NARUTO NÃO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! CAPÍTULO QUATRO
Gaara retirou a mão, sem querer acordá-la e desejando que aquele contato não tivesse um impacto tão direto na rigidez que ele tinha sob a calça.
— Gostaria de beber algo, senhor?
O sheik levantou a cabeça para encontrar a expressão intrigada do comissário.
— Uma taça de Absolut.
O comissário voltou com uma taça de Absolut e um copo alto de água Perrier.
— Ela me disse para lhe trazer água se o senhor pe disse algo alcoólico, príncipe Gaara — disse o tripulante, apontando para Hinata, que dormia.
Uma tiraninha. Hinata acreditava piamente que se de veria consumir álcool juntamente com água ou suco. E quem era ele para discordar? Gaara jamais ficara com a boca seca e nem mesmo tivera uma ressaca depois que Hinata começara a trabalhar para ele.
A lembrança da morte de Matsuri deixou um gosto amargo em sua boca, um gosto que nem mesmo o álcool podia disfarçar.
Gaara jamais se arriscaria a ficar naquele estado nova mente. As festas e bebedeiras não duraram muito. Três ou quatro meses, no máximo, mas ele ainda se lembrava daquela manhã, quando acordou no chão da sacada do seu quarto. Gaara dormira lá por várias horas.
Seu quarto ficava no segundo andar do palácio, por isso Gaara não tinha certeza de que, se tivesse caído, teria mor rido. Mas ele certamente teria quebrado algo. E por quê? Para se juntar à mulher que amava numa vida depois da morte? Gaara não era tão melodramático assim. Nem fraco.
Amor. Não era algo de que o sheik precisava. Uma esposa adequada seria bem melhor do que arriscar agir daquele jeito mais uma vez.
Gaara terminou de beber a vodca e a água antes de se recostar na poltrona e fechar os olhos. As luzes foram apagadas, mostrando que o comissário não só era obe diente como também prestativo.
Hinata acordou, ouvindo o barulho constante da turbina e tendo um travesseiro firme e quentinho sob o rosto. Gaara estava apoiado contra o corpo dela. Hinata podia sentir o perfume sutil que ele usava, misturado a seu cheiro natural. A luz ainda estava baixa e todas as cortinas foram fechadas, de modo que a cabine era ilu minada apenas pelas luzes de emergência.
Ela se permitiu mergulhar na sensação de estar perto do seu chefe, sabendo que logo teria de se afastar. Hinata não queria que ele acordasse abraçado a ela, até porque tinha certeza de que Gaara só estava nesta posição por que ela se mexera durante a noite, e não porque o sheik pretendia mesmo abraçá-la. Hinata quase riu ao pensar numa coisa destas.
Ela manteve o humor, mesmo quando precisou se es forçar para controlar o desejo de se aproximar do peito de Gaara e aspirar seu cheiro de homem. Hinata provavel mente jamais estaria assim tão perto dele.
Pelo menos não livre do olhar atento de Gaara, como estava agora.
Ela se lembrou da primeira vez que percebeu o signi ficado do que sentia quando estava ao lado dele. Hinata jamais desejara um homem antes. Ela nunca namorara. Nunca. Nem mesmo um destes namoros por piedade com o melhor amigo do namorado da prima ou coisa parecida. Por isso, quando percebeu que seu coração acelerava na presença de Gaara, achou que era porque ficava nervosa.
Quando sua respiração começou a ficar mais instável, Hinata se perguntou se estava ficando asmática. Quando sua barriga se contraiu e aquele lugar entre suas pernas que só fora tocado por um médico começou a pulsar com um desejo insuportável, Hinata pensou que estava tendo espasmos musculares.
A secretária ficou morta de vergonha quando contou seus sintomas ao médico apenas para ouvir do velho e confiável ginecologista que ela estava sedenta por sexo.
Hinata não acreditou naquilo. Ela pensava que o médi co simplesmente não tinha um diagnóstico correto para o que ela estava sentindo. Mas, no dia seguinte, Gaara a tocara... Um toque inocente, mas que a enlouqueceu. Lugares que Hinata nem sabia que existiam começaram a latejar e ela teve de se conter para não tocá-lo também. Mas de um jeito bem menos inocente.
