Capítulo especial

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- Aquele infeliz, onde é que ele se meteu?

Kuwabara encarou o lugar vazio ao seu lado raivoso, e virou-se para o outro aos cochichos.

- Urameshi. - Fêz ele, tapando a boca - Cadê aquele idiota?

- Eu sei lá Kuwabara, acho que ele não veio. - Respondeu Yusuke também baixinho.

A luminosidade vermelha do teatro fazia a platéia parecer menos cheia do que realmente estava. Fora o acento vago ao ladod e Kuwabara, todos os outros estavam ocupados.

- Você por acaso entregou o convite à ele?! - Kuwabara cutucou Yusuke de novo.

- É claro que eu entreguei, mas cê acha mesmo que o Hiei ia vir?! - Yusuke cerrou os dentes, torcendo o cenho.

- Botan. - Keiko, do outro lado de Yusuke, virou-se para a amiga preocupada - Você acha que ele não vem mesmo?

Botan não respondeu, apenas trocou um olhar significativo com Yukina, sentada entre as duas. Yukina olhou para o próprio colo tristemente, balançando a cabeça.

Rin olhou através da cortina pela quinta vez. Uma maestra vestida de preto se aproximou por trás dela, tropeçando na escuridão.

- Ei, menina, logo logo é a sua vez! - Cochichou a mulher no seu ouvido - Fique preparada, está bem?

A mulher se afastou, e Rin fechou a cortina tristemente. Caminhou para o fundo dos bastidores, dobrando alguns corredores por onde milhares de pessoas passavam correndo, cochichando impaciente umas com as outras.

Ela entrou no camarim e sentou-se na frente do espelho, encarando o próprio rosto. Os olhos estavam pintados de escuro.

- Escuro como os cabelos daquele chato.

Ela esmurrou a penteadeira, soltando um suspiro de raiva. Alguém bateu na porta e ela virou-se, sobressaltada.

- Como uma pessoa como você pode tocar piano? - Arashi tinha uma guitarra enlaçada no ombro, virada pra trás. Sorriu maldosamente, enquanto um pouco longe dali se ouvia um barulho estridente de aplausos - Eu arrasei, você não vai passar nem perto.

- Que bom, Arashi. - Fez Rin, desviando a atenção. Arashi ficou absolutamente revoltado por Rin não estar afim de discutir, mas logo percebeu a expressão triste dela.

- Ei, pilantra... - Ele aproximou-se cauteloso - O que há com você?

- Eu chamei uma pessoa mas ela não veio. - Rin continuou encarando seus olhos refletidos no espelho. Arashi coçou a cabeça, sem jeito. Depois de alguns segundos, o rapaz colocou a mão no ombro dela.

Rin virou-se, surpresa.

- Isso não tem nada a ver com você. - Ele puxou a mão de volta, e ergueu o polegar - Você fica bem melhor jogando graxa em cima de mim.

Rin não pôde conter um sorriso. Arashi sorriu de volta, e em seguida deu-lhe um soco nas costas que fez a garota se projetar pra frente bruscamente.

- Apesar de você ser quase um garoto você tem sentimentos né? E também ARGH

Arashi não continuou a frase, estatelado no chão com o pé de Rin afundado em seu crânio. A menina abanou as mãos e estirou-lhe a língua, saindo do camarim.

- Obrigada, Arashi. - Ela parou na porta um instante, enquanto o garoto caído tinha um tique na perna esquerda.

- "Agora, a pianista Rin Minamoto fechando a audição dessa noite". - Uma voz feminina ecôou pelo teatro, e Rin respirou fundo antes de subir no palco. Por fim, subiu nas escadinhas confiante.

Assim que viu o holofote sobre si se atrapalhou e caiu de joelhos. Virou-se para a platéia na hora, abanando os braços.

- Eu estou bem! - Berrou, e o lugar ressôou em meio às gargalhadas.

