CAPÍTULO II

Não estava adiantando nada escutar a ópera Aida. Mamoru precisava encarar o fato de que apenas poucos momentos com Usagi haviam arruinado seus planos de relaxar algumas horas antes de examinar uma pi­lha de contratos. Desligou o aparelho de som e olhou as luzes da cidade através da ampla janela.

O que havia no fundo de sua mente que o incomo­dava tanto? Consciência pesada! Admitir tal fato fez com que se sentisse melhor e retomasse o controle de sua mente. Ficara exasperado pelo modo como Usagi o atacara por causa de um carrinho em ruínas. Do seu ponto de vista, ela deveria estar envergonhada e arrependida por ter roubado algumas coisas no passa­do. Mas suas atitudes durante o reencontro tinham sido de absoluto confronto.

Porém, não havia como negar que ela ficara angus­tiada de verdade com a perda do pavoroso ferro-veIho. Se ele soubesse que aquilo tinha valor sentimen­tal, não o teria descartado. Com sinceridade ele havia pensado que ela ficaria feliz em se livrar do carrinho e ganhar dinheiro para comprar um mais moderno.

Estava enganado. E pior ainda foi ter atirado di­nheiro aos pés dela. Diante de Usagi ele perdia o controle, esquecia as boas maneiras que haviam sido insuladas nele desde o nascimento. Esse erro não poderia ser reparado, mas quem sabe daria tempo de re­parar o outro? Eram cinco e meia da tarde e o bazar de caridade não fecharia antes das seis. Valia a pena tentar. Pelo menos a tiraria da cabeça, como fizera após aquela noite horrorosa um ano atrás. Assim sen­do vestiu uma jaqueta de couro macio por cima do moletom, apanhou as chaves do carro e desceu.

Chegou justamente no momento em que a loja iria fechar. Outro cheque polpudo comprou a promessa de que o carrinho seria entregue no endereço dado na manhã seguinte bem cedo.

De volta ao carro, constatou que algo ainda o abor­recia. Ainda?! Mas o que poderia ser? Algo que ele não queria admitir? Ele não a encontrara na sarjeta e não a havia transportado, juntamente com seu filho e seus pertences, até onde ela queria? Já não havia con­sertado a história do carrinho?

De fato, sua futura esposa, Béryl di Metália consi­deraria que ele já despendera tempo e energia demais com Usagi Tsukino. E o rapaz com que ela estava indo morar poderia se ocupar dos demais assuntos. Ela te­ria de volta seu precioso e horrendo carrinho de bebê e isso encerrava o assunto.

Mas não era isso o que estava acontecendo.

Então, a resposta para as alfinetadas em sua mente veio com a força de um raio e fez seu coração bater forte. Mentalmente deu vazão a uma enxurrada de palavrões. Com uma guinada na direção de seu pode­roso Mercedes, tomou o caminho da Finsbury Circus. Usagi Tsukino tinha uma questão bem pertinente a res­ponder. Ele conseguiria a resposta nem que tivesse de arrancar à força.

— Não me agrada sair tão depressa e deixar você sozinha, mas Rocko vai me matar se eu não sair para paquerar umas meninas com ele.

Motoki Furuhata terminava de se aprontar e verifica­va se a carteira estava no bolso.

— Não se preocupe! — respondeu Usagi com um sorriso. — Vou ficar bem. Nunca vou poder lhe agra­decer o suficiente por nos acolher.

Há vários anos que Usagi não via Motoki, irmão de sua melhor amiga, Lita, mais precisamente desde que Lita se casara com um namorado no Canadá. Um dia, ele entrou no bar onde Usagi estava trabalhando e ela acabou contando toda a história a ele. Estava grávida de três meses naquela ocasião. Havia sido dispensada pela agência de empregadas domésticas e colocada na lista negra, apesar dos seus protestos de inocência contra a acusação de roubo. Estava hospe­dada na casa da sra. Hopkins.

Assim como a babá, Motoki acreditou na inocência dela. Ele deixou o número de seu celular, fazendo-a prometer que o procuraria caso precisasse de alguma coisa, ou de um lugar para ficar. E quando o mundo desabou sobre sua cabeça com a morte da sra. Hop­kins, ela ficou contente por ter guardado o telefone.

Aflitíssima, soubera em meio ao funeral que o alu­guel subiria vertiginosamente, e que ela precisaria deixar o imóvel alugado pela sua babá. Engolindo o orgulho, telefonou para a madrasta, que a atendeu com voz de desprezo.

— Não me procure para resolver a bagunça em que se meteu. Além do mais, seu pai me deixou algu­ma herança e uma criança chata iria arruinar meu atual estilo de vida. Pode tentar Minna, mas eu não teria esperanças. Ela está indo muito bem como mo­delo e divide um apartamento com duas ou três cole­gas em um belo endereço...

E continuou, enumerando as qualidades e êxitos de sua linda filha em contraposição às falhas de sua enteada.

