Reclamações no guichê 415.

Segundo Capítulo: Universo

- Ele disse que ia se deitar e ouvir música, antes, não é? – perguntou Hyoga – Isso não é do feitio dele.

- Não tem nada demais em ouvir música, Hyoga! – protestou Ikki.

- E então, Athena, acha que pode ser verdade?

Saori olhou na direção da janela, como que procurando respostas. Limitou-se a suspirar.

- Acho que não é possível. Mesmo Hades sendo um deus mais antigo do que Athena, ele morreu no inferno. Não é? – perguntou o Cisne.

- Sinceramente, eu não sei. Ser o avatar de um deus tão poderoso... Bom, vocês lembram do que nos disse Sorento? Poseidôn conseguiu superar o lacre que coloquei sobre sua alma e se manifestar no corpo de Julian... Hades morreu, disso temos certeza, mas o estigma de ter se tornado o avatar de um deus... é muito grande.

Houve um silêncio constrangido naquela sala.

- Agora, entendam bem uma coisa. – disse Athena, subitamente mais séria – Shun não é Hades. Ele não vai surtar de uma hora para outra e começar outra guerra santa, isso é certo. O problema aqui é muito mais relacionado ao psicológico do Shun.

- Ou seja, devemos ficar de olho nele? – perguntou Hyoga.

- Meu irmão não é nenhum maluco! – bradou Ikki, quase agarrando o Cisne pela gola.

- Ikki, por favor! – pediu Saori – Ninguém aqui está acusando teu irmão de nada: estamos apenas preocupados com ele.

- Que bom que vocês se preocupam com ele! Mas então, mostrem algum apoio! O que ele passou no inferno, o que nós passamos no inferno... é mais do que evidente que não vai, de uma hora pra outra, simplesmente sumir! Eu acredito no meu irmão e acho que vocês também deviam fazer isso!!

...

Talvez Shun devesse acreditar em si mesmo. Afinal, seu irmão acreditava nele. Seus amigos e até mesmo Athena acreditavam nele, embora com a reserva de sempre, que jamais sumiria. Ele havia sido Hades. Ele havia erguido a mão contra os céus e visto o eclipse se desdobrando.

E havia visto todos os acontecimentos que se desdobrariam a partir daquele evento, como uma mera fatalidade, como a vontade divina em seu mais presente curso. E havia visto todas aquelas mortes e toda aquela destruição com... indiferença.

Shun realmente tinha todos os motivos para ficar assustado.

Porque, talvez, e apenas talvez ele realmente fosse capaz disso tudo. E ainda, mais apavorante, ele talvez seja capaz de olhar tudo isso com a indiferença de Hades, que julgava todos os humanos sem compaixão alguma.

Deixou que os fones pousassem sobre o travesseiro, subitamente sem vontade de ouvir música. O que pareceu ser um ruflar de asas assustou-o e ele se viu incapaz de olhar na direção da janela.

...

- Bem vindo, Shun.

Andrômeda abriu os olhos com o susto de ouvir aquela voz, não mais apenas um eco dentro de sua cabeça. Hades estava lá, sentado sobre uma rocha, o olhando com uma expressão tranqüila, talvez até mesmo entretido com a situação.

- Onde estamos? – perguntou o cavaleiro, olhando em redor e contemplando a planície imensa e negra, onde algumas rochas despontavam aqui e ali.

- Não há uma expressão adequada para descrever este local, a bem da verdade. – disse Hades, também olhando os arredores - Eu mesmo o descobri há pouco mais de alguns anos. Acho que o termo mais adequado seria "Além do Horizonte de Eventos". Mas isso, é claro, é poético demais.

- Talvez... – Hades continuou, depois de uma pequena pausa – bem, sejamos simplistas. Vê esta planície? Isso é a crosta do Tártaro. O céu acima de nós é o Caos.

- O Tártaro e o Caos...? – murmurou Shun, sem saber o que dizer.

- Sim. Estamos fora do universo que conheces.

E sim, um dia os capítulos ficam maiores.