- Cadê aquela menina? - Yusuke segurava a mochila nas costas, coçando o nariz.
Eles estavam de fora do templo de Genkai, que por sua vez estava sentada na varanda com as pernas cruzadas, lendo um gibi. Kurama olhou ao redor também indagativo.
- Nós combinamos aqui às cinco e meia. Ela está vinte minutos atrasada.
- Ô Urameshi, aposto que você passou a informação errada pra ela! - Ralhou Kuwabara, que mal conseguia enxergar um palmo à sua frente por conta da montanha de toalhas, cestas e bolsas que carregava.
- Assim nós vamos perder o pôr-do-sol. - Keiko fez um bico, chateada.
- Vamos esperar mais um pouco. - Yukina juntou as mãos docemente.
No instante seguinte eles ouviram um berro.
-Pessoaaaal ! CHEGUEI!
Eles viraram na direção oposta ao pátio e demoraram para reconhecer o vulto que vinha correndo pela grama. Só quando a pessoa se aproximou deles ofegante, com as mãos nos joelhos, foi que eles perceberam a diferença.
- Rin! - Exclamou Keiko, surpresa.
Rin ergueu-se, sorridente. Seus cabelos, antes de um cor de rosa longo e liso, agora estavam tão curtos que mal lhe roçavam a nuca. Yusuke puxou uma mecha violentamente, fazendo com que Rin entortasse o rosto numa careta.
- Tá maluca, é minha filha?! Bebeu o que, ein? Cadê seu cabelo?
- Ai, Yusuke! - Rin puxou a mecha de volta, esfregando o cocoruto - Tirei pra lavar, não tá vendo?
- Você ficou parecendo um garotinho raquítico. - Observou Kuwabara cutucando o cenho, enquanto Botan pisava em seu pé com força.
- Larga de ser grosso, Kuwabara! - O rapaz deu um berro, pulando feito saci enquanto segurava o pé pisado. - Ficou muito bonito, viu, Rin?
Não, não tinha ficado muito bonito. O cabelo curto a deixara muito mais magra do que já era, mas ninguém fez mais nenhum comentário.
Eles tomaram o caminho da praia descendo a escadaria do templo contemplativos. Para os outros, aquele lugar já havia sido cenário de muitos encontros pós-missão e coisas afins. Mas para Rin ainda era novidade, e ela observava a trilha achando tudo simplesmente lindo.
Mas o mais bonito mesmo era o fim de tarde na praia. Quando eles finalmente alcançaram a areia branca, Kuwabara tirou os sapatos e saiu correndo, animado.
- OLHA QUE LINDO, YUKINAAA! VAMOS PEGAR CONCHAS PRA CELEBRAR O NOSSO AMOR!
- Mas que mala - Fêz Yusuke, carregando as bolsas que o amigo havia largado no chão para mais perto da areia - Kurama, me ajuda aqui, vamos acender uma fogueira.
Kurama acentiu, indo atrás dele. Yukina e Keiko foram atrás de Kuwabara, arregaçando os vestidos enquanto corriam felizes pelas ondas rasas que iam e vinham. Botan foi pegar alguns gravetos para a fogueira e Rin ficou parada, olhando pra eles.
Gostava imensamente de todos, apesar de terem se tornado amigos à pouco tempo. E apesar de tudo estar dando certo e de ela finalmente ter se libertado da obcessão por ser igual a mãe, faltava alguma coisa.
Ela ficou lá parada vários minutos, sentada numa rocha, um pouco afastada dos outros. Os meninos haviam acendido uma pequena fogueira em torno da qual Yusuke abria uma garrafa de saquê e Yukina ajeitava pequenas marmitas.
Ela estava prestes a se juntar a eles quando ouviu um farvalhar nas folhas atrás de si. Achou que tinha sido impressão, mas sentiu um pequeno arrepio e teve certeza que a observavam.
Ela virou o rosto lentamente à tempo de ver um vulto sumir entre os galhos.
Gelou.
-"Pronto" - Deduziu, aparvalhada - "Shiroi voltou dos infernos negros pra se vingar de mim!"
Respirou firme, pensando no que fazer. Decidiu ir lá ver o que era. Talvez fôsse apenas um esquilo e ela estivesse ficando doida. Se fôsse mesmo Shiroi, bom, era só morder a língua e cuspir na cara dele.
