Imagino a vida como um tango
Numa dança sensual contigo

Quando me afastas bruscamente
De seguida me abraças
Com pétalas de rosa me envolves

Neste vai vem de sedução
Imagino a vida como um tango
Em noites à média luz
Perdida na voz do coração

Este tango que danço contigo
Sensualmente em azul
Tem penumbras de breu
Em amanheceres poentes

Tango sensual
Tu em mim
Rosa nos lábios
Rodopiamos sem fim

E na calada da noite
Os corpos se unem
Nas caricias de um beijo

Tango, a minha vida é um tango
Em que te afasto
Te abraço de seguida
Com pétalas de rosa te envolvo

(Autoria: "Beijo Azul")

Capítulo 12 - Lágrimas y sonrisas

Milo não conseguia pensar em uma forma decente para agir naquela situação. Andava em círculos pelo quarto tentando formular alguma frase decente. Mas as palavras não apareciam. Olhava para o corpo dele deitado na cama, sem saber descrever aquilo ou como agir. Nunca passara por isso. Os olhos inchados, tanto pelas lágrimas contidas, quanto pela noite sem dormir, o olhar para um ponto qualquer no teto. Vazio... Ele parecia vazio.

Chamava seu nome, fazia perguntas, tentava animá-lo. Em vão. Nem mesmo quando solicitou que o serviço de quarto lhe enviasse a maior taça de sorvete disponível. Mu não se importava. Seu corpo estava ali, mas ele não.

- Milo – Sentiu a mão delicada repousar sobre seu braço, chamando sua atenção – Não adianta. O melhor é deixá-lo sozinho um pouco.

- Mas eu queria fazer algo, ele não pode ficar assim.

- A Marin tem razão, ele só está assim por que o Shaka foi embora. É impossível dizer o que sentimos quando perdemos alguém e cada um reage da sua forma.

- Então quer dizer que você tem coração, gatinho?

- Alguma vez disse que não tinha? - Abraçou a garota pelas costas, beijando-lhe o rosto enquanto ela sorria.

- Com ou sem coração, é melhor ir agora. Preciso ir para minha aula e você trabalha também. Além disso, Milo e Mu precisam descansar um pouco.

Despediram-se e combinaram de se encontrar mais tarde. Todos haviam acordado bem cedo para ir ao aeroporto. Não que fosse necessário, mas Milo não queria que o amigo estivesse sozinho e Aiolia se prontificou a levá-los. Marin, por estar na casa dele também, resolveu ir junto.

Haviam passado a noite em claro na casa do leonino, juntamente com Camus. Mas esse decidiu que seria melhor ir para casa e tentar descansar um pouco antes do trabalho, quase não havia dormido e sentia-se um pouco por fora entre eles. Milo tentou convencê-lo, mas em vão. Então, ficou decidido que se encontrariam a tarde, na Andrômeda, de forma que, Milo também poderia descansar um pouco pela manhã.

Mas ele não conseguia. O estado do amigo não permitia.

Era irônico. Mu o ajudara tantas vezes e ele nunca precisou fazer nada por ele e agora que estava ali, não tinha a menor idéia de como agir. Por que Mu tinha que ser tão sentimental? Ou talvez fosse o contrário, já que ele não demonstrava nada naquele momento!

Logo que saíram do aeroporto, conversaram um pouco e o ariano disse que estava tudo bem, que já sabia que seria assim desde o início. Era a fase da negação. Mas quando estavam no carro, do nada, ele pareceu entrar em choque e não falou mais nada até então. Até mesmo quando chegaram ao hotel, seus passos até o quarto foram automáticos. Talvez fosse a depressão. Ainda faltava a raiva, a barganha – não necessariamente nessa ordem – e, finalmente, a aceitação. Pelo menos era algo assim que ele lembrava...

O pior é que já estava realmente cansado! Havia dormido com Camus cerca de duas horas apenas, depois de uma noite bastante agitada. E se o francês não tivesse cochilado no seu ombro, era capaz de ter-se mantido acordado pelo resto da madrugada.

