Rin ergueu os olhos para o sol escaldante, puxando a gola do uniforme.

- Mas que calor, será que esse é mais um plano maligno do Shiroi? - Perguntou ela em voz alta - Nos fritar?

- Finalmente! - Yusuke olhou o portão com raiva. - Já tava achando que essa floresta não tinha saída!

Os cinco pararam de frente para um enorme portão de madeira que se erguia no meio da trilha da floresta. Depois de quase meia hora andando no meio do mato sem encontrar nenhum obstáculo, não era uma surpresa, afinal.

- O que será que tem aí? - Perguntou Rin, observando a passagem.

- Não sabemos... - Disse Kurama - Mas parece que não está trancado.

- Então vamos ver logo o que é! - Disse Kuwabara adiantando-se.

- Espera, Kuwabara! - Disse Kurama, fazendo com que o outro parasse - Há um pequeno buraco ali em cima, veja!

Hiei, sem dizer nada, pulou, e os outros o obserservaram alcançar o tal buraco no portão com agilidade. Ele olhou pela abertura durante alguns segundos e voltou para o chão com as mãos nos bolsos.

- É uma legião de monstros. - Disse ele - De categoria D, provavelmente. Inúteis.

- São muitos?

- Milhares, eu diria. - Hiei piscou, sem emoção.

- Vamos entrar lá e acabar com a raça deles. - Disse Yusuke erguendo as mangas do casaco.

- Isso aí, vamos lá. - Concordou Kuwabara, pronto pra projetar a Reiken.

- Ah, peraí, gente, pra que essa matança? - Disse Rin, interrompendo-os - Talvez eles não estejam aí pra nos impedir de passar... Vamos resolver isso no diálogo.

- Rin, espera, não!..

Mas a menina já havia aberto o portão confiante.

- E aí gente boa! Queria saber se... - Uma adaga passou zunindo por cima da cabeça dela, arrancando alguns fios de cabelo, e ela fechou o portão rápido, encostando-se nele branca feito papel - Tudo bem, nada de diálogo!

- Não tem jeito, vamos estraçalhar esses infelizes. - Kuwabara adiantou-se.

- Certo.. É a única maneira de passarmos. - Kurama tirou uma rosa do cabelo, suspirando - Hiei, fique de olho na Rin.

- Por que eu?

Mas Kurama já havia aberto o portão, e eles entraram. Assim que se viram dentro do aposento, os monstros vieram pra cima deles. Rin achou muito esquisito o fato de eles saírem da floresta para de repente estarem dentro de um calabouço.

Hiei empurrou Rin com força bem à tempo de impedir que um youkai a atacasse, e a menina chocou-se contra a parede, assustada pelo empurrão repentino. Ele tirou a capa, jogando-a em cima de Rin. A menina agarrou a capa na hora, escondendo o rosto.

Todos os monstros estavam armados e tinham as formas mais assustadoras possíveis. Alguns eram patéticos, mas outros eram mais fortes. Kurama retalhava vários de uma vez com seu chicote de rosas, enquanto Yusuke também derrubava montes deles com seus socos. Kuwabara, animado, cortava ao meio todos os que alcançava.

- Ah, seu maldito! - Ele gritava enquanto os youkais iam sendo fatiados. - Isso é pela minha Yukina!

Todos os youkais pareciam estar atrás de Rin. Aqueles que conseguiam passar por Kurama, Kuwabara e Yusuke iam debilmente pra cima da garota, com os braços estendidos. Hiei os retalhava em frações de segundo, mas estava ficando trabalhoso, porque não podia deixar passar um sequer.

- Não fique aí parada, evite eles! - Berrou Hiei com raiva, cerrando espadas com um dos monstros.

- Eu tô tentando! - Ela balançava os braços com os olhos saltados, chutando a cara de um monstro que tentou agarrar seu pé - Sai de mim, coisa nojenta!

Então algumas portas que estavam dos lados da câmara se abriram e mais youkais invadiram a sala, atacando os rapazes.

- Mas que inferno, eles não param de vir! - Gritou Kuwabara irritado, lutando com dezenas - Eles parecem brotar do chão!

- Ê problema! - Yusuke usou o shotgan para derrubar os que iam em sua direção, mas outros vinham logo em seguida - Tá pior que chuchu caindo do pé!

- Temos que alcançar a saída! - Falou Kurama alto.

Hiei matou mais uns dois que tentavam agarrar Rin. Ela colava-se na parede, inquieta.

Kuwbara deu um golpe poderoso à sua frente, abrindo um bom campo de visão, e viu a porta da saída do outro lado nitidamente.