Ela adentrou o pequeno aglomerado de árvores piscando. Um silêncio tranquilo tomou conta imediatamente, deixando pra trás as risadas dos amigos na praia. Ela deu mais alguns passos até identificar o causador do barulho.
Ela parou, na hora. Não era um esquilo, nem Shiroi. Hiei estava sentado num galho baixo, de costas pra ela, e uma de suas mãos estava cravada na árvore com força.
Pareceu não percebê-la.
- Hiei? - Fêz ela, baixinho.
O youkai virou-se, surpreso. Assim que a viu, assumiu uma expressão de raiva profunda, e fez menção de levantar-se.
- Não, espera! - Disse ela estendendo o braço. Não tinha nada pra dizer, mas sabia que não podia deixá-lo ir embora - O que você está fazendo aqui? Achei que não gostasse de festas, e tampouco acho que você gosta de saquê ou...
- Do que está falando? - Hiei interrompeu-a, dando-lhe as costas de novo, levantando-se - Eu só vim dar uma olhada em Yukina. Vou voltar para o Mundo das Trevas.
- Por que não veio falar comigo? - Rin sentiu uma apreensão terrível crescer dentro dela, e teve certeza que aquele podia ser o último momento que estaria com ele.
Ela havia percebido na audição. No momento em que seus olhos se encheram de lágrimas.
De alguma forma, soube que ainda o veria. Da mesma forma, sabia que aquela seria a última vez se não fizesse alguma coisa.
O céu pareceu escurecer mais um pouco. Rin sentiu uma brisa fria.
- Volte para Yusuke e os outros. - Disse Hiei friamente, enfiando as mãos nos bolsos - Adeus, menina.
- Por que não foi na minha apresentação?! - Ela falou mais alto do que esperava, dando mais dois passos. Não se conteve, e agarrou a capa dele com força - Por que você aparece pra mim com uma desculpa qualquer e depois some, me deixando com essa sensação de que nunca mais vou te ver?! Você me realmente me odeia, Hiei?!
Para sua surpresa, à princípio, ele não se mexeu. Mas, no segundo seguinte, a capa foi arrancada de suas mãos com força e Rin nem teve tempo de raciocinar direito. Hiei sumiu e reapareceu bem atrás dela.
Estática, apenas sentia a proximidade do youkai, olhando pro chão. Não conseguiu se virar pra ele.
Rin continuou olhando pro chão, e o vento pareceu mais frio ainda.
- Desculpe... - Ela cerrou os punhos - Sei que você me odeia mesmo. Nem precisava perguntar. Só dei trabalho pra você desde que nos conhecemos, e agora sinto que vou te perder pra sempre e não consigo nem mesmo dizer alguma coisa que preste. Eu simplesmente nunca dou conta te fazer me levar à sério...
- Por que - Ele a interrompeu, calmamente - você tem esse efeito sobre mim?
Ela não entendeu. Levou alguns segundos para formular a pergunta, e começou a se virar lentamente. Encarou os olhos escuros e frios daquela pessoa tão diferente e percebeu alguma coisa que nunca tinha visto antes.
- Efeito? - Ela balbuciou.
Ela teve que dar um passo pra trás, porque Hiei adiantou-se firmemente. Agora ele estava muito próximo, e a garota sentiu as pernas vacilarem.
-"O que está havendo?" - Rin piscou, atordoada, sem conseguir dizer nada. O cérebro a mil por hora.
- Você é do tipo de pessoa que eu mais desprezo. - Hiei a observava profundamente. Mas agora, não ostentava raiva nem prepotência.
Parecia, na verdade, levemente curioso, e Rin arregalou os olhos ao perceber isso. O céu escureceu um pouco mais. Eles estava realmente próximos.
- Não me agrada o modo como você fala e nem a sua estupidêz. - Ele prosseguiu. - Garotas como você são inúteis. Você me faz perder a paciência, então por que penso em você todo o tempo e por que sinto esse formigar ridículo exatamente agora? Minhas perguntas são mais inteligentes que as suas, você não acha?
Ela não conseguia reagir. Escutava tudo completamente abobada, sem acreditar que Hiei pudesse pronunciar aquilo. O youkai estendeu a mão e tocou uma mexa de seus cabelos curtos e ralos.
Um silêncio incômodo se instalou. Depois de alguns minutos, ele deu-lhe as costas de novo.
- Se não pode me responder, então vou embora. - Disse - Não tenho mais nada a tratar com você.
