Comentários sarcásticos de praxe aparte, estou feliz com esse capítulo. Fora o fato de que estou sem comentários sarcásticos no momento. Damn.
Terceiro Capítulo: Lágrimas
- Porque você me chamou? Porque eu?
Hades ouviu com certa surpresa o rancor na voz do cavaleiro. Pudera, ele próprio havia ficado um tanto... desconcertado com a descoberta daquele local. Considerou que, talvez, fosse adequado ser evasivo, e, no entanto, oferecer algum tipo de segurança a Andrômeda.
- Eu precisava de alguém em quem pudesse confiar, Shun.
...
Não era difícil entender que seus amigos estivessem com medo, afinal, Hades quase havia destruído o mundo. Mas mesmo que se compreenda uma verdade, é muito mais doloroso vê-la causando medo às outras pessoas.
Foi pensando nisso que resolveu descer as escadas e confrontá-los. Eles não mereciam sofrer pelos temores de Shun.
- Ah, Shun, você acordou. – comentou o Dragão, pondo o livro que folheava de lado e levantando-se do sofá – Hyoga e Ikki foram acompanhar Saori até a fundação; Saori disse que você parecia cansado e que merecia um descanso: ela insistiu que apenas dois de nós seria proteção suficiente.
"E deixaram o Dragão como um cão de guarda".
- Vocês deviam ter me chamado.
Shun realmente não se importava se seu tom de voz parecia seco ou irritado. Afinal, o que havia acontecido com o apoio e a amizade de seus irmãos cavaleiros? Deu as costas para o dragão e dirigiu-se até a cozinha.
- Onde você vai, Shun? – disse Shiryu, erguendo o tom de voz e parecendo preocupado.
- Até a cozinha, tomar um gole d'água.
A vontade de confrontar seus amigos, seus medos e temores, bem como seus próprios receios havia sumido, dando lugar a uma irritação quase inédita em Andrômeda. Ele podia compreender a preocupação, claro que podia. Mas estava farto da idéia de que sempre seria dependente de seus amigos, de que não poderia jamais agir por si só, de que era frágil e fraco.
Exalou com força ao pegar um copo do armário e enchê-lo de água. Tomou vagarosamente, olhando a parte do jardim que podia ser visto pela janela da cozinha. Era um lugar tranqüilo e isolado, no meio de uma propriedade que se estendia por vários acres de floresta.
"Excelente para se isolar uma pessoa do resto do mundo".
Shun colocou o copo na pia com um pouco mais de força do que o necessário, franzindo o cenho para o barulho produzido. Shiryu entrou na cozinha já abrindo a boca para perguntar "o que aconteceu?", "está tudo bem, Shun?" ou qualquer outra bobagem.
- O copo escorregou da minha mão. Nada demais.
Shiryu teve que lutar fortemente contra um calafrio quando a face jovem de Shun proferiu sua explicação. Não havia vida em seus olhos.
...
- Eu devo acreditar em você?
- Não sei. Pra variar, porque você não pensa por si só? Não dependa unicamente da visão e das opiniões dos outros, Shun.
Shun resmungou alguma coisa, irritado.
- Claro, seja evasivo. Vou confiar em você muito mais rapidamente com você me ofendendo.
Hades sorriu.
- Já ouviu falar da máxima: "Dê um peixe ao homem, e ele o comerá. Ensine-o a pescar, e ele sobreviverá."?
- Já.
- Então. Eu pretendo fazer o que seus amigos nunca fizeram, ensinar-te a buscar suas próprias verdades, muito mais do que apenas oferecer a versão deles dos fatos. Versões suavizadas, devemos lembrar.
Shun desviou o olhar do deus a sua frente. Era mais do que óbvio que Hades estava fazendo mais um de seus jogos de palavras, tentando confundir o cavaleiro em suas próprias dúvidas do que oferecendo qualquer tipo de esclarecimento.
Iria ignorá-lo até que ele desistisse de falar, era o mais simples a fazer. Em geral, o deus encarava os silêncios de Shun com descaso e desdém, para logo desistir de conversar.
...
- Algum problema, Shiryu?
"Fora parecer que viu Hades encarnado na sua frente?".
- Não, Shun, me desculpe... Nada de errado.
Era evidente que o Dragão estava desconfortável na presença do cavaleiro. Parecia estar prestes a atacá-lo, a julgar pela maneira como fechava e abria as mãos. Teria sido quase cômico, não fosse a situação em questão, ver o corajoso Dragão do zodíaco com tanto... medo?
Shun olhou diretamente nos olhos de seu amigo e viu o medo, pode quase sentir o cheiro repulsivo do temor. Mais do que isso, viu o esgar que cruzou como relâmpago as feições de Shiryu.
- Vou voltar pro meu quarto? Posso?
Forçou o cinismo e a irritação para fora, desejando em seu íntimo que Shiryu fosse ferido por eles, que o Dragão sentisse algo da dor de perceber que todas as pessoas de quem gostava... mal suportavam sua presença agora. Passou pelo lado de Shiryu sem dirigir um segundo olhar ao rapaz, e sem esperar resposta.
Ele não iria chorar. Não derramaria uma única lágrima, fosse de fúria ou de tristeza, pensou enquanto subia as escadas.
Quase quis se chutar quando chegou a porta do seu quarto e sentiu as faces úmidas. Quase com alívio, a bem da verdade, elas eram a prova de que continuava o Shun de sempre, o Shun chorão e fraco, que precisava da força de seus amigos e de sua deusa para lutar.
- Lágrimas de amargor? Seria essa uma mudança para melhor?
Shun arregalou os olhos, procurando freneticamente quem poderia ter falado, mas estava sozinho. Limitou-se a respirar fundo e abraçar os joelhos, enquanto chorava.
...
Shun estava com vontade de chorar.
Mas então sentiu uma mão em seu ombro direito e a voz do deus novamente e mal conseguia respirar de pavor.
- Achei que eventualmente cansarias de chorar, mas vejo que estava enganado. Ah, os mortais!
Frio. Muito frio. Nem mesmo treinando contra Hyoga ou batalhando em Asgard havia sentido tanto frio.
- Se o frio o afeta, Andrômeda, afaste minha mão e ele passará. Ou ousas fazer isso, ou ficas aí, sozinho pela eternidade com suas lágrimas congeladas. Faça uma escolha. Lute, nem que seja uma única vez, por você mesmo, cavaleiro.
E eis que os capítulos subitamente se tornam maiores. Façamos votos.
