CAPITULO 7

Surpresa consigo mesma, Usagi descobriu que seu humor estava bem. mais otimista, apesar da situação desconfortável em que se encontrava. Ela se prepara­va para uma noite tortuosa com um homem a quem detestava e desejava em igual intensidade. Um ho­mem que poderia num piscar de olhos virar a cabeça dela.

Sua situação pessoal não era tão má. Mamoru se mostrara o tipo de homem a quem ela desprezava, ca­paz de seduzir mulheres de classe inferior, falar de amor eterno e, ao mesmo tempo, estar prestes a se ca­sar com uma esnobe de sangue azul, imensamente rica e bela. Mas, na realidade, ele não se casara com a perversa Béryl di Metália. Era um homem livre. Isso afinal tornava as coisas mais fáceis, concluiu Usagi.

Além do mais, um homem que mal conhece seu fi­lho e já abre o coração para o bebê, tratando-o como um príncipe, levando seus deveres paternais tão a sé­rio que se dispunha a se casar com uma pequena la­dra, apenas para dar estabilidade e bem estar ao filho, não poderia ser uma pessoa tão má.

Absorta nesses pensamentos, Usagi se chocou com Mamoru no final da escada. Ele a amparou rodeando-a num abraço forte. — Você cheira a flor de verão. Uma delícia.

A voz dele soou doce como o mel, enquanto enter­rava a cabeça nos cabelos sedosos e soltos de Usagi.

Ela sentiu seu corpo se derreter de vontade de se misturar ao dele. Os bicos de seus seios retesaram-se e, imediatamente, sentiu o pulsar insistente entre suas coxas. A colônia que ele usava, o cheiro mascu­lino dele, intoxicou seus sentidos. Ele usava sua ve­lha mágica, a poderosa mágica a qual ela era incapaz de resistir. Ela se insinuou um pouco mais perto, e com o desejo acalorando seu corpo, levou as mãos até os ombros e depois até o pescoço dele, levantando a cabeça na expectativa de um beijo.

Essa era a última coisa que ela queria que aconte­cesse, mas como evitar? Estava tão perdida como na noite em que ele apareceu na praia enluarada olhando sensualmente seu corpo quase nu e estendendo-lhe uma toalha..

— Você está bem?

Mamoru a afastou com suavidade, mas sua expressão era sarcástica.

— Da próxima vez olhe por onde anda. Eu poderia ser uma parede de tijolos. Vamos?

Usagi estremeceu angustiada. Abaixando a cabeça de modo que seus cabelos encobrissem a face inundada de humilhação e vergonha, permitiu que ele a guiasse até o carro.

Ela se comportara feito uma rameira enlouquecida. Só poderia ter sido mais óbvia se estivesse usando uma camiseta com os dizeres: quero fazer amor com você! E o fato de Mamoru não ter demonstrado a mes­ma atração a deixou ainda mais humilhada. O receio de que através do sexo ele pudesse manipulá-la dei­xou-a apavorada. Ele conseguiria com que ela concordasse em se casar, apenas para salvar as aparên­cias. E ela iria para a cama ao menor sinal dele.

Ele a alimentaria e a vestiria, pelo bem do filho de­les, mas estava pouco ligando, na verdade, para os sentimentos dela. Ela precisava fazê-lo acreditar em sua integridade, uma tarefa dura, admitia.

No caminho até o vilarejo, Usagi se esforçou ao máximo para retomar seu otimismo.

Iria convencê-lo de que ele agira vergonhosamen­te ao seduzi-la para ir para a cama, enquanto o tempo todo estava para se casar com outra mulher. Iria for­çá-lo a ver que ela não era uma ladra. Que fora vítima de uma armadilha. E se ele se recusasse a mandá-la de volta para a Inglaterra, então que providenciasse um pequeno chalé com um pedaço de terra naquela mesma região. Ele poderia contribuir para o sustento de Mamo se assim desejasse e o veria durante os finais de semana e numa parte das férias quando ele atingis­se a idade escolar. E ela seria auto-suficiente, culti­vando frutas e vegetais, criando galinhas...

— Em que está pensando?

A pergunta a despertou de seus devaneios. Ela nem percebera que eles já tinham chegado. Lutando para abandonar o conforto de seus planos cor-de-rosa e voltar ao presente, respondeu sem pensar:

— Em ovos.

O som da risada dele a encheu de alegria. Fazia tempo desde a última vez que os dois haviam rido juntos. Mas ela mordeu os lábios para não acompa­nhá-lo. Ele ainda não sabia, mas esta noite iria ser de­cisiva.

— Está com fome, é óbvio. Isso é muito bom.