- Pessoa, eu achei! Por aqui! Rápido!

Na mesma hora, mais youkais invadiram a sala, e quase não havia espaço onde pisar. Kurama pulou atrás de Kuwabara, cortando mais e mais youkais. Kuwabara continuava abrindo caminho com a Reiken, e Yusuke, visivelmente sem paciência, simplesmente corria por cima das cabeças dos monstros.

Hiei virou-se para Rin e agarrou-a pelo braço, tirando-a dali na hora em que vários youkais ocupavam o lugar onde eles estavam. Ela sentiu o estômago dar uma cambalhota quando ele agilmente girou-a para frente, segurando-a com força, e aterrissou do lado de Kuwabara, praticamente de frente pra saída agora.

Eles tiveram que matar só mais alguns monstros que impediam a passagem e finalmente conseguiram sair. Fecharam a porta atrás de si ofegantes.

- Não é brinquedo não! - Declarou Yusuke, alongando os braços com uma careta - Essa foi dureza, vou te contar!

- Por que... será... que eles não vieram atrás da gente? - Perguntou Rin largando Hiei e colocando as mãos em cima dos joelhos, sentindo o coração acelerado.

- Uma espécie de barreira específica os prende aí dentro. - Disse Kurama erguendo-se e virando-se para olhar ao redor - Ao menos conseguimos sair. Parece que estamos novamente nas masmorras, mas...

- O que é isso? - Kuwabara piscou atordoado para a estranha luz que iluminava o ambiente onde estavam.

Era como se tivessem chegado em outra dimensão, totalmente diferente das masmorras. O corredor era iluminado por uma claridade azulada, o chão era completamente dividido em quadrados preto e branco, e as paredes ao lado não eram mais de pedra e sim de plástico roxo-vivo. O teto era preto.

- Que coisa mais esquisita. - Yusuke percorreu o lugar com os olhos - Chega me deu um enjôo agora.

- Parece o seu quarto. - Comentou Hiei olhando de esguelha para Rin, com um sorriso debochado.

- Você esteve no quarto dela? - Yusuke virou-se para Hiei - Hiei, não tô acreditando! Você? Caramba não achei que já tava nesse nível...

- Cale a boca, seu imbecil, eu só sei porque tive que deixá-la lá quando matei os youkais que a atacaram.

- Você acha que me engana é? - Yusuke balançou as sombrancelhas, com um sorrisinho.

- É, Hiei - Rin ergueu os olhos maldosamente - Conta pra ele da nossa romântica noite à luz de velas.

- Do que você está falando?!

- Caramba, esse lugar me dá arrepios - Kuwabara desviou a atenção deles, abraçando-se com a boca cerrada - Vocês não estão sentindo não?

- Realmente, estou com uma sensação muito estranha. - Disse Kurama, sério.

- Não tô sentindo nada. - Disse Rin, piscando.

- Lógico, deve estar acostumada. - Fez Hiei.

- Ei! Pro seu governo...

Antes que ela completasse a frase, o chão pareceu girar. Na verdade, o corredor inteiro girou, e eles ficaram de ponta cabeça. Kuwabara e Yusuke deram um berro desesperado.

- AH, QUÊ QUE É ISSO?! - Eles se abraçaram.

- Mas... que coisa mais maluca... - Rin estavam com vontade de vomitar, com caracóis nos olhos.

O corredor inteiro parecia ter se invertido e agora eles estavam de cabeça pra baixo mas, estanhamente, não caíram. Era como se seus pés estivessem colados no chão, que agora era teto, apenas seus cabelos e vestes pendiam pra baixo.

A saia de Rin teria caído completamente se ela não tivesse segurado a roupa com uma gota de desespero na cabeça. Ainda segurava a capa de Hiei também. Olhou para os lados e viu que ninguém parecia ter percebido, e suspirou uma fumacinha de alívio.

- Acho que temos que continuar assim mesmo... - Disse Kurama com seus cabelos ruivos espetados pra baixo, dando um passo. - Mas vamos com cuidado, estamos num território desconhecido.

Eles começaram a andar, mas fora Hiei e Kurama os outros pareciam estar tendo problemas. Yusuke e Kuwabara andavam tortos, com os olhos girando, e Rin tinha que segurar sua saia, a capa de Hiei e ainda controlar seu medo de altura. À toda hora erguia a cabeça, olhando para o que deveria ser o chão, sentindo seus joelhos amolecerem.

