CAPÍTULO 3
Nenhuma jovem, com ou sem bebê nos braços, foi vista saindo do prédio. Essa foi a informação que Mamoru recebeu ao caminhar a passos largos na manhã seguinte, bem cedo, pela Finsbury Circus. Ao avistar o endereço de Usagi Tsukino, Mamoru desligou o celular ignorando a informação de que um jovem entregara, antes das nove horas, um grande carrinho de bebê antigo.
O último amante dela já saíra para o trabalho? Atrasado após uma noite de sexo ardente com Usagi? Claro que aquele nó em sua garganta não era ciúme. Claro que não. Obvio que não. Só uma fúria completamente compreensível de que seu possível filho tivesse de suportar uma infância cheia de "tios" e uma mãe sem qualquer moral.
Se a criança fosse dele.
O pensamento surpreendente de ter desejado que a criança fosse seu filho o deixou chocado, com os pés enraizados no chão. Até que o pânico momentâneo passou e ele conseguiu se recompor rangendo os dentes e afiando a mandíbula.
De um jeito ou de outro, ira descobrir.
— Durma bem, meu tesouro. Usagi sussurrou ao deitar a criança adormecida no berço e ajeitar as cobertas ao redor dele. Pouco antes das cinco e meia, Mamo berrou de fome, tirando-a de um sono perturbado. A tarefa prazerosa de alimentá-lo, dar banho e brincar um pouco era tão especial que os pensamentos aflitivos mantiveram-se distantes Agora, as idéias monstruosas retornavam, com garras e dentes afiados!
Teria de confessar a Mamoru Chiba que Mamo era filho dele. Não via outra saída, a não ser arrumar as coisas e fugir para um destino desconhecido.
Já estava bem desconfiado e se ela mentisse, exigiria um teste de DNA e chegaria à verdade. Por fim, teria outra prova de que, sob o ponto de vista dele, Usagi era mau-caráter. Outro rótulo nojento a acrescentar a sua personalidade. E ainda por cima, outro rótulo que ele poderia usar para conseguir a custódia da criança! Portanto, teria de contar a verdade e esperar que ele entendesse que o reconhecimento público traria complicações para ele e sua esposa. Pelo que lembrava dos olhos frios da noiva dele, ela não perdoaria esse deslize.
As recordações fizeram Usagi se sentir fisicamente mal. Ela não queria lembrar. Mas as cenas daquela última noite pavorosa na Itália se repetiam em sua mente como um pesadelo recorrente.
Ela e os gêmeos, Matteo e Amalia, de quatro anos de idade, haviam retornado das férias na ilha. Mamoru tinha vindo um dia antes por causa de um acordo comercial urgente e inesperado. No continente, o signor Valenti fora esperar a lancha particular, para alegria das crianças que não viam os pais há quatro semanas.
Quando o helicóptero da empresa decolou para Florença, o signor Valenti suspirou.
— Mas que verão agitado! Esse ano, minha mulher e eu não conseguimos escapar do calor da cidade. Muitos encontros de negócios e compromissos sociais. A pobre da Rei reclama de estar exausta e ainda será obrigada a ver as crianças novamente. Ela estaria aqui conosco, se não estivesse tão ocupada com os arranjos de sua festa de aniversário.
Usagi procurou ser o mais simpática possível mas sabia que não estava conseguindo. Se os Valentis não tinham conseguido dar sua escapada anual para a ilha, então Mamoru, o irmão de Rei, não teria sido pressionado a ir até lá para certificar-se de como a babá estava cuidando das crianças.
E eles não teriam se encontrado e se apaixonado Agora, o idílio amoroso havia terminado. Em um ou dois dias ela iria retornar à Inglaterra. A babá das crianças, que havia tirado o mês de folga por causa de uma perna quebrada, já estava recuperada. Esperava para reassumir suas funções na elegante residência no distrito de Oltrano, do outro lado do rio Arno.
Mas ainda não havia terminado. Muito longe disso! Mamoru não a havia pedido em casamento, não com todas as palavras, mas sua intuição dizia que ele também sabia que tinham sido feitos uma para o outro, Não prometera, em sua última noite na ilha, levá-la até Londres, dando a entender que tinham muito que conversar?
Já em Florença, Rei insistiu muito para que Usagi participasse da luxuosa festa que aconteceria naquela noite. Os hóspedes convidados para passar a noite na mansão já haviam chegado. Entre eles, a espetacular e glamourosa Béryl di Metália, que viajava com sua criada particular, servil e silenciosa.