Esfregou a testa ao lembrar... Não queria imaginar o humor de Camus no trabalho pela noite mal dormida. Sentia pena dos alunos, mas pelo menos tinha certeza que ele havia se divertido. E Camus precisava mesmo se divertir! Começou a lembrar do fondue que prepararam, e de como sujou o rosto dele com o chocolate apenas para lamber depois. Em meio à reclamações, é claro!

Mas definitivamente, não era hora para se pensar naquilo! Precisava ajudar o amigo que ainda se mantinha na mesma posição, nem parecia ter notado a saída dos outros. Na verdade desconfiava que não reparou nem mesmo que eles estavam no quarto. Não conseguia mesmo entender aquele estado, tudo bem que o outro estava apaixonado, mas haviam combinado de se ver logo, não era o fim. Era apenas uma questão de tempo, então para que tudo isso?

Olhou em volta, tendo uma idéia: Mu amava música, talvez se ligasse o rádio ele pudesse relaxar um pouco e quem sabe, dormir. Escolheu um entre os canais de música na televisão e logo o som da melodia era ouvido pelo quarto. Só que alguns segundos depois, Milo percebeu que talvez aquela não fora a melhor idéia, visto que a música que tocava, era ainda mais deprimente que o clima instalado no aposento. Mas foi tarde demais.

"I can almost believe that you're real and it's love in my heart that I feel, but there's something between us, that can't seem to get through it all.

If I could only read your mind, I would know how to save you this time... With love, love is worth the fall..." (1)

A reação de Mu foi imediata, mas não a esperada. As lágrimas contidas não demoraram a sair, juntamente com um choro soluçado. Ele sentou na cama, abraçando as penas e enterrando a cabeça entre os joelhos... Como ele podia mudar tão rápido de um estado para o outro?

Em instantes, Milo estava sentado ao lado dele, pensando na melhor coisa a se fazer. Quando tocou os cabelos do amigo, achou até que seria agredido, tamanha força e velocidade que o outro partiu para cima de si. Mas foi apenas um abraço.

Sem saber o que fazer, Milo apenas deixou sua mão afagasse a nuca de Mu, enquanto sentia-se apertado pelo amigo, com uma força que ele desconhecia. Assim ficaria até que o ariano chorasse o que precisasse... Quem sabe com isso ele não se acalmaria e poderia, finalmente, dormir um pouco.

E entre o som do choro, da música e a tentativa de conforto, os dois nem ao menos se deram conta que um celular insistia em tocar no andar de baixo.

-oOo-

- Achei que só tiraria sua folga a partir de amanhã... Espero não estar te afastando muito do trabalho nos últimos dias.

- Que nada, Saga. As coisas por lá estão tranquilas, já te disse. Além disso, assim podemos organizar com calma os últimos detalhes. Já contactei aquele meu cliente que tem uma empresa de táxi aéreo e negociamos tudo. É só chegar na base aérea amanhã cedo.

- Perfeito. Mas depois quero que diga minha parte nas despesas. Incluindo os dois amigos que o Milo disse ter convidado.

- Claro que não! Eu convidei, esqueceu?

- Mas... - Antes que continuasse a reclamar, sentiu o celular vibrar em seu bolso, e ao ver o nome no visor, sentiu um misto de receio e curiosidade. - Um minuto, Olos.

- Saudades? Ficou enjoado do namoradinho e está à procura de outro?

- Cala a boca e me escuta, Saga! - Não foi difícil ver o quanto ele falava sério e preocupado – E em primeiro lugar, o que estou fazendo não é por mim, mas por alguém que amo... E por favor não comece a me dizer que não sou capaz de amar alguém além de mim mesmo.

E sem mais delongas, ele explicou a situação para Saga, que não só ficou preocupado, como também, prometeu que o ajudaria fazendo o que fosse necessário.

Quando o aparelho foi desligado, Saga olhou preocupado para o amante e rapidamente levantou-se da mesa em que tomavam café na casa de Aiolos, vestindo sua camisa, que já estava jogada sobre uma cadeira.

