Dois – Teorias
Doía. Doía e ardia como nenhuma coisa de que ele conseguisse se lembrar.
Se ele estava em um hospital, não estavam fazendo um bom trabalho. Se não estava... Então deveria estar no inferno. Carlisle tentou se concentrar no que tinha acontecido, mas sua cabeça queimava demais para que ele conseguisse se lembrar de qualquer coisa que fosse. Tudo de que ele se recordava era de uma musica alta, de uma luz e... mais nada.
Ele tentou se mexer algumas vezes, mas seus músculos pareciam pedra. Sua respiração ficava mais fraca, ao mesmo tempo em que o coração parecia acelerar, brigando contra alguma coisa. A cabeça, ele tinha certeza, ia explodir. Parecia que alguém empurrava seu crânio de dentro para fora, com uma força monstruosa, como se quisesse aumentá-la de tamanho de um jeito que não ia dar certo.
Os olhos ele preferia manter fechados. Ele havia tentado abri-los algumas vezes, mas era doloroso demais e tudo que ele via eram borrões. Alguns deles parecidos com um rosto humano desfigurado, mas ainda assim, borrões.
Ele se perguntava quanto tempo mais aquilo ia durar. Será que demorava tanto assim para morrer? Será que sempre era doloroso desse jeito? Ele se lembrou das pessoas no hospital, uma lembrança que parecia inexplicavelmente perdida no vazio em que seu cérebro parecia estar se transformando. Pelo menos daquilo ele ainda tinha certeza. Ele era um neurologista e trabalhava no hospital de Forks e...
Edward e Elizabeth.
Um raio de dor estalou forte em sua cabeça quando ele se forçou a pensar na irmã e no sobrinho. Era como se ele não tivesse permissão para pensar neles, pensar em nada. Era como se pensar atrapalhasse o processo todo, fosse ele qual fosse.
Onde ele estava, por que estava ali? Será que ia ficar daquele jeito para sempre? Ele podia sentir o coração brigar para continuar batendo, cada vem mais rápido, mas os efeitos daquilo pareciam ser nulos. A respiração simplesmente diminuía, a dor aumentava, os músculos iam ficando mais rígidos. Estava ficando quase impossível manter-se consciente, ele ia se entregar de uma vez. A dor simplesmente não compensava o esforço de tentar manter-se vivo.
E foi como se seu corpo respondesse àquela decisão. O coração começou a acelerar com uma força que chegava a doer e ele queria gritar. Ele ia entrar em colapso, só estava esperando a última batida. E então, com um baque surdo, o coração parou. Junto com ele, a respiração deixou de existir, os músculos relaxaram e sua cabeça parou de doer.
Então tinha mesmo acontecido. Era daquele jeito que era morrer.
No entanto, antes que ele pudesse tirar qualquer conclusão sobre aquilo, uma voz pareceu perfurar seus ouvidos com o tom mais penetrante que ele já havia ouvido na vida.
-Rapaz, abra os olhos.
Não havia como não obedecer. Por mais que aquilo fosse doloroso, por mais que ele soubesse que tudo que ele veria seriam borrões. A voz era forte demais para ser ignorada.
Então ele abriu os olhos.
E foi como mágica. Nenhuma dor, nenhuma nebulosa, nenhum borrão. Tudo era claro demais, cheio de cores, vivo. Não se parecia com o inferno. Será que ele estava no céu, então? Carlisle correu os olhos à sua volta, impressionado com tudo o que conseguia ver, com tantos detalhes. Até a poeira refletindo a luz que vinha da lâmpada parecia cheia de cores e foi só quando o vento bateu lá fora que ele percebeu outra coisa diferente. Ele conseguiu ouvir os farfalhar das folhas batendo umas nas outras, e o barulho mudo que uma delas fez quando atingiu o chão.
Talvez ele estivesse sonhando, então. Ele sabia que era impossível ver com tamanha definição, ouvir sons tão baixos e indistinguíveis. Esse tipo de coisa simplesmente não existia. Confuso com o que seu cérebro estava fazendo, ele olhou para as próprias mãos. Brancas. Brancas demais.
Mas ele parecia bem. Ou se sentia bem, pelo menos. Um pouco estranho, mas ainda assim, estava vivo. Foi então que ele moveu os olhos para um rosto que sorria gentilmente para ele. O rosto que ele reconheceu como sendo o do borrão que ele via enquanto parecia queimar vivo. O rosto de que, por algum motivo, ele se lembrava...