- Ai minha mãe clotilde, isso tá muito errado, ah se eu pego o desgraçado que inventou isso... - Murmurava Yusuke cerrando os dentes, com os olhos crispados.

- E-Eu concordo, Urameshi. - Disse Kuwabara com a mesma expressão.

Eles andaram por vários minutos. Rin contou vinte. O sangue que subia pra sua cabeça a dava um terrível mal-estar. Hiei olhou para ela com vontade de rir do seu desconforto. Nem fez questão de pedir a capa de volta. Ela estava realmente se esforçando pra andar, tendo que evitar que a roupa se soltasse do corpo.

Então aconteceu uma coisa mais absurda; o chão se desmanchou, e eles começaram à "cair pra cima".

Kuwabara berrou sem cerimônia. Os outros levaram um susto, apreensivos, enquanto sentiam o solavanco da queda.

- Tô subindo, subindo! Aliás, tô caindo, tô caindo! - Gritava Kuwabara se mexendo todo.

- Estamos todos caindo, seu idiota. - Fez Hiei, que continuava com as mãos nos bolsos como se não estivesse acontecendo nada.

Rin estava definitivamente enjoada agora. Tinha um sorriso bobo na cara, e via tudo girando.

Eles ficaram muito tempo caindo, sentindo o vento passar por eles rápido. Tanto tempo que até Kuwabara desistiu de se desesperar. Yusuke colocou os braços atrás da cabeça, entediado:

- Essa é a queda mais bizarra que eu já levei.

- Mas que coisa mais sem sentido, não vejo nada. - Kuwabara olhava pra os lados, vendo apenas a imensidão do espaço.

Então, do nada, eles pararam de cair, aterrissando no chão com estrondo. Levantaram-se, desentendidos. Estava tudo normal de novo, o chão era chão e o teto era teto, mas continuava aquela luz azul e aquele ambiente de cores fortes.

- Não entendi foi nada. - Yusuke levantou-se.

Os outros o imitaram. Na mesma hora em que se levantou, Rin viu sua visão turvar, como se enxergasse tudo em dobro. Ela desequilibrou-se, e deixou a capa de Hiei cair, quase indo ao chão também.

- Mas o q...

Ela olhou para os lados e viu que os outros também pareciam ter sentido. Kuwabara estava de joelhos no chão, segurando a cabeça. Até Hiei e Kurama tinham caretas no rosto. Yusuke cambaleava.

- O que tá acontecendo? N-não enxergo nada...

- Gostaram da minha brincadeira? - Eles ouviram uma risadinha estridente e irritante. Rin olhou para frente e viu a silhueta de um bobo da corte de pele verde e orelhas pontudas encarando-os boiando no ar, de cabeça pra baixo.

Rin segurou a boca, sentindo ânsia de vômito. Estava quase impossível ficar em pé. O enjôo era desesperador, um zumbido forte ecoava em seu ouvido e seu estômago estava embrulhando com a visão torta.

- Vocês não responderam. - Disse o bobo da corte aproximando-se - Gostaram? Aposto que sim.

- O-O que você fez com a gente, seu maldito? - Perguntou Kuwabara tentando se levantar - Quem é você?

- Ora, eu não fiz nada com vocês! É apenas o efeito do meu espaço quântico. - O bobo da corte girou, encarando-os com um sorriso malvado - Eu sou o Joker, e sinceramente não achei que vocês chegariam até aqui. Mas não tem problema; agora vão se divertir muito!

- Seu... - Hiei sacou a espada, mas acabou caindo com um dos joelhos. Enterrou a arma no chão para se apoiar, erguendo os olhos para Joker com uma expressão de ódio.

- Tsc tsc, não adianta, meu caro, hahaha! - O youkai riu, feliz, segurando a barriga - Mas não se preocupem, eu sou apenas uma criação do Mestre, já vou desaparecer. Mas para que entendam suas mortes, os sentidos de qualquer um que seja indesejável são confundidos pela minha realidade abstrata! Agora, morram em meio à confusão do meu Mestre!

O youkai fez um gesto com as mãos, desaparecendo, e tudo começou à se mexer. Então as paredes viraram borrões, e Rin viu um turbilhão de cores passarem na sua frente.

O chão virou do avesso, o teto virou parede, bolhas brancas começaram à surgir. Zonza, ela ouvia vozes e gritinhos em sua cabeça. Olhou para os lados e viu que os demais haviam desaparecido.

Ela gritou, mas ao invés da sua voz o que saiu foi uma cantiga de caixinha de música. Ela viu braços e pernas surgirem do nada, boiando, enquanto pequenas explosões aconteciam no ar. Sem controle do próprio corpo, sentia-se girar descontrolada. A capa de Hiei passou por ela velozmente, e ela pensou ter visto a cabeça de Yusuke aparecer no meio da baderna de sons e formas.

