Capítulo 9

Isabella, cujo semblante refletia sua surpresa claramente, afastou as mãos bruscamente.

—Papai está morrendo... tu sabia e me o ocultaste?

—Teu pai não queria que nem tu nem tua tia soubessem. Iam operá-lo dentro de umas semanas. Agora isso deixou de ser uma opção - admitiu Edward enquanto Isabella seguia olhando-o com olhos doidos e acusadores. - Acreditei, igual a Charlie, que o ponto crítico demoraria a chegar.

—O ponto crítico... - Isabella se afastou dele trêmula. Seu pai tinha má cara quando tinha regressado de sua última viagem, mas que ela o tinha achado a era excesso de trabalho. Como podia não se ter dado conta? Como podia Edward não a ter prevenido?

—Pensei que ainda tinha muito tempo para preparar-te se desculpou Edward com

arrependimento.

—E você é o homem que se atreveu a dizer-me que não estava à altura de teus padrões de honradez? - exclamou Isabella indignada. Tinha arrependimentos porque tinha estado tão absorta em seus próprios problemas que não se tinha fixado no declive de seu pai; inclusive tinha planejado deixar à família Swan, o que tivesse suposto uma desonra pública para seu pai.

—Não queria faltar à promessa que lhe fiz - explicou Edward, acompanhando sua declaração com um eloqüente movimento das mãos.

—Até meu pai tem mais direitos neste casamento do que eu mesma! - lhe jogou na cara Isabella, saindo-se pela tangente. - Pões teu compromisso com ele acima de tua lealdade para mim. Isto é um tema de família, e você não é um Swan!

Isabella, tremendo como uma folha, derrubou-se sobre o assento. Não se atrevia a olhá-lo, porque sabia que estava sendo injusta. Ele sabia perfeitamente como tinha sido sua vida familiar.

Mas, pela primeira vez em muitos anos, Isabella compreendeu que não podia evitar querer a seu pai e que se considerava grega e membro dos Swan, porque ali estavam, e estariam para sempre, suas primeiras recordações e suas raízes. A tinha alegrado muito encontrara sua irmã gêmea, Misty, mas se tinha sentido muito distante quando falaram sobre seus pais naturais: não... não podia esquecer nem deixar de lado a vinte e três anos de vida.

—Estará em Lexos esta noite - lhe assegurou Edward.

—A papai não lhe agrada que estejam em cima dele - Isabella engoliu saliva. - Entendo por que te pediu que não nos dissesses nada a Kalliope nem a mim. Não é culpa tua.

Era de madrugada quando Isabella saiu do dormitório de seu pai, que estava controlado pelo pessoal médico. Seu pai estava tão adoecido que não tinha percebido sua presença durante as horas que tinha passado ao seu lado. Para Isabella tinha sido terrível ver tão débil a um homem que sempre tinha dominado tudo o que o rodeava. O médico lhe tinha confirmado que não teria nenhuma melhoria: tinha sofrido um ataque ao coração dele.

Consciente de que não era uma boa hora para ir falar com sua tia, que estava tão destroçada que nem sequer tinha falado com eles, Isabella voltou a sua suíte.

Fazia muitas horas que não via a Edward porque os advogados e executivos o esperavam com ansiedade. Edward estava a cargo oficialmente do império Swan e Isabella era muito consciente do incomensurável esforço e tempo que isso exigiria dele.

Entrou em sua sala e a surpreendeu ver o balcão aberto. lhe acelerou o coração ao ver ali a Edward, com a camisa meio desabrochada.

—Imaginei que seguias trabalhando...

—Tenho que voltar ao trabalho em poucas horas, ágape mou - Edward abriu os abraços para acolhê-la e ela, com os olhos cheios de lágrimas, aceitou suas cálidas e reconfortantes boas vindas.

—Como ia à cama sem admirar antes tua coleção de ursinhos ao luar? - comentou Edward, olhando de relance a habitação que os ursos ocupavam cada espaço livre.

