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Donzela Ardilosa

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Capítulo 9

O galo cantou ao amanhecer no dia do casamento, e o sol nascente começou a esquentar a grama gelada pela geada, Sesshoumaru se encontrava caminhando impacientemente no pátio úmido diante da capela, vestido com a roupa refinada que havia emprestado de sir Mirok. Estava tão perdido em seus pensamentos como o próprio noivo.

Onde estava Rin? Quase todo o resto das pessoas do castelo já estava reunido para a cerimônia. Ela deveria estar aqui.

As portas dianteiras se abriram, e Sesshoumaru se deteve, olhando ao grupo de convidados que passavam pela entrada. Eles eram vizinhos de Higurashi. Talvez pudesse obter informação útil deles em relação A Sombra.

Calculava que já tinha falado com todos os habitantes da fortaleza no dia de ontem. Entre oferecer sua ajuda no grande salão de manhã e oferecendo uma mão no canil, no pombal, nos estábulos e cavalariças e no arsenal durante a tarde, ele havia conseguido, pelo menos, trocar algumas palavras com cada criado das várias dúzias de Escoceses e Normandos a serviço da família e vários dos nobres também.

Todos os criados estavam de acordo que A Sombra era um homem pequeno, que se vestia de preto, e que era tão rápido como um relâmpago, embora muito poucos realmente o tivessem visto com seus próprios olhos. O ladrão nunca havia ferido ninguém seriamente. Talvez isso ajudasse a explicar a relutância deles em perseguir o ladrão. Se A Sombra nunca os tinha prejudicado ou roubado moedas de qualquer um deles, por que eles deviam privar o ladrão de seu modo de subsistência?

De fato, se Sesshoumaru não tivesse ouvido o testemunho de vários lordes, teria suspeitado que A Sombra fosse só uma lenda, como George e o Dragão, ou Beowulf. O ladrão parecia possuir poderes que nenhum mortal tinha. Sesshoumaru tinha ouvido muito poucas coisas que pudesse ajudá-lo a vislumbrar o verdadeiro caráter do bandido que ele procurava. Até que ele havia falado com Lorde Tourhu a sós muito tarde a noite anterior. O homem idoso havia se deixado rememorar pelo fogo, e Sesshoumaru havia lhe perguntado se ele próprio alguma vez tinha visto A Sombra. Os olhos do Lorde brilharam com malícia, e tinha dado a Sesshoumaru sorriso ardiloso.

— Acredito que todos de algum jeito vimos A Sombra. — Ele respondeu enigmático. — O Bandido anda entre nós, Oh, sim, bem debaixo dos nossos narizes. — Logo ele riu através de sua barba como se essa fosse uma brincadeira privada.

Infelizmente, tinha sido tudo o que Sesshoumaru tinha podido tirar de homem idoso. Após isso a mente de Lorde Tourhu tinha começado a vagar, e depois ele tinha partido para ir dormir.

Mas com aquela declaração, ele havia dado a Sesshoumaru a impressão que a Sombra não só andava entre o povo de Higurashi. Ele podia isso sim, ser um deles. Alguém pequeno, ágil e rápido. Essa idéia deixou Sesshoumaru acordado pela metade da noite, considerando as possibilidades. Mas havia uma possibilidade em especial que o atormentava, sem importar quão absurda fosse, e sem importar com quanta força ele tentasse afastá-la de seus pensamentos. Era que ele estava muito familiarizado com alguém em Higurashi que era pequena, ágil e rápida.

Agora, suspirando pela centésima vez, Sesshoumaru se coçou a parte detrás do pescoço e recomeçou o seu a caminhar. Era uma idéia absurda, mas...

— Bom dia. — Uma voz veio exatamente detrás dele.

Sesshoumaru quase saltou para fora de suas calças. Como Rin tinha conseguido esgueirar-se para trás dele, Sesshoumaru não sabia. Mas quando ele se virou para desafiá-la, as palavras lhe falharam, e suas suspeitas sobre ela desapareceram com a brisa.

