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Donzela Ardilosa

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Capítulo 12

O fogo da tarde crepitou e estalou na lareira. Rin contemplou as chamas, passando um dedo preguiçoso ao redor da borda de seu jarro. Além dela, os criados lançavam os ossos do jantar aos cães famintos, enquanto que sobre as paredes, as sombras dançavam ao ritmo da suave melodia do alaúde tocado por Myoga. Mas os pensamentos de Rin estavam a quilômetros de distância.

E se ela estivesse equivocada a respeito de Sesshoumaru? E se ele realmente tivesse sentimentos por ela?

Sim, ele havia inventado o conto do encontro com ela no torneio e de seu regresso para poder cortejá-la. E se suas mentiras e enganos tivessem começado a tomar uma vida própria?

E se por ventura ele estivesse se apaixonando por ela.

Isso era suficiente para perturbar seu juízo.

Geralmente ela podia ler as intenções de um homem em um instante. Podia descobrir a falta de sinceridade nos olhos, ouvir a falsidade em sua voz, descobrir o mínimo desvio da verdade só observando o modo que um homem se comportava.

Mas Sesshoumaru era um enigma. Ou Sesshoumaru era excepcionalmente bom na arte de enganar, ou ele não estava enganando ela. Era impossível de dizer. Desde o momento daquele beijo apaixonado no pombal, ela tinha começado a duvidar de seu próprio juízo.

Não podia esquecer o olhar em seu rosto quando eles se separaram a estranha mescla de desejo e vulnerabilidade em seus olhos, uma expressão muito aberta e honesta, muito incerta, muito sincera, para ser qualquer coisa menos verdadeira. Uma oportunidade tinha sido perdida com a interrupção de Nobu, e a dor no olhar de Sesshoumaru era mais que uma simples desilusão.

Se ele sentia o que seus olhos revelaram nesse momento, se ele realmente se importava com ela, se a corte resultasse ser verdadeira, Rin pressentiu que seu mundo nunca mais seria o mesmo. Tudo mudaria, seria como um pião girando fora de seu eixo. E essa idéia era ao mesmo tempo aterradora e estimulante.

A melodia de Myoga de repente foi abafada quando um rugido de protesto surgiu da mesa de jogos. Rin olhou para cima. Um dos dois irmãos Herdclay, que haviam comparecido ao casamento de Sango havia ganhado novamente.

Rin suspirou. Estava contente que eles estivessem de partida no dia seguinte. Os Herdclay tinham o repugnante hábito de esvaziar seus jarros de cerveja cada vez que qualquer um deles ganhava uma partida, o que tinha acontecido com muita freqüência nessa noite, depois esses dois bêbados ficavam cada vez mais grosseiros e desagradáveis à medida que a noite progredia.

Ao menos Sesshoumaru era um participante educado. Ele jogava ao lado de seu pai, e nem se vangloriava de seus ganhos, nem blasfemava contra suas perdas. Os homens de Higurashi pareciam tê-lo recebido bem em seu círculo, riam com ele, acotovelavam-no, e o orientavam quando ele apostava contra Lorde Tourhu.

Inclusive suas irmãs pareciam ter se afeiçoado a sir Sesshoumaru. Kagome parecia acreditar que havia esperança como pretendente, embora talvez fosse por sua condição, seu coração havia se tornado mais generoso. Sango, embora pouco confiante em suas habilidades de guerreiro, parecia considerá-lo um homem decente, digno de uma amizade, se não se total respeito.

Só Rin tinha dúvidas, e inclusive elas foram diminuindo cada vez que observava Sesshoumaru e essa noite seus olhos risonhos e seu sorriso brilhante, seu cabelo rebelde e sua boca tentadora.

Por que ela não podia confiar nele?

Talvez porque ele se parecia muito a ela.

Rin mantinha segredos. Os segredos sobre o que ela era capaz, segredos sobre o que ela sabia, e sobre o que ela fazia. Segredos de sua força e de sua natureza, sobre sua xiansheng, Kaede. Ela mantinha em segredo a autoridade que exercia sobre os assuntos do castelo. E até mantinha em segredo a existência de um túnel secreto da fortaleza.

Que segredos Sesshoumaru guardava? Seus segredos eram simplesmente inocentes trechos da verdade ou eram invenções de um mestre do engano?

