NA¹: Dedicado a Dri.
Quando Dois Deslocadores se Encontram
Quando cheguei a casa do Jack toquei a campainha e esperei que Helga, a governanta dos Slater que, segundo Jack, trabalha com a família desde que seu irmão mais velho nasceu, abrisse a porta como ela sempre faz. Entretanto quem abriu a porta foi a última pessoa do mundo que eu esperava encontrar, não pude deixar de falar meio surpresa.
- Você?
Capítulo 3: O Irmão Mais Velho
- O que é que você está fazendo aqui? – eu perguntei confusa ao ver o garoto-olhos-azuis na casa do Jack.
- Eu moro aqui – ele disse como se isso fosse a coisa mais obvia do mundo. – E então, não vai querer entrar Kathleen Harrison?
- Como é que você sabe o meu nome? – eu perguntei quando entrei na casa.
- Eu ouvi aquela garota loira com voz estridente te chamar assim mais cedo.
- Ah, a Rachel – falei para mim mesma, agora as coisas estavam começando a fazer sentido. – Mas e você, quem é você?
- Eu sou o Paul, o irmão mais velho do Jack.
Foi então que caiu a ficha. A Rachel não falou que ele se chamava Slater? Como é que eu não havia ligado os fatos antes, hein? Naquele momento me senti uma completa idiota.
- KATE! – ouvi alguém me gritar.
Era o Jack, ele estava no alto das escadas que dava ao andar superior da casa. O garoto desceu-as correndo e veio me abraçar.
- Oi Jack!
- Eu pensei que você não viesse hoje – falou com um sorriso estampado no rosto.
- Eu não vinha. Só que interditaram o ginásio hoje, então não teve treino.
- Ca-hãm. – Paul pigarreou e só então o Jack notou a sua presença.
- Ah Kate, esse o meu irmão Paul, lembra que eu falei dele pra você?
- Lembro – eu disse. – Seu irmão até já se apresentou.
- Legal – Jack se limitou a dizer. – Kate, quero te mostrar uma coisa. Espera um pouco que eu vou no quarto buscar.
- Tudo bem – eu falei, e ele saiu, subindo as escadas correndo, em direção ao seu quarto.
- Então quer dizer que você é a famosa Kate – ele disse enquanto caminhávamos até a sala de estar dos Slater.
- Famosa?
- É, meu irmão vivia falando de você.
- Sério? – eu disse surpresa, não sabia que o Jack andava falando sobre mim para o seu irmão. – O que foi que ele disse?
- Algumas coisas... – ele disse misterioso.
Eu iria perguntar o que exatamente ele havia falado sobre mim, quando o Jack chegou:
- Olha o desenho que eu fiz – ele falou me entregando uma folha de papel.
- O que é? – perguntei.
- É uma vaca pastando. Não parece com aquele quadro de sua avó?
Não, não parecia. O quadro do qual o Jack falava era uma pintura cubista, que a minha avó havia pintado há uns anos atrás. Já o desenho de Jack era uma confusão de figuras geométricas e cores, não consegui nem distinguir o que era o céu e o que era a grama.
- Até que lembra um pouco.
Isso não foi de todo uma mentira, porque acredito que se eu fosse míope e o desenho estivesse a uns 10 metros de distância, talvez até os achasse parecidos...
Percebi Paul ao meu lado tentando prender uma risada.
- O que foi Paul? – Jack perguntou.
- Nada não. Acho que vou voltar para o meu quarto. Foi um prazer te conhecer, Kate. – ele disse para mim e então saiu.
- E então Jack, quer fazer alguma coisa – perguntei.
- Ah não, eu vou continuar desenhando. Estou fazendo um desenho para mostrar a sua avó na próxima vez que eu for a sua casa. Ela disse que quer ver como eu desenho.
E assim passamos uma boa parte da tarde. Fomos para a sala de jantar e enquanto o Jack desenhava, eu estudava. Mesmo no primeiro dia já haviam começado os assuntos.
- Terminei – ouvi o Jack dizer depois de um tempo.
- Me deixa ver? – pedi.
- Ah não, só depois que eu pintar. Eu ainda quero pintar ele com giz de cera, a caixa está no meu quarto.
- Deixa que eu pego pra você – eu disse me levantando da mesa e fui até o quarto do Jack no segundo andar da casa.
O quarto, como sempre, estava uma bagunça, cheio de brinquedos espalhados pelo chão. Encontrei a caixa de giz do Jack na escrivaninha, que ficava ao lado da cama. Estava embaixo de várias folhas de papel desenhadas.
