Rin piscou pra claridade. Mas que inferno, de novo?! Ela tinha que parar de desmaiar e acordar daquele jeito, se não jamais encontrariam Shiroi. Piscou de novo, e deu de cara com um teto claro. Não se lembrava disso nas masmorras. Devia ser o Joker de novo. Tinha que tomar cuidado. Tinha que cortar a própria mão.

Ela sentou-se rápida, agitando os punhos descontroladamente.

- RÁPIDO, as paredes vão sumir! Temos que desfazer essa ilusão! O Joker, cuidado! AH MEU DEUS E...

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Ela segurou a cabeça com lágrimas nos olhos.

- OH menina, tá doidona é? Pára com essa nóia! - Ela viu Yusuke desarmar o soco, sentando-se ao seu lado.

Ela piscou pela terceira vez, olhando ao redor, agora com a visão nítida. Estava deitada numa cama de um quarto grande, claro e agradável.

Estava rodeada de pessoas. Viu Botan com um sinal de vitória nos dedos, e Keiko também, com um sorriso de alívio. A mestra Genkai tinha uma expressão satisfeita no rosto. Sentados ao seu lado estavam Kurama, Yusuke e Kuwabara, e mais adiante havia um rapaz com uma chupeta na boca.

- Finalmente você acordou, dormiu por cinco dias, ein! - Yusuke abriu um sorrisão. - O Makai acabou contigo!

- C-Cinco dias? - Ela perguntou, desorientada - O-onde estamos? Cadê o youkai das ilusões malignas?

- Acho que ela tá meio atordoada. - Comentou Botan com uma gota na cabeça.

- O seu médico ligou avisando que você acordaria hoje. - Disse Genkai, sorrindo - Então trouxe todos.

- Nós estamos num quarto de hospital. - Explicou Kuwabara, erguendo o polegar pra ela. - Depois que derrotamos Shiroi, voltamos imediatamente.

- O portal foi fechado com sucesso e agora está tudo como antes. Os monstros continuam proibidos de passar pro mundo dos humanos, assim como deve ser! - Disse Botan animada.

- E nós temos que voltar pra vidinha de segundo grau. Estamos lotados de trabalhos. - Yusuke suspirou.

- Pára de reclamar, Yusuke. - Ralhou Keiko.

- É mesmo, sua mãe teve que chorar pra conseguir que você entrasse no último ano com a gente. - Kuwabara apontou o dedo pro outro - Mas nem se preocupe, nesse jeito você não vai se formar mesmo!

- No fim, deu tudo certo. - Riu Kurama.

- Você está de parabéns! - Disse o rapaz com a chupeta na boca. - Se não fôsse você, os rapazes não teriam completado essa missão com tanto sucesso. O portal foi desativado e Shiroi foi destruído, assim como suas masmorras e ilusões. Realmente, parabéns Rin, e muito obrigado pela sua ajuda...

Rin piscou para ele.

- Quem é você?

O rapaz deu com a cara no chão.

- Ô garota, sou eu, o Koenma! Só estou com outra aparência! - Disse ele com os olhos saltados.

- Ah, tá...

Então Rin lembrou-se de tudo o que havia acontecido. Eles conseguiram, realmente conseguiram! Ela olhou para todos com um sorriso enorme no rosto.

- Conseguimos!

Eles sorriram de volta. Ela nem acreditava. Como podia estar viva? Passou a mão pelo corpo e descobriu que várias de suas feridas já estavam boas. Ela só tinha uma enorme faixa enrolada no tronco, um curativo na bochecha e mais alguns pelos braços. Suas mãos tinham cicatrizes.

Então, sentiu um baque.

- Hiei! Cadê o Hiei?

Os outros pareceram sem graça.

- O que foi? O que aconteceu com ele?! - Ela pulou da cama, atirando os lençóis em cima de Kuwabara, que ficou cego e caiu da cadeira - Ele não está...

- Calma, filhinha, ele tá vivo! - Disse Yusuke segurando-a e fazendo com que sentasse na cama de novo - Acontece que nós, tipo assim, hehehe, esquecemos de avisar ele que você acordaria hoje.

- Esqueceram? - Ela perguntou com os olhos crispados.

- Okey, okey, nós não quisemos avisar!

- Mas por que?

Yusuke segurou a boca. Kuwabara também parecia empolgado e Kurama dava pequenas risadinhas. Botan e Keiko entreolharam-se piscando, e Genkai suspirou, sorrindo. Koenma adiantou-se, também rindo.

