EPÍLOGO.
Não falou uma só palavra quando voltou para a caverna úmida novamente. A vista voltara ao normal, como se nada daquilo realmente existisse. Deu-se conta novamente de estar ali, num lugar de decisões.
Olhou para o pingente de cornucópia, o nó da sua vida.
E não pode deixar de lembrar, sempre e sempre, fosse como fosse, daquele olhar úmido e pedinte de um certo alguém.
_ E então? - Pluto perguntou-lhe chamando a sua atenção de volta àquele plano.
_ Você é um deusinho muito de araque, eihn? Deus das riquezas? Há! Numa vida eu sou corno e babaca, na outra sou perdedor, solitário e mal resolvido, e na outra sou uma bicha com um relacionamento problemático.
_ Ora, Cavaleiro de Câncer! Será que não percebe? - Láquesis interferiu. - A primeira vida te deu um filho, um filho que te realizou de alguma forma. A segunda vida te deu liberdade, uma chance de fazer o que você quisesse, sem compromissos ou amarras. E na terceira você tem uma pessoa que te ama, mesmo sendo você um mortal estúpido como é.
O italiano não respondeu. Cruzou os braços. Realmente, tinha que concordar que Afrodite lhe amava. E ele mesmo, naquela vida, amava o outro. Mas era complicado. Complicado passar por certas dificuldades, preconceitos, preconceitos até dele mesmo.
Mas sentia o amor. Era verdadeiro.
Será que aquela era sua vida real?
_ Hn. Que seja então. Quero só saber de uma coisa: qual dessas é a minha vida?
O menino riu, com certeza pensando se o outro não estava começando a amolecer aquele coração.
_ É a segunda porta.
_ A segunda?
_ Sim, lobo solitário.
O italiano riu. Achou que fosse a terceira.
Talvez isso significasse algo.
Bem, tinha pensando em algumas coisas durante essa jornada e diante de tudo, não podia negar que tinha aprendido muita coisa.
Havia decidido. E estava preparado.
_ E então, cavaleiro?
_ Já me decidi, deus.
_ Tudo bem, pode entrar na porta que preferir.
Ele olhou o cordão brilhando em suas mãos certo do que escolheria. Não, não seria fácil. Nunca seria. Nunca havia sido. Mas era ele. Tinha que ser. Mesmo que aquilo fosse um campo de batalhas. Mesmo que fosse preciso construir tijolo por tijolo, não erraria os mesmos erros novamente. Havia decido arriscar, por uma promessa.
Um recomeço.
E assim, de corpo rijo e já se preparando para o que viria pela frente, Máscara da Morte entrou na vida que escolhera para si.
Abri meus os olhos.
Os sons voltaram. O corpo parou de doer. Senti que a minha mão segurava um frio cordão, tão conhecido naquela noite.
Ouvi o grito estridente, mas ainda distante, no meio da minha tontura.
_ Dante!
Era ele, chorando e assustado, ainda no andar de baixo.
No quarto, os corpos ainda desacordados também se moviam. A desgraça ambulante acordava. Lancei-lhe apenas um olhar de desprezo, tão típico nos velhos tempos em que o meu parque de diversões era decapitar os outros. Ela estremeceu. Não disse nenhuma palavra. O amante também acordava.
Não vou perder meu tempo com eles. Essa farsa já tinha acabado.
_ Pegue suas coisas. - falei seco, tirando a aliança do dedo. - Toma, pode ir. Pegue tudo que quiser. Se quiser dinheiro, fique à vontade. Joias, tudo. Pode levar a casa inteira. Mas o moleque fica.
Ela não discutiu. Qualquer um ficaria calado. Pois nervoso eu poderia ser malvado, mas calmo era quando eu provava o porquê do nome Máscara da Morte que me atribuíram.
Peguei a bolsa verde de bebê, deixada ali, junto com as bolsas de grife da minha esposa vagabunda. Deixei-os no quarto ainda de boca aberta com o último aviso de que não queria vê-los nunca mais na vida. E sei que tudo será muito bem acatado.
É impressionante como o tom de voz que eu posso usar nas minhas palavras causa esse efeito tão temível. Um pequeno orgulho que mantenho dos velhos tempos.