-Benvindo à imortalidade, Carlisle. Meu nome é Nathaniel.
O homem estendeu a mão para Carlisle, que se sentou na cama onde percebeu que estava e a apertou de volta. As mãos deles tinham o mesmo tom pálido. Mas o que o homem tinha dito? Imortalidade? Que papo era aquele?
-Você deve estar se perguntando o que está fazendo aqui. – o homem continuou com a voz afiada em um tom calmo. – E eu vou responder a todas as suas perguntas. Mas por enquanto, eu gostaria que olhasse para si mesmo e que dissesse o que acha que aconteceu. – o homem sorriu com o canto da boca, depois se sentou em uma imponente poltrona antiga forrada com um estofado vermelho. – Gosto de ouvir teorias.
Carlisle ficou observando-o por um segundo. Se cérebro parecia registrar tudo que fazia parte do homem que se chamava Nathaniel, desde o cabelo negro na altura do queixo, a barba em formato de bigode a cavanhaque finos, os olhos... vermelhos. Não fazia sentido, simplesmente não fazia. Mas o homem era tão familiar, Carlisle tinha certeza de que já tinha o visto antes em algum lugar... Foi quando seu cérebro deu um estalo.
-Você... – ele começou, ainda parado na cama, exatamente na mesma posição e quase engasgou quando percebeu um timbre diferente em sua voz. – A loja, você falou comigo... –
-Agora não, rapaz. – Nathaniel interrompeu com uma serenidade autoritária. – Agora é a sua vez de falar. Respondo a suas perguntas quando você tiver chegado a algumas conclusões.
Carlisle não queria chegar à conclusão nenhuma. Ele só queria que o tal Nathaniel explicasse o que estava acontecendo, onde ele estava e por quê ele estava ali.
-Que lugar é esse?
Nathaniel soltou um suspiro desapontado, mas manteve-se absolutamente calmo.
-Sempre as mesmas perguntas... Eu achei que você seria diferente, meu amigo. Mas creio que eu pedi para que tirasse as suas próprias conclusões. Se você puder prosseguir, posso lhe assegurar que responderei a todos seus questionamentos quando tivermos acabado.
Parecia que era inútil insistir. Derrotado, Carlisle respirou fundo uma vez e reparou que seus pulmões não respondiam. O ar entrava e saía, mas não produzia efeito algum. Ele não tinha vontade de respirar. Assustado, ele colocou a mão sobre o peito. Estava mudo.
-Eu morri.
Nathaniel abriu um sorriso do outro lado do quarto, como se já esperasse por aquela conclusão.
-É incrível como todos dizem a mesma coisa. – ele falou cruzando as pernas e fez sinal para que Carlisle continuasse. – Prossiga, prossiga.
-Com assim, prossiga? Eu morri! O que pode vir depois disso?
Nathaniel balançou a cabeça, mas sua expressão era de quem estava se divertindo.
-Olhe para si mesmo, Carlisle. – ele pediu apontando para ele. – Você parece morto? Sente-se morto?
Carlisle voltou a olhar para as próprias mãos. Elas, definitivamente, poderiam pertencer a alguém que havia morrido. Estavam brancas demais, os tendões eram quase visíveis por debaixo da pele. Mas não havia sinal de veias, artérias, nada. Um ponto a favor de que ele estava realmente morto.
Mas ele conseguia se mexer. Os dedos abriam e fechavam, o quarto era real demais, incrível demais e, ainda assim, normal demais para pertencer ao céu ou ao inferno. Um ponto a favor do maluco que continuava sentado o observando, como se estivesse vendo cachorrinhos adestrados em um circo.
-E então...? – Nathaniel insistiu, curioso. – Acha que está morto?
-Eu não sei... – Carlisle se limitou a dizer, a situação toda era surreal demais.
-Levante-se. – o homem sugeriu. – Levante-se e veja como se sente.
Carlisle obedeceu. Assim que seus pés tocaram o chão, ele percebeu alguma coisa diferente. Seus músculos respondiam com uma velocidade e com uma precisão assombrosas. Ele ouviu de novo quando alguma coisa caiu do lado de fora, uma noz de uma árvore não muito alta, a julgar pelo barulho. Mas como ele conseguia fazer aquilo? Como ele conseguia ouvir uma noz caindo e como ele sabia que era uma noz? E a altura da árvore?