- Acho que a sobremesa do café da manhã vai ficar pra depois. Preciso sair. Vamos logo e no caminho te explico tudo.

- Acho que tem alguém aqui ficando guloso demais...

- Impossível resistir à uma boa comida grega. Ainda mais quando se sabe o quanto é gostosa! Mas não tem problema, quando voltar eu como em dobro pra compensar!

-oOo-

Afrodite havia ido ao Free Shop para comprar alguns chocolates, deixando Shaka sozinho com o namorado. Aquela era uma situação a qual os dois detestavam, mas por motivo de força maior, aceitavam.

Shaka estava perdido em seus pensamentos. Chateado, sim, mas sabia desde o início como seria. A noite anterior junto com Mu fora maravilhosa. Não apenas pelo sexo, mas também pela forma que se divertiam e apreciavam a companhia um do outro. Shaka sorriu maldosamente ao lembrar como saciou a fome por doces de Mu. Jamais esqueceria o prazer que sentira com a mistura do frio do sorvete e o calor da língua do namorado em sua pele.

Haviam planejado um novo encontro assim que fosse possível, mas o quanto teria que esperar? Será que aquele sentimento gostoso duraria até então? Era melhor não pensar nisso e deixar tudo acontecer. Se fosse apenas uma paixão motivada pelas férias, ou um amor que duraria por anos, só o tempo poderia dizer.

Um aperto grosseiro em seu braço fez com que voltasse a se concentrar na realidade, ou melhor, no que o maldito carcamano falava.

- Não vai responder, moleque?

- O que dizia? Me perdoe – Usou um tom fingido e quase debochado – Estava aqui pensando qual seria minha cor preferida...

- Humpf – Resmungou, não se importava com o jeito irônico de Shaka – Acho bom começar a ser mais educado, agora que vai ficar em minha casa por um bom tempo não vou tolerar mais que fique debaixo das asas do Fiore e...

- Como? Acho que estou ficando surdo também... Em momento algum disse que desejava conhecer sua casa.

- Então ele não te contou? Estamos indo direto para Milão. Afrodite aceitou uma proposta por lá e vamos morar juntos. Infelizmente terei que aturar sua presença, já que seu querido primo não quer te deixar para trás.

- Acho que preciso mesmo visitar um médico quando chegar em casa... Está pior que pensava...

- Médico? O que está sentindo, querido? - Afrodite voltara conseguiu ouvir o que o primo falava, ficando preocupado.

- Esse... Seu namorado! Por um momento o ouvi dizer que eu teria que conviver sobre o mesmo teto que ele na Itália. Acho que estou ficando surdo!

Se Shaka pudesse enxergar, veria que o primo ficou pálido e olhava de forma mortal para o Máscara.

- Nem me olha com essa cara! Que culpa eu tenho se você não disse nada ao moleque?

- O que eu faço ou deixo de fazer com ele é problema meu! Já cansei de dizer pra não interferir nisso!

- Ia esperar desembarcar pra falar pra ele?

- E se fosse? Qual o problema?

- PARA! - Shaka já estava confuso e chateado demais com aquilo, acabou levantando a voz para chamar a atenção antes que aqueles dois começassem a brigar – Afrodite... Por que não me disse nada?

- Ora queridinho... Foi tudo decidido ontem, não tivemos tempo pra conversar! É uma ótima proposta que recebi na Itália, não pude recusar. E claro que você tem que ir comigo, já que não consegue viver sozinho...

- Talvez se alguma vez o que eu penso fosse levado em conta, eu já tivesse aprendido...

Shaka levantou e tentou caminhar para longe deles, mas foi impedido pelo primo que o segurou.

- Me solta!

- Onde pensa que vai? O nosso vôo já vai sair!

- Vou embora, oras... Não quero ir pra Itália!

- Ótimo! - Comemorou Máscara.

- Nem pensar!

- Por que não? - Perguntaram os dois ao mesmo tempo.

