Capítulo três

Frio

Segui com ele no Três Vassouras, que agora com o fim de dia estava lotado. Foi difícil acharmos uma mesa, mas achamos num cantinho, próximo a janela. Estava uma barulheira lá dentro, que me fez entortar a cara. Menina fresca que não estava acostumada à multidão. E ele riu.

-Está calor né?- ele disse, tirando o casaco.

-Uhum.–murmurei, realmente tava quente ali dentro.

Madame Rosmerta se aproximou da gente, e com seu jeito sensual perguntou o que iríamos querer. Ela sorriu para Sirius, que sorriu de volta com aquele sorriso de galã. Eu podia jurar que estavam flertando, se não soubesse que Sirius tratava toda mulher bonita dessa maneira. Fiquei meio perturbada.

-Pedi duas cervejas amanteigadas, tudo bem? –a voz rouca dele me tirou dos meus devaneios.

-Claro. –sem perceber, fui meio grossa, e ele não deixou de perceber.

-Ficou com ciúme da Rosmerta? –ele sorriu. Ah que ódio daquele sorriso!

Eu o fuzilei com os olhos.

-Hah, morrendo. –sorri, sarcástica.

-Ela é muito bonita. –ele disse, olhando para Rosmerta que servia uma mesa.

-Sim, é.

-Mas você é mais. –ele me disse, olhando sério. Que olhar que fazia eu me arrepiar!

Eu o olhei com desconfiança. Ele falara aquilo para me perturbar, certeza.

-Aqui está! –disse Rosmerta, sorridente, colocando os copos na mesa.

Eu baixei os olhos, fitando a caneca.

-Não vai me dizer que também nunca bebeu cerveja amanteigada?

-Claro que já! –eu disse, arregalando os olhos para ele. –eu só não estou...

-Habituada. –ele completou.

-É, Sirius. –eu ri, não sei porque.

-Viu, não é difícil. Te entender.

-Como assim?

-Ora, você, o seu jeito de ser, é bem, previsível.

Mas não gostei daquilo, da observação dele. Me senti como todo mundo, como toda garota que ele desvendara e em breve perdera a graça. Ele já tava sabendo de mais de mim.

Eu fiquei séria, ele percebeu que disse algo errado.

-Não foi... o que eu quis dizer, Lene...

-Bom, eu... tenho que ir. –eu me levantei, ainda olhando sério para ele. Ele se levantou também.

-Lene...

-Não, Sirius, na verdade você que é, bastante previsível. Você é patético. –eu disse, num sussurro, para evitar que me ouvissem.

-Eu? Patético? Pelo menos eu sei viver, e me divertir, e sorrir sem medo! –ele disse, elevando o tom de voz, algumas pessoas olhavam.

-Ah já chega. –me virei, mas ele me puxou, me puxou forte, quase colando o corpo dele no meu, me arrepiei, prendi a respiração. Todo mundo olhava. E ele me olhava, profundamente, com os olhos sérios. Aquilo já tinha ido longe de mais, que humilhação...

Me desvencilhei abruptamente, sacudindo o braço com força, lancei um olhar feio e sai trotando pela porta. Fui infantil? Talvez. Mas pelo menos me livrara dele, né? Sai pela trilha de volta a Hogwarts, estava escuro e ventando. Apertei o casaco em volta do corpo, eu estava bufando de raiva. Que ódio dele! O que ele pretendia? Me beijar na frente de todo mundo? Senti um frio na barriga ao pensar na possibilidade. E eu ia ser mais uma... mais uma das fãs dele, que viviam atrás dele, e que ele pegava e dispensava com facilidade. Eu não quero isso para mim. Não quero Sirius Black. E ser fã dele? Fã de quê? Daquela arrogância? Displicência, irresponsabilidade? Só porque ele era lindo, com aqueles olhos, cabelos e aquela boca que esteve tão próxima da minha... Ah merda, isso tem que parar.

Passando pelo portão principal encontrei Regulus, que aparentemente estava me esperando.

-Lene. –ele parou na minha frente.

Eu esperei o que ele queria.

-Tão comentando... Você saiu com o Sirius né – eu revirei os olhos, com evidente impaciência. – é só que... você sabe como é meu irmão né? Você preza pela sua reputação...

-Ah peraí, Reg eu não preciso de conselhos! Até porque eu não tenho nada com Sirius! E nunca vou ter! –eu disse, ligeiramente aumentando o tom de voz. Aquela historia toda estava acabando com minha paciência.

-Desculpa, Lene, eu só queria avisar...

-Mas por que? Você se afastou de mim há anos, parou de falar comigo e eu nunca entendi exatamente o porque. E agora quer me avisar para ficar longe do seu irmão?

Ele baixou os olhos, não era tão bonito como Sirius, os cabelos comportados e um pouco mais claros que o irmão, mas ainda sim, era bonito.

-Desculpe Marlene, você tem razão, eu não devia me meter.

Desde a época em que eu cedera em sair com ele, as coisas mudaram. Ele era apenas uma criança, e eu também, não sabia direito o que estávamos fazendo. Até que do nada ele passou a me evitar, eu tentava falar com ele, mas ele mudava de assunto, desviava o olhar. Então eu passei a desviar também e nunca mais nos falamos diretamente, até aquele momento.

-Que seja... Eu preciso descansar... –fui seguindo em direção as masmorras enquanto ele me seguia com o olhar.

Agora mais essa... Minha vida estava tão tranquila! Até aquela bendita tempestade, que fez Sirius Black notar em mim e perturbar minha tranquilidade. Ah merda. E agora parece que Regulus se mordeu de ciúme pelo irmão estar interessado em mim. O que eu faço para ter paz de novo? Me arrastei desanimada até o dormitório e me joguei na cama, de braços abertos.