar da sua vida. Se acontecesse alguma coisa com Rin, ela que se danasse.

Era isso, e ponto final. Hiei virou-se para o lado, fechando os olhos e dormindo.

Rin perdeu a conta de quantas horas se passaram. Não tinha o mínimo sono. A floresta agora estava mergulhada num silêncio profundo. Ficou bastante tempo repassando mentalmente suas considerações sobre Hiei até que, de repente, sentiu um cheiro bom no ar.

- Ein?

Ela olhou para o lado e, perplexa, deu de cara com um cachorro-quente em cima da grama. Piscou várias vezes para ele, então olhou para os lados sorrateiramente e se projetou pra cima com os olhos brilhando.

Abocanhou o cachorro quente feliz da vida, e então notou que um pouco mais adiante havia um copinho de sundae.

-"Sorvete!" - Sentiu sua alma inflar-se de alegria e largou o semi-comido cachorro quente para ir de encontro ao sundae. Logo ela notou que mais à frente ainda haviam vários outros doces e salgadinhos espalhados.

-"Um youkai que deixa essas coisas deliciosas jogadas por aí não pode ser mau. Oh, que felicidade!" - Ela pensava enquanto engolia freneticamente com uma viscosa baba saindo da boca.

A trilha de comida ia adentrando a mata...

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