CAPITULO I – A PORTA VERMELHA
Terminou o último cigarro de cravo, encostado em uma das paredes da construção antiga e decidiu por subir. Mu descia com Shaka, de mãos dadas.
_ Ué, trouxe o namoradinho pra ronda também?
Shaka não se deu sequer ao trabalho de olhar para Máscara da Morte. Apenas manteve sua mão branca e quente dentro da mão de Mu.
_ Achei que ia cumprir um dever de cavaleiro, Mu. Que decepção.
_ Dois cavaleiros em ronda é melhor que um, Máscara da Morte. Até você sabe disso. - o lemuriano não deixou passar. - porque não vai cuidar do seu filho, da sua mulher?
O italiano deu de ombros.
_ Tudo bem, bichas. Cada um sabe melhor o que fazer da sua vida. Mas se algo acontecer a culpa é inteiramente dos dois.
E dizendo isso virou as costas, sem se preocupar com o que quer que Shaka resmungava. Acendeu outro cigarro. Andava tenso, estressado, sempre nervoso. Não sabia porque. Os músculos do corpo doíam mais nos últimos anos.
A verdade é que não tinha vontade de voltar para casa. Pensou em fazer como todas as outras vezes. Sair, ir a um bar, beber, transar com uma ou duas vadias desconhecidas (já que a vadia que ele tinha em casa, essa ele conhecia muito bem) e de manhã aparecer em casa, onde mulher estaria resmungando uma ou duas coisas, sem se importar quem estivesse ouvindo.
Maldita hora em que tinha esquecido de se prevenir e dormido com aquela vagabunda.
Não fosse o pequeno Dante, já teria mandado a mulher para os Infernos mais profundos. Mas... Um homem tem princípios. Mesmo um homem como ele. Ele próprio tinha completa noção de que não valia nada. E estava bem assim. Mas também tinha algo cravado forte como um alicerce do que era hoje. E talvez fosse a única coisa boa naquela porcaria de vida.
Famiglia.
Italianos são apegados a família. Assim como sicilianos. Assim como cancerianos. E quando você é italiano, nasceu na Sicília e sob o signo de Câncer, disso, pelo menos disso, você não pode fugir.
Dante era o único motivo por ficar com aquela vaca.
O bambino estava com quase dois anos já. Enorme e bonito, os olhos e os ombros fortes do pai. Mas até agora não falava. Não tinha pronunciado uma única palavra. Bem, não podia dizer que ele não ouvisse as muitas e muitas palavras, nas brigas dentro da sombria Casa de Câncer. Elas se tornavam cada vez mais frequentes. E a mulher não era uma mãe de fato exemplar.
Convenhamos, também não fingiria que era um exemplo de pai. Sua casa continuava adornada por cabeças! Que tipo de pessoa insana continua com seus trofeuzinhos expostos a um bebê? Ele fumava como uma chaminé, o que não era nem um pouco saudável para a criança respirar, mas já tinha se tornado um vício cada vez mais presente na sua vida. Ele bebia muitos litros de whisky, tantos quanto fossem preciso para deixar suas roupas fedorentas. E ele não tinha nenhum talento com crianças.
Porque não se divorciava? Porque não fazia como todo mundo e simplesmente assinava uns papéis e dava muito dinheiro para a meretriz lhe deixar em paz?
Matar a desgraçada estava fora de cogitação, embora aliviasse vez ou outra esta vontade com os bons socos na infeliz, somente em lugares que não deixavam marcas, como os pés. Sim aqueles pezinhos da amazona que ela desistiu de ser... Como eles podiam se mostrar tão prazerosos. Embora prazer não fosse bem a palavra.
Não... Não se pode crescer sem pai e mãe. Mesmo que eles sejam dois animais que discutem o tempo inteiro. Manteria a famiglia. Ao menos por enquanto. Até que Dante tivesse idade suficiente para descobrir que era um fudido, que nasceu num lar destroçado. Num lar sem amor, sem carinho ou sem respeito nenhum.
Bem, o que não mata só te fortalecerá. Talvez aquilo tornaria o filho da Casa de Câncer um homem forte, másculo e imponente. Como o pai. Se fosse preciso manter-se firme para que isso acontecesse, assim seria.
_ Oa, nem me viu? - Aldebaran sorriu, como sempre, quando Máscara da Morte lhe deu uma ombrada.
Câncer não respondeu. Aquele palhaço do Aldebaran era gentil com qualquer pessoa que aparecesse. Achava isso simplesmente insustentável. Fraqueza de personalidade que nunca escondeu desprezar.
_ Máscara da Morte! - chamou – Bom te ver aqui. Escuta, dia desses achei algo com seu nome...
