Três – Bem Projetados

-Você foi rápido, Carlisle. – Nathaniel aprovou com um sorriso satisfeito, dando tapinhas nos ombros dele. – Acho que o mais rápido de todos. Fico feliz em saber que acertei na escolha.

-Escolha?

Nathaniel soltou Carlisle e se virou, voltando a se sentar na poltrona vermelha. Ele teve a ligeira impressão de que talvez o homem tivesse falado demais.

-Você vai responder minhas perguntas agora? – Carlisle perguntou caminhando até a poltrona, voltando a se sentar na cama. Nathaniel hesitou por um segundo, mas depois abriu um sorriso gentil. Como sempre.

-Claro.

No fundo, Carlisle duvidava de que o homem fosse responder a todas as suas perguntas, mas, ainda assim, não custava tentar.

-Então eu suponho que você também seja um vampiro?

Nathaniel assentiu.

-Exatamente.

Claro, aquilo era óbvio. O que ele não entendia e que precisava saber era que espécie estranha de vampiro era aquela que tinha reflexo. Aonde mais os filmes tinham errado?

-O que mais você... quer dizer, nós – era absurdamente esquisito pensar naquilo daquela forma – fazemos e os... humanos não sabem? Digo, nós temos reflexo...

-Ah, claro. Bom, nós também saímos em fotos, caso isso te preocupe. Além disso, não temos problemas nenhum com alho, nem com crucifixo e muito menos água benta. – ele soltou uma risada desdenhosa. – Sinceramente, eu adoraria saber quem foi a pessoa criativa que inventou isso tudo.

Nathaniel parecia se divertir com as próprias palavras, imerso naquele mundo de histórias maravilhosas. Mas Carlisle ainda estava tenso, concentrado. Era tudo novo demais, surreal demais.

-E quanto ao sol? – ele quis saber. A perspectiva de nunca mais poder sentir o calor do sol por ser transformado em carvão era simplesmente depressiva. Imaginar-se vivendo nas sombras, para sempre...

Nathaniel sorriu.

-Ora, você não acha que seres tão bem projetados como nós poderiam ser destruídos por um simples saio de sol, não é?

-Mas então, por quê... –

-Nós não saímos ao sol, é verdade. Mas não porque viraríamos pó e, sim, porque nossa pele tem propriedades... interessantes em contato com a luz natural. E isso faria com que os humanos nos descobrissem, o que não seria exatamente agradável.

-Então... eles presumiram que o sol nos faz algum mal, simplesmente porque nós evitamos sair durante o dia para não sermos identificados?

-Eu não poderia concluir com mais elegância, Carlisle. – Nathaniel concordou, sorrindo para ele.

Aquilo ia contra todos os mandamentos de Hollywood, mas, incrivelmente, fazia bastante sentido. Queimar no sol soaria como uma boa punição inventada pelos humanos. Era como se ele quisessem afirmar para si mesmos que tinham alguma chance, mesmo que aquela não fosse inteiramente a verdade. Então ele se lembrou das palavras de Nathaniel.

-E o que você quis dizer com "bem projetados"?

Nathaniel deu uma risadinha, depois cruzou os braços.

-Nós somos os predadores mais bem adaptados da natureza, meu amigo. Mas você vai descobrir isso com o tempo, posso lhe assegurar.

Carlisle concordou, ele não tinha pressa. Mas havia uma outra coisa que ele queria saber.

-Nathaniel... – aquela foi a primeira vez que ele usou o nome e o vampiro pareceu ficar satisfeito, fazendo sinal para que ele prosseguisse. – Por que você... me escolheu?

Nathaniel se ajeitou na poltrona, aparentemente desconfortável com a pergunta. Ainda assim, ele manteve a calma para responder.

-Eu vou te explicar mais tarde, amigo. Não se preocupe, você precisa mesmo saber.

Carlisle concordou outra vez e engoliu seco. Assim que fez isso, sua garganta voltou a doer, como se quisesse dizer que não era aquilo que ela queria. E claro que não era, Carlisle sabia exatamente pelo quê seu corpo gritava. Nathaniel se colocou de pé com um salto silencioso quando ele tentou reprimir uma careta que denunciava a queimação em sua garganta.

-Ora, eu quase me esqueci de como você deve estar morrendo de sede. Desculpa-me pela grosseria, Carlisle.

-Tudo bem. – o médico respondeu com gentileza, embora seu corpo não concordasse inteiramente com aquilo. Então uma perspectiva repugnante riscou sua mente com um lampejo. – Mas... isso não significa que eu... –

-Não, não, não. – Nathaniel se apressou em tranquilizá-lo, antecipando a pergunta de Carlisle. – O prato de hoje não inclui humanos, fique tranquilo. Nós vamos começar com alguma coisa um pouco menos saborosa, infelizmente.

