Máscara da Morte respirou fundo quando reapareceu na caverna, de frente para as três portas, como se nem ao menos tivesse saído dali. Mas, em seu interior, parecia ter saído de um mar onde naufragava. Ainda podia sentir as vibrações no seu corpo e a dor no peito. Olhou para as mãos trêmulas, apenas para ter certeza de que, de fato, o pingente estava enrolado nos seus dedos.
Seria aquilo verdade? Seria aquela a vida de verdade, de onde ele veio quando naquele jardim encontrou o deus da riqueza?
Era odiado por todos? Todos? Bem... isso não seria difícil imaginar com o temperamento difícil que ele mesmo admitia ter. Não achava que lhe faria falta ter amigos, sempre foi um tanto quanto sociopata. Mas agora via que não estava nem um pouco contente com isso.
Além disso, era um homem casado. Quando é que imaginou casar? Ainda mais com uma vagabunda dessas que se acha no fim de noite.
Era pai.
Corno.
E frustrado.
É... onde estava seu orgulho agora? Numa latrina com certeza.
Afrodite...
Não se sentia gay! Não entedia como seria isso. Não sentia. Não queria ser! Não queria! Só podia ser mentira! Aquela não era sua vida real. E tinha certeza disso!
Mas...
_ Ei! Vai ficar parado aí? Tá perdendo toda a ação da próxima possibilidade. - Pluto o cutucou, sem se importar com os protocolos entre deuses e mortais. Aquele era um menino único.
Afastando o pensamento que se desenhava, resolveu por entrar na próxima porta.
CAPITULO II – A PORTA AZUL
Acordou sentindo-se estranho. Uma dor de cabeça esquisita. Logo então lembrou-se que era ressaca da noite passada. No dia anterior, tinha saído para uma de suas caçadas solitárias, e acabou encontrando Kanon, Saga, Shura e Milo. Riu seu sorriso mais falso, contou as mentiras de sempre às garotas que naquele pub estavam, passou da conta na bebida, como já era de praxe. Fumou alguns charutos e cigarros a mais.
Imaginava se Kanon e Milo não teriam tido uma ressaca como a dele. Saga ele sabia que não. O geminiano não costumava passar dos limites, era inteligente, e tinha aquele costume de revezar álcool e água. E Shura bem, Shura era completamente resistente ao álcool.
Mas hoje não estava com o mesmo humor. A cabeça latejava. Encontrou uma calcinha perdida entre o vão da porta. Como é que ela tinha ido parar ali? Não sabia. Não se recordava sequer do rosto da dona da peça intima, quanto mais do que havia rolado na Casa de Câncer.
Não é estranho quando você acorda sem achar graça em nada disso? Quando, de repente, você percebe que não se importa em saber o rosto de quem você transou a noite passada e até agradece por ela ter ido embora sem se despedir? Não é estranho quando você percebe que se acostumou a acordar sozinho, e passar a maior parte do tempo assim? Se não é estranho, então estava mais ranzinza que o normal.
Mas não importava. Era hora do treino. Levantou-se e, com má vontade, foi tomar um café bem amargo e duas aspirinas. O servo que lhe atendia não chegara ainda. Costumava só vir na hora do treino dos cavaleiros de ouro.
Depois tomou seu banho, frio como sempre, encarando no espelho o seu rosto, a barba por fazer. Não se importou. Foi até a janela fumar um pouco, quando lembrou-se que à noite Camus daria uma festa.
Sim, o Coração Gelado. Na verdade não era bem ele quem daria a festa. Seria esperar demais, vindo de uma pessoa tão reservada. Aldebaran, o festeiro das doze casas é que tinha organizado tudo. Logo o francês partiria para uma viagem a sua terra natal, e Touro achou por bem que uma despedida valia a pena.
Bem, era isso. Iria até lá apenas para cumprir tabela, como sempre foi. Beberia um tanto, depois voltaria para casa. Tal como Camus, não era lá de confraternizações e festas grandes. Não era lá nem de grandes amizades!
Ao chegar na área de treinamento resolveu fazer uma série nos halteres. Encontrou alguns cavaleiros ali, já treinando há algum tempo, e sem se preocupar em cumprimentá-los se pôs a fazer o seu treino de sempre. A bem da verdade, não era do seu estilo dividir o mesmo espaço com outras pessoas, mas agora não fazia tanta diferença. Também, não tinha para quem reclamar.
_ Vamos, Shaka, deixe de ser preguiçoso. Treino físico é necessário às vezes. - Mu comentou, entrando na academia, trazendo nos dedos entrelaçados, o indiano de olhos sempre fechados.