Sentindo-se como uma idiota, Hinata tentou ler "A Alegria do Sexo" para entender o que estava acontecendo com ela, mas o livro era obviamente direcionado a pessoas mais ativas sexualmente.
Então Hinata ouviu outra mulher falando e pensou que deveria tentar ler romances. Era algo muito melhor, por que explicavam toda a ligação entre os sintomas físicos e psicológicos que ela estava sentindo. Hinata desejava jamais ter lido o primeiro livro, porque foram os roman ces que derrubaram a barreira que havia entre o que ela sentia e o que era realmente.
Hinata estava apaixonada.
Desesperadamente. Loucamente. Provavelmente para sempre. Afogada naquele sentimento. Amor.
Dormindo, Gaara se mexeu e, tentando se manter cal ma, Hinata se virou com ele. A proximidade era tão boa e perigosa. Ela fechou os olhos, tentando gravar aquela sensação para os anos de solidão que tinha pela frente. Aqueles anos estavam ficam próximos... Gaara os esta va apressando. Quanto tempo demoraria até que Hinata não fosse mais a melhor amiga dele, nem mesmo sua secretária?
Livrando-se dos pensamentos dolorosos sobre o fu turo, Hinata aspirou o cheiro do seu amigo, guardando a sensação de ter sua cabeça sobre o peito dele, o ouvido sobre o coração, os seios pressionados contra o corpo de Gaara. Se apenas aquele momento pudesse durar para sempre...
Gaara se mexeu novamente, passando a mão pelas costas dela e a pousando na cintura de Hinata. Era tão bom. Tão certo. Como era possível que o sheik não visse que Hinata pertencia àquele lugar? Mas claro que não, porque estas coisas estavam apenas o coração dela, na fantasia de como as coisas deveriam ser. E se Hinata não se afastasse rapidamente, as coisas poderiam ficar cons trangedoras para ela.
Com cuidado, Hinata se afastou, voltando totalmen te para sua poltrona. Ela se inclinou na direção oposta j à de Gaara, contra o encosto frio... A solidão que sentia e sentiria por toda a vida tomou conta dela, como uma mortalha.
Gaara acordou totalmente alerto, como sempre. Hinata ainda dormia ao seu lado, a cabeça apoiada na lateral I do avião. Não parecia confortável, por isso ele a posicio nou até que Hinata estivesse com as costas na poltrona, com um dos travesseiros sob o seu rosto.
Ele fez um sinal para o comissário que, através de mímicas, estava lhe perguntando se o sheik queria que as luzes fossem acesas. Demoraria 45 minutos até que aterrissassem por isso Gaara não viu razão para acordar Hinata até que fosse absolutamente necessário. Ela pre cisava descansar.
Quinze minutos depois, Gaara permitiu que as luzes fossem acesas e pediu baixinho que preparassem chá para Hinata e café para ele.
Ela torceu o nariz diante do aroma do chá. Então abriu os olhos. Hinata sorriu ainda não totalmente desperta, os olhos perolados cheios de uma emoção que Gaara não entendeu e nem pretendia definir.
— Dormi muito?
— Várias horas. Mas eu também dormi um pouco.
— Eu sei.
— Você deve ter acordado durante a noite. Você ge ralmente faz isso nestas viagens.
— Sim. — Então, sem motivo, Hinata corou. Gaara franziu a testa.
— Algum problema?
— Nada que uma xícara de chá não cure — disse Hinata, forçando um sorriso.
— Eu pedi ao comissário para prepará-lo.
— Obrigada.
— Preciso cuidar de você. Você é minha.
Ela riu, embora seus olhos refletissem uma tristeza que Gaara não compreendia.
— Não estamos na Idade Média, Gaara. Uma funcio nária do sheik não é nem responsabilidade nem proprie dade dele. Não sou sua.
Ele não concordava, mas decidiu não discutir. Até porque palavras eram racionais, mas não os sentimentos de Gaara. Como Hinata dissera, ele precisava superar uma tradição de séculos.
Hinata seguiu Gaara para dentro da sala de jantar privativa do Palácio Real de Zorha. Embora aquele ambiente fosse usado apenas para refeições entre a fa mília real e os amigos mais íntimos, estava longe de ser modesto.
O rei Rasa dizia que, quando a família jantava junta, não era preciso dizer onde era o lugar de cada um à mesa.