— Agora, até nos deixar amanhã de manhã, você não é mais babá, você é uma hóspede. Por favor não me desaponte!
Diante de tão caloroso convite de sua patroa, Usagi teve de aceitar. Embora sua vontade não fosse estar no meio de uma multidão de estrangeiros ultra-sofisticados.
E apenas a absoluta convicção de que Mamoru estaria presente fez Usagi procurar na mala já arrumada uma roupa que pudesse servir para a ocasião. Ela não o via desde que ele partira da ilha, mas confiava nele, sem reservas. Sabia que ele estava ocupado, mas que fazia questão de acompanhá-la até Londres para planejar o futuro deles.
A festa já estava a todo vapor quando Usagi se aventurou a entrar no salão. Ainda não havia sinal de Mamoru. Ela estava fazendo o melhor que podia para controlar a ansiedade por causa da ausência dele. O salão tinha o pé direito alto, com janelas também altas e elegantes, e imensos espelhos com molduras douradas. As mulheres vestiam modelos exclusivos da alta costura, cabelos engenhosamente penteados e portavam jóias. Usagi se sentia como um peixe fora d'água. O seu vestido creme, na altura dos joelhos, era totalmente desapropriado para a ocasião. Ela teria voltado rapidamente para o seu quarto caso Rei não a tivesse tomado pelo braço e insistido em apresentá-la a alguns hóspedes. Em seguida, ofereceu-lhe uma taça de champanhe. Estava morrendo de vontade de perguntar a ela sobre Mamoru quando finalmente o viu.
Conversava com a glamourosa Béryl di Metália. O coração de Usagi se alegrou aliviado. Como ela pudera duvidar que ele viesse? Ele a amava e o que eles tinham compartilhado na ilha não fora apenas uma aventura de férias!
O sentimento de amor penetrou-a até os ossos e tornaram seus olhos cinzentos mais claros e límpidos, Ele era tão lindo... Usava um casaco creme e calças escuras. A perfeição de suas feições era de tirar o fôlego. E ele era dela! Inacreditável, mas, ao mesmo tempo, maravilhosamente verdadeiro!
Afastou-se com discrição do grupo com quem conversava pois queria que Mamoru a visse. E, como se ela o tivesse chamado em voz alta, ele retirou os olhos estonteantes das feições frias da bela mulher que parecia estar falando algo extremamente grave, e encontrou os olhos dela, sustentando o olhar por alguns momentos. O coração de Usagi acelerou e ela sentiu um frio no estômago. As mesmas sensações que tenha sentido quando ele apareceu, após ela emergir de uma onda, quase nua, sob o céu estrelado italiano.
Então, a atenção dele foi outra vez recapturada por algo que Cínzia dissera, pelo seu leve e terno sorriso trêmulo e pelo toque de seus dedos longos e brancos na manga do casaco dele.
Transbordando de felicidade, Usagi tomou uni pequeno gole do champanhe. Ele viria encontrá-la assim que aquela mulher parasse de encher o ouvido dele. Ele era muito bem-educado para interrompê-la bruscamente.
Rei se incumbiu dessa tarefa atravessando o salão na direção dele e ficando nas pontas dos pés para beijá-lo. Mamoru tirou do bolso uma caixa de jóias, fina e comprida, colocando na mão de sua irmã. Seu presente de aniversário.
Usagi olhava o quadro familiar emocionada quando Béryl di Metália se aproximou dela, silenciosa como uma cobra. A analogia foi salientada pelo vestido negro que a mulher usava, coberto de lantejoulas que grudavam em tudo, e pelos olhos escuros destilando veneno.
Usagi tentou sorrir mas sua tentativa desapareceu quando Béryl falou com desdém:
— Posso dar uma sugestão? Mantenha-se afastada. Ficar derramando esse olhar estúpido para o meu noivo só nos causa embaraços, a mim e a todos. Você está se derretendo, e isso é vergonhoso. Sei que ele passou três semanas na ilha com você e os gêmeos, mas foi puramente para supervisionar sua competência, pois nossa querida Rei estava insegura a seu respeito.