Não, aquilo estava errado. Ou estava errado, ou ele definitivamente não estava morto. Ele forçou-se a respirar mais uma vez e o ar que invadiu seus pulmões era cheio de aromas que ele nunca tinha experimentado. E apesar disso, ele conseguia distinguir cada um com uma eficiência insana. Então ele se lembrou da poeira refletindo a luz. Carlisle voltou a encarar o quarto e foi uma experiência incrível. Os pedacinhos de pó continuavam lá, dançando no ar, brilhando com a lâmpada. Ele se virou para a janela e observou a floresta lá fora. Ele conseguia enxergar cada folha de cada árvore, cada animal minúsculo que corria pelo chão, cada abelha de uma colméia a pelo menos uns duzentos metros dele.
Insano.
-Tudo bem, acho que eu não morri. – Carlisle sussurrou se voltando para Nathaniel. – Mas eu não sei o que é isso. Você... você também consegue ver essas coisas, ouvir desse jeito?
Nathaniel arqueou as sobrancelhas, satisfeito.
-Estamos chegando a algum lugar. – ele falou se endireitando na cadeira. – Mas ainda não é a minha vez de responder, Carlisle. Continue.
Como ele ia continuar? O que Nathaniel queria que ele descobrisse sozinho?
-Eu não sei... você... me transformou em um zumbi?
Nathaniel riu.
-Ora, fazia tempo que eu não ouvia essa. Foi um bom chute, amigo, um bom chute. Mas não, não um zumbi. Eu não teria essa deselegância toda.
Carlisle franziu a testa.
-Quer dizer... Quer dizer que, seja lá o que eu sou agora... Foi você quem me transformou?
Nathaniel sorriu, orgulhoso.
-Precisamente. Você está indo bem, continue.
Aquilo não fazia sentido. Ele devia estar sonhando, só podia. E estava preso em um filme de terror de quinta com um cara à la Conde Dracula lha fazendo perguntas sem sentido.
Conde Drácula.
Tudo bem, aquilo estava começando a ficar ridículo. Ele não podia nem cogitar essa possibilidade, seria admitir que tinha ficado louco. Ainda assim, ele não queria arriscar. Seus olhos percorreram o quarto, passando pelas cortinas escuras e grossas, os quadros enormes, a poltrona vermelha onde Nathaniel estava sentado e as estantes cobertas de livros, até que ele achou o que procurava. Um espelho.
Até onde ele sabia, vampiros – e ele teve que se xingar de idiota outra vez por sequer pensar naquilo – não tinham reflexo. Ele caminhou apreensivo até o espelho, tomando o cuidado de não ficar à frente dele. Carlisle queria se posicionar apenas quando estivesse perto o suficiente para não se enganar.
-Ora, o espelho. – Nathaniel falou surpreso quando Carlisle passou por ele. – Você é rápido. Vá em frente, amigo. Isso será interessante...
Carlisle não deu ouvidos a Nathaniel, ele só queria acabar com aquela maluquice toda logo. Ele ia ser ver no espelho e depois se xingar para sempre por ter cogitado aquilo. Então ele se aproximou pelo lado e respirou fundo outra vez. Com um movimento rápido demais que o surpreendeu, ele se colocou na frente do objeto.
Um sorriso aliviado surgiu em seu rosto quando ele registrou um reflexo do outro lado.
-Por que o sorriso? – Nathaniel perguntou, interessado.
-É o meu reflexo. – Carlisle respondeu sem pensar o quão infantil aquilo poderia ter soado.
-Mas é claro que é. – Nathaniel respondeu com naturalidade. – E o que você pode concluir disso?
Ele engoliu seco uma vez. Se Nathaniel não o tinha achado perturbado por causa do zumbi, talvez ele não fosse se surpreender com a segunda possibilidade.
-Que eu não sou um vampiro.
A palavra teve um efeito imediato nos ouvidos de Nathaniel. Ele abriu um sorriso orgulhoso e se levantou pela primeira vez, caminhando pelo quarto sem produzir um ruído sequer, até parar ao lado de Carlisle, apoiando o braço em seus ombros. Ele também tinha um reflexo, Carlisle pôde perceber.
