Capitulo 37
Severo nunca sonhou em se casar e ter filhos, principalmente depois de Lili. Ele logo se envolveu com as artes das trevas, onde apresentado ao seu novo mestre, aquele bruxo que estava em plena ascensão, fez com que sua excelente performance em poções lhe rendesse uma posição de destaque entre os comensais da morte e ele se orgulhava disso, pelo menos naquela época, sim era algo promissor e que o mantinha bastante ocupado, foi ali do lado obscuro da magia onde ele tinha aquilo que muitos passavam sua vida buscando poder e privilégios.
As coisas iam bem até que Maeva cruzou o seu caminho pela segunda vez, aquela garota era diferente das demais e ela mexia com ele de alguma forma, não demorou muito para que eles engatassem um relacionamento às escuras, mas eles tinham pouco em comum, muito pouco por sinal, a maior e mais emblemática divergência é que eles jogavam para lados opostos na guerra, Maeva era um dos poucos sonserinos que faziam parte daquilo que Dumbledore chamava de resistência, e obviamente que ela havia tentado por inúmeras vezes converte-lo para o lado da luz, mas ele não cedeu, ele não se deixava influenciar assim, ainda mais por uma mulher, ele não tinha o coração aberto para aquilo e então ele a chamou de fraca e sem ambição, eles tiveram uma discussão feia e alguns dias depois Maeva partiu para sempre, ele passou seus dias achando que ela havia ido embora pelo que ele havia dito naquela noite, ele entenderia isso, ele estava acostumado a machucar e afastar as pessoas, mas agora ele conhecia o verdadeiro motivo da sua fuga, e ele repousava bem ali na cama da ala hospitalar, apenas a alguns metros a sua frente.
Aqueles foram tempos difíceis e Severo jamais havia considerado a hipótese de que poderia haver uma criança, ele estava bastante ocupado e se envolvendo cada vez mais pela causa das trevas que vinha ganhando cada vez mais seguidores, e bem naquele período o seu mestre estava engajado em uma busca frenética por um elemento que misturado a poção do sono dos perpétuos poderia lhe proporcionar a imortalidade, para Severo aquilo não passava de baboseiras, mas ele havia sido incumbido de fazer a poção, nenhum outro mestre havia conseguido conclui-la, mas ele sim, ele era bom, ele era o melhor, obviamente que a poção nunca chegou a ser administrada pois o elemento principal e que faria a poção funcionar de verdade nunca foi entregue pra ele. Longos meses após o desaparecimento de Maeva, Severo descobriu que o elemento que faltava na poção era na verdade sangue humano, mas não o sangue de um bruxo qualquer, era o sangue de uma guardiã, e então ele descobriu que só existia uma única bruxa provedora desse material em todo o mundo bruxo, ele demorou para acreditar naquilo, mas haviam evidencias e provas mais do que suficientes, porém o que ele não imaginava e para sua total surpresa e também desespero a bruxa em questão era a sua Maeva. Ela corria grande perigo onde quer que estivesse, e foi então que ele torceu ali pela primeira vez para que os planos de lorde das trevas não fossem bem sucedidos.
Aquilo foi apenas o início, das lutas internas que Severo começou a travar, ele passou a questionar sua lealdade a aquela causa, contudo mudar de lado era uma decisão bastante complicada e perigosa, que ele não estaria disposto a correr, não naquele momento, afinal ele tinha presenciado e até mesmo perseguido a pedido do seu mestre, alguns supostos traidores da causa, e as consequências, Severo sabia bem, poderiam ser comparadas ao pior dos pesadelos.
Ele era jovem e cheio de orgulho, e ele não iria procurar por ela ainda mais quando ela mesmo tinha pedido para que ele não o fizesse, mas ele sabia que deveria interferir em algo ele se sentia em dívida com ela, algo que pudesse a manter em segurança, foi quando Severo ouviu sobre a profecia pela primeira vez, que ele percebeu que aquela poderia ser a oportunidade certa para ganhar um pouco de tempo, a profecia falava a respeito de um menino que estava destinado a destruir o Lorde das trevas e seu reinado, e conhecendo o lado paranoico e obsessivo do seu mestre, Severo fez questão de ser ele o portador da notícia de forma persuasiva, afim de distrai-lo dando a ele outro foco para com o que se preocupar, nenhum outro plano poderia ser mais assertivo, e a estratégia funciona exatamente como o planejado, mas o que Severo não podia imaginar era que a profecia levaria o lorde das trevas categoricamente até os Potter, e foi assim que ele predestinou Lilian e Thiago Potter a morte.