Resistindo à tentação de atraí-la para si e beijá-la, até que nenhum dos dois soubesse mais em que dia estavam, Mamoru logo saiu do carro. Ainda há pouco, em casa, ele precisara reunir toda a sua força de von­tade para não tomá-la em seus braços e levá-la direto para a cama dele e tirar vantagem daquele corpo sen­sual e atraente. Ele merecia uma medalha por conse­guir passar por cima da química sexual existente en­tre ambos, por enxergar mais longe do que a imediata e fantástica autogratificação. Madonna diavola! Pre­cisava entrar na mente dela, entender o que a fazia ser como era, antes de providenciar sua recuperação mo­ral e antes mesmo de pensar em fazer amor com ela. E atar os laços transformando-a em sua esposa, crian­do, desse modo, uma família adequada ao seu filho. Assumindo o controle, abriu a porta do carro e aju­dou-a a sair. Procurando ter o mínimo de contato pos­sível, a amparou pela calçada de pedras até as luzes do pequeno restaurante.

— A comida é simples, mas muito bem-feita. Che­gamos cedo, porém mais tarde iremos encontrar aqui alguns dos moradores locais.

Não era isso o que Usagi desejava, não naquele momento. Ela desejava conversar em particular cora Mamoru, revelar o seu lado da história.

Mamoru foi cumprimentado pelo proprietário, Bep­pe, como se fosse um membro da família, e a esposa do proprietário acenou por trás de uma cortina, onde Usagi presumiu que fosse a cozinha.

O ambiente era decorado por dois extravagantes guarda-louças pintados à mão que ladeavam uma la­reira. Beppe os guiou até uma mesa de madeira decorada com uma vela grossa em um vasinho de cerâ­mica.

— Está confortável? — perguntou Mamoru ao mo­ver a vela para a extremidade da mesa, de modo que pudesse ver Usagi.

Seria assim que as coisas aconteceriam? Extrema­mente cortês contanto que ela fizesse exatamente o que lhe fosse dito? Que se submetesse com humilda­de aos planos dele?

— Não muito — ela respondeu sem hesitar en­quanto Beppe trazia uma garrafa de vinho e duas taças.

— E por quê? Preferia um restaurante mais chique e da alta roda social?

O coração de Usagi acelerou. Era essa a brecha que ela precisava.

— Você não me conhece nem um pouco, não é mesmo?

Ela levantou a mão indicando o ambiente calmo e aconchegante.

— Esse local é perfeito para mim. Eu não sou chi­que, nem sofisticada. Se me levar a um banquete dou­rado, poderei sujar minha roupa com a comida.

As faces de Usagi estavam vermelhas. Muito per­to do fogo, ela já estava com calor. Retirou o casaco de camurça e continuou com uma veemência que sur­preendeu até a si mesma.

— E eu não sou uma ladra, nem vivo dormindo com homens por aí!

Seria possível? Mamoru apenas pensou consigo mesmo, intrigado com a censura repentina de Usagi. Ela seria um sucesso em qualquer função. Totalmen­te fabulosa, olhos como uma piscina, às vezes escuros como o carvão, em outras, prateados, e os lábios se abriam como um botão de rosa, pedindo para se­rem beijados.

Qual homem cheio de saúde seria capaz de não olhar aqueles seios fantásticos e tentadores que se re­velavam sob a camisa de seda cor de pêssego que ela usava sob o casaco que acabara de tirar?

— Não ria de mim! — lançou ela feito uma gata eriçada.

Beppe se aproximava novamente trazendo agora as entradas. Mamoru se divertia percebendo que Usagi estava com vontade de atirar a taça de vinho em sua cara. Ela agora se revelava bem zangada e ele, sur­preendentemente, divertia-se com isso. Afinal, pro­pôs:

— Vamos comer?

Usagi apanhou uma azeitona e deixou-a de lado. A menos que ele saísse andando, ela tinha agora uma audiência cativa e não iria desperdiçar essa oportuni­dade.

— Você disse que deveríamos começar a nos co­nhecer. E eu já disse que você não sabe nada sobre mim.

— Certo.

Mamoru mordeu um salgadinho delicioso. Já era tempo de começar a jornada a que se propusera. Jor­nada que o levaria dentro da alma de Usagi. Hora de ficar sério e parar de olhar com desejo os atributos fí­sicos de Usagi, apenas para satisfazer sua libido. Uma libido que estava inerte desde que descobrira quem Usagi realmente era.

