Capítulo 2
Eu e ele – quero me livrar
Na semana que se passou eu simplesmente não consegui me concentrar. O que estava havendo comigo? Era aquele garoto... Ah eu não via a hora disso acabar e voltar a minha rotina. Quando chegou sabado de manhã, eu acordei meio tensa. Estava nas masmorras, no dormitório feminino da Sonserina. Eu tomei um banho demorado, olhando a agua quente caindo. Sai no roupão e veio a preocupação: o que eu vou vestir? Ah não. Isso já tava ficando ridículo. Por que de repente eu estava tão preocupada com o que vestir para sair com Sirius Black? Bom, não importa né?
Mesmo tentando ignorar esse pensamento, lá estava eu, escolhendo as melhores roupas que eu poderia ter. Duas meninas me olhavam de esguelha, provavelmente fofocando alguma coisa, mas elas não ousariam falar na minha cara. Elas me respeitavam, me viam como exemplo, minha reputação digna da Sonserina. Até hoje.
Coloquei um sueter marrom colado no corpo, uma calça caqui e minha bota de camurça, olhando-me no espelho até que me achei bonita. Meus longos cabelos castanhos, estavam, enfim arrumado (mas logo que ventar, já era), eles ondulavam nas pontas formando alguns cachinhos indefinidos. Bom, era hora. Coloquei meu casaco cinza, um cachecol laranja, e sai pelas masmorras, e todos os olhares da sala comunal eram para mim.
-Ela pos até batom... –comentou Amélia Parkinson com umas meninas.
-Dizem que ela vai sair com o Black traidor!
Regulus levantou os olhos do livro que estava lendo, ao ouvir o nome do irmão. Era estranho. Lembra que comentei que havia dado uns beijinhos? Então, um deles foi em Regulus Black, no meu segundo ano _ele era do primeiro na época _, ele me seguia de um lado pro outro, me admirava, e acabei cedendo. Eu olhei para ele, meio constrangida. Mas afinal, já se passaram três anos e, além do mais, eu não tenho e nunca vou ter nada com Sirius Black!
Segui pelos jardins, até o portão principal, e a sensação de ser observada pela escola toda realmente era constrangedora. Segui pela trilha que levava a Hogsmeade e ouvi alguém me chamando.
-Hei Lene, Marlene.- era Lily. Mesmo sendo a favor em quase todos os principios da minha Casa, não conseguia aceitar a aversão aos nascidos-trouxas, nunca concordei. E Lily era uma garota muito legal.
-Oi Lily. –eu disse, parando.
-Então, ta indo se encontrar com Sirius?
-Ah sim...
-Bom, boa sorte. –ela sorriu. Fomos andando juntas até lá, ela ia se encontrar com umas meninas da Grifinória.
-A gente se vê. –disse ela acenando, e eu retribui. Agora que estava perto, senti um frio na barriga. Calma, calma, não tem motivo para isso, já vai acabar! Cheguei a porta do Três Vassouras, lentamente, como se estivesse com letargia. E se os amiguinhos idiotas dele estiverem lá? Rindo, cochichando e apontando? Ah Deus... Eu fiz uma cara de choro, já estava para dar meia-volta.
-Lene! –ele gritou, lá de dentro. Eu olhei, ele estava sentado numa mesa. Sozinho.
Eu entrei devagar, olhando pelos lados e nenhum sinal dos outros três. Suspirei aliviada. Fui até a mesa que ele estava e tirei o casaco e o cachecol. Reparei que ele me olhou de cima a baixo, reparando no molde do meu corpo com a roupa apertada. Devia ter escolhido algo menos justo...
-Nossa. –disse ele, com um sorriso.
-Quê?
-Você fica muito mais bonita sem aquele uniforme da Sonserina. –ele fez cara de nojo ao dizer o nome da minha Casa.
Eu entortei a boca, mas corei levemente com o "elogio".
Ele me olhava com aqueles olhos acinzentados com um sorriso, parecia estar se divertindo com meu nervosismo. Eu olhava de um lado para o outro, evitando olhá-lo diretamente nos olhos.
-Então, o que quer fazer? –ele finalmente perguntou.