Desde muito novo, ele aprendeu a não acreditar em coincidências, mas qualquer ação que ele tomasse ali parecia estar predestinado a piorar as coisas, desta forma Severo tomou coragem para buscar ajuda, primeiro por Lili, e depois por Maeva. Ele era um homem frio e calculista, mas ele abriu mão de tudo isso ao implorar pela ajuda de Alvo Dumbledore, o bruxo com quem lorde mais se preocupava, ele era o maior bruxo da sua época, era grande e poderoso e se houvesse alguém que poderia de alguma forma concertar as coisas e os erros cometidos por ele, seria Dumbledore, sutil engano, pois dias depois apesar de todos os esforços desprendidos pela Ordem, a localização de Lili foi descoberta, o que ninguém podia imaginar, mas havia um traidor entre eles, Black e então Lili se foi e não muito tempo depois Maeva. E era tudo culpa dele.
Eram inúmeros os ressentimentos, e naqueles últimos dias, desde que Shara estava na ala hospitalar, tão frágil e vulnerável que eles haviam voltado com força total, passavam e voltavam pela sua mente como um vulcão prestes a entrar em erupção. Severo se remexeu de forma desconfortável naquela cadeira surrada da ala hospitalar, esperando Madame Pomfrey com as novidades do dia, essa era a décima noite desde aquele maldito sábado, onde tudo aquilo havia acontecido e Severo estava marcando presença todos os dias para se inteirar do diagnóstico e observar por alguns minutos aquela criança pálida dormindo de forma tranquila a sua frente, como se nada houvesse acontecido.
Madame Pomfrey havia ficado de avisar caso houvesse qualquer mudança no quadro clínico da criança, mas como diretor da Sonserina, era seu dever acompanhar o desempenho de todos os alunos da sua ala bem de perto, e era essa a então desculpa pelo seu comportamento protetor, sim ele vinha todos os dias, ele não queria chamar a atenção para eventuais especulações, por isso ele procurava vir sempre um pouco antes ou depois do jantar onde o fluxo na ala hospitalar já teria diminuído, pois ficava próximo ao toque de recolher, uns poucos alunos e nada mais.
_Boa noite Severo – Pomfrey disse como de costume.
_Boa noite Pampoula – ele respondeu fechando o livro intocado que ele segurava aberto a sua frente.
_Bem como você pode ver, aparentemente a menina continua na mesma – ela suspirou desanimada – Devíamos manda-la ao St. Mungus não sei por que Alvo insiste em mantermos ela aqui – Poppy queria ter transferido a menina já nos primeiros dias, mas Alvo tinha razão, ela não estaria segura devido as condições especiais, e eles não podiam arriscar, mas Poppy não sabia do histórico dela e dificilmente poderia entender aquilo.
_Eu vejo – ele respondeu, devido a constatação do quadro clinico da criança – acredite Alvo tem seus motivos – ele deu de ombros, não querendo comprar uma nova discussão sobre aquele assunto com ela.
_Você deveria convence-lo, você é o diretor da Sonserina, se tem alguém que ele escuta, esse alguém é você – ela disse quase implorando por aquilo.
_Eu concordo com ele – Severo admitiu, notando que agora ela o encarava de uma forma diferente, ele suspirou cansado, ele era de longe o mais interessado pela recuperação daquela criança, mas ela jamais entenderia, ninguém entenderia, exceto Alvo, que era com quem ele havia conseguido conversar a respeito naqueles dias.
_Muito bem – ela disse chateada, mas optando em ignorar aquela condição – a pouco lancei alguns feitiços de diagnóstico, o núcleo magico parece estar em constante recuperação e como venho mencionando isso é algo bom, ela é jovem e o esperado era que isso acontecesse em meses, mas algo no sangue dela, alguma espécie de mutação, enfim algo que não consigo identificar e nem explicar tem sido o responsável pela velocidade em que a recuperação vem acontecendo, contudo... – ela o olhou por um momento, ela havia parado ali.
_Contudo? – ele perguntou tentando faze-la falar, o que ela estava esperando? Mas ela havia parado ali - o que você por Merlin você está tentando dizer com isso? – ela parecia bastante distante agora - Pampoula – ele chamou - por favor, vá ao ponto – ele pediu, não podia ser tão ruim, podia?