- Você não tem pra onde ir agora! Esqueceu por acaso que estamos no salão de embarque?

- Isso não é problema nenhum, resolvo em um instante! - Prontificou-se Máscara.

- Pelo menos pra alguma coisa ele serve... - Shaka debochou.

- Vocês não estão falando sério, não é?

- Eu tô... Posso ficar até o Mu ir embora, quem sabe até mais, e depois volto para a Suécia. Pra Itália eu não vou!

- Mas você não pode ficar! Mal conhece esse garoto!

- Por que não? O moleque tem o dinheiro dele, Fiore. Se ele quer, deixa ele aí!

- Posso não conhecer o bastante ainda, mas com ou sem ele aqui, eu ficaria. Você parece não respeitar minhas escolhas ultimamente. E se quer saber, acho que vivendo sozinho ainda faria menos burradas que você costuma fazer...

Seu braço foi solto bruscamente e Shaka se afastou, pegando o celular no bolso e apertando o número que discava automaticamente para Mu. Mas por algum motivo ele não atendia o maldito aparelho. Máscara também se apressou em fazer algumas ligações e em seguida saiu para conversar com um dos oficiais do controle de embarque.

Shaka começava a se irritar. Precisava falar com Mu e avisar o que faria antes de seguir sem rumo para seu hotel, afinal, não sabia nem mesmo o número do quarto dele. Afrodite que até então só observava indignado, se aproximou e fez com que Shaka sentasse, depois tirando o próprio aparelho do bolso.

- Cala a boca e me escuta, Saga... - Disse furioso após respirar fundo.

-oOo-

Algumas batidas insistiam em martelar na cabeça de Milo, como se alguém esmurrasse a porta para tentar acordá-los. Sentou na cama esfregando o rosto com as mãos, tentando raciocinar para ver se era um sonho ou não. Após ver que o som não era fruto de sua imaginação e que realmente alguém batia freneticamente em seu quarto, levantou-se e caminhou em passos tortos até a porta, quase caindo quando passou pela escada. Já tinha uma ligeira idéia de quem poderia ser: Saga, é claro!

Abriu a porta sonolento, esfregando os olhos e achou que estava delirando com o sono. O que Shaka fazia ali? Não, aquilo só podia ser um sonho, eles haviam deixado o loiro no aeroporto poucas horas atrás, na verdade Shaka não podia estar ali, ele estava no avião!

Milo olhou confuso de Shaka para Saga e Aiolos. Vestindo apenas a calça do pijama e com os cabelos completamente bagunçados, seu estado confuso ficava ainda mais engraçado.

- Já estava quase chamando alguém para abrir a porta. Agora vou deixar ele com vocês, o Shaka pode explicar melhor o que aconteceu. Mas sugiro que descansem um pouco antes de tudo.

Saga passou a mala de Shaka para Milo e logo saiu, deixando os dois sozinhos.

- Olha, não precisa falar nada se não quiser, eu também não sou bom em ouvir e essas coisas. O Mu está dormindo, vou acordar e vocês conversam.

- Obrigado, Milo, mas não precisa. Prefiro que ele descanse agora, eu preciso passar na recepção e pedir um quarto pra mim.

- Que nada! Vamos acordar o Mu, depois você faz isso, venha – Encostou a mala em um canto e puxou Shaka pelo braço, seguindo para o primeiro andar – Cuidado com a escada...

Quando chegaram junto à cama, Mu ressonava pesadamente. Foi tão difícil fazer com que ele adormecesse, mas em um determinado momento, foi vencido pelo cansaço. Milo o chamou algumas vezes mas não obteve resposta.

Shaka então caminhou lentamente para frente até suas pernas tocarem a cama, tateou os pés de Mu e engatinhou pelo colchão, ficando deitado ao lado dele. Passou a mão pelo rosto de Mu e o beijou. O ariano rapidamente acordou e sorriu abobado.

- Shaka... Pelo menos nos meus sonhos eu ainda te vejo... - Disse sorrindo enquanto o abraçava.