Isabella deixou escapar uma risada. As vezes o amava tanto que quase lhe doía estar tão perto dele. Se estreitou contra ele, absorvendo energia da calidez e força de seu corpo musculoso, aspirando o aroma masculino e especial de sua pele.

— Eric pensava encarregar vitrinas para todos eles...

—Um irmão muito indulgente.

—Me agradam os ursos, mas - Isabella o olhou atribulada, - era Eric quem estava louco por eles.

— Eric? - Edward franziu o cenho.

— Era homossexual - murmurou Isabella com um suspiro. Edward a olhou com surpresa. – Outro segredo dos Swan que muito poucos conhecem - admitiu ela.

— Charlie sabia?

— Claro que não. Papai sempre estava dizendo a Eric que devia casar-se - o pálido e perfeito triângulo de seu rosto se ensombrou. - Durante os últimos meses de sua vida Eric se sentiu acossado, mas não foi capaz de dizer a verdade a papai.

—Imagino a provocação que tivesse suposto fazê-lo.

—De maneiras diferentes - falou Isabella com voz trêmula —tanto eu como Eric fomos uma grande decepção para meu pai... e agora que o vejo tão...

—Shhh - Edward afirmou seu abraço. Perder a alguém sempre faz que aflorem os arrependimentos, mas o fato, feito está. - Se tivesse aceitado isso, me teria sobreposto antes à morte de Tânia. Mas em vez de fazê-lo, culpei-me pelo que lhe ocorreu.

—Mas, por que? - perguntou Isabella sem entendê-lo.

Edward se apoiou na balaustrada do balcão, com expressão pensativa.

Isabella lhe tocou o braço com um movimento incerto; precisava expressar sua condolência, mas não sabia como fazê-lo com palavras.

— Tânia e eu nos brigamos no dia em que morreu - sua expressiva boca se tensionou. - Queria que fixasse uma data para casamento e eu me neguei. Tínhamos tido a mesma discussão várias vezes. Mas essa noite estávamos numa casa em Corfú, junto à praia.

—Por que não fixaste uma data? - Isabella estudou seu rosto com interesse.

—Durante uma de nossas separações, ela teve uma aventura. Ainda que queria estar com ela, não podia esquecer isso. Edward afastou o cabelo da testa e encolheu um ombro. Nossos convidados de Corfú eram amigos seus. Agradava-lhes beber e estar de festa a maior parte do dia e a mim me aborrecia. Deixei-os e fui trabalhar na outra habitação. - Não voltei a vê-la viva. — Um grupo foi dar-se um banho de meia-noite. Quando se deram conta de que Tânia tinha desaparecido, era demasiado tarde. Senti-me como se a tivesse matado — admitiu Edward com sentimento.

—Não... - exclamou ela, abraçando-o com força e entendendo, por fim, por que lhe tinha custado tanto esquecer a Tânia Denali.

Arrependimento...

Culpava-se pela discussão e por não ter estado na água com ela quando o precisou. - Foi um horrível acidente... igual quando Eric se despedaçou em seu avião. - Ninguém tivesse podido evitá-lo.

—Mas eu não lhe teria permitido que fosse nadar depois de ter bebido tanto. Isso é irrefutável - apontou Edward. - No entanto, eu não me recrimino por isso. - A Tânia lhe agradava o risco, e quase nunca fazia caso de um conselho.

—Devo parecer-te muito aborrecedora depois dela - Isabella se mordeu o lábio inferior.

—Estás brincando? - os olhos de Edward chuviscaram divertidos e, jogando a cabeça para trás, soltou uma gargalhada - Nunca sei que é o que vais fazer!

—Não voltarei a fugir de nosso casamento - prometeu Isabella, ruborizando-se.

—Não penso te dar nenhuma razão para fazê-lo, ágape mou -disse ele com voz rouca.

Edward capturou seus lábios com delicadeza e a angústia que tinha atormentado a Isabella todo o dia se diluiu no esquecimento.

Isabella se levantou às oito da manhã e o lado da cama de Edward já estava vazio. Depois de falar com o médico de seu pai, que confirmou que não tinha nenhuma mudança, foi tomar café da manhã.