_Enfim - ela o olhou com uma expressão séria e também triste no rosto - É como se ela não desejasse viver mais... – ela soltou, aquilo foi um golpe, certamente um golpe baixo.
_Oque?... – ele olha para a criança serena a sua frente e aquilo não fazia o menor sentido, ela era uma criança tão cheia de vida, tão ativa, já era suficientemente ruim olhar para ela ali naquela cama por todas aquelas noites, ele a queria de volta, ele queria ouvir aquela voz irritante outra vez, mesmo que seja para pedir mil desculpas na mesma frase, ou quando ela era impulsiva em algo, ele queria ver aquele olhar novamente o mesmo da sua mãe, mesmo que aquele olhar o fizesse mudar de ideia ou não concluir algo que ele custou em planejar, o que Poppy havia dito, aquilo simplesmente não podia ser possível, ele não podia acreditar que ela poderia não desejar voltar mais – Eu não posso acreditar nisso – ele disse sem tirar os olhos da criança – por que ela desejaria não voltar?
_Severo ela não responde ao tratamento, é simples, é uma conclusão até obvia demais, fazem dias... – ela o olhou outra vez - não existe nada de errado com ela, bem pelo contrário, como mencionei, o núcleo magico está praticamente restituído, olhe veja os relatórios - Pampoula disse lhe estendendo os pergaminhos onde estava o resultado do último exame que ela havia feito, Severo estava exausto, desde aquele sábado que ele mal havia dormido uma noite por completo, de volta com os fantasmas do passado que o assombravam enquanto ele dormia e enquanto estava acordado também, e para tornar tudo ainda mais difícil, agora tinha também a questão da câmera secreta que havia aterrorizado toda a escola desde o último domingo de Halloween, Alvo estava gastando seus últimos dias naquilo, sim aqueles eram dias insanos, ele pegou os pergaminhos apenas por educação, mas ele não tinha a menor vontade de analisar aquilo, não agora, ele acreditava nela.
_Não entendo – ele disse simplesmente de forma vaga.
_Não penso que isso seja um desejo recente – e aquilo chamou sua atenção, oque ela queria dizer com aquilo? Ele sabia, sim ele mais do que ninguém ali sabia das dificuldades que Shara havia enfrentado naquela casa de acolhimento, mas ela nunca havia demonstrado algo assim, ela se aproximou da cama, levantando as mangas das vestes que Shara vestia ali – olhe – ela pediu, enquanto ele se aproximava desconfiado, sim eram cicatrizes, marcas de cortes, próximas ao pulso, haviam algumas, mas não poderiam... ela não podia... ela podia? – sim – ela disse em resposta a sua expressão -essas deviam ser algumas das marcas que ela não queria que víssemos, estávamos tão longe da verdade quando achávamos que eram apenas cicatrizes e hematomas provenientes de abusos, o que por si só já era bastante ruim – ela estava completamente abalada ali, ela era apenas uma criança, era tão jovem.
_Tem certeza? – ele perguntou com a voz rouca, ele não era de chorar, ele nunca chorava, ele queria poder remover toda a dor dela, ele queria alcançar a alma dela, mas ele não podia.
_Infelizmente não vejo outra explicação – Poppy disse cobrindo a criança outra vez – em St. Mungus ela seria melhor assistida, quem sabe um bruxo mental, alguém com especialidades que eu não tenho – ela estava tentando outra vez, ele não podia julgá-la ali, ela queria o melhor para Shara - Severo, seja honesto, tem algo a mais sobre essa criança, algo que nem você e nem o Alvo querem me contar, não é? - Pampoula era esperta, ela não levaria muito tempo até descobrir a verdade.
Shara era sua filha, e isso era uma pauta que ele e Alvo haviam discutido desgastantemente nos últimos dias, Severo não iria abrir mão do segredo e Alvo concordava com aquilo veemente, Maeva havia morrido pelo segredo e devido aos riscos que todos corriam, ainda mais sendo Severo um comensal da morte, um dos poucos que não havia declinado, ele ainda podia ser influente sobre os demais que havia permanecido fies a causa, mesmo depois do Lorde das trevas ter desaparecido daquela forma misteriosa, e a pedido de Alvo, ele agiria como espião, então uma notícia dessas se espalhando por ai, seria seu fim, ele Severo não poderia ter filhos, aquilo seria muito aquém de todo ou qualquer perigo que aquela criança já corria por si só.