Carlisle ficou esperando o estômago revirar com as palavras de Nathaniel, porque era exatamente aquela a sensação que ele queria sentir. Mas nada aconteceu, seu corpo simplesmente não respondia mais como antes.

-O que nós vamos fazer?

-Vamos caçar, Carlisle. – Nathaniel respondeu com naturalidade. – Começar com animais. Forks é bastante privilegiada nesse aspecto, não nos faltam opções lá embaixo. – o vampiro se levantou da poltrona e foi na direção janela. – Vamos?

Carlisle hesitou, ele só podia estar brincando. O andar em que eles estavam, fosse qual fosse, não era baixo o suficiente para que alguém conseguisse pular sem quebrar, no mínimo, as duas pernas – isso se tivesse sorte. A não ser que...

-Somos bem projetados... – Carlisle sussurrou tão baixo para si mesmo que se surpreendeu quando Nathaniel respondeu.

-Mais do que você supõe, amigo. – ele abriu a janela e voltou a encarar Carlisle. – Se me permite.

O médico assentiu mecanicamente com a cabeça enquanto Nathaniel punha o corpo para fora e desaparecia na escuridão. Carlisle se levantou da cama e se debruçou no parapeito da janela. O vento forte bagunçou seus cabelos enquanto, apesar da escuridão total, ele conseguia distinguir cada árvore, cada objeto, cada pedra que estava em seu campo de visão absurdamente dilatado.

-Pode vir, Carlisle. – a voz de Nathaniel veio lá de baixo, nítida como ele estivesse ao seu lado. – Apenas peço que tire a camisa porque a probabilidade de você destruí-la em uma primeira caçada é relativamente alta. Não se preocupe, não vai fazer diferença.

Carlisle já tinha tido provas demais de que não era necessário questionar Nathaniel, então ele simplesmente obedeceu. Um a um, ele desabotoou os botões da camisa quase tão branca quanto ele e, quando o fez, precisou correr para o espelho.

Era inacreditável. Ele nunca tivera aqueles ombros largos, nem os braços fortes daquele jeito e muito menos um peitoral e abdômen tão definidos. Ele teria que ficar a vida inteira em uma academia se quisesse chegar perto daquilo em condições normais e, no entanto, lá estava ele, ostentando o objeto de desejo de qualquer mulher sensata, sem precisar fazer esforço algum. Aquela história de bem projetados estava começando a parecer mais atraente, no fim das contas.

Carlisle jogou a camisa de volta da cama, excitado com o que acabara de ver no espelho e tornou a se debruçar no parapeito, encontrando Nathaniel no chão logo abaixo da janela. O médico respirou fundo mais uma vez e passou uma perna pela abertura, depois a outra, até ficar sentado com as pernas para o lado de fora.

-Pode vir, Carlisle, lhe garanto que é assombrosamente fácil.

Sem pensar muito no que estava prestes a fazer, Carlisle deu um impulso com as mãos e se lançou no ar. Ao invés de sentir que caía, foi como se o chão estivesse indo ao encontro de seus pés e, quando atingiu o solo, o impacto não foi maior do que o de alguém que pula do degrau mais baixo de uma escada. Eufórico, ele se virou para Nathaniel.

-É incrível.

O vampiro sorriu com o canto da boca e começou a caminhar na direção das árvores.

-Digamos que a imortalidade tem o seu charme.

Carlisle teve de concordar. O que mais será que ele era capaz de fazer? Correr mais rápido que um atleta de cem metros rasos? Levantar aqueles pesos que ele via os halterofilistas levantarem na tevê? Era tudo novo demais, convidativo demais. De repente havia um mundo totalmente inexplicável pronto para ser explorado, chamando por ele. Era como se ele tivesse dez anos de novo, pronto para abrir os presentes na manhã de natal.

-O que nós vamos caçar? – ele perguntou acompanhando os passos absurdamente rápidos de Nathaniel sem nenhuma dificuldade.

-O que você quiser. – o vampiro respondeu com naturalidade. – Sinta os aromas enquanto anda, perceba de onde vêm, para onde vão. Assim que achar um que julgue bom... ataque.

Vindo do tom calmo de Nathaniel, a coisa toda parecia fácil. Sentir, atacar. Mas como? Carlisle era o tipo de pessoa que não conseguia ganhar nem queda de braço, – bom, talvez agora com os novos músculos a história fosse outra – quanto mais lutar com um animal, fosse ele qual fosse.

-Eu posso escolher um coelho?

Nathaniel riu.

-Não subestime sua força, amigo. Somos predadores... Observe.

Nathaniel fez sinal com o braço para que ele parasse. Carlisle ficou imóvel e um cheiro diferente encheu seus pulmões inertes. Não era um aroma exatamente bom, mas foi o suficiente para fazer sua garganta queimar com força outra vez. Ele engoliu seco e fechou os olhos, tentando se concentrar. Era como se cada molécula do odor que enchia todo o ar a sua volta eletrizasse seus músculos e ele só tinha vontade de fazer uma coisa...