-Voltar para a escola. –eu respondi, sem ânimo.
Ele fez uma careta.
-Você é muito certinha.
-Eu sou responsável, coisa que você não é.
-Uma coisa não tem nada haver com a outra. –ele desafiou. – ser responsável não significa abdicar as coisas boas da vida.
-E quem disse que eu abdico as coisas boas da vida? Você nem me conhece!
-E nem preciso conhecer muito para saber. Me diz, qual foi a última coisa realmente louca que você fez? Algo que a fez sentir frio na barriga? Que a fez rir incontrolavemente ou chorar?
Eu fiquei confusa. Apertei os olhos e nada. Realmente, eu não tinha feito nada como ele descrevera! Fiquei constrangida, por não ter uma resposta. Podia mentir, mas ele perceberia, os olhos espertos dele não perdiam nada.
Ele sorriu.
-Viu? Nada né?
-Eu... –fiz um muxoxo e mordi os lábios.
-Não precisa ficar assim, garota!
Fiquei com raiva. Ele já estava tendo um certo controle e eu não estava gostando. Eu queria ser a melhor, melhor em tudo. Mas havia muita coisa que eu desconhecia. Quis tanto ir para a casa da Sonserina, pela fama de sangue-puro, eu queria mostrar o que eu era, o meu valor, mas será que tudo aquilo bastava? Esse garoto definitivamente estava atrapalhando minhas convicções.
-Então, a minha condição, vamos nos divertir hoje, e prometo largar do seu pé. –ele piscou.
Eu mordi os lábios e concordei. Tudo para me livrar logo dele. O mais rápido possível.
Saímos do Três Vassouras e andamos por umas lojas próximas. Ele me levou na Zonko's, confesso que nunca tinha ido lá antes. Jogamos Snap Explosivo. Ele se divertia com a minha ignorância, tentando me esforçar para vencer até que tudo explodiu na minha cara, ele gargalhou daquele jeito adorável. E eu não pude evitar e rir também. E ele sorriu ao me ver rindo, me deixando embaraçada.
Tentando quebrar o meu constrangimento, ele se levantou e me levou na Dedosdemel. Entrei meio boba, olhando as ladrilhas coloridas, eram tantas cores! Ele me observava, eu parecia uma criança, deslumbrada no natal. Aquilo me tornava idiota. Algo que eu fugira a vida toda. Sirius pegou de tudo um pouco, enchendo a cesta.
-Vai dar dor de barriga. –eu disse.
-Tem coisas aqui que realmente servem para isso.
-Não quero nem imaginar.
-Tome isso. –me passou um doce.
Eu olhei desconfiada. Mas resolvi arriscar. Senti um gosto gostoso de doce, mas logo uma ardencia, que me fez abrir a boca e soltar fogo! Lá estava eu, a monitora mais exemplar de Hogwarts cuspindo fogo! Ele queria destruir minha reputão de cinco anos em menos de cinco minutos.
-Hei Lene, espere! Foi uma brincadeira, pô. –disse ele, ao meu encalço pelas ruaszinhas abarrotada de gente.
Já deviam ser cinco horas, o sol estava se pondo.
Eu ainda sentia ardência na boca, e mais ainda de raiva que eu tava dele. Ele puxou meu braço, me fazendo parar. Olhei os olhos dele, ele fazia cara de arrependido, de cão sem dono! Dúvido que estivesse mesmo arrependido... Era apenas para quebrar o gelo.
-Olha, isso... Isso, não sou eu! Não é o tipo de coisa que estou habituada a fazer e... –eu respirei fundo, virei os olhos. – é fora do meu elemento.
-Você não gostou? –ele me olhou daquele jeito, ainda segurando minha mão. Eu olhei insegura para a mão dele, e ele reparou.
-Não desgostei... Eu agradeço, foi um dia... legal.
Ele sorriu satisfeito.
-Que tal uma cerveja amanteigada? E prometo que te deixo ir!
Parte de mim devia dizer não, mas a parte mais vulnerável não resistiu aqueles olhos. Eu assenti, meio que fazendo careta de "já que não tem jeito né", e o segui de volta pela rua, entrando de novo no bar que agora estava mais cheio.
