CAPITULO 5

Ela não tinha escolha alguma, estava claro.

Era ele quem mandava. As duas opções significa­vam que Mamoru iria ter seu filho com ele. Usagi não tinha dúvida alguma que com a sua influência finan­ceira, aliada ao suporte da alta posição de sua família para não mencionar a sua personalidade forte e a lista de pecados que pesariam sobre ela, os quais ele pode­ria forjar à vontade, venceria a batalha judicial mais feroz.

A terceira opção que ocorrera a Usagi era dizer a ele que fosse embora e a levasse ao tribunal. Então fugiria com Mamo. Mas essa seria uma opção ingênua e tola. Ele a encontraria. E além do mais, que tipo de vida estaria levando com Mamo?

Portanto, para o bem de seu filho ela precisou ca­pitular. Humildemente permitiu que fossem arranca­dos de Londres e transportados, em tal estado de luxo que a fez esbugalhar os olhos, por várias grandes ci­dades da Europa durante um mês. Ela estava cons­ciente de que Mamoru queria mantê-los, principalmente a Mamo, ao alcance de suas vistas enquanto condu­zia seus negócios, sem dúvida muito importantes.

Ele tinha um ego do tamanho de um bonde, concluiu Usagi. E lhe convinha ter a mulherzinha intimidada arrastando-se ao longo de sua trilha real. A auto-estima de Usagi tinha ido por água abaixo. A única vez em que levantou a voz para se mostrar dis­sidente foi na primeira escala, em Paris. Ela fora apresentada a uma babá contratada para Mamo.

— Mamo não precisa de uma babá! Posso eu mes­ma cuidar dele — despejou em tom feroz. Ela não ti­nha nada pessoal contra a bondosa Minette, que era altamente qualificada e sem dúvida competente. Mas recusou-se a ser posta de lado.

E Mamoru a procurou, com um tom tranqüilo e im­parcial que ele usava desde que ela concordara em se­guir com ele para a Itália.

— Eu já esperava por isso. Um filho meu merece os profissionais mais qualificados. Eu mesmo exigi o melhor para ele.

E o que ela deveria fazer? Crochê? Tricô? Furiosa, respondeu em tom agressivo:

— Não somente eu sou a mãe dele, como também sou uma babá altamente qualificada! Ou era, até que você tornou impossível que eu trabalhasse novamen­te! Ou você já esqueceu?

Mamoru olhou para dela, deu as costas e foi para a sua própria suíte.

Então finalmente eles chegaram à luxuosa mansão no bucólico campo toscano, com uma bagagem co­lossal. Roupas e brinquedos para Mamo, que o seu próprio pai escolhera com entusiasmo apaixonado. E para ela, vestidos o suficiente para fazer vários desfi­les de moda. Além de maquiagem e perfumes dos mais caros. Não que ele tivesse escolhido pessoal­mente alguma coisa. Ele só pagava as contas fenome­nais. Mamoru tinha secretários que compravam tudo para ele. O desejo de agradá-la sequer ocupara um milímetro da mente dele, a necessidade de que a mãe de seu filho não colocasse o nome da família em des­graça, vestindo roupas de segunda mão, vinha na frente.

Usagi soltou um longo suspiro ao observar o no­turno céu toscano, salpicado de estrelas, naquela fresca noite de março.

Uma longa noite de tédio pela frente. O que fazer? Pergunta boba. O mesmo de cada noite desde que ha­viam chegado na luxuosa mansão e Mamoru saía para algum lugar não especificado. Usagi se sentava na elegante sala de visitas tentando ler um romance até a hora de deitar.

Sentia-se uma peça sobressalente. Inútil.

Havia uma governanta, uma cozinheira, uma arrumadeira e dois jardineiros que mantinham o terreno bem cuidado. Ela não precisava levantar um dedo. A única exigência que fizera fora cuidar dela mesma, e sozinha, do bebê, enquanto ele estava acordado. Também levava Mamo para passear em seu carrinho novinho em folha, duas vezes por dia. Bem, se essa ia ser a norma, algumas coisas deveriam mudar, pensou Usagi.

Mamo era filho de Mamoru e, infelizmente, ela estava no pacote. Ele colocara fora de sua vista todos os que podiam ser uma má influência para o filho, especial­mente todos os amantes que a imaginação deformada de Mamoru criava.

O humor de Usagi subitamente mudou. Ela que­ria, de fato, Mamoru como parte íntima da vida de seu filho? Por perto durante a maior parte do tempo? Se­ria intolerável. Perto dele ela sentia... sentia o quê?