- Sabe o que é, Rin, eu vou te contar - Ele disse - O Hiei não esteve vindo te visitar com a gente, mas ontem uma enfermeira pegou ele entrando pela sua janela de noite.

- Dá pra acreditar?! Eu estive MORRENDO pra não zoar da cara dele! - Disse Kuwabara às lágrimas.

- Nós combinamos de fingir que não sabíamos de nada. - Disse Botan fazendo um sinal de cruz nos lábios - Então nós não falamos pra ele que você acordaria hoje. Provavelmente, ele veio aqui nas últimas quatro noites te ver.

Rin piscou, sentindo o rosto ferver.

- Ele terá uma surpresa quando descobrir que você já recebeu alta! - Disse Keiko, dando um sorrisinho.

Rin encarou as prórprias mãos, se esforçando pra não ficar vermelha.

- Bom, galera, isso aí, todo mundo já viu que a Rin tá numa boa! - Yusuke levantou-se, sorrindo animado - Agora todo mundo circulando que ela precisa descansar, vambora, circulando!

- Rin - Genkai deteve-se um instante - Hoje à noite Yusuke virá te buscar pra te levar em casa, então durma mais um pouco.

- Ein? Eu? Isso é trabalho pro namorado dela, eu não tenho nada a ver, mas que saco!

Eles saíram do quarto dando "tchauzinhos" pra ela, enquanto Yusuke ainda xingava baixinho. Rin retribuiu todos, e, quando se viu sozinha, começou à perspassar mentalmente tudo o que tinha acontecido.

Parecia surreal o fato de agora estar sentada numa cama. Sentiu um choque maior ainda quando, do nada, o telefone na mesa ao lado tocou. Ela deu um pulo com o susto, encarando o telefone como se fôsse uma coisa ameaçadora. Depois se deu conta da falta de senso e tirou o aparelho do gancho curiosa.

- Alô?

- É a Rin? - Fêz a voz do outro lado.

- É sim. Quem tá falando?

- Como assim quem tá falando?! O que você fez dessa vez, ein?! Eu estive morrendo de preocupação, como foi que você foi parar num hospital?! Quando você chegar em casa você vai ouvir poucas e boas, Rin! Rin?! Tá me escutando?! Responda e...

Bi. bi. bi.

Rin cerrou os olhos, com a mão ainda sobre o gancho recém-recolocado. Sua tia conseguia ser muito chata às vezes. Ela não estava com paciência praquilo no momento, tinha acabado de salvar o mundo de uma possível destruição em massa e fora muito estressante.

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- Então você esteve de olho nela, ein. Devia saber que ficaria bem, essa preocupação não teve muito sentido.. - Riu Mukuro, observando pela janela de seu aposento - E agora, provavelmente, você ainda vai descobrir mais sobre ela.

Hiei, com as pernas apoiadas sobre a mesinha, tinha os braços atrás da cabeça na poltrona.

- Posso saber porque?

- Porque você está curioso.

Hiei crispou os olhos, sem responder. Mukuro continuou sem se virar pra ele, parecendo distraída.

- Eu também estou curiosa, tenho que admitir. - Ela continuou - Por que esse interesse na menina, Hiei? O que ela tem que tanto te incomoda?

- Eu não sei do que você está falando. - Hiei virou o rosto, mantendo o tom displicente. - Ela não me interessa. Agora que isso tudo acabou, eu vou voltar para a patrulha.

- O que você ganha assim, Hiei? Você não precisa ficar preso a esse cargo, você sabe disso.

- Eu não tenho outra prerrogativa. - Ele não estava gostando nada daquela conversa.

- Já vi que você não vai facilitar. Mas me avise quando você descobrir o que está procurando. - Mukuro finalmente virou-se para ele.

- O que quer dizer com isso? - Hiei abriu os olhos.

- Quero dizer que, assim que achar suas respostas, me avise. - Ela foi até sua cadeira tranquilamente, sem tirar os olhos dele - Não achei que viveria pra ver você nesse tipo de situação. É bem engraçado.

- Você fala demais. - Hiei procurou dar por encerrada a conversa, mas dizer isso lhe trouxe uma estranha sensação. Ele tinha usado bastante essa frase nos últimos dias.

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- Isso aí filhinha, tá entregue. - Yusuke estalou as costas, observando a casa de Rin sorridente - De volta ao lar, é isso aí.

- Valeu Yusuke. - Rin fez uma pequena reverência, retribuindo o sorriso - Muito obrigada por tudo. A gente se vê no colégio, então.

- Vê se te cuida, ein, não arranja mais problema! - Acenando, Yusuke tomou o rumo de sua casa aos assobios.