- Você não está sonhando, Mu... Estou aqui. Quer que eu belisque ou prefere outro beijo?

- Argh! Que coisa melosa! Eu que não fico aqui, sou puro demais pra ver essas coisas! - Falou fechando os olhos e saindo batendo o pé pela escada.

- Olha! Até o Milo está no sonho, me caçoando como sempre, parece tão real...

- Hmm, pelo jeito acho que vou precisar mais que um beliscão ou um beijo, Mu!

E quando os lábios e língua de Shaka desciam pela barriga de Mu, já abaixo do umbigo, trazendo sensações únicas; ele começou a pensar na possibilidade daquilo realmente não ser um sonho.

-oOo-

- Finalmente tudo em seu lugar agora. Apesar de não gostar de Afrodite devo dar seus méritos dessa vez. Ele realmente fez o que era certo.

- Eu ainda acho estranho, mas também não quero mais confusão com aquela família. Do mesmo jeito que ele disse ter feito isso pelo Shaka, o que eu fiz, foi pelo Mu.

- Acha mesmo que isso vai dar certo? Eles mal se conhecem, Saga... Além disso tem as dificuldades do garoto.

- Se vai dar certo ou não já não é um problema meu. Mas espero que ele aproveite enquanto dure.

- Verdade... Mas acho que não precisamos nos preocupar com eles agora.

- Tem razão. Prefiro me preocupar em terminar meu café da manhã, minha fome ainda não foi saciada.

Saga disse com a voz rouca e sensual enquanto se aproximavam da porta do quarto. Como o corredor estava vazio, Aiolos tratou de atacá-lo com beijos enquanto Saga procurava a chave-cartão em seu bolso. Quando foi encontrada, a camisa do geminiano já estava aberta e bastante amassada.

Após fechar a porta, jogou o cartão em um lugar qualquer do chão e também partiu para o ataque. Beijavam-se freneticamente. As duas camisas já estavam largadas pelo chão e caminhavam até a cama, em um estado que poderia ser chamado de, literalmente, subindo pelas paredes.

Saga conseguiu livrar-se do cinto do namorado e caíram jogados na cama, sem ao menos se desgrudarem. Foi então que começaram a perceber algo estranho, muito estranho na verdade. O travesseiro não estava tão macio quanto de costumes,e pior, o travesseiro estava rindo! Como aquilo seria possível?

Ambos se afastaram e finalmente entenderam o xis da questão. Aquilo não era, nem de longe, um travesseiro!

- Então quer dizer que vocês ficam aqui nessa agarração toda e ninguém me convida? Assim vou ficar deprimido achando que não me amam mais!

-oOo-

Milo não conseguiu dormir muito, apesar de extremamente cansado. Desde que Shaka chegara, decidiu por deixar os dois sozinhos no andar de cima e tentou se acomodar em um dos sofás da sala de estar. Não teve muito sucesso em sua tentativa de dormir novamente e após rolar inúmeras vezes em busca da posição ideal, decidiu que seria melhor dormir outra hora e fazer o que sua cabeça tanto insistia.

Por que não conseguia tirar o ruivo da sua cabeça? Certo, não era apenas pela beleza estonteante que Camus possuía, era algo mais. Ficava maluco só em pensar nos beijos franceses e na forma que se abraçavam quando ficavam juntos. Mas acima de tudo isso, o que mais sentia falta, era da simples companhia dele. Das conversas, dos gestos, do sorriso... Sentia falta até de dançar o maldito tango com ele. E não era apenas como uma forma de aproximação forçada!

Em um impulso, levantou-se e caminhou lentamente até o quarto, cuidando para não fazer barulho. Vestiu uma calça jeans e uma camiseta sem mangas, logo em seguida calçou o tênis e pegou um casaco. O quarto estava com pouca luz, mas podia ver que Mu e Shaka dormiam abraçados, sorriu. Estava feliz pelo amigo, mas sabia que aquela era uma situação temporária, logo Mu teria que passar por uma nova separação. E dessa vez não seria por apenas algumas horas.

