CAPÍTULO 6

— Começamos agora?

A boca de Mamoru, pecaminosa e bela, abriu-se em um leve sorriso, enquanto ele afrouxava a gravata.

Sem fala e em pânico, Usagi não conseguiu dizer como era a sua vontade, esqueça, estou cansada e vou dormir. Ela teria deixado a sala, caso suas pernas estivessem em condições de obedecer. Enquanto isso, ele a olhou cuidadosamente, do alto dos seus cabelos louros até a ponta do sapato que ela calçava deixando claro que havia sugerido se conhecerem intimamente.

Engolindo em seco, Usagi sentiu o corpo começar a reagir ao convite de Mamoru. O modo como ele desabotoava a camisa era muito atraente. Estremeceu. Se ele caminhasse para perto dela, se ele a tocasse, estaria completamente perdida. Seria dele, como lhe aprouvesse.

Mas dormir com ele sem um profundo compromisso emocional faria com que ela se odiasse. Jamais faria sexo sem amor.

Era inegável que os momentos compartilhados na ilha tinham sido maravilhosos. Ela o amava então. Na época, via-o como o homem mais fabuloso que já conhecera, atencioso, charmoso, terno e apaixonado. Adorável. Tudo mentira. Exercício de sedução. Agora o conhecia e o julgava pelo que realmente era. Insensível, autoritário, indiferente, indigno de confiança e com requintes de crueldade. Ela o detestava.

E ainda assim, ela o desejava feito louca!

Ele tirou o paletó sorrindo. Um sorriso másculo. Os ombros largos destacavam-se sob a camisa de linho branco. Ela conhecia cada centímetro daquele corpo sensual. Assim como ele conhecia cada centímetro do corpo dela. E que agora ele reexaminava intensamente.

Eles se olharam nos olhos. Usagi sentiu o calor crescer entre suas coxas. Percebeu que ele lia todos os sinais que ela tentava esconder. Amaldiçoando a corrente de hormônios que a invadia sempre que ele estava por perto, forçou-se a ficar centrada. E pairou entre o desapontamento brutal e o alívio sem fim quando ele atirou o paletó sobre um dos ombros e se afastou.

— Considerando que já é tarde, vamos deixar isso para amanhã.

E saiu.

Outra gloriosa manhã de primavera toscana. Usagi levantou-se da cama pois havia passado a noite em claro, rolando de um lado a outro. A horrível proposta que ele fizera repetia-se em sua mente.

Casar com ele?

Ela podia ver onde ele queria chegar. Não era completamente estúpida. Casando-se com ele, a criança levaria o nome Chiba e cada aspecto de sua formação seria decidido por Mamoru. Seus próprios desejos não seriam levados em conta, como já acontecera na contratação da babá. A cruel charada que ele encenara na véspera fora para se certificar se ainda poderia fazer dela o que quisesse. Ele queria uma esposa condescendente, com a qual pudesse ir para cama quando se sentisse disposto, um corpo para usar. E por dentro, desprezaria com cinismo sua fra­queza e supostas falhas. Enquanto isso, ele teria exatamente o que desejava.

Censurou-se por deixar que ele dominasse seus pensamentos. Era a primeira vez que não havia se levantado da cama ao primeiro chamado de Mamo. Vestindo o robe verde-claro, encaminhou-se para o quarto ao lado. Ao chegar, concluiu que era desne­cessária.

Mamoru sentava-se na poltrona segurando Mamo que agarrava o cabelo do pai, feliz da vida. A babá já tendo trocado a fralda, arrumava agora o bule do café da manhã.

Usagi não era necessária. Uma peça sobressalente. A energia que trouxera se esvaiu por completo Será que ela algum dia seria capaz de reivindicar seus direitos diante daquele homem dominador que sem­pre conseguia o que queria?

A reposta foi dada quando ele notou sua presença.

— Vista-se. Vamos levar Mamo para um passeio Faremos um piquenique. Encontre-nos na portada frente em vinte minutos.

Dito isso, Mamoru voltou a dar atenção a Mamo, que parecia estar tão encantado com o pai como este esta­va com o filho. Sentindo-se arrasada, Usagi voltou ao seu quarto e, após uma chuveirada, vestiu-se com uma calça creme e uma túnica de crochê amarelo ouro.