Ia enlouquecer, tinha certeza disso. Abraçou as pernas sentindo o pânico tomar conta dela. Sua cabeça parecia que ia saltar fora.

- "Eu tenho que fazer alguma coisa." - Ela pensou, enquanto ao seu redor o caos psicodélico dominava cada vez mais - "Eu tenho que... Tenho que.."

Então ela viu. À centímetros dela, a espada de Hiei estava cravada no que seria uma parede. A parede começou à se desfazer em pó enquanto coelhinhos passavam. Ela juntou todas as forças e esticou o braço, torcendo pra alcançar o cabo da espada antes que sumisse.

Alcançou. Segurou firme, puxando o corpo. Aproximou o outro braço e rasgou a lateral da mão na lâmina da espada com toda toda força que tinha.

O sangue jorrou como um esquicho, voando para o espaço maluco. Foi instantâneo. Imediatamente tudo começou a cair. Ela sentiu seu corpo ser puxado pela gravidade e agarrou-se ao cabo da espada para não despencar. As coisas sem nexo começaram à sumir e a luz começou a deixar de ser azul.

Ela sentiu um vulto passando rápido ao seu lado. Sem pensar direito, movida pelo impulso, virou-se e agarrou o vulto bem no braço. Na hora sentiu o impacto de suportar dois pesos, sem poder largar a espada cravada na parede.

Ela olhou ao redor e viu que as cores, sons e formas desconexas haviam sumido. Olhou para baixo e viu que agora estava num túnel escuro onde nem se podia ver o fundo. A pessoa que ela segurava era Hiei. Olhou para cima nervosa e viu que logo ali havia uma buraco na parede que levava a um corredor.

Hiei abriu os olhos lentamente. Piscou algumas vezes ao encarar o rosto de Rin contorcido de esforço, segurando-o. Pouco acima dela havia uma entrada na parede. Ele olhou para baixo e viu o despenhadeiro escuro.

Entendeu a situação na hora e pisou na parede, dando impulso pra cima. Fez tudo muito rápido. Agarrou Rin pela cintura e arrancou a espada, alcançando a entrada na parede.

Primeiro empurrou Rin para cima, subindo logo em seguida. Rin sentiu-se cair no chão firme e desmoronou, segurando a mão ferida com os olhos cheios de lágrimas. Quase arrancara um dedo.

Hiei tentou erguer-se com a ajuda da espada, olhando em volta. Kuwabara, Yusuke e Kurama estavam estatelados no chão, todos inconscientes. Sentiu seus joelhos cederem e tudo ficou escuro.

Desmaiou.

Rin viu Hiei desmaiar ao seu lado e viu que os outros também estavam ali. O buraco atrás deles se desmanchou, e no lugar dele surgiu a mesma porta por onde tinham saído da sala cheia de youkais.

O corredor era igual ao que estavam anteriormente. Tinham voltado pras masmorras. Ela arrastou-se até Hiei com os olhos tremulando de pavor.

- Hiei, por favor, acorda, por favor... Hiei, por favor...

Ele estava muito machucado. Tinha vários cortes e o rosto muito sujo. Ela puxou-o com delicadesa para o próprio colo, abraçando-o firme. Kurama, Yusuke e Kuwabara também estavam inconscientes. Ela aproximou a boca do ouvido de Hiei, sussurrando baixo.

- Hiei, reaja. Eu estou abraçando você, não está vendo? Você provavelmente detesta isso, né? Então me empurre, vamos...

Quando ia se afastar, de repente percebeu que estava perto demais. Sentiu um rubor tomar conta de seu rosto e uma tontura enorme subir-lhe a cabeça. Ela própria fora afetada por aquilo tudo. Sua visão começou a rodar.

Hiei abriu os olhos lentamente. Seu corpo congelou quando viu o rosto de Rin à milimetros do seu. Piscou, desentendido.

A última coisa que Rin viu foram as pestanas do youkai de fogo praticamente coladas nas suas. Seu corpo pendeu pra frente e ela caiu desacordada.

Hiei sentiu um choque térmico na hora.

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Mais um capítulo pronto, olê olê olá! Desculpem se ficou meio confusa a narrativa, me embolei um pouco pra descrever as coisas...

Obrigada pelas reviews, é muuuuuuuuuito bom saber que tem alguém lendo!#chora compulsivamente#

Até o próximo! \o