-Eu quero atacar. – ele falou quando voltou a abrir os olhos, sem se preocupar em como deveria fazer aquilo. Seu corpo novo parecia tomar as rédeas por si só, parecia saber exatamente o que devia ser feito.

Nathaniel sorriu satisfeito e colocou a mão sobre o ombro de Carlisle.

-Vá em frente.

Era uma permissão, mas para seu corpo foi como se tivesse sido uma ordem. Seus músculos estavam a toda, prontos para uma explosão de energia quando ele deu o primeiro passo. Seus pés pisavam o solo coberto de folhas sem sentir nada. Era tudo liso, macio. As árvores eram borrões que pareciam passar em câmera lenta, permitindo que ele desviasse de todos os galhos que se punham em seu caminho em silêncio. Apesar disso, ele sabia que corria. Corria como nunca tinha corrido antes, a velocidade era alucinante, o vento batia forte contra seu rosto, jogava os cabelos para trás. Ele podia sentir o cheiro ficar mais forte, as batidas rápidas de um coração quente pulsando em algum lugar perto dali. Um coração que ele queria parar, um coração de que ele precisava.

Então ele avistou, de costas e alheio ao que estava prestes a acontecer, um alce. Sozinho. Era perfeito. Carlisle sentiu seus lábios se contorcerem e um rosnado escapou de seus pulmões quando ele pulou para agarrar o animal pelas costas. O alce não teve a menor chance. Carlisle não sabia se era devido à sua formação como médico, ou se seu novo cérebro dilatado simplesmente sabia, mas ele cravou as presas na jugular do animal com uma precisão cirúrgica. Enquanto o sangue quente era drenado para sua garganta, o médico podia sentir que queria mais. Queria mais e só aquilo importava. O gosto não era o melhor do mundo, mas era quase como beber água do mar. A sede só aumentava.

Quando o animal parou de se debater, Carlisle simplesmente se levantou. O coração estava mudo, não havia mais sangue sendo bombeado. Ainda assim, ele se virou com uma velocidade assombrosa, ficando com os braços abertos em posição de defesa, os dentes a mostra quando sentiu alguém se aproximar. Era Nathaniel.

O vampiro de cabelos negros parou e levantou os braços como quem mostra que está desarmado, os olhos vermelhos cintilando, um sorriso de aprovação em seu rosto pálido.

-Não vim tomar sua presa, Carlisle. – ele falou com a calma que lhe era característica e o médico relaxou um pouco. – Vim apenas parabenizá-lo.

Carlisle se endireitou, desconcertado com o que seu corpo acabara de fazer sem que ele tivesse tomado consciência daquilo.

-Desculpe, Nathaniel, eu não sei o que aconteceu...

-Não precisa se desculpar, amigo. É natural. Você só está protegendo sua presa de oportunistas e minha conduta lhe instigou a agir dessa forma. Não se sinta envergonhado, você fez o que devia ser feito. Talvez com um pouco de empolgação demais, mas a elegância é algo que se adquire com o tempo.

Carlisle arqueou uma sobrancelha e depois olhou para si mesmo. Havia sangue lhe escorrendo pelo peito, contornando cada nuança dos músculos de seu abdômen, descendo até a marca dos oblíquos que agora eram insanamente definidos, manchando a cintura da calça branca de vermelho. Ele passou as costas da mão pela boca, percebendo que o sangue também lhe escorria pelos lábios, até o queixo. Realmente, aquilo não era exatamente o que poderia ser chamado de elegante.

-Eu... não sabia como fazer. – ele se defendeu.

-Não, não estou criticando, de maneira nenhuma. – Nathaniel interrompeu – Você se saiu perfeitamente bem para uma primeira caçada. No entanto, vai precisar ser mais cuidadoso quando formos lidar com humanos.

Carlisle reprimiu a careta outra vez quando Nathaniel mencionou a palavra "humanos". Por que eles tinham que se alimentar de pessoas? Animais não eram o suficiente? Claro, o gosto não era assim tão bom, mas ele poderia se acostumar. O quão melhor sangue humano poderia ser? Era sangue, no fim das contas, não devia ser tão diferente assim.

-Eu quero mais. – Carlisle falou sem pensar naquilo. Seu corpo parecia falar sozinho, exigindo suas vontades próprias.

-Claro que quer. – Nathaniel concordou, com tom de obviedade. – O corpo quer compensar os dias que você ficou desacordado.

-Quanto tempo eu fiquei inconsciente?

-Quatro dias. Eu já estava começando a ficar preocupado, achando que não tinha injetado veneno o suficiente. Mas então você acordou.