Kalliope já estava sentada à mesa do majestoso refeitório. Isabella a saudou e sua tia a olhou com ressentimento e duas manchas avermelhadas tingiram suas bochechas.

—Assim que por fim te dignas a visitar-nos.

—Se tivesse sabido que papai estava enfermo, teria vindo antes - protestou Isabella.

—Não me mintas - acusou Kalliope.

Uma olhadela lhe bastou a Isabella para compreender que sua tia estava de um humor intratável. Tensionou-se e a olhou com surpresa, sem entender sua acusação, mas lhe pareceu preferível calar.

No umbral da porta, Edward se deteve ao ouvir a acusação e olhou a Kalliope com o cenho franzido. Mas ela, sem vê-lo, concentrou-se em sua sobrinha.

—Falei com Mike depois de que teu marido dispensou seus serviços. Inteirei-me de que tinhas escapado poucas horas depois do casamento...

Sem saber exatamente onde queria chegar sua tia, Isabella empalideceu e começou a defender-se rapidamente.

—Tudo isso se esclareceu. - Cometi um erro estúpido, mas Edward e eu somos muito felizes juntos.

—Um erro? Assim o chamas? - a mulher grega levantou uma sobrancelha. - Permiti que Mike completasse a investigação. Descobriu que tinhas reservado esse vôo a Londres nove dias antes de casar-te com Edward Christoulakis.

Edward, que estava a ponto de se fazer notar sua presença, acercou-se a Isabella com a rapidez de um raio.

—Isso é verdade? - exigiu, sem dar-se tempo a absorver o significado do que acabava de ouvir.

Isabella deixou cair o copo que tinha entre os dedos, e na mesa se formou a mancha de suco de laranja. Sua tia soltou um gritinho de surpresa ao ver Edward, Isabella ficou gelada, suspendida no tempo e o espaço. Horrorizou-a que seu esposo tivesse escutado a acusação de Kalliope.

—Te fiz uma pergunta - disse Edward friamente.

Kalliope jogou a cadeira para atrás e se pôs em pé. Seu olhar passou do rosto descorado de sua sobrinha ao rosto ameaçador de Edward e, murmurando uma desculpa, saiu da habitação.

— Edward... - Isabella se pôs em pé trêmula.

—Cala-te - cortou Edward frio como um iceberg – Sabe do que estou perguntando. É verdade que reservaste esse vôo para Londres nove dias antes de nosso casamento?

Isabella, percebendo o silêncio como um fantasma ameaçador, retorceu-se interiormente. Era verdade, mas essa verdade podia destruir seu casamento. Se o admitia, estaria dizendo que só tinha aceitado a casar-se com ele para utilizá-lo como meio para escapar da tirania de seu pai. Estaria confessando que nunca tinha tido a intenção de ser sua esposa nem de viver com ele. Essa confissão, quando era tão feliz, era demasiado dura.

Olhou-o com o coração a ponto de romper-se em dois, empapada de suor frio. Ele parecia um felino a ponto de saltar, enquanto esperava sua resposta. Ela teria renunciado a dez anos de sua vida por não contestar.

—Te perguntarei pela última vez... - insistiu Edward com voz letal. - É verdade?

Isabella deixou cair os ombros com impotência ao compreender que não podia evitar uma pergunta tão direta. Pálida e trêmula, entreabriu os lábios.

—Sim.

Desejaria poder dizer que é uma mentira infame mas, por desgraça para mim... é verdade

Um segundo depois, viu em seus olhos quanto tinha temido: assombro, desgosto e, o pior de tudo, dor e ira por saber quão baixo que tinha caído, por esse egoísmo que a tinha levado a ignorar seus sentimentos. Esse olhar foi o pior castigo que poderia ter recebido, e sentiu que o arrependimento e a culpabilidade a aterrorizava como nunca antes em sua vida.

—Estava mal... estava desesperada. Papai não me tinha permitido sair da ilha em quatro anos. Era uma prisBellaira - raciocinou Isabella, olhando-o fixamente - Não pensava racionalmente. Não podia pensar em como afetariam a ti meus planos.