Na casa de Touro ocorria uma confraternização, como era de costume anual, e que Máscara da Morte não mostrava a menor inclinação a participar. Na verdade, só havia se dado conta da tal festa quando desceu para a ronda, embora a mala do Aldebaran sempre lhe deixasse algum recado sobre essas confraternizações sem graça.
O brasileiro então lhe entregou uma caixinha branca, e amassada, porém intocada.
_ Hn. - ele não disse nada, apenas pegou o embrulho e foi embora, sem paciência para o som alto de música e risadas vindas da cada de Touro.
_ De nada.
Decidiu tomar outro caminho. Iria dar um tempo próximo à estátua de Athena, pelo menos até o dia clarear e depois voltava para casa. Não estava com muito saco para a noitada. E, assim sendo, pegou a passagem subterrânea, o que não geraria o inconveniente de cruzar com pessoas que não lhe suportavam. Problema delas, ele não as suportava também.
Abriu a caixa. Era um cordão dourado, com um pingente de cornucópia, que reluzia sob a luz do luar. Não pôde evitar lembrar-se daquela ocasião. Aquela ocasião em que resolveu passar a noite com a gostosona, que agora era uma esposa que não lhe agradava. Que noite. Que grande noite!
Que bela porcaria...
Jogou a caixinha no chão e colocou o cordão entre os dedos. Talvez o vendesse mais tarde. Vindo de alguém podre de rico como Afrodite, não duvidava que aquilo valia uma boa quantia.
Já alcançava o topo do Santuário quando, perto de onde se encontrava, ouviu alguns gemidos. Eram gemidos de prazer. Sentiu as calças tornaram-se pequenas e os pelos da nuca eriçarem. Decidiu seguir por aquela trilha pervertida e espiar, por entre as sombras noturnas, quem era o casal.
Ali de trás de uma grande rocha estava alguém.
_ Oh, meu bem, você faz isso tão gostoso. Oh... isso, chupa.
Era a voz de Milo. Tinha certeza. Lambendo os lábios tentava adivinhar quem era a mulher que estava fazendo o Escorpião gemer assim. O barulho lhe excitava. Desejou ser também abocanhando. Desejou alguém que também lhe fizesse gemer. Permitiu até imaginar-se no lugar do grego, como se aqueles gemidos saíssem da sua boca. Quase podia sentir aquela boca deliciosa abocanhando, não Milo, mas a si próprio.
Quem era a dona daquela boquinha que ele achou tão gostosa? Será que ela teria tempo para mais um?
_ Ah... Camus... - o Escorpião contorceu-se e deixou o corpo se apoiar da grande rocha que lhes ocultava, alcançando o êxtase.
Camus?
Milo afastou-se do outro, com o olhar triste.
_ Desculpa, Dido. Não quis te magoar. Mas ainda não consigo.
Foi quando Máscara da Morte reconheceu aquele serzinho que limpava a boca.
Peixes não sorriu, não chorou, não mostrou nenhuma reação. Apenas os olhos azuis de vidro, sem nada dentro. Como uma boneca de porcelana branca e fria reluzindo ao luar. Limpava os lábios com delicadeza, sem encarar Escorpião, que arrumava a própria roupa.
_ Não tem problema, meu amigo. Não é como se você nunca tivesse feito isso. - levantou-se do chão de terra batida. - Você sabe o quanto eu te amo. Mesmo como amigo.
Milo o envolveu num abraço de olhos chorosos. Mas somente os olhos de Escorpião podiam ser tão emotivos. Afrodite já tinha perdido o viço há muito tempo. Apenas sorriu fracamente, rebecendo de bom grado o carinho e o abraço aconchegante.
_ Eu também. Eu te amo muito, tá?
Máscara da Morte sentiu nojo. Nojo de ter se excitado. Nojo de querer por-se no lugar de Milo. Nojo. O mais puro nojo. A raiva do sueco já era constante. Agora era muito maior.
O casal deu-se conta que não estava sozinho.
_ O que você quer aqui? - ainda abraçado a Afrodite, o grego tornou-se forte, virando o pescoço e encarando com raiva os olhos ocultos de Câncer. Não havia em seu rosto nenhuma sombra da emoção de poucos segundos.
Câncer saiu das sombras. Também nele inexistia qualquer vestígio que viesse a ser interpretado por fraqueza.
_ Milo, Milo, Milo... Eu sempre desconfiei mesmo que o seu jeito de garanhão só podia esconder isso mesmo: uma bonequinha. Mas comer o Afrodite? Sério, grego?
_ É da sua conta por acaso?
_ Foda-se. Eu falo o que eu quiser. E continua sendo vergonhoso. Tá comendo a barbie do Santuário, porque eu duvido que ele coma alguém, e ainda fica chamando pelo nome de outra pessoa que nem sequer sabe da sua existência! Você é um fracasso, Milo, você-
_ Quem é você para falar de fracasso, Máscara da Morte?