_Pampoula, infelizmente não tenho permissão para falar sobre isso – ele disse sendo sincero com ela ali – e não me olhe assim, apenas leve suas desconfianças ao diretor se achar pertinente – ele orientou.
_Pois fique sabendo que eu já fiz - Severo ergueu as sobrancelhas devolvendo o relatório intocado para Pampoula, que o pegou aborrecida.
_Claro que você fez, espero que ele tenha respondido todas as suas dúvidas - Severo sorriu com ironia, ele sabia que ninguém conseguia extrair nada de Alvo assim, e quem tentasse sairia ainda mais confuso, Alvo era bom nisso, irritantemente bom.
_Severo não se faça, é claro que ele não respondeu, não sei por que ainda me dou o trabalho de perguntar – ela o fuzilou – aos dois, sei que estão envolvidos nisso juntos – ela disse, enquanto se retirava fazendo questão de demonstrar toda a sua insatisfação ali. Severo observa mais uma vez aquela criança dormindo de forma tão tranquila a sua frente, por que ela não estava acordando? Ele fecha os olhos tentando empurrar tudo aquilo para trás da sua mente, e então ele também se retira.
Era quarta-feira final do dia, Alvo havia combinado de encontrá-lo na Ala Hospitalar antes do jantar, Shara não havia respondido ainda, ela permanecia em um estado semelhante ao coma e Alvo havia comentado que podia existir uma forma de estimular um progresso ali, embora ele não tenha dito como e nem o que ele tinha em mente, Severo odiava esse tipo de desinformação, obviamente que ele estava interessado naquilo e certamente estaria disposto a arriscar seja lá o que fosse, afinal Alvo tinha sempre bons planos em mente. Quando Severo chegou, Alvo já estava ali conversando com Pomfrey, ela aparentava estar ainda mais aborrecida.
_ Interrompo? – ele perguntou, sabendo que sim.
_ Boa noite Severo - Disse Alvo com um sorriso no rosto, Severo não sabia como ele podia sorrir com tanta coisa acontecendo naquele lugar, ele sempre sorria - De forma alguma! Aliás falta só duas pessoas e podemos começar – O que? Começar o que? Severo precisou segurar a vontade de revirar os olhos ali naquele ponto, por puro respeito apenas, mas as vezes aquele velho passava dos limites, do que ele estava falando?
_ Claro – ele sorriu com ironia – O que tem em mente velho, quem sabe se os envolvidos soubessem do que se trata, eles poderiam contribuir de alguma forma – ele disse irritado.
_Não se preocupe Severo, logo você saberá. Estou com um bom pressagio para essa noite – o diretor disse de forma divertida, Severo pelo contrário, ele cruza os braços, enquanto se aproxima da cama onde Shara estava acomodada, ela parecia ainda mais pálida naquele dia. Os cabelos da criança estavam repartidos em duas tranças iguais e bem alinhadas, Severo se perguntou se Madame Pomfrey se dava o trabalho de tomar esse tipo de cuidado com seus pacientes, afinal ela não fazia muito o perfil de quem se preocupava com esse tipo de coisa, mas enfim Shara parecia ainda mais pequena e mais nova assim.
As portas da ala hospitalar se abrem, revelando a presença de uma das alunas do primeiro ano, a Srta. Vicente, ela se aproxima da cama de Shara, ela vinha bastante ali naqueles dias, sim ele sabia, e assim que ela percebe a sua presença no ambiente ela recua assustada, ele sorri com o canto da boca, era prazeroso saber que ele ainda podia incutir esse tipo de medo naqueles cabeças ocas.
_Srta. Vicente, venha, obrigada por disponibilizar um pouquinho do seu tempo conosco esse final de tarde - Disse Alvo, com um amplo sorriso no rosto, então ele havia chamado a garota também, o que ele estava planejando afinal de contas? – bem devemos aguardar a Srta. Weasley? – Alvo perguntou parecendo não entender por que elas não haviam vindo juntas.
_Me parece que ela teve algum problema pessoal e estava um pouco indisposta – Vicente disse, ela não estava à vontade ali, era evidente – desculpe Senhor, foi o que Rony me disse.
