O ar
Yamato entrou no quarto 132 e sentiu o coração se rasgar em vários pedaços ao ver aquele quadro triste.
Sora olhava para a janela com os olhos perdidos, por onde os raios de sol passavam e tocavam-lhe o rosto como uma tentativa de conforta-la, o que não acontecia. E ela continuava a olhar procurando respostas que não conseguiria, procurando um alguém que não chegava enquanto segurava firmemente os óculos de natação como se nada mais existisse para ela.
"Olá Sora."- Matt cumprimentou sorrindo.
"Vá embora!"- Ela pediu enquanto se escondia em baixo das cobertas.
"Por que?"- Perguntou chateado- "Está com medo de mim?"
"Não."- respondeu ainda com a cabeça encoberta- "É que eu sou um monstro; todos os que olham para mim acabam ficando tristes. Se você se aproximar ficará triste também."
Matt sorriu tristemente e se aproximando dela puxou o cobertor em que ela se escondia.
"O que está fazendo?"
O garoto simplesmente ignorou a pergunta, colocou a mão em baixo do queixo de Sora e o moveu para cima de modo que ela pudesse olha-lo nos olhos.
Aqueles olhos azuis... ela se lembrava deles de alguma maneira. Eram a perdição que fariam qualquer garota perder a lucidez só para poder olha-los fixamente por alguns poucos segundos.
"Eu não estou vendo nenhum monstro."- Ele sorriu de modo que ela sentiu-se confortável- " Eu só vejo a garota mais linda e doce desse mundo e só por saber que eu a tenho aqui tão perto e que ela está a salvo... eu sinto uma alegria inexplicável."
A digiescolhida sentiu o coração pulsar mais forte e as maçãs de seu rosto ficarem vermelhas e quentes. Logo um sorriso se espalhou pelos seus lábios.
"Arygatou."
"Hey garoto."- Uma das enfermeiras chamou. "O horário de visitas termina em dez minutos."
"Certo."- Ele concordou.
"Você também vai me deixar sozinha?"- Ela perguntou segurando desesperadamente com as duas mãos nos braços de Matt.
"Não se preocupe."- beijou-lhe a testa.- "Eu juro que eu volto mais tarde."
Sora se acalmou um pouco encostando-se no travesseiro e soltando o braço dele.
"Antes que eu esqueça, eu fiz uma música para você"- Ele tirou sua gaita do bolso- "Eu a trouxe porque não me deixariam entrar com o violão."
Yamato fechou a porta do quarto para que a música não se espalhasse pelo hospital perturbando os pacientes que queriam descansar.
Logo ele se pôs a tocar, a melodia se espalhou por todo o quarto e alguns poderiam dizer que de tão leve poderia se misturar ao ar. Sora assistiu Matt tocar até pegar no sono e dormir, poucos minutos depois.
Taichi chegou a recepção onde os outros digiescolhidos estavam aguardando Matt para irem embora. Tai estava quase sem fôlego pois viera correndo para o hospital, não sem antes comprar flores para Sora. Sabia como ela gostava de flores.
"O horário de visitas está quase acabando."- Yolei informou assim que o viu chegar.
"E como elas estão?"- Perguntou preocupado.
"A mãe da Sora faleceu pouco depois de chegar ao hospital Tai..."- Izzy informou ainda segurando nas mãos de Mimi.
Tai ficou sem palavras por alguns segundos. Não conseguia acreditar que a senhora Takenouchi havia morrido. Ela era tão forte! Sora deveria estar arrasada.
"E a Sora? Como está?"
"Ela não se lembra de nada."- Kari informou enxugando as lágrimas- "Ela não sabe o que é uma mãe... E a enfermeira disse que ela mal se lembrava do próprio nome."
Foi como se uma Segunda bomba explodisse sobre Tai. A Sora... Sua Sora não se lembrava nem do próprio nome? Aquilo não poderia ser possível...
"Mas parece que ela se lembra de você Tai."- Joe, que até o momento permanecera calado informou.
"Eu tenho que vê-la."
"Não dá. O Matt já está lá com ela e nós devolvemos os cartões de visitas para o recepcionista."- Tk falou. " Ele já deve estar voltando pois o horário de visitas está quase acabando."
Matt é claro. Ele não poderia deixar de ver a namorada poderia? Ele a amava muito talvez tanto quanto Tai. Só que Matt tinha uma vantagem que Tai não tinha, ou pelo menos, nunca pensou que teve- Sora correspondia seus sentimentos.
E por falar no vocalista dos Lobos o mesmo descia as escadas direto para a recepção onde os amigos o aguardavam. Parou em frente á Tai e depois de encara-lo por algum tempo disse:
"Ela ficou esperando por você. Por que não veio logo?"