Ela o observou enquanto ele entregava mais duas moedas de prata a Lorde Tourhu. Sesshoumaru encolheu os ombros modestamente, aceitando sua perda com galhardia, enquanto os outros jogadores e observadores lhe batiam nas costas em sinal de consolo. Então, como se o chamasse com seu olhar, ele deu uma olhada na direção de Rin, lhe dando uma piscada carinhosa antes de voltar para jogo.

Virgem Maria! Até esse pequeno gesto lhe acelerou o pulso. As imagens do pombal voltaram à sua mente, com ofegante velocidade e nítido alívio, penetrando através dos pensamentos mais racionais.

Recordando seu beijo, seus lábios formigaram. Recordando o calor de seu hálito, seus ouvidos zumbiram de desejo. Seus seios, como se sentissem outra vez o contato suave de suas mãos, endureceram-se e se apertaram debaixo de seu vestido. Rin se estremeceu. Em seu baixo ventre, o desejo se tornou uma besta faminta.

Esperando apagar essas lembranças, ela tomou um gole generoso de cerveja. Era imprudente deixar que o prazer interferisse com a razão.

Reunindo seu juízo, ela contemplou Sesshoumaru outra vez, desta vez com um olhar frio e objetivo.

Mentalmente fez uma lista de seus atributos. Sesshoumaru era amável. Bondoso. Respeitoso. Honorável. Generoso. Paciente. Suas maneiras na mesa eram educadas. Era um ouvinte cortês. Era gentil com os animais. E com as crianças.

E com ela.

Rin suspirou. Como ele podia não ser sincero? Era quase impossível acreditar que um rosto tão inocente e belo pudesse esconder um trapaceiro tão desonesto.

No entanto, o mesmo poderia ser dito sobre Rin.

Rin não era malévola. Ou calculista. Ou cruel. Mas ela havia se desviado de seu caminho. Apesar de seu sentido de disciplina, ela sabia que havia sempre a possibilidade de não exercer o discernimento. O que sem dúvida a converteria em perigosa.

Sesshoumaru era perigoso? Tinha poderes que poderia usar para o mal? Ou ele era como ela queria acreditar com todo seu coração, puro em seus motivos?

Colocando-se atrás de Rin, tão silenciosa como um gato, Kaede comentou.

— Ele aposta tão habilmente como luta.

Rin sorriu com satisfação.

— Ele está perdendo quase todas as rodadas.

— É mesmo?

Rin olhou com o cenho franzido para Kaede. Havia sarcasmo na voz do idoso, ou só estava sendo misterioso outra vez?

— Ou — Kaede acrescentou levantando as sobrancelhas — Ele sacrifica suas moedas somente para ganhar algo mais valioso?

— O que você quer dizer?

— Ele está perdendo intencionalmente.

Rin não queria admitir, mas observando-o durante a última hora, jogando com os homens de Higurashi e os irmãos Herdclay, ela também tinha suspeitado disso. Em cada aposta que Sesshoumaru ganhava três xelins, na seguinte rodada, ele perdia quatro.

— Perdendo algumas moedas — explicou-lhe Kaede — Ele está ganhando a amizade de seu pai.

Kaede tinha razão. Lorde Tourhu tratava Sesshoumaru com um afeto quase paternal, despenteando seu cabelo e acariciando seu braço.

— Talvez ele esteja apenas sendo caridoso.

— Talvez você esteja sendo caridosa. — Respondeu-lhe Kaede. — Tem uma fraqueza por esse garoto que lhe cega.

— Ele não é um garoto. E eu não estou cega.

— Hum.

Sesshoumaru lançou um olhar para ela outra vez, acompanhado com um sorriso que mostrou uma de suas adoráveis covinhas, e Rin fez um esforço para não se derreter nesse instante.

Kaede sacudiu a cabeça com desgosto.

— Cega por um rosto bonito.

— Ele não é bonito. Ele é... — Ele era esplêndido. Magnífico. Formoso. Incrivelmente bonito. Um anjo escuro. Um deus romano. Mas não diria isso a Kaede. — É... Adequado.

— Adequado o bastante para te pôr em perigo.

As bochechas de Rin se ruborizaram. Sua aventura com Sesshoumaru no pombal havia sido perigosa. Mas ela era uma mulher de grande controle. Sesshoumaru podia ser capaz de agitar seus sentidos e tocar seu coração, mas quando se aproximava de um perigo verdadeiro, Rin era mais que capaz de se defender.