_Uma pena, mas creio que já temos o que precisamos - Alvo piscou pra ela - Bem como todos sabem, a Srta. Epson está devidamente recuperada de qualquer dano que possa ter comprometido seu núcleo mágico naquele fatídico dia na floresta proibida, portanto ela já deveria ter saído do coma – Alvo explicou e Severo passou seus olhos sobre Madame Pomfrey, eles haviam conversado sobre isso no dia anterior, ela devolveu o olhar e ele percebeu que ela também não parecia muito animada com seja oque fosse que o diretor estivesse fazendo ali - minha teoria é de que precisamos estimula-la a desejar voltar, a mente é um campo aberto e existem inúmeras possibilidades, Shara encontrou um lugar, mas não é real, podemos acessar, já que tenho minhas suspeitas de onde seja, mas conto com alguma ajuda pra isso. Severo o encarou naquele momento ele estava confuso. Alvo devolveu o olhar, e continuou.
_ Srta. Vicente, você deve estar se perguntando o que isso significa, e por qual motivo eu lhe chamei aqui, pois bem – ele sorriu - percebo que a amizade entre vocês é algo muito bonito e bastante consolidado, apesar do pouco tempo, eu posso perceber o quanto você tem se preocupado com ela nesses dias, e o quanto você deseja tê-la de volta, não é mesmo? – o diretor disse olhando para a menina, que parecia se emocionar ali - então o que eu gostaria, é algo bem simples, apenas que você conversasse com a sua amiga na nossa frente, mas eu gostaria que você a chama-se, chama-se para nossa realidade, você pode toca-la também. Depois disso diante de qualquer reação que ela possa ter, por menor que seja, eu assumo, portanto não se preocupe, eu saberei o que fazer.
_Se é só chamar... por que o Senhor mesmo não faz? Não a chama? – ela perguntou, olhando para a amiga descansada na cama.
_Modos! Srta. Vicente – Severo interrompe, qual era o problema com as crianças daquela idade, ela o olha assustada.
_Tudo bem Severo - Alvo se aproxima da cama também - Bem excelente colocação Roberta – ele disse a chamando pelo primeiro nome - na verdade a nossa mente é bastante seletiva, e não faria nenhuma diferença se eu a chamasse ou qualquer outro aqui, ela não iria ouvir, da mesma forma que ela não consegue nos ouvir agora por exemplo, mas quando alguém especial pra ela, uma amiga nesse caso, a mente aciona um sinal de alerta e identifica que esse sinal como um comando positivo e portanto as probabilidades são muito maiores quando se tem um sentimento afetivo envolvido e gostaria que você fizesse o teste pra nós – ele disse, então esse era o plano? Pomfrey ainda não parecia convencida, era evidente o quanto aquela bruxa estava frustrada com a falta de evolução da criança que estava ali na cama. Vicente parecia um tanto quanto constrangida, mas balança a cabeça de forma afirmativa.
_Posso? – ela pediu sem graça e o diretor assentiu positivamente - Shara, oi… é a Beta – ela disse pegando na mão da amiga – você pode me ouvir?… eu queria... – ela disse encabulada olhando para o diretor que fez sinal para que ela continuasse – eu queria te dizer que sinto muito a sua falta aqui, fazem dias agora e sem você, sabe não é a mesma coisa, por favor Shara, volte pra cá… eu preciso de você aqui – ela sussurrou, nenhum sinal, absolutamente nada acontece ali e a Srta Vicente olha para Alvo como que pedindo ajuda, por não saber o que dizer. Alvo a incentiva a continuar, era deprimente até mesmo para alguém como ele presenciar aquilo, de onde, Alvo havia tirado aquela ideia, ele estava a um fio, para se virar e sair daquele lugar.
_Fale com ela, conte algo pessoal, algo que vocês viveram juntas, alguma coisa que tenham aprontado juntas, ahhh não se preocupe nada do que for dito será usado contra vocês depois - Alvo piscou divertido, olhando para ele - Não é mesmo Severo?
_Claro – Severo responde de forma ríspida, aquilo estava ficando cada vez mais ridículo.
_Shara... espero que tenha gostado das tranças, fui eu que fiz... é você disse que gostava e eu tentei fazer pra você - Aquilo explicava as tranças então, ele não podia negar que a menina estava se esforçando.
_Continue – Alvo pediu, ele parecia estar bem convencido de que algo sobrenatural realmente pudesse vir daquilo, já Severo, ele estava começando a prever uma dor de cabeça.