Não pode deixar de reparar nos dois. Eram discretos, não se beijavam, não trocavam carinhos e sequer abraçavam-se em público. Quem os visse de fora poderia jurar que eram grandes amigos, ou mesmo irmãos. Mas sempre estavam de mãos dadas. Não sabia porque, o gesto lhe incomodava. Evitava olhar. Não era por raiva, mas por puro desconforto. Como se aquele gesto revirasse seu estômago.
Não era amigo de Shaka e Mu. Nunca viria a ser. Não tinha nada em comum com os dois e Shaka não lhe engolia de jeito nenhum.
Achava melhor simplesmente não tocar nesse assunto. Muitas vezes já havia implicado com os dois, criticado-os e demonstrado repulsa. Mas, embora ele gritasse e gritasse, aquele gesto, os dedos brancos entrelaçados, persistia e sempre seria assim. Bem, é cansativo demais ficar falando sozinho, não é? Agora simplesmente evitava fixar o olhar. Como era com todas as coisas a sua volta.
Concentrou-se no que fazia e o tempo logo passou rápido. Ao se arrumar para seu banho, no vestiário, julgava-se sozinho. Porém ouviu duas vozes, que travavam um pequeno diálogo:
_ Ai, Milucho... Eu quero muito fazer isso, mas...
_ Que foi, Dido? Porque tanta insegurança? Você já tá com ele há seis meses e até que ele é um cara legal. Não vejo nenhum problema.
_ São coisinhas minhas que eu dou uma importância desnecessária.
_ Cara, eu não entendo. Você não me conta as coisas!
_ Tem coisas na minha vidinha, bofe, que ninguém precisa ouvir. Coisas de uns tempos atrás, quando eu ainda era muito "pão com ovo".
_ E não pode dividir com um amigo, não?
_ Não. - ele riu - Jurei segredo! Eu posso te contar, mas depois terei que te matar... E, tá, eu vou arriscar, ok?
_ Arrisca, cara! Arrisca!
_ Ai, Milo... Queria ter essa sua força de vontade. E amnésia!
Fechou a porta do armário com força, assustando os cavaleiros, distraídos demais para notar seu cosmo antes.
_ Ai, minha deusa! - Afrodite pulou de susto ao ver um italiano nu, apenas coberto por uma toalha branca de banho.
Milo também ficou sem graça.
_ Milo, vai lá na frente! Preciso pegar umas coisinhas...
_ Tá, mas eu te espero...
_ Vai, Milo!
Sem mais delongas, despediram-se.
_ Máscara da Morte! Não sabia que estava aqui...
O italiano manteve-se impassível. Completamente desconfortável em prostrar-se nu, frente para o sueco. Virou-se para o outro lado, mexendo em coisas não importantes.
_ O que você ouviu?
Novamente sem respostas. Como naquela fatídica noite, em que Máscara da Morte tinha ouvido muito mais do que falado.
Afrodite sentou-se num dos longos bancos que equipavam o local. Suspirou. Ficaram assim algum tempo, num silêncio constrangedor. Até que o italiano resolveu o que fazer. Que se danasse aquele desconforto. E que se danasse que estava completamente suado e fedido. Tirou a toalha, expondo as intimidades a um certo olhar de canto, incontido, e não por isso desconhecido.
Vestiu as roupas de treino sujas e foi embora, tomar banho em casa.
Merda! Três anos! E não imaginava quando aquilo ia passar. Aquele mesmo desconforto daquela noite. Se expondo outra vez, mesmo em silêncio. E de nada a tal noite adiantou para apaziguar seus ânimos. Devia ter sido um idiota. Devia sequer ter ido até a casa de Afrodite! Quem sabe assim aquele olhar faminto, suplicante, lhe deixasse em paz.
Não era o olhar suplicante de sexo que lhe incomodava. Podia morrer de raiva desse olhar ou fazer o puto do Afrodite desaparecer se assim desejasse, e então esse olhar também morreria. Mas havia o olhar por trás desse olhar. E que agora ele entendia e compreendia totalmente. O olhar suplicante que dizia que Afrodite não era apenas o que as aparências mostravam. O olhar que queria vir à tona, se mostrar para ele.
E desse olhar ele não podia fugir. Mas também não estaria disposto a encarar.
Esse olhar era mais que um olhar. Era um compromisso. Era um lago de águas profundas e, uma vez que nele se atirasse, não teria mais volta.
Que merda não ter sido o que sempre foi naquele dia: um babaca! Por que não gritou com ele? Por que simplesmente não o xingou, o agrediu como sempre? Não, ao invés disso escolheu outro caminho.