Houve um repentino grito de triunfo proveniente da mesa de jogo acompanhado pelas queixas dos perdedores. Os Herdclay tinham conseguido passar boa parte da prata para o seu lado da mesa, e eles não tinham receio de se vangloriar de sua vitória. Sesshoumaru pôs uma mão em sinal de consolo sobre a manga de Lorde Tourhu, mas o pai de Rin já estava perdido e ameaçava dormir na mesa.

Rin suspirou. Depois que fizesse que um dos criados levasse Lorde Tourhu para se deitar, ela somaria suas perdas. Deixaria para amanhã a tarefa de equilibrar as contas.

Kaede estreitou seus olhos, esquadrinhando os irmãos Herdclay.

— Eles parecem dois galos jovens, festejando por ter ganhado um pequeno pedaço de terra.

— Não é pequeno pedaço de terra. Parece que eles ganharam perto de vinte xelins de meu pai.

Kaede franziu o cenho.

— Me alegro de que esses vermes estejam de partida.

— Sim. — Ela se permitiu um sorriso malicioso. — Embora eles tenham que cuidar muito bem suas moedas no caminho. Eles seriam um bom prêmio para A Sombra.

— Acredita que A Sombra se arriscaria a fazer outro roubo tão cedo, agora que tem um herói disposto a pegá-lo?

— Um herói? Você quer dizer Sesshoumaru? — ela sorriu com satisfação. — A Sombra se divertiu com sir Sesshoumaru. Ninguém nunca enfrentou A Sombra e ganhou.

Kaede se calou então, e Rin só podia adivinhar seus pensamentos. Com sua crença no carma, ela provavelmente estava desejando que os Herdclay encontrassem de algum jeito a desgraça, fosse nas mãos da Sombra ou de outra pessoa.

Rin estava de acordo. Eles eram um par irritante. O fato que eles comemorassem abertamente por ter ganhado a última moeda a um idoso doente cuja única alegria na vida era o jogo os fazia merecedores de qualquer tipo de mal que pudesse lhe acontecer.

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O sol não ainda havia surgido, mas Sesshoumaru já estava colocado atrás de um carvalho musgoso perto da entrada do bosque. Os Herdclay logo passariam por esse caminho.

Três rapazes de Higurashi que estavam na mesa de jogo na noite anterior tinham constituição física semelhante a da A Sombra. Se um deles fosse, de fato, o ladrão, ele saberia que os lucros dos irmãos Herdclay tinham sido substancial. E ele também saberia que eles viajariam por esse bosque naquela manhã.

Desta vez Sesshoumaru planejava seguir os viajantes secretamente e a certa distância. Em primeiro lugar, Sesshoumaru suspeitava que os irmãos não aceitariam sua escolta, tomando-o como um insulto. Segundo, Sesshoumaru sabia que dois homens eram um alvo muito mais tentador que três. E terceiro, embora fosse resistente em admitir, necessitava de todas as vantagens para o combate com A Sombra, inclusive a vantagem do fator surpresa.

A espera era a parte mais difícil. Sesshoumaru permitiu a si mesmo um bocejou que foi cortado abruptamente por uma coruja que passou diante de sua cabeça, perto o suficiente para despentear seu cabelo.

Repentinamente Sesshoumaru se congelou. Talvez a coruja tivesse se assustado pela aproximação de um foragido vestido de preto. Durante vários longos segundos, Sesshoumaru ouviu seu próprio pulso em seus ouvidos enquanto tentava escutar cada rangido entre as folhas, cada sussurro dos galhos. Mas nenhum ladrão saltou por entre as árvores.

Foi uma hora mais tarde quando o sol e os Herdclay finalmente apareceram. Os irmãos se moviam ruidosamente pelo caminho, ainda se gabando por seu êxito da noite anterior. Seria fácil para segui-los. Eles estavam muito distraídos, escutando o som de suas próprias vozes, e nunca o ouviriam. Na verdade, esses canalhas enganadores eram um alvo muito fácil, tanto que Sesshoumaru quase se sentiu tentado de roubá-los ele mesmo.