Ela estaria mentindo para si mesma se fingisse ig­norar o que exatamente sentia. Luxúria. Profundo de­sejo animal. Loucura. Estava desgostosa consigo mesma. Não o amava mais, claro que não. E não con­fiava nele nem um pouco! Então por qual motivo seu corpo vibrava quando ele se aproximava?

Decidida, expulsou-o da mente e apanhou o ro­mance que vinha tentando ler na última semana. Um marcador indicava que ela chegara à página trinta. Mas ela não lembrava de uma palavra sequer!

Mamoru dirigia pela estrada ladeada de ciprestes com uma sensação bem desconfortável. Não conse­guia entender o motivo de estar assim. Deveria estar relaxado, pois a parte mais difícil já terminara.

Convencer sua Mama a receber o neto fora uma ta­refa fácil. Ela mal podia esperar para segurá-lo. E que tipo de nome era aquele? Mamo? Parecia uma contra­ção inglesa de Mamoru!

O mais novo membro da família Chiba deveria ser levado a Veneza para ser batizado apropriada­mente. A família Metália fecharia o olho a tal ques­tão. Ela tinha certeza que Béryl aceitaria a criança. As vantagens da união vindoura eram muito grandes para que fossem postas em perigo por uma escorrega­dia.

E quanto à mãe do bebê, ela não queria saber deta­lhes dessa história enfadonha. Não poderia ocupar in­definidamente a mansão de Mamoru, é claro. Talvez um pequeno apartamento em Florença? Uma mesa­da? Não era assim que os homens resolviam as coi­sas? E teria ele escutado a fofoca? O senhor di Metália estivera envolvido em alguns investimentos catas­tróficos. Embora ela não acreditasse numa só palavra do que fora dito...

Como sempre, Mamoru havia deixado sua adorada mãe falar tudo o que queria. Não havia escutado qualquer fofoca, mas iria checar. O casamento com Béryl agora estava fora de cogitação, mas ele ajuda­ria, caso fosse necessário.

Ele faria o que tinha de ser feito, como sempre. E Mama iria aceitar, e no final, ainda diria que a idéia fora dela. Beijando-a na face, ele a presenteou com seu perfume favorito e a levou para almoçar em um elegante restaurante.

Com sua irmã já fora diferente. O mais novo mem­bro da família não era problema, mas a mãe da crian­ça, esta sim, era um problema.

— Eu a aceitei verdadeiramente. Ela foi maravi­lhosa com as crianças. Divertida, ambos a adoraram. E ela sabia quando ser firme. Todos nós a respeita­mos e eu de fato me senti muito ligada a ela nos pou­cos meses em que esteve conosco. Fiquei muito aba­lada quando ela se revelou uma ladra. Isso mostrou como eu não sei julgar o caráter das pessoas. E você também, já que foi longe o bastante para engravidá-la. Você acha realmente que pode lidar com isso?

Ele poderia lidar com qualquer coisa. Mamoru refor­çou essa declaração mentalmente enquanto colocava o carro na garagem. Até mesmo casar com uma pe­quena ladra se isso fosse o necessário para legitimar seu filho.

Seu estômago embrulhou. Se ela tivesse tido um pouco mais de paciência naquela noite fatal, teria sa­bido que ele rompera formalmente com Béryl. Que ele andaria descalço até os confins do mundo por causa dela. Que ele a adorava, e iria pedi-la em casa­mento. Ele teria se casado com ela sem saber quem ela realmente era. E teria sofrido uma grande decep­ção ao descobrir que ela o via como nada mais do que um tíquete refeição. Seu queixo endureceu. Já não tinha superado isso? Desse jeito seria melhor, assegurou-se ao entrar em casa e anunciar à governanta sua presença. Com um estrondo retumbante, Usagi Tsukino já caíra do pe­destal onde ele a pusera.

Sabendo como ela era, ele não se colocaria em po­sição de receber outro golpe. Ficaria de olho nela, certificando-se de que não iria se desgarrar e nem fosse tentada a isso. Eles se dariam bem na cama. Ele faria com que fosse tão bom, e ela jamais pensaria em outro homem. E dessa vez não envolveria suas emo­ções. Já aprendera a lição.

A leal governanta não dissera um pio quando ele voltou de viagem com sua comitiva surpresa há uma semana. Seu filho, a mãe inglesa de seu filho, e uma babá francesa. Agora ela o informava que a senhorita Tsukino estava no salão do primeiro andar com a bande­ja de chá que ela havia acabado de entregar.