Logo a noite chegou. Fumando seu cigarro na porta da casa de Câncer, o cavaleiro não estava disposto a voltar para a casa Touro. Havia aproveitado a bebida farta que lhe ofereciam e voltado para casa, conforme havia planejado. Uma aparição rápida, somente para dizer que não tinha se importado com a conversa idiota de Escorpião e Peixes.
Quando na casa de Touro, pôde ver Milo brincando com os cabelos de Shina, enquanto a amazona fazia charme. Sentiu que outro olhar acompanhava o casal. Camus? Era Camus. Um olhar triste e oculto naquela face quase inexpressiva que ele gostava de ostentar. Nem acreditava. Uma paixão escondida. E pelo que constava, uma paixão que nunca iria concretizar. Bem, pelo menos ele não era o único perdedor do local.
Ali também viu que Afrodite estava bem. Ele é que foi estúpido demais em achar que o pisciano ainda se importava com os dois e que havia algum tipo de sentimento em aberto naqueles olhos. Os dois... nunca houvera os dois ali. Preferia esquecer a merda que havia feito durante o período de Guerra Santa. Simplesmente fingir que não existiu nada. Porque, se vergonha matasse, ele já estaria morto e enterrado.
Para sua sorte também, Afrodite mantivera aquilo em segredo.
Sentiu uma pontada estranha no peito. E assim, sem prestar atenção nas outras coisas, voltou para casa.
Das escadarias da casa de Câncer, ouvia os sons da comemoração e a música alta apenas. Um pop meloso dos anos 90.
_ Hei.
Encarou o homem que lhe chamava. Era Afrodite.
_ Tá fazendo o que aqui, veado?
_ Meu nome é Afrodite. Não aprendeu ainda ou faz só de palhaçada?
_ Hn. Que seja.
Afrodite sentou-se nas escadarias.
Havia uma pergunta no ar, mas Máscara da Morte preferiu manter-se calado e voltar a atenção para o cigarro de cravo.
_ Você me olha como que querendo me dizer algo. - Afrodite lhe chamou a atenção, admirando o jeito como o outro fumava.
_ Não tenho o que conversar com você, veado.
_ Uhum. Sei. Bom, vim aqui só pegar um ar. Vou descer.
A mesma pontada. Esquisito. Era como se sua intuição estivesse disposta a lhe dizer alguma coisa. Mas o que exatamente? Tinha que perguntar. Sentiu que se não perguntasse agora, algo aconteceria, como se não pudesse mais voltar atrás. Como a vida dependesse daquela pergunta.
_ Você está feliz?
Afrodite riu, sem se virar.
_ Eu estou a ponto de descobrir.
Era bobeira.
_ Boa sorte, então.
Os olhos de Peixes brilharam por um momento. O mesmo brilho que o italiano tanto se esquivava. Depois tornaram-se novamente tristes, contrariando as palavras que a boca acabara de pronunciar.
_ Foi a coisa mais gentil que você me disse, sabia? Desejo o mesmo. Foi bom falar com você, Máscara da Morte de Câncer.
E se foi.
Deixou no ar a essência de rosas de sempre, que fazia o outro tanto recordar anos atrás.
Levou todo o ar embora.
A cada passo que o pisciano dava, o coração canceriano apertava mais. Por que aquilo? Aquela sensação de que havia sempre algo mais, algo encoberto. Uma expectativa. De que deveria fazer ou dizer algo. De que poderia ter sido de outro jeito. De que era covarde demais para tentar... Por que?
Mas Afrodite se foi, e ficou para trás aquele cheiro embriagante de rosas. E o momento certo se perdeu.
Como três anos atrás.
Ele havia lhe chamado para terem uma conversa decisiva. Máscara da Morte nunca achou que poderia dar atenção aquilo. Mas, sabe se lá porque, decidiu subir, esperando ter outra daquelas noites embriagantes com Afrodite,as quais ele havia desistido de tentar entender. Uma agressão a sua lógica.
Não é engraçado como os papéis se invertem de uma para outra? Não é engraçado quando a mesa vira de repente? Agora era ele quem estava cogitando a possibilidade de puxar o outro para uma conversa longa na casa de Câncer.
Havia muito a perder? Não tinha nada.
Podiam lhe achar estranho? Mas sempre foi considerado estranho.
Podia ser motivo de chacota? Mas muitos ainda lhe temiam bastante para evitar essa atitude estúpida.
Bem, isso importava tanto assim?
Não era covarde.
Desceu.