Borrifou uma quantidade exagerada de perfume, pegou sua carteira, celular e saiu silenciosamente. Olhou o relógio, ainda faltava um pouco para a hora do almoço, mas quem sabe, Camus não aceitaria lhe fazer companhia.

-oOo-

Os alunos da turma de ballet já não sabiam por quem deveriam fazer suas preces. Já estavam acostumados com o mau humor ocasional do professor, mas não daquele jeito! A tolerância de Camus nunca estivera pior.

Quando chegou, não respondeu a nenhum "bom dia" recebido e ao invés disso, olhava de uma forma como se pudesse congelar quem ousasse lhe dirigir a palavra. No início da aula mandou todos para o aquecimento na barra, o que seria rotina se não tivessem feito o triplo de exercícios que costumavam fazer. Esses eventos foram seguidos por uma série de outros nada comuns: Isaac foi obrigado a pagar cem flexões por ter pedido permissão para beber água. Shina foi mandada para mais um turno de aquecimento já que reclamou de dor na perna. Shun foi obrigado a trocar de roupa, já que Camus não gostou da camisa rosa que ele usava. Hilda foi expulsa da sala porque sorria. E como se não bastasse, ele acabara de trancar Hyoga, Shun e Isaac no depósito de material de apresentações que ficava numa pequena sala ao fundo, dizendo que só sairiam de lá após resolver todos os problemas pessoais.

Agora sim parecia que a paz reinava em sua sala! Os alunos que restaram não ousavam mais contrariar e desobedecer as ordens daquele bailarino ditador. O problema é que como os principais na peça que ensaiavam estavam ausentes, restou para eles esquecer o ensaio e focarem apenas em mais exercícios. Até mesmo June havia desistido de encarar a fera dentro de Camus e saíra da sala antes que se aborrecesse.

Ahh sim! Descontar seu mau humor nos pobres alunos era tão agradável! Todos eles ficariam com os ossos e músculos doendo, assim também teriam uma péssima noite de sono! Pensando bem, tinha valido a pena. Sua noite estava muito longe de ser considerada péssima. Talvez o mal humor fosse por ela ter acabado e agora tinha que estar de volta à rotina e não nos braços de Milo, como tinha acordado horas atrás!

Ouviu a porta da sala ser aberta e já se preparava para o ataque ao desaforado que se atreveu entrar ali, quando percebeu de quem se tratava. Trajando nada mais, nada menos que um tutu amarelo-ovo e uma camisa preta sem mangas, bem justa ao corpo, Milo entrou saltitante na sala. Os alunos ficaram chocados... Aquele ser devia ser realmente sequelado para entrar em uma aula de Camus daquela forma. Ainda mais quando o humor do professor em questão estava naquele nível! Mas, mais surpresos ainda ficaram quando, por algum motivo estranho e desconhecido, o ruivo não gritou, xingou ou tomou alguma atitude diferente de cair na gargalhada.

- Mi... Mi... Lo... - Camus gaguejava, tentando controlar o riso – O que está fazendo aqui ridículo desse jeito?

- Poxa... Ridículo? - Fingiu-se magoado, caminhando para junto do espelho onde Camus estava encostado, e tentando ficar na ponta dos pés, juntando as mãos acima da cabeça - Eu só queria dançar ballet com você!

- Precisava... Disso? - Apontou para o tutu, caindo na gargalhada novamente.

- Claro! Tenho que entrar no clima, oras! A June tentou me emprestar a sapatilha também, mas não entrou no meu pé – Abaixou a cabeça e ficou batendo os indicadores um no outro.

- Vocês aí, estão dispensados por hoje, podem ir!

Tratou de trazer de volta sua arrogante e disse para os alunos que olhavam a cena curiosos. Que raio caíra na cabeça de Camus para começar a sorrir daquele jeito? E aquele loiro por acaso tinha algum instinto suicida? Assim que todos saíram e a porta foi novamente fechada, o ruivo se aproximou de Milo, tocando seu rosto e roubando um rápido beijo.