— Então vamos começar. Em mais de uma ocasião você me acusou, equivocadamente, creio eu, de assegurar que você jamais trabalharia como babá ou­tra vez. Eu fiquei me perguntando o motivo. Por você ter engravidado? Certamente não é uma acusação justa, uma vez que me garantiu estar protegida. Pare­ce então que a parcela maior de responsabilidade é sua. Além do mais, quem poderia empregá-la como babá, tendo que tomar conta de uma criança peque­na?

Usagi fulminou Mamoru com o olhar. Escolheu um camarão e começou a descascá-lo. Os olhos embaça­vam-se com a lembrança. A voz soava amargurada.

— Logo depois que eu voltei da Itália, me infor­maram que eu estava fora da agência. Uma reclama­ção muito grave fora feita. Por você e por aquela mu­lher com quem você ia se casar. Por quem mais? Dis­seram que eu havia roubado uma hóspede da minha patroa. Eu que não esperasse deles mais referências, e que me desse por satisfeita por não estar sendo pro­cessada.

Usagi respirou fundo. Fora uma época terrível. Mamoru a magoara, dissera que ela era uma ladra. A humilhara. Tudo o que ela queria era continuar traba­lhando na carreira que amava e esquecê-lo.

— Eu não tinha roubado nada.

A voz de Usagi transparecia dor.

— Você me fez perder o emprego e a chance de trabalhar como babá novamente. Fiquei muito res­sentida! Naquela época eu não sabia que estava grá­vida. Felizmente, diferente de você, havia pessoas que acreditavam em mim. A sra. Hopkins me abrigou enquanto eu procurava emprego. O dono de uma adega, satisfeito com duas referências, a da sra. Hopkins e a do pai da minha amiga Lita, que é clínico geral me empregou. Portanto, não graças a você, eu sobrei vivi!

Mamoru observou que ela havia descascado um montinho de camarões mas não comera um sequer. Não duvidava de que ela estivesse falando a verdade. Ela tinha estado na lista negra. Pela primeira vez desde a noite terrível, ele se dispunha de boa vontade a analisar as conseqüências. Ele estava magoado com a traição de seu amor, mas insistira numa conferência com todos os que sabiam do ocorrido, Rei, Béryl e Filomena.

Com o coração pesado feito chumbo, deu ordens para que o episódio fosse encerrado. A gargantilha de diamantes fora recuperada, nada fora perdido. Com exceção do sonho, mais adequado a um adolescente do que a um homem adulto, de passar o resto da vida com a única mulher que ele de fato amara. Mesmo as­sim, não queria que ela fosse castigada.

Rei concordara, com os olhos cheios d'água.

— Eu não teria acreditado numa palavra disso tudo caso você não tivesse constatado. Claro que não vou levar isso adiante.

Béryl, com um leve sorriso nos lábios vermelhos, ficara calada. Fora Filomena quem levantara o óbvio.

— A agência não deveria ser avisada? Ela pode vir a roubar seus futuros patrões.

Sem querer parecer que desejava acobertar o erro, pensou em explicar a elas que retirar as chances de trabalho de Usagi poderia jogá-la até mesmo na prostituição. Com esses pensamentos, seu sangue ferveu, mas fora Béryl quem descartara a idéia.

— Você ouviu o que disse o signor Chiba . Nem uma palavra sobre esse episódio desagradável. Proíbo você de falar sobre isso.

Rei não teria contatado a agência, e Filomena estava ciente das conseqüências em desafiar sua pa­troa. Restava Béryl, que declarara não ter intenção de exigir castigo. Naquela hora, essa magnanimidade pareceu destoar de sua personalidade, e somente ago­ra ele se perguntava o porquê.

Mas era muito cedo para compartilhar suas suposi­ções. Não ganhara sua reputação como homem de ne­gócios por se atirar nas suposições sem antes levantar todos os dados relevantes.

Recostando-se na cadeira, observou Usagi en­quanto Beppe dispunha na mesa uma travessa com um peixe assado. Ela deve ter tido momentos difíceis ao se deparar com uma gravidez inesperada, ter de encontrar trabalho, ganhar o suficiente para se sus­tentar e ainda poupar para a chegada do bebê.

Dió! Ela carregou o filho deles em silêncio, sem que ele pudesse ampará-la. Ele deveria ter mandado alguém checar os movimentos dela na Inglaterra. As­sim teria sabido da gravidez! Teria oferecido ajuda, insistido para que ela retornasse a Itália com ele, as­segurado toda a assistência. A favor dela tinha o cré­dito de não ter feito aborto. O sangue de Mamoru ferveu a esse pensamento. Ela lutara sozinha...

Ele dividiu o peixe e passou o prato.

— Como você fez para lidar com a gravidez? Mencionou uma babá... a sra. Hopkins?