Completamente desanimada Usagi desligou o te­lefone. Stacia jamais tivera tempo e disposição para ela. No momento em que se casou com seu pai, ela despediu a sra. Hopkins e fez tudo o que podia para depreciar Usagi, ao mesmo tempo em que exaltava as qualidades de sua filha Minna.

Foi então que lembrou da oferta de Motoki, caso pre­cisasse de ajuda.

— Serei sempre agradecida — repetiu, diante de

Motoki, que sorria.

— Sem problema! Você e Lita eram tão unidas quando crianças que me sinto quase seu irmão tam­bém. Bem, melhor eu partir. Não me espere. Ah sim, Lita disse que ligaria depois do almoço. Como são cinco horas de diferença, ela deve ligar a qualquer momento.

E partiu. Motoki Furuhata era muito querido. Havia saído mais cedo do trabalho para ajudá-la a subir com as coisas que o táxi trouxera e ainda armara o berço. Desse modo, ela poderia colocar Mamo para dormir assim que terminasse de alimentá-lo.

Na verdade, os Furuhata e a sra. Hopkins eram tudo o que ela tivera como família após a morte trági­ca de sua mãe. Embora tivesse certeza de que o pai a amara, ao seu próprio modo, ele estivera muito ocu­pado ganhando dinheiro para sua madrasta, Stacia, gastar prodigamente. Ele trabalhou tanto para manter as exigências de Stacia que acabou indo para o túmu­lo mais cedo.

Engolindo um nó na garganta, esforçou-se para es­quecer o passado. Não havia nada que pudesse fazer para mudá-lo. Seus atuais amigos valiam ouro e não estavam interessados em lhe fazer mal como Mamoru Chiba . Mas não iria pensar nele, iria? Havia o tele­fonema de Lita para esperar e, enquanto isso, iria procurar trabalho no jornal. Trabalhar como gover­nanta na casa de alguém que não se importasse com bebês seria o ideal, mas qualquer um lhe pediria re­ferência e ela estava na lista negra das agências. O máximo que poderia esperar era um trabalho de meio expediente, mal remunerado e indigno. Jamais iria ganhar o suficiente para sustentar uma criança ade­quadamente, pensou Usagi numa onda de desespe­ro. E ela não poderia viver à custa de Motoki mais do que uma ou duas semanas.

Empurrando estes pensamentos para o fundo da mente, Usagi olhou Mamo adormecido quando al­guém bateu na porta. Imperiosamente.

Colocou o jornal sobre a mesa, afastou uma mecha de cabelos louros da testa e caminhou em direção à porta. Assim que a abriu, tentou fechá-la novamente, mas Mamoru foi mais forte. E conseguiu entrar.

Ele dominou o espaço, preencheu o ambiente com uma energia capaz de efervescer cada terminação nervosa de Usagi. Desde a primeira vez que coloca­ra os olhos nele, tivera essa sensação. A atração era intensa. Um dia, essa química a havia feito crer que tinham sido feitos um para o outro. Mas agora, não queria saber disso.

— O que você quer? — perguntou, apavorada.

Somente alguém muito rico e superconfiante po­deria misturar um conjunto de agasalho de corrida com uma jaqueta de couro macio, sem dúvida caríssi­ma, e ainda assim continuar elegante. Ela precisou de todas as suas forças para lembrar do quão insensível esse homem esnobe era de fato.

— Não temos nada a dizer um ao outro.

O telefone tocou.

— Atenda — falou em tom de comando.

Mamoru indicou o telefone, que Usagi, com os olhos cinzentos cheios de revolta, parecia ignorar. Olhando-a, aos poucos controlou a respiração. Estivera enganado em relação ao excesso de peso dela. Uma calça jeans colante e um leve agasalho revela­vam um corpo muito sensual. O decote provocante mostrava os seios atraentes e o andar evidenciava as curvas tentadoras e a feminilidade de seus quadris.

O desejo tomou conta dele. Queria negá-lo. Pode­ria escolher algumas das mulheres mais glamourosas do mundo, caso sentisse desejo, o que não acontecia. Então por que essa atrevida o fazia se sentir tão exci­tado como um adolescente? Sua boca estava seca. Es­forçou-se para se concentrar no motivo que o havia trazido até ali. E não tinha nada a ver com o corpo sensual e quente de Usagi amoldando-se em suas mãos, antes de saber quem ela realmente era.

Tinha a ver com os genes. Os enormes olhos dela eram de um cinzento esfumaçado, e seu longo cabe­lo, um fascinante louro prateado. Pelo que pudera ob­servar, o rapaz com quem estava amigada era tão lou­ro quanto ela. Provavelmente não era o pai da crian­ça, a não ser que ela tivesse o hábito de entrar e sair da cama dos homens...