- Ridículo, Milo... Mas confesso que te ver apenas de cueca por baixo desse tutu não é de todo mal!

- Safado... - Milo sorriu, prendendo-o contra parede e beijando seu pescoço.

- Eu? Não sou eu quem está desfilando semi-nu por aqui! O que veio fazer? Sei que aula de ballet não foi...

- Queria te ver...

- Mas estava comigo até pouco tempo, deveria estar descansando...

- Eu tentei, mas aconteceram tantas coisas... Vamos almoçar? No caminho eu te conto...

- Tudo bem, só preciso pegar minhas coisas. Acho que você também deixou sua calça perdida em algum lugar!

- Verdade... Espero que suas alunas não a tenham cortado em pedacinhos para leiloar.

- Convencido!

- Eu posso!

- Assim faz parecer que é verdade...

- E não é? Mas me diga, onde quer almoçar?

- Não sei, Milo... Posso cozinhar algo lá em casa se você quiser...

- E você ainda pergunta se eu quero? Claro que sim, Cam-Cam! Vai me servir daquele café depois?

- Só se você prometer não acabar com o pote inteiro brincando, como na última vez!

- Prometido! - Cruzou os dedos sobre os lábios de Camus e deu um selinho, como para firmar uma promessa – Agora vamos que eu tô começando a ficar com fome!

-oOo-

- Em primeiro lugar, Kanon. Poderia me explicar o que raios está fazendo aqui?

- Ah maninho, sabe como é... Senti saudades! Tava um tédio lá na Grécia e pensei: "Se eles estão lá se divertindo, por que não posso ir também?" E então comprei a passagem e me mandei pra cá.

- Por que não poderia vir também? Ora, Kanon, foi o que combinamos! Eu viria e você cuidaria da empresa! Onde estava com a cabeça?

- Relaxa, Saga... Temos bons funcionários! E outra, hoje é quinta, domingo voltamos, segunda estaremos lá... Não vai acontecer nada! Ou não acha que também preciso de férias?

- Você estava de férias mês passado!

- Verdade... Tinha esquecido! – Kanon fez uma falsa expressão pensativa – Mas agora já estou aqui!

- E por que no meu quarto?

- Ahh... Eu sabia que estava hospedado aqui e queria fazer uma surpresinha. Então eu fingi que estava bêbado e havia esquecido qual era meu quarto. A moça da recepção foi muito simpática e veio até abrir a porta pra mim.

- Por isso me olharam confusos quando cheguei... - Pensou alto – Mas isso é absurdo! E sua mala? Não acharam estranho? Quanta falta de segurança!

- Que nada! Devem ter pensado que eu, quer dizer, você, precisou comprar uma mala nova pra guardar as tralhas que compra quando viaja e...

Aiolos apenas observava os irmãos, rindo. Anos passavam mas pareciam aqueles adolescentes que conhecera na faculdade, sempre discutindo, mas nenhum conseguia ficar muito tempo longe do outro. Sempre foi assim.

-oOo-

Milo estava excitado como uma criança que acabara de sair de um parque de diversões, falava empolgado, rindo, abobado. O que fazia Camus rir também.

- Você viu? Tava lotado! O pessoal até empurrava pra entrar e teve uma hora que quase cai, ainda bem que você me segurou!

- Milo... Já disse, não tem nada fenomenal em andar de ônibus!

- Como não? Eu adorei! Quando voltar pra Grécia não vou mais querer sair no carro!

Camus havia convencido Milo a não pegar um taxi e foram para sua casa de ônibus. Isso resultou em um escorpiano que não calava a boca durante todo o caminho do ponto até a casa do ruivo, descrevendo suas aventuras a cada curva e freada que o veículo lotado dava.

- E o botão que aperta pra parar? Adorei aquilo!

- Mas o motorista não, você apertava toda hora!

- Mas é divertido, Cami! Quero voltar pro hotel de ônibus também!