Quando eles se aproximaram do lugar onde ele tinha encontrado A Sombra anteriormente, Sesshoumaru silenciosamente extraiu sua espada e estudou as árvores, preparado desta vez para apanhar o ladrão desprevenido. Mas a Sombra não atacou.

Tampouco atacou na curva seguinte do caminho. Nem na clareira do bosque. Nem na espessura densa da folhagem onde um ladrão poderia esconder-se facilmente.

Sesshoumaru tinha decidido que A Sombra devia ter dormido demais e estava perdendo uma oportunidade excelente para obter lucro, quando ouviu um uivo indignado de um dos homens.

Sesshoumaru avançou, mantendo-se fora de vista, até que vislumbrou uma figura negra entre os irmãos mais adiante no caminho.

A Sombra.

Seu coração se acelerou com a emoção da perseguição, mas Sesshoumaru se forçou a ser paciente. Escondeu-se atrás de um pinheiro, observando atentamente por entre os galhos, enquanto o bandido enfrentava os Herdclay.

Sesshoumaru ontem tinha pensado que A Sombra era impressionante, mas ele era ainda mais assombroso no dia de hoje. Os irmãos apresentaram uma resistência admirável para defender seus lucros, atacando com suas espadas em um esforço coordenado em ambos os lados do ladrão. Mas eles não eram páreo para as manobras rápidas da Sombra, seu incomum equilíbrio, seu extraordinário ataque e defesa, nem a forma que ele parecia se amarrar nas árvores e saltar pelo ar.

Sesshoumaru nesse momento entendeu por que as damas de Mochrie tinham ficado tão excitadas com o bandido. E por que as pessoas de Higurashi não tinham nenhuma pressa em capturar o ladrão. Ele era realmente assombroso para a vista de qualquer ser humano comum.

Na verdade, Sesshoumaru estava tão concentrado observando a tentativa em vão dos irmãos para deter o ataque da Sombra, que quase perdeu a possibilidade para prender o vilão.

Em segundos, A Sombra lançou um dos irmãos contra os arbustos e deixou o outro de barriga para baixo no chão, ambos sem sofrer um só arranhão. A Sombra inseriu as bolsas cortadas com moedas entre suas roupas.

Sesshoumaru tinha que agir agora. Tomando uma respiração silenciosa, apertando o aperto em sua espada, Sesshoumaru se preparou a abordar o ladrão.

Quando dobrou os joelhos para saltar, um ruído seco soou no tronco ao seu lado, distraindo seus olhos por um instante. Mas esse instante foi tudo.

No momento em que Sesshoumaru olhava uma delgada faca negra, algo golpeou sua mão com força, fazendo-o afrouxar o aperto em sua espada. Sesshoumaru conseguiu agarrar a arma, mas um segundo impacto lhe deu na parte traseira de suas pernas, e ele caiu de joelhos no chão enquanto uma figura negra passava diante de seus olhos.

Ele não se atreveu a atacar cegamente com sua espada. Pensava em capturar A Sombra, mas não em matá-lo. Em vez disso, ele lançou um soco de esquerda rapidamente com intenção de golpear alguma parte do ladrão que estivesse ao seu alcance. Incrivelmente, o soco morreu no vazio.

O ladrão agilmente se levantou com um salto para agarrar-se a um galho alto, e levantava suas pernas para se esquivar do golpe de Sesshoumaru. Agora A Sombra se balançava para trás, com a clara intenção de chutar Sesshoumaru.

Sesshoumaru percebeu a intenção de seu ataque a tempo. Lançou-se para a direita, deixando cair sua espada, e rapidamente se virou para agarrar o ladrão pelas pernas. Em seguida deu um forte puxão, conseguindo soltar o aperto da Sombra ao galho.

A Sombra caiu, Sesshoumaru ainda segurava firmemente suas pernas. Durante um segundo vitorioso, Sesshoumaru pensou que tinha feito. Só e sem ajuda tinha capturado o bandido mais famoso e esquivo da região.

Mas esse maldito ladrão era tão escorregadio como uma truta. Apesar do firme aperto de Sesshoumaru, a Sombra conseguiu se retorcer, se enroscar e se liberar, seu insulto de despedida foi um chute rápido e direto no queixo de Sesshoumaru.

Embora o impacto fosse repentino, Sesshoumaru balançou a cabeça para trás, se desviando do golpe. Porém, Sesshoumaru teve a impressão, tal como as pessoas do castelo tinham comentado, que A Sombra não queria ferir ninguém seriamente.