Desci as escadas, apenas para meu olhar cruzar-se com o dele. Eu havia prometido, não foi? Afinal, eu podia ser um filho da puta, mas aquela era a minha prole. E eu não iria abandoná-lo. Olhei ao redor, deparando-me com as caras feias, e agora tão menos amigas. Olhei para Dante, o rosto de bebê em meio àqueles rostos tão velhos e feios.
Acabou. Definitivamente tudo isso não tinha mais valor nenhum. Mesmo para uma mente doentia como a minha.
Peguei-o no colo. Já estava tarde. Coloquei-lhe a chupeta na boca e aprontei, mesmo sem muito jeito, a manta para lhe cobrir. Os olhos grandes me olharam quietos e úmidos. Como se me pedindo por algo que naquele momento eu não tinha. Coloquei em suas mãos o cordão dourado e ele se distraiu contemplando o novo objeto.
E assim eu sai, com meu filho no colo e uma bolsa verde de vinil, como se tirado de Três Solteirões e um Bebê.
Meus passos andaram por um caminho grande e pararam quando o perfume de rosas tornou-se forte. Era madrugada alta. Mas eu sabia que ele estava acordado.
Ascendi meu cosmo, como um sinal, como mandava o protocolo, e esperei. Ele apareceu, envolto num robe de seda branco e com uma expressão nada boa no rosto.
_ Quem te deu o direito de vir aqui? - perguntou.
Não pude deixar de notar o hematoma que gritava naquele rosto, lembrança da nossa briga de poucas horas atrás (e que parecia muito mais tempo para mim).
_ Vim te pedir um favor.
_ Ah, agora a bichona vai lhe servir pra algo? Ficou com invejinha do Milo? Você não tem direito de me pedir nada, e mesmo que tivesse eu teria prazer em negar.
Eu não respondi. Ele baixou os olhos e sua atenção pousou no meu menino.
_ E porque trouxe esse melequento pra cá numa hora dessas, eihn, seu desnaturado?
Dante já cambaleava no meu colo. Decidi falar baixo.
_ Olha só, veado: você pode me odiar o quanto quiser. Mas eu vim aqui lhe pedir um favor. Não pra mim, pra ele.
Foi então que ele desarmou aquela expressão emburrada. Golpe baixo: eu sei que ele gosta de crianças. E eu sei que ele não iria resistir.
_ Vou reformar minha casa. Não quero que ele fique respirando poeira de obra.
_ Deixa eu ver se entendi. Você está abandonando seu filho comigo? Sua mulherzinha vai dar barraco, eihn, bofe.
Ainda estávamos do lado de fora e ele do lado de dentro.
_ Não. Eu vou tirar todas aquelas porcarias da casa, e... a mãe dele foi embora, pra sua informação. Olha, se me odeia tanto, pode cuidar dele, apenas para provar que eu sou um pai incompetente e ele poder esfregar na minha cara que gosta mais de você.
Ele xingou. Quer dizer, eu não pude ouvir com clareza o que ele disse, mas tenho certeza que eram palavrões, ditos em sua língua materna.
Incerto, ele ergueu os braços. Passei meu menino para ele. Dante mal se movia.
_ Vai deixar seu filho comigo? Um veado que você tanto despreza? Você sabe que te odeio e posso torcer o pescocinho desse remelento?
_ Sou irresponsável, esqueceu?
Afrodite balançou a cabeça e abriu a porta.
_ Vem. Vou colocar ele na minha cama. Quero que você saiba que estou fazendo isso por mera caridade. Depois iam reclamar que o Afrodite de Peixes não tem coração.
Sim, eu sei que não era por mim.
Fomos até aquele quarto, que há anos eu não entrava, mas podia esquadrinhar com perfeição, de olhos fechados. Senti o aroma de rosas inebriante. Não pude evitar tencionar o corpo. Era naquela cama que em uma das vidas eu acordei, em cima do corpo quente e nu daquele sueco chamando-o de "mozinho".
Deixamos Dante dormindo na cama de lençóis de seda. Ele não falou nada, eu também não falaria. Somente lhe entreguei a bolsa, esperando que tudo estivesse ali. E desci.
Sejamos realistas. Ele me odiava. Não era o momento de querer, em cinco minutos, reverter o muro de pedras e arame farpado que eu construí entre nós, por anos a fio.
Sai do templo de Peixes, descendo as escadarias e procurando minha carteira de cigarros.