Usagi obedeceu a ordem de atender pois imagi­nou que Lita ficaria preocupada caso ela não o fizes­se. Mas era impossível falar à vontade diante daquele olhar frio e intimidador. Por isso, conversou breve­mente com a amiga e logo em seguida desligou o te­lefone.

— Onde estão eles?

A pergunta de Mamoru a atingiu com a velocidade de uma bala.

— Quem?

— Seu filho e seu amante.

— Motoki não é meu amante.

Ele não tinha o direito de perguntar, mas era me­lhor que antes mantivesse a atenção sobre o irmão de sua amiga do que sobre o bebê.

— Ele é um bom amigo e saiu para se divertir, em­bora isso não seja da sua conta.

Tremendo por dentro e com as pernas bambas, ela se dirigiu à porta mantendo-a aberta.

— Por favor, saia. Você deve ter tido uma razão para vir aqui, mas não estou interessada em saber.

Estar com ele novamente trouxe inúmeras lem­branças de volta, lindas porém dolorosas, pois todas remetiam a técnicas de sedução cínicas. Mamoru tinha mostrado quem era de verdade, e ela não queria lem­brar dos detalhes.

— Não está interessada?

Usagi empalideceu. A curta frase soou como uma grande ameaça. Sentiu um frio no estômago e tremeu diante daqueles olhos estreitos.

Ele simplesmente andou até a porta e a fechou, permanecendo do lado de dentro, e perguntou:

— Então, qual a idade exata dele?

A adrenalina percorreu todo o corpo de Usagi dando-lhe vontade de correr. Era essa pergunta que temia desde que ele a encontrara na sarjeta. Enchera-se de esperança de que o banqueiro milionário tivesse tanto interesse no bebê quanto numa formiga. Ainda com uma leve esperança, levantou o queixo e respon­deu:

— Vinte e seis.

Madre di Dio! A paciência de Mamoru já se esgo­tara.

— Eu não estou nem um pouco interessado na ida­de de seu amigo. Que idade tem o seu bebê?

Usagi achou que seus joelhos iriam dobrar. A pergunta indicava o raciocínio de Mamoru. Apertou os lábios e emudeceu.

— Sete meses?

Mamoru já tinha feito os cálculos em sua mente.

O coração de Usagi parou de bater. Sentia-se dentro de um pesadelo. A boca estava seca quando le­vantou os olhos para ele, tentando formular algo que deixasse bem claro que ela e seu filho estavam além dos limites de suas perguntas investigativas. Mas Mamoru falou primeiro, a voz tão fria quanto os olhos es­curos.

— Você me disse que estava protegida e eu confiei em você. Posso ter sido mal orientado nisso, tanto quanto no resto. Negligência deveria ser seu sobreno­me.

Usagi sentiu as faces queimarem de ódio. Ele já acreditava que ela era negligente o bastante para rou­bar uma jóia de alto valor bem debaixo do nariz da noiva dele, mas negligente para fazer sexo sem prote­ção e mentir sobre as conseqüências?

Ela estava tomando pílula anticoncepcional, mas algumas vezes, provavelmente devido à magia da ilha, ao êxtase de ter encontrado o grande amor de sua vida e à ingenuidade em acreditar que ele sentia o mesmo, fizeram com que ela se esquecesse de ingerir algumas das doses. E o estado exaltado de seu rosto poderia estar dizendo mais do que gostaria que ele soubesse.

Os olhos escuros resplandeciam, o espetacular semblante de Mamoru endureceu quando falou:

— Você pode ter se divertido com outros homens antes de eu chegar à ilha. O jardineiro do meu cunhado também tem olhos e cabelos escuros. É algo a se considerar. Mas talvez você possa me esclarecer, ou não sabe quem é o pai do seu filho?

Usagi empalideceu diante da suspeita insultante com relação a sua moral. Sentiu-se mortalmente mal e incapaz de pronunciar uma palavra sequer.

— Você provavelmente não irá me contar — disse ele, com frieza. E, para assombro de Usagi, deu as costas e caminhou em direção a porta.

Ele estava indo embora! Não tinha mais interesse em Mamo! Respirou aliviada. O receio de que Mamoru pudesse adivinhar que Mamo era seu filho e reclamar a guarda da criança para que fosse educada segundo o estilo dele tinha sido tolo e infundado.

Mas o alívio durou pouco. Com a porta já aberta, O italiano deu a cartada final:

— Eu quero a verdade. Proponho que vá dormir e, se amanhã você ainda continuar se recusando a responder, um simples teste de DNA irá resolver a questão.

Descendo a escada lúgubre, Mamoru já falava ao celular. O banco dispunha dos serviços de uma eficiente firma de investigação particular. Quando chegou no carro, terminou a ligação. Dentro de minutos um agente estaria lá. E iria observar. Caso ela tentasse fugir com o filho dele, seria seguida. Não tinha como se esconder.

Se aquela criança de olhos e cabelos escuros fosse dele, e um instinto masculino dizia que era, então Usagi descobriria que não podia brincar com Chiba impunemente.