- "Não importa se você não veio." - Ela observou os diversos rostos que rolavam de rir de seu tombo. Uma platéia lotada. Apenas um acento vazio, ao lado de Kuwabara. Ela observou Yusuke e a turma, seus amigos do time de basquete sentados ao fundo do teatro, os demais colegas do colégio e sorriu, levantando-se. - "Não importa... Só isso importa."

Caminhou até o piano negro no centro do salão e sentou-se. Abriu o tapão e ajeitou a partitura. Era uma música linda e emocionante. A letra estava ali, mas ela só podia tocar.

Só podia tocar.

O silêncio tomou conta não só de todo o salão, mas dela própria. Como se seus dedos se movessem automaticamente, ela tocou a introdução da música lentamente.

Não importava.

Não importava se ele não estava ali.

A introdução ganhou corpo até iniciar uma melodia mais concreta. Aquele silêncio dela era um silêncio de paz. Vários minutos se passaram, e sua cabeça também ficou silenciosa. Até o som da música silenciou, e foi como se seus olhos se esvaziassem.

A música durou muito tempo, e ela nunca tinha tocado com tanta vontade.

Só mais cinco minutos e terminaria.

Não existe nada tão grande quanto você

Não importava.

Nem o mundo é tão grande assim

Aquele idiota.

Por que as pessoas exigem respostas?

Lembrou-se que tinha o convidado em cima da árvore. Aquele pinheiro enorme. Naquela hora, ela já sabia que ele nunca iria. Então, por que tinha esperado que ele, quem sabe?...

Você não é as coisas que mostra

Mas não importava.

Você é o que ninguém vê

Porque ela tinha passado coisas novas em pouquíssimo tempo, mas estava onde deveria estar. Podia voltar para sua antiga vida, e agora teria Yusuke e os outros por perto. Teria outras pessoas com quem contar.

Nem o mundo é tão grande assim

Podia se dedicar mais à música, ao basquete, aos estudos. Talvez assim ela alcançaria seu sonho um dia. Estava positivamente se lixando.

Ele não te cabe, nem te abraça

Ela não estava nem aí. Não importava se ele não estava ali mesmo.

As coisas que você gosta

Por um instante, olhando para as teclas do piano, ela pensou ter visto o rosto de sua mãe e sentiu vontade de chorar. Ela nunca tinha chorado por causa daquilo, e ficou surpresa.

- "Talvez seja porque..."

É o que você é

- "Talvez seja porque eu sinto que fui abandonada novamente..."

Você é o que ninguém vê em você

A música terminou com uma última nota demorada. Ela levantou-se com o coração acelerado. Por que não tinha visto aquilo antes?

As palmas começaram timidamente, como que chocadas.

Quando ficou completamente de pé, Rin assustou-se, levando a mão aos próprios lábios. As pessoas começaram à se levantar, e os aplausos tomaram uma proporção absurda. Assobios e gritos ecoaram.

Ainda com a mão sobre a boca, ela sentiu os olhos tremularem.

Olhou para a platéia surpresa, toda de pé. Yusuke gritava animadíssimo, e Yukina tinha os olhos cheio de lágrimas, com um sorriso gigantesco, aplaudindo com suas mãozinhas delicadamente. Botan e Kuwabara também urravam animados, e Keiko percebeu que ela olhava para eles e piscou os olhos feliz.

Os garotos do time de basquete assoviavam. O teto se abriu e uma chuva de pétalas de rosa caiu sobre o palco e sobre a platéia.

Rin riu, feliz. Nunca achou que terminaria aquela música, quanto mais que acabaria cantando um trecho dela e seria aplaudida daquela forma.

Ela acenou de volta para as pessoas, mandando beijos felicíssima. Arashi surgiu na beirada do palco, vaiando, e Rin atirou um dos sapatos nele.

-"Mandei ver, mamãe". - Pensou, rindo, enquanto as rosas que caiam por todo o teatro espalhavam-se no meio das pessoas.

Menos no acento vazio de Hiei, onde elas se concentravam num pequeno montinho. E ela tinha percebido, enfim. Seus olhos lacrimejaram, e por um segundo ela deixou de sorrir.

Mas foi só um segundo.