_ Máscara da Morte! - ele chamou.
Virei para trás. Na sua mão estava meu cordão. Ele desceu, me encontrando entre a Casa de Peixes e a vazia Casa de Aquário.
_ Estava na mão do Dante.
Ué, nem sabia que ele sabia o nome dele.
_ É. Dei para ele distrair. - peguei o colar. Coloquei no bolso.
_ Achei que você tivesse jogado fora. - ele disse, baixando um tanto a guarda.
_ Também achei.
Puxei um cigarro. A noite estava estrelada ainda. Ofereci a ele um também. Afrodite pegou, naqueles dedos longos e finos. As unhas benfeitas. Senti vontade de beijar aqueles dedos, mandando todas as circunstâncias se foderem.
_ Máscara da Morte. - começou, depois de uma tragada.
_ Huh?
_ Me responde uma coisa: se pudesse fazer diferente...
_ Hn. Vai por mim, bicha, isso é o melhor que eu posso ter. Mesmo sendo uma merda.
_ Sei... E você sempre me chamando por nomes tão gentis...
_ Você também nunca me chamou pelo meu nome. - eu disse com desdém.
Peguei-o de surpresa. Uma das muitas das últimas horas.
_ Você tem outro nome? - ele perguntou, fazendo graça de mim.
_ Quem é que pode nascer Máscara da Morte, cazzo? Isso lá é nome de gente? Não... É Carlo. Carlo di Angeli, capische? Bem coerente com o que sou, né?
Mas o outro não respondeu. Apenas lançou-me aquele olhar gelatinoso. Já era a segunda pessoa que exigia de mim o que eu precisava aprender a dar.
Balancei a cabeça, tentando me livrar daquela imagem irritante e perturbadora. Não ia fazer nada que pudesse arriscar a fina ponte que estava começando a se formar, enquanto ainda pendia nosso Muro de Berlim.
_ Bom, já está tarde. - mudei o assunto.
_ Sim... Vai voltar para casa?
_ Vou ver se arranjo algum lugar para ficar por aí. - disse, sem me importar em confessar que eu não pretendia voltar para o lugar que fez a minha fama e a minha força por tantos anos. E nem para uma esposa de mentira que eu já considerava como ex.
_ Sei.
_ Vai dormir, veado. - eu disse, apagando meu cigarro numa pilastra na casa de Aquário. Se Camus estivesse ali, seria divertido observar sua reação ante a sujeira que as cinzas haviam feito.
_ Estou subindo. Boa noite então, Carlo.
_ Boa noite, Afrodite.
Ele pareceu surpreso. E eu confesso que até eu, ao ouvir minha voz pronunciando aquele nome, não pude deixar de fazer uma cara que eu imagino ter sido não menos espantada. Afrodite de Peixes sorriu. Um sorriso discreto. E eu pude ver o porquê de, em outra vida, eu ter optado por ele.
Nesta aqui, eu ainda teria muito o que galgar até aquele ponto. Não era nada fácil. Mas ao menos um dos sonhos dele eu vou poder realizar. E o sonho tem nome, se chama Dante di Angeli.
Virei as costas. Ah, vamos lá. Minha vida estava uma bagunça. E eu havia acabado de discutir com ele, mesmo que, para mim, isso parecesse ter acontecido muito tempo atrás. Ou nem acontecido, já que até então essa vida nem existia. Não havia mais o que falar naquela hora.
_ Carlo, você já foi algum dia feliz? - de longe ele perguntou, completando baixinho - Ou pretende...
Não o olhei para responder. Não precisei. Eu sabia, bem no fundo da minha alma, que a resposta causaria alguma fagulha de esperança, em meio aquele ódio. Como um diamante, que se encontra em meio ao lodo.
E como aquela frase podia fazer tanto sentido, quando dita na circunstância certa.
Entreguei-lhe de bandeja o diamante.
_ Não. Mas estou a ponto de descobrir.
FIM - 12/09/2011
N/A: Essa pessoa tem mania de finais abertos! Hahahahahah. Bom, como se nota, essa fanfic foi escrita em 2011. Eu gosto muito dela, então pensei em publicar. Por favor, não deixem de dar review, eu adoraria saber se vocês gostaram ou não e desculpe eventuais erros de digitação/gramática/sintática :)