Mas isto não significava que ele não fosse uma ameaça.

Sesshoumaru conseguiu agarrar sua espada caída e se dispôs a enfrentar o homem outra vez.

Sem se deixar intimidar por seu quase captura, A Sombra saltou sobre seus pés, ficando de pé no caminho com suas pernas flexionadas e seus braços levantados, preparado para entrar em combate.

Sesshoumaru, dilacerado entre a necessidade de cumprir com sua missão da maneira mais rápida possível e de acordo com as regras do cavalheirismo, optou pelo cavalheirismo. A Sombra estava desarmada. Com toda a justiça, Sesshoumaru não podia usar sua espada contra ele. Ele deixou a arma de um lado e levantou seus punhos.

— Vamos, macaco. — Ele o provocou. — Lute como um homem.

— Pegue-o! — Um dos irmãos Herdclay gritou.

— Sim, faça-o pagar por isso! — O outro interveio.

Sesshoumaru lhes deu uma olhada rápida. Não era o cavalheirismo que os impedia de ajudá-lo, disso estava seguro. Era a falta de coragem.

Olhou novamente A Sombra. Como se ele estivesse se divertindo, o ladrão inclinou a cabeça e chamou Sesshoumaru com um movimento de seu dedo indicador.

Sesshoumaru estava orgulhoso por ser um combatente ágil e rápido. E embora tivesse experiência limitada em combates com A Sombra, já tinha começado a entender o estilo de luta do homem. A Sombra era astuto e rápido, usava truques inteligentes e infligia golpes com a exatidão de uma flecha bem lançada. E usava os pés. Os pés. Era um modo curioso de lutar de fato.

Mas Sesshoumaru tinha a nítida vantagem do tamanho e da força. Se ele pudesse conseguir acertar somente um golpe poderoso, deixaria o ladrão inconsciente pelo tempo suficiente para lhe colocar os grilhões.

Com isso em mente, Sesshoumaru investiu e lançou um soco forte na cabeça do homem.

Mas onde sua cabeça estava em um segundo, não estava no seguinte. E pior, quando seu punho voou passado pela cabeça da Sombra, o homem de algum jeito agarrou o braço de Sesshoumaru e o empurrou para longe, usando seu próprio impulso para desequilibrá-lo.

Quando Sesshoumaru ficou cambaleando em volta, a Sombra permaneceu firme para entrar em ação outra vez.

— Vamos lá, homem! — Um dos Herdclay gritou. — Mostre a ele do que você é feito.

— Devolve este demônio negro ao inferno!

Sesshoumaru apertou seus dentes. Quando tivesse acabado com A Sombra, se ocuparia dos irmãos covardes também.

Sesshoumaru observou seu opositor, tentando descobrir a melhor aproximação possível. Tendo crescido como um bastardo em uma casa nobre havia lhe ensinado muitas habilidades além daquelas aprendidas pela maioria dos cavaleiros. Ele sabia lutar com os punhos, sabia usar certos truques que nenhum cavaleiro honrado empregaria.

Com um grunhido ameaçador, Sesshoumaru se lançou para frente, com a intenção de derrubar o ladrão. Quase esperando que o homem desse um passo para o lado no último instante, Sesshoumaru estendeu seus braços totalmente, como um pescador lançando uma extensa rede.

Para sua surpresa, A Sombra não se afastou. Em vez disso, ele recebeu o impacto inicial do ataque de Sesshoumaru, para em seguida rolar repentinamente para trás sobre a terra, arrastando Sesshoumaru com ele. O homem plantou seus pés no estômago de Sesshoumaru quando caíram juntos, e Sesshoumaru sentiu suas pernas voarem pelo ar e mergulhar sua cabeça em direção a terra. Em um auto de defesa, ele enrolou seu corpo como uma bola. Quando golpeou contra a terra, em vez de quebrar o pescoço, aterrissou em posição fetal e de lado.

Sesshoumaru pensou que então A Sombra escaparia pelo bosque, como tinha feito no dia anterior. Talvez o fora da lei lhe lançasse outra moeda de prata, agradecendo pelo bom combate.

Durante um absurdo instante, Sesshoumaru se perguntou se poderia retirar-se de seu trabalho como mercenário e ganhar a vida treinando com A Sombra alguns dias na semana. Então tirou esse pensamento de sua cabeça e se levantou para avaliar a situação.