—Nem te importava ? - interrompeu Edward friamente.

—Foi algo egoísta e estúpido e me arrependo de ter pensado assim... disse ela com dor.

—Seguiu adiante com o casamento sabendo o que ias fazer... - Edward deixou escapar uma gargalhada incrédula. —Como pôde fazê-lo? Como pôde entrar nessa igreja e mentir aceitando esses votos matrimoniais que eu aceitei com sinceridade? É que sua capacidade de decepção não tem limite?

—Mudei de opinião no último minuto...

—Mudou de opinião porque enfrentei a ti - refutou Edward com firmeza.

—Não... antes de que me encontrasse no aeroporto, já estava me arrependendo de minha decisão! -protestou Isabella. -Sentia-me fatal, não queria te abandonar...

—Talvez a essas alturas te assustasse a idéia desse enorme mundo cheio de liberdade.

—Não aceito que um sentimento de lealdade ou decência influísse em teu comportamento. Nunca saberemos se terias subido nesse vôo não é verdade? - Argumentou Edward com um feroz tom de condenação.

—Eu já tinha sentimentos por ti...mas, lutava contra eles! - balbuciou Isabella cada vez mais nervosa. Começava a captar que tinha perdido por completo a fé nela.

—Me utilizaste como se fosse um objeto - acusou ele, com olhos escuros como a noite. - Acabas de provar que não te faz falta um vínculo de sangue para ser uma Swan de pés a cabeça... Só uma Swan atuaria com essa desconsideração para os demais!

Isabella afastou o olhar com vergonha, porque não tinha desculpas. Sua intenção tinha sido utilizar o casamento para fugir, e tinha abandonado seu plano demasiado tarde. Talvez se tivesse voltado do aeroporto antes de que ele a encontrasse, o dia de seu casamento, poderia justificar-se, mas não o tinha feito.

—Eu mereço isso, mas depois não podia dizer-te a verdade...

—Se tivesses admitido a verdade nesse dia, no hotel do aeroporto, te teria deixado ir embora. Interrompeu Edward com voz fria e convicta. Teríamos anulado o casamento. Nada me teria convencido para que te desse uma segunda oportunidade!

—Eu queria essa segunda oportunidade, Edward - exclamou ela.

Edward moveu a cabeça de lado a lado.

—Fui um estúpido! Seu comportamento no casamento..., o dinheiro e as jóias da maleta..., suas desculpas. Convenci-me de que estava tratando com uma virgem nervosa. Estava disposto a me deixar enganar. Sabe por que?

Isabella, temendo suas próximas palavras, negou com a cabeça.

—Nenhuma mulher me tinha deixado antes, e ao menos uma dúzia tinham tentado levar-me ao altar — confiou Edward com expressão desdenhosa. Estava disposto a aceitar qualquer desculpa antes que admitir a humilhante verdade: que a mulher que tinha escolhido como esposa, a mulher com a que pensava envelhecer, era capaz de abandonar-me uma hora depois do casamento!

—Não me julgues pelo que fiz faz semanas, quando mal te conhecia - suplicou Isabella desesperada. - Já não sou a mesma pessoa e nosso casamento é o mais importante de minha vida. - Você me importa...

—Tanto que a mínima suspeita de infidelidade fez que abandonasses a relação uma segunda vez - interveio Edward com frialdade.

Essas palavras destrutivas exacerbaram o desespero de Isabella. Nada do que tinha dito parecia ter-lhe causado nem a mínima impressão. Ademais, a revelação de Kalliope tinha conseguido que Edward visse os acontecimentos mais recentes com uma perspectiva ainda mais negativa.

—Nossa relação é uma mentira... - Edward abriu as mãos com um gesto isento de sua graça habitual. - Desde o princípio...

—Não... não é assim! - gritou ela com frenesi. Edward lhe lançou um olhar assassino.

—Acaso quer que acredite que alguma vez teve uma foto minha em teu armário do colégio, - depois desse inesperado e inquietante comentário, Edward saiu da habitação.