Um leve dar de ombros acompanhou a declaração seguinte
— Conhecendo-o como eu o conheço, é bem provável que Mamoru tenha flertado um pouco, para espantar o tédio. É da natureza dos homens italianos. Mas isso não significa absolutamente nada. Então, faça-nos uni favor. Especialmente a Mamoru. Esqueça o que houve. Seja lá o que tenha sido. Eleja disse que quase desistiu da festa por saber que você ficaria grudada nele tal qual um bezerro apaixonado, assim como fez na ilha, aborrecendo-o. Mas ele sabe que nós dois temos um sério trabalho pela frente para organizar o nosso casamento, que está próximo.
Quando a italiana se afastou, Usagi se sentiu tonta, agravada por uma forte sensação de náusea quando Béryl voltou a se unir a Rei, que admirava a pulseira de esmeraldas que o irmão colocava em seu pulso. Béryl tocou o braço de Mamoru dizendo algo urgente, a julgar por sua expressão. Em uma fração de segundo as feições de Mamoru escureceram e ele franziu o cenho. Saíram juntos do salão.
Usagi sentou numa cadeira pois suas pernas já não a sustentavam. Ele não tinha nem falado com ela. Estava muito ocupado discutindo os planos de casamento com a futura noiva. Será que toda aquela paixão ardente era falsa? E todas as juras de amor dele tinham sido mentiras? Apenas um exercício de sedução para aliviar o tédio? Era impossível de acreditar. E aquela mulher dissera ser sua noiva, às vésperas de celebrar o casamento. Não teria afirmado isso se não fosse verdade. O que ela ganharia dizendo mentiras que seriam facilmente descobertas?
As pessoas começavam a olhá-la. Uma criatura sem graça, vestindo uma roupa barata, empoleirada numa cadeira dourada, prestes a ver seu mundo desabar. O que de fato acabou acontecendo.
Reunindo toda a sua energia, aproximou-se de Rei que não parava de admirar a pulseira.
— Esse meu irmão, sempre querendo me mimar — disse Rei mostrando o bracelete. Usagi fez o máximo para parecer descontraída.
— Então ele também deve mimar Béryl. Escutei falar que estão comprometidos.
Usagi calculou que suas palavras deviam soar bem fora de moda, mas ela não conseguiu articular a palavra "noivos" pois isso a deixaria ainda mais chocada. E acrescentou:
— Ela é muito bonita.
O sorriso de Rei desapareceu.
— Beleza superficial. No entanto, há muitas vantagens numa união que foi o último desejo de meu querido pai. Não acha que devemos conversar com as outras pessoas? Venha, vou lhe apresentar...
— Sinto muito.
Usagi suspirou. Que esperança tola de que Rei pudesse negar o noivado.
— Terá de me desculpar, Rei, estou com enxaqueca.
— Oh querida!
Rei parecia realmente preocupada.
— O que posso fazer? Chamar a governanta? Você está tão pálida! Tem algum remédio que possa tomar?
— Preciso apenas me deitar. Pela manhã estarei bem.
Enxaqueca foi a única desculpa que conseguiu formular, mas não poderia enfrentar a agonia e conversar com os convidados ao mesmo tempo. Ao deixar o salão notou que a empregada particular de Metália descia as escadas lançando um olhar triunfante para Usagi.
Usagi procurou a porta que dava para um jardim nos fundos da casa e sentou-se numa pedra. Tinha muita coisa para pensar. Como fora inocente ao acreditar nas palavras de Mamoru! Ele era uma criatura sofisticada, descendente de uma família mundialmente respeitada no meio financeiro. Além de incrivelmente rico, carismático e de uma beleza estonteante. Por que consideraria se unir a alguém que não tinha projeção alguma, a não ser o desejo de pular para a cama dele?
A verdade fazia com que se sentisse no inferno mas teria de engolir esse fato, não é mesmo? Afinal ela não era a primeira mulher a levar uma rasteira nem seria a última. Quando tempo ficou sentada na pedra ao luar, jamais saberia. Tudo o que sabia, ao subir para o quarto destinado à babá, era que podia ter perdido seu coração, mas não havia perdido a dignidade.
E se Mamoru a procurasse antes de sua partida ela se esforçaria para enfrentá-lo. Sem lágrimas ou recriminações passionais. Apenas um comentário irônico. Caso ele comunicasse a data do casamento, ela mandaria de presente uma pequena torradeira embrulhada num laço de fita.
Já estava tarde e nenhum som penetrava na calma atmosfera do quarto de babá. Ela pensou que a festa havia terminado.