A Sombra tinha defendido seu terreno mais que fugir. E devia ter se divertido com esse combate.

Mas para Sesshoumaru, esse era um assunto sério. Seu sustento econômico dependia de sua reputação. Não podia se permitir falhar nessa missão. Muitos Lordes sabiam dessa missão. Se tivesse êxito, poderiam contratá-lo para outros serviços. Mas se falhasse...

Tirou a idéia de sua mente. Não podia se dar ao luxo de falhar.

Parecia que a maior habilidade da Sombra era usar a própria força do inimigo ao seu favor. Então não daria nada de sua força na próxima vez. De fato, ia provocar o foragido para que atacasse primeiro.

Sesshoumaru se concentrou e lançou alguns socos ao ar, atraindo A Sombra para mais perto dele.

Quando o ataque do ladrão finalmente veio, não foi com seus punhos, mas com seu maldito pé. Sesshoumaru lançou sua cabeça para trás a tempo de se esquivar do impacto do pé, mas A Sombra já tinha tirado vantagem, avançando sobre ele, mantendo-o de costas sobre o caminho.

Sesshoumaru bloqueou alguns golpes de seu atacante, golpes que não foram feitos com seus punhos, mas com suas mãos abertas. Curiosamente, elas também eram potentes e poderosas.

Finalmente, o ladrão repetiu seu chute novamente, e dessa vez Sesshoumaru estava preparado para isso. Ele lançou sua cabeça para fora do alcance, e usando ambas as mãos, agarrou o pé da Sombra, prendendo-o no meio do chute.

Ele poderia ter sido capaz de levantar o foragido nesse ponto, ele era tão leve, então manteve o homem preso por seu tornozelo enquanto usava a outra mão para procurar as algemas em seu cinturão.

Mas A Sombra havia pensando em outra estratégia. Quando Sesshoumaru se levantou, a outra perna do ladrão fez um movimento de tesoura e, lançou-o para trás. Em seguida lhe deu um golpe sólido na mandíbula ao mesmo tempo em que se libertava de suas garras.

Sesshoumaru, agindo por instinto cego, investiu para frente para última e desesperado tentativa de agarrar sua presa. A mão que golpeou o ladrão, o desequilibrado de seu salto. Quando a Sombra caiu, seu joelho golpeou a ponta de uma rocha afiada.

Sesshoumaru estremeceu com empatia. Isso lhe causaria uma contusão espantosa se não lhe tivesse lhe quebrado a rótula.

Mas Sesshoumaru não ia perder a vantagem. Mergulhou para frente, tentando agarrar o bandido ferido em um abraço.

Mas as pontas dos dedos de Sesshoumaru roçaram o tecido negro, o ladrão, como se a ferida não lhe doesse, saltou para uma árvore outra vez, para depois se mover de galho em galho até desaparecer no bosque.

— Ah, perfeito! — Um dos irmãos se queixou.

— Deixou-o escapar. — O outro murmurou para Sesshoumaru.

— Não era seu dinheiro, afinal.

De quatro, sobre as mãos e joelhos no caminho, a uma pequena distância de apanhar sua presa, para perdê-la em um abrir e fechar de olho, Sesshoumaru sentia sua paciência se esgotar.

Estreitou olhos severamente para os irmãos, e grunhiu.

— Sugiro que partam antes que golpeie essas cabeças vazias uma contra a outra.

Os fatos lhe deram a razão. Eles eram covardes. Com uma repulsiva pressa, eles se viraram e correram pelo caminho.

Quando eles já haviam partido, Sesshoumaru se balançou sobre seus calcanhares. Mas quando estava a ponto de se levantar, algo chamou sua atenção.

Uma gota fresca de sangue brilhante jazia sobre a rocha onde o ladrão tinha golpeado seu joelho.

Sesshoumaru estendeu a mão para tocá-la com a ponta do dedo, em seguida esfregou essa substância entre seu dedo indicador e o polegar.

A Sombra havia se machucado em sua queda, apesar de sua partida altiva. Isso significava que sua identidade deveria ser fácil de descobrir. Tudo o que Sesshoumaru tinha que fazer era averiguam qual dos homens que haviam estado na mesa de jogo atualmente estava coxeando.

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Continua...

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