Ela parecia tão encantadora e linda como uma rosa. Usava um vestido vermelho escuro, de decote insinuante que deixava ver seus ombros e expor sua pele cremosa. Um pequeno rubi pendia de uma corrente de prata sobre seu pescoço e repousava no vale entre seus peitos como se o quisesse provocá-lo. Parte de seu cabelo brilhante estava preso em um fantástico labirinto de pequenas tranças, enquanto que o resto se derramava por suas costas em sedutores cachos. Mas o mais belo de sua figura era o brilho malicioso que dançava em seus olhos castanhos.

Rin sorriu maliciosa, sentindo grande prazer em ter sobressaltado Sesshoumaru, e duplamente encantada pelos cuidados que havia tomado com sua aparência nessa manhã, pois obviamente ela o havia deslumbrado com sua aparência.

Seu próprio chi que ela tinha restaurado nessa manhã com meditação e tai chi chuan, Rin agora se sentia preparada para enfrentar ao bonito canalha com a mente clara e o coração estabilizado. Não ia permitir que sir Sesshoumaru de Morbroch perturbasse sua calma.

— Minha lady, parece... — Sesshoumaru começou a dizer.

Ela arqueou uma sobrancelha. Ele ia recorrer a algum elogio banal, hipócrita e excessivamente doce, agora? Era isso que um homem fingindo ser um pretendente faria.

— Você parece... Bem descansada. — Ele declarou.

O cenho de Rin se franziu com desilusão.

— Bem descansada? — Ela repetiu. Era o melhor que ele podia dizer sobre ela? Talvez ela não fosse tão bela como Kagome ou tão voluptuosa como Sango, mas ela tinha passado mais de uma hora somente trabalhando em seu cabelo.

Então ela viu a faísca de malícia em seus olhos. O desgraçado a estava provocando intencionalmente.

Sesshoumaru sorriu e se inclinou para ela, enquanto cochichava.

— Você está deslumbrante.

Apesar de seus melhores esforços, o pulso dela se acelerou como se tivesse acreditando nele, e ela se descobriu cedendo ao sorriso que não podia controlar.

Maldição com esse canalha. Sesshoumaru podia não ser tão enganoso como ela era, mas era danado de bom nisso. Doce Virgem Maria! Esse vai ser um longo e desafiador dia.

O casamento de Sango passou velozmente e lhe deixou a lembrança muito nebulosa. Depois da cerimônia Rin não podia se recordar de nada do que havia sido dito. Talvez fosse porque Sesshoumaru tinha estado muito perto dela durante a cerimônia, distraindo-a com seu calor masculino e o aroma sutil de sua pele.

Ou talvez fosse o fato que enquanto eles estavam juntos da multidão de testemunhas presenciando Sango e Mirok recitarem seus votos matrimoniais, Sesshoumaru clandestinamente havia feito amor com sua mão, entrelaçando os dedos com os seus, acariciando o dorso de sua mão com o polegar, percorrendo as linhas delicadas de sua palma, até que ela pensou que desmaiaria de desejo.

Não havia nada que ela podido ter feito para detê-lo, ou pelo menos não sem chamar a atenção exagerada de suas irmãs super protetoras.

Não poderia ter pulado nele. Não poderia ter esbofeteado sua mão para afastá-la. E definitivamente não poderia ter lhe dado uma cotovelada no queixo, seguido de um pontapé que o teria feito terminar esparramado no chão da capela.

De algum jeito Rin sobreviveu à cerimônia sem desmaiar e sem recorrer à violência. Mas o banquete do casamento demonstrou ser um desafio ainda maior. Desde o momento que Sesshoumaru e ela se sentaram juntos à mesa do tablado, ele tinha começado a fazer o papel de pretendente dedicado.

— Me permita, minha lady. — Murmurou ele, alimentando-a com o doce pego em seus dedos.

Rin sorriu docemente e aceitou o bocado, mas não sem lhe dar uma mordida de advertência com seus dentes.