Isabella se deixou cair na cadeira, enterrou o rosto entre as mãos e chorou a lágrima viva.

Tentava não pensar na multidão de vezes que tinha olhado, a escondidas, as fotos de Edward que tinha seu colega no armário. Uns minutos depois alguém lhe apertou o ombro com compaixão.

Levantou a cabeça e se desconcertou ver a sua tia olhando-a com preocupação e culpabilidade.

—Não queria causar problemas entre você e teu marido - declarou Kalliope. - Agrada-me o Edward. Agora é parte da família. Estava enfadada contigo. Mas não teria dito nada se tivesse sabido que ele podia ouvir-me.

—Eu sei - concedeu Isabella com tristeza. Então, vamos as duas a sentar-nos com teu pai - sugeriu Kalliope com mais energia que habitual, aliviada porque sua sobrinha não se tivesse enfrentado a ela.

Charlie Swan morreu na última hora da manhã. Edward passou uns minutos com Isabella e disse e fez tudo o que podia esperar-se dele. Kalliope se desfez em lágrimas em seus braços. Isabella lhe agradeceu seu apoio mas era muito consciente do olhar inexpressivo de seus olhos e da distância que posto entre eles. Tinha a esperança de poder falar com ele essa tarde, mas a aflição de Kalliope, a organização do funeral privado e as exigências de negócios o impediram. Quando Isabella caiu na cama, exausta, Edward seguia trabalhando; quando acordou à manhã seguinte, a única evidência de que tinha compartilhado a cama com ela algumas horas era a marca que sua cabeça tinha deixado

no travesseiro.

Esse dia, Edward se reuniu com sua esposa e a tia desta para almoçar. Não teve nenhuma oportunidade de conversar em privado, e Isabella se perguntou se seria essa a razão de que Edward tivesse comparecido. Não podia falar com ele em seu escritório, pois sempre estava rodeado de gente. Isabella, tentando elucidar o que lhe passava pela cabeça, perguntava-se se não seria mais inteligente não forçar outra discussão numa situação tão tensa. O verdadeiro era que não tinha nada que não lhe tivesse dito já, mas ficar calada quando a distância entre eles se acrescentava hora a hora, horrorizava-a.

A meia-noite Edward ainda não tinha chegado ao dormitório e Isabella, incapaz de suportar sua ausência um momento mais, saiu da cama, pôs-se uma bata de seda e foi ao despacho. Edward estava tão imerso em seu trabalho que nem sequer notou sua chegada.

Isabella, durante um momento, limitou-se a festejar seus olhos com a visão de seu perfil e a espessura de suas pestanas e seu cabelo bronze, enquanto ele olhava a tela de seu computador portátil. Recordando que a tinha acusado de escapar quando surgiu a primeira dificuldade em seu casamento, enquadrou os ombros. Não queria perdê-lo. A mera idéia de perder a Edward a horrorizava.

—Vais vir cedo para cama? - perguntou com uma voz que denotava sua tensão. Edward levantou os olhos, jogou para trás a cadeira e se pôs em pé.

—Eu duvido. Os advogados de teu pai querem ler seu testamento amanhã e precisam destes dados.

—Não pode fazê-lo outra pessoa?

—Eu temo que não. Sem ânimo de ofender - murmurou Edward - a maioria dos executivos do império Swan não seriam capazes de atar-se os cordões sem receber uma ordem direta.

—A papai lhe agradava ter o controle - Isabella sussurrou.

—Sim, mas isso significa que por enquanto não conto com uma infra-estrutura em que apoiar-me – Assinalou Edward com calma.

Isabella notou que utilizava o mesmo tom cortês e razoável que o dia anterior. Não tinha voltado a falar-lhe com calidez e intimidade. Sentiu nos olhos a ardência das lágrimas sem derramar.

—Vais perdoar-me alguma vez?

—Que há para perdoar? - perguntou ele, cruzando o olhar com ela um segundo. - Tenho uma idéia bastante clara de como era tua vida. Sentias-te impotente e elegeste o único meio a tua disposição para mudar isso...