O Jack desde que viu a ultima exposição da vovó botou na cabeça a idéia de que quer ser pintor como ela um dia.
Eu peguei a caixa, mas antes de voltar para sala, resolvi dar uma arrumada naquela bagunça de papéis.
Estava guardando os papéis dentro da gaveta da escrivaninha, quando ouvi uma voz logo atrás de mim.
- O que é que você está fazendo aqui?
Era o irmão mais velho do Jack.
Com o susto acabei derrubando todas as folhas que eu segurava no chão. Abaixei-me para pegá-las.
- Desculpe, eu não quis te assustar – ele falou, também se abaixando para me ajudar a recolher os papéis.
- Não, tudo bem – eu disse guardando os desenhos na gaveta da escrivaninha. – Eu só vim aqui pegar a caixa de giz de cera do Jack.
- Esses desenhos são horríveis, não são? – ele falou enquanto olhava algumas folhas.
- É, eles são.
- Mas você não tem coragem de dizer isso ao Jack, né? – ele riu.
- Não, não tenho – admiti.
- E aquele desenho que ele te mostrou na sala? Acho que foi a pior coisa que eu já vi na vida.
- Ei! – reclamei – Dê um credito ao garoto, Van Gogh não nasceu sabendo, sabia disso? Todo grande artista já deve ter tido uma fase em que desenhava mal.
- Está certo – ele riu ainda mais. – Eu estou indo comer alguma coisa. Quer ir junto?
- Claro – eu peguei a caixa do Jack e então saímos do quarto.
Durante o caminho para a cozinha, eu puxei conversa.
- Mais cedo, você disse que o seu irmão havia falado de mim para você.
- Foi, mas sabe, eu nunca imaginei que você fosse uma líder de torcida – disse me olhando de cima a baixo, com um sorriso estranho.
Amaldiçoei-me mentalmente por não ter me lembrado de trocar o meu uniforme antes.
- Por que, algum problema contra líderes de torcida?
- Claro que não, muito pelo contrário... É só que do jeito que o meu irmão falava, tive a ligeira impressão de que você fosse uma encrenqueira. Porque líderes de torcida são sempre certinhas, certo?
Sorri meio sem graça para ele. O Paul nem fazia idéia do quanto estava certo ao meu respeito, afinal quando eu quero, consigo ser uma garota bem encrenqueira.
Resolvi mudar de assunto.
- Acho que eu estou em desvantagem por aqui, quer dizer, você sabe tanto sobre mim, e eu não sei nada sobre você...
- Isso não é verdade, você sabe que eu sou o irmão do Jack, que estudamos no mesmo colégio e que temos aula de trigonometria juntos.
- Há-há, engraçadinho – eu disse sarcástica quando chegamos a cozinha.
A cozinha dos Slater era enorme, toda branca, com eletrodomésticos em aço inox e armários embutidos na parede. No centro dela havia uma grande mesa de mármore.
Paul foi ate a geladeira de duas portas procurando algo para comer, tirou de lá dois sanduíches e duas latas de coca. Enquanto isso, eu fui ate o armário e peguei dois pratos e copos.
Sentamos a mesa para comer. Abri a minha lata de refrigerante e enchi o meu copo, já estava bebendo quando ouvi o Paul falar do nada:
- Quer dizer que você é uma mediadora.
Nem preciso dizer que eu quase coloquei todo o refrigerante que estava bebendo para fora.
- Mediadora? Eu realmente não sei o que você está falando – tentei falar de forma casual depois que me recompus do susto. Porém acho que não fui bem sucedida, porque em seguida ele disse:
- Não precisa mentir, Kate. O Jack me disse umas coisas bem interessantes sobre você...
O Jack disse o que??? Ah, eu vou matar aquele garoto linguarudo!
- Ah disse, foi? Exatamente o que o Jack andou falando sobre mim.
Ele deu uma mordida em seu sanduíche antes de continuar.
- Jack disse que você era como ele, que podia ver fantasmas, essas coisas.
- E você não acreditou nele, acreditou? – perguntei como quem não queria nada.
- Claro que acreditei. Ele é um mediador, porque mentiria sobre você?
Juro que se não estivesse sentada eu teria caído de tão bamba que as minhas pernas estavam. Quer dizer que o Paul sabe que Jack é um mediador? O Jack nunca havia me dito isso, sempre pensei que ninguém na família dele soubesse. Eu estava realmente surpresa.