Ele ofegou sobressaltado, recebendo um olhar agudo de Kagome.

— Querida — ele a repreendeu afetuosamente — Tome cuidado para não morder a mão de quem te dá de comer.

Agora também Sango os observava. Rin forçou um sorriso em seus lábios.

— Mas somente foi uma pequena dentada de amor, eu juro.

— Hum.

Sango fez uma careta quando Sesshoumaru tomou a mão de Rin na sua, colocando um beijo carinhoso em seus nódulos. Rin não tinha outra opção a não ser permitir que ele a trespassasse com seu polegar roçando demoradamente a parte de cima de seus dedos, simultaneamente a despertando e a angustiando.

Com sua mão livre, Sesshoumaru tomou uma garrafa da mesa.

— Mais vinho, minha querida?

Ela desejou poder tomar a garrafa inteira. Talvez isso lhe acalmasse os nervos. Mas Kagome a observava com olhos atentos. Então, ela lhe deu um tapa brincalhão.

— Você está tentando me embebedar, meu amor?

Ele acariciou sua mão.

— Só com meus afetos, meu amor.

Agora Kagome fez uma careta, e Rin teve que morder a língua para sufocar a náusea que suas palavras doces provocaram.

Sesshoumaru soltou sua mão e apoiou a garrafa na mesa. Durante um minuto, Rin teve um descanso de sua perseguição. Depois ele tomou a ponta de uma de suas tranças entre seus dedos. Devagar mas firmemente Sesshoumaru começou a puxá-la pela trança para aproximá-la dele.

Rin apertou os dentes. Podia ter que manter as aparências, mas não ia permitir ser puxada como um salmão. Com um brilho em seus olhos que era mais malicioso que apaixonado, Rin enrolou seu próprio dedo em um cacho da nuca do pescoço de Sesshoumaru, e gradualmente a puxou até que Sesshoumaru fez uma careta de dor.

Quando ele olhou-a perplexo, ela retirou sua mão, fingindo inocência.

Ele também soltou sua trança, e durante um momento, Rin se perguntou se havia deixado as coisas claras e se ele tinha captado a mensagem. Nesse instante Sesshoumaru começou a acariciar casualmente a passar a mão curva de seu ombro no lugar onde o tecido vermelho se encontrava com sua pele nua, para frente e para trás, para frente e para trás.

A mão de Rin se apertou ao redor do cabo da faca que usava para cortar a comida. Ela a levantou lentamente.

Os dedos de Sesshoumaru se congelaram sobre seu ombro quando viu a faca.

— Meu amor — disse ele em tom de conversa, apesar de ter um sorriso tenso — Me permita te ajudar com isso.

Ele colocou sua mão sobre a sua no cabo da faca. Durante alguns segundos eles lutaram pelo controle da arma.

— Rin? — A testa de Sango se enrugou com preocupação, e toda a mesa ficou em silêncio. Mas que droga! Se Sango suspeitasse que Rin estivesse passando por mínima aflição, ela saltaria de seu banco, extrairia sua espada, e lutaria com Sesshoumaru sobre as mesas.

Com um suspiro de fracasso, Rin relaxou o aperto da faca e deixou que Sesshoumaru a pegasse.

— Uma fatia ou duas? — ele perguntou inocentemente posicionando a faca sobre a carne dentro da bandeja que estavam compartilhando.

— Uma — Rin respondeu, acrescentando com os dentes apertados — Meu amor.

Tranqüilizadas, Sango e Kagome e todos os outros voltaram para sua ceia, felizmente ignorando que, enquanto eles estavam conversando felizes em volta deles, Sesshoumaru travava uma guerra secreta com os sentidos de Rin.

Foi quando Sesshoumaru colocou sua mão debaixo de seu cabelo e começou a acariciar suavemente a base de seu crânio e lhe causando um estremecimento de prazer que Rin soube que estava em sérios apuros.