Béryl reagiu exatamente como ele esperara, dei­xando o orgulho falar mais alto, como era parte dominante de seu caráter. Mamoru cumprimentou a si mesmo ao subir as escadas até o quarto do bebê. O sentimento desconfortável desapareceu diante da perspectiva de ver o filho.

Sentira-se muito mal em abandonar Béryl depois de um longo noivado. Especialmente porque no último jantar que os dois tiveram juntos, antes de sua partida para Londres, ela tinha feito uma observação inútil:

— Creio que deveríamos marcar a data do casa­mento. Não que eu esteja lhe pressionando. Nós dois concordamos que nosso casamento seria um aconte­cimento social e financeiro de sucesso. Não é como se mal pudéssemos esperar para colocar as mãos um no outro.

Ela dera aquela risadinha falsa que estava come­çando a irritar cada vez que a ouvia.

— Mas Papa está ficando impaciente. Portanto, dê um pouco de atenção a ele.

Mamoru compreendeu que o pai de Béryl estava an­sioso por unir formalmente as fortunas di Metália e Chiba . Ele já não era muito jovem. Era natural que estivesse pressionando pelo casamento.

Lembrando a menção que sua mãe fizera a respei­to das dificuldades financeiras dos Metália, ele per­guntou a Béryl de modo extremamente gentil:

— Mama contou-me que há alguns rumores sobre seu pai estar em dificuldades financeiras. Há alguma verdade nisso?

A negativa de Béryl fora imediata e enfática. En­tretanto, ele sentiu uma fisgada na consciência quan­do finalmente informou a novidade da existência de seu filho para a sua quase ex-noiva.

Mas foi imediatamente salvo por ela.

— Se está pensando que eu vou me casar com você e dividir meu lar com o seu filho bastardo, deve ter enlouquecido. Eu seria alvo de chacota!

Que aquela cena jamais passara por suas inten­ções, Mamoru nem se incomodou de dizer. Ele apenas aturou a explosão de ira de Béryl. Era o mínimo que podia fazer nas atuais circunstâncias.

— E mesmo que você esconda seu bastardo em al­gum recanto da Itália, a notícia virá à tona. As pes­soas irão debochar de mim. Eu me recuso a me colo­car em tal posição! Você devia ter se desvencilhado dele. Mandá-lo para adoção ou algo do tipo. Ou dei­xar que a mãe resolvesse o assunto. Discrição, lem­bra? Nós combinamos! Portanto, até que dê um jeito de expulsá-lo de nossas vidas, considere o noivado suspenso. Irei reconsiderar quando conseguir mandá-los para o outro lado do mundo!

— Meu filho fica comigo — comunicou Mamoru, impressionado com a ferocidade manifestada por Béryl. Aproveitou para dizer que o acordo que ha­viam feito fora um tremendo mal. Resultado por te­rem seguido idéias antigas e fora de moda a respeito de obrigações familiares.

— Você ê uma linda mulher, Béryl. Um dia irá encontrar alguém que a ame. Merece muito mais do que uma união por interesses sociais e financeiros.

Colocando essas lembranças de lado, deixou-se admirar seu filho adormecido. Soube pela babá que já nascera um segundo dente em Mamo e que ele co­meçara a engatinhar.

Madonna diavola, quanta novidade ele perdera!

Chegando ao salão no primeiro andar sacudiu os ombros tentando se livrar da tensão monumental que se abatia sobre ele. A conduta que estabelecera para si próprio era a correta. Pelo bem de seu filho. Uma vez que aceitara a idéia de um casamento sem amor com Béryl, poderia igualmente se decidir por um ca­samento sem amor com a mãe de seu filho. Teria ape­nas que se certificar de manter as falhas de caráter dela sob rígido controle. Confortado por esse pensamento abriu a porta, e entrou..

Seu coração primeiro parou ao vê-la, e depois dis­parou. A sua entrada, um leve rubor colorira as faces de Usagi. Os olhos cinza se abriram e ela engoliu um soluço, que ele entendeu como um arfar de sur­presa. Que pescoço delicado... a pureza das linhas es­condidas sob um decote em V da blusa que ela usava. Um tecido macio e sedoso, azul celeste, que realçava os cabelos louros e compridos.

Ele foi tomado pela mesma onda de desejo que o acometera naquela praia distante, numa noite longín­qua. Uma perigosa torrente de luxúria. Sua voz não saiu suave e educada como planejara. Ao contrário fora de uma rispidez tamanha que a declaração aca­bou parecendo quase obscena.