Bem, agora o Paul sabia sobre mim também. Não havia motivos para eu tentar esconder dele uma coisa que ele já sabia. Quer dizer, sabia em parte, já que ele pensa que eu sou uma mediadora, mas eu não sou. Fiquei tentada a contar a verdade. Quer dizer, se o Jack contou a ele sobre mim ele deve ser no mínimo confiável, não?
- Eu não sou uma mediadora. Eu sou uma deslocadora, é diferente – eu disse e logo após dei uma mordida no meu sanduíche para evitar olhá-lo. Era meio estranho confessar isso para uma pessoa que eu havia acabado de conhecer.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Levantei um pouco os olhos em sua direção e pude ver que ele me encarava com as sobrancelhas erguidas numa cara de completa surpresa.
- O que foi? – eu perguntei curiosa.
- Deslocadora?
- É, mas por quê?
Ele não me respondeu, só ficou lá me encarando. Agora além da cara surpresa, ele tinha um sorriso um pouco debochado no rosto.
- Bom, – ele disse finalmente, depois de beber um gole do seu refrigerante – isso está ficando mais interessante do que eu imaginei...
Interessante? Como assim interessante?
- Uma deslocadora, hein?! Quem diria.
- Você sabe o que é um deslocador? – dessa vez foi a minha vez de perguntar surpresa.
- Claro. Eu sou um.
Ai. Meu. Deus.
O Paul Slater é um deslocador?!
Eu nunca havia conhecido outro deslocador antes. Já havia conhecido alguns mediadores, mas deslocadores nunca.
Foi então que do nada uma idéia passou pela minha cabeça. Se ele é um deslocador, então isso quer dizer que...
- Quer dizer que você viu?! – terminei o meu pensamento em voz alta.
- Vi o quê? – ele perguntou confuso.
- A líder de torcida fantasma que estava logo atrás de você no ginásio, hoje mais cedo.
- Ah, aquilo? É, vi sim.
Minha cabeça deu voltas.
- Espera aí, então você está dizendo que viu tudo aquilo que aconteceu e que não fez nada?
Ele deu um sorriso e disse olhando nos meus olhos:
- E porque você acha que eu deveria fazer alguma coisa?
- POR QUÊ?! – gritei levantando da cadeira, mas logo me recompus ao perceber o que havia feito e baixei o meu tom de voz. – Porque pessoas quase se machucaram hoje. Elas poderiam ter morrido sabia disso?
- Mas não morreram não é mesmo? – ele disse fazendo pouco caso. – No final, você não acabou salvando o dia?
Eu não consegui acreditar no que ele havia dito. Como é que ele podia ser tão insensível assim?
- A questão não é essa, Paul, a questão é que você não fez nada para evitar uma tragédia que com certeza iria acontecer. E se eu não estivesse lá? E se aquele refletor tivesse caído em cima da Justine e ela tivesse morrido? Você saberia viver com a culpa de que uma pessoa morreu por sua causa? Simplesmente porque você não estava a fim de ajudar?
O Paul não chegou a responder, pois o Jack entrou na cozinha nesse momento.
- Ah Kate, você está aqui! Estava te procurando, você pegou a minha caixa de giz de cera?
- Peguei sim, Jack. Aqui – disse lhe entregando a caixa que eu havia colocado em cima da bancada da cozinha.
- Quero que você me ajude em uma coisa, Kate – ele falou.
- Tudo bem – eu disse, acompanhado o Jack para fora da cozinha, sem nem olhar para o Paul.
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Havia anoitecido, eu jogava batalha naval com o Jack, quando a sua mãe chegou.
- Kate, que surpresa! – a Sra. Slater disse ao me ver.
- Oi, Sra. Slater.
- Pensei que você só viesse amanhã.
- É que eu não tive treino hoje, então eu resolvi dar uma passadinha aqui para ver o Jack, mas agora, como a Sra. chegou, acho que já vou indo.
- Já Kate? Fica mais um pouco – Jack perguntou fazendo uma cara triste.
- Não dá Jack, já está ficando meio tarde...
- A sua avó vem te buscar hoje, Kate? – a mãe do Jack perguntou.
- Não, Sra. Slater, mas não tem problema. Eu posso me virar sozinha.
- Nada disso, não vou deixar você voltar sozinha. Vou pedir para o Paul te levar em casa.
Senti meu coração falhar uma batida. A última coisa do mundo que eu queria era ficar num carro sozinha com ele, principalmente depois daquela conversa inacabada na cozinha.
- Não Sra. Slater, realmente não precisa, eu não quero incomodar.