Era uma idéia falsamente igualitária. Na verdade, o rei esperava que seus filhos não precisassem ser lembra dos de que ele se sentava na ponta, simplesmente por que isso deveria ser óbvio. Apesar disso, Hinata sempre achou que o patriarca da família real era surpreendente mente simpático.
De algum modo, ele até mesmo lembrava o pai de Hinata, um homem que mandava na família como se fos se dono dela, mesmo não se achando o rei.
O pai de Hinata percebera como ela era infeliz na cidadezinha onde fora criada. Ele praticamente a obrigou a ir para a cidade grande e entrar na escola de negócios. Hinata não queria, por causa da timidez. Mas seu pai sim plesmente batera o pé e Hinata não se sentia capaz de desafiá-lo. Mais tarde ela o agradeceu.
Seu pai simplesmente dissera que era bom ver que ela, estava feliz e que se tornara a mulher que ele sabia que \ podia ser. Sua mãe era muito mais emotiva a respeito disso tudo. A primeira vez que ela vira Hinata trabalhan do para o sheik, chorara. De felicidade. A mãe de Hinata disse que era a primeira vez na vida que via a filha tão segura.
Hinata não sabia por que fora uma criança tão tímida. Nem por que, ainda hoje, quando ia para casa, perce bia que se fechava num casulo. Mas era até se dar conta, o que mostrava que Hinata realmente crescera como seu pai pensava que aconteceria... Ou que deveria acontecer. Que seja.
Talvez Hinata fosse introvertida por se ressaltar de um modo que a fazia se sentir inadequada, em vez de úni ca. Ela sempre fora mais alta do que as demais crianças, mesmo os garotos, nos últimos dois anos de escola. E seus cabelos azuis, lisos demais para se rem moldados nos penteados exóticos da moda, destacavam-na na multidão, por maior que fosse o grupo. Talvez fosse por ser a segunda mais jovem numa família com oito crianças. Hinata nunca fora o bebê e jamais se vira como uma menina especial.
Seus irmãos e irmãs sempre foram talentosos, cada um do seu jeito. Mas até conhecer Gaara, Hinata não sa bia que também podia ser especial. Coordenar ao mes mo tempo os negócios e parte da vida do príncipe não era algo que se pudesse considerar trivial. Se Hinata co metesse um erro, poderia perder milhões de dólares ou ofender o governo de algum país. Mas Hinata jamais co metia erros. E se sentia bem por isso.
Hinata pensava em tudo isso enquanto entrava na sala de jantar, para se sentar ao lado da mãe do sheik.
A rainha Karura sorriu.
— É um prazer vê-la novamente, Hinata.
— Obrigada, alteza. É bom estar de volta a Zorha.
— Que bom que você sente isso. O Gaara ama sua terra-natal.
Hinata permitiu que um empregado colocasse um guardanapo de linho sobre seu colo.
— É uma pena que ele não possa viver aqui. Karura concordou.
— Mas as coisas são assim. Meu marido percebeu que seus filhos não realizariam todo o potencial que ti nham se vivessem para sempre em sua terra-natal.
— Mas só porque Gaara é o caçula ele teve de se exilar em outro país? — Hinata não tinha idéia de onde vinha aquela pergunta.
Ela não quis ofender a rainha. Mas Hinata sabia que Gaara preferia viver no deserto, entre seu povo, e não em Nova York, por mais que gostasse da vida agitada da metrópole.
Longe de se sentir ofendida, a rainha Karura expressou aprovação.
— Ele tem sorte por ter uma secretária tão leal.
— Eu é que tenho sorte. Adoro meu trabalho. — Em bora odiasse sua tarefa recente.
— E você é boa no que faz. Boa para meu filho. Isso me deixa feliz.
Gaara, que conversava com o pai, levantou a cabeça para as duas.
— O que é que vocês estão tramando?
Hinata, pensando que Gaara estava preocupado que ela estivesse falando sobre sua busca por uma esposa, rapi damente o tranqüilizou.
— Estamos apenas falando sobre como você adora estar aqui.
— Hinata acha que é uma pena que você não possa morar no deserto — acrescentou a rainha.
Gaara parecia surpreso.
— Você não deveria ter pena. Você sabe que eu vivo bem em Nova York.