Mamoru devia estar fazendo os planos para seu casamento, não teria tempo para se ocupar de uma aventura para espantar o tédio. Ela precisava aceitar, conscientizar-se de que fora usada por um patrão charmoso. E relegar a dor a algum canto escondido de si para continuar levando a vida.
Engoliu um soluço ao abrir a mala para guardar o vestido creme. Jamais veria Mamoru outra vez. Mas não conseguia se livrar do sentimento de amor que fizera dele o seu mundo. Deitou-se sabendo que iria chorar a noite inteira, quando de repente a porta de seu quarto abriu-se com violência.
Béryl di Metália apareceu e as lantejoulas de seu vestido de noite brilhavam tão cruelmente quando os olhos escuros da cor do carvão. E atrás dela vinha Mamoru! Não estava mais com o casaco creme e a blusa de seda estava um pouco aberta, revelando a pele morena acetinada com a qual Usagi já se deliciara.
Mas o rosto dele estava pálido e os olhos, desolados. A boca sensual, capaz de provocar o êxtase, contorcida de angústia quando sua linda e aristocrática noiva apontou imperiosamente para mala já gasta de Usagi.
— Abra! Vai estar lá dentro. E se não estiver vasculhe cada centímetro deste quarto.
— O que você está fazendo?
Em enorme desvantagem numa de suas camisetas velhas que usava para dormir, Usagi percebeu que a pergunta soara mais como a de uma criança assustada do que com a exigência de uma adulta justificada-mente ultrajada.
Béryl a ignorou avançando para a mala e chutando-a com o pé calçado em um sapato caríssimo. Mamoru disse com a voz tensa:
— Acusações foram feitas.
E com um gesto ordenou que a silenciosa empregada particular de Béryl entrasse. Usagi sentiu um nó no estômago.
— Que acusações, Mamoru?
Os olhos de Béryl brilharam de alegria ao responder no lugar de Mamoru.
— De que você me roubou! Filomena, repita aquilo que você viu, assim não haverá enganos.
Usagi não conseguiu acompanhar a velocidade do que foi falado em italiano. Além do mais, como poderia tentar compreender quando sua cabeça girava diante de tal acusação? Sentiu um baque quando Mamoru traduziu rispidamente.
— Filomena proclama que você foi vista no quarto de Béryl há algumas horas. E quando ela perguntou se você estava procurando a patroa dela, você se recusou a dar uma resposta.
— Eu não estive nem perto do quarto dela — negou Usagi prontamente. — Eu nem sei em que quarto ela está hospedada! — Com as pernas ameaçando desmoronarem, acrescentou: — Eu não roubei nada!
Mamoru continuou tenso:
— Béryl deixou sua valise de jóias aberta sobre a penteadeira, e ao retornar descobriu que uma gargantilha de diamantes estava faltando. Era isso mesmo? — ele perguntou a Béryl para confirmar, recebendo dela um aceno afirmativo. — Ela perguntou então para Filomena se ela havia mexido na valise, e soube que você havia estado no quarto dela enquanto todos estavam na festa.
— Eu não peguei nada! Como pode acreditar nisso?
Como pôde? Mesmo que ele a tivesse enganado e usado, certamente depois de todas as noites apaixonados, quando a fizera crer que não poderia haver felicidade maior, depois dos piqueniques, das risadas quando brincavam com as crianças, depois das noites íntimas em que ceavam apenas os dois, ele não tinha aprendido a conhecê-la bem o suficiente, ao menos para ver que Usagi era honesta?
Mamoru franziu o cenho quando Filomena se ajoelhou para abrir a mala. Usagi correu para impedir aquela invasão à sua privacidade. Mamoru a impediu. O toque de sua mão forte na carne nua de seu braço foi como se a estivesse ferindo ao mesmo tempo em que ele disse:
— Peço desculpas por isso. Mas não há nada a temer, eu prometo.
Mas havia o que temer sim. Usagi sabia disso. Seus ossos tremiam, infelizmente contribuindo para uma impressão de culpada. Ela fora vítima de uma armadilha. Quem teria arquitetado o plano? A empregada? A própria Béryl? Parecia inteiramente ridículo mas ela confirmou o fato quando Filomena se levantou, com um murmúrio de triunfo e estendeu a jóia em suas mãos.