Através de suas pálpebras pesadas, Rin viu Kaede em uma das mesas abaixo do tablado. Ela estava franzindo o cenho enquanto a observava. Rin piscou, tentando clarear sua mente. Sua xiansheng uma vez havia lhe dito que um sábio guerreiro sabia quando se retirar de uma batalha.

Talvez fosse esse o momento. Se ela se retirasse fisicamente da influente presença de Sesshoumaru, talvez pudesse equilibrar suas energias novamente.

— Eu... Vou verificar o hidromel. — Disse Rin, com a voz mais quebrada do que esperava.

— Se apresse em voltar. — Respondeu Sesshoumaru com uma piscada de olho.

***

Sesshoumaru tinha que admitir que bom desfrutar do jogo do gato e rato. Rin era uma moça muito inteligente, mas ela havia se metido em uma relação muito mais íntima com ele do que havia planejado. Isso não preocupava Sesshoumaru nem um pouco, embora aparentemente esse jogo deixasse Rin com os dentes apertados.

Inclinou-se para trás para observá-la se afastar da mesa. Ela caminhava energicamente, como se estivesse fugindo de um cão resmungão, seus quadris rebolando nervosamente, suas saias que a seguindo como uma vela vermelha. Sesshoumaru sorriu maliciosamente. Rin podia ser uma diabinha travessa e maliciosa, mas essa moça encantadora com curvas femininas não podia ser um ladrão. Tinha sido um tolo em imaginar tal possibilidade.

Mas ele tinha que averiguar quem era o verdadeiro bandido. Já que Rin estava ocupada, essa era uma boa oportunidade para conversar com alguns convidados de Higurashi.

Infelizmente, não importando quão hábil Sesshoumaru fosse em obter informações, rapidamente ele descobriu que não se podia extrair sangue de uma pedra.

Escutou sem muito entusiasmo enquanto um dos homens da família Kiranosuki voltava a contar seu encontro com a Sombra.

— ...Negro como o carvão ...ágil como uma raposa ...deixa atrás de si um rastro tão frio como o Mar do Norte...

Outro moço da família Kuranosuki lhe relatou.

— Não é maior que um adolescente.

E um terceiro interveio contribuindo.

— Mas é o acrobata mais flexível e inteligente que você já tenha visto.

Sesshoumaru assentiu com a cabeça. Não estava chegando a nenhuma parte. Todos repetiam o mesmo conto. Talvez tivesse mais sorte com as mulheres.

As damas de Mochrie ficaram encantadas em conhecê-lo, de fato tão visivelmente encantadas que as irmãs de Rin começaram a lançar olhares assassinos para Sesshoumaru. Kagome e Sango podiam não considerá-lo um pretendente conveniente para sua irmã mais nova, mas certamente elas não aprovavam que ele flertasse com outras damas enquanto ele afirmava estar cortejando Rin.

Sesshoumaru lhes dirigiu um sorriso tímido. Não podiam culpá-lo por tentar ser amável com as damas de Mochrie. Merda! Depois de tudo não era culpa sua que essas damas estivessem fascinadas com suas covinhas.

— A Sombra? — Uma das damas Mochrie perguntou, batendo suas pestanas. — Não o vi com meus próprios olhos. Mas ouvi dizer...

— Ele não pertence a este mundo. — Declarou misteriosamente outra moça, pondo uma mão sobre o braço de Sesshoumaru.

A primeira dama assentiu com a cabeça o seu acordo.

A mulher ao seu lado tremeu.

— Deve ser terrivelmente perigoso.

— Muito perigoso. — Concordou uma quarta dama, apertando sua mão contra seu peito. -Eu morreria de susto se o encontrasse no bosque.

— É claro. — disse a primeira. — Nós somos donzelas virgens. — Ela se mordia o lábio nervosamente.

A segunda dama deixou escorregar seus dedos ao longo da manga de Sesshoumaru, como se apalpasse os músculos debaixo do tecido.

— Aposto que você não se assustaria, sir Sesshoumaru.

As outras cacarejaram em acordo, e o sorriso de Sesshoumaru se tornou tenso quando sentiu que o nó de admiradoras começava a tornar-se opressivo.