Ia falar com Afrodite. Responder pela segunda vez a mesma pergunta. Tentar chegar a uma resposta. Não sabia o que dizer, nenhuma palavra lhe vinda à mente, mas, mesmo assim, era preciso fazer algo. Notou que as pessoas aglomeravam-se. Desviou-se de Shura, procurando pelo rapaz de longos cabelos loiros.
_ Gente, atenção!
Reconheceu, era a voz dele. Enfim, esperaria o que a biba tinha de falar para então chamar-lhe num canto escuro e afastado, sem aquelas pessoas todas.
_ Eu queria apresentar aqui ó, o meu amor! - ele levantou a taça de prosecco. - Mas não caiam em cima dele não, eihn! Controlem esses babadores.
Um enorme tipo, talvez alemão, acompanhava Afrodite. Tinha belos olhos azuis e cabelos tão claros quanto o de um menino. Beijaram-se sem pudor, exalando felicidade.
Hora errada.
Máscara da Morte puxou um outro cigarro, mais um naquele dia tão tenso e vago quanto os demais. Ele mesmo debochando do que, por um momento, passou pela sua cabeça. Não brindou ao casal. Também não se esperava menos do italiano antissocial que ele era. Camus mandou-lhe para fora, dizendo que não podia fumar ali, como já se previa. E essa foi sua deixa.
Foi naquele momento que resolveu volta para casa. A festa já tinha dado o que tinha que dar há muito tempo.
Sentia aquela ponta estranha e agora constante no peito.
Em casa, sentiu a garganta seca. Procurou o copo e a garrafa de absinto que costumava regar suas noites. Tinha deixado dentro de um móvel na sala. Quem sabe não era hora de dar uma das velhas saídas? Encontrar algo melhor na fada verde que aquela porcaria de festa.
Já estava bêbado, mais algumas doses não fariam mal.
Abriu a estante empoeirada e bagunçada.
A sala escura, o cigarro na boca, a bebida na mão, tentando puxar o copo do móvel bagunçado. Com todas as circunstâncias e a falta de jeito, deixou cair uns papéis velhos. Tomou um copo da bebida, enchendo-o novamente.
E reclamando tudo que tinha de reclamar, abaixou-se para pegar o que tinha caído. Lá embaixo do móvel havia algo brilhando. Pegou o objeto com uma estranha curiosidade.
Foi quando reconheceu. Era o cordão que Peixes havia lhe dado naquele dia. Segurou-o com força, como se naquele gesto tudo que estava dentro de si saísse. Lembrou de cada detalhe dos últimos anos inglórios que a vida tinha lhe dado.
Era feliz? SE ERA FELIZ?
O copo foi arremessado contra a parede, fazendo barulho e molhando o local com absinto.
Com a vida medíocre como a dele quem é que podia ser feliz?
Lembrou-se da conversa na décima segunda casa, há três anos.
Então ele perguntou.
"Você é feliz?"
"Por que me pergunta isso, veado? Virou psicólogo agora?"
"Eu só quero saber isso. Quero saber se você é feliz tendo essa vida de mentira. Construindo tijolo por tijolo uma vida falsa. Eu não sou. Eu acredito na beleza ainda, na beleza duradoura, não na superfície."
"..."
"Quero que você decida de uma vez por todas o que quer para sua vida. Se for para me comer e ir embora quando quer, desista. Não vou tolerar mais isso. Agora, se for para ser o que foi no Limbo... eu estarei sempre aqui pra você."
"..."
"Diz o que você quer!"
"Veado, não me entenda mal. Não vou mais te procurar se isso te incomoda tanto assim. Acho que o Inferno mexeu um pouco com a minha cabeça e com a sua também. Eu não quero isso pra mim. Sério, eu não sou isso."
"E é essa a sua resposta?"
"..."
"É ESSA?"
"Foi o que você ouviu, não foi?"
Deitou-se no chão, apertando firme o cordão e olhando para o teto. Deixou o cigarro escorregar entre os dedos. Sentiu que precisava dormir, mesmo que seu peito estivesse ficando quente. Estava tão bêbado quanto um porco, só podia.
Como os papéis se invertem, não é? Não podia deixar de pensar nisso novamente. Uns anos atrás era ele quem estava dando o fora.
Não ia agir como idiota. Não ia correr atrás daquela biba. No fim das costas, o outro é que estava certo de seguir em frente.
O cigarro fez os papéis pegarem fogo. Ele não se importava.
Só uma coisa perturbava Máscara da Morte: o que poderia ter sido e não foi.
CONTINUA...
N/A: Capítulo bem morno, eu sei. Fazer o que? Queria experimentar um pouco como seria se o rejeitado não fosse o Dido e sim o italiano malvadão.