Tai não pode responder, simplesmente ficou ali quieto. Matt saiu e os outros o seguiram com a cabeça baixa.
"Você não vem Tai?"- Kari perguntou preocupada.
"Não, vou ficar aqui esperando até o próximo horário de visitas."
E dizendo isso sentou-se no sofá da recepção e fitou um ponto qualquer no chão perdido em pensamentos sem se quer notar as muitas pessoas que entravam e saíam a procura de algum amigo ou ente querido.
" Taichi Kamiya"- A enfermeira chamou-o calmamente colocando uma de suas mãos sobre os ombros de Tai- "O horário de visitas já começou."
"Hã? A sim obrigada"
"Doo Itashimashite"- Respondeu e saiu apressada para a sala de raio- X
Tai olhou o relógio que estava pendurado na parede e viu que três horas já haviam se passado. Levantando-se do sofá percebeu que nenhum outro digiescolhido havia chego. Pegou um crachá de visitante com um dos rapazes da recepção e subiu as escadas até o primeiro andar procurando entre os quartos aquele que pertencia a Sora.
"132... acho que é esse."
Abriu a porta do quarto e a viu dormindo tranqüilamente porém seus braços estavam presos a cama.
"Ela teve um ataque de pânico e tivemos de amarra-la a cama. São os procedimentos do hospital"- A enfermeira que passava por ali explicou ao ver a cara assustada de Tai. – "Ela tentou fugir pela Segunda vez. É para o bem dela."
"Não podem solta-la durante o horário de visitas pelo menos?"
"Bom..."- A enfermeira pensou por algum tempo e em seguida sorriu. "A Maya não ia gostar muito mas pra mim tá tudo bem. Mas tem que prometer que ela não ira fugir hein?"
"Eu prometo."- Ele levantou as mãos em juramento.
"Tá bom."- Ela sorriu mais ainda e soltou um dos braços de Sora da cama. " Você por um acaso é o namorado dela?"
"Não."- Respondeu vermelho- "Sou só o amigo."
"Bom, porque se fosse o namorado teria alguns problemas... Já devem Ter te avisado que ela não está reconhecendo ninguém."
"Sim eu sei."- Ele respirou fundo.
"Só aquele óculos de natação e aquele outro menino loiro... Como é mesmo o nome? A sim o Yamato."- Ela desprendeu o outro braço.- "Pronto. É melhor eu ir. To falando demais e tenho muito serviço pela frente."
"Tchau e obrigada"
Tai entrou no quarto e ficou sem saber ao certo o que fazer, viu então que Sora segurava os óculos de natação em um uma das mãos. Colocou as flores em um dos vasinhos que estavam espalhados pelos cantos.
"Sora?"- Ele chamou baixinho o que foi suficiente para que ela abrisse os olhos.
" O-oi"- Respondeu ainda sonolenta.- "Eu não conheço você?"
"Eu imagino que sim."
Ela se sentou na cama e ficou a fita-lo curiosa e confusa.
"Você pode me tirar daqui? Eu não sei o que estou fazendo aqui... Eu não consigo me lembrar de nada."
"Sora..."- Tai mordeu o beiço para ganhar tempo antes de lhe explicar tudo. –" Você sofreu um acidente e perdeu a memória. Vai Ter de ficar aqui até se recuperar completamente e receber alta."
"Eu não quero ficar aqui. Eu odeio esse lugar."- Ela abraçou as próprias pernas.
"Eu sinto muito mais eu não posso te tirar aqui."- Disse. Aquilo o estava matando.
"Então... por favor não vá embora... Não quero ficar aqui sozinha."- Ela pediu.
"Eu tenho de ir. Mas se você se comportar bem logo você vai poder vir comigo também."- Ele explicou como se estivesse falando a uma criança.
"Tá bom."- ela concordou.
"Ótimo."
"Mas você pode ficar mais um pouco não pode?"
"Sim."
"Que bom!"- O rosto dela se iluminou. "Eu gostei de você. Você é bem interessante. Eu não entendo porque os outros estavam chorando tanto."
Tai não respondeu, ele próprio estava sufocando. Segurou firmemente na mão dela e ficou olhando aqueles olhos castanho- avermelhado que ele gostava tanto.
"Sora, todos os que vieram aqui hoje são seus amigos. Eles estavam preocupados com você. Mesmo que você não se lembre eles passaram boa parte da vida com você. Mas não se culpe por não se lembrar o.k.? Nós podemos começar novamente."
Ela acenou com a cabeça.
"Eu sou Taichi Kamiya. Me chame de Tai. É um prazer conhece-la."- Ele estendeu a mão para que ela a apertasse.
"Eu sou Sora Takenouchi. O prazer é meu."- Ela segurou a mão dele.
"Agora eu vou Ter de ir embora pois a Mimi, A Kari, O Matt e os outros devem estar lá em baixo esperando para falar com você."