De relance, Sesshoumaru viu seu resgate. Rin surgia do porão. Impaciente por se desprender do grupo de admiradoras cacarejantes, ele levantou sua mão e a saudou.

Rin o olhou para cima, mas quando o viu rodeado pelas bajuladoras damas de Mochrie, seus olhos se estreitaram, e ela levantou seu nariz, ignorando-o completamente para ir saudar outros convidados.

Diabinha travessa! Certamente ela podia ver que ele estava preso. Uma das damas Mochrie o pegou pela manga, outra o pegou pela mão, e todas elas começaram a conversar ao mesmo tempo, e suas palavras giravam a sua volta como fitas de seda.

— Damas — disse ele, retirando sua mão gentilmente, quando finalmente pôde introduzir uma palavra no meio do cacarejo feminino — Devo me retirar agora.

Uma rajada de protestos se elevou ao seu redor. Finalmente Sesshoumaru conseguiu escapar do galinheiro, mas só depois de lhes ter jurado que as acompanharia em um passeio pelo bosque no dia seguinte.

O que era uma fortuita verdade, já que ele procurava uma desculpa para ir ao bosque com a esperança de caçar A Sombra.

Radiante com o sucesso, Sesshoumaru passou ao lado dos cães, acariciando brevemente a um deles, enquanto observava Rin transitando pelo salão e trocando breves palavras com os convidados.

Rin verificou que as taças de todos estivessem cheias e acariciou as cabeleiras ruivas e despenteadas das crianças da família Kiranosuki. Ela apertou a mão murcha de uma senhora idosa e empurrou um banco vacilante para a beirada da mesa. Ela recolheu uma criança pequena que havia tropeçado e machucado seu joelho e em seguida virou-se para endireitar a guirlanda que pendia na parede.

Como podia ter suspeitado que ela pudesse ser A Sombra, Sesshoumaru não sabia. Rin era uma mulher doméstica, educada por natureza. E irresistível, ele adicionou mentalmente, deixando que seu olhar vagasse por seu traseiro encantador.

Abrigando pensamentos doce vingança por sua emboscada anterior, Sesshoumaru passeou pelo salão e se colocou sigilosamente atrás dela, depois a agarrou pela cintura. Mas em vez de um grito feminino de surpresa, imediatamente ganhou uma cotovelada forte nas costelas, um golpe que o dobrou no meio e lhe cortou a respiração.

— Ah! — Ela exclamou. — Me desculpe. Você está bem?

Durante um minuto, Sesshoumaru não pôde falar. O golpe havia lhe cortado o fôlego. Senhor, essa moça tinha cotovelos muito afiados, e não estava certo que ela lamentasse o ocorrido. Certamente ia ter um hematoma negro ali se tivesse sorte e essa moça não havia lhe quebrado uma das costelas.

— Eu... Escorreguei. — Disse ela.

Se isso fosse um escorregão, ele odiaria sentir o que ela faria se realmente pretendesse machucá-lo.

— Não, foi minha culpa. — Sesshoumaru respirou com dificuldade. — Não deveria ter assustado você. Eu tinha me esquecido o rápida que você é.

— O quer dizer?

— Seus reflexos.

— Meus? — Ela grunhiu. — Não sei do que você está falando. Kaede sempre diz que sou... Desajeitada.

— Desajeitada? — Ele conteve a respiração enquanto se massageava a contusão. A dor se aliviou por um momento, e Sesshoumaru pôde se endireitar. — Não me pareceu tão desajeitada na outra noite quando pegou meu jarro no ar. — Ele se inclinou para perto e murmurou. — Nem quando me beijou mais tarde na escada.

Ela ficou rígida.

— Esse é um truque tolo que minhas irmãs me ensinaram.

Ele sorriu abertamente.

— Pegar? Ou beijar?

Suas bochechas se ruborizaram. Por Deus! Existia algo mais bonito que o rubor de uma donzela?