Escolha terrível. Desgostosa, não com a túnica mas com seu próprio corpo, ela retirou a roupa devolvendo-a ao armário. Após ter deixado transparecer seu desejo na véspera, Mamoru poderia pensar que ela estava querendo ser provocante, chamar a atenção dele. Mas ela não podia evitar as forma de seu corpo, podia? Mas poderia disfarçá-las.

Abriu a cômoda abarrotada de roupas e encontrou o que procurava. Uma camisa de seda cinza que, se­gundo fora informada em Paris pelo secretário espe­cializado em compras, deveria ser usada por dentro de calças compridas largas, também, de seda, na cor branca. E uma faixa de seda vermelha em volta da cintura. A camisa deveria estar casualmente desabo-toada na altura da junção dos seios e as mangas enro­ladas. Pois Usagi abotoou-a até o pescoço e também os punhos. Seu cabelo foi puxado para trás e preso com uma fita. E apenas um hidratante serviu-lhe de maquiagem. A necessidade urgente de auto-afirma­ção alojou-se em sua mente enquanto caminhava re­soluta ao pátio na frente da casa. Não fazia sentido sentir-se miserável e desistir de tudo. Ela mostraria a Mamoru que ele não poderia dar todas as cartas.

Porém, ao chegar ao pátio suas pernas fraqueja­ram. Mamoru parecia mais bonito do que nunca. As roupas informais não diminuíam a sua sofisticada elegância. O sol iluminava suas feições aristocráti­cas. Com uma das mãos ele segurava a barra do car­rinho de Mamo e com a outra estendia uma cesta de piquenique à ela.

Recompondo-se e evitando ao máximo olhar aqueles olhos escuros, Usagi ignorou a cesta e to­mou a barra do carrinho com as duas mãos, seguindo por um caminho ladeado de árvores. Ela que não iria ser carregadora enquanto ele cuidava de seu precioso bebê!

— Seguimos sempre por esse caminho — expli­cou Usagi. Mamoru a seguiu, sem dúvida aborrecido com o modo sem graça que ela vestia a roupa que lhe havia custado uma fortuna. Melhor assim. Não queria que ele pensasse que ela estava se esforçando para seduzi-lo.

Caminharam até seu ponto favorito no jardim Descobrira durante os passeios com Mamo. Uma es­cada de pedra conduzia a um canto recluso onde a primavera toscana explodia em toda a sua glória. Um círculo gramado era circundado por flores rosa e brancas de marmelo, ramos lilases de lavanda e vio­letas perfumadas. Ignorando a oferta de Mamoru para ajudá-la a descer com o carrinho ela se encaminhou a um banco de madeira perto de um arbusto de jasmim. Ao levantar Mamo em seus braços, ele começou a se contorcer. Usagi sabia que ele estava reconhecen­do o lugar e o colocou sobre o gramado. Saboreou o momento, percebendo como a criança estava feliz andando em círculos. Honestamente, admitiu que seu bebê jamais teria essa liberdade e respiraria ar tão puro se estivessem no apartamento de Motoki em Lon­dres. Ao menos por ele, ela tomara a decisão certa Quanto a ela, bem, teria de lutar.

Uma sensação indescritível tomou conta dela quando Mamoru a pegou pelo braço e sentou-se com ela no banco de madeira. Mesmo a uma distancia razoá­vel, podia sentir o calor que ele emanava. Era decidi­damente enervante.

Se tocasse no assunto de casamento novamente ela tomaria Mamo nos braços e sairia andando. Mas ele não o fez. A boca atraente ostentava um leve sor­riso quando perguntou gentilmente:

— Por que o nome Mamo? Nunca tinha ouvido esse nome.

Mamoru percebeu que havia tocado numa ferida aberta, pelo ruborizar das faces de Usagi. Ótimo, Sua intenção era descobrir o que a fazia ser a mulher que era. Se ela fosse ser sua mulher, e ela iria, ele ne­cessitava investigar profundamente sua alma. Desco­nhecia seu passado, além do fato de que ela perdera a mãe ainda muito nova. Na ilha, ficara de tal modo embriagado pela atração física que não tivera oportu­nidade para compartilhar confidencias pessoais.