- Tudo bem, eu te levo de volta. Mas agora vamos entrar... - Disse sorrindo, enquanto abria a porta – Vou preparar o almoço, enquanto isso fique à vontade. Pode ficar aqui na sala ou no quarto.

- Mas eu quero ver você cozinhar! - Neste ponto, Milo já estava imaginando Camus na cozinha, com os cabelos presos em um coque, algumas mechas soltas, vestindo um avental e nada mais por baixo.

- Melhor não, prefiro que fique por aqui, vou ser rápido.

- Mas por que? - Perguntou fazendo biquinho.

- Me atrapalho quando tem mais alguém comigo na cozinha, prefiro cozinhar sozinho. Assim posso envenenar sua comida em paz! - Respondeu fingindo estar sério, mas sorrindo por dentro.

- Você não seria capaz!

- Quem garante?

- Tá bom, vou ficar quieto... - Milo falou baixinho, abaixando a cabeça e ficou mexendo o pé, como uma criança que acaba de receber um castigo.

Camus sorriu e beijou os lábios dele. Logo Milo foi para o quarto dele e ele ficou na cozinha, preparando medalhões com batatas sauté. Aproveitou para arrumar a mesa enquanto a comida cozinhava e percebeu que Milo havia tirado o tênis e adormecera em sua cama. Vendo que a carne ainda ficaria algum tempo no forno, decidiu tomar um banho rápido.

Banho tomado, roupas trocadas, almoço pronto e... Milo ainda dormindo! Tentou chamá-lo mas só recebeu resmungos em troca. O que poderia fazer? Bom, a comida podia esperar! Guardou tudo no forno e se acomodou na cama ao lado de Milo, afinal, também precisava de um descanso!


(1) A música é Love is worth the fall do O.A.R e foi escolhida com carinho pela Condessa Oluha! Muito obrigada por me ajudar aqui, flor! Segue a tradução:

"Eu quase posso acreditar que você é real e o que sinto em meu coração é amor, mas há algo entre nós que eu não consigo ver para que possa superar.

Se eu ao menos pudesse ler sua mente, eu saberia como salvá-lo desta vez... Com amor, o amor compensa a queda..."


Cafofo da Lhu

Tá... Não vou nem comentar sobre minha demora, havia prometido que não aconteceria novamente, me desculpem, sinceramente!

Acho que devo explicações para o capítulo... Não está faltando nada aqui, realmente estamos com um "buraco" na história. O capítulo 11 acabou na noite de terça (na boate;hotel do Shaka) e esse começou na quinta pela manhã... Sei que muitos deve estar querendo minha cabeça para saber o que aconteceu naquela noite entre Milo e Camus, mas isso logo será esclarecido! Mas já deu pra perceber que as coisas entre eles já estão bem diferentes... E bom, a idéia de fazer este salto foi da Athenas de Áries, então, podem bater nela! ;P

Aproveito também para agradecer a AA pela betagem relâmpago, a Oluha, por aturar meus surtos e me ajudar com idéias aqui (além de estar me deixando inspirada ultimamente... hohoho!) e a Pandora . Solo... Por aturar sempre também!

E beijos especiais para: Graziele, Naya Yukida, Leo no Nina, Dark Wolf, Mussha (não to conseguindo responder teus reviews com as mensagens particulares desativadas :(), Oluhita, Julia, PandoraPoiaSolo, Athenas de Aries, Nath Dragonessa, Lyta Moonshadow, Ana Jaganshi, Miss Nii, Muk-Mukuroo (vc deixou meus dedinhos tãooo felizes!), Mr. Devilish Blueberry e Mademoiselle Lillie... Muito obrigada a todos! Caso não respondi alguma, me cobrem! Ainda ando meio perdida com essas mudanças no sistema de respostas do site!

Ah sim, o título do capítulo significa "Lágrimas e Sorrisos", mas não sei de quem é a autoria original deste tango!

Beijos e até o próximo capítulo!


Lhu Chan
Julho de 2009