_ Shara lembra daquele dia que passamos a aula de história da magia toda conversando? foi ali que eu tive a certeza de que você seria a amiga mais incrível que essa escola poderia me proporcionar, e lembra de como você ficou impressionada porque o professor era um fantasma? Foi engraçado, eu sinto falta do seu senso de humor, e da forma como você enxerga as coisas, você parece sempre ver o melhor em tudo, eu sinto falta até mesmo da forma como você consegue as melhores notas, mesmo quando você se dedica metade do tempo do que eu, é sério, eu acho que vou começar a seguir seu conselho, sobre não estudar tanto – a garota parecia ter esquecido que eles estavam ali assistindo, Severo olha para Alvo como que comunicando que aquilo era o bastante para ele, nada havia mudado, e ele desejaria ser dispensado daquele espetáculo deprimente do qual o diretor o tinha imposto a assistir.
_Shara, você tirou nota máxima na redação de transfiguração sabia? a professora McGonagall disse que você tem muito potencial - A Srta. Vicente continuou – sabe enquanto você passava os dias aqui, você teve algumas visitas. Harry, Ron e Hermione, eles vieram todos os dias depois do almoço, e Gina também veio ler pra você algumas vezes, teve também aquele menino loiro da sua casa, ele é um pouquinho mais velho… como é mesmo o nome dele…
_Sr. Malfoy - Severo interrompeu completamente impaciente e a voz aguda de Severo preencheu o ambiente, já que ele não tinha dito nenhuma palavra desde que a Srta. Vicente havia iniciado aquilo, e naquele momento ela muda repentinamente de expressão.
_Eu senti a mão dela mexer… eu senti… foi sutil, mas eu senti – ela parecia eufórica, Pomfrey lançou um olhar desconfiado, mas não disse nada.
_Severo talvez seja a sua vez de dizer algo - Alvo disse o pegando desprevenido, aquele velho só podia estar brincando, o que ele estava esperando que ele fizesse? Que ele sentasse ali e abrisse o coração, tal qual uma criança de 11 anos, como Vicente havia acabado de fazer? Alvo o estava encarando, enquanto aguardava, certamente ele não desistiria tão fácil, Severo revirou os olhos agora, sem ressentimentos, ele faria, apenas para provar o quão tolo aquele velho poderia ser.
_Srta. Epson - Severo começou dando a volta na cama, como quem fosse começar um discurso - creio que teremos que revisar seu último exame de poções, se você parasse de tagarelar em sala de aula e prestasse mais atenção a matéria eu diria que talvez pudesse atingir melhores resultados – aquilo não era bem uma verdade, ela tinha tirado nota máxima naquele exame, mas o que chamou sua atenção era de que havia uma mudança no ritmo da respiração da criança, e agora Pomfrey também parecia notar, ela colocou as duas mãos na boca incrédula com o que estava presenciando ali.
_Ela está chorando – a Srta. Vicente disse, elevando a voz, ele se aproximou mais da criança, sim uma lágrima havia se formado no canto do seu olho e escorregado pela lateral do rosto dela, deixando uma marca molhada na sua bochecha. Severo observava atônito a aquela reação, não podia ser possível, que aquela garotinha estaria mesmo reagindo daquela maneira, depois de dias, ao simples fato de ouvir a sua voz.
_Obrigada Srta. Vicente, obrigada Severo, juntos conseguimos acionar parte da mente que eu queria alcançar, assumo daqui – Alvo disse bastante satisfeito.
_Shara, querida, eu sei onde você está e tenho certeza de que deve ser muito bom e agradável para desejar voltar para nós, mas afirmo que por melhor que seja, esse lugar ele não é real, a realidade ela está aqui, nós somos a sua realidade e estamos te esperando, você é muito importante e esperada aqui fora Shara.
Aquelas palavras surtiram o efeito esperado, Severo observa a mudança na respiração, agora de forma ainda mais acentuada, Pomfrey parecia deslumbrada ali enquanto lançava um feitiço de diagnóstico sobre ela, e então depois de todos aqueles dias com exatamente a mesma expressão serena no rosto, Shara abre os olhos lentamente, tentando se acostumar com a claridade, os olhos estavam molhados, ao mesmo tempo que uma Srta. Vicente pula de forma eufórica em cima da amiga na cama. Severo se afasta um pouco, observando toda aquela movimentação.
_Bem vinda de volta Shara - Alvo fala, pegando na mão da criança - eu sabia que você faria a escolha certa.