Nesse momento Paul descia as escadas.
- Oh Paul, querido. Chegou em ótima hora, será que você se importaria em levar a Kate até em casa?
- Não precisam se incomodar, eu posso ir sozinha... – tentei dizer, mas fui completamente ignorada.
- Pode ser – ele disse como se realmente não se importasse.
- Ótimo, leve a chave do meu carro – ela falou dando a chave do seu volvo a ele.
A mim, só restou pegar as minhas coisas, me despedir do Jack e da Sra. Slater e acompanhar o Paul até a garagem, onde estava estacionado o volvo preto da mãe deles.
Entrei no carro sem dar uma única palavra e teria permanecido assim durante toda a viagem, se não tivesse que explicar a ele o caminho até a minha casa.
Quando chegamos em frente ao meu prédio eu disse:
- Bem, é aqui. Muito obrigada pela carona.
Eu queria sair o mais rápido possível daquele carro. Tirei o cinto de segurança e tentei abrir a porta, mas ela estava trancada.
- Será que dá para abrir a porta do carro? – perguntei.
- Você está chateada comigo?
- Não – tentei dizer de forma indiferente, mas a verdade era que eu estava muito chateada com ele sim. – Por que você acha que eu estaria?
- Porque você não falou nada durante todo o caminho. Eu acredito que "vire a esquerda" e "dê a volta naquele quarteirão", não possa ser chamado de uma conversa agradável, não acha?
- Eu não sou uma pessoa de conversar muito. Agora, será que dá para abrir a porta? – eu disse puxando a maçaneta da porta em vão, já que ela não abria.
- Engraçado, hoje a tarde não me pareceu que você conversasse pouco.
Qual era a desse cara, hein? Será que ele não percebia que eu não estava muito a fim de bater papo?
- Bem, as aparências enganam – eu disse impaciente. – Agora a porta, por favor... – e adicionei o meu melhor olhar faça-isso-agora-se-não-você-vai-se-arrepender.
Ele abriu a porta do carro e eu saí o mais rápido que eu pude, porém não foi rápido o suficiente para fugir dele. O Paul conseguiu me alcançar enquanto eu subia as escadas da frente do prédio.
- Olha Kate, acho que você não entendeu o que eu quis dizer mais cedo – ele disse.
- Não, muito pelo contrário, acho eu entendi tudo muito bem. Entendi que você é um ser insensível e que não se importa nem um pouco com ninguém.
- Você pediu para ser uma deslocadora, Kate? – ele perguntou do nada e ficou me encarando, todo sério, esperando por uma resposta que ele provavelmente já sabia qual seria.
- Não.
- Pois é, nem eu. Estou cansado dessa coisa de fantasma e de terra das sombras, isso só me trouxe problemas. Por isso você não pode me culpar por tentar ser um cara normal.
- Não, não posso – eu admiti. – Mas ainda assim não quer dizer que eu concorde com o que você fez, e se...
- Kate! – ele falou interrompendo o meu sermão, e se aproximou de mim o bastante para me deixar nervosa.
Tentei recuar um pouco, mas acabei inevitavelmente com as costas coladas na porta do prédio.
Ai meu Deus! Será que ele ia fazer o que eu achava que ele ia fazer?
Não, ele não ia.
Quer dizer, ele não pode, certo? Ele não pode vir me beijando assim como se nada tivesse acontecido, digo, há um segundo eu estava quase começando outra discussão.
Ele chegou mais perto. Nossos lábios agora estavam perigosamente próximos.
Até tentei dizer alguma coisa, qualquer coisa para impedi-lo, mas não fui muito bem sucedida já que tudo o que as minhas cordas vocais conseguiram reproduzir foi algo parecido com um grunhido baixo e rouco.
Quando ele estava mais próximo do que nunca, meu cérebro simplesmente travou e tudo o que eu consegui fazer foi fechar os olhos e esperar pelo que estava por vir.
Porém nada aconteceu. Somente pude ouvi-lo sussurrar em meu ouvido:
- Boa noite Kate Harrison.
Abri os olhos somente para vê-lo voltar para o carro e ir embora.
Continua...
NA²: Espero que tenham gostado desse capítulo. Sei que ele demorou muuuito para sair, então me perdoem por isso. Creio que o próximo não vá demorar tanto assim.
Um agradecimento SUPER especial pelas reviews a: Renata, Juliana, Camila, Maira e EmillyC.
Muito obrigada meninas!!! Espero que continuem acompanhando a história.
Até o proximo capítulo.
Bjos!
Nina M.