Estendeu um braço sobre o encosto do banco e no­tou que ela ficou tensa. Não iria tocá-la, embora ad­mitisse, a contragosto, que desejava isso. Seus dedos estavam a poucos centímetros da fita que amarrava os cabelos de Usagi. A tentação de vê-los cair em cascata sedosa era grande. Quaisquer que fossem as falhas de Usagi, ele não podia negar que a química funcionava muito bem entre eles. Isso já o havia dei­xado perturbado uma vez. Mas agora, agiria com o cérebro. Livrar-se inteiramente dela não era uma op­ção. Não enquanto Mamo necessitasse de ambos os pais.

Resistindo ao impulso de tocá-la, lembrou-se de sua decisão de arrancar as informações. Comportar-se como um touro a faria calar-se. E mais importante do que saciar seu desejo era descobrir quem ela era. E além do mais, pelos sinais que Usagi mostrara na véspera, ficara claro que ele poderia tê-la quando quisesse.

— E então?

Usagi engoliu em seco. Impossível não falar a verdade. Timidamente respondeu:

— Esse nome vem do pai dele. Abreviei-o para Mamo, entendeu?

Ele já sabia. Já havia feito a conexão. Ao menos ela respondera com honestidade. Para sua surpresa, Mamoru sentiu seu coração enternecer. Talvez, colo­cando de lado o fato dela não considerá-lo uma fonte de recursos e ter se servido do que era propriedade de Béryl, ela não o esquecera completamente. Caso contrário não teria colocado esse nome no filho de­les, pensou.

Ele tinha mais perguntas. Uma em particular o es­tava intrigando, mas poderiam ficar para depois. De­terminado a fazer com que ela se sentisse relaxada, retirou o braço e apanhou, dentro da cesta de piquenique, uma garrafa térmica enchendo uma caneca com café e a estendendo a Usagi.

— Sirva-se do que quiser, enquanto eu cuido para que nosso filho não coma violetas. Ele tem uma natu­reza bastante curiosa, não é mesmo?

Ao vê-lo brincar com Mamo, Usagi se questionou sobre quais seriam as pretensões de Mamoru. Já que tra­tá-la com rispidez não estava dando certo, ele decidi­ra jogar seu charme, apenas para convencê-la a se ca­sar e depois mostraria todo o seu desprezo por ela? Iria ignorá-la até sentir a necessidade de comparti­lhar a cama com outra mulher?

Bem, não funcionaria. Uma vez impostor, sempre impostor. Será que Béryl descobrira suas traições o cancelara o casamento? Talvez ela nunca soubesse. Mas nada a faria aceitar uma união aviltante com um conquistador em série, Usagi jurou.

Ele agora segurava Mamo nos braços e fazia cóce­gas em sua barriga. O menino dava gargalhadas. Era óbvio que adorava o pai.

Mas ela se acreditava imune ao charme de Mamoru. Afinal, tudo não passara de técnicas para conseguir o que ele de fato queria. Usagi voltou sua atenção para a cesta. De nada adiantaria comportar-se como uma donzela vitoriana que perdera seu amor e sentia-se desgraçada para sempre. Descobrira as artimanhas de Mamoru e não se deixaria atrair novamente. Retirou da cesta uma grossa fatia de pão coberto de queijo cremoso e salame. Ela não mais acreditava que eles po­diam ter um relacionamento que de fato valesse a pena. Sem chance.

Usagi degustava distraidamente um cacho de uvas vermelhas quando Mamoru ajeitou o bebê ador­mecido no carrinho e levou-o para a sombra de um arbusto florido, indo depois se sentar perto dela. Usagi achou que havia no ar um perfume com proprie­dades narcóticas, pois estava tão relaxada quando ele chegou, que foi capaz até de lhe conceder um leve sorriso.

— Detesto mulheres que só comem duas folhas de alface, fico feliz em ver que você não é desse time — gracejou Mamoru ao perceber a cesta quase vazia.

— Mesmo se eu ficar enorme de gorda?

Usagi estendeu a ele uma fatia de pão com sala­me. Não faria mal brincar um pouco. Ficar sempre na defensiva a tinha deixado exausta.