— Sim, claro, mas você preferia morar aqui. Antes que ela pudesse falar, o rei se adiantou:
— É como a vida deve ser — disse, com uma fatali dade que revelava muito sobre o futuro que o monarca reservava ao filho caçula.
E por uma razão, Hinata sofreu no lugar de Gaara. Afi nal, ele era feliz em Nova York, mas o fato de ser um príncipe limitava a vida dele. Não era de se admirar que ele quisesse ter uma voz ativa na escolha da sua esposa. Na verdade, até isso tinha a ver com o fato de ele ter nascido um príncipe. Apesar da autoridade que o pai de Hinata exercia na família, nenhum de seus irmãos fora obrigado a se casar.
Mas Gaara sabia que, na questão da escolha da sua esposa, ele estava no lucro. E ao reconhecer esta mal dição sobre o sheik, Hinata sentiu uma onda de angústia, seguida por um ataque de compaixão. Ela faria o que fosse possível para que Gaara fosse feliz, diante das cir cunstâncias.
— E por que você está preocupado com o que Hinata está me falando? — perguntou a rainha Karura, mostran do que conhecia bem seu filho caçula.
— O relatório que Hinata escreveu sobre o acordo de transporte marítimo estava bom, pai? — Gaara simples mente deu de ombros e mudou de assunto. Ele podia ser o filho caçula, mas não era um homem fácil de ser doma do. Mesmo quando a domadora era a mãe e rainha.
— Sim. — O rei sorriu para Hinata, mostrando apro vação. — Você entende o nosso país e nossos empreen dimentos muito bem, Srta. Hyuuga.
Hinata passou a noite pesquisando as informações que coletara sobre as possíveis candidatas a esposa de Gaara. Sua dedicação ao projeto fora renovado, mesmo que ela não se sentisse melhor com o assunto. Para que isso acontecesse, seria preciso um milagre de propor ções bíblicas. Mesmo assim, Hinata estava determinada há usar o tempo em Zorha para terminar a lista, a fim de começar a busca quando voltassem à Nova York.
Ela estava escutando músicas românticas no ipod e totalmente focada na pesquisa que estava fazendo na in ternet quando sentiu algo em seu ombro.
Hinata pulou e gritou, caindo da cadeira e arrancando os fones de ouvido.
Ela olhou para cima, sentindo uma dor no quadril que lhe dizia que, no dia seguinte, se transformaria num he matoma.
— Gaara! O que você está fazendo aqui?
Seu coração ainda batia acelerado. E perceber quem era o visitante não a acalmou.
O sheik se agachou ao lado dela, as mãos passeando pelo corpo de Hinata, à procura de ferimentos.
— Está tudo bem, Hinata? Não quis assustá-la.
— Não ouvi você chegando — foi tudo o que ela conseguiu dizer, sentindo sua garganta se contrair por causa do desejo instantâneo.
— Isso é óbvio.
Hinata tremeu e deixou escapar um gemido.
— Você se machucou — ele disse, acusadoramente.
— Não é nada grave. Só um hematoma.
— Deixe-me ver.
Desnudar seu corpo para ele? Hinata achava que não.
— Não é hora de teimosia, Hinata.
— Não vou ficar nua só para você ver o ferimento e satisfazer algum tipo de responsabilidade ancestral que sua família sente em relação aos funcionários.
— Não é nada que eu não tenha visto antes. Você pode ficar de calcinha.
— Você não é meu médico e ele é o único que vai me ver seminua.
— Se você insiste que seja um médico, será um.
— Você não pode estar falando sério! Eu caí da cadei ra, não de uma sacada. Ficarei bem.
Algo o incomodou quando Hinata mencionou a sacada.
— Mesmo assim, precisamos cuidar de você.
— Não. — Hinata pôs as mãos na cintura e fez uma cara de "estou falando sério". — De jeito nenhum!
Sem se incomodar, Gaara disse:
— Insisto.
— Só se você quiser me levar à força, porque só as sim eu vou a um médico por uma coisa destas.
Gaara não disse nada. Ele apenas a pegou no colo e saiu. Hinata arranhava e socava o ombro do sheik.
— Está bem, você venceu!
— Você vai ao médico sozinha?
— Não. Você pode examinar o hematoma.
— E se eu achar que você precisa de cuidados mé dicos?
— Vou lhe bater — disse Hinata, sem se arrepender.
— Você não vai ganhar a discussão com estas amea ças.