Usagi assentiu, com revolta. Pegou o garfo e de­sejou espetar aquele objeto pontiagudo nele ao invés de espetar o peixe. Aquele homem lindo demais, rico demais, confiante demais, havia ignorado o que ela dissera sobre ele a ter colocado na lista negra. Como se não tivesse a menor importância. Ela não era vio­lenta, mas Mamoru Chiba extraía o pior que havia dentro dela.

— Ela foi maravilhosa e me convidou a morar com ela. Estava sempre alegre, sempre vendo uma luz dourada atrás de uma nuvem cinzenta.

— Você a conhecia há muito tempo?

Mamoru encheu novamente a taça de Usagi com vi­nho. Ela não tocara na comida, mas esvaziara a taça como se fosse água. Tudo bem. O álcool contribuiria para que soltasse a língua.

Com um suspiro, ela baixou o garfo e o pedaço in­tocado de peixe. Com certeza seria um alívio para ele desviar do assunto de seu suposto roubo. Ele não pa­recia nem um pouco envergonhado do que fizera. Nada o convenceria de que ela não pegara os diaman­tes daquela mulher perversa. Seria bom falar de al­guém que sempre acreditara nela.

— Ela foi contratada logo após o meu nascimento. Aparentemente minha mãe sempre foi frágil. Ela morreu quando eu tinha três anos, portanto não tenho qualquer registro sobre o assunto. Eu acho que papai amaldiçoava o fato de tê-la engravidado e de eu ter nascido. A sra. Hopkins cuidou de mim até os meus sete anos. Nessa época, papai se casou com Stacia, uma divorciada que tinha uma filha, Minna. Como Stacia fazia questão de dizer, Minna era tudo o que eu não era, bela, graciosa e brilhante. Mas isso não importava pois a sra. Hopkins me amava. Então, pou­co tempo depois, Stacia demitiu-a. Segundo ela, era um desperdício de dinheiro manter a babá. Mas ela não pensava assim ao comprar, com o dinheiro do meu pai, roupas caríssimas para ela e Minna.

Engolindo um soluço, Usagi procurou afastar as péssimas lembranças.

— Mas eu tive uma infância feliz. De verdade. Claro que meu pai me amava, só não sabia demons­trar isso muito bem. E além do mais, a família de Lita sempre me levava com eles nas férias. E a sra. Hopkins nunca me esqueceu. Sempre me mandava cartas e presentinhos. Eu tive sorte!

Mamoru enrijeceu seus músculos. Sorte? Em perder a mãe tão cedo? Em ser parcialmente responsabiliza­da pela morte prematura da mãe? Em ser brutalmente privada da companhia da bondosa senhora que a cria­ra? Sem mencionar uma madrasta infernal. Mamoru po­dia pintar o quadro diante de si. Roupas novas para a madrasta e a filha e Usagi tendo que usar roupas ve­lhas até que se rasgassem. Qual criança não sentiria inveja? A superioridade de Minna deve ter sido empurrada goela abaixo de Usagi.

Mamoru procurou se acalmar resistindo ao impulso de correr para o outro lado da mesa e abraçá-la. Sua investigação deveria ser técnica e não uma mistura de raiva, compaixão e... e culpa?

— Então você foi morar com a babá e trabalhar em uma adega. E quando Mamo nasceu?

Usagi pressentia que a qualquer momento ele co­meçaria a censurá-la pelo que entendia como ser sua irresponsabilidade, não avisá-lo de que seria pai. Mas ela já explicara que não queria perturbar os planos dele. Achava que ele estava casado com a mulher má! Ela estremeceu. Começava a sentir uma dor de cabeça. Por que ele estava interessado em saber onde ela tinha morado, em vez de se concentrar em pedir desculpas por seu comportamento? Ela não conse­guia entender. Vinho demais talvez.

— Trabalhei meio período no supermercado do bairro. Consegui lidar bem até que... até que ela mor­reu. Foi repentino. A casa era alugada. Mamo e eu ti­vemos que deixar o local.

Os olhos de Usagi se encheram de lágrimas.

— Eu a perdi.

Dio! Agora ele entendia tudo. Por que ela fora mo­rar com o rapaz louro. Sem raciocinar, a mente ocu­pada em como Usagi devia ter se sentido, de luto pela velha amiga, sem um teto para protegê-la, sem esperanças e com uma criança para cuidar...

— Então você foi morar com um namorado?

Ele ia acrescentar que entendia perfeitamente por­que ela tomara aquela decisão mas, com a face inunda­da de lágrimas, Usagi se levantou e saiu porta afora.