— Nenhum dos dois... Quer dizer ambas as coisas.

Ele riu entre dentes. Observou o salão para assegurar-se que nenhuma olhar guardião estivesse fuzilando-o, tomou um cacho de cabelo solto de Rin.

— Então tenho que falar com suas irmãs, meu amor. Eles podem ter informação muito interessante para compartilhar.

Ela curvou sua cabeça, a afastando, rechaçando seu gesto carinhoso.

— Pensei que já tinha falado com elas. — Suas palavras eram bastante inocentes, mas havia mordacidade em sua voz quando ela acrescentou. — Você não falou com todas as mulheres de Higurashi, e de Kuranosuki, e de Mochrie nestes dois dias?

— Por que, meu amor. — Disse ele com surpresa. — Está com ciúmes?

Seus olhos estavam totalmente embaçados e suaves, mas ainda assim Sesshoumaru viu um brilho de malicia no olhar, uma faísca que outros homens podiam notar. Ela abaixou sua atenção para o seu peito, passando timidamente por sua túnica.

— É que eu prefiro que você fale somente comigo.

Sesshoumaru quase soltou uma gargalhada, mas em lugar disso murmurou melosamente.

— E o que você gostaria que te dissesses?

Rin lambeu seu lábio inferior, fazendo, de repente, desejar fazer o mesmo. Então, ele encolheu-se de ombros, despreocupada.

— E o que disse a elas?

— A quem? — Sua mente tinha perdido o foco e Sesshoumaru começava a sentir a influência de seus encantos.

— A todas essas mulheres.

Ele olhou sua boca tentadora, tão rosada, tão úmida, tão convidativa, e lhe sorriu malicioso.

— Disse a elas que não podia esperar para passar meus dedos por seu cabelo, pressionar meus lábios sobre os seus, te envolver entre meus braços...

Ela lhe deu um soco de repreensão no braço.

— Não fez isso. — Ela apertou seus lábios fazendo um beicinho encantador. – Eu aposto que nem sequer lhes falou sobre mim, absolutamente.

Na verdade, ela tinha razão. Ele não havia falado dela. O que poderia perguntar sobre Rin? Já sabia que era linda, amável, inteligente, encantadora, e um pouco travessa. Não tinha que saber nada mais. Além disso, ele estava seguindo o rastro de um bandido perigoso, não de uma diabinha desejável.

— É claro que falei de você, meu amor. — mentiu Sesshoumaru. — Estou ansioso por saber tudo sobre você. Como foi sua infância. Onde você gosta de passear. O que você gosta de comer no café da manhã. Sua cor favorita.

Os olhos de Rin se estreitaram com astúcia.

— Qual é minha cor favorita?

Sem perder um segundo, Sesshoumaru respondeu.

— Espero que seja o dourado.

— O dourado?

— Sim. — ele lhe disse, curvando sua boca em um sorriso irônico. — É a cor de meus olhos.

Rin resistiu ao impulso de gemer. Em vez disso, ela forçou um sorriso doce como o mel e murmurou.

— É minha cor favorita a partir de agora.

Maldito cretino, ele estava desequilibrando seu chi outra vez, e junto com isso, seu juízo. Não podia saber, nem sequer olhando diretamente para seus olhos, se ele dizia a verdade ou não. Certamente Sesshoumaru não falava a sério, embora a adoração em seu olhar parecesse real. Ele estava loucamente apaixonado ou só era diabolicamente inteligente? Era difícil de discernir.

Mas se havia alguém que poderia descobrir a verdade, essa era Rin. Ela averiguaria no que Sesshoumaru andava metido embora tivesse que flertar descaradamente para conseguir.

— E você? — Ela perguntou timidamente baixando suas pestanas.

— Eu... O que?

— Qual é sua cor favorita? — Ele responderia marrom, é claro, a cor de seus olhos.

Em vez disso, o canalha deixou que seu olhar baixasse provocativamente para seus lábios.

— É vermelho rosado.