Era Afrodite. Fazia anos que não dirigia a palavra ao cavaleiro italiano. Não se lembrava desde quando. Câncer enervou-se com a súbita interjeição do outro.
_ Eu te odeio, Máscara da Morte! Eu te odeio com todas as minhas forças! Você, que é o mais odiado cavaleiro de todo o Santuário!
Os olhares voltaram-se para Peixes. O sueco caminhava em direção ao italiano apontando-lhe o dedo.
_ Você não tem amigos! Você não tem quem te ame! E você nunca amou ninguém! Você só tem uma merda de casa, uma mulher que não se importa com nada do que você é, e uma criança que não aprendeu a falar! E não consegue falar porque não tem ninguém que olhe por ela com amor! Isso não é vida! O que você tem é só uma ilusão! Nem isso. Nem isso você consegue ter...
O punho de Máscara da Morte levantou-se com força e foi rápido demais para que Milo evitasse, atingindo em cheio o rosto de Afrodite, e jogando-lhe alguns passos para trás. Os lábios abriram-se num corte vermelho e um fio de sangue escorreu.
O italiano ofegava.
Milo ficou com raiva, quis brigar com o outro, mas Afrodite lhe segurou a mão.
_ Você não precisa brigar, querido. Não vale a pena. As verdades já são o suficiente.
_ Não vai ficar só por isso, Máscara da Morte! Você pode esperar!
Máscara da Morte riu.
_ Faz o que seu veadinho mandou, Milo. É melhor pra todo mundo. Assim ninguém precisa ficar sabendo sobre vocês. Nem um certo Grande Mestre que preferiu se isolar a te dar qualquer chance não é, grego? Non è vero?
Milo não respondeu.
_ Oh, sim, eu aposto que Camus aceitou ser Grande Mestre apenas porque prefere uma vida de solidão e de devoção à Athena. E ele está lá na França cuidando dos últimos detalhes para a nova vida. Por que você sabe, né, que como Grande Mestre ele não pode mais ter esse... contato íntimo com ninguém.
As mãos de Escorpião tremiam. Assim como os lábios. Ele ficou quieto. Não valia a pena mesmo dar atenção ao que Câncer dizia. Porque se desse ouvidos... se desse ouvidos, ele não pararia mais. E aquilo já lhe torturava o suficiente sem que ninguém precisasse falar.
_ Olha, não é que é isso mesmo? - o homem de cabelos curtos sorriu maleficamente ante ao silêncio do outro. - Oh, Milinho, desculpe. Se é por isso, você tem todo o direito de se aliviar com esse aí. Mas não me fala de ilusão não, porque se o que eu acabei de presenciar não é ilusão... bem, nós teremos que reescrever os dicionários.
Deixou os dois ali. Não tinha um resquício, uma gota de prazer no que havia dito. Nem o prazer sádico. Apenas cuspira as palavras. Ser ele mesmo não era prazeroso. E não estava nem aí. Se conviver com ele era viver num inferno, problema de quem cruzasse seu caminho.
De repente um estalo. Um desses que a gente chama de intuição. E Máscara da Morte sempre confiou na velha intuição canceriana. Achou estranho sentir alguma coisa assim de repente. Será que o pirralho estava doente?
Resolveu descer para a sua casa. Não ia madrugar ali como sempre, já que os veados haviam ocupado o espaço antes.
Alguns metros antes, porém, notou uma coisa: não estava nada bem.
Chegou a cara de Câncer um pouco ofegante. Mais que o de costume.
E ouviu um choro.
Dante chorava de forma esganiçada. Um choro de medo, de pavor. Ou talvez de fome. Estava dentro de um chiqueirinho na sala, no andar de baixo. Ficou, de verdade, preocupado com o filho.
Pegou-o no colo, amainando a dor. Ele então parou de chorar. Ficou quieto. Os olhos azuis contemplando os azuis do pai. E neles havia apenas pureza. Máscara da Morte desviou-se do olhar, o olhar que lia sua alma e que pedia por ele. Sentiu-se por um momento fraco. Não tinha coragem.
Por um momento, sentiu-se em dúvida sobre a vida que levava. Por um momento, aquela sensação de que podia ter sido e não foi.
A sensação de que seria diferente a sua vida se não tivesse tomado tantas decisões insensíveis.
Por um único momento, viu que a única coisa que tinha na vida era aquele bambino.
_ Dante, seu pai é um filho da puta, tá? Não se esqueça disso nunca. - sussurrou. - E não seja como eu.
Percebeu que a mamadeira do menino estava cheia, deixada de lado a poucos centímetros do local onde o filho se encontrava. Como é que a vaca podia ter feito isso?! Deixar o filho ao relento, tarde da noite, e ainda com fome?