Rin piscou, totalmente desentendida. E um monstro imediatamente despertou dentro dela.
- Vai embora?! Pára de me tratar feito criança, Hiei! Não entendo o que há com você! - Ela sentiu o rosto queimar. - Eu... Eu não sei porque você está falando isso assim, de repente... Mas eu já te disse, falo de novo se você quiser, eu gosto muito de você, gosto tanto que não consigo pensar em nada engraçado no momento, nem mesmo em você andando por aí com uma melancia na cabeça!
Ela parou de falar de repente, como se começasse a pensar na idéia. Hiei entortou o cenho.
- Está vendo? - Ele sorriu - A única pessoa estranha aqui é você. Eu não posso lidar com essa sensação, é desconhecida pra mim, garota. É melhor você sumir de uma vez, porque sequer tem as respostas que eu preciso.
- Você quer que eu te responda, então? - Ela estava disposta à impedir que ele fôsse de qualquer jeito - Ótimo! Você não sabe porque eu tenho esse "efeito" em você ou sei lá o que mais que você disse, pois eu sei! Isso é o que a gente sente quando gosta de alguém. Você também gosta de mim, então, não é? Não seja burro, tenho certeza que já sabe disso.
Ele não voltara o rosto para ela. Impaciente, ela tornou a puxar a capa dele.
- Hiei, olha pra mim, eu tô falando com você e...
Alguma coisa caiu delicadamente da capa do youkai. Ela arregalou os olhos. Uma pétala de rosa vermelha instalou-se levemente no chão da relva.
Rin soltou a capa, emocionada demais pra dizer qualquer coisa.
- Você estava lá. - Ela balbuciou - Então, você foi...
Hiei cerrou o punho. Na mesma hora, o tempo frio fechou de vez, e grossas gotas de chuva começaram a cair. Nenhum dos dois pareceu se importar.
- Você foi, você foi. - Repetiu a menina, tapando a boca e tentando segurar as lágrimas que começavam a brotar em seus olhos - Você não é um monstro chato e sem coração, você realmente estava lá pra me ver...
- Sim. - Disse Hiei antes que pudesse se segurar - E precisava ver a cena ridícula que você fêz. Cantando daquele jeito, dava pena. As pessoas te aplaudiram pra que não se sentisse pior. Foi a coisa mais deprimente que eu já vi.
Ela sentiu as palavras atravessarem seu peito em cheio. Suas lágrimas caíram de vez e ela lançou-lhe um olhar de profunda tristeza.
- O que?...
- Pare de se enganar, menina. - Hiei sorriu - O mundo não é bonzinho como você pensa, e nem tudo vai te fazer sorrir. Desista desses sonhos bobos. Eu não estava lá pra ver você, estava lá pra conferir se era capaz de tamanha burrice. Não insista no que não pode. É por isso que me sinto tão desconfortável perto de você, afinal...
Rin tapou os ouvidos. Os soluços entupiam sua garganta e enquanto Hiei falava era como se um muro de tijolos desabassem em cima dela. O grito veio por ser esôfago com toda a força.
- Cala a boca!
Hiei parou de falar, levemente surpreso.
- Cala essa boca! Você se acha o dono da verdade e da razão, mas não é ninguém pra magoar os outros assim! - Seus olhos estavam fechados com força, enquanto ela cuspia as frases engasgadas - Eu estou seguindo a minha mãe e, diferente de você, tenho coragem o suficiente para aceitar meus parentes comigo! Até mesmo os que estão mortos!
Hiei piscou. Rin deuy uma arrancada e saiu correndo na direção oposta, adentrando as árvores no meio da chuva.
O youkai sentia um aperto esquisito no peito. Um alívio enorme o invadiu ao ver que agora ela nunca mais iria procurá-lo ou atazaná-lo, afinal, ele a tinha ferido da pior forma possível.
Mas não foi um alívio bom.
E Hiei teve que segurar a própria capa na altura do peito, com uma careta de frustração. Uma mão fria encostou em seu ombro e ele nem se virou pra ver quem era.
- Vai atrás dela, seu animal. - A voz de Yusuke sôou calma e firme.
Hiei não sabia quando foi que Yusuke havia surgido por ali, mas sabia de uma coisa.
Ele estava certo.
Yusuke ficou com a mão pendendo no ar quando, de repente, Hiei sumiu de vista.