Seu coração se agitou com a lembrança de seu beijo, e Rin sentiu um rubor esquentar suas bochechas. Maldição, isso estava resultando mais difícil do que havia esperado.

Ela encolheu os ombros despreocupadamente.

— As damas de Mochrie têm lábios vermelhos rosados. Talvez essa seja a razão pela qual você esteve socializando com elas.

— Os lábios delas são vermelhos rosados? — Ele perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Não poderia dizer. Eles nunca deixaram seus lábios quietos por mais que um segundo.

Isso fez Rin sorrir. As damas de Mochrie eram notoriamente conversadeiras. Então perguntou causalmente.

— E do que estavam falando?

Lançando um olhar rápido às testemunhas que os rodeavam, Sesshoumaru pegou seu queixo entre seu polegar e seu dedo indicador, inclinando sua cabeça para olhar fixamente seus olhos.

— Nada tão envolvente como as conversas que nós temos meu amor.

Ela gentilmente se retirou de seu controle. Isso não ia bem. Esse mentiroso estava ganhando dela a cada pergunta do flerte.

— Bem, não importa o que elas disseram, deve ter sido bem fascinante, não é mesmo. — Ela contrapôs. — Parecia que te custou muito se afastar delas.

Sesshoumaru sorriu e lhe apertou a ponta de nariz entre seus dedos.

— Estou com você agora, minha pequena ciumenta. Isso é tudo o que importa.

Rin apertou os dentes contra o impulso de lhe morder o dedo. Maldita raposa ardilosa! Ele tinha conseguido sair de sua armadilha outra vez. Ela forçou um sorriso inofensivo.

— Mas talvez o que você lhes tenha perguntado certamente as incitou a um longo discurso, meu amor? — Ela acrescentou um comentário irônico. — Bom, custa-me acreditar que as damas de Mochrie possam juntar duas palavras com certa lógica. — Isso era uma grande mentira. As damas de Mochrie eram conhecidas por suas febris imaginações, suas línguas velozes e articuladas e por sua capacidade para inventar uma intriga sobre um tema tão inócuo como a cabeça de um alfinete. Mas Sesshoumaru não sabia isto.

— Ah. — Ele disse. — Qual é o assunto sobre o qual as mulheres adoram falar?

Rin esperou sua resposta com a respiração entrecortada enquanto fazia tentava adivinhar em silêncio. Amores secretos? Tesouros ocultos? Defesas dos castelos?

Ele riu entre dentes.

— Delas mesmas, evidentemente.

Rin não achou engraçado. E não acreditou nele nem por um instante.

— É mesmo? — Ela perguntou casualmente. — E essas damas que falaram tanto de si, disseram-lhe quais eram seus nomes?

Ele piscou com perplexidade.

Ela sabia!

Enquanto Sesshoumaru ficava paralisado, Rin lhe dirigiu um sorriso enganosamente doce, beijou-lhe a ponta do dedo, depois o pressionou contra sua silenciosa boca.

Estalando sua língua, ela se virou e voltou par seu lugar entre suas irmãs na mesa sobre o tablado. Apesar de sua partida satisfeita, ela estava muito mais preocupada que antes. Sesshoumaru de Morbroch era um rival a temer.

Rin reconhecia sua tática evasiva, já que ela mesma a tinha usado. Durante os anos, para proteger seus próprios segredos, ela tinha aprendido a se esquivar e a fugir dos interrogatórios de suas irmãs ou de seu pai através da mudança de tema, da distração, e da manutenção de um comportamento tranqüilo.

Mas ela nunca havia se confrontado com alguém que entendesse e usasse essa tática contra ela. Era algo enlouquecedor e tão frustrante como lutar com um porco hábil na lama. Os dois pareciam cortados pela mesma tesoura, e depois desse árduo interrogatório Rin se sentia completamente cansada e não acreditava que estava mais perto de descobrir seus segredos.

E o pior, começava a temer que sir Sesshoumaru de Morbroch fosse melhor neste jogo enganos do que ela era.

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Continua...

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