_Bom, eu aceitei as condições, mas agora vocês estão sufocando-a, vamos dar um certo espaço - Madame Pomfrey se manifestou pela primeira vez desde que tudo aquilo começou, ela se aproxima de Shara, enquanto expulsa a Srta. Vicente da cama, e aproveitava para aferir a pressão e a média dos batimentos cardíacos da menina.
Severo ainda não podia acreditar no que acabará de acontecer ali, ele não tinha depositado a menor fé naquilo que Alvo havia proposto em fazer ali, como aquele velho poderia prever algo assim? Ela não o havia visto, ele não se importava, agora finalmente depois de todos esses dias ele respirou aliviado, ela estava mesmo de volta.
_Parecia real – Shara disse por fim, por Merlim ele sentia falta de ouvir a voz dela
_Querida, lamento por isso, mas infelizmente não é real, você estava presa em uma outra dimensão, em um lugar que você criou em algum momento no seu passado, é pra lá que nós vamos quando desejamos fugir da nossa realidade, mas não é real, embora viver num mundo assim, seja muito mais fácil e atrativo já que não tem dor e nem sofrimento, muitos bruxos ao descobrirem essa fuga, acabam se perdendo nela, e você é tão nova para se perder assim, e desejar fugir da nossa realidade – ele disse de forma afetuosa.
_Como o senhor sabe de tudo isso? – ela perguntou com certa dificuldade.
_Eu já estive lá querida – ele respondeu reflexivo – muitas vezes no passado – ele parecia triste agora – mas saiba que esse lugar, ele continua bem vivo - Alvo bate com o indicador na cabeça demonstrando onde era - e você pode acessar sempre que quiser, é saudável quando você consegue e pode controlar, mas o que você precisa entender é que não vale a pena mergulhar nos sonhos dessa forma e deixar de viver a vida aqui, principalmente quando se tem pessoas especiais te esperando aqui fora – ele sorriu para ela. Shara enxuga algumas poucas lágrimas ali – existe algo que queira dizer, antes que Poppy nos expulse – ele pediu e ela assentiu positivamente.
_Diga ao professor Snape que eu sinto muito, por tudo – ela disse limpando as lagrimas que desciam pelo seu rosto, Alvo olha para ele, como que sinalizando que ele evidenciasse sua presença, ele faria de qualquer maneira, ele se aproxima da cama dela, onde ela o podia ver agora, ela se levanta num único impulso, o pegando e pegando todos de surpresa ali, e ela se joga nos braços dele, agora não havia nenhuma hidra, não havia nenhum vampiro, nenhuma floresta e nenhum perigo, e ele a segurou contra o seu peito, a envolvendo em seus braços e se dando conta ali do quanto ele mesmo desejava aquilo, ela estava viva.
_Por Merlin – ele ouviu Poppy gritando – ela acabou de sair do coma, saiam daqui... todos vocês – ela os estava expulsando, Severo olhou de relance para Alvo, que estava sorrindo, enquanto levava uma primeiranista bastante confusa consigo para fora da enfermaria, ela o soltou e o encarou.
_Ei, eu não sou uma garotinha estupida – ela estava sorrindo.
Shara nunca tinha visto o mar ou ido à praia pessoalmente, na verdade ela mal saia de dentro daquele lar infame, sua rotina não tinha nenhuma empolgação e as saídas basicamente se resumiam em ir até a escola e voltar, nada de explorar o mundo ou algo parecido. Então do pouco que ela tinha assistido pela TV, a praia era um lugar onde as pessoas pareciam felizes além da areia fofinha, do sol e da água, ela amava água e ela meio idealizava um lugar assim.
E justamente com essa sensação de felicidade que Shara não cansava de bater os pés animadamente na água a sua frente, ela queria aproveitar cada momento naquele lugar incrível, a onda vinha e voltava suavemente e a água estava quentinha embora o sol não estivesse tão forte, ela estava usando um vestido verde esmeralda com um lindo laço na cintura, ela amava vestidos e amava a cor verde, ela achava que combinava com a cor dos seus olhos.
_ Mãe, vem ver… aquela gaivota conseguiu pegar mais um peixe – ela disse animada para a mulher que estava sentada na cadeira colorida próximo ao deck, lendo despreocupadamente um livro, ela acenava pra a filha de tempos em tempos, enquanto fazia carinho na ave branca, que estava apoiada no encosto da cadeira.