Em silêncio fez uma promessa: não ia abandoná-lo. Jamais.
Pegou a mamadeira e o alimentou devidamente, só então o soltando.
Porém, tão contrastante ao momento paterno - e raro - de carinho, ele percebeu que não estava sozinho. Lá em cima havia alguém. Um leve e quase imperceptível gemido. Deixou o menino no chiqueirinho novamente, colocando-lhe a chupeta.
Sem fazer barulho, subiu as escadas.
Ouviu outros gemidos baixo.
Eram os gemidos de sua mulher.
E haviam gemidos de um homem.
Não podia acreditar que a vaca faria isso. Não.. ela não ousaria!
De supetão, abriu a porta.
Viu um homem de costas largas, deitado nu em sua cama. Gotas de suor banhavam-lhe as costas, refletidas pela luz do abajur, e uma tatuagem tribal ridícula. Por cima daqueles ombros as pernas morenas da mulher.
_ COSA STATE FACENDO, FIGLIA DI UNA PUTTANA?
E tudo aconteceu muito rápido. O homem, um anônimo que nunca tinha visto na vida, virou-se temendo a ira do italiano. A mulher apenas ficou sem graça dando um risinho. Devia achar que ele voltaria algumas horas mais tarde.
_ Tô fazendo o que sempre faço quando você não está em casa! - ela falou se levantando desajeitadamente.
O ambiente cheirava a vinho.
Deu-lhe um tapa muito forte, que a fez perder o equilíbrio e cair. O homem ficou sem reação, gaguejando e tentando explicar o que era injustificável por natureza. Mas não foi preciso muito para que com apenas um golpe caísse inconsciente.
A mulher gritou.
Lá embaixo Dante chorava outra vez.
_ Vai me matar é? Vai deixar o seu filho sem mãe? Seu corno! - dizia, enquanto o italiano lhe agarrava pelos cabelos, pronto a lhe dar alguns socos, sem se importar se as marcas apareceriam no dia seguinte.
Seu coração palpitava. O sangue parecia ferver, fazendo brotar uma grossa veia na testa. Xingava muito, em italiano, língua reservada apenas para os momentos em que o grego não bastava. Poderia encher uma parede inteira com os xingamentos em italiano.
Não sentia as mãos, elas pareciam quase dormentes.
_ Dimmi la, tua cagna! Perché ho sposato un slut? Perché eihn? (Me diz, sua vadia! Por que é que me casei com uma piranha? Por que, eihn?)
Ela riu. Estava claramente bêbada.
_ Porque você não teve coragem de ir conversar com o veadinho.
Máscara da Morte arregalou os olhos, por um momento.
_ Como é?
_ Você pensa que não sei? Que ele te chamou para conversarem, e que você não foi? Eu vi tudo, seu covarde! Você não teve coragem de aceitar que é viado igual ele! Você é um frustrado! E corno! Um corno e um promíscuo, é o que os dois são!
Batia nela com força. Mas ela não parava. De alguma forma, não usava seu cosmo. Não estava concentrado, o coração batia muito alto para que a energia de Câncer pudesse se elevar. E havia a verdade. A insuportável verdade.
Sem esperar mais, deixou-a inconsciente, do mesmo modo como fizera com o homem. Sentia-se enojado. No seu quarto! Na sua própria cama!
Levantou-se. Ofegava.
O que estava acontecendo com ele? Não conseguia pensar. Sentia-se mal. Um mal-estar físico. Uma vontade estranha de deitar no chão. As penas bambas. Suava frio. A visão escurecia e alguma coisa pesava como um elefante dentro do peito.
E aqueles gritos, o choro estridente de Dante, lhe faziam perder a sanidade.
Não conseguia deixar de questionar o que seria se não fosse aquilo. O que seria da sua vida sem uma mulher que não lhe amava, sem traições, sem um casamento de mentira, sem ódio, ira e raiva. A raiva lhe enchia o peito, quase saltando para fora.
Colocou a mão no bolso, procurando um cigarro para aliviar. Seus dedos tremiam, gelados. E como pesava o peito!
Mas não achou o cigarro para lhe acalmar. Na busca apressada, achou foi o colar, antes abandonado na casa de Touro, e que agora se emaranhava entre seus dedos trêmulos e desesperados, atrapalhando qualquer pensamento. Irritou-se com o obstáculo.
Mas não precisou se incomodar por muito tempo.
Sentiu que lhe faltava ar. Tentou respirar, não conseguia.
Estava infartando?
Estava, estava mesmo infartando.
CONTINUA...
N/A: E então? O que vocês acharam? O que será que vai acontecer? Não deixem de ler e comentar!