Depois disso Usagi entrou em estado de choque profundo, incapaz de dizer uma palavra em sua defesa, nem mesmo quando Mamoru perguntou rispidamente:
— E então?
Os olhos de Usagi estavam mortalmente pálidos, a boca tremia fora de controle, precisou lutar contra a ânsia de náusea que a assolava. Seus olhos apelavam por um momento para se recompor, refletir sobre aquele horror.
Sabia que ele estava acreditando no que vira e, somando isso ao fato de que estava para se casar, fez com que ela não visse valor em mais nada. Era o tiro de misericórdia em um cérebro já traumatizado demais para funcionar.
— Então... nada a dizer.
Mamoru dirigiu-lhe um olhar enigmático, deu-lhe as costas e saiu. A cabeça erguida e os ombros rígidos. A futura esposa dele apanhou a chave da porta.
— Você será libertada quando o motorista chegar amanhã para levá-la ao aeroporto. Agradeça pelo fato j de eu não estar disposta a lhe acusar formalmente Teria imenso prazer em ver você atrás das grades mas preciso cuidar do meu casamento e esse é todo o prazer ao qual preciso me dedicar no momento.
Usagi engoliu um nó na garganta imaginando se fugiria com Mamo e se esconderia até que Mamoru desistisse de procurar por eles, retornando para a Itália e para a noiva. O ressurgimento daquelas lembranças dolorosas a estava fazendo perder o juízo. Sair pelas ruas, sem qualquer lugar para ir não seria bom para seu bebê. Precisava estudar bem a situação. O que um milionário italiano e sua esposa aristocrática iriam querer com um bebê bastardo? A publicidade de uma batalha pela custódia não seria prejudicial?
Mamo era seu amado filho. Certamente ele entenderia que separá-lo da mãe seria um crime. Mas poderia alegar que ela não era uma pessoa adequada para criar o menino. E todas as razões que enumeraria para sustentar esse motivo a fizeram sentir-se bastante desconfortável. Seus nervos tremiam. Desejou que ele chegasse logo para que pudessem ter a tão temida e ameaçadora conversa. Somente depois poderia começar a pensar em como resolver sua condição de desabrigada e quase sem dinheiro.
Em pé junto à janela, ela o viu chegar. O coração disparou e impulsivamente abriu a porta do apartamento e desceu as escadas para encontrá-lo. Sabia que estava sendo irracional ao desejar mantê-lo o mais afastado possível de seu menino adormecido.
Na pressa, colidiu com um sólido objeto e caiu estatelada no chão.
Mamoru abriu a porta do prédio e mordeu os lábios evitando deixar escapar um comentário irônico sobre a visão da mãe de seu possível bebê sentada no chão empoeirado. Usagi, com as faces ruborizadas, levava o olhar incrédulo, ora para o italiano, ora para o carrinho de bebê pavoroso e velho.
Ele estendeu a mão, ao mesmo tempo em que endureceu o coração, desprezando o modo como se enternecia diante do ar de fragilidade dela, na certa, calculado.
Ignorando a oferta de ajuda, Usagi deu um jeito de se levantar. Mas não pôde evitar a pergunta:
— Você trouxe o carrinho de volta para mim?
Ele inclinou a cabeça em sinal afirmativo. Como recordava bem daqueles olhos grandes, claros e francos, e com um brilho subjacente de ternura e admiração. Tudo representação, precisou lembrar-se.
— Não pessoalmente. Nem morto eu seria visto pelas ruas empurrando esse pedaço de ferro-velho. Mas você parecia tão ligada a esse objeto que eu providenciei para que retornasse às suas mãos.
Usagi o encarou. Ele fizera uma verdadeira gentileza. Bem de acordo com o homem por quem ela se apaixonara, mas bem diferente do homem que ele mostrara ser. Traindo descaradamente a noiva, seduzindo e iludindo a empregada, dando a entender que seriam felizes para sempre e tudo o mais, e depois acreditando em uma acusação falsa, acusando-a de ser uma ladra. Jamais esqueceria que Mamoru telefonara para a agência de empregos a fim de se certificar de que ela nunca mais voltaria a trabalhar na carreira que escolhera.
— Bem... obrigada.
O olhar arrogante de Mamoru indicava que ele não faria concessões. Com aqueles olhos frios pregados nela, tentou se recompor. Sentiu uma onda de náusea quando ele declarou com indiferença.
— Você tem algo a me dizer.