Rin observou o colega se distanciar até sumir de vista. Soltou um longo suspiro e atravessou o portão, entrando em casa.

A primeira coisa que viu foi um borrão azul-escuro voando em sua direção. No instante seguinte, sua tia, vestida num kimono extravagante, debulhava-se em lágrimas em cima dela.

- Você quer nos matar do coração, é?!

- Calma, tia...

- Ah, oi minha filha!. - Shugo surgiu descendo as escadas, também em trajes formais.

-"Oi minha filha?!" - Urrou Shiina apontando para o irmão - A sua filha desaparece por dias e depois ligam dizendo que ela tá num hospital! E por que você não foi buscá-la quando recebeu alta?!

- Imaginei que ela viria com um dos amiguinhos dela. - Ele piscou, surpreso, como se Rin estivesse voltando de uma saída com a galera e nada mais.

- Tia, eu já estou bem. O que aconteceu é que eu tive um surto de catalepsia, sabe? Fiquei desacordada e tudo e..

- Você acha que eu sou burra é?!

- Catalepsia? Que interessante, querida. - Shugo aproximou-se alegre.

- Shugo!

- Digo, muito cuidado, filha, muito cuidado com essas coisas, isso foi muito feio. Você devia ter nos avisado...

- Desculpe. - Rin estava bem cansada pra dar explicações naquele momento. Nessas horas ela era muito grata por seu pai ser um homem tão disperso do mundo. Não fôsse Tia Shiina, ele provavelmente seria pior. Aquilo dava uma certa pena, porque ela sabia que aquele comportamento era fruto da morte de sua mãe.

- Querida, nós vamos dar uma saidinha, sua tia e eu. Vamos encontrar uns amigos. - Seu pai abaixou-se para ela, sussurrando - Eu fiquei preocupado com você, é sério. Mas alguma coisa me dizia que você voltaria pra casa. Suba pro seu quarto e tire uma soneca, está bem? Ah, é, te mandaram um presente, tá em cima da cama. Até mais tarde!

Tia Shiina ainda falou um monte de coisas antes de sair de vez com seu pai. Quando se viu sozinha em casa, ela subiu para o quarto em silêncio. Tinha tanta coisa pra pensar que se sentia meio tonta.

Entrou no quarto sentindo que fazia meses que estava fora. Pelo jeito sua tia tinha arrumado a bagunça, as coisas pareciam mais ajeitadas. Ela olhou para a cama e viu um imenso buquê de rosas brancas, com um cartão em cima.

Ela pegou o cartão sem muito interesse, rindo.

"Vê se melhora logo, pilantra."

- Esse Arashi...

Rin afastou as flores com cuidado, e se jogou na cama. Encarou o teto por vários minutos. Sua vida de repente estava muito estranha. Ela tinha passado por muita coisa num curto intervalo de tempo. Tinha conhecido outro mundo e outras pessoas. Era como se seu antigo cotidiano de música e basquete não existisse mais.

Shiroi fora derrotado, eles conseguiram! Aquilo era muito bom. Chega de ação, chega de sangue derramado pra todo lado. Chega de floresta, chega de masmorras, chega de Hiei.

Rin piscou. Chega de Hiei. Ele não gostava da sua companhia. Sempre ficava irritado quando ela estava por perto, então, provavelmente, nunca mais iria procurá-la. Mas ela poderia ir atrás dele, não?

Não, não poderia. Mesmo que achasse divertido ficar com ele ou que até tivesse sonhado que eles haviam se beijado, agora eles não tinham qualquer vínculo. Agora ele devia estar nas trevas, rodeado de monstros da laia dele, saciando sua sede de sangue, sem nem lembrar que ela existia.

- Pelo menos ele foi ao hospital. Deve ter sido peso na consciência por eu ter ido pra faca no lugar dele. - Ela sentou-se de novo, meio perturbada. Ainda se sentia dolorida, principalmente na barriga. Olhou para a porta da varanda e foi movida por um instinto automático. Abriu a porta e saiu para a noite clara, tirando os sapatos. Olhou para o pinheiro que se estendia adiante e sorriu.

Teve que tentar várias vezes até conseguir se içar ao alto. Quase teve um troço pra subir, mas quando conseguiu, sentou-se no galho feliz.

- Acho que acabei perdendo o medo. - Ela riu. Era muito esquisito ficar ali sentada sozinha.

Hiei observava do galho de cima, escondido no escuro. Agora entendia porque ela não estava no hospital. Ele observou a expressão calma da menina, quase boba, e se sentiu extremamente ridículo por estar espionando.

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