Faziam horas, dias? Difícil dizer, o tempo parecia funcionar diferente naquele lugar, elas estavam de férias, ou algo assim e então o tempo pouco importaria, sua mãe tinha feito e trazido um delicioso bolo de abóbora com cobertura de chocolate e ela decidiu que não precisava de mais nada para ser feliz, ela podia morar naquele momento pra sempre.
Ela sente alguém segurando sua mão, falando com ela de um lugar longe uma voz distante, ela mal conseguiu entender do que se tratava… mas não havia ninguém naquele lugar além delas, ela olha pra areia em busca da mãe mas a cadeira estava vazia agora.
_ Shara, amor tudo bem? - Que susto, como sua mãe havia surgido ali tão rápido?
_ Mae, você me assustou! - Ela falou enquanto abraçava a mãe pela cintura.
_ Shara querida, você precisa voltar – a mãe dela disse enquanto retribuía aquele abraço.
_ Voltar? Não, mãe, eu quero ficar aqui, aqui com você – ela não queria voltar, nunca mais.
_ Entendo amor, mas é importante, você precisa ir – ela disse enquanto acariciava suas costas.
Shara amava tranças, ela ouve a voz da amiga, mas onde Beta estava? E por que ela estava falando sobre tranças… eu amei as tranças, que confuso, de onde isso estava vindo.
_ Shara amor, você precisa ir, estão te esperando – sua mãe disse passando as mãos carinhosamente pelo seu rosto.
_ Não, não… eu não vou - Shara começa a chorar. Então ela ouve aquela voz característica em sua mente, aquela voz que fez aumentar seus batimentos cardíacos, era a mesma voz que tinha chamado seu nome naquela noite, que a segurou nos braços, ela não conseguia ficar apática diante daquela voz, como algo poderia exercer tanta influência sobre ela? Se havia uma única razão para ir, era por causa daquela voz.
_ Mãe, eu vou te ver de novo? – ela pergunta, desejando que elas nunca mais se afastassem.
_ Sempre querida, eu sempre estarei com você, a onde você estiver – ela disse de forma doce.
De repente Shara ouve a voz do professor Dumbledore, ele a estava chamando, ela queria permanecer naquele lugar onde tudo era tão bom. Mas ela escolhe o ouvir e então ela se sente sendo sugada ali e numa fração de segundos ela desperta para a realidade, barulhos, vozes, luz… cheiro de remédios, cansaço, onde ela estava, espere, aquilo era a ala hospitalar, quanto tempo ela esteve sonhando?
Ela abriu os olhos devagar tentando se acostumar com a iluminação do lugar, e ela vê Beta segurando sua mão do lado da cama e a olhando de forma apreensiva, ao lado do diretor que estava com um enorme sorriso de satisfação no rosto, ela vê também Madame Pomfrey ligeiramente aborrecida. Shara percebe que ela estava chorando, que constrangedor. Sem conseguir pensar muito sobre aquela situação embaraçadora, ela se sente sendo sufocada pela amiga, que praticamente pulou em cima dela naquela cama hospitalar, mas aquela era uma sensação boa, ela amava a amiga, mas onde estava o professor Snape? Será que ele estava muito chateado com ela? Ela havia ouvido a voz dele, ela tinha certeza.
Shara estava confusa, o diretor havia iniciado uma conversa com ela ali, mas como aquele lugar poderia ser ruim? ela estava verdadeiramente feliz lá, tão feliz como nunca antes pudera estar e agora o diretor estava dizendo que já esteve lá também, então ele sabia exatamente como ela estava se sentindo, mas faltava alguma coisa, e ela sentiu angustiada, onde ele estava?
_Existe algo que queira dizer, antes que Poppy nos expulse – ela ouviu o diretor perguntar, sim havia algo, e ela queria verdadeiramente dizer aquilo, ela assentiu.
_Diga ao professor Snape que eu sinto muito, por tudo – ela disse enquanto limpava as lagrimas que desciam pelo seu rosto, ela podia mesmo estar tão sensível assim? Quando ele aparece no seu ângulo de visão, ela não pode evitar, ela sequer saberia dizer por quanto tempo ela estava naquela cama dessa vez, mas parecia muito tempo agora, ela não se importava, ele estava ali e ela se levanta num impulso, para fazer aquilo que ela havia desejado muito, se jogar nos braços dele, ela amava a praia, amava o sol e o amar, mas ela amava aquele lugar também, os braços dele, espere ele a chamou de garotinha estupida?
_Ei eu não sou uma garotinha estupida – ela sorriu, era genuíno.