"Eu posso ficar com os seus óculos?"- Ela perguntou.
Tai ficou espantado por perceber que ela associou aqueles óculos a ele e não ao Daiusuke e olhou-a por algum tempo. Sora simplesmente sorriu.
"Pode, mas vai Ter de devolver ao Davis quando sair do hospital."
"Tudo bem!"- Ela exclamou.
"Até amanhã Sora."
"Até Tai."
Três semanas haviam se passado e este seria o dia da alta de Sora e também do seu aniversário. Ela já havia decorado o nome de todos os digiescolhidos porém para não confundi-la ainda mais não haviam lhe falado sobre nada do digimundo e nem sobre sua mãe ou seu pai.
Os digiescolhidos estavam reunidos na sala de recepção do Hospital Geral De Odaíba discutindo o que haveriam de fazer com a Sora.
"Eu quero que a Sora vá morar comigo"- Mimi falou primeiro.
"Isso não é certo Mimi, você só está aqui de férias. Daqui a duas semanas vai voltar para os Estados Unidos." – Matt falou
"Ela pode ir lá pra minha casa!"- Daiusuke se ofereceu.
Todos os outros o olharam com uma enorme gota na cabeça.
"O que foi? Acham que eu não tenho responsabilidade?" – Perguntou irritado.
"Isso e o fato de que a sua irmã irá mata-la"- Yolei falou
"Como assim?"- Ele perguntou.
"Como se você não soubesse"- Tk falou.
"A Sora não é um brinquedo!"- Tai exclamou.
"Com licença."- Ken pediu timidamente- "E se ela passasse duas semanas com cada um de vocês? Assim ela poderia escolher onde quer ficar."
"Ótima idéia Ken!"- Yolei exclamou admirada vendo-o ficar vermelho.
"A Arygatou"
"Comigo primeiro!"- Mimi exigiu.- "Como o Matt disse eu vou embora para os Estados Unidos e quero passar um tempo com a minha amiga!."
"Com licença"- O médico se interferiu na conversa deles- " A amiga de você já está de alta porém a memória dela não será recuperada completamente. Assim não pensem que ao leva-la para casa ela e muito menos uma pancada a fará se lembrar de tudo."
Todos engoliram em seco pela falta de compaixão do médico.
"Me diga doutor, exatamente o que aconteceu com ela?"- Joe pediu.
"Ela sofreu uma espécie de derrame que afetou um pouco o cérebro dela. É felizmente um fato isolado e provavelmente não causará mais nenhum transtorno. Mesmo assim eu darei uma medicação para que derrames eventuais não aconteçam. Ela poderá ir a escola normalmente."
"E quanto as memória doutor?"
"Sim ela não se lembra de quase nada, as vezes ela poderá se lembrar de um objeto, uma pessoa o que a fará ficar um pouco eufórica. Também existem casos raros de que algumas memórias suas venham na forma de sonho porém ela não saberá decifra-los. Assim vocês poderiam inventar fatos sobre o passado dela que ela nunca discordaria, o que obviamente não é aconselhável pois só a fará ficar mais insegura e triste assim NÃO O FAÇAM DE MANEIRA ALGUMA."
"E como vamos contar sobre a mãe dela?"
"Podem contar normalmente. Ela não sentira a mesma coisa que uma criança ou adolescente órfão sente. Provavelmente só ficará triste pelo sentimento de perda que é inevitável mais nenhuma culpa, a não ser pelo fato de tê-la esquecido, irá afeta-la. Ela só se sentirá mais triste se vocês ficarem também."
Mimi mordeu os lábios quando ele disse isso.
"Agora tenho de ir ela já está esperando por vocês."
"Sora!"- Eles gritaram em conjunto ao ve-la segurando uma pequena mala e caminhando em direção a eles.
"Finalmente você irá sair daqui!"- Mimi gritou feliz abraçando-a com força.
"Parece que você está bem mais contente Mimi!"- ela comentou quase sem ar.
"Vamos logo para casa que nós temos uma surpresa te esperando."- Matt afirmou.
"Isso.. me parece bem legal."- disse insegura.
"E é!"- Kari não segurou um grito de alegria.
Sora olhou para Tai que estava bem atrás daquela multidão observando- a .
"Isso é seu Davis, o Tai mandou eu te devolver."- Sora disse tirando o óculos de sol de sua mala e entregou a ele.
"Valeu, eu já tava sintindo falta deles!"
Eles caminharam para fora do hospital e Sora teve vontade de gritar de alegria ao sair dali. Embora estivesse se sentindo estranha saindo com pessoas que ela só conhecia porquinze minutos de conversas semanais era muito melhor do que estar entre as quatro paredes brancas daquele quarto.
Cap 2 pronto. bjs pra vcs