—Mas, que preço tem isso para nós agora? - interrompeu Isabella, mais preocupada do que aliviada por sua concessão. – Está me dizendo do que entende por que fiz o que fiz, mas isso não é o que te perguntei.

—Disse que não tinha nada que perdoar-lhe recordou Edward. Tua decisão foi racional e, em teu caso, talvez tivesse feito o mesmo. A ética não serve de nada quando entra em jogo a sobrevivência.

—Me atraíste desde o princípio, mas lutei contra isso - disse Isabella, estava tão nervosa que lhe tremiam as pernas. - Não podia permitir-me confiar em ti... Não podia permitir-me pensar no que estava fazendo...

—Creio que não há necessidade de falar disto.

Ela olhou seu tenso semblante, no que se percebia a sombra azulada de um princípio de barba, e esteve a ponto de jogar-se a chorar. Tinha ferido seu orgulho, destroçado sua confiança nela e arruinado seu casamento mas ele estava ali de pé, evitando o tema com decisão.

—Mas há uma coisa que deveria mencionar... - continuou Edward com tom frio e calculista. - Equivoquei-me ao pedir-te que pusesses teus bens em compromisso para nossos filhos. Não tinha nenhum direito de exigir um sacrifício como esse, agora me parece bastante ridículo.

—Não, não era ridículo - interrompeu Isabella com voz entrecortada, disposta a entregá-lo tudo nesse mesmo momento se assim pudesse salvar o abismo que se tinha aberto entre eles.

—Claro que o era - Edward lhe dirigiu um sorriso zombador e cansado. - Amanhã te converterás numa das mulheres mais ricas do mundo.

—Tudo que é meu, é teu - protestou Isabella desesperada.

— Assinei um acordo para ocupar-me do império Swan e beneficiar-me só através de minha associação com teu pai. Agora que ele já não está, não aceitarei nada que seja teu - declarou Edward com dignidade.

—Se isso vai converter-se em outra barreira entre nós, eu darei tudo de presente! – ameaçou Isabella.

—Tens um dever de compromisso e responsabilidade com milhares de empregados – falou Edward com censura. - Se o império Swan se divide e outras empresas o absorve, terá muitas demissões.

Isabella o olhou desolada e ele adicionou. — Ademais, creio que também deverias ter em conta que ser pobre suporia um grande repto para ti.

Isabella percebeu o tom ligeiramente divertido de sua voz e compreendeu que o que tinha dito, sem pensá-lo, era uma tolice. Como era o primeiro vislumbre de humor que via nele, decidiu aproveitá-lo.

—Te esperarei acordada - disse, retrocedendo para a porta. - E, na verdade, essas fotos tuas não estavam em "meu" armário, mas as olhava as escondidas!

Ao ouvir essa referência a suas amargas palavras, Edward se pôs rígido. Seus olhos a olharam com um reflexo da irada mal-estar que tinha tentado ocultar-lhe, mas, involuntariamente, detiveram-se no cabelo solto e as curvas femininas que realçava a seda. Quando seus olhos se encontraram, ela percebeu uma corrente de excitação quase elétrica. Soou o telefone, ele se voltou para contestar e o momento se perdeu.

Isabella voltou à cama com o coração golpeando seu peito. Ainda a desejava e ela estava disposta a aproveitar essa debilidade. Talvez deveria ter-se tombado em cima da mesa e oferecer-se a ele. Ou talvez deveria ter-lhe dito quanto o amava e precisava dele.

Mas todos esses pensamentos frenéticos e confusos não foram mais do que uma perda de tempo e energia. Ao amanhecer, Isabella seguia só e mais desesperada do que antes. Edward tinha ignorado seu convite. Edward, que nunca antes lhe tinha dito que não, tinha-a recusado pela primeira vez. Isabella começou a perguntar-se se estaria pensando em divorciar-se dela quando tivesse resolvido os complicados assuntos de seu pai. Seria essa a razão de que lhe tivesse dito tão explicitamente que não aceitaria nada que fora seu?