— Decidi me casar com você. É o único modo de você levar uma vida de luxo e eu ficar perto do meu filho. Assim nós dois ficaremos satisfeitos.

No mesmo instante em que terminou de declarar essas palavras infelizes, Mamoru sofreu um forte ata­que de consciência e teve nojo de si mesmo. Uma condição tão nova para ele que cortou sua respiração As faces de Usagi empalideceram como o leite. O livro que ela segurava caiu em seu colo, no momento em que ela levantou a mão, cobrindo a boca. Ele de­sejou não ter tido tamanha falta de sensibilidade.

Ela era a mãe de seu filho e, apesar dos pecados cometidos, não merecia uma proposta que mais parecia uma ameaça. Mãe adorável, como ele já pudera constatar. Nesse momento, lhe ocorreu que ela tam­bém estava vulnerável. Transportada contra a vonta­de dela para longe de tudo e todos que conhecia. Ela devia estar na defensiva. Persuadi-la a fazer a coisa certa pelo filho deles, iria exigir bem mais sensibili­dade.

— Deveria ter me expressado melhor — reconhe­ceu gentilmente, encaminhando-se até ela, que ficara petrificada.

Mamoru apanhou as mãos dela entre as suas, e a fez levantar-se. Tremeu de desejo com o perfume que ela exalava, com o calor que dela irradiava. Há muito tempo que ele estava sem mulher. Na verdade, perde­ra o interesse pelo sexo oposto desde que aquela se­dutora amoral revelara sua verdadeira face.

Dominou a vontade alucinada de beijar aqueles lá­bios macios e, com uma frieza que não correspondia aos seus pensamentos desvairados, concluiu:

— Não estou lhe pedindo uma resposta imediata. Se nos casarmos, nosso filho terá uma família está­vel. Ele será legítimo e não o bastardo da minha amante.

Usagi arrancou suas mãos das dele. Assim tão perto daquele corpo esplêndido ela era terrivelmente tentada a concordar com qualquer coisa que ele dis­sesse.

— Quem disse alguma coisa sobre eu ser sua amante?

Afastando-se dois passos ela acabou caindo na poltrona da qual recentemente levantara. E soltou o ar dos pulmões. Se ele estava pensando que, por abri­gá-la em seu teto, pagar a comida que ela comia e as roupas que vestia, dava-lhe qualquer direito sobre o corpo dela, era melhor que repensasse. Seu corpo frá­gil podia suspirar por ele, mas o instinto de auto-preservação a recordava com firmeza de que ela corria o risco de novamente se apaixonar. E isso só levaria mais tristeza e desilusões.

Mamoru colocou as mãos nos bolsos e observou em tom de indiscutível razão.

— Nós dois fizemos uma criança linda. Você e ele estão sob minha proteção. Vamos viver juntos, na minha casa. Se nos evitarmos como duas pragas ou aproveitarmos cada oportunidade para estremecer sob os lençóis, não terá importância. As pessoas vão tirar suas próprias conclusões, dirão que você é minha amante e irão estigmatizar o nosso filho como um bastardo. É isso o que você deseja para ele?

Usagi transpareceu todo o sofrimento daquela odiosa verdade.

— Então permita que eu retorne com Mamo para a Inglaterra. Evite a fofoca desagradável. Ninguém que eu conheça será tão obsoleto e hipócrita para usar o fato de meu filho ter nascido fora do casamento contra ele! Você pode visitá-lo quando quiser, e não haverá um esnobe sequer para torcer o nariz.

— Essa não é uma opção.

Mamoru demonstrava impaciência, pois estava louco para beijá-la. Queria que ela fosse submissa. Todo o corpo dele ardia com ansiedade para colocar nela seu selo de propriedade, para novamente sentir o êxtase de tê-la sob si, correspondendo às suas carícias aquela mulher suave, totalmente feminina.

Ela era mãe de seu filho, e por conseguinte, era sua mulher, mesmo com todas as imperfeições! Dominando o desejo inoportuno, forçou-se a encontrar um tom de voz razoável.

— Coloque o bem estar de nosso filho em primeiro lugar e pense na minha proposta. Não há pressa. Pese as vantagens. E nesse meio tempo — o sorriso súbito iluminou suas belas feições inesquecíveis, e Usagi ficou inteirinha arrepiada numa reação devastadora — sugiro que comecemos a nos conhecer um ao ou­tro. Bem e profundamente.