— Eu não diria gorda. Outras palavras a descreve­riam melhor.

E os olhos de Mamoru faiscavam sob os cílios den­sos e escuros.

— Encantadora, deliciosa, desejável. Usagi fechou os olhos e recostou-se. Todo aquele papo furado não mais a impressionava. Desejável? Seria mais provável um rótulo de objeto útil quando ele não encontrasse mulheres mais sofisticadas para se deitar. Estava aprendendo a ser cínica, ao menos no que dizia respeito a Mamoru Chiba .

Uma vez ele a desejara, preso naquela ilha sem qualquer outra vítima por perto. E olhe onde isso a ti­nha levado! Mas ela faria tudo outra vez, sofreria a dor e a humilhação que ele a infligira, porque o resul­tado final fora aquele lindo bebê a quem ela amava mais do que a própria vida.

Uma brisa colou a blusa junto aos seus seios e o to­que íntimo da boca de Mamoru em seus lábios foi como um raio de luz enviando sinais elétricos a sua corren­te sangüínea, desorientando-a. Levantou as mãos para empurrá-lo mas sua boca permaneceu agarrada à dele. Usagi só recuperou os sentidos quando ouviu um resmungo no carrinho de bebê.

— O que foi isso?

Ela se levantou, vermelha e querendo bater em Mamoru por ele estar tão próximo, deixando-a bem cons­ciente de toda a musculatura de seu corpo inclinado sobre ela e por falar com tanta sedução.

— Ainda tinha um pouco de queijo no seu lábio superior e eu não pude resistir. Estou faminto.

Para a tortura de Usagi, os olhos de Mamoru diziam exatamente qual o tipo de fome ele sentia.

— Então coma as uvas. Vou levar Mamo para den­tro.

— Claro — concordou Mamoru, levantando-se e su­bindo as escadas com o carrinho como se não pesasse mais do que uma pena.

— O vento sopra diretamente dos Al­pes. Uma primavera prematura na Toscana é como uma bela mulher. Sopra quente e sopra frio. Assim como você, cara mia. Está de mau humor porque não que admitir que está gostando de desfrutar do meu beijo. Porque será?

Prestes a negar com veemência, Usagi travou as palavras. Ele saberia que ela estaria mentindo. Impos­sível que ele não tivesse percebido seu corpo inteiro ganhar vida enquanto ele provava os lábios dela.

— É um jogo. Se a minha memória não falha você já se deliciou com os meus beijos. Agora quer fingir que não me deseja mais. Um enigma que eu tenho de resolver.

Ele imaginara que ela se lançaria com uma pressa nunca vista a sua oferta de casamento e ao estilo lu­xuoso de vida que acompanhava a oferta. Mamoru fala­ra brincando, porém, jamais falara tão a sério. O enigma estava começando a perturbá-lo.

Assim que avistou a mansão, Usagi respirou ali­viada. Estava a salvo. E quando alcançaram a entra­da, ele tomou a cesta da mão dela.

— Estarei ocupado o resto do dia examinando contratos e dando alguns telefonemas. Jantaremos juntos hoje à noite. Será num restaurante local, por­tanto use uma roupa informal. Já está na hora de co­nhecer um pouco da região. Não é bom para você fi­car confinada.

Para esconder o seu temor, Usagi apanhou o filho no colo. Um jantar íntimo a lembraria das ceias sob as estrelas passadas na ilha. E tudo o que se seguia depois.

— Não posso. Tenho um bebê, lembra? Tenho também um alarme no meu quarto para o caso de ele acordar e necessitar ser trocado ou estar com sede.

— A babá também tem um alarme no quarto dela. Os fascinantes olhos de Mamoru iluminaram-se ao passar as costas de seus dedos nas faces coradas de Usagi.

— Por esse motivo a babá foi contratada, cara. Não foi para arrancar seu bebê de seus cuidados. Mas para permitir que você passe um tempo de qualidade com ele. E que não precise ser privada de sua liber­dade.

Usagi ficou boquiaberta, preocupada por ele es­tar sendo sincero, pois inicialmente acreditara que havia contratado a babá Minette para afastá-la de Mamo.

Não seja bonzinho comigo. Por favor não, pensou Usagi.

— Esteja pronta às oito e meia.