IV
- Céus! Não sentiu nada, nenhuma culpa, ao sentir desejo por seu próprio irmão? Era tão jovem!
- Desde muito novo sempre fui assim: sabia que era diferente dos demais. E de mais a mais, sempre me senti muito bem ao pensar em si. Por que, então, aquele "desejo" seria algo inapropriado?
- Mas que coisa! E eu, que aos trinta anos de idade morria de medo de estar a cometer alguma ignomínia ao amar a meu próprio irmão?
- Nossas criações foram diferentes.
- Compreendo. Mas mesmo assim! Já se sentia atraído por mim e não se sentiu mal?
- Não. Afinal de contas, o que usualmente reprime esse tipo de sentimento é o excesso de "educação" e não a falta dela. Um rapaz de quinze anos, isolado da corte, não teve tal "educação" sobre o que ou quem seria lícito amar afinal de contas. De qualquer modo... culpe a Giannette por ter me apresentado aquela... há... modalidade de se auto-satisfazer. Foi graças a ela que eu soube desejá-lo afinal.
- Mas ela... a própria Giannette... ela nunca foi objeto de seus desejos?
- Ela? Não. Eu de fato nunca gostei de mulheres...
- Mas ela continuou a ir vê-lo? A história não termina aí?
- Não. De fato ela continuou a vir me ver.
OoOoOoOoOoOoO
Dezesseis anos antes
No terceiro dia em que se viram, Saga permanecia quieto, sentado na cadeira de sempre, com um quadro de Kanon nas mãos. A jovem viúva veio com os ares de antes, com o vestido a fazer "ruge-ruge" de saias, decote e perfume. Sentou-se em frente a si e abanou-se, mas dessa vez demonstrou maior aborrecimento.
- Escute. Já vamos ao terceiro dia. Geralmente quem fica com "achaques" são as mulheres; tem medo da primeira noite, acham que os homens vão ser uns brutos e etcétera... mas os rapazes não! Eles até ficam meio ressabiados pois nunca viram mulher antes, mas após esse período geralmente já se animaram e eles mesmos tomaram a iniciativa de tomar às moças para si. Especialmente se a moça é... solícita, bonita e os anima, como, modéstia à parte, eu sou. Mas... em seu caso, já não sei mais o que esperar!
- Em meu caso é diferente. Sou diferente dos outros rapazes.
- Diferente? Como assim? Pelo que vejo, tem dois braços, duas pernas, duas orelhas, um nariz, uma boca... vai me dizer que não tem o... membro viril que os demais moços tem!
- Ora, claro que tenho! A minha diferença é do modo de pensar.
Giannette riu.
- Vejo que já se comunica mais livremente, reage com menos vergonha ao que lhe digo. Ontem ainda, qualquer menção a algo mais... ousado, o fazia corar! Hoje já está mais entregue! Será que... fez aquilo que lhe propus ontem?
Saga sorriu. Estava de fato menos tímido: aquele "ato" que ela lhe indicara despertara algo em si que antes não tinha.
- E se tiver feito?
- Pelo seu olhar matreiro, vejo que fez! Ora, vejam só! Agora já não é mais tão inocente! Pensou em mim enquanto fazia?
Saga nada respondeu. Caso respondesse que não pensara nela, poderia talvez ofendê-la. Não era por não desejá-la que deveria ser rude ou mau.
Ela continuou, pensando que ele se envergonhava outra vez:
- Ora vamos... não precisa se vexar! Pode falar comigo livremente... de qualquer forma, se foi bom sozinho, imagine como será a fazer com alguém?
Ela tomou a mão dele e tentou direcionar novamente a seu seio, mas ele a retraiu.
- Mas o que tem?!
- Não quero.
- É pior que uma freira! E olha que há freiras que são bastante impetuosas pra essas coisas! Quem é que, afinal de contas, ocupa seu pensamento mais do que eu?
Ele não respondera. Mas o quadro com a figura de Kanon continuava em suas mãos.
- Ah, deve ser por isso! Não larga esse raio de retrato de seu irmão, por isso não deixa que o coração se abra para que entre uma mulher nele!
E tentou tirar o mesmo das mãos do infante, mas não conseguiu. Ele não deixou, segurando-o firme.
- Kanon é quem tem, mesmo que de longe, me auxiliado a suportar todo este tormento de viver separado da corte. Se eu deixar a lembrança dele, nada mais terei para me apoiar!
- Mas... mas tem a mim! Tem a outras mulheres, que seu pai certamente não as negará a si caso as peça!
- As demais mulheres, bem como a você, Giannette - com todo o respeito - não são mais do que distrações. É isso que me pai quer me dar: distrações! Todas vocês se irão. Mas meu irmão não... ele permanecerá sendo meu irmão, mesmo depois de todas vocês se terem ido.
O brilho no olhar do rapaz, firme porém brilhante, indicou à jovem que ela não podia competir com a presença de Kanon na vida de Saga.
- Eu entendo. Tudo isso eu entendo. Sei bem meu lugar; e sei, como moça que já foi casada, que mesmo as esposas não tem o mesmo lugar de destaque que os demais homens no coração uns dos outros. Sei que admira a seu irmão em demasia... mas nada disto impede aos outros homens de aproveitar e... e se distrair afinal! Não estou pedindo para que se desfaça de seu irmão, mas sim para que possa dar atenção ou lugar a outras coisas também!
- De tudo isto eu sei. Mas... ainda não me sinto pronto!
- Não posso forçá-lo. Não; conheço meu lugar. Sei que deve ceder apenas quando quiser. Mas também não posso deixar de ficar intrigada com sua recusa. Portanto, lhe darei um prazo: mais uma semana! Uma semana mais e se perfazerão dez dias desde que começamos a nos ver. Se em dez dias eu não o demover da ideia de permanecer casto, nada mais o fará!
Sendo assim, ainda assombrada com o olhar de Saga, Giannette saiu arrastando as saias e espalhando o perfume pelo recinto. De fato, naquela noite Saga mais uma vez se tocou pensando em Kanon... e sorriu, pois era o que desejava: continuar se tocando ao pensar nele, e não na moça que seu pai trouxera ou em qualquer outra que pudesse vir a encontrar com o tempo.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
Geeeeente, esse Saga é maravilhoso! É simplesmente o melhor personagem com o qual já escrevi - e a melhor parte é que ele não é o Saga de Saint Seiya, e sim um personagem completamente original, uma vez que "Almas Gêmeas" é UA! Simplesmente amo ele, mesmo após onze anos do começo da fic! Pois é, o tempo voa... rs!
Obrigada aos que ainda estão lendo! Algumas pessoas se manifestaram e fiquei feliz! Mais um ou dois capítulos e a fic se finaliza - era pra ser curtinha mesmo, rssss!
Beijos a todos e todas!