Ouvir aquilo só fazia Carlisle querer saber ainda mais porque ele havia sido escolhido por Nathaniel. Alguma coisa ali lhe dizia que não tinha sido acidental. No entanto, sua garganta queimando não lhe deixava chegar a muitas conclusões. A única coisa que pulsava em seu cérebro era uma vontade incontrolável de mais sangue. Não tinha como não obedecer.

Sem dirigir mais nenhuma palavra ou olhar a Nathaniel, ele saiu como um tiro pela floresta gelada, a audição e o olfato atentos para qualquer sinal de uma presa em potencial. E seus sentidos não demoraram a serem recompensados.

Daquela vez foi mais fácil. O cervo não se deu conta do que o atingira quando Carlisle o agarrou pelas costas, com outra mordida certeira. A questão da elegância é que parecia não ter sido totalmente assimilada. Parecia impossível abater uma presa daquele porte e permanecer com as roupas impecáveis, o cabelo arrumado e a boca perfeitamente limpa. Nathaniel devia estar de brincadeira.

Curioso, ele largou o animal inerte no chão e se levantou, inspirando o ar para dentro de seus pulmões vazios. Ele pôde sentir o cheiro de Nathaniel invadir suas narinas, traçando uma trajetória perfeita por entre as árvores altas. Ele não teria dificuldade em seguir aquele rastro. Deixando-se levar pela trilha invisível, Carlisle se esgueirou rápido entre as árvores, sem fazer ruído algum. Mais rápido do que conseguiu assimilar, ele o alcançou.

Foi bem a tempo de ver o vampiro saltar com uma precisão e habilidade monstruosas sobre um leão da montanha com pelo menos duas vezes o tamanho dos dois juntos. Aquilo só podia ser fruto de décadas de experiência. Ou séculos, quem sabe... O animal tentava se defender, mas as patadas que atingiam Nathaniel não pareciam ter efeito algum. Segundos depois, o leão estava rendido. O vampiro permaneceu agachado por alguns segundos, depois se levantou com a elegância de um lorde. As roupas impecáveis, o cabelo perfeito. Não havia uma única gota de sangue em seu rosto que não parecia mais tão pálido assim. Era assombroso.

-Como... como você fez isso? – Carlisle perguntou, incrédulo, em choque demais para se mexer. Nathaniel era... letal. Uma frieza e precisão incomparáveis.

O vampiro, no entanto, não parecia surpreso. Era como se fizesse parte de sua rotina, algo trivial que se faz com as mãos amarradas. Carlisle não conseguia se imaginar fazendo aquilo nem dali a duzentos anos.

-É simples quando se tem a eternidade para praticar, Carlisle. No entanto, devo admitir que a recompensa não vale tanto assim o esforço. – ele caminhou até Carlisle e apoiou a mão em seus ombros. – Vamos, é o bastante por hoje. Você precisa de um banho, depois terei prazer em mostrar minhas instalações para você. Elas também são suas a partir de agora.

Carlisle deixou-se levar por Nathaniel, mas agora que sua garganta não ardia com tanta intensidade, a pergunta voltou a lhe corroer a mente nova com a qual ele lutava para se acostumar.

-Quando você vai me contar porquê me transformou?

Nathaniel suspirou uma vez e deu dois tapinhas amigáveis no ombro de Carlisle.

-Quando o seu treinamento estiver acabado, amigo. Tenha paciência, tudo tem sua hora certa.

Sem discordar das palavras de Nathaniel, o médico se deixou conduzir pelas árvores, cortando a noite fria com passos mudos até se ver novamente diante do que ele percebeu ser uma mansão incrustada com uma harmonia esplêndida no meio das rochas.

-Agora posso te apresentar da maneira correta ao meu lar, Carlisle. Benvindo ao meu refúgio.

*****

N/A: Ohh, me empolguei com o dr. Carlisle Delícia...

Gente, de boa... se o meu coração não pertencesse absoluta, irremediável, e insubstituivelmente ao meu ursinho lindo e grande de covinhas e cachinhos, ele seria do Carlisle, prontofalei.

Eu sei, vocês devem estar curiosos pra saber quando a Esme entra na coisa toda. Mas calma. Vamos chegar lá. Tenham a paciência do Nathaniel, por favor... hehehe

E aí, o que acharam??

Comentem e votem, é! \o/

Quanto mais comentários, mais rápido temos capítulo novo... hoho

Beijos gelados,

JMcCartyC

N/B: Aff, Nathaniel mim morde? XP rsrs

Gente, adorei os chiliques de vocês, fato.

E esse Carlisle bem projetado, mano? Me matou. Mas eu sei que vai matar um pouco mais no próximo capítulo, dica (h)

Enfim, chega de ladainha (?)

Comentem aí galerinha mais ou menos, lixa*

BL