-E por que não?
-Bom... Vampiros não têm reflexo, têm?
Nathaniel riu.
-Humanos e seus filmes de terror... E por que não teriam?
Carlisle estava confuso e a conversa estava se tornando ainda mais estranha – se é que aquilo era possível.
-Eu... não faço a menor idéia.
-Foi o que eu pensei. – Nathaniel passou por trás de Carlisle, as mãos ainda firme nos ombros do médico. – Olhe para você. A cor da sua pele, suas feições, a cor dos seus olhos.
Carlisle se fitou com mais atenção daquela vez. Definitivamente, havia alguma coisa diferente ali. Suas olheiras haviam sumido, a barba desleixada não cobria mais suas bochechas. O cabelo estava ainda mais loiro, quase branco, mas ainda assim era assombrosamente mais escuro que a pele quase da cor do gelo.
Gelo.
Ele encostou os dedos no vidro do espelho, esperando sentir uma diferença na temperatura. Mas nada aconteceu. Eles estavam na mesma temperatura, o vidro poderia ser até um pouco mais quente, talvez.
Carlisle recolheu a mão rápido, assustado. Nathaniel não podia ter falado sério. Simplesmente não podia. Então ele voltou a se encarar no espelho e seus olhos encontraram outros, vermelhos, olhando-o com profundidade. Mas não eram os de Nathaniel. Eram dele.
Mas ele havia sido transformado. E até onde ele sabia de filmes de terror, vampiros criavam outros vampiros mordendo-os. E Nathaniel não tinha presas expostas, será que elas só se pronunciavam durante um ataque? Mas aquela não era a questão, ele não podia acreditar que estava mesmo pensando naquelas coisas. Ainda assim, ele virou o pescoço lentamente, olhando-o atento no espelho.
O que ele viu não foram os dois furinhos vermelhos que apareciam no cinema. Ao invés disso, uma marca branca e brilhante, de uma mordida inteira, gritava em seu pescoço. Ele endireitou-se e se virou para Nathaniel.
-Não pode ser...
-Preste atenção, Carlisle. Feche os olhos por um segundo e se concentre em sua garganta. Perceba o que você sente, o que você quer.
Ele obedeceu. Não fazia sentido questionar, uma vez que tudo ali era questionável. Com os olhos fechados, ele se concentrou em sua garganta. Havia alguma coisa ali que o incomodava. Ela ardia, pedindo por alguma coisa. Então ele engoliu seco uma vez e a ardência aumentou. Levou um segundo, mas ele percebeu.
-Estou com sede... mas... não é água. – ele respondeu, já sabendo qual seria a próxima pergunta de Nathaniel.
-E o que você quer?
Carlisle reprimiu o pensamento do que estava prestes a dizer, mas a conclusão final era incontestável. Ele percebeu o que Nathaniel queria que ele entendesse sozinho o tempo todo e porquê era importante que ele descobrisse por si só. Ele não teria acreditado se tivessem lhe contado. Não acreditaria se não tivesse visto com os próprios olhos, se não tivesse certeza de que era real. Não teria feito sentido se todas as outras possibilidades não tivessem sido esgotadas, se ele não tivesse se negado até o último instante. Não havia outra explicação e sua garganta queimando era a prova daquilo.
-Sangue. – ele respondeu, o horror e excitação se misturando quando ele pronunciou as palavras seguintes. – Eu sou um vampiro.
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N/A:Eee, capítulo 2!
Mano o que é essa disputa pelo homi, jesuis! Hahahaha
Tudo bem, até eu arriscava uma mordidinha dele, vai... ok, parei.
E aí, o que acharam??
COMENTEM – e isso é sério. Hunf! Cinco Reviews pro próximo capítulo, ok??
Esperem até o próximo capítulo e vocês também vão querer um Carlisle... hoho. (6)
Ah, tiveram uns comentário que sumiram, eu juro que eu não apaguei, ok?? Eles puf! Desapareceram .-.
Beijos gelados, sonhem o Nathaniel, com o Carlisle, com o Emmett... uma orgia vampiresca, oiq
JMcCartyC, dando a louca. É.
N/B: NATHANIEL MIM MORDE? *u*
Malz aí Bê, Aguy, Eve... JOHNNY DEPP É MEU, É TUDO MEUMI! q
Nada mais a dizer, bgs
BL
